sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Real people x fake news em 2022

Todos os meus amigos, sem exceção, estão convictos de que o pêndulo de opinião se deslocou para a direita por um bom tempo e de que a esquerda, desde já, deve ser descartada como opção eleitoral possível —se viável, aí o debate é outro— para 2022. Eu não estou. E olhem que isso nada tem a ver com “Lula livre” ou “Lula preso”.

Ouso sugerir que se coloquem os pobres na equação. No país que teve deflação em setembro —e duvido que Paulo Guedes tenha tido tempo de explicar para Jair Bolsonaro que isso não é bom—, o presidente decidiu fazer um esparramo em seu próprio quintal ideológico ao detonar o PSL. Que importa que isso crie dificuldades adicionais para alguns objetivos que deveriam ser estratégicos para o governo, como as reformas?


Nesta quinta, li cheio de interesse uma fala de Guedes a investidores brasileiros e estrangeiros. O trecho que mais me encantou foi este: “Estamos com o crescimento subindo, a inflação descendo e retomando provavelmente agora um longo ciclo de crescimento. Num momento em que o mundo sincronizadamente desacelera, entrando em uma clínica de reabilitação após um período de excessos, o Brasil está saindo da clínica de reabilitação”.

O discurso do ministro sempre pareceu complexo demais para o meu curto entendimento. Como quando prometeu arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações ou zerar o déficit ainda em 2019. Com o mundo na clínica de reabilitação, e o Brasil iniciando seu longo ciclo de crescimento, suponho que a sustentação de que trata estará ancorada no mercado interno.

Não sou especialista em economia. Ele é. O debate no país consegue ser bem despudorado quando o tema é o rendimento das famílias, não é mesmo?

Vejo o escarcéu que se fez com o estudo do Banco Mundial sobre os gastos com o funcionalismo. Os números parecem especialmente perversos porque o rendimento médio do trabalho no país é de R$ 2.300.

Quase metade das famílias tem renda de R$ 1.996. O aluguel de uma casa de dois cômodos, com banheiro e quintal coletivo, na Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, custa R$ 700. Na parte nobre da favela de Paraisópolis, na Zona Sul, pode ser um pouco mais caro.

Precisamos cortar os excessos do funcionalismo, sem dúvida. Mas de quais categorias? Não vi se o estudo do Banco Mundial cruza a formação escolar dos servidores com a do conjunto dos brasileiros e dos trabalhadores da iniciativa privada. Professores do ensino público podem ser confundidos com nababos. São?

Ainda que a renda média das famílias não o escandalize, leitor, deve-se entender que Banânia vai sustentar o crescimento, na contramão do mundo, incentivando o mercado interno, mas tirando dinheiro das mãos dos brasileiros —ou da parcela que consegue guardar alguma coisinha. O tempo dirá se faz sentido.

Não sei, não... O encanto do discurso da direita disruptiva, entendo, já se quebrou. A extrema direita hidrófoba nas redes sociais está dividida. Suas celebridades de internet estão se estapeando pela prerrogativa de liderar o obscurantismo, a vulgaridade, a truculência, a burrice e a falta de empatia com a maioria dos brasileiros, formada de gente pobre.

Acreditem: os escuros, achados pelas balas perdidas destes dias aziagos, ressurgirão em 2022. Talvez já deem as caras em 2020. Quem sabe ver e ouvir já percebeu que o “real people” tende a diminuir a importância das “fake news”. Querem apostar? Não creio que multidões de duros vão manter a mesma disposição de lutar contra o comunismo...

Para encerrar: também nós somos os curdos de Donald Trump. Deu uma banana para “Bolsonaro I love you” e resolveu apoiar o ingresso da Romênia e da Argentina na OCDE. A Argentina é aquele país que decidiu resistir à orientação de Bolsonaro e que vai eleger os esquerdistas Alberto Fernández e Cristina Kirchner para a Presidência.

A propósito: Guedes já deixou claro à Organização Mundial do Comércio que os curdos da Vila Brasilândia não querem mais tratamento diferenciado? Afinal, sabem como é, estamos na contramão do mundo. E gozar de regalias na OMC é coisa para países atrasados, como a China.

Na briga com o PSL, Bolsonaro já conseguiu o que queria

Fala-se agora, novamente, na possibilidade de Jair Bolsonaro investir na constituição de um novo partido. Isso vai e vem, a depender das conveniências bolsonaristas. Há mesmo gente, nas franjas do bolsonarismo, trabalhando para tanto. O argumento é o de que a mobilização bolsonarista precisaria de organização de base - de coesão programática e ideológica - para não perder o viço e deixar esfarelar o fenômeno que sustentou a eleição de Bolsonaro.

Tenho, porém, dificuldade em acreditar que o presidente apoie - para valer - a iniciativa. É inconsistente com a mentalidade bolsonarista e com o histórico partidário de Jair Bolsonaro; daí por que seja bem mais provável, segundo avalio, que ele autorize a ventilação da hipótese como ameaça e, óbvio, como parte fundamental da estratégia de desqualificação da ideia de partido.

A lógica do bolsonarismo, força autocrática e personalista, é a de depreciar e esvaziar o valor de toda e qualquer forma de mediação, de representação. Partido é a máxima expressão da atividade política, da impessoalidade e da concertação entre agentes, que se manifesta - por excelência - no exercício parlamentar. Não e à toa, diga-se, que o bolsonarismo ataca o Congresso. A impessoalidade e a desconcetração decisória são riscos ao propósito populista.

De resto, objetivamente, organizar um partido novo, agora, seria complicar, arriscar mesmo, o projeto de poder bolsonarista - que precisa (incontornavelmente) eleger braços municipais fortes - para as eleições de 2020; que pode se servir bem daquilo já montado, inclusive em termos financeiros, no PSL.

Mais provável é, pois, que Bolsonaro e corte fiquem; ao menos até o fim do ano que vem. Não há dúvida de que examina alternativas. O presidente, contudo, já conseguiu o que pretendia: rebaixou o próprio partido; que é, também, investimento no rebaixamento da democracia representativa. E colocou sua insatisfação na mesma sintonia de sempre, uma das frequência de sua eleição: o da - falsa - indignação com desvios e falta de clareza na gestão dos fundos partidários pela direção do PSL; isto sem falar na podridão que ainda se pode cheirar desde o laranjal de Marcelo Alvaro Antonio. Tem método. Bolsonaro faz isso. Está sempre se limpando. Sempre criando condições para se cercar de descartáveis.

Por essa exata razão é que não se pode desconsiderar a chance de uma eventual mudança de partido; mas para outro entre esses de aluguel.

Cabe registrar, adicionalmente, que parte influente do bolsonarismo prega por uma reforma eleitoral que admita candidaturas avulsas - conforme há em algumas democracias do mundo. Gente muito boa, fora do bolsonarismo, também defende essa tese. Sou contra. No Brasil, radicalmente contra. Candidatura avulsa, neste país, com o histórico de líderes carismáticos que temos, seria erro grave: o estabelecimento mesmo do chão para o reino do populismo, do personalismo, do messianismo, em detrimento do equilíbrio próprio à cultura da representação e da mediação política. Cuidado.

Finalmente, a partir de um exemplo típico da gramática bolsonarista, proponho aqui uma breve reflexão sobre a linguagem influente do bolsonarismo. Ontem, em entrevista - sobre esse imbróglio partidário - ao site O Antagonista, o presidente afirmou que não sairia do PSL por "livre e espontânea vontade" e que não queria "entrar nessa briga".

Note, leitor, o grau de manipulação discursiva para o objetivo de inverter a ordem dos fatos e se vitimizar. O presidente faz isso diariamente. Age como se não fosse ele, Jair Bolsonaro, o gerador - a própria origem - da crise; como se não tivesse sido ele a pedir que se esquecesse o PSL e a se referir ao dono do partido como "queimado".

>Isto é o bolsonarismo: uma fábrica de conflitos artificiais. No caso, com efeito, para diminuir o PSL, situar - reforçar a ideia de - o partido como mais um no meio de um sistema corrupto, e se destacar novamente como aquele de fora, puro, que nada tem a ver com isso e aponta os erros. Ele fica; o partido mingua mais um pouco; e ainda joga fumaça sobre as denúncias contra o ministro do Turismo do qual - dono do PSL em Minas - não abre mão.

Guedes está dois lances atrás da própria língua

O governo de Jair Bolsonaro seria outro se o presidente trouxesse suas palavras na coleira e o ministro da Ecomomia convertesse gogó em resultados. O problema é que Jair Bolsonaro não para de produzir insensatez —a crise com o PSL foi apenas a penúltima— e Paulo Guedes parece estar sempre dois lances atrás da sua própria língua. Bolsonaro preocupa-se mais com as urnas de 2022 do que com os cofres de 2019. Cofres que a língua de Guedes havia prometido sanear no primeiro ano de governo.


Falando num fórum de investidores, o ministro celebrou o fato de que a economia mundial entra numa clínica de reabilitação num instante em que o Brasil está saindo dessa clínica. A economia brasileira melhora, mas não recebeu alta hospitalar. Vai crescer menos de 1% neste ano. Na comparação com o PIB mundial, que terá crescimento médio acima de 2%, o Brasil está mais enfermo. E o declínio da economia do resto do mundo tornará a recuperação ainda mais lenta. Guedes disse a certa altura que, depois de quatro décadas de economia fechada, impostos elevados, Bolsonaro "começou a revolução em relação ao que há de melhor no mundo ocidental".

