segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Bolsonaro já não pode posar de virgem no bordel

Uma característica curiosa da corrupção se observa em todos os governos. O corrupto está sempre nos governos dos outros. Jair Bolsonaro disse que acabou com a Lava Jato porque não há corrupção no seu governo. Talvez tenha pretendido apenas produzir um comentário irônico. Mas foi infeliz. A frase representa o triunfo da fé sobre a prudência. Revela que o orador opera num mundo com duas verdades: a dele e a verdadeira. Todos gostariam de viver no país maravilhoso que o presidente descreve em seus discursos, seja ele onde for.

Bolsonaro é investigado por suspeita de tramar a conversão da Polícia Federal num aparelho a serviço da família e dos amigos. Não consegue explicar os R$ 89 mil que o casal Queiroz depositou na conta de sua mulher. Dois de seus filhos, Eduardo e Carlos, estão encrencados em inquéritos sobre desvio de verbas públicas em casas legislativas. Os Bolsonaro revelam-se cultores de inusitados hábitos. Adeptos da rachadinha, eufemismo para peculato, recorrem à forma mais primitiva e sigilosa de poupança: o colchão. Compram até imóveis em dinheiro vivo.


Os líderes do governo na Câmara e no Senado são alvos da Lava Jato. Há no Ministério do Turismo um réu por desvio de verbas eleitorais. No comando da pasta do Meio Ambiente há um condenado por improbidade administrativa. Foram acomodados dentro de cofres estratégicos do governo, inclusive nas pastas da Educação e da Saúde, apadrinhados do centrão —um aglomerado partidário 100% feito de investigados, condenados e cúmplices.

É contra esse pano de fundo que Bolsonaro conspira contra a Lava Jato, sedando órgãos de controle, acomodando na Procuradoria-Geral um procurador que não procura e enviando para o Supremo uma toga-tubaína. Nada disso comprova a inexistência de corrupção em Brasília. Demonstra apenas que Bolsonaro virou um estelionato eleitoral à procura de blindagem.

A Lava Jato ainda não acabou. Mas Bolsonaro sinaliza ao país que endossa o esforço do procurador-geral Augusto Aras para minar a operação. No momento, o grande desafio do presidente é o de se reinventar politicamente. Com uma dificuldade: até os bolsonaristas mais apaixonados começam a notar que Bolsonaro já não se encaixa no papel de virgem imaculada no bordel.
Josias de Souza

Privilégio não dá retorno

Em um estudo feito no Reino Unido, mas que reflete o que também ocorre em outros países, economistas mediram qual é o retorno para a sociedade de cada libra paga em salário para trabalhadores como lixeiro ou enfermeiro. O resultado é que, para cada libra paga a um professor, cuidador ou lixeiro, a sociedade tem 10 libras como retorno. Por outro lado, se olhar o advogado ou o banqueiro, o resultado é que os salários privados são maiores que os benefícios sociais. Assim, as pessoas que são supostamente super qualificadas, com salários enormes, na verdade produzem menos do que recebem. Enquanto isso, trabalhadores supostamente menos qualificados produzem benefícios sociais muito maiores que seus salários.

Mentir é de praxe

Não creio que seja possível acreditar que currículos prenhes de mentiras possam passar por verdadeiros nesta era da Internet. É facílimo consultar as universidades citadas e ficar sabendo se aquele título, ou aquele curso, ou aquela graduação, foram verdadeiros.

Nada mais fácil.

Este ano está sendo rico em patranhas curriculares Já tivemos um ministro da Educação que entrou e saiu do ministério por conta de um currículo cheio de falsidades. E agora estamos com um indicado ao STF, Kássio Nunes, que apresentou um currículo que mais parece escrito por um dos irmãos Grimm.


Kássio Nunes até agora é o campeão dos currículos cheios de “exageros”: cursos que não existem, universidades que só o viram a passeio, doutorados e pós-doutorados inexistentes... Como isso não é mais segredo para ninguém e ainda não ouvi uma voz a dizer que o presidente deveria recuar dessa indicação, estou convencida que o currículo exagerado não o impedirá de usar a toga do STF.

O mais curioso: Kássio está mais preocupado com o que vão pensar e dizer as autoridades do país do que seus futuros examinadores, os senadores.

Diz ele que o STF não exige formação em Direito para ser juiz do STF. A exigência maior é a da reputação ilibada. Perfeito. A reputação compurscada tem que impedir a nomeação de um indivíduo para membro do Supremo. Isso é fundamental. O diabo é que parece que mentir não compursca a reputação de ninguém...

Além do currículo fantasioso, o senhor Kássio foi indicado ao Bolsonaro por ninguém menos que Flávio Bolsonaro e seu amigo Wassef, o antigo hospedeiro do Queiroz, e ex-advogado da família Bolsonaro.

Estamos atravessando uma fase muito impressionante. Ninguém duvida das mentiras. Isso parece ser de praxe. E ficou decidido que dizer a verdade é duvidar do Brasil. A NASA, com sua tecnologia avançadíssima, alerta o mundo quanto aos incêndios violentos na Amazônia. Mas o Governo brasileiro desmente a NASA...

A terra é plana, diga a NASA o que quiser dizer. O aquecimento global está sendo comprovado diariamente mas o brasileiro não parece acreditar nessa verdade. Mais vale uma mentira que amansa um governo do que uma verdade que deixará o governo em maus lençóis...
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa 

Tubaína, novo sabor de Brasília

Faz muito tempo que não vou a Brasília. Faz muito tempo que não vou a lugar nenhum.

Minha última viagem à capital foi para documentar a mudança da Corte após a vitória de Bolsonaro.

As Cortes marcam a cidade, pelo menos o plano piloto, onde circulam políticos, aspones e lobistas. Na chegada do PT, alguns restaurantes recendiam a fumaça de charuto cubano. Collor gostava de grandes carros modernos. FHC quis reviver saraus lítero-musicais.

Fui muito prematuramente buscar a marca de Bolsonaro. Se voltasse agora, movido pelo slogan da Coca-Cola, “sinta o sabor”, diria que o gosto da nova Corte é o de tubaína.


Honestamente: ninguém toma tubaína na Corte. É apenas um simbolo. Sua gênese está na escolha de um novo ministro do STF. No princípio, Bolsonaro dizia que o escolhido seria terrivelmente evangélico. Depois disse que o nome seria de alguém que tomasse cerveja com ele.

Houve uma inflexão. É difícil, não impossível, encontrar alguém terrivelmente evangélico chegado a uma cervejinha. Ao apontar o nome de Kassio Marques, Bolsonaro substituiu a cerveja por tubaína. O senhor K não é evangélico mas, por via das dúvidas, era preciso abolir o teor alcoólico da amizade. A tubaína se encaixava perfeitamente: popular, adocicada, meio fake.

Entrava em cena nosso Kassio, como é chamado em Brasília. Uma figura familiar, que tem o apoio do Centrão, de opositores e também a bênção de ministros do Supremo, como Gilmar Mendes e Dias Toffoli.

Quando Bolsonaro e K se reuniram na casa de Tofolli para comer uma pizza e assistir ao jogo Palmeiras X Ceará, o programa harmonizava com uma boa tubaína. Não foi o que beberam, mas isso é o de menos. A nova Corte se integrava a Brasília, de uma certa maneira reinava de novo a atmosfera familiar e promíscua da capital.

Era difícil prever que a tubaína se tornasse o símbolo do governo Bolsonaro quando visitei Brasília. Ainda não tinha acontecido um episódio decisivo: a prisão de Fabrício Queiroz. Fala-se tanto em novo normal, mas aquilo empurrou Bolsonaro para o velho normal: acordo com o Centrão, jantares e visitas às casas de ministros do STF.

O currículo do senhor K não bate com a realidade. Mas Bolsonaro jamais pensou em ministros que tivessem pós-graduação em Salamanca, La Coruña, Messina ou o cacete.

Um currículo meio tubaína é tudo do que precisam no momento. Os políticos vão entender as mentiras como um erro de tradução. Tradutor-traidor, devem até desenterrar a velha analogia.

