terça-feira, 14 de abril de 2020

Como o coronavírus vai mudar nossas vidas

A Covid-19 mudou nossas vidas. Não estou falando aqui simplesmente da alteração da rotina nesses dias de isolamento, em que não podemos mais fazer caminhadas no Minhocão ou ir aos nossos bares e restaurantes preferidos. Sim, tudo isso mudou nosso cotidiano —e muito. Mas o meu convite para você é para pensarmos nas mudanças mais profundas, naquelas transformações que devem moldar a realidade à nossa volta e, claro, as nossas vidas depois que o novo coronavírus baixar a bola. Por isso talvez seja melhor mudar o tempo verbal da frase que abre este texto e dizer que o coronavírus vai mudar as nossas vidas. Mas como? Que cenários prováveis já começam a emergir e devem se impor no mundo pós-pandemia?


Entender que mundo novo é esse é importante para nos prepararmos para o que vem por aí. Porque uma coisa é certa: o mundo não será como antes, conforme nos alertou o biólogo Átila Iamarino.

“O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade”, disse nesta entrevista para a BBC Brasil Átila, que é doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Universidade Yale. “Mudanças que o mundo levaria décadas para passar, que a gente levaria muito tempo para implementar voluntariamente, a gente está tendo que implementar no susto, em questão de meses’, diz ele.

Ainda nessa linha, havia uma visão entre especialistas de que faltava um símbolo para o fim do século 20, uma época altamente marcada pela tecnologia. E esse marco é a pandemia do coronavírus, segundo a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo e de Princeton, nos EUA, em entrevista ao Universa. “[O historiador britânico Eric] Hobsbawm disse que o longo século 19 só terminou depois da Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. Nós usamos o marcador de tempo: virou o século, tudo mudou. Mas não funciona assim, a experiência humana é que constrói o tempo. Ele tem razão, o longo século 19 terminou com a Primeira Guerra, com mortes, com a experiência do luto, mas também o que significou sobre a capacidade destrutiva. Acho que essa nossa pandemia marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia. Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites”, diz Lilia.

Vários futuristas internacionais dizem que o coronavírus funciona como um acelerador de futuros. A pandemia antecipa mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social.

Outras mudanças estavam mais embrionárias e talvez não fossem tão perceptíveis ainda, mas agora ganham novo sentido diante da revisão de valores provocada por uma crise sanitária sem precedentes para a nossa geração. Como exemplos, podemos citar o fortalecimento de valores como solidariedade e empatia, assim como o questionamento do modelo de sociedade baseado no consumismo e no lucro a qualquer custo.

“A vida depois do vírus será diferente”, disse ao site Newsday a futurista Amy Webb, professora da Escola de Negócios da Universidade de Nova York. “Temos uma escolha a fazer: queremos confrontar crenças e fazer mudanças significativas para o futuro ou simplesmente preservar o status quo?”

As transformações são inúmeras e passam pela política, economia, modelos de negócios, relações sociais, cultura, psicologia social e a relação com a cidade e o espaço público, entre outras coisas.

O ponto de partida é ter consciência de que os efeitos da pandemia devem durar quase dois anos, pois a Organização Mundial de Saúde calcula que sejam necessários pelo menos 18 meses para haver uma vacina contra o novo. Isso significa que os países devem alternar períodos de abertura e isolamento durante esse período.

Diante dessa perspectiva, como ficam as atividades de lazer, cultura, gastronomia e entretenimento no centro e em toda a cidade durante esse período? O que mudará depois desse período? São questões ainda em aberto, mas há sinais que nos permitem algumas reflexões.

Para entender essas e outras questões e identificar os prováveis cenários, procurei saber que tendências os futuristas, pesquisadores e bureaus de pesquisas nacionais e internacionais estão traçando para o mundo pós-pandêmico. A partir dessas leituras e também de um olhar para as questões que dizem respeito ao centro de São Paulo e à vida urbana em geral, fiz uma lista com algumas dessas tendências, que você pode ler a seguir.
Confira as 10 tendências para o mundo pós-pandemia

1. Revisão de crenças e valores

A crise de saúde pública é definida por alguns pesquisadores como um reset, uma espécie de um divisor de águas capaz de provocar mudanças profundas no comportamento das pessoas. “Uma crise como essa pode mudar valores”, diz Pete Lunn, chefe da unidade de pesquisa comportamental da Trinity College Dublin, em entrevista ao Newsday.

“As crises obrigam as comunidades a se unirem e trabalharem mais como equipes, seja nos bairros, entre funcionários de empresas, seja o que for... E isso pode afetar os valores daqueles que vivem nesse período —assim como ocorre com as gerações que viveram guerras”.

Já estamos começando a ver esses sinais no Brasil —e no centro de São Paulo, com vários exemplos de pessoas que se unem para ajudar idosos, por exemplo.

2. Menos é mais

A crise financeira decorrente da pandemia por si só será um motivo para que as pessoas economizem mais e revejam seus hábitos de consumo. Como diz o Copenhagen Institute for Futures Studies, a ideia de “menos é mais” vai guiar os consumidores daqui para frente.

Mas a falta de dinheiro no momento não será o único motivo. As pessoas devem rever sua relação com o consumo, reforçando um movimento que já vinha acontecendo. “Consumir por consumir saiu de ‘moda’”, escreve no site O Futuro das Coisas Sabina Deweik, mestre em comunicação semiótica pela PUC e pesquisadora de comportamento e tendências.

O outro lado desse processo é um questionamento maior do modelo de capitalismo baseado pura e simplesmente na maximização dos lucros para os acionistas. “O coronavírus trouxe para o contexto dos negócios e para o contexto pessoal a necessidade de revisitar as prioridades. O que antes em uma organização gerava resultados financeiros, persuadindo, incentivando o consumo, aumentando a produção e as vendas, hoje não funciona mais”, diz Sabina.

“Hoje, faz-se necessário pensar no valor concedido às pessoas, no impacto ambiental, na geração de um impacto positivo na sociedade ou no engajamento com uma causa. Faz-se necessário olhar definitivamente com confiança para os colaboradores já que o home office deixou de ser uma alternativa para ser uma necessidade. Faz-se necessário repensar a sociedade do consumo e refletir o que é essencial.”

3. Reconfiguração dos espaços do comércio

A pandemia vai acentuar o medo e a ansiedade das pessoas e estimular novos hábitos. Assim, os cuidados com a saúde e o bem-estar, que estarão em alta, devem se estender aos locais públicos, especialmente os fechados, pois o receio de locais com aglomeração deve permanecer.

“Quando as pessoas voltarem a frequentar espaços públicos, depois do fim das restrições, as empresas devem investir em estratégias para engajar os consumidores de modo profundo, criando locais que tragam a eles a sensação de estar em casa”, diz um relatório da WGSN, um dos maiores bureaus de pesquisas de tendências do mundo.

Eis um ponto de atenção para bares, restaurantes, cafeterias, academias e coworkings, que devem redesenhar seus espaços para reduzir a aglomeração e facilitar o acesso a produtos de higiene, como álcool gel. Os espaços compartilhados, como coworkings, têm um grande desafio nesse novo cenário.

4. Novos modelos de negócios para restaurantes

Uma das dez tendências apontadas pelo futurista Rohit Bhatgava é o que ele chama de “restaurantes fantasmas”, termo usado para descrever os estabelecimentos que funcionam só com delivery. Como a possibilidade de novas ondas da pandemia num futuro próximo, o setor de restaurantes deve ficar atento a mudanças no seu modelo de negócios, e o serviço de entrega vai continuar em alta e pode se tornar a principal fonte de receita em muitos casos.

5. Experiências culturais imersivas

Como resposta ao isolamento social, os artistas e produtores culturais passaram a apostar em shows e espetáculos online, assim como os tours virtuais a museus ganharam mais destaque. Esse comportamento deve evoluir para o que se pode chamar de experiências culturais imersivas, que tentam conectar o real com o virtual a partir do uso de tecnologias que já estão por aí, mas que devem se disseminar, como a realidade aumentada e virtual, assistentes virtuais e máquinas inteligentes.

De acordo com o estudo Hype Cycle, da consultoria internacional Gartner, as experiências imersivas são uma das três grandes tendências da tecnologia. Destacamos aqui a área cultural, mas isso também se estende a outros setores, como esportes, viagens a varejo, conforme indica o relatório A Post-Corona World, produzido pela Trend Watching, plataforma global de tendências.

6. Trabalho remoto

O home office já era uma realidade para muita gente, de freelancers e profissionais liberais a funcionários de companhias que já adotavam o modelo. Mas essa modalidade vai crescer ainda mais. Com a pandemia, mais empresas —de diferentes portes— passaram a se organizar para trabalhar com esse modelo. Além disso, o trabalho remoto evita a necessidade de estar em espaços com grande aglomeração, como ônibus e metrôs, especialmente em horários de pico.

7. Morar perto do trabalho
Essa já era uma tendência, e morar no centro de São Paulo se tornou um objeto de desejo para muitas pessoas justamente por conta disso, entre outros motivos. Mas, com o receio de novas ondas de contágio, morar perto do trabalho, a ponto de ir a pé e não usar transporte público, deve se tornar um ativo ainda mais valorizado.

8. Shopstreaming

Com o isolamento social, as lives explodiram, principalmente no Instagram. As vendas pela internet também, passando a ser uma opção também para lojas que até então se valiam apenas do local físico. Pois pense na junção das coisas: o shopstreaming é isso. Uma versão Instagram do antigo ShopTime.

9. Busca por novos conhecimentos

Num mundo em constante e rápida transformação, atualizar seus conhecimentos é questão de sobrevivência no mercado (além de ser um prazer, né?). Mas a era de incertezas aberta pela pandemia aguçou esse sentimento nas pessoas, que passam, nesse primeiro momento, a ter mais contato com cursos online com o objetivo de aprender coisas novas, se divertir e/ou se preparar para o mundo pós-pandemia. Afinal, muitos empregos estão sendo fechados, algumas atividades perdem espaço enquanto outros serviços ganham mercado.