A gestão Bolsonaro está a dois meses e meio de fazer aniversário de um ano. E Paulo Guedes ainda não levou ao Congresso uma proposta de reforma tributária. O fim dos subsídios? Nada. A facada na mamata do Sistema S? Nem sinal. A coleta de R$ 1 trilhão com a venda de estatais e imóveis públicos? Necas. São coisas que a língua prometeu e o ministro não entregou. Por enquanto, o que há de concreto é uma reforma previdenciária lipoaspirada e inconclusa, um presidente que produz crises na saída do Alvorada e um ministro da Economia com a garganta maior do que as atitudes. Um pouco de sinceridade talvez causasse melhor impressão nos investidores.

Os governos do Brasil têm convivido com ministros econômicos que se consideram extraordinários. Alguns têm o prestígio de super-ministros. Mas a maioria, no fim das contas, apresenta um defeito comum. Costumam encontrar as verdadeiras soluções para os problemas nacionais quando se transferem do palco para a crítica. Para evitar a sina dos ex-ministros geniais, Paulo Guedes deveria serenar a retórica e perseguir resultados.

Pensamento do Dia


Cheiro de gás

Solange M. T. Hernandes foi lembrada por mais de um comentarista político nos últimos dias. Funcionária da Polícia Federal, ficou tão conhecida nos anos 1970 que seu nome virou sinônimo da censura a jornais, revistas, livros, filmes, peças, músicas, noticiários e novelas, amplamente praticada pelo regime militar. Sua tesoura inoxidável mutilava não só manifestações de oposição, mas tudo aquilo que ela considerasse atentatório à moral e aos bons costumes.


Estaríamos assistindo à volta dos tristes tempos de dona Solange? É o que se perguntam todos quantos se preocupam com a escalada dos destemperos verbais do presidente Bolsonaro e de seus subalternos contra a imprensa e artistas conhecidos; a ameaça de impor filtro à produção cinematográfica; as demissões em organismos ligados ao Ministério da Cultura; e a suspensão de financiamentos de empresas públicas a atividades culturais se os beneficiados tiverem o perfil “errado”.

Há quem sustente que, a despeito do linguajar chulo do presidente, apenas estaríamos diante de mudanças esperáveis de um governo de extrema direita eleito segundos as regras do jogo: governo de extrema direita, políticas culturais de extrema direita, executadas por funcionários de mesma orientação. Bolsonaro retruca que não se trata de censura, mas de defesa dos valores cristãos compartilhados por faixas extensas da população —das quais se imagina representante.

É fato que dona Solange serviu a um regime de força, sua atuação autorizada pelo Ato Institucional n°5 e pela Lei de Censura. Hoje vivemos outros tempos, sob democracia e com ampla liberdade de expressão. Mas não há como ignorar a tensão permanente entre as instituições democráticas vigentes e um presidente de clamorosa inclinação populista e autoritária. Nesse particular, de todo modo, o Brasil não é um caso único.

Ali onde populistas de esquerda ou de direita conquistaram o governo, a imprensa independente, intelectuais e artistas tornaram-se alvos prioritários de tentativas de censura e descrédito. Em alguns países, as investidas tiveram êxito —a exemplo de Hungria, Filipinas, Polônia, Rússia e Venezuela. Em outros, nem tanto. Apenas irritam e poluem a atmosfera política, como nos Estados Unidos e na Itália. Tudo parece depender da resiliência das instituições democráticas.

Não é possível saber de antemão como será aqui. Os tempos de dona Solange ainda não estão de volta. Mas as manifestações e as medidas tópicas tomadas pelo governo são como o gás que escapa lentamente de um vazamento sem que se dê muita atenção. Até que seja tarde demais.
Maria Hermínia Tavares de Almeida

Atendendo à chefia...

São agressões generalizadas, graves, e com a conivência do poder Público, do Estado. Parece que fizeram uma seleção de psicopatas, e deram o direito a eles se regozijarem nos presos – o que a gente vê é a banalização do mal
Servidor estadual descreve horror nos presídios do Pará implantado por agentes federais da Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP) 

Bolsonaro não ficou nem saiu do PSL, e virou um OVNI político, perdido no espaço

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu chegar à Presidência da República mediante uma série de circunstâncias, diria o grande filósofo e analista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Depois de chegar ao poder, porém, as circunstâncias mudaram muito e o presidente brasileiro enfrenta dificuldades cada vez maiores. Na política interna ou externa, seu amadorismo é cada vez mais surpreendente, porque formou uma péssima equipe e está pagando esse preço, porque não tem assessores qualificados que possam sugerir os caminhos mais seguros para trafegar. O resultado é patético.

Como toma as importantes decisões sem antes discuti-las, os resultados são patéticos e surpreendentes, A cada dia sai uma novidade (no mau sentido), como uma deselegância, um erro de avaliação, uma ofensa ou mesmo um desatino.


Não adianta esperar que o presidente da República aprimore seu comportamento, porque ele é assim mesmo, todos sabem que não irá mudar. Na verdade, Jair Bolsonaro não se comporta como presidente da República. Posiciona-se preferencialmente como chefe da família Bolsonaro.

Um bom exemplo é essa briga com o presidente do PSL, Luciano Bivar, que nunca foi, não é e jamais será referência. Bolsonaro tentou destruí-lo com uma declaração explosiva: “Cara, não divulga isso não. O cara tá queimado pra caramba lá. Vai queimar o meu filme. Esquece o Bivar, esquece o partido”, disse, sem entrar em detalhes.

E o motivo? Ora, tudo isso é porque Bivar não impediu que o líder do PSL no Senado, Major Olimpio, criticasse publicamente Flávio Bolsonaro e sugerido que deixasse o partido. Ou seja, Bolsonaro agiu como pai, ao invés de se comportar como presidente da República.

O resultado foi o contrário do que Bolsonaro esperava, porque caiu no centro da roda e começou a levar pancada de todo lado. Bivar acusa pessoas ligadas a Bolsonaro de querem controlar as finanças do PSL, o que significa uma maluquice total, enquanto Olímpio aumenta as críticas aos filhos de Bolsonaro, dizendo que eles são filiados como qualquer outro, o que é pura verdade.

Todos sabem que seu partido, o PSL, não é nenhum primor democrático, mas foi a legenda que o levou ao poder e se tornou a maior do país. Agora Bolsonaro está na berlinda, não saiu, mas também não é mais do partido, igual à Viúva Porcina, aquela que foi, sem nunca ter sido, na definição genial de Dias Gomes.

Ele pode trocar de partido mais uma vez, porém os deputados e senadores que elegeu não podem acompanhá-lo com facilidade, há regras na Lei Eleitoral a serem obedecidos. A chamada janela só se abre em 2022. Até continuará reinando a esculhambação.

A nova literatura de Brasília

Estamos tão acostumados com o surrealismo que impera na política brasileira que a revelação de que um procurador-geral da República pretendia assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal e depois se suicidar passa como uma espécie de anedota para a opinião pública. Mais uma dessas maluquices de Brasília.

Mas a verdade é que a revelação de Janot abre um novo capítulo naquilo que podemos esperar de nossos homens públicos. Imagine se cada desses protagonistas da história republicana recente decidisse publicar livros com relatos bombásticos? Aí sim valeria a pena ler, reler e guardar todos os jornais da semana. A Netflix teria que produzir minisséries em série — com o perdão do trocadilho. Ainda que eu esteja convencido de que poucos escritores de ficção teriam talento para superar o ex-procurador-geral, não posso deixar de imaginar o potencial dessas histórias. Eis alguns trechos que permitirão aos leitores saber quem está narrando.

No livro de um poderoso ex-deputado federal: “No dia da votação do impeachment, estava convencido que precisava garantir que o processo passasse para o Senado. Pedi que colocassem uma bazuca embaixo da mesa da presidência. Já havia negociado com todos os deputados que podia, mesmo assim ainda tinha medo de alguma mudança de lado na última hora. Então chamei um deputado com experiência militar e decidimos espalhar algumas bombas em locais estratégicos do plenário, just in case. Graças a Deus, não foi necessário utilizá-las.”

Nas memórias de um ex-vice-presidente: “Quando ele veio me visitar, temi que fosse me chantagear. Então pedi para que ficássemos na garagem de casa, para não haver testemunhas. Minha intenção era esconder seu corpo no porta-malas depois de assassiná-lo, já que não conseguiria arrastá-lo da sala até o carro. Sou um senhor de idade, entendam. Além do mais, poderia chamar a atenção dos empregados. No entanto, quando percebi que ele estava seguindo todas as minhas instruções, mudei de ideia. Ah, se eu soubesse que o safado estava nos gravando…”

Na biografia autorizada de uma ex-presidente: “Se tinha uma coisa que eu odiava, era quando ele me chamava de ‘querida’. Sério. Aquilo me tirava do sério. Mas fazer o quê? Sendo ele quem era, podia chamar a gente do que bem entendesse. Então, naquele dia que liguei para ele, aquele dia que eu ia chamá-lo para a Casa Civil, tinha certeza que a conversa estava sendo gravada. E eu sabia que ele ia me chamar de ‘querida’. Foi minha vingança. É como eu sempre digo: Mais vale um pássaro na mão do que um peixe que morre pela boca.”

