sábado, 1 de fevereiro de 2020

Mercados se tornam parceiros de governo obscurantista

A existência de um mercado forte no Brasil sempre funcionou como uma barreira de contenção a governantes com parafusos a menos. Ou por outra: “Não fale e não faça besteira, ou os indicadores econômicos degringolam, as expectativas se deterioram, o pessimismo aumenta, e tudo se complica”.

É assim, mais marcadamente, desde a redemocratização. A rigor, os estertores do regime militar já traziam os indicadores de mercado a dizer: “Acabou o ciclo; hora de voltar para a casa e deixar que a sociedade se vire”. Em síntese: os mercados atuavam como agentes civilizadores da política.

Ainda que o capital, por si, seja amoral e não olhe a cor dos gatos desde que cacem ratos, o fato é que, há muitos anos, no Brasil, os mercados resolveram apreciar a democracia. Se seus valores são referendados pelas forças políticas influentes, sobe o preço dos ativos; se o contrário, então o contrário. Há muitos anos não é bom negócio especular contra direitos fundamentais e valores civilizatórios.


Um fenômeno, no entanto, se dá com o governo de Jair Bolsonaro — a rigor, manifestou-se já desde a sua candidatura — que consiste num completo descolamento entre a política e a economia. Uma hora, é claro, isso acaba. E muita gente pode ser surpreendida pelo estouro da bolha. Por enquanto, não há sinais de que vá acontecer.

Os indicadores de mercado deixaram de servir de advertência contra destrambelhamentos do chefe. Não importa o número de besteiras que façam o mandatário e seus comandados, o otimismo resiste, como a dizer: “Ah, isso tudo é só política! Danem-se! Não temos nada com isso”.

Conversem com um desses agentes de mercado e peçam que citem, deixem-me ver, três fatores objetivos que justifiquem o otimismo. E vocês vão constatar que as pessoas não têm o que dizer a não ser repetir um elenco de promessas ainda eleitorais, na certeza de que Paulo Guedes vai realizar um milagre — afinal, fingem ser ele o presidente da República, não Jair Bolsonaro.

Deve haver nisso elementos de psicologia social. Esses tais mercados não queriam o PT de jeito nenhum — embora não conseguissem, do seu exclusivo ponto de vista, explicar por que não, já que ganharam dinheiro como nunca na era petista. Os demais candidatos identificados com teses de mercado não emplacaram — Geraldo Alckmin em particular.

E aí sobrou o candidato exótico, com sua impressionante capacidade de dizer asneiras sobre todos os assuntos — e isso incluía os mercados. Ocorre que Paulo Guedes entrava na equação: o candidato, de verdade, para aquele público em particular, seria ele, Guedes, não aquele adulto infantilizado e truculento que fazia arminha com as mãos...

E foi assim que os mercados aprenderam a não dar bola para Bolsonaro e, de modo mais amplo, para a política. Por óbvio, isso só torna mais agudos os nossos problemas e nos conduz ao atraso com mais determinação. Sim, uma hora a bolha estoura. Mas esse é só o contratempo de curto prazo. Há os prejuízos de longo prazo, para os quais Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, chamou a atenção na quarta (29), durante um seminário sobre economia.

Tivessem os tais mercados reagido às coisas estúpidas que já fez o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, por exemplo, e ele já estaria cuidando de seus assuntos privados, e o país certamente estaria recebendo um fluxo maior de investimentos estrangeiros. Guedes sentiu em Davos o peso da repulsa à política ambiental. Bolsonaro teve de tirar da cartola, da noite para o dia, um conselho para tratar da Amazônia e a Força Nacional Ambiental.

A pressão veio de fora. Os nossos caramurus não estavam nem aí. Se o presidente cismar em derrubar metade da Amazônia, o negócio é comprar papeis de alguma madeireira...

É essa alienação da realidade que permite que um Abraham Weintraub continue a produzir atraso histórico a cada hora que permanece à frente do Ministério da Educação, multiplicando ignorância e incompetência. No longo prazo, é um desastre. No curto, rende alguns memes nas redes sociais e ponto.

Os mercados se tornaram parceiros do obscurantismo. Até quando?

A democracia não é mais aquela

Tem muita gente festejando o resultado da pesquisa da Universidade de Cambridge que mostra descontentamento crescente com a democracia em todo o mundo. Segundo a pesquisa, 58% das pessoas entrevistadas em 154 países estão insatisfeitas com este sistema de governo. No Brasil, apenas 20% das pessoas ouvidas aprovam o regime democrático. Os que comemoram este péssimo resultado são aqueles que acreditam que um regime totalitário pode ser mais útil ao país, acreditando que um governo de força acabaria com a corrupção e a violência, entre outros problemas.

A História prova que eles estão enganados, e a pesquisa revela as limitações dos que pensam assim, não importando de que ângulo enxergam o cenário. No Brasil, cidadãos de orientação política de direita estão da mesma forma equivocados sobre a democracia quanto os de esquerda. Aqueles bolsonaristas que aplaudem de modo entusiasmado tanto os acertos do governo quanto seus erros grosseiros e antidemocráticos imaginam que um regime totalitário salvaria o Brasil. Da mesma forma, há lulopetistas que prefeririam um governo centralizador, sem o contraditório, sobretudo sem imprensa, como imaginou um dia José Dirceu.

Supor que um governo não democrático acabaria com a corrupção é o mesmo que acreditar que há democracia na Venezuela e que os generais de Maduro não são os mais corruptos da América Latina. Pensar que um regime fechado terminaria com a violência é tão absurdo quanto ignorar o poder global da máfia russa, a mais cruel e sanguinária do mundo.


A pesquisa mostra que as pessoas não confiam em regimes democráticos em razão dos sucessivos escândalos de corrupção e nepotismo que produziram, sobretudo na América Latina, pela sua incapacidade em lidar com a criminalidade e por se revelarem inúmeras vezes incompetentes na busca de soluções para crises econômicas. O problema não é apenas enxergar a democracia por esta ótica. Mais grave é imaginar que há solução mágica fora dela. No Brasil, por exemplo, a pesquisa demonstra que 37% dos entrevistados acreditam que um golpe militar resolveria os problemas de corrupção e seria capaz de reduzir os índices da violência urbana.

Rematada bobagem. Nostalgia da ditadura brasileira revela não apenas desconhecimento histórico, mas também ignorância antropológica, por ser impossível comparar qualquer dado dos anos 60 e 70 com seus similares de hoje. Para começar, o Brasil de 1970, por exemplo, tinha 93 milhões de habitantes, sendo que 42% viviam na zona rural. Hoje, o Brasil tem 215 milhões, e 85% habitam as cidades. São obviamente dois países distintos. Mesmo os que acreditaram cegamente no regime militar daqueles anos não conseguiriam explicar de que forma ele se cristalizaria em 2020.

No mundo, segundo a pesquisa da Universidade de Cambridge, o desencanto com a democracia cresceu exponencialmente na última década em razão da crise econômica de 2008, por causa da insolúvel crise dos refugiados, em razão da polarização política e pela falta de respostas dos governos em atender questões sociais urgentes. Claro que o regime de governo não é o culpado por estes problemas, mas os entrevistados não pensam assim.

Somam 2,4 bilhões as populações dos países ouvidos na pesquisa. China e Cuba obviamente não foram consultados. Da mesma forma que há quem apoie uma ditadura militar, há também quem defenda o modelo de meritocracia do Partido Comunista chinês, onde os melhores ascendem na burocracia chinesa depois de serem testados em várias instâncias administrativas. Outros acham perfeito o regime cubano, onde escolas e hospitais funcionam melhor que no Brasil e o acesso é universal. Tudo bem, mas tente discordar de uma decisão de um chefe de quarteirão em Havana. E vai ver como funciona o mercado popular de Wuhan.

É hora de solidariedade com a China, não de racismo

Um passageiro chinês começou a tossir a bordo de um voo da Lufthansa de Frankfurt para a China, criando a maior confusão ao seu redor, nesta quarta-feira (29/01). A situação não melhorou nada depois de ele declarar que, duas semanas antes, estivera em Wuhan, a metrópole que é o epicentro do surto de coronavírus e que foi isolada pelas autoridades locais.

A confusão chegou até a cabine. O capitão, porém, permaneceu calmo e seguiu viagem, pousando sem problemas no seu destino. A tripulação e os passageiros das poltronas perto do chinês foram logo examinados. Horas depois veio o alívio: ninguém estava infectado pelo coronavírus.

A rápida propagação desse vírus potencialmente letal deixa gente de todo o mundo insegura. E a ampla cobertura da mídia sensibilizou para o problema. Só que muitas vezes a distância entre sensibilização e reação exagerada pode ser curta: asiáticos tossindo logo viram alvo de olhares ameaçadores, como se todos fossem portadores do perigoso coronavírus 2019-nCov. Em Hamburgo, um deles foi alvo de insultos racistas.