10. Educação a distância

Se a busca por conhecimentos está em alta, o canal para isso daqui para frente será a educação a distância, cuja expansão vai se acelerar. Neste contexto, uma nova figura deve entrar em cena: os mentores virtuais. A Trend Watching aposta que devem surgir novas plataformas ou serviços que conectam mentores e professores a pessoas que querem aprender sobre diferentes assuntos.
Clayton Melo

O nome dos mortos

Há um momento em que são números. Muitos contaminados na China; taxa de letalidade de tantos por cento. A Itália, apesar das óperas cantadas em suas varandas, apesar do gesto espetacular do Papa, na praça vazia, tem números ainda mais alarmantes. A Espanha perde para o touro da doença. Ninguém vela seus mortos, meras estatísticas. Um dia, no entanto, a morte passa a se chamar Daniel, dona Maria, Godofredinho do Posto, filho da Zuleide. Aí é tormento, abismo e queda
Alexandre Brandão, Pandemia, modos de rir e de se desesperar

Um presidente irrelevante não merece tanta atenção da mídia

Um bom exemplo do poder das palavras de um líder veio do Reino Unido. Tendo se recuperado de um caso grave de Covid-19, o primeiro-ministro Boris Johnson gravou um depoimento oficial lapidar: demonstra empatia com os doentes, apoio e admiração aos profissionais de saúde, louva o sistema público de saúde do país e conclama a população ao esforço coletivo necessário para enfrentar a tragédia.

Independente do juízo maior que se possa fazer sobre o governo de Boris Johnson, foi uma fala digna de um líder nacional.

Ninguém cogita que algo similar possa vir de Bolsonaro. Não esperamos do presidente nenhum sentimento nobre, nenhuma inspiração coletiva, nada que acene para a união e para valores nacionais. Dele não sai nada além de provocações baratas e brigas políticas de absoluta mesquinhez.

Elas também não indicam o rumo que o governo tomará. Até o momento em que escrevo esta coluna, Luiz Henrique Mandetta continua ministro da Saúde, mesmo depois de dar uma entrevista ao Fantástico em que disse com todas as letras que ele e o presidente divergem na estratégia. Que ele continue ministro só demonstra o quão frouxo é Bolsonaro no campo da ação.

Fala que o isolamento social é desastroso para o Brasil e mesmo assim não troca o ministro que promove o isolamento. Bolsonaro torna-se cúmplice daquilo que suas palavras condenam. Ladra, mas não morde.

Tampouco esperamos a verdade das palavras dele. Quando Bolsonaro disse em 9 de março que tinha “provas” de que as eleições de 2018 foram fraudadas, ninguém acreditou —nem mesmo seus apoiadores e fãs. Era óbvio que ele não tinha prova nenhuma; era só mais um blefe, mais uma mentira contada para chacoalhar as águas do debate público e ser esquecida no dia seguinte, quando novas provocações aparecessem.

Assim como a emissão descontrolada de moeda corrói seu valor, o palavrório inconsequente de Bolsonaro deprecia a palavra presidencial. Durante uma hiperinflação, as pessoas param de aceitar pagamentos em dinheiro. É hora de tratar as palavras do presidente da mesma maneira: como elas de nada valem, também não devem ser levadas a sério ou receber o destaque da imprensa.

Como todo mundo que passou pelos anos de colégio deve ter aprendido, uma provocação só tem poder na medida em que damos importância a ela. Bolsonaro ir a pé à farmácia ou à padaria nada mais é do que uma provocação barata de um presidente que carece da coragem para fazer valer suas palavras na condução do governo.

Essa e outras pirraças presidenciais (e dos filhos) são objetivamente irrelevantes para o país, e só adquirem centralidade na medida em que reagimos a elas.

Tornar as suas gracinhas o centro diário do debate público é conceder-lhe uma importância que não tem. O presidente não manda mais no país. Comporta-se como uma criança birrenta que tenta atrapalhar o trabalho dos adultos.

Na medida em que seu choro desvia nossa atenção, ele é bem sucedido. Está desacreditado, mente sem parar, e busca gerar barulho para que não nos demos conta do óbvio: na maior crise de seu governo (a primeira não causada por ele), Bolsonaro é irrelevante. Tratemo-lo como tal. Neste momento, não merece mais do que a notinha no pé da página.
Joel Pinheiro da Fonseca

O antes e o depois de Bolsonaro

James Carville é um consultor político que em 1992 assessorou Bill Clinton na disputa pela Presidência dos EUA, então ocupada por Bush pai. Reza a lenda que Carville afixou numa das paredes do comitê de campanha um cartaz com três lembretes para que o candidato democrata não perdesse o foco durante os debates. Diziam eles: “Não se esqueça do sistema de saúde”, “Mudança vs Mais do Mesmo” e “A economia, estúpido”.

Muito antes de Carville, economistas e cientistas políticos já estudavam as íntimas relações entre a política econômica e seus impactos nas urnas. Políticos normalmente se esquecem disso, mas além de eleitores, somos empregados, empresários, profissionais liberais ou aposentados. E percepções sobre crescimento, desemprego e inflação afetam nossas decisões de votar tanto ou mais do que preferências ideológicas ou inclinações por este ou aquele candidato.

William Nordhaus, vencedor do prêmio Nobel de economia em 2018, lançou em 1974 a hipótese de que políticos são tentados a se valer da política econômica como estratégia para se reelegerem ou fazerem seus sucessores. De acordo com sua teoria dos ciclos político-econômicos, governantes tendem a adotar políticas restritivas no início do governo, aprovando reformas e apertando o cinto das despesas enquanto sua popularidade está alta. À medida em que o mandato se aproxima do fim, é hora de afrouxar as rédeas e expandir os gastos e o crédito, apostando que o crescimento dos empregos e dos lucros lhes trarão mais votos.


Em 2018, ao se colocar à disposição de Bolsonaro para ser o seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes prometeu mundos e fundos. Com números espetaculosos, convenceu o ex capitão de que valeria a pena apoiar um programa amargo de reformas no primeiro ano de governo (Previdência, privatizações e cortes de despesas), pois dali em diante os investimentos iriam bombar e o crescimento, deslanchar.

Seguindo a receita de bolo do ciclo econômico-eleitoral, Guedes persuadiu Bolsonaro de que as medidas liberais se reverteriam em uma fácil reeleição em 2022.

No entanto, o mesmo antigo compositor baiano que dizia que “tudo é divino, tudo é maravilhoso” também nos alertava que “a vida é real e de viés”. E se no início do ano, quando tudo parecia tranquilo, Bolsonaro já estava incomodado com a demora de Guedes em entregar os resultados prometidos, a pandemia causada pelo novo coronavírus torna ainda menos provável que os planos de Guedes se concretizarão.

Analisando as pesquisas de opinião pública conduzidas pelo Ibope nos últimos 35 anos, fica evidente como a gestão da economia foi determinante para as ambições eleitorais de praticamente todos os presidentes brasileiros. José Sarney, por exemplo, viu sua aprovação cair da casa dos 70% no lançamento do Cruzado para menos de 10% após os sucessivos fracassos de seus planos heterodoxos. O mesmo aconteceu com Collor: engana-se quem imagina que sua popularidade despencou com as denúncias de corrupção. Com a inflação subindo e a economia em recessão, sua avaliação positiva já estava abaixo de 20% quando Pedro Collor contou tudo. Daí em diante foi só ladeira abaixo.

FHC segurou o quanto pôde para se reeleger, mas viu a sua reprovação crescer de 20% para 50% com a liberação do câmbio no início de 1999. A partir desse ponto seu segundo mandato se arrastou em meio a políticas fiscais e monetárias restritivas para salvar o Real, racionamento de energia e problemas externos como a crise na Argentina e os atentados terroristas nos Estados Unidos. Como resultado, o projeto de permanência do PSDB no poder foi abortado com a derrota de José Serra em 2002.

Lula foi o único presidente do atual ciclo democrático a conseguir aplicar as recomendações do manual da teoria do ciclo político-econômico. Com Antonio Palocci no Ministério da Fazenda, foi dada continuidade à política contracionista de Pedro Malan nos primeiros dois anos de governo, comprando credibilidade nos mercados interno e externo. Com o mensalão batendo às portas do seu gabinete, Lula abriu as torneiras do gasto público e do crédito dos bancos oficiais para estimular a economia e impulsionar sua popularidade. Sua aprovação subiu de 30% em meados de 2005 para atingir impressionantes 80% em 2010, atropelando a crise financeira de 2008 e elegendo com facilidade a sua sucessora para o Palácio do Planalto.

A história de Dilma na Presidência pode ser contada em três atos.

Enquanto a economia rodava acelerada pela política expansionista de Guido Mantega, seus índices de aprovação giravam em torno de 60%. A insatisfação popular com a classe política irrompeu com os protestos de rua de 2013, e dali até a reeleição Dilma se equilibrou entre 30% e 40% de popularidade.

Mas então a tempestade perfeita se formou: os excessos econômicos do passado cobraram seu preço no mesmo momento em que o maior escândalo de corrupção da história brasileira atingia o PT e os principais partidos da coalizão governista. Com sua reprovação batendo em 70% da população, todos sabem o que aconteceu.

A crise da covid-19 marca o fim prematuro da primeira fase do governo Bolsonaro. Ninguém sabe qual será o saldo macabro de mortes da pandemia no Brasil, e muito menos qual a duração e a gravidade dos seus efeitos econômicos. Simulações do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimam que a economia brasileira crescerá de 2,3% a 4,4% menos do que o esperado, enquanto no mercado já há instituições financeiras que trabalham com uma recessão de 5%, segundo o boletim Focus do Banco Central.

Se o cenário de desemprego recorde e quebradeiras no setor privado se concretizar, e de mãos atadas pela piora fiscal provocada pelas medidas de socorro contra a pandemia, a maldição de Carville (“é a economia, estúpido!”) assombrará os 30 meses que separam Bolsonaro das eleições de 2022. Haja cloroquina para tentar evitar a queda na sua popularidade.