Em “A Verdadeira História do Brasil”, de um ex-presidente-presidiário: “Isso eu nunca contei para ninguém. Guardei para esse livro. Antes desse escândalo todo começar, o tal juiz veio falar comigo. Pouca gente sabe disso. Eu o recebi no meu apartamento. Ele tinha uma proposta. Queria trocar a chácara pela minha liberdade. Queria tudo. Até os pedalinhos. Disse que se eu passasse a chácara para o nome dele, encerraria o processo. Expliquei que não era dono da chácara. Ele ficou maluco e começou a me perseguir. Veja você como funciona a Justiça no Brasil.”

E, finalmente, no romance “Meus Amores”, de um ministro do STF: “Naquele dia em que ele veio ter comigo, decidi que iria matá-lo e depois me suicidaria. Depois que li que essa também era sua intenção, percebi como somos parecidos. Nos aproximamos. Agora moramos juntos num apartamento funcional, em Brasília. Temos um labrador chamado Jairzinho e estamos muito felizes.”

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Obscurantismo supremo

Boa explicação da falta de justa causa do misterioso inquérito em trâmite no STF. Nem na ditadura houve investigação tão ilegal e elástica. Na ditadura, aliás, as ilegalidades partiam do executivo. Agora, gerando maiores riscos, partem do Judiciário 
Janaina Paschoal (PSL-SP) 

Tortura não é besteira

Como em tantas outras ocasiões, na terça Bolsonaro encerrou uma entrevista por não ter gostado de uma pergunta que lhe foi feita. "Parem de perguntar besteira", disse.

O comportamento em si, pela reiteração, já não surpreende ninguém, mas desta vez algo chamou a atenção. A "besteira" a que ele se referia era um documento do Ministério Público Federal sobre denúncias de tortura em presídios do Pará.

Baseado em fotos e vídeos, além de depoimentos de ex-detentos, parentes dos presos, funcionários do sistema carcerário e representantes da Ordem dos Advogados do Brasil, o relatório se alonga por 158 páginas.

Aponta práticas como empalamento com cabo de espingarda, perfuração dos pés com pregos, espancamento, uso reiterado de balas de borracha ou spray de pimenta e disparos de arma de fogo. Na ala feminina, mulheres nuas ou em peças íntimas teriam sido obrigadas a se sentarem sobre um formigueiro.

Besteira?


Os agentes acusados integram a força-tarefa enviada pelo governo federal no fim de julho para controlar rebeliões nas penitenciárias. Respondem ao Ministério da Justiça, sob comando de Sergio Moro. Confrontado com a denúncia, o ex-juiz não se saiu melhor que o presidente.

Sem nenhuma base, questionou a veracidade das informações apresentadas pelo MPF e afirmou que a "intervenção levou disciplina para dentro dos presídios".

Detonar o mensageiro tem sido uma constante entre bolsonaristas. Os jornalistas sabem muito bem disso, pois sofrem ataques sempre que publicam notícias desfavoráveis ao governo. O próprio presidente lidera o movimento, talvez confundindo o papel da mídia independente com o de uma assessoria de comunicação.

Reclamar da imprensa, no entanto, faz parte do jogo democrático. O que extrapola limites é tentar calar jornalistas, procurar sufocar os veículos para os quais trabalham, chamar tortura de "besteira" ou defender sevícias como método de disciplina.

Imagem do Brasil

Mulheres presas no Pará sofrem com rotina de truculência,
denuncia o MPF, e presidente considera como 'besteira'

Eu, Deus

Abusam de meu nome no Brasil. Estranho que, em um país tão cristão, outrora conhecido como Terra de Santa Cruz, muitos parecem ignorar o Decálogo que entreguei às mãos de Moisés, e cujo segundo mandamento é “Não tomar em vão” meu Santo Nome.

Há políticos que não fazem outra coisa. Evocam-me sem o menor escrúpulo e a qualquer pretexto. Até na ONU, instituição laica e plural, meu Nome foi citado na finalização de um discurso presidencial repleto de falácias e eivado de ódios e discriminações.


Confesso que me sinto incomodado desde que me usaram como jargão na campanha eleitoral: “O Brasil acima de tudo; Deus acima de todos”. Ora, o Brasil não é um disco voador que paira acima de tudo. O Brasil é toda essa gente que ocupa esse extenso e rico território. Essa gente sofrida, desempregada, que é alvo de operações policiais que disparam a esmo, assassinando crianças como Ágatha Félix que, agora, brinca com os anjos no Céu. Esses ricos que, nos últimos sete anos, tiveram 8,5% de aumento na renda, e os pobres que, no mesmo período, perderam 14% da renda.

E Eu, é bom frisar, não estou acima de todos. Estou entre vocês, povo brasileiro, e dentro de tudo: na árvore derrubada pela motosserra na Amazônia; na água do rio envenenado pelo mercúrio dos garimpeiros; no coração dos torcedores que lotam os estádios de futebol; e também no dos policiais emboscados por bandidos.

Nada, neste Universo, prescinde de minha amorosa presença. E, pelo amor de D..., ou melhor, por favor (pois não quero parecer cabotino), não confundam o que digo com panteísmo. Panteísta crê que tudo é deus. Apoiem, sim, os panteístas, que acreditam, com razão, que Eu me faço presente em tudo que criei.

Devo frisar, porém, que não criei a desigualdade social, a devastação ambiental, a misoginia, a homofobia, o preconceito étnico etc. Todas essas aberrações não resultam de minha divina vontade. São frutos amargos da injustiça humana.

Por favor, não atribuam a mim males e crimes que vocês provocam. Dei-lhes liberdade porque sou, essencialmente, um Ser amoroso. E só há liberdade onde reina o amor. Se tivesse criado todas as pessoas como autômatos programados a fazer sempre o bem, eu me negaria. Isso seria o mundo de um tirano, e não de um Deus cujo único sinônimo é Amor. Como ser amoroso, só poderia tê-los criado com livre arbítrio. Tão livres que podem até me dar as costas ou negar a minha existência. E, ainda assim, jamais deixarei de amá-los. Como bem afirmou o papa João Paulo I, sou mais Mãe do que Pai.

Rogo aos que me são fiéis não admitir que tomem o meu Santo Nome em vão. Denunciem e combatam os que me evocam para extorquir os pobres, aqueles que pregam ser Jesus o caminho, mas insistem em cobrar o pedágio... Rejeitem os que ostentam o meu Nome para ampliar seus negócios, impor suas leis injustas e oprimir o povo. Façam o que fez meu Filho. Não se aliou aos fariseus hipócritas. Não bajulou os abastados, mas despediu-os com as mãos vazias. E deu a sua vida para que “todos tenham vida e vida em abundância”, como registrou João no Evangelho.

Dito isso, retorno à minha comunhão trinitária. E, reitero, estou presente em todas as coisas criadas. Basta que vocês tenham coração para amar, mãos para partilhar, pernas para prosseguir no rumo da esperança, e olhos para ver luz mesmo onde parece reinar trevas.
Frei Betto

TSE deve dificultar saída de bolsonaristas do PSL

A pedido de um parlamentar do bloco bolsonarista do PSL, um advogado que presta serviço a partidos políticos esteve na noite desta quarta-feira com um ministro do Tribunal Superior Eleitoral. Conversaram sobre a hipótese de Jair Bolsonaro deixar o PSL, levando consigo algo como duas dezenas de parlamentares. O ministro informou ao interlocutor que o TSE tende a ser rigoroso na aplicação da lei em casos de infidelidade partidária.

O mandato de Bolsonaro não seria afetado em caso de abandono do partido. Mas os deputados que o acompanhassem numa eventual pulada de cerca correriam elevado risco de perda dos respectivos mandatos. E não levariam para a outra legenda nem o tempo de propaganda na televisão nem a verba dos fundos partidário e eleitoral correspondente aos votos que obtiveram em 2018.

Para desassossego de Bolsonaro e do seu grupo, o ministro informou ao advogado que, em tese, não havendo expulsão nem justa causa para a saída, a vitrine televisiva e o dinheiro ficam com o PSL. Está em jogo uma caixa de R$ 360 milhões para o ano eleitoral de 2019 —R$ 113,9 milhões do fundo partidário e R$ 245,2 milhões do fundo eleitoral.


O advogado perguntou ao ministro se a falta de transparência na gestão das verbas públicas destinadas ao PSL poderia caracterizar a "justa causa" para a troca de legenda. Embora o membro do TSE não tenha soado categórico, deu a entender que a tese dificilmente prevaleceria no tribunal. Se comprovados, eventuais desvios na aplicação dos recursos sujeitariam os dirigentes partidários a punições, mas não serviriam de pretexto para a infidelidade partidária.

Em privado, Bolsonaro disse aos deputados com os quais se reuniu nesta quarta que busca alternativas jurídicas para abrir a maçaneta da porta de saída do PSL. Aos repórteres, negou que esteja fazendo as malas. Classificou suas desavenças com o partido e seu presidente, Luciano Bivar, de "briga de marido e mulher". Coisa que "de vez em quando acontece". Considerando-se o caráter mercantil da relação de Bolsonaro com o PSL, o matrimônio deveria se chamar "patrimônio". No caso específico, um patrimônio público.