"Ih, você está com o vírus da China?" é uma pergunta comum nestes dias. Basta um nariz escorrendo. A expressão "vírus da China" joga a culpa sobre quem é vítima: a China é o país que mais sofre com o surto e está fazendo um enorme esforço, com uma transparência única, para quebrar a onda de infecções.


Na China, evita-se usar a expressão "vírus de Wuhan" pois estigmatiza toda uma cidade. Não são os moradores de Wuhan que transmitem a doença ou espalham o pânico, mas o vírus, que poderia ter surgido em qualquer lugar do planeta.

Em Wuhan, onde as autoridades aconselham os residentes a não saírem de casa, milhões dão prova de disciplina e sacrificam sua liberdade de ir e vir para que a doença não se espalhe ainda mais. Vídeos mostram moradores de um bairro que se comunicam por megafones em vez de se encontrarem.

A melhor proteção contra uma infecção é lavar as mãos com frequência, é sobretudo assim que se minimiza o risco. Segurança total não existe, muito menos num mundo tão globalizado, em que não só pessoas e produtos, mas também agentes patogênicos, viajam ao redor do planeta em poucas horas.

Afastar-se de indivíduos de aparência asiática não oferece nenhuma proteção adicional. O coronavírus não precisa de visto para entrar num país e não escolhe suas vítimas pelo tamanho do nariz ou formato dos olhos.

Neste momento, a palavra de ordem é solidariedade. Enquanto não se souber exatamente onde o vírus surgiu, de nada servem acusações de culpa, pânico e muito menos comentários racistas sobre supostos hábitos de alimentação e higiene dos chineses.

Pelo que se sabe até agora, o coronavírus não é mais perigoso do que, por exemplo, as ondas de gripe que atingem a Alemanha todos os anos. Vamos, portanto, superar as barreiras emocionais e analisar a situação de forma serena e racional, para chegar a recomendações de ação sensatas.

Em chinês, afinal, a Alemanha se chama De Guo: Terra da Moral.

Dang Yuan

Pensamento do Dia


Bolsonaro troca reforma ministerial por gambiarras

Não é que Jair Bolsonaro acredite na lorota segundo a qual seu ministério, por "eficiente", dispensa reforma. A questão é que o presidente optou por acochambrar. Ultimamente, quando uma peça do primeiro escalão dá defeito, ele instala uma gambiarra. Faz isso especialmente nos casos em que o conserto, para ser definitivo, exigiria o manuseio de um instrumento indisponível na sua caixa de ferramentas: a autocrítica.

Na área do meio ambiente, por exemplo, Bolsonaro só agiu quando o ambiente inteiro já estava conspurcado pelo escárnio governamental. Os maiores fundos de investimento do planeta avisaram: mantido o descaso com a proteção da floresta amazônica, não haveria como investir no Brasil. O ministro Paulo Guedes sentiu o hálito da contrariedade no Fórum Econômico Mundial de Davos, há uma semana.



Em resposta, Bolsonaro anunciou a criação do Conselho da Amazônia e da Força Nacional Ambiental. As novidades serão coordenadas pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Ainda não há clareza quanto à forma, o conteúdo e os custos. Numa evidência de que a iniciativa foi esboçada em cima do joelho, o plano de voo virá depois da decolagem.

Com essa gambiarra ambiental, em vez de substituir o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) Bolsonaro desligou-o momentaneamente da tomada. Uma das primeiras iniciativas de Mourão será a de tentar desobstruir o duto por onde escorriam as verbas milionárias que Noruega e Alemanha aportavam no Fundo Amazônia antes do transe anti-ambiental que se instalou em Brasília.

Na Casa Civil, supostamente comandada por Onyx Lorenzoni, a tática da gambiarra foi levada às fronteiras do paroxismo. Ali, Bolsonaro comportou-se como uma espécie de arquiteto desmazelado —do tipo que, ao ser alertado para os problemas do projeto de uma casa, diz algo assim: "Relaxa, depois a gente bota umas plantas."

Insatisfeito com o desempenho de Onyx, Bolsonaro retirou da Casa Civil o pilar da coordenação política, transferido para a Secretaria de Governo, e a viga do controle jurídico dos atos presidenciais, repassado à Secretaria-Geral da Presidência. A confiança do presidente no seu aliado de primeira hora trincou.

Para esconder a fenda, Bolsonaro mandara pendurar no organograma da pasta de Onyx o PPI, Programa de Parceria de Investimentos. Agora, atendendo a uma reivindicação de Paulo Guedes, determinou que a samambaia do PPI seja transferida para a estufa da Economia. Restabelecida a lógica, a Casa Civil tornou-se uma superestrutura pendurada no ar.

Onyx desfrutava de férias nos Estados Unidos. Estava no Magic Kingdom, o mundo encantado de Disney World. Teve de voltar às pressas. Mal aterrissou no inferno brasiliense, foi logo avisando que não cogita deixar o governo. Ou seja: não podendo elevar a própria estatura, Onyx decidiu rebaixar o pé-direito do seu gabinete.

Neste sábado, Onyx terá uma conversa a sós com Bolsonaro. Nada mudou, disse o ministro a correligionários ao longo da sexta-feira, sem se dar conta de que, no seu caso, nada é uma palavra que ultrapassa tudo. No momento, a Casa Civil é uma espécie de elefante que Bolsonaro eletrocutou sem calcular a dificuldade que teria para remover o cadáver.

Propagou-se no Planalto a informação de que, em nova gambiarra canhestra, Bolsonaro acomodaria a inépcia de Onyx na pasta da Educação, hoje preenchida pela incompetência de Abraham Weintraub.

Na noite passada, horas depois de interromper uma entrevista para não ter que falar sobre o futuro de Onyx, o presidente postou em suas redes sociais uma foto na qual aparece ao lado de Weintraub, seu auxiliar mais "imprecionante". Na legenda, apenas um enigmático "boa noite a todos".
Josias de Souza

As crianças

Se quiserem ser práticos, ao mesmo tempo que derem doces e balas às crianças, abram créditos nas farmácias e nos consultórios para os pais que forem pobres..
Não fui à Festa da Criança. Leio, porém, nos jornais que essa festa excedeu a todas as expectativas. Bendigamos, pois, os corações dos que, durante algumas horas, conseguiram fazer feliz a criança. Mas, deuses do Olimpo, por que martirizar a petizada com dois discursos, como fizeram nessa tremenda festa? Dois discursos e não sei quantos hinos! Às crianças, no dia de sua festa, não se fala. Se se organiza uma festa de crianças, façam-nas brincar à vontade, deem-lhes música, cinema, carrossel e doces em quantidade. Se quiserem ser práticos, ao mesmo tempo que derem doces e balas às crianças, abram créditos nas farmácias e nos consultórios para os pais que forem pobres.... Mas, pelo amor de Deus, nada de discursos. Também já fui criança e detestava os discursos que me falavam da Pátria e de outras coisas desagradáveis. A Primavera é uma figura de retórica muito interessante; mas num discurso, quando somos crianças, a Primavera é pior do que o Verão. E fazer as crianças cantar hinos patrióticos! Há muita gente que dá uma importância supersticiosa aos hinos como inspiradores de patriotismo. É um engano. O francês não tem patriotismo por vir cantando a Marselhesa desde a infância, não; pelo contrário, ele canta a Marselhesa porque é patriota. Quando eu era menino, cantei na escola muitas vezes um hino ignominioso que começa:

Seja um pálio de luz desdobrado
Sob a vasta amplidão destes céus..

Pois até hoje não consegui estimar semelhante cantoria. Em resumo: reunir crianças num teatro para fazê-las ouvir oradores e cantar hinos patrióticos é martirizá-las. Festas de crianças devem realizar-se em parques e jardins, com toda a liberdade de ação e grande quantidade de confeitos. A criança estima acima de tudo estas duas coisas deliciosas: liberdade e açúcar...

Antônio Torres, "Antônio Torres, uma antologia"

Milícia se oficializa

De um lado, as milícias têm recursos e votos para colocar à disposição do sistema político, dos políticos. E os políticos, que é o caso específico no Rio de Janeiro – mas também em outros estados – dão cobertura, blindam essas milícias para que elas continuem atuando.
No limite, as milícias representam um risco à democracia ao entrar na política. E, também, pelo fato de elegerem bancadas do crime. Para representar a população? Não. Mas, sim, para exercer a sua vontade, a sua preocupação que é exatamente de expandir seus lucros criminosos e defender as suas bases criminosas.