Ganha contornos o tamanho da desgraça do Covid-19 no Brasil

Tempo ameno aquele que cercou há quase um mês o encontro do ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, com ministros do Supremo Tribunal Federal e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado para discutirem a ameaça do coronavírus.

Foi no último dia 16. O Brasil só tinha 234 casos confirmados e 2.064 suspeitos da desgraça que começava a atingir alguns países da Europa depois de assombrar a China. O governo destinara apenas R$ 5,09 bilhões para o combate que mal começara.

Na véspera, contrariando as recomendações médicas, o presidente Jair Bolsonaro recepcionara ao pé da rampa do Palácio do Planalto uma pequena multidão que fora às ruas pedir o fechamento do Congresso e do Supremo. Tocou com as mãos em 272 pessoas.

Antes do início da reunião, os participantes do encontro higienizaram as mãos com álcool em gel e evitaram o contato físico. Mandetta chegou a estender a sua para apertar as demais mãos, mas recolheu-a a tempo provocando risos discretos.


Combinou-se que pouco do que ali fosse dito poderia vazar para a imprensa. Um dos ministros perguntou a Mandetta quantos brasileiros poderiam morrer ao fim da pandemia. No cenário mais realista, respondeu Mandetta, algo como 280 mil. Sim, 280 mil.

Na semana passada, o governo de São Paulo anunciou que poderão morrer no Estado cerca de 111 mil pessoas se as medidas adotadas surtirem efeito. O Ministério da Saúde informou, ontem, que 23.130 casos foram confirmados e o número de mortos é de 1.328.

Tempo pesado, este, em que cientistas das universidades de São Paulo e da Nacional de Brasília estimam que o número de infectados na verdade já ultrapasse a casa dos 313 mil. E que o sistema de Saúde em São Paulo possa em breve entrar em colapso.

O Brasil é um dos países que menos aplicaram testes até agora para poder ter uma real dimensão da tragédia que se avizinha – embora seja o 14ª mais afetado pelo vírus. Numa lista de 15 grandes países, é o lanterninha no quesito testes.

Mandetta antecipara a compra de 22 milhões de kits de testes à China. Os Estados Unidos mandaram uma frota de gigantescos aviões para comprar à China tudo que estivesse à venda – de kits a respiradouros, máscaras, aventais e macacões.

E para completar a desdita do Brasil, o presidente da República, preocupado antes de tudo em salvar a Economia, boicota de todas as formas possíveis os esforços do seu ministro da Saúde no enfrentamento do vírus. Onde isso acontece?

Bolsonaro está à procura de um substituto para Mandetta, que sairia levando a equipe que o acompanha desde que assumiu o ministério. A arcar com tal o desgaste, Bolsonaro sabe que o ministro que escolher deverá pensar como ele, Bolsonaro.

O que significaria: ao fim e ao cabo da pandemia, seus resultados deverão ser debitados na conta do presidente. É por isso que Bolsonaro ainda hesita em mandar Mandetta embora.
Ricardo Noblat

Imagem do Dia

Koho Shoda

Apocalipse é esperança

São inéditos a velocidade de progressão da pandemia pela Covid-19 e o número de verdades e inverdades que surgem e desvaecem à luz das ainda escassas comprovações científicas, quer sobre os testes ditos padrão-ouro, fármacos que possam se mostrar verdadeiramente úteis em seu tratamento ou mesmo duração da imunidade conferida. Nesse cenário tão novo, consola o grande número de pessoas já curadas, porém esse equilíbrio instável entre epidemiologia e estrutura de serviços para responder bascula entre o tamanho do desafio e a coordenação da resposta. No Brasil, a operação dos hospitais de campanha, em construção em diversas cidades, se a eles forem assegurados recursos humanos qualificados e suficientes, poderá salvar vidas.

O grande pensador e poeta Paul Valéry nos alerta, premonitoriamente, no entreguerras: “Civilizações, não se esqueçam de que são mortais”. Esta pandemia, que seguramente não será a última, vem nos lembrar, peremptória, a nossa possibilidade de desaparecer como civilização, abrupta ou lentamente, seja pelo caos, por armas atômicas, pelos danos ao meio ambiente, pela falta d’água ou por epidemias.

Conhecendo a realidade de exclusão de nossas grandes cidades, essa doença vai desnudar, em carne viva como nunca antes, a exclusão social e a diferença de acesso aos serviços básicos, desde saneamento básico, água e moradia, até o ápice do sistema, que são as unidades de terapia intensiva. Não será apenas um jovem ianomâmi, em sua realidade longínqua, que morrerá atingido pela virose, sem a assistência adequada à sua cultura. Poderão ser nossos jovens, moradores de comunidades e suas famílias, em particular os mais velhos. Caberá, mais do que à rede suplementar de saúde, a esse sistema único, o SUS, castigado cronicamente pelo sub financiamento, através das medidas emergenciais orquestradas, dar a resposta, correndo contra o tempo da disseminação acelerada.

Na falta de testes em larga escala, urge organizar a vigilância epidemiológica dos casos de síndrome respiratória aguda grave e gripe, inclusive dos óbitos, gerando informação necessária sobre os vetores de expansão da doença e seus números. Dispensadas estão as metáforas quando o hiperrealismo grita, ululante como diria Nelson Rodrigues: Nova York, a cidade mais cosmopolita e rica do mundo, ultrapassa os 200 mil casos e enterra alguns milhares de seus cidadãos em cova rasa, se ajoelha diante da tragédia humana inaudita, a superar qualquer narrativa épica grega. Mas vai conseguir achatar a curva de transmissão do novo coronavírus com o isolamento social.

Nesta Páscoa tão insólita, contrita, mais que nunca carregada de seu sentido de travessia e libertação, nos vemos em meio à angústia, com mais perguntas do que respostas, e muitas dúvidas. É restauradora a visão de peixes e patos de volta aos canais de Veneza, bem como ouvir a homilia do Papa Francisco e Andrea Bocelli cantar “Amazing grace” numa catedral de Milão deserta. Retroalimenta-nos da velha e teimosa confiança de que podemos prosseguir, capazes de olhar o Apocalipse não como um livro de maldições, mas como ele é, uma leitura de revelação e esperança.

Pessoas com melhores condições financeiras têm mais chance de sobreviver

Elas podem adaptar seu cotidiano para reduzir ao máximo o contato com o coronavírus. Trabalham no esquema home office, sem perder o emprego. Fazem compras sem ir ao mercado. Têm um bom plano de saúde e atendimento médico.
 
Os mais pobres precisam recorrer ao hospital e não recebem informações sobre seu tratamento. Também são vítimas de preconceito, principalmente os negros. A pandemia é nova, mas a segregação no sistema de saúde segue o molde de outras doenças com as quais lidamos há tempos, como câncer ou problemas cardiovasculares. A principal recomendação da OMS é a quarentena. Nas favelas brasileiras, muitos vivem juntos em barracos minúsculos onde nem a tuberculose foi erradicada. Como elas podem seguir as orientações que lhes protegeriam do coronavírus?
Jon Zelner, epidemiologista da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan (EUA)

A peste moral (teatro)

Elementos do enredo farsesco e alegorias para um arco trágico: crise sem precedentes; depressão econômica a caminho; “imaginação totalitária” (conforme Francisco Razzo) imperando; jacobinistas de repente apaixonados por garantias constitucionais; súbitos defensores do direito de ir e vir protestando —farreando o carnaval da vida banalizada — com caixões cenográficos nas avenidas; presidente da República, com plano de saúde, investindo no (convidando ao) rolê; povo, sem plano de saúde, saindo às ruas para trombar com o pico do contágio e, talvez, tombar em caixões de verdade; governador, em defesa da vida (e para antagonizar com um fã de Brilhante Ustra), ameaçando prender quem lhe desafie a norma e ouse circular livremente.

Compõe a trama também — glória do populismo — a luta de classes, forjada artificialmente pelo bolsonarismo, ante uma pandemia. De um lado, o pobre que quer comida — pobre defendido por (virada dramática) Jair Bolsonaro, aquele outrora contrário ao Bolsa Família, doravante preocupado com o pão na mesa do desvalido. De outro, o rico — sai da bolha!— que quer o pobre em casa, passando fome, morrendo de fome, mas sem lhe transmitir doença. Importante realçar esta marca de personalidade do abastado egoísta: se mostrar preocupação com o colapso do SUS, estará mentindo. Relevante também — para a correta caracterização das nuances — que esse alienado não seja confundido com o empreendedor dinâmico que quer o povo no trem, no rumo do batente, imunizando-se enquanto trabalha para gerar riqueza.

Hora de apresentar os artistas do espetáculo: o vírus chinês (comunista, outrora gripezinha), o isolamento social caviar (luxo elitista, coisa de governador almofadinha) e o remédio do Bolsonaro, a cloroquina (ainda carente de chancela científica, mas já largamente ministrada para a exploração personalista) — contra cuja eficácia os céticos torcem porque seu sucesso seria uma vitória do presidente.


Todo esse elenco de bárbaros a se bater sob a discreta direção da mentalidade autoritária, aquela graças à qual — sem percebermos — passamos a considerar normal, até mesmo bom, que um irresponsável autoritário eleito seja tutelado por generais; ou que, como resposta à sociopatia de um governante, outro fale em encarcerar os que furarem uma quarentena. (Sim, sei que há base jurídica no Código Penal; da mesma forma que, na Constituição, estão previstos os recursos aos estados de defesa e de sítio.)

Tratemos, portanto, da trilha sonora. Democratas — se democratas forem — devem atentar à música que põem para tocar em tempos de exceção. Convém não se esquecer do guarda da esquina. O concurso por quem pode mais em compasso excepcional convida ao baile dançarinos que não se deveria querer no salão. Ou, como explicaria Bolsonaro (em idioma próprio), “para toda ação desproporcional a reação também é forte.”