'Estamos criando o ciberproletariado, geração sem dados, sem conhecimento e sem léxico'

O mundo da educação debate as horas de aulas, a avaliação dos professores e os maus resultados da Espanha nos testes do PISA, mas tudo isso é bastante secundário no universo de Andreu Navarra, um professor de língua e literatura no ensino médio que retrata desde as vísceras do ensino, da própria sala de aula, uma realidade de emergências mais prementes: da desnutrição de uma boa parte dos estudantes à incapacidade de se concentrar da nova geração do “ciberproletariado” ou a ausência de debate sobre o futuro a que esta sociedade quer conduzir seus jovens. Navarra não é um teórico, mas uma torrente de verdades que acaba de publicar "Devaluación Continua" ("Desvalorização contínua") pela editora Tusquets, uma chicotada contra a cegueira, um chamado emergencial diante da degradação do modelo educacional.

“Nós, professores, queremos criar cidadãos autônomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós”, diz Navarra. "O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tiram a energia mental para dar aulas."


O testemunho de Andreu Navarra (Barcelona, 1981), historiador, tem o valor de quem leciona há seis anos em escolas públicas e em subvencionadas, em áreas ricas e em degradadas, onde encontra por igual "professores heroicos" em um sistema educacional estressado pela própria sociedade da qual é espelho: há pais ausentes porque trabalham demais; há violência; há crianças sem comer ou tomar café da manhã; há muitos problemas mentais; e há uma geração ausente por causa de sua concentração nas redes sociais e sua identidade virtual.

“O audiovisual está criando uma nova Idade Média de pessoas dependentes de satisfazer o prazer aqui e agora, quando a vida é muito diferente. Na vida você precisa saber ler contratos, alugar apartamentos, cuidar dos idosos, criar filhos. Mas o ciberproletariado desmorona por qualquer problema. São pessoas que não serão capazes de trabalhar porque têm a concentração sequestrada pelas redes”, diz ele. Não que todos os jovens se encaixem em seu olhar crítico, mas ele vê o risco de exclusão de um quarto dos alunos em uma tempestade perfeita de precariedade e vida virtual.

Navarra descreve, por exemplo, uma turma de 20 alunos com dificuldades de aprendizado em que, depois de lhes perguntar, descobriu que nenhum havia tomado o café da manhã. “Estão pálidos e ficam inquietos. Há estudantes que não comem por causa de distúrbios alimentares, outros por negligência da família, outros por pura miséria.” No entanto, na ausência de professores de apoio e de especialistas, as patologias (teve classes em que 30% tinham algum diagnóstico) concentram a atenção dos professores nas reuniões de avaliação e os impedem de pensar nos conteúdos. O pedagogo se confunde com o terapeuta, diz ele. E no debate da inclusão se esquece, diz ele, que "o que realmente falta incluir é a instituição". Navarra conta como ele e seus colegas se alegram quando encontram um livro didático de segunda mão dos anos 90 e o compram "como se fosse ouro". “Nos livros de Lázaro Carreter há explicações, agora temos excertos, flipped classroom [um método participativo que ele considera inaplicável havendo excesso de alunos]. Explique Quevedo com uma flipped classroom! O que não pode haver é uma pedagogia indecente. Temos pessoas inteligentes, queremos uma sociedade inteligente, não a rebaixemos. Temos de distinguir o tempo da escola do tempo externo, e não reduzi-lo. Ser aluno é importante. Ser professor é importante. Vamos explicar quem é Quevedo! Tiramos a literatura do currículo e depois nos perguntamos por que a nação é fraca. É que a nação é isso! Temos que dar a eles a oportunidade de um debate crítico.”

Nem tudo é negativo, é claro. Seu livro tem tantos problemas detalhados como sinais de esperança em experiências possíveis, diz ele, quando a autonomia do professor é respeitada: oficinas de poesia, contos, recreio dedicado ao tempo de leitura, como em sua atual escola, em Collbató, onde os alunos leem e depois contam o que leram, com êxito. “A chave é a autonomia da instituição frente a um pensamento único, frente às teorias da panaceia. Quando Portugal concedeu 25% de autonomia às escolas, melhorou.”

O livro de Navarra recorre a Ortega y Gasset para apelar a um debate necessário antes de tudo o mais: para onde estamos indo. “Se você sabe para onde está indo, se abrirmos um debate sobre o modelo de futuro para o qual queremos avançar, você depois regulará a tecnologia, os horários ou o que for, mas antes de aumentar ou diminuir as horas é preciso pensar no que se quer fazer com elas”, argumenta. E o modelo de sociedade que transforma Pablo Escobar ou Jesús Gil em heróis carismáticos nas séries; o mau exemplo de alguns políticos malandros; a mentalidade Fraga do “turismo e populismo que continua em Salou, em Magaluf, em destroçar Barcelona” não ajuda. "Falta reflexão sobre a sociedade que queremos porque não apostamos em um MIT espanhol, em exportar literatura, engenharia patenteada aqui em vez de exportar engenheiros".

Mas "o papel da educação de promover a ascensão social está fracassando e estamos criando bolsões de guetos, de pessoas sem futuro". Menciona também a ação de “maquiar” a ignorância que as escolas praticam para melhorar as estatísticas. E insiste repetidamente na incapacidade de fixar a atenção, grande carência de uma nova geração com fotos nas redes, mas sem memória. “Conhecemos vários capitalismos e agora estamos no capitalismo da atenção, em uma economia de plataformas que mercantilizam a atenção. Se você estiver vendo algumas mensagens, alguém ganha dinheiro e, se vê outras, outro alguém ganha. Não podemos repensar a educação se não pensarmos em como devolver a atenção às salas de aula, o regresso do mundo virtual. Agora não podemos nos ensimesmar, como Ortega defendia, porque tudo é ruído, política é gritaria e slogans, ninguém pensa, ninguém escreve, tudo é bobagem e slogan e isso chegou às salas de aula: o simplista, o binário, o bem e o mal. Os Steve Jobs e Zuckerberg, lembre-se, receberam educação analógica. E os gurus da tecnologia mandam seus filhos para escolas analógicas. É por isso que, ele conclui, "enquanto não consertarmos a sociedade, não podemos consertar o sistema educacional".
Berna González Harbour

Pensamento do Dia


A revolução cultural do bolsonarismo

A cultura é um campo permanente de batalha do Bolsonarismo. O próprio presidente confessa que “pretende conservar os valores cristãos no setor”, eufemismo que significa censura e retrocesso, o que já vem sendo praticado nas ações culturais e patrocínios que envolvem a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Jair Bolsonaro admite ainda uma caça às bruxas na Funarte e na Ancine, para expurgar petistas que, segundo ele, infestam os dois órgãos.

Na Caixa foi instituído um filtro ideológico para a seleção do projetos exibidos nos espaços culturais mantidos pela instituição. Por aí não passam projetos com críticas à ditadura militar ou que façam menção a questões de gênero ou atentem contra a moral e os bons costumes, na ótica do bolsonarismo.


O filtro ideológico na produção cultural também já aconteceu na Funarte, quando vetou a apresentação da peça teatral “RES PUBLICA 2023”, que trata do período da ditadura militar. O caráter laico do Estado não é observado pela Fundação, com a intenção de seu diretor de Artes Cênicas, Roberto Alvim – um ferrabrás, discípulo de Olavo de Carvalho  - de ceder o Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro à Companhia Jeová Nissi, de orientação evangélica.

Alvim, diretor do Centro de Artes Cênicas Funarte, nutre um ódio especial à classe artística, a quem xinga de “corja, gente hipócrita, canalha e radicalmente podre”. Esse Savonarola tupiniquim recentemente se referiu à atriz Fernanda Montenegro, um dos grandes símbolos da dramaturgia brasileira, com profundo desrespeito, agredindo-a com adjetivos como “sórdida e mentirosa”.

Foi ele quem até agora mais explicitou o projeto de “Revolução Cultural” do bolsonarismo. Disposto a criar uma “máquina de guerra cultural”, diz que é preciso que o governo “atue firme e propositadamente na área da arte e cultura, hoje dominada pelo marxismo cultural e pela agenda progressista”. O diretor da Funarte se dispõe a “formar um exército de grandes artistas espiritualmente comprometidos com nosso presidente e seus ideais”.

Está em curso, portanto, um esquema que se dispõe a criar uma nova arte, inteiramente identificada com um projeto de poder. Por muito menos o PT foi criticado, acusado de tentar aparelhar a cultura.

A existência de uma cultura oficial sempre foi meta de regimes totalitários. A Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a União Soviética de Stalin, a China da revolução cultural maoísta, criaram uma cultura oficial de Estado a serviço de seus projetos de poder.

Trata-se de uma visão utilitarista. Regimes totalitários não criaram arte, criaram propaganda política disfarçada de arte. Não será diferente com as pretensões de se estabelecer uma “cultura bolsonarista”.

A criação artística pressupõe liberdade, respeito ao pluralismo e de ausência do dirigismo estatal.

Na essência, a “Revolução Cultural” do bolsonarismo copia o PT na confusão entre o público e o privado, entre uma corrente ideológica e o Estado, entre governo e Estado. Por sua natureza, os governos são transitórios, enquanto o Estado é permanente e não pode estar a serviço de uma corrente, seja ela política ou religiosa.

Somos um país de uma produção cultural riquíssima que reflete a formação pluralista do nosso povo. Esse patrimônio dos brasileiros resistiu ao dirigismo do Estado Novo de Getúlio Vargas, à censura de “Dona Solange” do período ditatorial ou às incursões aparelhistas do Partido dos Trabalhadores.

Não será diferente com a “Revolução Cultural” de Bolsonaro. Como disse a ministra Carmem Lúcia no seu voto histórico sobre biografias não autorizadas, “cala boca já morreu, quem manda em minha boca sou eu.”