Vamos ao coração das trevas: a milícias controla o território. Controlando o território ela controla o voto. Isso quer dizer que ela pode eleger aliados dela, ou então, vai eleger os seus representantes.
Forma-se, então, uma bancada do crime dentro de um Legislativo, seja municipal, seja estadual ou mesmo com representantes no Congresso Nacional
Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa

O preço das epidemias

No ano de 541, uma epidemia mortal começou a espalhar-se rapidamente pelo Mediterrâneo, com consequências terríveis. A “praga de Justiniano”, como ficou conhecida por ter eclodido no reinado desse imperador, matou mais de metade da população europeia e acabou por contribuir para a queda do Império Romano do Oriente. Mais tarde, entre 1347 e 1351, uma outra epidemia, a da peste negra, voltou a assolar a Europa, matando mais de 100 milhões de pessoas, e fez mergulhar o continente numa crise de que demorou um século e meio a recuperar.

Estes dois exemplos históricos e ocorridos no nosso espaço geográfico são a perfeita ilustração de que as pandemias não matam apenas pessoas: elas destroem economias, alteram o modo de vida e condenam gerações. No passado, o contágio era mais lento, embora imparável. Agora, com mais de metade da população a viver em cidades e com meios de transporte acessíveis e rápidos, o perigo de contágio é muito superior e pode tornar-se igualmente tão destrutivo como no passado – com custos insuportáveis tanto em perda de vidas como na economia e no bem-estar das populações.

A mera possibilidade de dezenas de milhões de pessoas na segunda maior economia do mundo poderem ficar de quarentena por causa do surto do coronavírus já fez estalar, por exemplo, os alarmes entre investidores e economistas. O que acontecerá ao comércio mundial se as fábricas do maior exportador do planeta ficarem impedidas de enviar os seus produtos para o exterior? E quais serão as ondas de choque nos países cujas economias estão centradas na exportação de matérias-primas para a China? Por outro lado, se milhões e milhões de chineses ficarem impedidos de viajar, durante um período prolongado, podemos assistir a algo inédito nos últimos anos: a diminuição do número de turistas no mundo.

A boa notícia, tendo em conta a cooperação científica internacional a que se está a assistir, é que esta crise pode funcionar como um alerta para prevenir futuras pandemias e obrigar os governos de todo o mundo a desenvolverem aquilo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) pede há anos: um plano de prevenção e contingência, à escala planetária. Ou seja, um plano em que todos os países saibam o que devem fazer, sem perder tempo, de forma a coordenarem uma resposta à escala global. Segundo a OMS, um programa desse género custaria à volta de um euro por habitante por ano. É muito? A resposta sem plano, como se está a ver, será sempre muito mais cara.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O enigma

Para mim é um verdadeiro enigma a trajetória de Bolsonaro pela vida. Ele já declarou, mais de uma vez, que não nasceu para ser presidente. Que nasceu para ser militar, que ama a farda. Como compreender, portanto, que ele tenha cursado uma academia militar que permitiu que realizasse um sonho para de lá sair varrido depois de muitas quizumbas e implicâncias com seus chefes?

Resolveu então que seria político. Depois de muitos anos como deputado, sem realizar nada pelo Brasil, candidatou-se a presidente da República e como um fenômeno, foi eleito. Isso mesmo, de deputado inepto, como um relâmpago, virou chefe da Nação. E o que mais alimenta minha curiosidade: queixa-se da posição que ocupa e diz que sua vida ficou insuportável depois que foi parar no Planalto.

Para quem vive neste país tão grande com um governo tão minúsculo, esse é um verdadeiro enigma.


Bolsonaro se queixa e nós o que fazemos? Aturamos e vamos em frente à espera de um milagre. Aturamos o quê? perguntam os desmemoriados ou os distraídos. Para esses sugiro a página 3 de O Globo de ontem, um verdadeiro tesouro para os historiadores do futuro.

O jornalista Ascânio Seleme ocupa seu espaço com um “ajuda-memória” que será de grande auxílio para quem for estudar o Enigma. Ele lista os atos e fatos que ocuparam nossas manchetes neste janeiro que hoje finda. Impressiona saber que tudo aquilo ocorreu sem nenhuma consequência imediata para o país.

Consequências virão, é só ter paciência. Nada fica impune neste mundo de Deus.

Seleme só deixou de fora de sua listinha de horrores um comentário fantástico do ex-capitão numa de suas lives absolutamente fakes: “os índios só querem ser como a gente, querem ser humanos”. Se não foram essas suas palavras exatamente, esse é o sentido principal do que ele disse. Pois é.

Também na ótima página 3, a coluna de Luis Fernando Veríssimo. Como sempre nosso maior colunista brilha a ponto de ofuscar nossos olhos. Ele recorda o “Marielle presente” da arquibancada do Sambódromo no Carnaval de 2019. Lembra “o grande silêncio em meio à batucada” sobre o assassinato de Marielle, silêncio que afronta o carioca. Na verdade, Luis Fernando nos faz sentir que Marielle está presente e Moro ausente.

Luis Fernando encerra sua coluna dizendo que espera que, nas arquibancadas da vida, não nos esqueçamos de gritar, sempre, “ Marielle presente!”.

Melhor gritar “Marielle presente e Moro ausente!”. A insistência às vezes provoca milagres.

Tenhamos fé.
Maria Helena RR de Sousa

Melhor, senhor presidente, que os índios se pareçam cada vez menos conosco

O presidente Bolsonaro, em uma frase infeliz e ofensiva aos indígenas, disse que “o índio está evoluindo e cada vez mais é um ser humano igual a nós”. A pergunta que deveríamos fazer, ao contrário, é se não seríamos nós que estaríamos nos tornando cada vez menos humanos e querendo que eles se desumanizem.

A afirmação do presidente Bolsonaro carrega o preconceito de que os índios ainda não são seres humanos como nós e que somente abraçando nossa modernidade, nossa fúria de destruidores e consumistas compulsivos, serão humanos completos em nossas cidades de cimento.

É paradoxal que o presidente brasileiro afirme que os índios estão começando a se humanizar quando todos os antropólogos e filósofos dizem que a crise do Homo sapiens consiste em que somos nós, e não os indígenas, que estamos esquecendo de onde viemos. Isso por termos abandonado nossas raízes naturais, as que nos conectam com a natureza, para nos tornarmos robôs e feixes de fios elétricos.


É possível que a infeliz declaração de Bolsonaro tenha sido um daqueles lapsos de linguagem estudados pela psicanálise de Freud e Lacan, que refletiria o conceito que o presidente tem do humano em seu subconsciente. Talvez isso reflita, antes, que ele não consegue ver os indígenas como humanos completos. Eles o serão, em sua opinião, na medida em que forem se contaminando com a nossa “incivilização” de destruidores da natureza que seria o nosso verdadeiro habitat, onde o ser humano se reconhece. Até Deus, ao criar a terra, exclamou que “era boa”. E dessa terra criou o homem e a mulher. Nós a estamos maltratando.

A Terra é nosso berço, nossa seiva, da qual se nutre não apenas nosso corpo, que é feito, como dizem os astrônomos, do “mesmo pó das estrelas”, mas também nosso pensamento e nossos desejos mais profundos e originais.

Somos feitos das mesmas moléculas do barro da terra, das águas dos rios e do oxigênio das florestas. Só conseguiremos ser humanos completos na medida em que não percamos nossas raízes com a mãe Terra, que foi a primeira deusa criada pelo homem.

Pelo contrário, são os povos indígenas que, com suas culturas ancestrais, com seus ricos deuses da floresta, com seus pensamentos amalgamados pelo sol, ainda conseguem manter a conexão com o cosmos, com a vida e seus mistérios mais ocultos. Somos nós que, depois de termos nos desconectado da natureza para nos conectarmos à fria tecnologia que não tem aroma nem cor, estamos nos afastando da nossa verdadeira humanidade para nos tornarmos alienígenas que acabarão sem saber o que é um tomate ou um cacho de uvas. Também já não somos capazes de distinguir, por exemplo, em uma floresta, mais de dois ou três tons de verde. Os indígenas conseguem detectar até sessenta.

A pena é que não é fácil se alimentar de conexões elétricas ou se regozijar com frios robôs sem alma e sem vida. Até uma pedra contém mais vida e conserva melhor as batidas do cosmos do que um computador. São essas batidas que chegam da eternidade do mundo que realmente nos fazem humanos.

Seremos mais humanos não na medida em que nos pareçamos menos com os indígenas que continuam sendo os guardiões da terra, mas em que, como eles, não nos desconectemos daquilo que são nossas verdadeiras raízes, que não são as da tecnologia. Ela é apenas um instrumento que facilita nossa vida e ajuda a nos conectarmos melhor uns com os outros, mas nunca será um substituto que nos torne mais humanos, mais espirituais, mais com gosto de terra.