Falemos sobre iluminação — que não equivale a luzes. Todo esse plantel de autocratas por vocação (ou ignorância) e de golpistas em potencial a encenar tamanha comédia no mais absoluto escuro — isto enquanto o Ministério da Saúde do doutor Mandetta (o herói por contraste, homem modesto cuja simples razoabilidade, por oposição ao chefe, erigiu um Oswaldo Cruz) continuar incapaz de responder a este breve conjunto de perguntas: quantos testes já foram aplicados no Brasil?; quantos são aplicados diariamente?; qual o critério para aplicação?

Assim se achata — pressionada pela miséria moral sanitária — a curva do debate público brasileiro. Politizamos vírus, reclusão e medicamento — essa baixaria toda enquanto tateamos no breu. É o que chamo de as pestes dentro da peste. Uma delas — talvez política de Estado: a subnotificação; aquela que, associada à quarentena, é prece ao autoritarismo. Prudência com a valsa, senhores democratas. Decretar isolamento social sem promover testes em massa — por meio dos quais projetar algum futuro relaxamento nas restrições — é concentrar poder excepcional, por tempo indeterminado, na mão do Estado. Há quem aprecie o clima.

A chaga da subnotificação; a mesma que abaliza o presidente quando diz que o pior já terá passado. Subnotificação que — até a imposição da realidade — alicerçará o discurso irresponsável de que a reação à Covid-19 era mesmo histérica e o bicho, não tão feio. Até lá, o bolsonarismo aloprará — cantará vitória — se valendo da ilusão estatística e se apegando a princípios que sempre desprezou (os constitucionais, por exemplo) para empurrar as gentes à normalidade; e a normalidade de uma pandemia é caos e cadáveres.

Atenção, senhores democratas: não mordam a isca. Bolsonaro — cuja compreensão de liberdade contempla ter torturador por ídolo — apenas instrumentaliza, como provocação, o direito fundamental de ir e vir. Não o queiram chamar para uma corrida pelo posto de quem pode lançar mais mão de canetadas discricionárias.

A verdade do Messias


Homens peçonhentos

Relendo velhos livros ao acaso, encontro um exemplar de “Ethiopia Oriental”, do missionário português João dos Santos (1570-1625), e nele tropeço com a curiosa história de “um homem, na Ilha de Ormuz, ruivo e sardo, o qual era tão peçonhento que todas as moscas que pousavam na sua cabeça, ou mãos ou rosto, logo morriam se lhe picavam, e se não lhe picavam ficavam atordoadas, sem poder voar.”

Ormuz é uma pequena ilha pertencente ao atual Irã, no Golfo Pérsico. A partir do século XVI, diversas famílias árabes saíram dali, fixando-se ao longo da costa oriental de África. Muitas enriqueceram comerciando marfim, ouro, pau preto, panos, cera e pessoas. Suspeito que um descendente daquele peçonhento homem de que nos falava frei João dos Santos vive até hoje na Ilha de Moçambique. Abdulaziz, um velho seco, áspero, com um rosto anguloso e solene, tem fama de curar as mordidas de víbora com a própria saliva. Sem surpresa, as víboras morrem quando o mordem — bem como, assegura ele, escorpiões, aranhas e até os terríveis peixes-dragão.


Em Kampala, em Uganda, vive um outro homem, Joe Rwamirama, de 48 anos, cujos puns matam todos os mosquitos num raio de cem metros, pelo menos. A notícia surgiu no final do ano passado, em muitos jornais do mundo (podem confirmar no Google). Joe afirma que a família e vizinhos estão protegidos da malária graças ao poder da sua elaborada flatulência. O camponês manifestou-se disposto a ceder os seus gazes íntimos à ciência. Fabricantes de repelentes, revelou ele, já o contactaram com a intenção de produzir em laboratório os famosos puns, engarrafá-los (digamos assim) e comercializá-los. Sugiro que batizem o produto de Punzex, em homenagem àquela que é, até agora, a mais conhecida marca de repelentes que se comercializa em África — a Mijex (é verdade, também podem confirmar no Google).

Caso um pouco diferente é o do norte-americano Tim Friede, um ex-motorista de caminhões, que ao longo dos últimos 20 anos se fez picar mais de 200 vezes por todo o tipo de cobras venenosas, incluindo a terrível mamba negra. Friede sujeita-se a esse tormento com o objetivo de adquirir imunidade e, na sequência disso, desenvolver um antídoto universal.

A produção de antídotos contra o veneno de cobras segue há décadas o mesmo procedimento: uma pequena quantidade de veneno é injetada em cavalos e, em seguida, os anticorpos do animal são extraídos do seu sangue. “Basicamente, me torno o cavalo”, explica Friede. “Por que não podemos nos tornar imunes?”

Os médicos dividem-se quanto ao esforço de Friede. Uns consideram-no um herói. Outros, uma pessoa estúpida ou muito perturbada, com tendências suicidas.

Abdulaziz, Joe e Tim são, todos eles, homens venenosos. Contudo, usam o seu veneno em benefício da comunidade. Conclusão: pode ser que a natureza, o destino, o acaso, ou todos esses elementos em conjunto, tenham feito de si uma pessoa particularmente peçonhenta; ainda assim, você tem sempre a possibilidade de transformar em remédio o próprio veneno. A escolha é sua.

E não, juro que não estava a pensar em Jair Bolsonaro enquanto escrevia esta coluna.
José Eduardo Agualusa

Bolsonaro se isola do resto do mundo obcecado por seu messianismo perigoso

Entre os transtornos psiquiátricos que afetariam o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, apontados por um grupo de psicanalistas à Folha de S. Paulo figura seu messianismo de querer resolver o drama do coronavírus de forma milagrosa. Assim, se distancia do consenso mundial da ciência que afirma que ainda não existe nenhuma evidência médica de cura fora de uma possível vacina.

Esse messianismo do líder brasileiro e seu falso dilema de que seria preciso escolher que as pessoas morram de fome se forem isoladas ou do novo coronavírus pode levar a um perigoso e fatal equívoco.


Desse modo, o presidente isola o Brasil do resto do mundo, onde ainda não foi encontrada uma forma melhor de evitar que o novo vírus continue matando milhares de pessoas do que o isolamento social. Não por acaso estão sendo aconselhados Governos de unidade nacional para melhor fazer frente à tragédia. O inimigo que assombra o mundo é forte demais para que se possa brincar com ele com cálculos simplistas de política menor. É hora de o mundo estar nas mãos de todas as forças mais bem preparadas para enfrentar o perigo juntos, sem distinções ideológicas.

Já se sabe que todos os messianismos, usados e abusados pelos líderes populistas de todas as tendências políticas, são perigosos porque o ser humano é inclinado a acreditar em receitas milagrosas. Assim, os brasileiros podem acabar sendo arrastados pela miragem do presidente, desobedecendo autoridades ao afrouxar o isolamento, como já se viu em São Paulo e em outras localidades, com consequências que podem ser fatais.

Ao longo da história, os falsos profetas acabaram sendo os maiores assassinos e enganadores das pessoas simples e menos escolarizadas.

Em um país como o Brasil, com um forte componente religioso, brincar com receitas oferecidas pelos pastores ao presidente que consideram ungido por Deus para acabar com a peste é voltar ao obscurantismo da Idade Média, como já lembrei em outra coluna. Pretende-se, como então, substituir a ciência e a medicina por receitas de cunho messiânico.

Insistir como faz o presidente nessa volta aos tempos tristes em que a religião se apoderava da ciência e da medicina hoje significa isolar o Brasil do resto do mundo, onde a ciência está se unindo para dar uma resposta segura à doença mortal que possa evitar tanta morte e tanta dor.

Hoje está claro que nada nem ninguém será capaz de fazer o presidente brasileiro recuar de seu messianismo. Assim, os altos militares de seu Governo se equivocam se acreditam que basta que eles retoquem os discursos do presidente nas redes de rádio e televisão.

Vimos como essa falsa conversão dura menos de 24 horas para o presidente e em seguida sintoniza com o chamado “gabinete do ódio”, e multiplicado pelas redes sociais dominadas pelo seu pequeno grupo de seus seguidores mais fanáticos.

Daí a responsabilidade dos militares presentes no Governo, que deveriam entender neste momento que nem eles são mais capazes de fazer mudar a índole psicológica do ex-capitão Bolsonaro nem de conter seus arroubos autoritários. Não é um paradoxo que, na esperança de que o Brasil possa continuar sendo uma democracia sem ameaças contínuas de golpes autoritários, o país esteja hoje nas mãos dos militares?

Que a democracia conquistada no Brasil com dor e lágrimas depois da ditadura militar esteja hoje ameaçada pela personalidade totalitária do presidente já não é um segredo. Como tampouco o é que o presidente continue defendendo e exaltando a ditadura e a tortura, algo que o melhor do Exército, especialmente os mais jovens, hoje rejeitam e desejam esquecer, como soube esta coluna de testemunhas nos quartéis.

Esses ímpetos absolutistas do presidente só poderiam ser paralisados pelos importantes militares que continuam em seu Governo e que se equivocariam se pensarem que são capazes de detê-lo. Eles deveriam entender que, na realidade, o presidente já não governa.

Quando os militares decidiram entrar em um Governo saído das urnas foi dito que era uma maneira de mostrar que eles respeitariam a democracia e a Constituição.

Portanto, a esperança de que Bolsonaro renuncie a um poder que já não consegue exercer não passa tanto pela longa e complexa liturgia do impeachment ou pelas formas jurídicas de demissão forçada, mas pela esperança de que os militares sejam capazes de convencê-lo a se retirar para o bem da nação.

Depois da ditadura, os militares brasileiros deram provas de ter abraçado os valores da democracia e aceitado a Constituição. E assim foi entendido pela opinião pública, que, segundo as pesquisas, considera o Exército uma das instituições mais confiáveis do país.

São horas difíceis e perigosas para um país da importância do Brasil no xadrez mundial e, embora possa parecer um paradoxo em um país sul-americano, hoje a resolução da crise de Governo por que o país está passando, e que flerta com os tempos sombrios do autoritarismo, recai nas mãos dos militares.