Irresponsabilidade santificada

O presidente é um cara irresponsável. Essa forma desastrada como ele lida com as coisas é o comportamento padrão. É incontrolável, é maior que ele.

O Jair tem que criar um partido só com os filhos. Só vai dar certo num novo partido, se for só ele e os filhos. O presidente não respeita ninguém, faz questão de desprezar deputados que se empenharam para ajudar a elegê-lo em várias regiões, como no Nordeste
Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência e ex-presidente do PSL

O presidente fabrica crises

Com o PSL e os militares o presidente Jair Bolsonaro organizou seu governo. Nove meses depois, ele já demitiu vários militares, alguns em situação humilhante, e atacou o PSL, pedindo que o esquecesse e afirmando que seu presidente está “queimado pra caramba”. Analistas achavam que ele, após a posse, trabalharia para consolidar sua base política atraindo mais quadros para o PSL e que, na eleição municipal do ano que vem, ele tentaria dar ao partido capilaridade para sustentar seu projeto de reeleição.

Na avaliação do cientista político Jairo Nicolau, o presidente Jair Bolsonaro está fazendo um movimento irracional da perspectiva das suas ambições políticas. Saindo do PSL ele abre mão da bancada, do fundo eleitoral e de horário de televisão nas eleições municipais, momento que seria estratégico para o partido:

— Seria a hora mais lógica de ele consolidar o partido de extrema-direita para apoiar seu projeto. Eles não gostam que se defina o grupo político como de extrema-direita, mas essa é a definição correta. O PSL terá um volume grande de recursos através dos fundos eleitorais, mais de R$ 300 milhões. E para uma eleição municipal será necessário ter tempo de TV e dinheiro.


A possibilidade de mudança partidária sem risco de perda do mandato se dá em duas situações. Primeiro, se uma nova legenda for criada. Segundo, na próxima janela partidária, o que só ocorrerá em 2022, seis meses antes das eleições. Um partido novo, como esse, o Conservadores, não terá recursos porque o dinheiro é distribuído conforme o número de parlamentares que elegeu na última eleição. O Patriotas terá uma fração pequena dos fundos eleitoral e partidário:

— É difícil entender o que ele está querendo fazer. Só se ele estiver achando que com a mídia social e a família repetirá em 2022 o desempenho que teve em 2018. Ele não fez uma base de sustentação, agora fala em sair do partido que foi um fenômeno eleitoral por causa dele.

Bolsonaro trocou de partido várias vezes ao longo da sua vida política. Ficou 11 anos no PP, de Paulo Maluf, e de muitos condenados do Mensalão e da Lava-Jato. Agora encena que está reagindo às denúncias de corrupção no PSL. Não é convincente. Ele nunca demonstrou qualquer reação às muitas denúncias de candidaturas-laranja no partido, nunca quis demitir o ministro do Turismo e tem usado o que pode para favorecer o filho Flávio, investigado por suspeita de rachadinha. É isso que o líder do PSL, Delegado Waldir, quis dizer quando afirmou que o quintal dele (Bolsonaro) estava sujo também.

— Os bolsonaristas chegaram no PSL no começo do ano passado, povoaram o partido, viraram esse fenômeno eleitoral, mas o curioso é que o partido não atraiu ninguém depois das eleições. Achava-se que Bolsonaro trabalharia para levar mais parlamentares para a legenda e assim se fortalecer no Congresso. Isso não aconteceu. Nem os parlamentares demonstraram vontade de ir para o partido do presidente, o que é surpreendente — diz Jairo Nicolau.

Ontem, depois que o presidente do PSL, Luciano Bivar, endureceu, o próprio Bolsonaro recuou numa entrevista ao site Antagonista. Disse que não pretende sair “de livre e espontânea vontade” e tentou minimizar a fala dele do dia anterior contra o PSL. Depois comparou a crise à briga entre marido e mulher. Mesmo que ele não saia, essa crise desgastará mais oPSL, que já vive em brigas internas.

— Ele sair do partido não tem problema algum. Itamar Franco se desfiliou do PRN e governou sem partido. Mas e os parlamentares? O presidente já não tem base de sustentação. Se, além disso, ele ficar sem partido será demais, né? Ele talvez se considere uma pessoa que não precisa de organicidade. Deve achar que basta ele, seus filhos e as redes sociais — explica Nicolau.

Em relação aos militares, ele tem feito dois movimentos. Concedeu aumento de soldo, principalmente para os oficiais, embutido na reforma da Previdência. Limitou o poder que eles têm no governo, demitindo vários por pressão de lobbies ou grupos ideológicos. Foi assim com o ex-ministro Santos Cruz, com os militares no Ministério da Educação, nos Correios, com o general que comandava a Funai, e agora com o presidente do Incra. Esses dois saíram por pressão do seu amigo Nabhan Garcia, que diz falar pelos ruralistas. Essa crise, como a maioria das que abalaram seu governo, foi criada pelo próprio presidente. Bolsonaro é um fabricante de crises.

Um Cristo amazônico... e mulher?

Dizem que Deus tem senso de humor. Para alguns, um senso de humor bastante estranho. Talvez isso explique como num mundo povoado por déspotas de direita —Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Recep Erdogan, Rodrigo Duterte etc— e de esquerda —Daniel Ortega e Nicolás Maduro—, aquele que desponta como o mais importante defensor da democracia, da igualdade e da diversidade seja justamente o representante de uma instituição paquidérmica e com um passado bastante tenebroso. Papa Francisco é puro alento para quem testemunha o autoritarismo se alastrar pelo mundo. Em especial quando faz um discurso como o da abertura do Sínodo da Amazônia, no domingo de 6 de outubro: “Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos. O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus [...] alimenta-se com a partilha, não com os lucros. [..] O fogo devorador alastra quando se quer fazer triunfar apenas as próprias ideias, formar o próprio grupo, queimar as diferenças para homogeneizar tudo e todos”. O recado é claro como água benta. Expressa também o anseio de que o Sínodo da Amazônia seja “histórico” e marque um reposicionamento da Igreja Católica, o que tem assustado desde bispos e fiéis ultraconservadores até o antipresidente Jair Bolsonaro (PSL), seus generais, grileiros e exploradores da Amazônia.

Fazia muito tempo que uma reunião da Igreja Católica não recebia tanta atenção. Tanta que até nos interiores de Mato Grosso do Sul surgiram outdoors: “Por Igrejas Sem Partido: Não ao Sínodo da Amazônia”, numa paródia com o projeto ideológico “Escola Sem Partido”, que busca censurar conteúdos e professores nas escolas. Bolsonaro e seus generais colaboraram bastante para aumentar as expectativas referentes ao Sínodo, ao considerarem o encontro uma ameaça à soberania nacional, admitirem que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) está monitorando a reunião e forçar a diplomacia brasileira a passar o vexame de pedir para o governo participar – e ouvir um “não” como resposta.

O Sínodo da Amazônia foi idealizado quando a ideia de Bolsonaro ser presidente do Brasil era só uma piada ruim. Sua concepção surgiu tanto do conhecimento do Papa Francisco sobre o papel da maior floresta tropical do mundo na emergência climática quanto da percepção dos bispos da região da acelerada destruição do bioma e de seus povos. No Brasil, a devastação e as políticas contra as populações da floresta já tinham avançado nos governos de Dilma Rousseff (PT) e se acelerado com Michel Temer (MDB). Com Bolsonaro, têm alcançado níveis de tragédia. O aumento dos alertas de desmatamento e dos incêndios em 2019 colocaram o planeta em estado de alarme, gerando uma crise internacional e dando um significado ainda maior para o Sínodo.


Por obra e graça do Papa, a Amazônia estará no noticiário até pelo menos 27 de outubro, quando a reunião que reúne 185 bispos, 57 deles brasileiros, além de especialistas e convidados, será encerrada com um documento que irá balizar e sustentar a atuação da Igreja Católica na região. Embora a Amazônia se espalhe por nove países, é o Brasil que abriga 60% da floresta e é o Brasil que tem um governante cujo principal projeto é abrir a floresta para a exploração predatória, gerando uma crise internacional após outra.

Em seu discurso na abertura da Organização das Nações Unidas, Bolsonaro chegou a atacar Raoni, um dos maiores líderes indígenas do país, indicado para o Nobel da Paz, assim como negar as chamas que o mundo inteiro testemunhou por imagens. O pânico que a irresponsabilidade violenta de Bolsonaro tem provocado multiplicou a atenção do planeta para o Sínodo e emprestou ao Papa Francisco luzes ainda mais celestiais em meio às trevas do autoritarismo.