Por que as crianças gostam tanto de brincar e se sujar de barro? Ou tomar banho nuas nos rios? Ou subir em uma árvore para saborear uma fruta madura? Uma mulher indígena me ensinou uma vez na Itália que os figos mais doces são os que foram bicados pelos pássaros porque eles só comem os mais maduros.

Não, não são os índios que estão se humanizando porque começam a se parecer mais com o homem moderno, a amar a fria tecnologia e a se separar da natureza. Como escreveu em sua coluna em O Gobo o agudo analista Arnaldo Bloch, não são os índios que estão começando a se humanizar, mas é o presidente Bolsonaro que “cada vez menos é um ser humano igual a nós”. Pelo menos assim parece àqueles que acreditam que ainda temos muito a aprender com os que chamamos de índios e que certamente entendem melhor do que tantos outros o que significa ser verdadeiramente humanos.

Eles estão unidos à natureza desde sempre e são capazes de ainda sentir os primeiros gemidos da criação do mundo. Nós parecemos estrangeiros em uma Terra que estamos destruindo com cada vez mais afinco e crueldade. Ainda é possível ter uma fresta de esperança? Ela só nos virá do ventre dessa Terra cada vez mais maltratada e mais necessária. Aquela que nos devolve o sabor áspero e forte do barro de onde viemos.

Dupla do barulho

O presidente pode demitir o ministro da Justiça? Pode, mas sabe que não deve. Uma que Sergio Moro não dá motivo, outra que ele tem mais a perder que a ganhar. O ministro da Justiça pode se demitir? Pode, mas está ciente de que não deve. Uma que os pretextos criados por Jair Bolsonaro lhe soaram até agora insuficientes, outra que ele tem mais a perder que a ganhar; a visibilidade do cargo é essencial, sejam quais forem seus planos futuros.

Portanto, salvo alguma loucura presidencial incontornável, ainda não será neste nem no próximo Carnaval que Bolsonaro e Moro brincarão separados. A performance do morde e assopra tem feito bem a ambos. Ao ministro, as mordidas só proporcionaram consolidação da popularidade; ao presidente, os assopros propiciam recuos usados como “provas” das intrigas de oposição.

A depender da preferência política do freguês, são vistos alternadamente nos papéis do “bom” e do “mau”. Assim vão caminhando ambos ao molde de um esquete de humor nem sempre de bom gosto. Nenhum dos dois se aflige, enquanto na plateia (dentro e/ou fora do governo) os desesperados se contorcem, de regozijo ou dissabor, a cada novo episódio da série cujo epílogo ainda está para ser escrito.

Ainda não é agora que Moro e Bolsonaro vão brincar o Carnaval separados


Não é que se trate de uma encenação com roteiro bem pensado e escrito a quatro mãos. Há evidentes e reais insatisfações, desconfortos e divergências de parte a parte. Estas estão patentes no noticiário desde o capítulo inicial, em fevereiro de 2019, do veto a uma indicada (Ilona Szabó) de Moro para suplente no Conselho Nacional de Política Criminal.

Foi o único caso em que Bolsonaro ganhou a parada de Moro nas redes sociais, dado o não alinhamento da cientista política à cartilha bolsonarista. De lá para cá, quando esteve do lado oposto ao do interesse do presidente, o ministro posicionou-se em consonância com as expectativas daquele eleitorado. Donde sentou praça no topo da popularidade governamental e na antessala das preferências de voto para presidente em 2022.

Vamos ser francos: ninguém é imune à inveja, e Bolsonaro talvez se remoa quando vê Moro fazendo as vezes de uma versão civilizada dele em entrevistas, debates e confrontações em geral. Se, e quando, o ministro diz alguma barbaridade, a gente nem sente, tal a fidalguia no trato.

O então juiz provavelmente não tinha na cabeça (embora pudesse ter no radar) uma candidatura presidencial quando aceitou o cargo de ministro. Fez sentido a alegação de dar um “upgrade” na tarefa que se impôs no combate à corrupção. Meio ingênuo no começo, nesse um ano ele aprendeu várias coisas.

Uma delas, que perspectiva de poder é poder. Daí a forte probabilidade de, incensado pela mulher, já ter incluído a Presidência no cardápio. Outra lição é sobre o valor da frieza e as vantagens da paciência.

Assegura apoio à reeleição do presidente e qualifica indicação ao Supremo como “interessante” para manter frio o outro tema. Já Bolsonaro se debate um pouco mais, dá bandeira, embora não seja louco de rasgá-la. É uma dupla do barulho, mas cada qual age do seu jeito de modo a aproveitar, e usar adiante, os frutos do sucesso garantido pela plateia que aplaude, vaia e os mantém em cartaz.

Paisagem brasileira

Frederico Bracher (1961)

A luta entre desigualdade e moralismo

O Brasil é um dos países mais complexos do mundo. A variedade de seus problemas torna muito difícil escolher um único caminho ideológico como remédio a todos os males. Só que a disputa política geralmente produz a contraposição de visões de mundo. No momento, predominam duas delas que resumem bem as soluções colocadas à mesa. De um lado, um grupo que vai da esquerda até parte do centro defende que a agenda básica deve ser o combate à desigualdade. De outro, um agrupamento que capta parte da centro-direita e chega até à extrema-direita propõe que a questão central deve ser a reordenação moral da sociedade e do Estado brasileiros.

Obviamente que nenhuma liderança política vai dizer que é a favor da corrupção ou defender que não haja políticas públicas para os mais pobres. Posições tão extremas não estão em questão. Mas o embate político pode ser sintetizado pela luta entre a visão centrada no combate à desigualdade versus uma concepção mais orientada por questões morais, tanto públicas como privadas.

Somada à luta contra o autoritarismo, a redemocratização teve como slogan o resgate da dívida social. O país havia tido uma enorme transformação econômica desde o varguismo, porém, mantivera uma enorme desigualdade. Para mudar essa realidade, a sociedade levou uma série de demandas represadas aos constituintes e as lideranças políticas criaram aquilo que Ulysses Guimarães acertadamente chamou de Constituição cidadã. Assim, um cardápio amplo de direitos foi criado, buscando aumentar o acesso aos serviços públicos, principalmente aos mais pobres.


Construiu-se um consenso social democrata, que vigorou por mais de 20 anos, capaz de produzir várias medidas contra a desigualdade. A maioria no campo social, mas também se constituiu um olhar econômico preocupado não só com o crescimento, mas também com a redistribuição. O Plano Real seguiu esta trilha, bem como as políticas de salário mínimo.

Políticas como Fundef/Fundeb, ações do SUS (sobretudo na atenção básica), o Bolsa Família, as cotas sociais nas universidades, entre outras, foram medidas muito bem-sucedidas. Os indicadores sociais melhoraram bastante quando comparados à realidade da ditadura. O combate à desigualdade, no entanto, ainda tem muitos problemas. A qualidade da escola pública deixa a desejar, os mais pobres têm enorme dificuldade de marcar exames na rede de saúde e a população da periferia ainda sofre com as más condições habitacionais, de locomoção, acesso à cultura e, o mais importante, segurança. Vale ressaltar que a violência é um dos retratos mais fortes da desigualdade no Brasil: são os jovens negros os que mais sofrem com essa situação.

A luta contra a desigualdade não se resumiu às políticas sociais. Foram ampliados os direitos civis em medidas como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso e o Código de Defesa do Consumidor. Aumentou-se a igualdade também no campo dos direitos políticos, algo que começou ainda no governo Sarney com a permissão do voto ao analfabeto. Todas essas legislações, ademais, abriram as portas para que diversos grupos historicamente desfavorecidos buscassem seus direitos, incluindo aí demandas comos a da população indígena, das organizações LGBT e dos movimentos negro e feminista.

Mesmo com tais avanços, permaneceram regras e lógicas que garantiam privilégios a determinados grupos. Isso vale para o corporativismo do setor público, para benesses tributárias ou de crédito a empresas e, ainda, para forma como a população negra e pobre é tratada por parte do Estado brasileiro. De todo modo, a agenda da desigualdade foi predominante e teve bons resultados se levarmos em conta a profunda tradição escravocrata do país.

É inegável que a desigualdade ainda se constitui no maior problema do país quando analisamos os dados do IBGE e de outras pesquisas sobre as condições de vida dos brasileiros. Mas a partir de 2013, exatamente num ponto em que o Brasil tinha avanços de duas décadas em prol da igualdade, houve uma mudança na visão de boa parte da sociedade. O tema da moralidade ganhou terreno, com a ideia, primeiro, de que se deveria tornar o combate à corrupção o tema número um da agenda pública, e, num segundo momento, num questionamento sobre políticas sociais e a intervenção do Estado em assuntos privados, que devem ser resolvidos pelos indivíduos, suas famílias e suas associações religiosas.