Seria trágico se hoje a opinião pública brasileira também perdesse sua confiança nessa instituição se ela se mostrasse incapaz de deter os arroubos messiânicos e autoritários do presidente capitão aposentado, que muito jovem foi expulso do Exército. E que hoje ameaça até os generais de seu Governo, lembrando-lhe que agora o presidente é ele e somente ele.

O Brasil vive um daqueles momentos históricos em que um erro de cálculo pode arrastar o país para uma aventura da qual um dia terá de se arrepender.

Quarentena

A quarentena continua e, por esta altura, já sabemos que será muito mais longa do que se podia prever. Estamos em confinamento há muitos dias e, se há coisas que se aligeiraram pela força do hábito, outras pesam mais agora, pelo cansaço e pelas reflexões que o tempo maturou.

Para nós, as últimas semanas têm sido bastante serenas, apesar de não termos trabalho nem previsão de voltar a ter. Já nos cancelaram a agenda até ao final de junho e, além da possibilidade de cancelarem ainda mais, há muito que não se marcou por estar tudo suspenso. Ou seja, não é só a agenda que se perde, é também a que não se marca, nesta incerteza que paralisou tudo. Estamos preocupados, obviamente, mas sobretudo pelas nossas equipas, pelas agências, pelos colegas. É que a sorte de termos conseguido poupar dinheiro para tempos difíceis tem permitido menos angústia familiar, mas essa não é, infelizmente, a realidade da maioria dos trabalhadores do setor da cultura.

A romantização da quarentena (como se lê em muitas janelas espanholas e italianas) é, de facto, um privilégio de classe. Estar em confinamento sabendo que a cada dia que passa o dinheiro está mais perto de esgotar, que o negócio está mais perto de falir, e que as obrigações estão mais perto do prazo de pagamento, é muito diferente de estar em casa com o salário garantido. A angústia de estarmos a viver uma pandemia, com todos os medos que isso acarreta, somada à angústia da falência iminente e da crise económica que se aproxima, faz da quarentena toda uma outra experiência.

Assim como é muito diferente estarmos em confinamento numa casa espaçosa, confortável, com espaço exterior, equipada com televisão, internet e com livros à disposição, do que estarmos, como acontece agora em todas as favelas brasileiras, amontoados numa assoalhada com toda a família, em condições de grande precariedade e sem acesso às mais básicas condições de salubridade.

É diferente estarmos de quarentena aproveitando o tempo, serenamente, para ler, arrumar a casa, ver filmes e cozinhar alegremente, do que ser uma mãe sozinha com filhos pequenos e em teletrabalho. Sem mãos a medir, acumulando a lida doméstica, o emprego que não se pode perder e a gestão dos filhos sempre em casa e com obrigações escolares a cumprir.

É diferente estarmos de quarentena em família, usufruindo do convívio para amenizar o confinamento, ou estar completamente só, durante semanas ou meses, isolado de quem mais se ama e exposto a esta gigante provação à saúde mental. Assim como é diferente estarmos em paz e em segurança, ou sob violência física e psicológica, como tantas mulheres para quem a casa não é um lugar seguro e que agora são obrigadas a estar em confinamento com o seu agressor, 24 horas por dia.

É também muito diferente estarmos em isolamento profilático, saudáveis e funcionais, ou estarmos doentes, com este vírus ou outra maleita qualquer, inseguros se devemos ir ou não às urgências, tendo de esperar muitas horas por um atendimento telefónico, aguardando análises ou exames cada vez mais difíceis de conseguir, e num momento de grande sobrecarga dos equipamentos de saúde.

A quarentena é um tempo em que a nossa condição se agiganta. Estamos confinados mais do que nunca às nossas circunstâncias. O corpo, a casa, a família e a nossa condição financeira são determinantes para definir os impactos que este momento histórico pode ter nas nossas vidas. E apesar de ninguém estar imune ao vírus, a nossa idade, a nossa saúde, as nossas condições de vida e a nossa capacidade de gerir emocionalmente a própria experiência de confinamento e de doença são diferentes e podem, de facto, fazer a diferença. Por tudo isto, é importante que o nosso sentido comunitário se agigante também, pois só assim podemos partilhar os privilégios e amenizar o peso que, sabemos, tende a pender sempre para o lado mais frágil.
Capicua

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O melhor de Bolsonaro na pandemia é sua ausência na gestão da crise

A reversão da demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na semana passada deu a impressão de que Jair Bolsonaro havia se tornado uma espécie de rainha da Inglaterra com menos experiência militar relevante. A jovem Elizabeth de Windsor, como se sabe, foi mecânica de caminhões durante a Segunda Guerra Mundial.

Parece ter havido um esforço coordenado entre os brasileiros de bom senso para manter Bolsonaro isolado até o fim da pandemia. Congressistas, militares, ministros do STF e mesmo alguns ministros do próprio governo parecem ter atuado para impedir que o presidente da República sabotasse o esforço dos governadores para achatar a curva de contágio.

Se o Brasil sobreviver à epidemia, vai ser graças aos esforços dessa turma.

Mas ainda há um risco grande de tudo dar errado. Porque não basta que o presidente da República não atrapalhe. No sistema brasileiro, é preciso que ele trabalhe, pois há coisas que só ele pode fazer.


Bolsonaro, que fique claro, continua atrapalhando o máximo que consegue. Vai às ruas para sinalizar que o isolamento é desnecessário, conspira abertamente contra o próprio ministro da Saúde, vende para seu público as mentiras vagabundas de Osmar Terra. Fala em “isolamento vertical”, mas, na hora de dizer como os velhos seriam isolados, diz que é problema das famílias. Compra briga com os chineses, grandes produtores de material médico de que precisamos desesperadamente.

No fundo, a mensagem de Bolsonaro para os doentes e parentes das vítimas é a mesma de Augusto Heleno para os congressistas um mês atrás. Bolsonaro não trabalha 15 minutos por dia para combater a epidemia. A revista britânica The Economist citou Bolsonaro como um dos quatro líderes mundiais que menosprezam a ameaça da Covid-19 (os outros são os ditadores de Nicarágua, Belarus e Turcomenistão).

Tão trágica quanto o discurso e o exemplo do presidente da República é sua omissão nas áreas em que só o Poder Executivo pode agir. É o caso da economia.

Bolsonaro gasta seu tempo brigando com os governadores enquanto deveria estar liderando a conversão da indústria nacional em produtora de máscaras, remédios, respiradores. Ao invés de fazer lives com propaganda de remédio, deveria ter pressionado pela liberação mais rápida da renda básica emergencial.

Estudo do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas, mostra que as medidas tomadas até agora, por mais importantes que tenham sido, não são suficientes para preservar a renda dos brasileiros. O Brasil ainda não conseguiu garantir aos trabalhadores brasileiros a capacidade econômica de ficar em casa durante o isolamento, e isso é tarefa para a Presidência.

A iniciativa, a ousadia, a visão de longo prazo e a cobrança de eficiência que estão faltando à equipe econômica deveriam estar vindo do Planalto. Mas o Planalto não tem outro plano senão a volta ao trabalho e a aceitação da mortandade em massa. Resta torcer para que Guedes ou alguma coalizão de ministros assuma as rédeas do processo e escape da sabotagem presidencial.

De Jair Bolsonaro, o melhor que se pode esperar continua sendo a ausência. Ele é isso aí, o exato oposto do líder de que o Brasil precisa agora.
Celso Rocha de Barros

Morrer sozinho é desumano

Quem vai segurar a mão na hora da despedida derradeira? Quem dará o último beijo? Quem vai pronunciar as últimas palavras de conforto? Quem irá cerrar as pálpebras? Em tempos de pandemia de coronavírus ficou difícil responder essas perguntas. Muitas pessoas no leito da morte estão isoladas. Sem família e sem amigos, sem carinho e sem ternura. Elas deixam a vida sem poderem se despedir.

A morte solitária é uma das consequências da proibição de visitas a hospitais e lares de idosos imposta na maioria dos países afetados pela pandemia. É difícil imaginar algo mais desumano. Priva os pacientes, especialmente aqueles à beira da morte, de seus últimos instantes de alegria, de seus últimos desejos, de seus últimos anseios.

Ver a filha ou o filho por uma última vez? Abraçar o neto? Segurar a mão do parceiro e sentir o carinho em seu olhar? Saber que seu melhor amigo mais uma vez está do seu lado? Não foi para isso que muitos pacientes suportaram toda a dor e terapias?


A proibição de contato é uma tortura também para os familiares. Eles não puderam estar presentes quando o ente querido tanto precisava deles. Não puderam demonstrar seus sentimentos e afeto, agradecer por uma vida em conjunto nem dar ou receber conforto. Essa sensação dolorosa certamente acompanhará muitos pelo resto de suas vidas.

Por mais importante e correta que seja do ponto de vista epidemiológico, a proibição de visitas é um sinal de desumanidade em meio à crise do coronavírus, que, aliás, não pode ser combatida sem amor e solidariedade.

É claro que é correto e importante que tudo seja feito para proteger os doentes nos hospitais ou para proteger os idosos nos asilos do risco de uma contaminação.

No entanto, o isolamento dos idosos e outros doentes deve valer só até o leito de morte. É uma questão de encontrar um meio termo entre duas questões legítimas: proteger de uma infecção pelo coronavírus e evitar a morte em isolamento social.

Na Alemanha, muitos lares de idosos e hospitais tentam reagir, abrindo exceções e permitindo que as pessoas à beira da morte se despeçam dos familiares. No entanto, a implementação ainda é um problema em muitos lugares, e pacientes de covid-19 gravemente doentes em geral já nem podem mais receber visitas.

Mesmo que o vírus seja difícil de controlar, uma despedida digna também deveria ser possível em tempos de coronavírus. Talvez sejam possíveis testes rápidos para os visitantes? Talvez haja mais roupas e máscaras protetoras à disposição, também para os familiares que querem se despedir de seus entes queridos?

Eu me inclino perante todos os médicos, enfermeiros, religiosos e agentes funerários, e, acima de tudo, perante todas as famílias afetadas, que a cada dia tentam demonstrar humanidade no meio da crise do coronavírus e, por isso, suportam uma carga inimaginável.