O documento “Instrumentum Laboris”, elaborado para orientar os debates do Sínodo a partir da consulta a mais de 80 mil pessoas na Amazônia, defende exatamente o oposto do que é a política do governo brasileiro para a floresta. E reivindica um outro tipo de desenvolvimento, colocando a Amazônia no centro e os povos da floresta como protagonistas. Enquanto o Bolsonaro quer assimilar os indígenas para mudar a Constituição e abrir as terras hoje públicas e protegidas para terras para exploração e lucros privados, o Sínodo propõe um Cristo com “face amazônica”. Um dos principais caminhos seria a "interculturação", uma ideia de que a Igreja deve se abrir para os conhecimentos dos povos indígenas e ser mudada por estas outras experiências de ser e de apreender o mundo. Uma espécie de multiculturalismo ao modo do Vaticano.
Opressores ou neocolonizadores é o nome dado àqueles que defendem um determinado modelo que oprime as pessoas ou destrói o planeta. O que acontece hoje em dia é que algumas opressões são um pouco mais sutis. Assim, muita gente acredita que não seriam opressores, porque supostamente estariam promovendo um determinado modelo de agroindústria, o que traria benefícios para o país. Nós dizemos: isso é exploração
A ideia da Amazônia como “Casa Comum”, propagada pelo Papa Francisco, é compartilhada pela juventude que protagoniza os grandes protestos pelo clima, inspirada pela adolescente Greta Thunberg. A ativista alertou que “Nossa casa está em chamas”, referindo-se à emergência climática vivida pelo planeta, muito antes de o presidente francês Emmanuel Macron usar uma frase similar para referir-se aos incêndios da Amazônia, o que provocou ataques de Bolsonaro que viu na afirmação uma “ameaça à soberania”. O documento que resultará de 21 dias de debates deverá ser levado em dezembro à Cúpula do Clima, no Chile, esta que Bolsonaro não quis que acontecesse no Brasil.

O Papa está afinado com sua época e compreendeu antes da maioria das pessoas públicas do mundo que o grande desafio é o clima. Para isso precisa escolher desafinar dos déspotas que se alastram como peste e, ao mesmo tempo, empurrar uma Igreja que se move muito lentamente para um papel de vanguarda. O Papa parece ter entendido que o tempo mudou. Em todos os sentidos. Se sua Igreja entendeu é o que veremos.

Os idealizadores do Sínodo da Amazônia têm a ambição de que a reunião possa significar um marco histórico para o reposicionamento da Igreja Católica, um novo momento de “opção pelos pobres” a partir da Amazônia e da crise climática. Também o Papa propõe um deslocamento da Amazônia para o centro, lugar que ela obrigatoriamente ocupa, mas que não é nem compreendido nem reconhecido por governantes e também por parcelas da população.

O Sínodo tem ainda o desafio de solucionar problemas bem urgentes da própria Igreja Católica na região amazônica, como a crescente e acelerada perda de fieis para as igrejas evangélicas, em especial as neopentecostais. Segundo pesquisa do Datafolha, a região é a única em que há o mesmo número de católicos e de evangélicos no Brasil. No restante do país, os católicos ainda são maioria, mas diminuindo a cada pesquisa. No Xingu, por exemplo, há 800 comunidades e apenas 30 padres, a maioria com mais de 65 anos e dificuldades para se deslocar numa região difícil. Entre os temas mais espinhosos do Sínodo está a possibilidade de abrir espaço para a ordenação de homens casados, com “uma vida cristã exemplar”, o que tornaria possível que indígenas pudessem se tornar essa figura inédita. Se isso acontecer, a Igreja Católica pode mudar a correlação de forças com os evangélicos e aumentar sua presença desde dentro, o que é uma mudança enorme para quem acompanha a trajetória desta instituição de dois milênios.

A Igreja Católica também tem sofrido grande pressão para reconhecer a importância das mulheres, abrindo mais espaço formal para elas, como a possibilidade de presidir a eucaristia. O protagonismo das mulheres é um fato na Amazônia brasileira, onde elas já lideram uma parcela significativa dos movimentos sociais e das comunidades. As freiras costumam estar muito mais presentes e inseridas no cotidiano e nas lutas que os padres. É raro encontrar um movimento de emancipação que não tenha uma freira ocupando um lugar chave. Lacrar os olhos para a realidade explícita, recusando às mulheres a necessária resposta oficial, é uma estupidez que tem custado caro à Igreja Católica. Uma estupidez, porém, que é abraçada com adoração pelos católicos ultraconservadores, como se pode perceber pela sua reação carregada de rancor às propostas de inovação do Sínodo. Estes dias de outubro no Vaticano podem mostrar que pode ser mais fácil conferir feições amazônicas a Cristo do que dar a ele um rosto de mulher.

O Sínodo da Amazônia pretende – e vai – afetar muito mais do que o mundo católico. Para nos ajudar a compreender o que está em debate, entrevistei o padre argentino Augusto Zampini-Davies, hoje diretor de Desenvolvimento e Fé do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, no Vaticano. Um dos especialistas que elaborou o “Instrumentum Laboris”, documento que deu as diretrizes e conduz os debates no Sínodo, aos 50 aos ele é também um dos mais influentes teólogos que representam e difundem o pensamento do papado de Francisco. Formado em Direito, filho de tradicional família argentina, antes de ser padre e se tornar um PhD em Teologia, trabalhou com bancos e multinacionais, o que teria dado a ele o conhecimento profundo de como negociam os que hoje com frequência combate. Segundo a imprensa italiana, recebeu “o chamado para mudar” numa viagem com a namorada. E mudou.
Leia a entrevista de Eliane Brum com o padre Augusto Zampini-Davies, diretor de Desenvolvimento e Fé do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, no Vaticano

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O caixa do Brasil


Moro está preso na ratoeira de Bolsonaro ou fareja algum destino que ignoramos?

Ficaram muito distantes os tempos em que o agora ministro da Justiça do Governo de Jair Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, era o duro fustigador dos políticos corruptos. Agora mais parece ser o advogado de defesa do presidente e de seu clã familiar. Quem parecia ser capaz de ver até pelo no ovo dos políticos, sobretudo os de esquerda, agora se apresenta como o máximo garantidor da honradez da família real e do Governo.

Moro caiu em uma ratoeira ou acalentará algum destino que ainda ignoramos? Será que, quando deixou a jurisprudência para se trasladar para a política, acreditava que dominaria o mito Bolsonaro e até o poderia suceder? A verdade é que o presidente de extrema direita, uma vez conquistado o troféu Moro, levou pouco tempo para fazê-lo ver que quem manda e desmanda no Governo é somente ele.

Moro parece ter aceitado não somente sua posição na hierarquia dentro do Governo, sendo um a mais, mas também oferecido tal vassalagem a seu chefe Bolsonaro. Se até então o presidente tinha como pitbull seu filho irrequieto Carlos, agitador das redes sociais em defesa do pai, agora a ele se juntou o ex-juiz da Lava Jato, que ainda mantém fortes laços de amizade com os comandos da Polícia Federal e a Procuradoria do Estado.

Apesar de os analistas políticos terem especulado que Moro não aguentaria por muito tempo o cargo de ministro da Justiça e que poderia sair batendo a porta, ante as humilhações que o presidente lhe ia impondo gota a gota, mais parece o contrário. É Moro quem demonstra estar à vontade com o mito Bolsonaro e sua tropa exacerbada que pretende, sempre em luta contra a modernidade, até mudar a Constituição, pois, segundo eles, a atual é "laica e socialista".

Moro nestes meses está acumulando declarações de amor a Bolsonaro e a seu movimento extremista. Seria possível dizer que não sabe o que fazer para que acreditem que, além de não pretender abandonar o Governo, suas relações com o presidente não poderiam ser melhores. E ele sai em sua defesa nos momentos de dificuldade, sobretudo quando o presidente, seu partido ou a própria família começam a aparecer salpicados de corrupção. Para Moro não parecem existir nunca irregularidades ou pecados em torno de Bolsonaro. Não é que o justifique, é que desmente e até dá a entender que possui informações reservadas para poder afirmar que é assim. Isso já não seria ilegal, se fosse verdade?

Cada vez mais, Moro e Bolsonaro fazem galanteios mútuos. O presidente chegou a dizer em seu discurso na ONU que Moro, seu ministro da Justiça, era "um herói nacional". E não se trata apenas de que a relação entre o ministro e o presidente parece sem conflitos, mas que Moro está cada vez mais assimilando as essências autoritárias do bolsonarismo, como aparecem nos documentos que preparou em seu ministério contra a violência. Neles, Moro parece um fiel discípulo da concepção bolsonariana de combater a violência com mais violência. Diz e repete nas entrevistas que, em 2022, se Bolsonaro se candidatar à reeleição, e faltam mais de três anos, seu voto será para ele e que não irá se mudar para nenhum outro partido. Ele se sente à vontade no bolsonarismo e em sua carga de extremismos e de luta contra a modernidade em busca de velhas essências medievais em todos os campos do saber, da ciência, da arte e da cultura.

Tamanha é a identificação de Moro com Bolsonaro que até o jornal Folha de S.Paulo foi criticado por uma publicação em que relata que dinheiro ilegal poderia ter sido usado na campanha de Bolsonaro, segundo informações obtidas da Polícia Federal. E é conhecida a dificuldade que o presidente de extrema direita encontra em dialogar com os meios de comunicação que não comungam de suas ideias. O ministro chegou a afirmar, sem que ninguém lhe perguntasse, que Bolsonaro "fez a campanha eleitoral mais barata da história", tentando responder à imprensa.

Moro, neste caso, parece ter se esquecido que boa parte da imagem de que desfrutava até internacionalmente quando era juiz da Lava Jato se deve aos meios de comunicação que sempre o protegiam. Essa identificação cada vez mais estreita de Moro com Bolsonaro parece, ao mesmo tempo, não ter volta atrás, já que Moro, que pode ser acusado de muitos erros, mas não de ser ingênuo e sem perspicácia, sabe muito bem que nos outros campos da política, nas demais instituições do Estado, sua imagem, embora ainda com grande força popular, está se deteriorando rapidamente.

Neste momento Moro não poderia contar, se se divorciasse de Bolsonaro, nem com a maioria dos partidos nem com o Congresso, e menos ainda com o Supremo Tribunal Federal, do qual desejaria fazer parte. Uma das críticas mais duras feitas nos últimos dias a Moro foi a do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que chegou a denunciar que o ex-juiz tem a estratégia permanente de tentar “acuar as instituições democráticas”.

Portas políticas e institucionais se fecham todos os dias ao ministro Moro, enquanto ele parece se identificar cada vez mais com as essências autoritárias do bolsonarismo, que começou com o objetivo de poder governar, a golpe de decreto, encurralando o Congresso e o Supremo. Não está conseguindo. Nunca um presidente tinha tido rejeitados pelo Congresso tantos decretos ou vetos como ele. Desesperado, Bolsonaro agora chega a fazer a corte às tais instituições que pretendia domar com a força. Acabou de afirmar que está pensando em "casar-se com Maia", usando seu tópico sexual da paixão para explicar suas relações com o poder.

O pior para Moro parece ser que não tem volta atrás e agora só consegue respirar politicamente por meio de seu pacto de sangue com o bolsonarismo. Do outro lado da política já ardem, de fato, as conversações para a criação de um polo de centro democrático que apresentaria um candidato alternativo a Bolsonaro, no caso de algum infortúnio político ou pessoal o levar a abandonar o cargo ou se pensar em se candidatar de novo. O grande bloco democrático que é a maioria do Congresso já está unido na busca de uma saída ao bolsonarismo para acabar com essa tempestade autoritária e de extrema-direita que tomou conta do Brasil. E espera-se que a esquerda, se desta vez for capaz de unir forças, entre no mesmo barco.

Sem saída, então, para Moro, o novo bolsonariano doutor de peso no Governo? A política é sempre uma incógnita, embora no momento tudo leve a crer que ambos querem ser rei. Bolsonaro continua sendo, porém, com o poder na mão, o verdadeiro rei, e Moro, só um de seus peões. Por mais paradoxal que possa parecer, o ministro que até ontem era o rei da Lava Jato em Curitiba, com passagem por Harvard, cuja mão não tremeu ao condenar políticos e empresários de calibre, agora se entrega como aprendiz político de alguém que até chegar ao poder era apenas um capitão reformado e expulso do Exército, com uma presença insignificante no Congresso em 30 anos de deputado. Ele mesmo confessa que "nunca imaginou chegar à Presidência".

É possível que o astuto e nada ingênuo ex-juiz Moro não tivesse previsto esse panorama? Ou será que o jogo será outro? Será verdade, como às vezes se sussurra em Brasília, que Moro guarda em seus cofres algo que ainda possa lhe servir politicamente?

O filósofo e cientista francês Pascal, precursor do que seria o existencialismo angustiante do século XX, tornou célebre sua frase "o coração tem razões que a razão desconhece". Aqui poderia ser o oposto: que o excesso da fria razão chega a se esquecer das exigências do coração. Pascal duvidava da capacidade do ser humano de entender a si mesmo. Dizia que é a liberdade de escolher o que nos distingue dos animais. Essa capacidade de escolha pode, no entanto, obnubilar-se quando o ser humano prefere os riscos e prazeres do poder ao bem de toda a comunidade.

'Dono' do pedaço

Fico pensando naqueles deputados que dão a alma, lutam por ele, acham ele o cara mais honesto e íntegro e o defendem com unha e dentes, ouvindo ele falar que o PSL não interessa e que o Bivar está queimado. Se o Bivar está queimado, o Jair Bolsonaro está carbonizado
Alexandre Frota (PSDB-SP), ex-bolsonarista de carteirinha

Senado trava repasse de R$ 3 bi para deputados

Em sessão que entrou pela noite de terça-feira, o Congresso escancarou diante das câmeras uma cisão que envenena a atividade legislativa. Envolve o pagamento de emendas enfiadas pelos parlamentares dentro do Orçamento da União.

A sessão era conjunta, com deputados e senadores. Após quase oito horas de debate, foi a voto proposta do Planalto que destina R$ 3 bilhões ao pagamento de emendas de deputados que ajudaram a aprovar a reforma da Previdência.

A coisa passou com folga na Câmara: 270 votos a 17. No Senado, verificou-se que o total de votos disponíveis, 37, era inferior ao quórum mínimo necessário: 41. Os senadores boicotaram deliberadamente a sessão, esvaziando-a.



Por quê? Os senadores exigem que o Planalto envie proposta destinando algo com R$ 5 bilhões para o pagamento das suas emendas. Do contrário, nada feito. E a reforma previdenciária? Veja bem...

Estimava-se que seria votada na primeira semana de outubro. Ficou para o final da primeira quinzena. Nesta terça, foi empurrada para o dia 22, que cai numa outra terça-feira. Imagina-se que até lá o governo encontre um dinheiro indisponível.

Aos pouquinhos, vai ficando claro que o problema do Brasil não é o esquerdismo retrógrado nem o direitismo arcaico. O grande problema continua sendo o "dinheirismo". Em tese, o pagamento das emendas agora é obrigatório. Mas o governo, com os cofres em ruínas, administra sua penúria.

Dirigismo cultural

A intromissão do governo na vida pessoal dos cidadãos é a ambição de todo governo autoritário, de esquerda ou de direita. Quando há uma ditadura, como na China, é fácil até mesmo controlar o dia a dia do cidadão, como o governo pretende fazer a partir do próximo ano pondo em prática o Sistema de Crédito Social, que dará nota aos cidadãos de acordo com seu comportamento cotidiano, que será monitorado pelo governo.

Esse programa definirá o grau de confiança do governo no cidadão. Conforme a pontuação, cidadãos serão proibidos de viajar, ou de colocar filhos em boas escolas, ou de trabalhar. Pode transformar alguém em pária, ou em burocrata bem-sucedido.


Aqui, como ainda somos uma democracia, o governo está inaugurando um sistema de monitoramento tupiniquim, com burocratas checando nas redes sociais o pensamento e o comportamento político de artistas e produtores que pretendam financiamento para suas obras dos órgãos públicos.

Na Caixa Econômica já começou. Para o presidente Bolsonaro, trata-se de não “perder a guerra da informação”. O que ele chama de “mudanças na questão da cultura, da Funarte, da Ancine”, é simplesmente censura oficializada, pois determinou que “não veremos mais certo tipo de obra por aí”.

Para Bolsonaro, “não é censura, isso é preservar os valores cristãos, é tratar com respeito a nossa juventude, reconhecer a família como uma unidade familiar, essa é a nossa linha”. O presidente já definiu claramente o que pensa: se quiserem fazer filmes pornográficos, façam com dinheiro próprio, não com dinheiro público.

Simples assim. O critério do que é pornográfico é dele, como se o dinheiro público fosse também dele. Essa não é a função do governo no financiamento público da cultura. Ao contrário, um governo democrático tem obrigação de estimular e financiar a diversidade cultural.

O conceito intervencionista e dirigista que está por trás do suposto projeto cultural do governo Bolsonaro, que já faz seus efeitos na autocensura dos dirigentes de órgãos que temem punições, pode ser espelhado na tentativa dos governos petistas de controlar a produção cultural.

O presidente Bolsonaro vê a área de cultura aparelhada pela esquerda, e quer fazer o seu próprio aparelhamento ideológico, pela extrema direita.

A tentativa de criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) no governo Lula, com o objetivo de garantir uma “contrapartida social” à produção cultural, tem o mesmo sentido da criação do Conselho Federal de Jornalismo, para “regulamentar, disciplinar e fiscalizar o exercício profissional” e “zelar pela qualidade da informação e pelo exercício ético do jornalismo”.

Essa, aliás, é uma ojeriza comum aos governos autoritários de direita e de esquerda: detestam a imprensa independente. O presidente Bolsonaro refere-se às empresas de comunicação brasileiras como “abjetas”, “mentirosas”, e procura constranger jornalistas escolhidos como adversários pessoais, assim como faz Trump nos Estados Unidos, e como fazia Lula em seus tempos de liberdade.

Nos tempos petistas, até mesmo associações que teoricamente deveriam representar os jornalistas associaram-se ao governo para “enfrentar e combater a manipulação da informação, a distorção de fatos e as práticas jornalísticas que privilegiam interesses escusos em detrimento do cumprimento da função social do jornalismo”.

Com as mesmas palavras, o governo de hoje, que se contrapõe ao de ontem, e vice-versa, tenta controlar a imprensa e as manifestações culturais. Enquanto o PT quis incluir a tal da “contrapartida social” nos incentivos culturais, o governo Bolsonaro tenta incluir seus pensamentos e crenças, seus valores morais, como régua para os demais cidadãos, alegando que está “preservando os valores da família cristã”.

Quem define quais são os “valores da família cristã”? O que seja manipulação da informação? Qual é a “função social” do jornalismo? Denunciar os desvios do governo, qualquer governo, seria uma delas? E quais são as “contrapartidas sociais” para financiamentos de obras audiovisuais?

De esquerda ou de direita?

Paisagem brasileira

Paisagem colonial, Armínio Pascua

Novo tipo de ditadura

Primeiro, as pessoas não funcionam racionalmente e sim a partir de emoções. As pesquisas mostram cientificamente que a matriz do comportamento é emocional e, depois, utilizamos nossa capacidade racional para racionalizar o que queremos. As pessoas não leem os jornais ou veem o noticiário para se informar, mas para se confirmar. Leem ou assistem o que sabem que vão concordar. Não vão ler algo de outra orientação cultural, ideológica ou política. A segunda razão para esse comportamento é que vivemos em uma sociedade de informação desinformada. Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação e ela, em geral, mas particularmente no Brasil, está em muito mau estado. E vai ficar pior, porque o próprio presidente acha que a educação não serve e vai cortar os investimentos na área. Por um lado, temos mundos de redes de informação, de meios que invadem o conjunto de nosso pensamento coletivo, e ao mesmo tempo pouca capacidade de educação das pessoas para entender, processar, decidir e deliberar. Isso é o que chamo de uma era da informação desinformada.

Nosso mundo da informação é um mundo baseado nas redes sociais e nas redes sociais há de tudo. Elas permitem a autonomia dos indivíduos, acreditávamos que era um instrumento de liberdade e é, mas é uma liberdade que é usada tanto pelos manipuladores como pelos jovens que tentam mudar o mundo. Foram desenvolvidas técnicas muito poderosas de desinformação e manipulação, que incluem a utilização massiva de robôs manipulados por organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) e financiadas pela extrema direita internacional, que estão preenchendo as redes sociais e manipulando-as muito inteligentemente, de forma que a construção coletiva do que ocorre na sociedade está totalmente dominada por movimentos totalitários, que querem ir pouco a pouco anulando a democracia. Por isso, é preciso atacar a educação, atacar os professores, as universidades, as humanidades e as ciências sociais, que são áreas que nos permitem pensar. Tudo o que significa pensar é perigoso. Por isso, digo que é uma ditadura, ainda que de novo tipo. É uma ditadura da era da informação.
Manuel Castells, um dos principais teóricos da comunicação e autor de livros como “A Sociedade em Rede” e “Galáxia da Internet”

Vem aí a reforma administrativa

Um dos problemas do governo Bolsonaro é o fato de que o presidente da República não sabe aproveitar em seu favor as críticas ao governo, encara tudo como se fosse ofensa pessoal grave, ainda mais quando tem razão. Foi o caso, por exemplo, da notícia que a equipe econômica estuda acabar com a estabilidade dos servidores federais, atribuída ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A expectativa é qu o governo encaminhe ao Congresso, nos próximos dias, o projeto da reforma administrativa, que deve prever o fim da estabilidade para servidores públicos. Em outra proposta, o Executivo vai propor mudanças na regra de ouro, mecanismo que proíbe o governo de fazer dívidas para pagar despesas correntes, como salários, benefícios de aposentadoria, contas de luz e outros custeios da máquina pública. O acerto teria sido feito domingo entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o presidente Jair Bolsonaro, em um encontro fora da agenda no Palácio da Alvorada.

Bolsonaro ficou bravo, na manhã de ontem, em entrevista quebra-queixo (aquela de improviso, em que os repórteres se amontoam com microfones e celulares nas mãos), acusou o Correio e a Folha de São Paulo, que também divulgou a proposta, de publicar mentiras. Segundo ele, a proposta não passou pelo seu crivo e não se mexe na estabilidade dos servidores. Mais tarde a equipe econômica atuou nos bastidores para dizer que a mudança atingiria somente os que ingressarem no serviço público após a sua aprovação, o que também foi retificado por Maia.


Muito pior para o governo, porém, foi a nota publicada na coluna Esplanada, do jornalista Leandro Mazzini, do jornal carioca O Dia, especulando sobre a possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, o que provocou pânico no mercado, derrubou a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que fechou a menos 1,93%, e provocou alta do dólar, cotado no fechamento a R$ 4,10. Uma simples nota especulativa de jornal, por mais credibilidade que tenha uma coluna, só deixa o mercado em pânico quando coincide com os rumores que circulam nesse meio. Esses rumores são provocados por comentários em conversas privadas e declarações públicas intempestivas do ministro Guedes, que já deu várias demonstrações de insatisfação e ameaçou cuidar da vida se as coisas não acontecerem como deseja.

Não é assim que as coisas funcionam na economia política. Guedes é homem do mercado financeiro, agora está tendo que lidar com a política concreta, que alguém já disse que é a economia concentrada. Aproveitando a onda “americanista”oficial, vale lembrar uma frase famosa do presidente Woodrow Wilson, dos Estados Unidos, em seu discurso de posse, em 1913: “Devemos lidar com o nosso sistema econômico como ele é e como pode ser modificado, e não como se tivéssemos uma folha de papel em branco para escrever”. Esse parece ter sido o erro do ministro da Economia.

Maia revelou que o governo pretende mexer na regra de ouro do teto de gastos, com gatilhos para controlar as despesas obrigatórias. Neste ano, a meta só poderá ser cumprida graças a uma autorização extraordinária do Congresso para o governo contrair empréstimos de R$ 249 bilhões, de modo a não suspender programas sociais e subsídios. O mercado não gostou. Também revelou que foi acertado ainda um novo texto para tratar da partilha dos recursos do megaleilão do pré-sal, marcado para 6 de novembro, garantindo a participação de 15% dos estados do total arrecadado, e igual fatia para os municípios.

A proposta da equipe econômica era dividir os R$ 106,5 bilhões que devem ser arrecadados da seguinte forma: depois do pagamento de R$ 33,6 bilhões à Petrobras, estados, municípios e parlamentares ficariam, cada um, com 10%, o que corresponderia a R$ 7,3 bilhões. O Rio teria R$ 2,19 bilhões e a União, a fatia maior de R$ 48,9 bilhões. Maia afirmou a Bolsonaro que a proposta da equipe econômica não tem chance de passar no Congresso. Os governadores, prefeitos e parlamentares não gostaram, Bolsonaro recuou e Guedes ficou pendurado no pincel.

Finalmente, a reforma administrativa, que ficaria a cargo da Câmara, acabaria com a estabilidade para a maior parte dos servidores públicos, reduziria a quantidade de carreiras, imporia travas a promoções automáticas, avaliação de desempenho e aproximaria os salários do funcionalismo dos pagos na iniciativa privada. Seria uma espécie de plano B em razão do fracasso de Guedes na condução da reforma tributária, que já custou a cabeça do ex-secretário da Receita Marcos Cintra. A divulgação da proposta, supostamente sem seu aval, irritou Bolsonaro, porque mexe com corporações cujos interesses sempre defendeu. É mais uma fricção com o ministro da Fazenda, corroborando os boatos de que Guedes estaria quase pedindo o chapéu.

Quem tem medo do Coringa?

Parem as câmeras. Parem os prêmios. Parem os festivais. “Coringa” chegou para dar um recado que exige suspensão de fôlego. Aliás, discutir se Joaquin Phoenix  é o melhor Coringa do cinema pode até divertir, mas é fútil. Útil é perceber que se trata, isso sim, de um dos melhores trabalhos de um ator na história do cinema.

Quase tive um acesso incontrolável de riso, como o personagem, ao ler críticos consagrados de jornais como “NYT”, “The Guardian” e outros elogiarem o ator como se estivessem fazendo uma concessão ao fato de espinafrarem o filme. Um dos resenhistas chega ao extremo de dizer que o problema está na densidade que Phoenix dá ao Coringa, por roubar da película todo o resto.

Que resto? Esta é a grande qualidade da versão do diretor Todd Phillips! Deixar, conscientemente, que Phoenix crie um filme para si próprio e que sua composição do personagem construa um “discurso” para além das falas, do roteiro, da direção.


O problema dos que têm problema com esse Coringa é o medo. Primeiro, o medo de sua humanidade e verossimilhança. Segundo, o pânico de enxergar que ele não é um psicopata. Um psicopata desconhece o sentido da empatia. O Coringa de Phoenix tenta negociar, obsessivamente, até que, na sua ótica perturbada, esgotem-se as alternativas.

Mesmo acometido de uma doença mental (muita gente ainda confunde psicose com psicopatia), afinca-se numa lucidez extrema no que se refere às regras básicas de convivência. Quando vêm os acessos de riso, tenta sempre avisar aos que não o compreendem, com um gesto negativo das duas mãos, tratar-se de um problema neurológico. Tem até um cartão que informa sua condição.

É medonho ver que o Coringa chegou com empatia para dar e vender. É quase um idealista da arte, da gentileza, do respeito ao cidadão, da solidariedade. É um dócil adversário dos embustes, da mentira, da exploração, até o momento em que a hipocrisia toma tamanho vulto que, torturado por seus delírios, “decide” que não há opção senão um violento cinismo.

Ao testemunhar os três playboys misóginos de Wall Street  assediarem a passageira do metrô semi-vazio, antes de começar a rir, ele abana a cabeça, como a lamentar o incidente. Esse movimento, ora melancólico, ora gracioso, é a marca de seu desalento com o mundo. Um mundo onde Thomas Wayne, que nos quadrinhos costuma ser um Gandhi da elite financeira, no filme de Todd está mais para um candidato a Trump ou Bolsonaro. Desses políticos que pensam que o povo é palhaço e cuja plataforma é “limpar o que está aí”, sem dizer muito bem o que é.
Os diferentes risos do Coringa são formas de expressão e de reação à lógica ferrenha do sadismo que tomou conta das relações sociais. Há um segundo riso, atrasado em relação ao que o motivou, que é o mais medonho. Um riso empostado, agudo, com um movimento exagerado da boca. Ele o usa para reagir às piadas imbecis que se tornaram o padrão dos adeptos do discurso de ódio. Há quem pense que este Coringa representa tal discurso. É o oposto: ele é o vingador dos que não têm como se proteger da impostura carnavalizada dos novos populismos. É isso, acima de tudo, que mete medo.