O moralismo como guia da ação política não é algo novo na política brasileira. A UDN fez isso por quase duas décadas e sua ação teve como desaguadouro um golpe civil-militar. O PT das décadas de 1980 e 1990 também cresceu por ter se colocado como o paladino da ética e a eleição de Lula em 2002 estava tão ligado a esse discurso quanto ao combate à desigualdade. O jacobinismo que se desenvolveu nas últimas três décadas em parcelas do Ministério Público tem nítido DNA petista.

As sucessivas crises de corrupção durante o período do PT no poder foram um dos estopins das jornadas de junho de 2013. Decerto que as demandas eram mais amplas e difusas, mas o mote vencedor foi o da luta contra um sistema político que estaria carcomido e que precisava de uma reforma moral. Neste contexto, a Operação Lava-Jato tornou-se o espírito de uma época. Suas ações atingiram fortemente o petismo e outros políticos que a ele se aliaram. A prisão de importantes membros da elite brasileira e a revelação de alguns episódios de corrupção convenceram uma boa parte da população que estaria nesta visão de mundo a solução para os problemas brasileiros.

O lavajatismo ainda é o espírito de nossa época, todavia, outros elementos de moralidade foram colocados nesta agenda. Primeiro, a defesa de uma visão mais conservadora em relação aos costumes. Neste sentido, é interessante como o MBL, que fora criado para levar adiante a bandeira do liberalismo, abraçou muito rapidamente a censura a uma exposição num museu paulistano. Foram menos liberais do que pensavam ser, mas conseguiram maior apoio social porque havia uma onda conservadora crescente.

A defesa desses valores mais conservadores veio junto com o ataque a políticas públicas que, em tese, favoreceriam visões contrárias à moralidade do brasileiro, enfraquecendo as famílias. Dessa perspectiva vem a Escola sem Partido, a proposta de abstinência sexual como instrumento de combate à gravidez precoce, o ataque às agendas identitárias e a proposta de reduzir a separação entre Igreja - no caso, as evangélicas - e o Estado. Se o ministro Moro é o líder do lavajatismo, Damares é a representante mais orgânica da agenda moral no campo dos costumes.

O bolsonarismo soube se apropriar dessas duas vertentes da moralidade na eleição de 2018, embora esteja bem mais próximo do damarismo do que do morismo - até porque, muitos bolsonaristas participaram do patrimonialismo corrupto que dizem combater. Vários fatores explicam a vitória de Bolsonaro, mas com certeza no topo está a capacidade de abraçar e representar essa nova agenda moralizante, que em boa medida está guiando o governo contra o antigo predomínio da visão de combate à desigualdade.

Vale ressaltar outro ponto que o bolsonarismo acrescentou à essa nova agenda. Trata-se de uma defesa de uma ampla liberdade individual contra o “discurso vitimista” que, para os bolsonaristas, orientava a agenda de combate à desigualdade. Por esta lógica, Bolsonaro defende o uso amplo das armas, uma forte desregulamentação do trânsito, uma visão cultural contra o politicamente correto e o apoio às forças de segurança contra a bandidagem - voltamos aqui à Primeira República, quando a questão social era antes de tudo uma questão de polícia.

Bolsonaro acredita estar do lado do cidadão comum, que nas últimas décadas viu seu modelo tradicional de vida ser questionado. Neste sentido, seria preciso restituir a antiga moralidade, com a família, a religião e os papéis sociais de gênero bem definidos. É essa agenda, e não o liberalismo, o carro-chefe do governo.

A redução da relevância da agenda da desigualdade já está muito clara. O desastre da política educacional, o péssimo tratamento dos que buscaram seus direitos previdenciários ou o Bolsa Família nos últimos meses, o incentivo à visão de que talvez os mais pobres tenham de morrer para se combater a violência e mesmo o liberalismo de Guedes - que já disse não ter a desigualdade no centro de suas preocupações - são sinais evidentes da vitória da concepção moralista ao estilo Bolsonaro, por ora com o apoio silencioso do lavajatismo.

Tão ruim quanto o enfraquecimento das políticas de combate à desigualdade, o que piorará a vida da maioria da população brasileira, é a polarização entre o discurso pelo social e a proposta de moralização da vida pública brasileira. A republicanização do Estado é peça-chave para qualquer projeto de modernização, do mesmo modo que é preciso entender a lógica das famílias pobres da periferia que optaram em 2018 pelo conservadorismo. Por isso, se um amplo arco que vai do centro à esquerda quer mesmo lutar contra os retrocessos crescentes, ele terá de mostrar como o combate à desigualdade pode não só se casar, mas ser o alicerce de uma nova ética pública.
Fernando Abrucio

Palavras ao sabor do freguês

Hoje as torturas são chamadas de “procedimento legal”, a traição se chama “realismo”, o oportunismo se chama “pragmatismo”, o imperialismo se chama “globalização” e as vítimas do imperialismo se chamam “países em via de desenvolvimento”.
 
O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem
Eduardo Galeano

Sem governo fica difícil ter reeleição

Jair Bolsonaro voltou animado do Taj Mahal. De uma só tacada, cortou a cabeça do ministro-substituto da Casa Civil por ter voado num jatinho da FAB para compromissos em Davos e na Índia; chamou de “garoto” e praticamente puxou as orelhas do presidente que colocou no BNDES por causa dos gastos com a auditoria que descobriu que a tal caixa preta estava vazia; levantou a suspeita de sabotagem nos erros da correção do Enem; e ainda defendeu o chefe da Secom acusado de corrupção por receber pagamentos em sua empresa de emissoras de TV contratadas pelo órgão em que trabalha. Na narrativa bolsonariana, alternam-se bravatas, abobrinhas e atos demagógicos.

Mas a cada dia faz mais barulho o silêncio do presidente da República sobre problemas da vida real que começam a mostrar, um ano depois da posse, que seu governo é muito ruim de serviço. Talvez não tenha muito a dizer sob a ótica da solução séria para essas questões. E prefira adotar um estilo à la Jânio Quadros, que proibiu o biquini e a rinha de galos, para distrair as platéia.


Mas afirmar que pode ter havido sabotagem — e essa conjugação verbal que denota incerteza e introduz sempre um palpite ou chute não deveria fazer parte do discurso de um presidente — não consola nem resolve o problema dos estudantes que fizeram o Enem e se sentem lesados.

As filas de aposentadorias e outros benefícios do INSS ainda não encurtaram nem um centímetro. A óbvia decisão de demitir o presidente do INSS veio com duas semanas de atraso. O vaivém na decisão de contratar temporariamente militares aposentados, e agora também civis (depois de uma advertência do TCU), mostra que o governo vai administrando na base do improviso, sem consultas ou discussões prévias com quem entende do assunto. Anuncia medidas e tem que voltar atrás porque são inexequíveis. E tudo isso é feito com muito desgaste e exposição negativa.

Ao fim de um ano, as pontas soltas da gestão vão aparecendo a cada dia. O Bolsa Família, aquele programa emergencial que socorre os brasileiros afundados na extrema pobreza, também começa a ratear. Acumulou, no governo Bolsonaro, uma fila de quase 500 mil pessoas — que, em governos passados, costumavam ser atendidas em no máximo 45 dias. E assim vai. Qual será a próxima?

É possível até que alguns aplaudam a decisão presidencial de cortar a cabeça de um auxiliar que usou um avião da FAB de forma inadequada — embora não ilegal e, muito certamente, repetindo o comportamento de dezenas de outros. Mas o cidadão que comparar esse caso ao do ministro da Secom, por exemplo, não verá ali dois pesos e duas medidas? Mais: demitir o viajante vai resolver problemas de setores não atendidos da população, cada vez mais expressivos?

A questão política que se impõe agora é saber por quanto tempo mais o discurso ideológico-demagógico de Bolsonaro vai sustentá-lo. Porque a vida dos governantes é assim: chega um momento em que jogar para a platéia não adianta mais, e nem toda a espuma espalhada em performances diárias esconde as barbeiragens e a incompetência do governo para (ora, vejam só) governar!

O presidente da República parece a cada dia mais imbuído do propósito de turbinar sua candidatura à reeleição em 2022. Só pensa nisso. Mas alguém precisa avisar a ele que, sem governo, fica difícil ter reeleição.