Eles percorrem a Via Dolorosa que todos os cristãos evitarão nesta Páscoa por temerem uma contaminação. Eles mostram que a humanidade às vezes está acima das proibições. E que a vida pode celebrar a ressurreição.

Braço forte, mão amiga

Bolsonaro é um dos quatro líderes mundiais que ainda subestima a ameaça do coronavírus à saúde pública, ao lado dos presidentes autoritários da Nicarágua, Bielorrússia e Turquemenistão
The Guardian

Bolsonaro é descartável – nós, os idosos, não

Sinto-me bem aos 70 anos de idade, a quatro meses de completar 71. Há 7 anos ganhei duas pontes safena e uma mamária pelos mãos do cirurgião Fábio Jatene e aos cuidados do cardiologista Roberto Kalil. Nada de cloroquina. Só agora começo a ouvir falar dela como a droga dos sonhos de Bolsonaro.

Trabalho, em média, 16 horas por dia. Se você faz o que gosta, trabalhar não cansa. Estou acima do peso. E fumo dois charutos por dia, o que não deveria. Não me exercito com regularidade, apesar dos apelos do meu filho mais velho. Mas quando vou à academia, pedalo quase 7 quilômetros em 30 minutos.


Vivo em paz com minha mulher, com meus três filhos e seis netos. Ai deles se faltarem ao almoço dominical obrigatório. O almoço foi suspenso e deixei de vê-los há pelo menos 30 dias. O confinamento não me faz mal – salvo por não poder reunir a família. De certa forma, vivo confinado desde que inaugurei este blog há 16 anos.

Não arredarei o pé de casa até que me convença de que o perigo passou. Mesmo assim penso em fazer como soldados japoneses que continuaram lutando a 2ª Guerra Mundial décadas depois de ela ter terminado. Não seria uma má ideia, uma vez que isso não implicaria em me desconectar do mundo, por impossível.

Mas a propósito do que resolvi escrever sobre mim mesmo, o que raramente faço? Para dizer que mesmo fazendo parte do grupo mais vulnerável ao coronavírus não autorizo ninguém, muito menos Jair Bolsonaro, a me tratar, e aos demais da minha idade e nas mesmas condições, como mercadoria descartável.

Perfeitamente descartável seria ele, um aventureiro que se elegeu presidente sem dispor do mínimo preparo para o cargo. Que não tem e nunca teve uma proposta de governo para chamar de sua. E que diante do seu primeiro e grande desafio desde a posse, vaga por aí perplexo, amalucado, sem saber direito o que fazer.

Está cercado por ministros medíocres à sua imagem e semelhança, salvo honrosas exceções. E desesperado ao ver que poderá ir pelo ralo a única ideia que teve e persegue com obstinação: a de se reeleger em 2022. Vive para isso e para mais nada. Pois deveria se cuidar porque nem mesmo seu atual mandato está seguro.

A não ser capaz de reinventar-se, dificilmente governará o país por mais dois anos e meio. Não se tira presidente em meio a uma pandemia, concordo. Mas se tira depois que ela passar, depois que se avalie sua responsabilidade por tudo que aconteceu e depois que as panelas emudeçam e as ruas comecem a falar.

Os militares, 21 anos depois, voltaram aos quartéis sem que o país sofresse forte abalo. Dois presidentes da República foram depostos, dois ex-presidentes foram presos, e a democracia seguiu em frente. Por mais que Bolsonaro tente enfraquecê-la, Congresso e Justiça têm resistido a todos os seus arreganhos. E assim será.

Ou baixa a bola e vira um presidente mais ou menos normal, o que, convenhamos, exigiria muito dele, ou irá para o olho da rua, o que parece ser seu destino. E página virada.

Brasil socorre 'doentes'


'Quovadis-19?'

Eu, na minha pessoa, pessoal e intransferível, Agamenon Mendes Pedreira, o jornalista mais inativo em atividade no Brasil, continuo resistindo ao coronavírus. Inclusive dando furos. Poucos sabem, mas fui eu o primeiro jornalista a dizer que “fui eu o primeiro a dizer” e também fui o primeiro a declarar “esta semana vai ser a pior”.

Já enfrentei muitas tragédias, inclusive a gripezinha espanhola, uma moléstia que começava entre os seios das mulheres do sexo feminino. Também sobrevivi a todos os governos que sugam o sangue dos brasileiros muito mais que o mosquito da dengue, este injustiçado e que, agora, por conta da COVID-19, zumbe em completo ostracismo, coitado.

Estou fazendo tudo que mandam os médicos, especialmente o Dr. Dráuzio Varíola, que me confidenciou que “COVID-19 no Carandiru dos outros é refresco”.

O Papa Francisco em pessoa ligou direto para o Vaticano para me informar que está fazendo uma revisão completa da Bíblia Sagrada de cabo a rabo. Além de reescrever o Apocalipse trocando o 666, o número da Besta, pelo 17.

O Sumo Pontífice também está reescrevendo os Evangelhos, principalmente aquela passagem em que o Pôncio Pilatos lava as mãos. O novo texto sagrado não só absolve o tribuno romano de omissão como também recomenda seguir o exemplo do governador da Judeia: lavar as mãos obsessivamente com água e sabão, sem esquecer o álcool em gel. Por falar nisso, parem de dar esmola pra mendigo que eles acabam gastando tudo em álcool gel para encher a cara, as mãos e outras partes remotas de sua anatomia pedinchona.

É claro que este não é o meu caso, já que parei de beber (e comer) faz tempo. Além do mais, álcool em gel e máscaras protetoras sumiram das prateleiras assim que se tornaram obrigatórios, fato comum no Brasil onde os “riscos” ficam cada vez mais “riscos” e os pobres cada vez mais pobres.

E já que estamos nessa vive de trocadilhos infames, o ministro Manetta avisou que quem tiver mais de 60 anos e ganhar mais de 1000 salários mínimos vai fazer parte do “grupo de ricos”, com direito a UTI e respirador artificial particular.

Cloroquina então, nem pensar. O milagroso medicamento virou uma espécie de caviar malossol do tipo beluga, tanto que que não é mais vendido em farmácias, mas pode ser encontrado nas lojas H. Stern e na Deli Gil da Cobal do Leblon.

E fica a pergunta que não é de um milhão de dólares mas de 600 reais: cadê o meu Bolsa Vírus? Onde vou pegar essa grana? Para provar que sou um desassistido desabonado, já pedi um atestado d’O Antagonista comprovando que nunca me foi pago um tostão pelos meus textos. Para assinar o documento, o meu amigo Diogo Mainardi me cobrou 200 euros, em quatro prestações de 50 sem juros no cartão. Claro que não vou pagar.

Aliás, na fila para se cadastrar como miserável, encontrei atrás de mim um juiz do STF e na minha frente o presidente de um grande banco. Todos respeitando a distância higiênica de 3 metros.

Só não entendo uma coisa: essa campanha de que nenhum brasileiro pode ir pra rua. Como assim? Há tempos que mais de 13 milhões já foram mandados pra rua e de lá não tem mais pra onde ir.
Felizmente também existem as boas notícias e a humanidade continua surpreendendo. Por conta da pandemia, a picaretagem não acabou. Ao contrário, está cada vez mais forte e vigorosa comprovando que é imune ao coronavírus.

Todas as empresas (até os bancos! Pasmem!) viraram bonzinhos e solidários. Mesmo as séries da Netflix ficaram boas de uma hora pra outra. Enquanto isso, o lixo cultural está se acumulando nas ruas porque os lixeiros também resolveram fazer home office.

Por falar em home office, a minha patroa, a Isaura, já adotou essa nova prática de exercício profissional: continua servindo a sua famosa rabada para os entregadores de delivery, técnicos da NET, leiteiros e padeiros, que fazem uma fila para serem atendidos também obedecendo rigorosamente os 3 metros de distância profilática.

Atenção: leiam cuidadosamente estas mal traçadas linhas porque eu sempre fiz questão de dar a última palavra: ZWINGLIANO.

Podem checar no dicionário.
Agamenon Mendes Pedreira já tomou 6 doses da vacina antigripe porque é “de grátis” 

Gripezinha de 'arrependimento'

Se arrependimento matasse... Nunca matou. está mais para "gripezinha" do que para coronavírus. É não ter o que falar da própria burrice, ou do egoísmo, da desigualdade de classe, da falta de cultura poítica, da inteligência microscópica e da própria insignificância.

O "bolsonarismo arrependido" é uma mascarada. Em preces para excomungar o coronavírus de casa, esconde no armário aqueles ideais de autoritarismo e de segregacionismo, e no sangue a desigualdade social, racial e de gênero. É mau caráter de berço que aplaude qualquer Sassá Mutema como ovacionou Collor e se prestou nacionalisticamente para cantar "Pra frente Brasil", quando nas prisões ditatoriais baixavam no pau-de-arara inocentes que apenas cometeram a condenação da ditadura.

Os "arrependidos" queriam o fim da corrupção para livrar o país da praga, elegendo quem usava laranjas e fazia escancaradamente rachadinha em gabinetes políticos. Para a limpeza ética, convocaram os igualmente sujos. E fiéis seguidores da milícia, usaram a tropa para arrebanhar votos.

Aplaudiram os planos mágicos de uma economia de privilégios ao dinheiro para quem o país melhoraria se os fundos de proteção ao trabalhador fossem limpos, seus salários achatados. Como agora, defendem a redução salarial nas empresas com a redução do trabalho, mas descartam qualquer medida idêntica na privilegiatura do serviço público.

Os "arrependidos", diante da pandemia, são a cara daqueles alemães das cidades próximas levados pelo Exército norte-americano para conhecer os campos de concentração bem debaixo de seus narizes. Faziam cara de horror, punham lenço no nariz para tapar a podridão, e na cara de pau diziam desconhecer as atrocidades contra os judeus. Mas as suas cidades muitas vezes eram cobertas de fumaça de cheiro estranho (carne e osso queimados) e fuligem dos crematórios funcionando dia e noite.

Se arrependimento matasse para valer, ao menos serviria para fazer uma limpeza com milhares de suicídios por vergonha na cara. No Japão, o seppuku é a solução dos verdadeiramente envergonhados por mancharem a honra dos ancestrais e familiares em crimes como corrupção ou improbidade administrativa.

Quem acredita que isso aconteceria no Brasil? Resta apenas o arrependimento de carteirada. Em redes sociais e na própria mídia, multiplica-se esse vírus da falta de vergonha, que felizmente não pega, mas é cúmplice por mais que queira se esconder agora entre os mortos, os doentes, os necessitados e todo o sofrimento.
Luiz Gadelha

O bêbado e a borboleta

No livro "O revólver que sempre dispara" (Casa Amarela), Emanuel Ferraz Vespucci analisa as causas, os comportamentos e as consequências para a saúde de diversas dependências químicas, inclusive o alcoolismo e o tabagismo. É um livro despido de preconceito e, do ponto de vista clínico, como não poderia deixar de ser, serve de referência para os que lidam com o problema: usuários em busca de tratamento, seus familiares e terapeutas. O livro explica de maneira clara como as diversas drogas causam dependência física e psicológica, os problemas que acarretam e as maneiras de enfrentá-los, sem moralismo. A perda de controle sobre o álcool, a cocaína, o crack, a maconha, morfina, calmantes, inibidores de apetite e outros psicotrópicos é um problema muito mais amplo do que se imagina.

A dependência funciona como uma roleta russa. Em algum momento a bala que está no cilindro do revólver será disparada, na medida em que o sujeito arrisca mais uma vez. Ou seja, o acaso tem um limite, quanto maior a frequência, maior a probabilidade de ocorrência. Por causa da dependência, algo grave acontecerá na vida da pessoa, pode ser um acidente de carro, a perda do emprego, um surto psicótico, um infarto.

O que interessa aqui é a analogia da roleta-russa, ou seja, do revólver que sempre dispara. Durante a pandemia de Covid-19, por causa do risco de contaminação, sair de casa é uma espécie de roleta russa, mesmo que a pessoa utilize máscaras e luvas. Acontece que o presidente da República — com o objetivo declarado de desmoralizar a política de distanciamento social preconizada pelas autoridades médicas, inclusive seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e responsabilizar governadores e prefeitos pela recessão econômica — resolveu sair às ruas com frequência e, nesses passeios, visitar o comércio local para estimular proprietários e consumidores a manterem uma vida normal. Bolsonaro ignora uma epidemia que está matando mais de 100 pessoas por dia no Brasil, o equivalente a um desastre de grandes proporções.


Desafiar o novo coronavírus se tornou uma espécie de obsessão para o presidente, que se comporta como quem adquiriu imunidade contra a doença, como acontece com aqueles que já foram contaminados, se recuperaram e adquiriram anticorpos ou que, por qualquer outra razão, têm uma sistema imunológico mais robusto, geralmente mais jovens. Não se sabe se o presidente está imunizado; ele se recusa a revelar os resultados dos exames que fez. Bolsonaro age como um jogador compulsivo, o que não deixa de ser uma dependência, sem levar em conta que a maioria das pessoas não está preparada para lidar com o aleatório.

É aí que chegamos a "O andar do bêbado" (Zahar), o instigante livro do físico Leonard Mlodinow, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, sobre o acaso na vida das pessoas, ou melhor, sobre como funciona a aleatoriedade. O novo coronavírus se multiplica como um “Efeito Borboleta”, descoberto em 1960, pelo matemático Edward Lorenz, base para a Teoria do Caos. Mostra como pequenas alterações nas condições iniciais de grandes sistemas podem gerar transformações drásticas e significativas.

Lorenz, que também era meteorologista, realizava cálculos relacionado a padrões climáticos num computador. Em vez de colocar 0,000001, conforme fez na primeira vez, ele colocou 0,0001, alterando completamente o resultado da simulação, como se o bater de asas de uma borboleta na Austrália provocasse um furacão no Caribe. Foi o que aconteceu com o coronavírus na Alemanha e na Coreia do Sul, países que mais bem monitoraram a epidemia e conseguiram mantê-la sobre controle, com testes em massa e hospitalização dos contaminados. No primeiro caso, bastou que uma pessoa contaminada usasse o saleiro num almoço de família para a epidemia se propagar; no segundo, um único paciente, de 30 casos confirmados, escapou do isolamento e disseminou a doença.

Na Sexta-feira da Paixão contabilizamos 1.056 mortes e 19.638 casos confirmados, 44 dias após o primeiro caso registrado no país e 24 dias depois do registro da primeira morte. São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas estão em risco de colapso do sistema de saúde pública. Numa hora em que o país precisa de coesão social e alinhamento das políticas de combate ao novo coronavírus, para evitar o colapso do sistema de saúde, Bolsonaro aposta na auto-imunizaçao pelo contágio e num medicamento de eficácia limitada nos tratamentos, a hidroxicloroquina, para evitar as mortes, e prega a retomada imediata das atividades econômicas, com adoção do chamado isolamento seletivo ou vertical. Essas apostas foram feitas em outros países, como os Estados Unidos, Inglaterra e Japão, e fracassaram.

'Nautilus' para navegar nestes tempos


Uma loteria macabra

Estranho quem ainda não acredita no poder letal do Covid-19 como se fosse – como se alguém pudesse ser – totalmente imune a ele neste momento entre os mais terríveis da história recente da humanidade. Aposto que apostam em ficarem ricos nas loterias onde realmente a chance de ganhar é uma entre muitos milhares, milhões. Nela acreditam; até pagam por isso. A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, e que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias
Tenho tido terríveis crises de ansiedade, que culminam com palpitações, dores de cabeça, pensamentos desencontrados e preocupados, medos e angústias, além de uma revolta especial com ignorantes, que antes até conseguia suportar com alguma paciência, mas que hoje atingem também a minha saúde. Começo com essa afirmação porque creio firmemente que o momento é de sermos sinceros uns com os outros, trocarmos ideias, sensações. Que a gente ponha para fora o que sentimos, em prol até de ao menos mantermos um mínimo de sanidade mental. Estamos – e agora a expressão parece fazer sentido – dentro de caixas, nossas casas, isolados. E mesmo que não totalmente sós me parece que nunca vivemos de tal forma bruta essas sensações todas e elas são totalmente individuais. Difíceis de serem descritas, mas que atingem e por mais que queiramos nos fazer de fortes.

Como você está? – pergunto. Embora não possa ajudar muito e a cada dia esteja mais claro que não temos a menor noção do que realmente ocorrerá nem na hora seguinte, nem no dia seguinte, nem quanto tempo levará. Os inimigos se multiplicam, além do contágio: os boletos chegando, empregos partindo, notícias de um mundo todo em looping contando diariamente mortos às centenas, e especialmente aqui no Brasil a ameaça constante de um governante absolutamente alucinado atrapalhando o serviço de quem está na linha de frente: seus próprios ministros, autoridades em saúde, profissionais, cientistas, imprensa.


Aqui não se trata mais – incrível – de aversão, que é total, de política, direita, esquerda, vitória, derrota, mas chamar a atenção para o caminho que as coisas rapidamente tomarão se mantida essa perigosa toada. Um presidente que dissemina notícias falsas, que atiça confrontos, que alimenta um gabinete de ódio formado por seus filhos e aconselhadores do mal, próximos. Um homem incapaz de movimentos de união, mas capaz de provocar e comandar atos e pronunciamentos que, se mantidos, certamente ou levarão a uma insurgência jamais vista ou a uma desumana catástrofe social. Capaz, como o fez agora, de conclamar o país para um jejum (!) religioso quando dele se esperam determinações, sim, mas para acabar com a fome que já faz roncar barrigas entre os humildes, miseráveis, as primeiras vítimas da desorganização nacional empurrada anos a fio.

Não é normal, gente. Algo precisa ser feito, não sei se é possível interdição, camisa-de-força, forçar renúncia ou impeachment. Ou pedir, em uníssono, com panelas, gritos ou o que quer que seja, que se cale. Que deixe em paz quem está no campo da guerra.

Dele não se ouviu até agora uma só palavra de alento, apenas ironias desrespeitando as centenas de famílias já em luto, algumas com várias perdas ligadas entre si.

Dele não se ouviu até agora uma palavra contra os aproveitadores que cinicamente aumentam barbaramente os preços, somem com insumos. Nenhuma de suas ordens veio para acabar com os abusos, ou para proteger quem precisa. Vive apenas de suas próprias alucinações, rompantes, daquela meia dúzia que diariamente vai saudá-lo no cercadinho improvisado do Palácio, criando fatos que alimentam robôs, que por sua vez alimentam a ira dos ignorantes.

Dele não se ouviu até agora nada que preste.

O inimigo é um vírus que se respira, invisível. Ainda indomável e desconhecido, mutante. Nos Estados Unidos já há mais mortes do que no 11 de setembro. Aqui já há mais mortes do que em quedas de Boeings, barragens rompidas, desabamentos, enchentes. É mais do que uma guerra, necessitando armas diferentes, e guerras não escolhem idades. Todos atingidos – inclusive o bem maior, a liberdade.

A situação ainda está em andamento, advertem os especialistas de todo o mundo que buscam correr para conter, evitar o pior quadro que se aproxima, mais crítico ainda em vários locais onde líderes ousaram desafiar a realidade e que agora apenas correm para não serem julgados pela História como genocidas.

Precisamos continuar no jogo. E para isso marcarmos e seguirmos os passos corretamente, para que não saia ainda mais cara essa loteria em que estamos metidos. Vamos ganhar esse jogo. Todos nós. Dividiremos o prêmio da vida.

Marli Gonçalves

Cenas de uma pandemia de 1.500 anos atrás que se repetem hoje

Uma pandemia que chegou do estrangeiro e que se espalhava rapidamente dos portos onde chegavam os passageiros infectados ― assintomáticos ou não ―, sem nenhum medicamento que pudesse pará-la, todos os habitantes confinados em suas casas para evitar contágios, a paralisação total da economia, o exército vigiando as ruas, médicos infectados trabalhando à exaustão, milhares de mortos diários sem enterrar durante “muitos dias porque os que cavavam já não davam conta...”. Não é a crônica do coronavírus que afeta o mundo em 2020. É o relato feito por Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que assolou o mundo conhecido entre 541 e 544: da China às costas da Hispânia. O estudo La plaga de Justinià, segons el testimoni de Procopi (A Praga de Justiniano, segundo o Testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, devolveu à atualidade esse relato de 1.500 anos atrás, com moral da história. “Em 1 de abril de 2020, determinadas semelhanças e paralelismos do comportamento humano frente a um vírus e suas consequências nos parecem tão próximas e atuais que, apesar da tragédia que estamos vivendo em primeira pessoa, nunca podemos deixar de nos maravilhar de como a história se repete” escreve a arqueóloga e historiadora do Institut de Recerca en Cultures Medievals (Instituto de Pesquisa em Culturas Medievais).


Em 541, durante o reinado do bizantino Justiniano, explodiu um surto de peste bubônica no império. “O alarme surgiu no Egito, onde a infecção se expandiu de modo rápido e letal”. Procópio falou sobre isso em seu livro História das Guerras, no qual relatou as campanhas militares de Justiniano pela Itália, África do Norte, Hispânia... e como os soldados espalhavam a pandemia pelos diversos portos em que chegavam, fundamentalmente da Europa, África do Norte, o Império Sassânida (Pérsia) e, de lá, à China.

Procópio, como conselheiro do general bizantino Belisário, a quem acompanhou em suas campanhas, se transformou assim em “testemunha privilegiada” de uma pandemia que recebeu o nome de praga de Justiniano: “Foi declarada uma epidemia que quase acabou com todo o gênero humano da qual não há forma possível de dar nenhuma explicação com palavras, sequer de pensá-la, a não ser nos remitir à vontade de Deus”, escreveu o historiador bizantino. “Essa epidemia”, continuou, “não afetou uma parte limitada da Terra, um grupo determinado de homens e se reduziu a uma estação concreta do ano [...], e sim se espalhou e se alimentou em todas as vidas humanas, por diferentes que fossem as pessoas das outras, sem excluir naturezas e idade”. Desse modo, a doença não tinha limites, “até aos extremos do mundo, como se tivesse medo de que algum recanto escapasse”.

Um ano após ser detectada, a peste chegou à capital do Império, Bizâncio (atual Istambul), “assolando-a durante quatro meses”. “O confinamento e o isolamento eram totais”, descreve Sales Carbonell, “já que era mais do que obrigatório aos doentes. Mas também se impôs uma espécie de autoconfinamento espontâneo e intuitivamente voluntário para o restante, em boa parte motivado pelas próprias circunstâncias”. De fato, “não era nada fácil ver alguém nos locais públicos, pelo menos em Bizâncio, uma vez que todos os saudáveis ficavam em casa, cuidando dos doentes e chorando os mortos”, de acordo com Procópio. E o faziam “com roupas comuns, como simples particulares”, o que a historiadora da Universidade de Barcelona traduz com certa ironia “como o moletom da época”.

A economia, enquanto isso, desabou: “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todos os empregos e os trabalhos dos quais se ocupavam”. Mas ao contrário de hoje em dia, as autoridades foram incapazes de organizar serviços essenciais. “Parecia muito difícil conseguir pão e qualquer outro alimento, de modo que, para alguns doentes, o desenlace final da vida foi sem dúvida prematuro, pela falta de artigos de primeira necessidade”, escreveu o bizantino em História das Guerras. “Muitos morriam porque não tinham quem cuidasse deles”, já que as pessoas responsáveis pela emergência “caiam esgotadas por não poder descansar e sofrer constantemente. Por isso, todos se compadeciam mais delas do que dos doentes”.

Justiniano, pela situação desesperada, distribuiu “pelotões de guardas do palácio” pelas ruas e nomeou seu chefe de gabinete autorizado, que “com o dinheiro do tesouro imperial e até colocando de seu próprio bolso sepultava os corpos dos que não tinham ninguém que os ajudasse”. O próprio imperador se infectou, mas superou a doença e continuou governando durante mais uma década.

Os picos de mortalidade subiram de 5.000 a 10.000 vítimas por dia, e até mais. De tal maneira que, “ainda que em um primeiro momento cada um se ocupava dos mortos de sua casa, o colapso e o caos se tornaram inevitáveis e os cadáveres também eram jogados nas tumbas dos outros, às escondidas e com violência”. Mesmo os ilustres, lembra Procópio, “permaneceram insepultos durante muitos dias”, de modo que “os corpos se amontoaram de qualquer maneira nas torres das muralhas”. Não havia cortejos e rituais funerários para eles.

Quando por fim a pandemia foi superada surgiu, lembra a historiadora, um aspecto positivo: “Os que haviam sido partidários das diversas fações políticas abandonaram as críticas mútuas. Mesmo aqueles que antes realizavam ações baixas e malvadas deixaram, na vida diária, toda a maldade, uma vez que a necessidade imperiosa lhes fazia aprender o que era a honradez”, nas palavras de Procópio, ainda que após algum tempo voltaram aos velhos hábitos. “Esse ponto certo de poesia nos faz vislumbrar o otimismo e a esperança de que talvez nos permitam seguir em frente e não voltar a tropeçar novamente na mesma pedra”, finaliza a especialista com mais expectativa do que certeza.

Covid, 2020

Nosso modo de viver
é agora morrer
ou ver morrerem.
Raul Drewnick 

The Economist: 'Jair Bolsonaro se isola, no sentido errado'

Um a um, os negacionistas fizeram as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública que a covid-19 representa. Dois são de destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. O terceiro é Daniel Ortega, ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande - ainda que combalida - democracia. O esforço de Jair Bolsonaro para minar as iniciativas de seu próprio governo no combate ao vírus pode marcar o início do fim de sua presidência.

Desde que o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez no Brasil, no final de fevereiro, Bolsonaro, um ex-capitão do exército que tem adoração pelos governantes militares, fez pouco caso da doença. Menosprezando seus efeitos como “só uma gripezinha”, ele disse que era preciso "enfrentar o vírus como homem, pô, não como moleque”. E acrescentou, num tom bastante consolador: “todos nós vamos morrer um dia”. Nos quinze meses desde sua chegada à presidência, os brasileiros se acostumaram às suas bravatas de machão e à sua ignorância em questões que vão desde a preservação da floresta amazônica até educação e policiamento. Mas, desta vez, o dano é imediato e óbvio: Bolsonaro juntou a retórica truculenta à sabotagem ativa da saúde pública.

Ele diz acreditar no “isolamento vertical”, na quarentena apenas para os brasileiros com mais de 60 anos, com o objetivo de limitar os danos à economia. Existem dois problemas nesse raciocínio. Os jovens também morrem de covid-19 (10% das vítimas no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição de uma quarentena desse tipo seria impossível.

Os governadores dos estados mais importantes do Brasil tomaram a frente e impuseram isolamento social utilizando seus próprios poderes. Bolsonaro encorajou os brasileiros a ignorá-los. Homem que teme traições e sente uma perpétua necessidade de provocar, ele recebeu com abraços e selfies seguidores que faziam uma manifestação contra o Congresso, em 15 de março. O presidente também lançou uma campanha incentivando as empresas a reabrirem as portas e pediu “jejum e manifestações” nas igrejas em 5 de abril. Ele cogitou decretar, ilegalmente, o fim do isolamento. E, por duas vezes, chegou perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, um médico conservador que se opôs publicamente ao clamor do presidente para afrouxar as restrições.

Ao que parece, Bolsonaro está com ciúmes da ascensão de um ministro que, segundo ele, “não tem humildade”.

Mesmo para seus próprios padrões, a recusa de Bolsonaro em cumprir seu dever primordial de proteger vidas foi longe demais. Grande parte do governo o trata como um tio inconveniente que apresenta sinais de insanidade. Os principais ministros, entre eles o grupo de generais que faz parte do gabinete, bem como os presidentes das duas casas do Congresso, deram apoio ostensivo a Mandetta, que também tem a população ao seu lado. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha apontou que 76% dos brasileiros aprovam a maneira como o Ministério da Saúde vem combatendo o vírus. Em comparação, 33% aprovam o gerenciamento da crise por Bolsonaro.

Os clamores pela renúncia de Bolsonaro aumentaram. E não apenas na esquerda, mas também entre alguns de seus antigos aliados, como Janaina Paschoal, deputada estadual por São Paulo que Bolsonaro chegou a considerar para vice na chapa presidencial. Ela disse que o presidente era culpado de “um crime contra a saúde pública” e acrescentou: “não temos tempo para o impeachment”.

Não há dúvida de que as condutas do presidente justifiquem constitucionalmente um impeachment, destino que caiu sobre dois de seus antecessores, Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016. Mas, por enquanto, Bolsonaro mantém apoio público suficiente para sobreviver. Se, à época, as pesquisas apontaram que a maioria era a favor da deposição de Dilma (por violar a lei de responsabilidade fiscal para ganhar a reeleição), 59% dos brasileiros disseram ao Datafolha que não querem que Bolsonaro renuncie. O índice de aprovação de Dilma girava em torno de 10%; Bolsonaro mantém o apoio de um terço dos eleitores. Poucos em Brasília acreditam que o país queira ou possa arcar com a turbulência de um impeachment enquanto se vê tomado pela covid-19.

Bolsonaro é sustentado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos (entre eles, três de seus filhos), pela fé de muitos evangélicos e pela falta de informações sobre a covid-19 entre os brasileiros. Os dois últimos fatores podem mudar à medida que o vírus começar a ceifar vidas nos próximos meses. Em 8 de abril, o Brasil contava 14.049 casos confirmados e 688 mortos. E pode ser que o presidente não consiga se isolar da culpa pelo impacto econômico. Por sua imprudência com a vida dos brasileiros, Bolsonaro fez com que sua própria queda entrasse na agenda política. É bem provável que ela permaneça ali mesmo depois do fim da epidemia.