Brasília respira o velho ar ressecado de sempre. Entramos na era da tubaína, "the real thing", o líquido das nossas tramas, de abraços, mútuos elogios.

Há quem não goste. Mas, com uma boa renda social, uma renda cidadã, Santa Cruz, Vera Cruz, Brasil, não importa o nome, vencemos eleições e conquistamos o direito de seguir tomando nossa tubaína como os artistas tomavam seu absinto no Pós-Guerra.

Felizmente, isto aqui não é uma ilha. O mundo nos olha com atenção. A Europa já coloca o acordo comercial com o Mercosul no telhado. As relações com os Estados Unidos podem mudar com o resultado das eleições presidenciais.

O encontro de forças que resistem no Brasil com o empenho internacional por mudanças dentro do país pode representar uma esperança.

Já estamos calejados, vivemos o resultado daquelas promessas de tudo mudar, que acabam afogadas em tubaína. Mas, ainda assim, é preciso realisticamente sonhar com a preservação de nossos recursos naturais e a redução das grandes diferenças sociais.

Não sei se isto é um consolo, mas pelo menos a prisão de Queiroz nos levou de novo ao passado da redemocratização e nos afastou um pouco do temido tempo da ditadura.

Bolsonaro deve voltar à carga em algum momento. Antes precisa resolver a questão de Queiroz, que é, na verdade, a questão de seu filho, da família, dele próprio. Os convivas, políticos e juízes da Suprema Corte não percebem que bebem uma tubaína envenenada. Mas isso não é tão importante para eles, o jogo principal não é do Palmeiras, mas pelo poder. A dança típica da capital é sempre dançada diante do abismo.

domingo, 11 de outubro de 2020

Brasil do futuro desmatado

 


A construção de bunkers

Bastou se aproximar do Centrão, da ala fisiológica do MDB e dos ministros antilavajatistas do Supremo Tribunal Federal que Jair Bolsonaro, logo quem, passou a ser visto por setores da política (os mesmos acima, diga-se) e até da imprensa como alguém imbuído da disposição de construir pontes.

Trata-se de uma leitura entre cínica e ingênua de uma realidade bastante clara aos olhos de quem quiser ver. Bolsonaro continua onde sempre esteve: avesso à ideia de qualquer composição a não ser as de ocasião, que lhe permitam lograr seus intentos na política e proteger a si e aos filhos da perigosa aproximação das garras da lei quando esticaram demais a corda da ruptura institucional e/ou foram com sede ao pote demais nos recursos públicos a que tiveram acesso nas suas longas carreiras políticas dotadas de todos os vícios de um clã tradicional brasileiro.

Eduardo Bolsonaro, o “03”, conhecido por ser dos menos brilhantes da família, deixou claro o jogo nas redes sociais, com direito a erro de português: “Não é arrependimento, é espertise (sic) de mudar de estratégia pois o plano original fracassou”.

Não precisa desenhar. O plano original era fazer as instituições se curvarem diante de uma tropa golpista, “antiestablishment”, como adorava se gabar o “estrategista” Filipe G. Martins. A pandemia foi o gatilho para colocar o plano original em marcha, com direito a uso de terroristas como Sara Winter, que agora se diz decepcionada, e seus 30 gatos-pingados.

O fracasso constatado pelo ex-quase-embaixador veio do próprio STF, que colocou freio aos delírios autoritários de Bolsonaro.



A “espertise”, assim com “s”, talvez, além de desconhecimento da língua, aponte um ato falho: o filhote quis provavelmente fazer menção à esperteza de mudar de time para evitar o tão temido impeachment e frear as investigações que chegavam perto de Flávio (rachadinhas e aumento de patrimônio), do próprio Eduardo (gabinetes do ódio, aumento de patrimônio), Michele (depósitos em dinheiro da família Queiroz e dinheiro de doações desviado para programa assistencial da primeira-dama), Carlos (rachadinha, aumento de patrimônio, fomento a atos golpistas, gabinetes do ódio) e de si próprio (aparelhamento da Polícia Federal, responsabilização pelo agravamento do enfrentamento da pandemia e participação em atos antidemocráticos).

Construção de pontes? Faz-me rir, faz-me engasgar, pedindo licença a Chico Buarque para usar seus versos tão precisos.

Bolsonaro tem por figuras como Renan Calheiros, Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes e Ciro Nogueira o mesmo apreço que por Sérgio Moro, Gustavo Bebianno, general Santos Cruz, Luciano Bivar, Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Paulo Guedes, Bia Kicis, Carla Zambelli ou Jorge Oliveira: nenhum. Assim como já fez com vários desta lista, pode descartar os demais se disso depender sua sobrevivência e a dos seus.

O presidente tem na covardia e na insegurança alguns de seus traços de caráter mais notórios, bem como o pouco apreço à gestão e o instinto destruidor de tudo aquilo que signifique construção de marcos institucionais, conquistas de minorias e legados civilizatórios.

O que Bolsonaro constrói com afinco, além de um robusto patrimônio na forma de imóveis comprados com farto uso de dinheiro vivo oriundo de gabinetes, é um bunker no qual se abrigar e abrigar mulher e filhos.

Disso decorrem a indicação de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República, a troca de Moro por André Mendonça, as mudanças no Coaf, a tentativa de interferir também na Receita e, agora, a escolha de Kassio Nunes para o STF.

A ponte (pinguela, no caso) pode bem ser implodida depois que por ela passar o último Bolsonaro, pouco importando quem for deixado para trás.

Bolsonaro, Ustra e a 'direita burra'

Depois de apanhar nas redes por uma semana, Jair Bolsonaro se irritou com as milícias digitais que costumavam agir a seu favor. Numa transmissão ao vivo, ele disse que os ataques à sua primeira indicação ao STF partiam de "uma direita burra". "Não é infiltrado de esquerda! Não é petista, não!", reclamou.

Em 2018, o candidato extremista que explorou uma agenda ultraconservadora conseguiu se vender como o verdadeiro representante da direita naquela campanha. Hoje, o presidente se sente confortável para questionar a inteligência dos ex-apoiadores que criticam os acordos políticos que ele fechou em busca de proteção para sua família.

Qual seria a tal direita iluminada com que Bolsonaro se identifica? O presidente pode estar pensando na turba que perseguiu uma menina de 10 anos que buscava um aborto legal depois de ser estuprada pelo tio. Ou na ministra de Estado que defendeu que ela levasse a gravidez adiante.

Ainda é possível que a referência destra do chefe de governo sejam os torturadores da ditadura militar. O próprio Bolsonaro, afinal, já usou o cargo para enaltecer o coronel Brilhante Ustra, condenado por sua atuação no regime. Na última semana, o vice Hamilton Mourão disse que aquele era “um homem de honra”.

O presidente também deve atirar na vala da "direita burra" os liberais que veem nele uma desconexão com os princípios econômicos que distinguem governos desse lado do espectro político. O líder ilustrado, por outro lado, já propôs taxar desempregados e reduzir benefícios pagos a idosos miseráveis.

Bolsonaro é um direitista esperto. Embora muitos eleitores desse campo possam estar decepcionados com algumas de suas atitudes, ele sabe que pode contar sempre com o velho apelo ao medo da esquerda para conquistá-los de volta.

"O que o pessoal fez com o Macri?", perguntou, naquela transmissão ao vivo, em referência ao ex-presidente argentino. "Porrada nele o dia todo. E o que aconteceu? Voltou a esquerdalha da Cristina Kirchner!"

Como seria um Brasil governado sem necessidade de mitos?

As grandes empresas do mundo, as mais prósperas, não procuram mitos ou celebridades para serem seus presidentes, e sim pessoas capazes das fazê-las prosperarem. Normalmente esses chefes nem são conhecidos pelas pessoas comuns.

Por que o Brasil não poderia ser governado por políticos capazes de entender o país e fazê-lo prosperar sem necessidade de ir em busca de ídolos ou messias?

E, entretanto, o Brasil não terá o lugar que lhe cabe no mundo enquanto não for capaz de ser governado por líderes conscientes de que a maior parte do país está excluída do banquete do qual se apropriam de 10% de suas riquezas. A imagem da pirâmide do Brasil formada por suas diferentes classes sociais hoje é lamentável.

Só no dia em que a base da sua pirâmide formada por todos os excluídos for reformulada para reduzir o escândalo atual, o Brasil poderá ser capaz de ocupar o lugar que lhe cabe no mundo e de influenciá-lo. E isso por suas dimensões geográficas, sendo o quinto maior país do mundo, por sua potência agrícola e ambiental e por sua dimensão de população, maior que vários países europeus juntos.

O Brasil precisa de líderes que entendam este potencial do Brasil em vez de se enredarem na mesquinha política de compra de votos e acumulação de privilégios, enquanto desmoralizam as instituições do Estado com suas relações pouco ortodoxas que chegam às vezes ao grotesco e recordam o realismo mágico de García Márquez.

O trem descarrilado política e socialmente que é o Brasil só poderá voltar a se movimentar quando tiver líderes capazes de observar o mundo e fazer reformas fundamentais.

Como pode funcionar um país com mais de 30 partidos no Congresso que mais parecem clubes esportivos do que faróis com luz própria?

Por que o Brasil não pode ser governado por quatro ou cinco partidos com ideias próprias, como nas outras democracias importantes do mundo?

Os eleitores brasileiros necessitam de um Congresso que realmente represente a todos e que dedique seus esforços a dialogar com as pessoas. Em países de democracias mais maduras, como a Suíça, grande parte das decisões é tomada por plebiscito.

O mundo vive um momento de mudanças globais que exigem cada vez mais líderes capazes de governar olhando para o mundo globalmente em vez de se paralisarem olhando o próprio umbigo.


Fala-se no Brasil hoje em reformar suas desgastadas instituições, mas todos os poderes ficam mudos quando se fala de reformar a fundo as instituições de Governo.

Continuar acreditando no novo mundo em que estamos entrando — no qual, sem acesso à cultura, a grande massa de pobres fica mais fácil de ser manipulada —ofende a inteligência.

Por que não criar a oportunidade, como já acontece em alguns países sérios, de poder destituir governantes que após vencerem as eleições ignoram solenemente as promessas feitas em campanha?

É possível que um político ao chegar ao poder não seja capaz de fazer tudo o que prometeu, mas trair os eleitores a ponto de fazer uma política oposta à oferecida, como está fazendo o presidente Bolsonaro, é iníquo.

Pois onde estão as bandeiras com as quais o líder de extrema direita se elegeu, como acabar com a velha política e apoiar as forças que combatem a corrupção? Talvez por isso o presidente apareça hoje no exterior como um dos políticos mais rançosos, que depois de dois anos no poder nem sequer saiu para dialogar com as grandes democracias do mundo.

Onde está sua fúria iconoclasta contra a corrupção quando acaba de afirmar que pretende acabar com a Lava Jato?

Como, depois de ter ameaçado destruir as instituições e flertar com um golpe de Estado, hoje aparece abraçado de forma descarada aos velhos políticos e aos magistrados?

A política do Brasil aparece hoje perante o mundo como a de uma republiqueta incapaz de estar à altura do que lhe corresponde.

Às vezes os detalhes na política são os mais significativos. Por que os políticos brasileiros, seus líderes, precisam, para dialogar entre si, fazê-lo sempre em cafés da manhã, almoços e jantares, às vezes até com música, em vez de nas suas horas de trabalho e sempre com caráter institucional? Será que esses líderes não têm seus gabinetes para se encontrarem?

Essa familiaridade dos líderes políticos em torno de um banquete dá a impressão de líderes que criam laços mais fraternais do que os exigidos por um diálogo aberto e respeitoso entre as instituições.

Não parece coisa de uma república séria que o presidente, tendo em curso uma investigação no Supremo, apareça em jantares na casa de um dos magistrados enquanto se abraçam amigavelmente, quando esse mesmo magistrado deverá decidir sobre os supostos processos dele e de sua família.

Não era ele quem há poucos meses ameaçava sequestrar o Supremo com o Exército e dar um golpe de Estado? Há quem prefira explicar tudo isso pela repentina conversão de Bolsonaro à democracia, mas, e se isso retratar mais um lobo com pele de cordeiro, que o que pretende é poder se reeleger dentro de dois anos à custa de aparecer como um Paulo convertido no caminho de Damasco?

Um Bolsonaro convertido repentinamente de todo um passado autoritário, nostálgico das ditaduras, pode ser mais perigoso amanhã do que já é hoje.

Não, não é com governantes mitos de direita ou de esquerda que o Brasil poderá contar mundialmente com a força que lhe cabe. Os mitos acabam desgastados, os problemas reais das pessoas ficam estacionados, os pobres continuam crescendo, e a dor, multiplicando-se.

Ecocídio

Aqui,
junto e nas vizinhanças
da Linha do Equador,
há uma conta que não fecha:
o ecocídio como forma de governo.
A liberdade da natureza foi programada para morrer queimada.
H. Ricken

Pensamento do Dia

 


Declaração de Mourão sobre Ustra presta um serviço ao esclarecer como o Exército pensa

Os generais Hamilton Mourão e Eduardo Pazuello, vice de Bolsonaro e ministro da Saúde, prestaram serviço muito apropriado à sociedade em geral, e à imprensa em particular, com suas mais recentes revelações.

Ao mesmo tempo pessoais e funcionais, as palavras de ambos despencam, talvez inadvertidas, sobre a assimilação de Bolsonaro e do bolsonarismo pelos meios de comunicação, outros setores antes eriçados como os atores e escritores, e muitas eminências, a ponto de no recuo a ombudsman da Folha, Flavia Lima, apontar também “amarelamento”.

A intervenção do vice consistiu em repentino elogio ao coronel Brilhante Ustra, que passou das masmorras da ditadura para a memória nacional como símbolo da criminalidade militar em torturas e assassinatos. Mourão sempre provocou interrupções na escalada da sua imagem de mais lúcido dos centuriões de Bolsonaro. O general dialogável, o general alternativo. Agora foi mais decisivo.

O elogio a Ustra foi como Mourão dizendo-nos: Não se iludam. Nunca ouviram falar em pensamento único? É o nosso no Exército. Como vocês diziam “somos todos Marielle”, nós podemos dizer “somos todos Ustra”. E é assim que estamos aqui, para nossos objetivos, não para os de vocês.

O general Pazuello fez, na verdade, um complemento ao que comunicou quando interino na Saúde: “Eu não entendo nada disso aqui”. Agora reconhece que, “até esse [aquele] momento da vida, desconhecia o que era SUS”. A frase mostra tanto do próprio Pazuello quanto de quem o nomeou e dos generais que sugeriram ou apoiaram a nomeação. Iguais todos, iguais no pensamento e sobretudo na falta de, como Mourão levou a entender.

Mas por que e como é possível chegar ao generalato sem saber sequer o que é um serviço nacional, tão falado, com duas décadas e reconhecimento internacional de sistema exemplar? O que se pode esperar dessa formação é só o alto custo e as deformações impostas à vida nacional.

Hamilton Mourão e Eduardo Pazuello falaram para não serem esquecidos.

Dias Toffoli e Gilmar Mendes, convém ressalvar, não estão no segmento dos que não devem esquecer. O seu é o dos que não devem ser esquecidos no Judiciário. São aqueles incapazes de resistir à atração do poder.

Sucedem-se seus almoços e jantares nas residências oficiais, os abraços, as confabulações nessas oportunidades com Bolsonaro e outros políticos e militares-políticos. Mas não suscitam dúvidas sobre o decoro pessoal e a circunspecção funcional dos dois: em vez disso, lançam certezas sobre a suspeição que, em julgamentos honestos, deve dispensá-los de votar em causas do interesse de Bolsonaro.

Dias Toffoli e Gilmar Mendes tornaram-se tão políticos, por ação atual , quanto ministros do Supremo, por velhas circunstâncias.

Cavalo de pau

O presidente Jair Bolsonaro diz que é fake news. O ministro da Economia, Paulo Guedes, jura que é “conversa fiada”. Mas o fato é que não se fala de outra coisa em Brasília: o Centrão quer que Bolsonaro recrie alguns Ministérios, inclusive na área econômica, para acomodar aliados e reforçar a base governista.

O movimento não surpreende ninguém. O Centrão é formado por partidos cuja vocação é o governismo, qualquer que seja a orientação ideológica e programática do governo de turno. O único interesse dessas agremiações é ter acesso a verbas e nomeações que lhes assegurem poder, recursos e força eleitoral. Em troca, votam com o Palácio do Planalto – o velho “toma lá dá cá”.

Não é preciso um grande esforço de memória para lembrar que Bolsonaro fez toda a sua campanha eleitoral prometendo reduzir o número de Ministérios para no máximo 15 e escolher ministros segundo critérios técnicos, sem favorecer este ou aquele partido aliado. De fato, Bolsonaro vinha cumprindo parcialmente essa promessa: se o número de Ministérios está em 23, bem longe dos 15 anunciados, o preenchimento das vagas não seguiu o figurino fisiológico a que o País se acostumou.

Mas nada como um dia após o outro – com as muitas vicissitudes do poder entre eles. Depois de sentir na pele a ameaça, real ou não, de se ver prematuramente destituído da Presidência e de ter a Justiça nos seus calcanhares e no de seus filhos, deu um cavalo de pau no seu governo e no seu comportamento.


Trocou as bravatas diárias contra os demais Poderes e contra a democracia pelo silêncio. Ao mesmo tempo, livrou-se aos poucos dos áulicos amadores e acercou-se de operadores profissionais. O primeiro indício disso já havia se revelado em junho, quando Bolsonaro recriou o Ministério das Comunicações para entregá-lo a um indicado pelo Centrão. Foi o começo do fim do tonitruante Bolsonaro que venceu a eleição – e que prometia enterrar a velha política – e sua reconversão, discreta, mas irresistível, ao varejo oportunista que ele, afinal, conhece há décadas.

O “novo” Bolsonaro de “novo”, portanto, não tem nada. Na ânsia do presidente de se manter no poder e de se proteger da Justiça, não há vaca sagrada que não possa ser sacrificada – o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro que o diga.

Assim, não será surpresa se, de acordo com a necessidade, o Ministério “enxuto” e “técnico” de Bolsonaro alcance em algum momento no futuro as inacreditáveis 39 pastas de Dilma Rousseff – que as criava na exata proporção de seu galopante enfraquecimento político. No desespero de se manter no poder, Dilma e os operadores petistas lotearam praticamente todo o governo – o ex-presidente Lula da Silva chegou a transformar um quarto de hotel em Brasília em um escritório para negociar cargos com políticos e partidos a poucos dias da votação do impeachment. Como se sabe, debalde.

O fato é que o faro do Centrão para presidentes encrencados continua apurado. E a aposta, desta vez, é alta: consta que o alvo desses partidos agora é a seara do ministro Paulo Guedes. Querem a recriação dos Ministérios da Indústria e Comércio e do Trabalho e Previdência, que haviam sido absorvidos pelo “superministério” da Economia.

O avanço do Centrão sobre a Economia, se consumado, concluirá o passamento do “superministro” Paulo Guedes, reduzido cada vez mais à categoria de mero consultor do presidente para assuntos econômicos. Tudo isso no momento em que o presidente está sendo pressionado pelas terríveis circunstâncias – a pandemia de covid-19 e a perda de renda de milhões de brasileiros – a tomar decisões que, se mal concebidas, podem ameaçar o já bastante frágil estado das contas nacionais.

Na prática, a política econômica corre o sério risco de se converter em instrumento do populismo do Centrão e de seu novo melhor amigo, o presidente Bolsonaro, cujas juras de responsabilidade fiscal são, na melhor hipótese, duvidosas. Esse desfecho pode ser ótimo para as pretensões eleitorais imediatas de todos eles, mas sem dúvida será péssimo para o País.

'Gado' governamental


O boi? Ele ajuda, é o bombeiro do Pantanal. Ele come aquela mata seca e impede queimadas
Tereza Cristina, ministra da Agricultura

Delírios amazônicos

A placa descerrada na cerimônia anunciava o início de uma “arrancada histórica”. De terno e gravata na selva, o presidente Emilio Garrastazu Medici se empolgou ao testemunhar a derrubada de uma árvore de 50 metros de altura. A queda da castanheira foi “aplaudida entusiasticamente” pelo general, relatou o enviado 

Medici havia pousado em Altamira para inaugurar a construção da Transamazônica, que se estenderia por mais de cinco mil quilômetros, cortando sete estados. A visita completou 50 anos na sexta-feira, mas a rodovia nunca ficou pronta. Alguns trechos foram engolidos pela floresta, outros jamais saíram do papel.

A obra faraônica fazia parte do Programa de Integração Nacional, lançado em 1970. A ditadura embalou o plano com o lema “Integrar para não entregar”. Nas palavras de Medici, era preciso “colonizar” a região para combater o “interesse estrangeiro”. O general prometia tirar o “relógio amazônico” do passado. Sua visão de futuro se resumia a fumaça, asfalto e motosserra.

A pretexto de povoar a Amazônia, os militares promoveram a exploração predatória da floresta. A ditadura estimulou a derrubada da mata para a criação de gado e o cultivo de soja. Garimpeiros e madeireiros também receberam subsídio para desmatar. Tudo em nome da “soberania nacional”.




Meio século depois, as teorias conspiratórias voltaram a ser úteis ao governo. Jair Bolsonaro e seus aliados apelam ao velho nacionalismo para rebater as críticas pelas queimadas. “Usam argumentos falsos, números fabricados e acusações infundadas para prejudicar o Brasil”, vitimizou-se o general Augusto Heleno, em audiência recente no Supremo.

No último dia 30, Bolsonaro aproveitou uma reunião das Nações Unidas para retomar os ataques ao movimento ambientalista. Em mais um discurso delirante, ele acusou ONGs de incentivarem a devastação para desestabilizar seu governo. “Rechaço, de forma veemente, a cobiça internacional sobre a nossa Amazônia”, afirmou.

A hostilidade aos povos indígenas também une a ditadura ao bolsonarismo. Na campanha, o capitão avisou que não demarcaria “um centímetro quadrado a mais”. Entre a eleição e a posse, ele ameaçou rever a Raposa Serra do Sol, a pretexto de permitir a exploração de riquezas minerais.

Os delírios amazônicos se parecem, mas há diferenças. No diálogo com Al Gore reproduzido pelo documentário “O Fórum”, o capitão é explícito: “Temos muita riqueza na Amazônia, e eu adoraria explorar essa riqueza com os Estados Unidos”. Os generais ainda se preocupavam com as aparências.

sábado, 10 de outubro de 2020

Imagem do Brasil

 


Em uma área devastada pelas queimadas no Pantanal, ativistas do Greenpeace Brasil ergueram uma estátua de quatro metros de “Bolsonero” e escreveram a mensagem “Pátria queimada, Brasil”. “Com essas ações queremos não apenas chamar a atenção para a destruição sem precedentes do patrimônio ambiental dos brasileiros, como também apontar as causas e seus responsáveis. O Brasil está, literalmente, em chamas, graças à política incendiária do atual governo que, em vez de apresentar ações coordenadas e efetivas de proteção ao meio ambiente e à vida das pessoas, segue tocando a melodia desvairada do seu projeto de destruição, queimando a biodiversidade brasileira e fragilizando a já combalida economia do país”, diz Tica Minami, diretora de programas do Greenpeace Brasil.

Quem foi o herói de Bolsonaro e o homem honrado de Mourão

Um torturador, por sinal o único militar condenado pelo crime, não pode ser considerado “um herói” por ninguém, muito menos pelo presidente da República, tampouco “um homem de honra”. Foi Bolsonaro, repetidas vezes, que tratou o coronel do Exército Brilhante Ustra como herói. Ustra foi chamado de homem honrado pelo general Hamilton Mourão, vice-presidente.

Foi preciso que um jornalista inglês, a serviço da televisão alemã, entrevistasse Mourão para tirar a máscara que o general vestiu desde que se elegeu. Antes, Mourão era um general da linha dura, punido mais de uma vez por suas declarações antidemocráticas. Durante a campanha de 2018, falou em autogolpe, algo que poderia ocorrer depois da eleição de Bolsonaro, e dele mesmo.


A tortura de adversários da ditadura militar de 64 foi adotada como política de Estado, segundo admitiu Ernesto Geisel, o terceiro general-presidente de um ciclo de 21 anos do regime da farda, do choque elétrico, do pau-de-arara, da unha arrancada a alicate, do rato introduzido em vaginas e da cobra posta em cela para assombrar os seus ocupantes e não deixá-los dormir.

Há prova abundante de tudo isso, inclusive um HD com 43 documentos produzidos pela inteligência americana entre os anos 1967 e 1977 e entregue por Joe Biden, à época vice de Barack Obama, a presidente Dilma Rousseff. Biden, hoje, com 77 anos de idade, está a um passo de derrotar Donald Trump e de ser eleito presidente dos Estados Unidos no próximo dia 3 de novembro.

Geisel provou na pele quanto pode ser incômodo um presidente americano a pressionar para que se respeite os direitos humanos. O presidente Jimmy Carter foi uma pedra no sapato do governo do general. A mulher de Carter, Rosely, veio ao Brasil tomar satisfações em nome do marido. Eu era repórter no Recife quando ela reuniu-se com missionários americanos vítimas de tortura.

A situação mudou. O Brasil não tem mais presos políticos, só presos comuns torturados ante à indiferença da maior parte dos brasileiros. Biden, se eleito, vai incomodar Bolsonaro e Mourão por outro motivo: o desprezo ao meio ambiente. Biden já prometeu sanções econômicas contra o Brasil caso a Amazônia continue a ser destruída. É também o que prometem países europeus.

Boi-bombeiro, como sugeriu a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, não é solução para baixar o fogo no Pantanal, nem na Amazônia. Se fosse, a expansão da pecuária nas duas regiões teria diminuído os focos de incêndios. O Brasil não está ok, como garantiu Mourão ao entrevistador da televisão alemã. Entrevista que foi um primor para quem quiser saber como se faz uma.

O que Mourão disse sobre Ustra foi de envergonhar e de dar nojo aos que ainda são capazes de sentir as duas coisas. “Ele foi meu comandante no final dos anos 70, e foi um homem de honra que respeitava os direitos humanos dos seus subordinados”, testemunhou o general. Jamais esteve em questão se Ustra comportou-se bem ou mal com seus subordinados.

É de supor que militar não tortura nem executa militar, a não ser em guerras. No caso de Ustra, a questão sempre foi o uso da tortura que ele fez pessoalmente contra presos políticos. E que avalizou. Ustra foi um torturador brutal, que se valeu de todos os meios para arrancar confissões ou simplesmente humilhar os prisioneiros aos seus cuidados. Não havia limites para ele.

Certa vez, nos porões do quartel-general do Exército, em São Paulo, ele suspendeu o suplício dos presos na antevéspera do Natal. Autorizou-os a tomar banho, cortar o cabelo, e deu-lhes roupas limpas. O dia 24 de dezembro foi de descanso para os presos e seus algozes. Perto da meia-noite, eles foram levados para um salão onde seria servida uma ceia de Natal.

Puderam comer peru, arroz, farofa com passas e beber refrigerantes. De repente, Ustra irrompeu no salão e foi de mesa em mesa desejar feliz Natal. No dia seguinte, a tortura recomeçou. Essa história me foi contada por uma mulher que participou da ceia. Ustra, o herói de Bolsonaro e o homem honrado de Mourão.

A falta de prevenção e a tragédia do Pantanal

O planeta arde e as matas queimam. Os incêndios florestais se tornaram mais destrutivos com a mudança climática – ambientes mais quentes e mais secos são propícios à propagação do fogo. Colocar a tragédia que assola o Pantanal apenas na conta do aquecimento global, no entanto, seria desonesto. Como explicou o cientista Carlos Nobre no programa Conversa com Bial de segunda-feira, a culpa é nossa: “Trata-se, em grande parte, da prática tradicionalíssima de provocar incêndios para limpar pastos e áreas agrícolas”. Há também, claro, as queimadas criminosas ligadas ao esquema de grilagem de terras.

Fiquemos, no entanto, no âmbito das “práticas tradicionalíssimas”. Existe solução. Com a mudança climática, os protocolos de manejo da terra foram redesenhados. “Práticas comuns no passado não podem mais ser empregadas hoje. Por causa da mudança climática, prevenir incêndios florestais é, atualmente, muito mais importante do que combatê-los”, diz Tiago Oliveira, presidente da Agif, o organismo do governo português responsável por combater incêndios florestais. Ele é o personagem do minipodcast da semana.


O mantra dos novos protocolos, da Austrália à África do Sul, do Canadá às florestas europeias, é precisamente este: prevenção. Portugal, que sofreu com incêndios altamente destrutivos em 2017, responsáveis por dezenas de vítimas, é um caso de estudo. Há três anos, o país investia 143 milhões de euros no combate a incêndios florestais, 20% em prevenção. Hoje são 246 milhões – e metade disso vai para ações anteriores ao período da seca. Entre elas, trabalhos de conscientização de fazendeiros sobre as práticas mais modernas. Com a ênfase na prevenção, os focos de incêndio foram reduzidos à metade.

Segundo especialistas, foi justamente isso que faltou no caso do Pantanal. “O correto seria iniciar a prevenção em abril, com medidas de educação ambiental e queimadas controladas, para evitar o excesso de biomassa”, diz Luciano Evaristo, que entre 2009 e 2018 dirigiu a área de proteção ambiental do Ibama. Ao longo do período, que atravessou os mandatos de Lula, Dilma e Temer, ele coordenou pessoalmente várias ações do Prevfogo, programa do Ibama que conta com reconhecimento internacional. Evaristo avalia: “Neste ano, o governo começou a contratar brigadistas apenas em junho, quando era tarde demais. Não houve um trabalho de prevenção adequado”.

A tragédia do Pantanal é imensa. Ao longo dos nove primeiros meses de 2020, os focos de incêndios se multiplicaram por três em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Em Portugal, o governo estabelece parceria com fazendeiros na contratação de tropas anti-incêndio. No Brasil há organizações ambientais que combatem queimadas de forma heroica, assim como produtores rurais que formam suas próprias brigadas – a coluna voltará a esse assunto. De acordo com Evaristo, tal heroísmo é inócuo se não houver, como em Portugal, algum tipo de coordenação estatal. “Combater incêndios florestais é uma ciência, que tem como base a prevenção. Sem conhecimento e estratégia o esforço se perde.”

O planeta arde, as florestas queimam e, nos dois casos, poderíamos fazer mais e melhor. A tragédia do Pantanal aponta para o desleixo – ou a negligência – dos governantes que os brasileiros escolheram.

Sem mais vergonha na cara

Bolsonaro é um cara que fez uma coisa para o Brasil: dar cidadania à extrema direita brasileira, que tinha vergonha de ser extrema direita. Bolsonaro recuperou essa gente do ralo da política e deu cidadania. E essa gente se autoproclamou cidadão de primeira classe.
Lula

O fim de um sonho

Noites dessas conversei, sobre nosso futuro, com o amigo Fernando Pessoa. Desencantado, comecei dizendo já ter perdido as esperanças num país limpo. Pouco mais limpo, ao menos. Ele pareceu compreender ("Lisbon Revisited, 1926"), “No fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei/ Fogem desmantelados, últimos restos/ Da ilusão final”. Pediu que explicasse. Relatei então que, na última eleição, parte dos brasileiros teve a ilusão de que pudéssemos construir uma nova ordem ética. Para que corruptos e corruptores ao menos hesitassem, antes de tentar enriquecer. Pediu que não desistisse ("Desassossego"), “Matar o sonho é mutilar nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso”.



Ocorre que nada sobreviveu. O projeto Anti-Crime foi abandonado. Ninguém cuidou dele. Nem mesmo, no Congresso, figuras endeusadas pela Grande Mídia. E o país vive, impotente, a vitória daqueles que se apropriaram do patrimônio público – Partidos, parlamentares, bolsos amigos. O Centrão fez parte disso. E, agora, é quem dá cartas. A pá de cal foi a indicação do novo Ministro do Supremo. Coerente com o desmonte da Lavajato que vem sendo feito, a mando, pelo Procurador Geral da República. Trata-se de alguém que deu sucessivas declarações contra essa operação. E que sequer assume compromissos com a prisão em Segunda Instância. Para piorar, vem apoiado por notórios ministros, no Supremo, que se dizem "garantistas" (só mesmo rindo). Pela OAB de Brasilia (pode?), advogados de réus importantes (e ricos), políticos processados (muitos), por aí. O triunfo da impunidade. Não tem como dar certo.

O Presidente, a esse descalabro, responde com uma frase medíocre: “Ou confia em mim ou não confia”. Perdão, Presidente, não dá. A contradição com o discurso anterior, da sua eleição, é cruel. Qual a razão da mudança?, eis a questão. Difícil precisar com certeza. Mas é inevitável considerar que a proteção dos filhotes está no centro dessa decisão lamentável. Pessoa insistiu (poema sem título), ainda, “Por que/ Esperar?/ Tudo é/ Sonhar”. Mas lhe disse que abandonamos, já, todas as ilusões, o último alento, a derradeira esperança. O amigo encerrou a conversa na sua natural ambiguidade. Primeiro, ao dizer ("O Marinheiro") que “Nenhum sonho acaba”. Depois ("Sonho"), resignado, “Se tudo é sonho/ O sonho é nada”. Seja, pois. E este sonho, de um outro Brasil, não existe mais.

Pensamento do Dia

 


Rio é paraíso no marketing e inferno para ambientalistas

Sobrevoei o Rio de Janeiro de helicóptero com o biólogo Mario Moscatelli. O voo nos levou do Recreio ao Lixão de Gramacho. Moscatelli faz este voo todo mês, para documentar a situação ambiental do Rio de Janeiro. O que ele vê o assusta cada vez mais. : a cidade cresce descontroladamente natureza adentro, a poluição das águas aumenta, e os depósitos de lixo vão se espalhando. "Ser biólogo no Rio é um inferno", diz Moscatelli. "Esta cidade poderia ser um paraíso. Mas ela um paraíso só no marketing. Na realidade, está sendo arrasada."

É brutal ver como as margens da Lagoa da Tijuca vão sendo tomadas por construções, na maioria ilegais, como em Muzema. Os afluentes das lagoas transformaram-se em esgotos pretos e cinzentos, por onde escorrem os excrementos de dezenas de milhares de pessoas. Principalmente a Lagoa de Jacarepaguá e a Lagoa da Tijuca são hoje praticamente latrinas.

Devido ao constante influxo de excrementos, elas perderam de um a dois metros de profundidade e em alguns trechos já se formam ilhas de resíduos. Por todo lado é possível ver lixo plástico boiando na superfície, além de sofás, geladeiras, televisores e pneus de carro na água.

Antes, num passeio de barco com Moscatelli pelas lagoas, eu já tinha visto como, por todos os lugares, bolhas de gás fedorento se elevam dos processos de decomposição do esgoto. Especialmente nas margens, a água tem, além disso, uma intensa cor verde. Ela vem da bactéria tóxica Microcystis aeruginosa, que se reproduz rapidamente no calor e ataca o fígado e o sistema nervoso de animais e humanos. O oxigênio e quase inexistente nas lagoas.

Por indicação de Moscatelli, foram instaladas as chamadas ecobarreiras em alguns locais para evitar que o lixo caia no mar. Numa delas, foram coletadas 120 toneladas de resíduos em 60 dias.


Não surpreende que, das cerca de cem espécies de animais que antes povoavam as lagoas, 80 desapareceram. "Só os animais muito resistentes ainda podem existir aqui. Eles são sobreviventes", diz Moscatelli. Entre eles estão os jacarés, animais extremamente resistentes. A grande sorte deles é que não têm olfato ou paladar, porque literalmente vivem na merda.

"As lagoas poderiam ser paraísos naturais, cheios de peixes e uma grande variedade de espécies de pássaros", diz Moscatelli. "Eles poderiam servir de sustento para os pescadores e atrair dezenas de milhares de turistas todos os anos. Mas não é assim que as elites brasileiras pensam. O que importa é fazer lucro rápido com o crescimento desordenado. Existe uma mentalidade colonial: tire o máximo proveito disso – e não se preocupe com mais nada."

Moscatelli faz questão de enfatizar que os problemas ambientais do Rio não têm nada a ver com falta de dinheiro, mas simplesmente com falta de vontade. Na verdade, só a reforma do Maracanã custou entre 1 bilhão e 2 bilhões de reais. Se só uma parcela desse dinheiro fosse investida na construção de estações de tratamento de esgoto e gestão sensata de resíduos, o valor agregado para o Rio seria imenso. Mas o carioca se acostuma com tudo e fica sentado nos restaurantes na beira das lagoas, enquanto a merda borbulha debaixo dele.

Ao sobrevoar a Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul, Moscatelli aponta para os manguezais às margens. Ele mesmo os plantou há alguns anos, quando as margens da lagoa eram sem vida.

O biólogo também iniciou projetos de recuperação de manguezais na Baía de Guanabara e em Angra dos Reis. "Eu faço mais pelo nosso meio ambiente do que qualquer político", diz o homem de 56 anos. Na verdade, os manguezais, cuja proteção agora foi suspensa pelo Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, armazenam enormes quantidades de gases do efeito estufa e fornecem abrigo para muitas espécies animais.

O constante engajamento de Moscatelli já dura mais de 30 anos. Em uma cidade mais moderna e menos corrupta, ele teria um cargo importante no governo. No Rio, porém, ele recebe intimidações sistemáticas por parte dos setores incomodados com a sua atuação. Ele foi até processado por um shopping center na Barra da Tijuca por suas críticas às violações ambientais do centro comercial. Moscatelli já recebeu até mesmo ameaças de morte por chamar a atenção, tendo que se exilar na Alemanha por algum tempo.

No voo ao longo das margens da Baía de Guanabara, vemos como o esgoto escuro sem tratamento flui para a água em vários lugares – e eu me pergunto o que a Cedae faz com as altas taxas de esgoto. Moscatelli diz que todos os rios ao redor da baía estão praticamente mortos. Pode-se observar aqui o colapso total das políticas públicas.

Em seguida, sobrevoamos a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Alegria, no Caju, que foi inaugurada em 2009 após 15 (!) anos de construção. Deveria tratar vários milhares de litros de esgoto por segundo. Mas hoje, apenas 11 anos depois, metade da ETE não funciona, e de cima observamos canalizações enferrujadas e algumas piscinas cheias de plantas. "A verba prevista para financiar essas estações ao redor da baía é extremamente mal gerenciada. Quase sempre os projetos são abandonados, e o entorno da baía virou um cemitério de obras de saneamento inacabadas", diz Moscatelli.

Olhando para baixo, me lembro das grandes promessas que foram feitas antes dos Jogos Olímpicos: que a Baía de Guanabara e as lagoas sestariam limpas no dia da abertura do evento. Na época, eu ainda acreditava nessas promessas. Mas eu ainda era novo no Rio.

Em seguida, sobrevoamos uma pequena colina. É o lixão de Gramacho, que já foi o maior lixão da América do Sul e foi fechado em 2012. Mas bem próximo a ele, um depósito de lixo irregular consome a paisagem como um tumor cancerígeno. Dele sobe uma fumaça que chega a incomodar nossos narizes mesmo do helicóptero. O depósito de lixo é administrado por uma máfia que cobra taxas das empresas que lá despejam seu lixo, muitas vezes tóxico.
Meio ambiente dá o troco

"Todo o mal que fazemos para o meio ambiente, recebemos de volta de uma forma ou de outra", diz Moscatelli. "Na forma de veneno, inundações, secas extremas, incêndios, doenças, fedor e até acidentes."

Lixões ao redor dos aeroportos são estritamente proibidos, porque atraem pássaros grandes como os abutres, que podem provocar quedas de aviões ao se prenderem às turbinas. O Aeroporto do Galeão fica a cerca de cinco quilômetros do depósito ilegal de lixo no Gramacho. Mas no Rio sempre é preciso acontecer alguma coisa ruim para que alguém reaja. Ou pelo menos diga alguma coisa. E depois, por anos nada acontece.

No final, Moscatelli faz questão de destacar algo: "Não sou um São Francisco, mas tenho uma coisa que por aqui anda faltando: vergonha na cara. Como profissional do ambiente não posso ficar assistindo a tudo se degradando sem fazer nada."
Philipp Lichterbeck

Todas as florestas

Faz 20 anos, O GLOBO publicou o artigo “Um mundo para todos”. Nele, transcrevi a resposta à pergunta de um estudante durante palestra na cidade de Nova York, em setembro de 2000. O jovem perguntou: “O que pensa de internacionalizar a Amazônia?”. Antes que eu começasse a dizer “sou contra”, ele completou: “Quero opinião de humanista, não de brasileiro”.

Respondi que defenderia a internacionalização da Amazônia se antes fossem internacionalizados os museus, as armas, o petróleo, os patrimônios históricos, rios e florestas do mundo inteiro. Depois de uma longa lista do que julgava que deveria ser internacionalizado, concluí: “Quando a humanidade internacionalizar tudo isso, aceito debater a ideia de internacionalizar a Amazônia. Até lá, a Amazônia é nossa. Só nossa!”.

Graças ao artigo, a resposta foi traduzida em diversos idiomas e entrou na coletânea de “Cem discursos históricos brasileiros”, elaborada por Carlos Figueiredo. Anos depois, o fotógrafo Sebastião Salgado me disse que não gostava da última frase.

Ele estava certo. O discurso deveria concluir com uma frase adicional: “Mas, se não soubermos proteger a Amazônia, não merecemos, nem conseguiremos tê-la para sempre”.



A resposta ainda não tinha dimensão humanista, porque tratava a Amazônia como propriedade brasileira, sem perceber que ela é também patrimônio da humanidade, parte do Condomínio Terra. Tal qual os móveis de um apartamento, cujo dono não tem o direito de incendiá-los dentro de casa. O que está acontecendo com nossas florestas é a demonstração de insensatez nacional e irresponsabilidade com a Humanidade. Um patriotismo anti-humanista e suicida.

Ao negar a realidade visível da destruição de nossas florestas, o governo federal comete uma loucura irresponsável com o país e insensível com a Humanidade, levando a população mundial a tratar o Brasil como país perigoso para o futuro da vida no planeta, um país que pratica ecoterrorismo.

No lugar da mentirosa defensiva do presidente e de seu ministro do Meio Ambiente, deveríamos reconhecer nossos descuidos históricos, apresentar correções no cuidado de nossa biodiversidade e assumir posição ativa, propondo uma Conferência Internacional pela Preservação e Recuperação de Todas as Florestas do Mundo — nossas, africanas, europeias, russas, asiáticas e norte-americanas, cuidadas como propriedade do país e patrimônio da Humanidade.

Em vez de incendiários, poderíamos ser os promotores do respeito às florestas da Terra. É isso o que faríamos se ainda tivéssemos no comando do Itamaraty diplomatas do porte daqueles que articularam a Rio-92 e a Rio+20. No Ministério do Meio Ambiente, pessoas com a competência e o prestígio de José Goldemberg, Marina Silva, Carlos Minc e Izabella Teixeira.

Tudo indica que, em vez de tentar salvar o mundo, vamos continuar perdidos na incompetência e na insensibilidade, e o mundo perdendo a chance de sermos atores decisivos na proteção de todas as florestas do mundo.

O dilema das redes e o futuro de todos nós

Ninguém ousa negar a centralidade das plataformas digitais e das redes sociais na vida contemporânea. Mas, cada vez mais se ascende a polêmica sobre a crescente capacidade de manipulação das gigantes da comunicação digital. Os efeitos positivos das redes sociais são inegáveis. Mas a polêmica que ganha corpo é: a que custo? Quais são os efeitos colaterais? As disfunções estariam superando os benefícios?

Já recomendei aqui dois filmes da NETFLIX, o documentário “Privacidade hackeada” sobre a manipulação de dados do Facebook na eleição de Trump em 2016, e o drama polonês “Rede do Ódio”, sobre consequências dramáticas da manipulação política das plataformas. Agora em setembro foi lançado o documentário de Jeff Orlowsky, “O dilema das redes”, que vem despertando enorme polêmica. Para alguns, exagerado e sensacionalista. Para outros, um grave alerta sobre o futuro que estamos construindo.

O “Dilema das redes” não se atém à perspectiva política. Vai além, denuncia dos aspectos psicossociais da influência nas mudanças dos padrões de comportamento, principalmente nas novas gerações. A partir de depoimentos de ex-executivos do Facebook, Google, Twitter e da teatralização de uma família impactada pela exacerbação do uso da internet, há uma exposição nua e crua das vísceras das redes sociais. Fora os exageros, é assustador. Todos os pais deveriam assistir para interagir melhor com seus filhos sobre o tema.


O documentário revela como a lógica das redes é nos capturar, nos tornar compulsivamente dependentes, viciados mesmo, a partir de uma associação entre psicologia humana e tecnologia da informação. Rolagem automática e sem fim, notificações, curtidas, falsas recompensas, likes, são mecanismos desenvolvidos para nos tornar “prisioneiros das redes”, com graves repercussões na saúde mental e no bem estar de todos nós. “Apenas dois tipos de indústria chamam clientes de usuários: a de drogas ilegais e a de tecnologia da informação” é uma frase forte do filme. Penso nas mesas de bares e restaurantes com todos ligados em seus smartphones e ninguém conversando.

Outra afirmação contundente é: “Se você não paga por algo, saiba que você é o produto”. As grandes redes faturam bilhões de dólares em publicidade e fazem isso pelos dados que têm. O produto certo para a pessoa certa. Senti isso pessoalmente. Foi só fazer três compras por e-comerce numa mesma importadora de vinhos, para meu timeline do Facebook ficar coalhado de ofertas de outras importadoras. Tudo indica que “fui vendido”. Isto aconteceu com produtos relacionados ao Flamengo, a imóveis e até artistas.

Mas há consequências mais graves: o aumento da depressão e dos suicídios infantis e juvenis, a explosão de fakenews que se propagam seis vezes mais que a verdade “que é chata”, o tempo gasto que impede a relação humana direta com a família e amigos ou o deleite com a boa arte, o bullyng virtual opressivo, a alimentação do discurso do ódio e de teorias da conspiração, o estímulo à radicalização da polarização política, a deformação do processo de formação da autoestima e o nascimento de uma cultura rasa, superficial e agressiva.

Precisamos urgentemente conversar sobre isso. Ou teremos um mundo cada vez mais perigoso e desinteressante.

Os mortos que o digam!

Governo Bolsonaro lidou muito bem com a pandemia
Hamilton Mourão, general vice-presidente

País precisa dizer o que quer ser no século XXI

Mal começaram as campanhas municipais de 2020 e os atores políticos já falam em 2022. Especialmente o bolsonarismo e seus aliados estão concentrados na aprovação de seu elixir político, que no momento tem o nome de Renda Cidadã, continuação do auxílio emergencial que catapultou a popularidade presidencial. Obviamente que há outros projetos no Congresso, mas seu sentido mais amplo está deslocado da estratégia política de curto prazo, que é reeleger Bolsonaro e salvar sua família das querelas judiciais. E qual é o projeto dos opositores do presidente? Novamente, há uma miríade de temas, muitos louváveis, mas não uma visão clara e articulada de como o Brasil deve lidar com os desafios do século XXI.

A ideia de projeto para o país, com metas claras, meios definidos e articulando as questões numa visão ampla, está em falta no momento. Geralmente, o comandante do Executivo federal tem a primazia na definição dos rumos nacionais, pois foi votado pela maioria dos brasileiros, além de ter um enorme poder político e administrativo. Mas o governo atual padece de cinco problemas que dificultam liderar um processo mais amplo de mudanças.

O primeiro é a falta de um diagnóstico para as grandes questões do século XXI. Parafraseando o “50 anos em 5” de JK, o que guia Bolsonaro é um projeto de “40 anos em 4”, mas para trás, voltando ao mundo do final do regime militar e da Guerra Fria. O passadismo domina o presidente, que se concentra em temas morais que lutam contra mudanças contemporâneas de valores e é saudosista da época da ditadura. É verdade que ele enviou várias propostas administrativas e econômicas ao Congresso Nacional, que poderiam ser colocadas dentro de um “pacote modernizador”. Porém, a soma dessas medidas geraria qual tipo de Estado? Quais devem ser as principais funções governamentais dentro da ótica bolsonarista? Como deveria ser a articulação do setor público com a sociedade? Qual é o modelo de gestão pública do bolsonarismo?

Em outras palavras, o governo Bolsonaro não apresentou até agora, com clareza, um diagnóstico de quais são os principais obstáculos para o desenvolvimento brasileiro do século XXI. Na verdade, o bolsonarismo é muito frágil no diagnóstico e no prognóstico na grande maioria das políticas públicas. Está aqui o segundo obstáculo para se construir um projeto mais amplo para o Brasil. Quem são os principais formuladores do governo? Quais países inspiram as políticas públicas ou, então, quais são as evidências que alimentam as decisões do primeiro escalão da área social?


Haveria vários exemplos dessa falta de perspectiva das políticas públicas. Para citar um deles: todos os economistas apontam o grande problema da produtividade da economia brasileira e como a questão educacional tem um peso decisivo neste tema. Pois bem, o que o MEC está fazendo ou pretende para melhorar efetivamente a Educação do país? Ninguém sabe. Falar contra Paulo Freire é lutar contra o passado – e uma luta equivocada – e não aponta um rumo para o futuro. Quais são as medidas inovadoras que estão pensadas para que o país melhore sua posição no PISA nos próximos dez anos? O que está sendo pensado para reduzir as desigualdades educacionais do país? As perguntas são muitas, e o silêncio das respostas é ensurdecedor.

Outro exemplo: é impossível imaginar o futuro do Brasil sem propor políticas consistentes sobre a questão ambiental. Aparentemente, o que governo tem conseguido é apenas piorar neste setor, com o esvaziamento dos órgãos públicos, a desregulação selvagem da legislação e, para coroar o retrocesso, os resultados têm sido apenas mais desmatamento, queimadas e desprestigio internacional. Aquilo que deveria ser um ativo para o desenvolvimento do país tornou-se um empecilho. O problema é que, em vez de apontar mudanças na postura atual, adota-se um comportamento meramente defensivo ou então se aposta na radicalização da destruição de tudo que foi feito ao longo da redemocratização. Alguém imagina que o Brasil melhorará no século XXI com o modelo bolsonarista de política ambiental?

Claro que podem ser citadas, aqui e acolá, medidas modernizadoras vindas do Executivo federal, como as ações do Banco Central para modernização do sistema de pagamentos do país. E aqui entra o terceiro obstáculo presente no governo Bolsonaro: há muitas forças políticas, muitos desiguais entre si e descoordenadas, convivendo no mesmo espaço, sem que uma liderança clara dê um sentido sistêmico às propostas.

O maior exemplo disso é a inflação de propostas que o Executivo federal mandou ao Congresso Nacional sem que haja prioridades entre elas. Cada mês uma delas é alçada ao topo das preocupações. O pior de tudo é que não há comprometimento presidencial nem com todos os pontos presentes nestes projetos. É muito estranho um presidente que manda algumas propostas de emenda constitucional bastante complexas, que mudam aspectos profundos do Estado, ter como principal preocupação a aprovação do novo Código de Trânsito Brasileiro! Que pontos estratégicos dessa legislação vão melhorar o futuro dos nossos filhos e netos?

No fundo, Bolsonaro se importa mais com aquilo que não tem evidências sobre seu impacto positivo de longo prazo, como a legislação das armas, do que com as grandes questões estruturais brasileiras, num caminho inverso aos dos países que estão efetivamente se preparando para o século XXI. Se voltarmos ao seu programa de governo apresentado na eleição, na maioria das vezes eram temas menos relevantes que ganharam destaque – e nos pontos efetivamente importantes, geralmente Bolsonaro apresentou propostas populistas ou que ele abandonou no meio do caminho, como o seu lavajatismo.

A falta de uma coalizão bem organizada no Legislativo, em termos de apoio e ideias, tem sido um quarto empecilho para a construção de uma visão clara de futuro. Isso gerou uma postura de desresponsabilização do Executivo, que muitas vezes torce para que os parlamentares resolvam sozinhos os problemas da agenda pública do país. Assim foi na reforma da Previdência, e alguns apostam que esse processo poderá ser repetido nas reformas administrativa e tributária. O problema é que quando o Executivo se ausenta, também podem ser aprovadas coisas que atrapalham o funcionamento governamental, seja em termos fiscais, seja na capacidade de execução.

Desde a prisão de Queiroz, no dia 18 de junho, Bolsonaro mudou de posição e começou a construir uma base parlamentar. Essa decisão, em boa medida, serve a ambos os lados como um mecanismo de autoproteção e sobrevivência de deputados e do próprio presidente. No entanto, vislumbra-se agora que se pode e se deve buscar algo mais dessa aliança, como revela a discussão sobre o Renda Cidadã. Só que exatamente quando essa parceria aponta para uma mudança legislativa importante, descobre-se o quinto e último aspecto que limita o reformismo bolsonarista: a dificuldade de pensar além das eleições de 2022.

É inegável que programas de transferência de renda constituem uma condição necessária para se combater a desigualdade brasileira. Mas é preciso juntá-las como outras políticas sociais. A desigualdade é múltipla e exige remédios vindos de vários setores. Qual é a política bolsonarista, por exemplo, para se reduzir a desigualdade racial? Afinal, são os negros que mais morrem com a violência na periferia, inclusive da vinda da polícia, bem como há um grande abismo educacional entre as crianças brancas e as negras. Obviamente que a renda é um ponto de partida desse processo, mas sozinha não muda este triste quadro, que já nem deveria existir em pleno século XXI.

Até agora os governistas só pensam em distribuir dinheiro para receber fidelidade na hora do voto. É esse mesmo sentido pragmático que move hoje o presidente, que no passado fora contra o Bolsa Família e todas as ações de redistribuição mais direta de renda aos pobres brasileiros. Todos podem mudar e fazer autocrítica, mas o que deve ser exigido de Bolsonaro envolve uma pergunta maior: qual será o desenho dessa política de transferência de renda para os próximos dez anos?

Do lado da oposição ao governo Bolsonaro, no seu sentido mais amplo, muitas propostas e temáticas relevantes têm sido levantadas nos últimos meses. Elas vêm de partidos ou de grupos da sociedade civil que têm apresentado bons debates e ideias sobre meio ambiente, educação, questão racial, saúde e outras questões verdadeiramente estruturais para o país. Não obstante, a fragmentação dessas visões de mundo e a falta de um modelo mais sistêmico que aponte soluções para frente, em vez de se concentrar nos sucessos e erros do passado, constituem uma fragilidade daqueles que querem se opor ao atual governo.

Muito se fala da necessidade de construir uma frente ampla, da centro-direita à esquerda, contra o bolsonarismo. Pode ser que isso seja necessário para a eleição de 2022 – e esse é um tema para um outro artigo -, mas é preciso dizer qual será o projeto mais amplo que vai orientar essa aliança, de modo que ela não seja apenas defensiva.

O país está num momento de ausência de uma proposta consistente de futuro. Para superar essa fase, além dos votos, será necessário propor ideias e soluções que vislumbrem algo além do curto prazo e do personalismo presidencial.
Fernando Abrucio