O epidemiologista digital

Enquanto boa parte do mundo se preparava para celebrar o Ano Novo, pesquisadores da consultoria canadense BlueDot disparavam um alerta para seus clientes. Havia um novo vírus na praça com potencial de se espalhar rapidamente. Os especialistas ainda apontaram para o epicentro: a cidade de Wuhan, na China. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano deu o alerta em 6 de janeiro. A Organização Mundial de Saúde, no dia 9. A diferença entre os competentes organismos tradicionais e a BlueDot é só uma: inteligência artificial.

A BlueDot não foi apenas a primeira a avisar do coronavírus, que nesta quinta-feira fez a OMS declarar que estamos em estado de emergência de saúde internacional. Ela também previu, corretamente, que as primeiras cidades fora China a perceberem casos do vírus seriam Bangkok, Seul, Taipei e Tóquio.


Já era previsível que este dia ia chegar. A última vez em que um vírus assim perigoso se espalhou foi em 2003 — a epidemia do SARS. O fundador da BlueDot, Kamran Khan, era um especialista em doenças infecciosas que trabalhava em Toronto, naquela época. A Wired o entrevistou. “Em 2003, percebi como o vírus tomou a cidade e pôs o hospital de joelhos”, ele conta. “Foi um processo de exaustão física e mental.” Ele criou a empresa para que isso não se repetisse.

O que chamamos de inteligência artificial é, na verdade, um tipo específico de IA. Aprendizado de máquina. Quando falamos de Big Data, aqueles grandes bancos de dados em geral desorganizados, apenas um apanhado de informações que não parecem fazer sentido no conjunto, falamos por causa de aprendizado de máquina. São algoritmos que buscam padrões que se repetem. Aí os identificam.

Para fazer um carro andar sozinho, o algoritmo acompanha vários motoristas dirigindo e compara com o que os muitos sensores do automóvel veem. Ao semáforo vermelho captado pela câmera, se os motoristas sempre param, ele aprende que deve parar. Se sempre que o radar detecta uma pessoa em movimento, o motorista pisa no freio — ele também fará isso. O software aprende os padrões dos dados que recebe, sinais dos sensores e comportamentos dos motoristas. Ao fim, criou-se um programa capaz de tornar um carro autônomo.

O que as muitas startups fazem é criar algoritmos de aprendizado de máquina para usos específicos. Como, no caso do doutor Khan, sua preocupação era alertar e prevenir doenças altamente infecciosas, foi para isto que dirigiu sua tecnologia. A BlueDot trabalha com três fontes para alimentar seus bancos de dados. O noticiário publicado por sites jornalísticos em 65 línguas diferentes, tráfego aéreo e relatórios de epidemiologia animal. 

Cruzando as notícias, às vezes apenas pequenas notas, com os relatórios de doenças infecciosas em animais, são capazes de perceber uma epidemia nascendo. Junte-se ao pacote o ir e vir de aviões e conseguem estabelecer, probabilisticamente, para que lugares estão indo as pessoas que foram expostas ao novo vírus.
O coronavírus não foi sua primeira história de sucesso. A BlueDot também previu o surgimento da Zika na Flórida. Mas aquele foi um caso menor, localizado. Mais um teste de caso do que um exemplo comprovado. Agora já dá para dizer: ninguém detecta mais rápido o surgimento e o comportamento de uma epidemia do que um computador.

A partir de agora, será assim. Estas tecnologias estão entrando nas nossas vidas por todos os lados. Os nossos anos 20 que ora começam vão marcar o momento em que nos habituaremos a conviver com inteligências artificiais por toda parte. Muito em breve, vamos nos perguntar: como era mesmo que fazíamos sem?<

Disforme como Frankenstein, ministério de Bolsonaro clama por uma reforma

Ao esvaziar o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, num processo muito parecido com um esquartejamento político, Jair Bolsonaro contradiz o discurso segundo o qual o governo não precisa de reforma ministerial. De acordo com a superstição difundida por Bolsonaro, seu ministério é técnico, opera sem viés ideológico e introduziu na administração pública brasileira um grau de eficiência sem precedentes. Tudo conversa fiada.

A equipe ministerial de Bolsonaro revelou-se heterogênea e disforme como um Frankenstein. O pedaço do governo que funciona, puxado pela área econômica, é atrapalhado pela ala dos trapezistas ideológicos, que insistem em botar fogo no circo, à frente Meio Ambiente e Educação. Bolsonaro diz que não precisa de reforma ministerial. Outra lorota. Na verdade, o ministério já foi reformado, só que piorou. O ministro palaciano Gustavo Bebianno teve a cabeça levada à bandeja. Ricardo Vélez, caiu de maduro da pasta da Educação. E foi substituído por Abraham Weintraub, que dá ao país erros e polêmicas como a bananeira dá bananas.

Foram enviados para o olho da rua também os generais Santos Cruz, da Secretaria de Governo; e Floriano Peixoto, que havia sucedido Bebianno na secretaria-geral e foi rebaixado para a presidência dos Correios. Incluindo-se na dança de cadeiras gente do segundo escalão, como presidente do BNDES Joaquim Levy, substituído pelo "garoto" Gustavo Montezano, e o nazi-secretário de Cultura Roberto Alvim, trocado por Regina Duarte, as demissões passam de 20. O derretimento da equipe ajuda a envelhecer precocemente o governo.

Embora Bolsonaro relute em admitir, a Esplanada clama por uma reforma. Uma pessoa que não sabe nadar não se afoga por cair na água. Ela morre afogada por permanecer lá. No alvorecer do segundo ano de mandato, Bolsonaro comanda uma equipe precária. Um pedaço do ministério naufraga num mar de incompetência e suspeição. Como Bolsonaro demora a promover substituições que parecem óbvias, sua autoridade afunda junto com os ministros que ele frita ou esquarteja.

Pensamento do Dia


Brasil vive crise democrática

A satisfação com a democracia atingiu seu patamar mais baixo das últimas décadas no mundo, afirma um relatório publicado nesta semana pela Universidade de Cambridge, que analisou dados disponíveis desde 1995.

Na média mundial, o número de pessoas insatisfeitas com o sistema democrático em seus países é recorde e chegou a 57,5%, ficando 9,7 pontos percentuais acima de 1995.

A tendência negativa é especialmente forte desde 2005, ano que marca o "início de uma recessão democrática global", segundo os pesquisadores. Naquele ano, apenas 38,7% dos cidadãos estavam insatisfeitos.

Entre os motivos listados para a atual situação estão eventos políticos e sociais como a crise financeira de 2008, a subsequente crise do euro de 2009 e a crise dos refugiados na Europa, em 2015. A insatisfação com a democracia subiu 6,5 pontos percentuais após o colapso do banco Lehman Brothers, em outubro de 2008, afirma o relatório.


No Brasil, a insatisfação pública com a democracia alcançou níveis recordes em meio à série de escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato, afirma o relatório. Menos de 20% dos brasileiros estão satisfeitos com o sistema democrático, aponta.

"Uma breve exceção ocorreu durante a primeira década do século 21, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010", observa o relatório. "Colhendo os frutos de um boom global de commodities, o governo Lula investiu em programas para reduzir a pobreza amplamente disseminada e reduzir a desigualdade."

"Em retrospecto, porém, esse foi apenas um hiato entre dois períodos de instabilidade – um marcado pelos efeitos da crise dos mercados emergentes do final dos 1990, e outro que começou com a Lava Jato [...] Ao que parece, o futuro foi mais uma vez adiado para o Brasil."

O relatório separa os países analisados em quatro grupos: satisfação com a democracia, casos de preocupação, mal-estar e crise. O Brasil está no quarto, ao lado de Venezuela, México, Ucrânia, Colômbia, Peru e Moldávia, onde há democracias que enfrentam uma "real 'crise' de legitimidade" e três quartos dos cidadãos ou mais declaram insatisfação com o sistema democrático.

Os únicos países onde as pessoas estão satisfeitas com a democracia são Suíça, Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Irlanda, Holanda e Áustria.

A maioria dos países está nas duas categorias intermediárias. A Alemanha está entre os casos de preocupação. Reino Unido, Estados Unidos, Espanha, Itália e França estão abaixo, na categoria "mal-estar".

O relatório também observa que a perda de confiança na democracia pode ter consequências futuras. "Muitos dos países que, nos anos 1990, tinham os menores níveis de confiança na democracia – como Rússia, Venezuela e Belarus – são exatamente aqueles que experimentaram uma erosão democrática na década seguinte, geralmente com a eleição de homens-fortes que, uma vez no cargo, começaram a minar direitos civis e liberdades."

Deutsche Welle

Nem se liga

O brasileiro suprimiu dos seus hábitos o ponto de exclamação
Nelson Rodrigues

A dor do outro

É a mais difícil de sentir. Exige compaixão. Sentimento, parece, em desuso.

Com mais ou menos intensidade, sentimos morte e desditas dos próximos. Aos distantes, reservamos certa perplexidade, indignação de curto prazo. Compaixão é mais difícil. Não somos treinados para exercê-la.

Compaixão é palavra precisa – sentir a dor do outro, estar na dor do outro. Não importa quem, nem onde.

Já vimos algum candidato a cargo eletivo prometer: meu governo, meu mandato, será de compaixão?

Não faltam motivos para que alguém, que se proponha representar cidadãos, prometa – e pratique compaixão por todas as dores. Particularmente pelos mais vulneráveis – crianças, idosos, mulheres, negros, comunidade LGBTS+, índios, migrantes e imigrantes, pelas florestas, rios, mares e animais. Pelos pobres e abandonados, que habitualmente contêm esses já citados e que estão sujeitos a tudo – humilhação, desrespeito, preconceito, fome, violência e impiedades de todos os calibres.

Fosse a compaixão cultivada, em especial por governantes, não faltariam escolas e leitos de hospitais para quem precisa; nem vacinas e remédios básicos e fundamentais, ou as filas do INSS e os seis meses de espera para ter direitos atendidos; nem trabalho escravo, nem os mortos de Mariana e Brumadinho, ou o desamparo dos atingidos pelas enchentes de todo verão.

Sentimento real de compaixão não permitiria a veiculação de propagandas de empresas responsáveis por tragédias – como a Vale - até que todos os atingidos fossem devidamente atendidos em suas dores, suas necessidades, seu recomeço de vida. A compaixão estaria acima do lucro. E nós mais humanizados.

A compaixão daria fim às balas perdidas que alcançam filhos, mães, pais; zeraria o padecimento e o desamparo dos que vivem sob a violência das botas e dos desmandos das milícias, das polícias.

Compaixão faria melhores as sentenças de juízes, verdadeiras e comprovadas as acusações.

Se obrigatório, o exercício da compaixão geraria respeito e atendimento real aos que pagam os impostos que sustentam o Estado em pé.

Confiar no reaprendizado da compaixão não é sonho ou ingenuidade. Pode ser alimento e cura para a desesperança dos que enxergam e sofrem com a prevalência da impiedade, que é chocante, anormal e desumana.

Normal seria aprender a sentir como nossa a dor do outro. Normal será a revolta de muitos contra as dores reais de tantos, que assistimos, conformados e pacíficos, como se fossem só deles e bem distante de nós.

O preço do frio em Portugal

A chegada do inverno provoca arrepios nos portugueses. E não é só de frio. A conta de energia mais cara da Europa faz com que 19,4% da população de Portugal — quase 2 milhões de pessoas — não tenha dinheiro para aquecer adequadamente suas casas. A consequência é trágica: o país registra o segundo maior aumento de mortes durante a estação no continente, atrás apenas de Malta, um arquipélago no Mediterrâneo.

Segundo um estudo da Universidade de Oxford, publicado no European Journal of Public Health, há, no inverno em Portugal, um acréscimo de mortes sazonais em torno de 28% em comparação com o número de óbitos em outras estações do ano. Em Malta, esse aumento é de 28,3%. Já a média europeia é de 15%.

No inverno de 2017-2018, foram contabilizadas 3.700 mortes acima do esperado no país. A maior parte delas ocorreu dentro de imóveis sem aquecimento central ou revestimento adequado para suportar as baixas temperaturas. Os mais atingidos foram idosos com 85 anos ou mais. Com a queda nos termômetros, aumentam os problemas cardiovasculares e as complicações causadas pela gripe.


Países escandinavos, que no inverno registram temperaturas de até -15 graus célsius, têm casas mais preparadas e índices abaixo da média do continente. Na Islândia, a taxa é de 8,5%; na Finlândia, de 9,2%; na Noruega, na Dinamarca e na Suécia, cerca de 12%. França (13,5%) e Alemanha (11,9%) também ficam abaixo da média. O Reino Unido está acima da média (15,9%), assim como a Bélgica (15,7%) e a Itália (15,2%). Na Espanha, vizinha a Portugal, a taxa é de 18,6%.

Portugal tem fama de ter um clima aceitável no inverno em comparação com o norte da Europa. Não é raro os termômetros ultrapassarem máximas de 13 graus célsius durante algumas semanas da estação. A ideia de que é um “país quente” foi disseminada através de gerações de portugueses e, por isso, as casas não foram construídas com isolamento térmico. Em geral, no país, a temperatura mínima pode cair para 4 graus célsius e, em algumas regiões, para abaixo de zero. Sem aquecimento central, as habitações ficam úmidas e geladas ao longo do dia. De madrugada, a sensação térmica fica ainda mais baixa.

Somente em 2006 foi criada uma lei para obrigar novas construções a usarem janelas duplas e materiais resistentes ao inverno. Contudo, fazer a conversão em imóveis antigos é caro, e, muitas vezes, a modificação em habitações de interesse histórico ou patrimonial enfrenta obstáculos junto aos órgãos governamentais.

Mesmo quem tem aquecimento central ou aquecedores elétricos portáteis espalhados pelos cômodos não deixa os aparelhos ligados o tempo todo, para poupar na conta de luz, que pode triplicar durante a estação. Foi a solução encontrada por Fernanda Silveira para evitar que a mãe, Laurinda, de 85 anos, passasse pela mesma situação de alguns anos atrás. Com problemas cardiovasculares, Laurinda sofreu um AVC dentro de casa, no Porto, durante o inverno.

“Não é possível deixar os aquecedores ligados o tempo inteiro, porque a conta de luz vem muito cara. Mas é preciso ligá-los alternadamente quando está muito frio dentro de casa”, disse Silveira.

Classificados como “consumidores energeticamente vulneráveis” pelo Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), os cerca de 20% de portugueses nessa situação ultrapassam em muito a média continental — 8% dos europeus não têm como aquecer a casa. Para não passar frio, eles precisariam gastar entre € 27,50 e € 40,70 a mais com a conta de luz durante os três meses do inverno. Valores que um em cada cinco portugueses diz não poder pagar, de acordo com uma pesquisa do Instituto Superior de Economia e Gestão (Iseg), da Universidade de Lisboa, sobre a pobreza energética.

A relação negativa entre consumo e bem-estar levou o Eurostat a apontar Portugal como o país com a conta de energia mais cara da Europa. O sistema de apuração foi baseado nos Padrões de Poder de Compra (PPC) por quilowatts. Quanto mais alto o número atribuído, mais salgada a conta. Em Portugal, a eletricidade representa 38,03 PPC. Na Holanda, onde foi registrado o menor índice, 14.

Quanto ao gás natural, os portugueses pagam 10 PPC por 100 quilowatt-hora e apenas 22% têm acesso a esse tipo de energia, o que aumenta a dependência da eletricidade. No Reino Unido, o índice é de 4,5 PPC por 100 quilowatt-hora, e ainda há o Cold Weather Payment, um apoio financeiro no inverno para pensionistas e desempregados. Em Portugal, desde 2016 funciona a tarifa social, um desconto automático concedido trimestralmente a clientes economicamente vulneráveis.

Parte do valor pago na conta de luz pelos portugueses reflete o peso da carga fiscal e de taxas públicas. Em uma fatura de € 63,22, por exemplo, é adicionado 23% de Imposto sobre Valor Acrescentado (o IVA, € 15,10) e uma contribuição audiovisual de € 3,02 para financiamento da rede pública de TV e rádio, a RTP. O total chega a € 81,47. No início do ano, uma das maiores empresas de energia do país enviou aos clientes um aviso de aumento dos preços das potências contratadas.

Em um debate no Parlamento para discutir o orçamento do Estado para 2020, o governo disse que aguarda autorização da Comissão Europeia para diminuir o IVA na conta de eletricidade. O Bloco de Esquerda propôs a redução para 13% a partir deste ano e para 6%, a menor faixa possível, em 2022.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A muleta da conspiração

Jair Bolsonaro tem um caso antigo com as teorias da conspiração. Desde que virou deputado, em 1990, ele descreve o Brasil como um país à beira do comunismo. O fantasma vermelho nunca existiu, mas o ajudou a acumular sete mandatos.

No Planalto, o capitão continuou a combater inimigos imaginários. Ao enfrentar as primeiras dificuldades no Congresso, ele insinuou que haveria um complô para derrubá-lo. Ao ser criticado pelas queimadas na Amazônia, acusou o ator Leonardo DiCaprio de participar de uma trama contra a floresta.


Ontem Bolsonaro voltou a investir na ficção. Ao chegar da viagem à Índia, ele declarou que os problemas do Enem podem ter sido fruto de sabotagem. Na mesma entrevista, levantou suspeitas sobre a auditoria que não identificou fraudes no BNDES. “Tem coisa esquisita aí”, garantiu. Em ambos os casos, o presidente não apresentou nenhum fato concreto para sustentar o que disse.

A tese de um conluio para melar o Enem não para em pé. A lambança é de responsabilidade do Ministério da Educação, que permitiu a troca de gabaritos e demorou a reconhecer a extensão do problema.

Se houve sabotagem, ela foi promovida pelo próprio governo. Bolsonaro disse que escolheria todos os ministros por critérios técnicos, mas entregou o MEC a dois seguidores de Olavo de Carvalho. Ao nomear Ricardo Vélez e Abraham Weintraub, premiou a incompetência a serviço da guerra ideológica.

No caso do BNDES, o discurso conspiratório ajuda o presidente a disfarçar um vexame. Desde a campanha, ele prometia abrir a “caixa-preta” do banco. A tal auditoria custou R$ 48 milhões e não encontrou nenhum sinal de corrupção.

Bolsonaro não parece acreditar nas próprias cascatas, que usa como muletas para desviar a atenção de problemas. Mesmo assim, suas teorias ainda convencem muita gente. Segundo pesquisa do Instituto da Democracia, 45% dos brasileiros não confiam na contagem de votos do TSE. O presidente é o primeiro na fila para desacreditar as urnas eletrônicas.

As águas de janeiro

A cobertura de deslizamentos de terra na Região Serrana do Rio de Janeiro, provocados por fortes chuvas em janeiro de 2011, foi talvez a mais chocante que já fiz. Centenas de pessoas morreram soterradas em baixo de lama, rochas e casas destruídas. Era destruição total nos vales, com pedras gigantes passando por cima de casas, e rios de lama, pedras e árvores levando pessoas embora. As autoridades juravam, na época, que algo assim nunca mais iria se repetir. Nos últimos dias, no entanto, mais de 60 pessoas morreram por causa das chuvas fortes em Minas Gerais e no Espírito Santo. Outra vez, casas foram levadas embora pelas correntezas.

É verdade que resolver os problemas não é fácil. As chuvas no Brasil caem com muita força, o solo desliza facilmente, e a urbanização desordenada dos últimos 50 anos, com muitas casas construídas de forma ilegal nas encostas, dificulta qualquer ação das autoridades. E retirar moradores de áreas de risco geralmente gera conflitos – principalmente porque não há uma oferta de moradias alternativas para essas pessoas. E, tendo em vista o número grande de construções nessas condições, solucionar o problema realmente demanda um esforço gigantesco.

Mas há, também, um aparente despreparo das autoridades, ou, talvez até uma certa indiferença. Os problemas não são novos – então por que não se vê um esforço para solucioná-los? Em 2019, o governo federal usou apenas um terço dos recursos previstos no orçamento para prevenção de desastres naturais, atingindo o menor patamar em 11 anos.

O governo federal joga a culpa para os governos locais, ou seja, estaduais e municipais, dizendo que eles não realizaram as obras previstas. O empurra-empurra de sempre. Fica a impressão de que resolver esses problemas não é prioridade para os governos.


Desde que cheguei ao Brasil, há 20 anos, os problemas são os mesmos, e pouco se fez para melhorar a situação. O esgoto toma conta dos rios que atravessam as cidades – até mesmo a mais rica de todas, São Paulo, com os rios Tietê e Pinheiros fedendo a dejetos. Apesar de investimentos pesados, o problema continua. Falta saneamento básico.

No caso do Rio de Janeiro, nada de concreto é feito para resolver a poluição dos rios, lagoas e da Baía de Guanabara. Centenas de milhões de reais foram investidos na despoluição, mas o cenário continua o mesmo.

Recentemente, a situação até piorou, com o esgoto se misturando à água potável. Habitantes reclamam de doenças causadas pela água suja, procurando se abastecer com garrafas pet de água, produto escasso em muitos supermercados da cidade. Ambientalistas previam há anos a atual situação vivida pela segunda maior cidade brasileira. Mas o governo estadual nega que a água tenha ficado imprópria para o consumo. O governador Wilson Witzel simplesmente fala em "alarmismo".

Para o governo do Rio, lucrar com a prevista privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) é essencial para sair da crise financeira. Valorizar a estatal antes da venda parece ser prioridade para o governo, que, com a finalização da nova estação de tratamento de Gandu, espera mais que dobrar o valor da Cedae, para 15 bilhões de reais.

Enquanto a Cedae obteve um lucro histórico de 832 milhões de reais em 2018, as reclamações explodiram. Aparentemente existe um sucateamento das instalações, que provoca problemas de abastecimento. Há meses, a mídia relata problemas na estação de Guandu, onde, desde o começo de janeiro, o esgoto se mistura à água potável.

Fica a impressão de que lucrar é mais importante do que resolver os problemas. E isso não é exclusividade dos governos. Os desastres de Mariana e Brumadinho levam a acreditar que empresas privadas tampouco colocam a segurança em primeiro lugar. Me pergunto: onde está a pressão popular para exigir uma melhoria?
Thomas Milz

Brasil endemoniado


Por ora, o risco maior é o 'Viabra', vírus da incompetência aguda brasileira

O coronavírus pode diminuir de um quinto a um terço do crescimento da China neste trimestre, a gente lê por aí em relatórios financeiros e em textos de consultorias. É uma diferença brutal de estimativa (rir, rir, rir), ainda mais para um PIB grande como o chinês, equivalente a um sexto da economia mundial.

A tolice não para por aí, embora a doença seja séria e possa matar milhares de pessoas. Por ora, no entanto, a gente corre mais risco com o Viabra (“Vírus da Incompetência Aguda Brasileira”), que infecta evidentemente o INSS ou a Educação, para ficar só em dois exemplos, mas pode infectar até a medula da política econômica.

A gente não tem informação confiável nem sobre a doença, que dirá de seus efeitos na economia da China ou do mundo. Não se sabe bem o número de casos chineses, com o que não se conhece a velocidade de expansão da infecção nem quão letal é.


Cientistas de Hong Kong criticam os números da China (pode haver mais infecções). Há dúvidas sobre qualquer contagem porque, afora a confusão que esses surtos provocam, duvida-se que ora existam profissionais e testes em quantidade suficiente para fazer exames.

O coronavírus vai ter efeito pior do que seu primo que causava a Sars (síndrome respiratória aguda grave), epidemia de 2002-2003? Pelo que se tem registro, a Sars matou cerca de 800 pessoas e infectou umas 8 mil, de novembro de 2002 a julho de 2003. Uns estudos do efeito econômico da doença dizem que a epidemia tirou cerca de um décimo do crescimento do PIB chinês, que corria então ao ritmo de 10% ao ano. Além de Hong Kong e Singapura, no restante do mundo, o efeito foi na prática irrelevante, afora para os mortos, suas famílias e seus amigos.

Isto posto, o vírus parece bastante agressivo, escreve gente que estuda o assunto, em revistas científicas. Um baque significativo na economia chinesa pode ter efeitos diretos no Brasil (preços de minério e petróleo) e indiretos. Até a semana passada, o FMI e bancões pareciam animadinhos com alguma retomada da economia mundial. Para o FMI, o crescimento global passaria dos 2,9% estimados para 2019 para 3,3% neste 2020. Se houver desgraça maior na China, não vai rolar.

Enquanto seu vírus não vem, o nosso principal problema somos nós mesmos e o Viabra, o vírus da incompetência. Além de gente desclassificada, há gente desqualificada em postos-chave do governo.

Desgraçar a vida de gente na fila do INSS ou infernizar vestibulandos do Enem, no curto prazo nem causa danos econômicos, pode-se congratular barbaramente o governo. Mas o Viabra está espalhado pela administração federal, um risco enorme para a economia, doente grave que convalesce devagar. Nesse ano, seria preciso haver outra rodada de redução duradoura de gasto, um programa de obras na rua e algum conserto tributário, pelo menos. Se nem ao menos o pacotão rudimentar e antissocial de ajuste econômico for adiante, o caldo azeda.

Exagero? Note como o Ministério da Economia diz “a” e Jair Bolsonaro diz “não a” ou “b” sobre tantos assuntos. O governo cria crises políticas do puro ar, do nada. A maioria delas tem sido espuma tóxica, daninha, mas que se dissipa.

E quando não for? Esperar que Rodrigo Maia governe o grosso da economia com uns economistas de Bolsonaro e controle suas atrocidades maiores pode até ser uma expectativa razoável, mas o mero fato de que as coisas tenham funcionado assim, e olhe lá, não diz boa coisa sobre o nosso arranjo.

Notória negligência

A responsabilidade quando temos perdas de vidas humanas é da negligência do poder público que não soube ouvir o que os cientistas estão alertando há muito tempo e tomar medidas
Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima