domingo, 21 de maio de 2017

O futuro em jogo

Qual a importância que terá para os brasileiros, daqui a um ano ou um ano e meio, a agonia política desesperada dos dias de hoje? E lá, entre maio e outubro de 2018, que estará sendo decidida a questão verdadeiramente essencial: o que o Brasil pretende ser não no próximo mandato presidencial ou no seguinte, mas em que tipo de país seus cidadãos vão viver no futuro, e por muitos anos. O primeiro interrogatório do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro, as ameaças que suas tropas fazem todos os dias à Justiça, a derrama sem limites de mentiras que definem o debate político de hoje ─ tudo isso estará longamente esquecido e o jogo para valer, a eleição presidencial de 2018 entrará em sua fase realmente decisiva. Os eleitores vão resolver, então, se o Brasil continuará sendo uma colônia do século 18, saqueada sistematicamente por uma máquina pública a serviço de escroques, ou se tem a aspiração de tentar algum outro futuro.

Nos dois mandatos de Lula e nos dois de Dilma Rousseff, o último deles interrompido por seu impeachment e sucedido por um bando de políticos atordoados, sem autoridade e com medo de tudo, o Brasil do atraso, da trapaça política e do roubo permanente ao Erário viveu seu grande momento na história deste país. Ameaçado agora como nunca foi antes, vai fazer de tudo para continuar agarrado ao cofre público. Se a coisa for por aí, pode-se deixar de fora qualquer esperança. Os últimos dias são uma amostra do que o bloco dos parasitas, da intolerância ao ponto de vista alheio, da adoração ao “Estado” quer fazer com o Brasil. Chamam a si próprios de forças “progressistas”, “populares” e “de esquerda” e assim são considerados pela mídia em geral e pela ciência social vigente. Chamam todos os demais de “fascistas”. Não são nada disso ─ como não são malfeitores sociais, maus brasileiros ou inimigos da democracia os que têm pontos de vista diferentes dos seus. Hoje em dia, mais do que nunca, a separação verdadeira é entre os que precisam mandar numa máquina pública cada vez maior, mais invasiva e mais cara, para sobreviver, prosperar e acumular privilégios; e os que trabalham para manter o bem-estar dos primeiros, pagando em impostos 40% ou mais do que ganham.


Tudo a que se assiste agora são os primeiros movimentos da guerra política que vem aí no próximo ano. O campo “popular-progressista” sabe que não vai sobreviver sem Lula na presidência da República. Não tem absolutamente ninguém que disponha de 1% de sua capacidade eleitoral e de sua liderança; corre o risco de tornar-se irrelevante no Brasil durante anos a fio. Lula, por sua vez, sabe que, se não for presidente, não será mais nada ─ e terá de passar o resto da vida metido com a pilha de processos por corrupção que tem contra si, numa luta miserável para ficar fora da cadeia. Para se salvar, entretanto, ele precisa vender ou jogar para frente as questões penais a que responde no presente momento; do contrário não poderá ser candidato. É nisso que se concentra tudo o que interessa hoje ao Brasil e ao seu futuro. O cidadão poderá fazer considerável economia de seu próprio tempo se esquecer toda essa conversa de braveza indignada que ouve diariamente ao lado de Lula. O ex-presidente não vai mandar “prender” ninguém se voltar ao cargo que tinha. Não vai fazer caravana nenhuma “pelo Brasil afora” para juntar o povo em sua defesa. Não está em “julgamento político” ─ não quando em todos os processos que tem contra si não é acusado de nenhuma ideia, discurso ou proposta, mas, sim, de atos concretos de corrupção a serviço de empreiteiras de obras públicas. Não levou multidões a Curitiba para enfrentar “o Moro” em seu interrogatório.

Todos os problemas de Lula se resumem a ganhar prazo para não ser condenado antes de validar sua candidatura e, depois, convencer a maioria dos eleitores a lhe entregar de novo o Brasil, que virá junto com a Petrobras, as empreiteiras e tudo o mais que se sabe. São problemas dele e de todos.

Governo parece ter perdido a capacidade de governar

Dizem que Tom Jobim afirmava que o Brasil não é para principiantes.

Adiciono que, além de experiência, o Brasil demanda paciência.

O governo Temer dava mostras de grande capacidade de aprovar no Congresso Nacional as reformas absolutamente necessárias e impopulares para pavimentar o caminho da retomada do crescimento em bases sustentáveis.

Tanto a reforma trabalhista quanto a reforma da Previdência avançavam no Congresso. A economia, com enorme dificuldade, melhorava.

Na quarta-feira, foi noticiado que havia uma gravação em que o presidente pedia ao dono do grupo JBS o pagamento de uma mesada ao ex-deputado Eduardo Cunha para comprar seu silêncio.

O áudio divulgado no fim da tarde de quinta-feira (18) mostrou algo distinto: não há tentativa de obstrução da Justiça por parte de Temer, mas há, de fato, crime de prevaricação.

No caso, o presidente foi exposto a comportamentos criminosos do empresário e não tomou as ações cabíveis.
Charge do dia 21/05/2017

O governo parece ter perdido a capacidade de governar. É necessário recomeçar.

O caminho é o presidente renunciar, assumindo interinamente a Presidência da República o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que tem 30 dias para promover eleições indiretas.

Provavelmente o rito da eleição será determinado pelo Supremo, visto que a lei que o estabelece, demanda do artigo 81 da Constituição Federal, não existe.

Há dois caminhos possíveis.

No primeiro, constrói-se um novo governo que incorpora todos os setores da política, inclusive a esquerda. A agenda legislativa fica parada e mantém-se a equipe econômica que dirige o barco da economia até o fim de 2018.

Outro caminho é a base parlamentar de Temer reconstruir-se em torno de outro nome que carregará a bandeira das reformas e retomará o processo de onde ele parou na quarta-feira.

Se ocorrer a segunda hipótese, boa parcela da piora de preços de quinta-feira —desvalorização do câmbio de quase 8% e perda de valor na Bolsa de 9%— será devolvida. E a recuperação tímida da economia será retomada.

A dúvida é se haverá apoio parlamentar para esse recomeço. O começo anterior parecia mais auspicioso aos olhos dos parlamentares.

A construção do governo Temer ocorreu ao longo do impedimento da presidente Dilma, dois anos e meio antes das eleições de 2018 e com a expectativa de uma recuperação rápida da economia —erro de cálculo dos políticos, desta vez sem poderem culpar os economistas.

Desta vez a bomba de quarta-feira passada pode ser desculpa para abandonar o barco e esperar 2018 em "busca da legitimidade" das urnas. O motivo é que se sabe hoje que a recuperação será dura e que nada há além da agenda de reformas.

Agenda essa cujos ônus aparecem imediatamente, e os bônus, somente após alguns anos. Nesse caso, teremos ampla base anódina de sustentação do próximo presidente, que nada fará.

Ficaremos andando de lado até uma solução eleitoral em 2018, com muita volatilidade nos mercados e crescimento da dívida pública, fato até agora esquecido, mas que passará a ser mais lembrado.

Gente fora do mapa

Pisac Market, Peru. Repinned by Elizabeth VanBuskirk. If those at the market have brought corn to trade or sell, you know they live in the lowlands, like the river valley near Pisac. One major purpose of Andean markets is for people who live at the high altitudes--eg 12,000 above sea level can come to market to trade their potatoes, which can be grown high up, for lower products like vegetables, fruit, corn.:
Mercado em Pisac (Peru)

Independente do desenlace da crise, o estrago está feito

O desfecho ainda não está dado, mas o estrago já foi feito. O governo foi abatido no ar, no momento em que a galinha do desenvolvimento ameaçava alçar seu primeiro voo. A credibilidade, já debilitada, foi recolhida a uma espécie de UTI, a articulação, baseada — quase que exclusivamente — no fisiologismo, viu a fidelidade migrar para o oportunismo indignado dos que se dizem, convenientemente, surpreendidos. O cronograma das reformas, pedra de toque do processo econômico, foi pelo ralo.

As últimas denúncias completam, no entanto, a tentativa de varredura do entulho político nacional, que, até aqui, dizia-se, ser perseguição exclusiva ao PT. Injusto: em Curitiba, há gente sortida, de partidos variados. Mas o fato é que, agora, o turbilhão chega também ao centro do novo poder e o veneno atinge o coração do grupo que esfolou petistas em praça pública: Michel Temer e o tucano Aécio Neves. A narrativa da perseguição perde sentido e a Lava Jato ganha força para seguir em frente, inclusive em direção a Lula.


Vamos aos fatos: no PSDB, a imagem de Aécio Neves, seu presidente, parece irremediavelmente rasgada. A justiça pode decidir o que quiser, mas as cenas exibidas na TV, são definitivas: o senador atarantado com as denúncias somadas aos áudios do diálogo com Joesley Batista nada têm de inconclusivas — duas milhas, dividas em 4 lotes de 500 mil, é dinheiro para toda existência de muitas vidas, no padrão médio da sociedade brasileira. Há também o símbolo: a irmã, Andréia Neves, de frente e perfil, recolhida à PF; são os netos de Tancredo. A Nova República termina desse modo melancólico.

Os tucanos, é claro, pedem a justa moderação que não tiveram no passado; copiando o PT de ontem, foram inclementes com os adversários; assumiram o jeito UDN de ser e, agora, mordem a língua. São medidos pela mesma régua da impiedade que usaram. Fanáticos adoram atirar pedras, o problema é quando o farisaísmo se revela. A reputação despencou pela janela. Parece vingança de autor de novela.

Mais concreta em consequências, porém, é a situação de Michel Temer. Trata-se do presidente da República, da condução de uma política econômica com objetivos de retomada do desenvolvimento perdido e da tentativa de reorganização — agora frustrada — do país. Foi para isto que o presidente e seus ministros apelaram durante toda a quinta-feira. “Logo agora…”, diziam num muxoxo desolado. Trens desgovernados não têm mesmo hora para descarrilhar. Dependem, antes, de vacilos na direção.

Independente de serem ou não conclusivas as gravações até aqui conhecidas — e não parecem mesmo conclusivas —, a questão é que o trem desgovernado passou por cima do maquinista. O encontro furtivo de Michel Temer com Joesley Batista é inexplicável; a natureza dos diálogos que mantiveram é ruidosa em todos os sentidos — presidentes da República não podem ouvir certas coisas; no cargo 24 horas por dia, não têm folga. É a vida. Logo Temer, tão cheio de formalismos…

Também inexplicável é o envolvimento de seu homem de confiança, Rodrigo Rocha Loures, com o carregamento de numerário em espécie, e sem justificativas até aqui, pelo menos. Loures sofreu apupos — no aeroporto, em sua volta ao Brasil — dignos dos grandes símbolos da raiva nacional. Como explicar os encontros, as fotos, a grana, as coincidências, tudo… Sobretudo, após os diálogos entre Temer e Batista?

A base do governo — que analistas os mais entusiastas do temerismo, cantavam em verso e prosa, relevando sua natureza — já se coloca na cabeceira da pista para escapar dos efeitos de um governo desde sempre impopular que, agora, cai também de cabeça na maldição da Lava Jato. Incomodados com as reformas, que já não queriam votar, cantavam Tim Maia, “me dê motivos”. E Michel Temer deu. As revelações de Joesley são mesmo música para seus ouvidos — no mínimo, uma sirene que alerta “hora de fugir”.

Dificílimo será retomar o processo, voltar ao ponto em que o nervo se rompeu. Pelo menos por enquanto, a ênfase de um Michel Temer indignado cai no vazio. Seu “Não renunciarei. Repito: não renunciarei”, apoiado, ao fundo, por uma tímida e desanimada salva de constrangidas palmas, parece pouco como reação. O presidente, no entanto, é verdade, ganhou um inconclusivo sopro se não de vida, pelo menos, de tempo — solicitará perícias e alongará essa agonia. Assim, o desenlace da crise não será rápido, se alongará para um desfecho ainda desconhecido. Enquanto isso, o governo rezará a Santo Expedito, o advogado das causas perdidas.

Carlos Melo 

Adeus às ilusões

A sensação que sinto diante disso tudo é de enorme desalento. Sempre me surpreendi com quem só pensa no poder, nunca entendi direito esse desejo doentio de mandar nos outros. E, de preferência, em todos. Mas nunca deixei de aceitar a necessidade de um governo, de uma concertação em torno da vida em comum, num mesmo espaço geográfico e cultural a que chamamos nação. Não tem outro jeito.

Essa ideia abstrata de nação é que nos mantém juntos, em torno do projeto simples de sermos felizes, uns com os outros. Por isso que o fracasso da nação nos faz tanto mal, nos faz sofrer tanto. Porque ele é a constatação de que fomos incapazes de realizar o sonho a que estávamos generosamente destinados. Essa distância entre destino e logro, entre o que almejamos e o que conseguimos, nos faz penar porque ainda acreditamos (ou acreditávamos) em nós mesmos.

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Não vamos perder tempo com os exemplos históricos. Eles começam lá atrás, talvez com a Independência, feita pelo príncipe colonial para que tudo continuasse como sempre esteve; passam pela República, proclamada pelos senhores de terras, latifundiários que assim se vingavam da Abolição imperial; e vão até o acerto cordial para o fim da recente ditadura. Tudo se mistura sem formar caráter, como numa sopa sem gosto.

Diante de tantos graves erros políticos e morais de todas as tendências e partidos, não temos mais onde depositar nossa esperança, não vemos mais a quem confiar a nação. Não achamos mais nem mesmo por quem torcer, como no futebol, coisa que sempre nos fez respirar e sobreviver.

Mesmo numa dolorosa experiência política, como a do golpe de 1964, sempre podíamos sonhar com uma saída e torcer por nossos possíveis heróis. Enquanto os militares instalavam o poder autoritário, ouvíamos dizer que Brizola preparava a reação no sul, nos sussurravam que Marighella e sua gente se armavam, nos garantiam que a esperteza de Ulysses e Tancredo não ia nos deixar nessa por muito tempo.

Hoje, da nossa arquibancada cívica, assistimos a um jogo secreto que, de vez em quando, só nos revela incompetência e propinas. Sempre com muito escândalo. Mas talvez seja essa a esperança que nos resta — agora, que não temos mais por quem torcer e vamos depender exclusivamente de nós mesmos, temos que tentar reconstruir o país como se estivéssemos começando do começo, começando de zero.

Cacá Diegues

Democratas de esquerda - a hora e a vez?

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O quadro partidário em ruínas e o destino incerto de tantos personagens de primeiro plano tornam particularmente opaca a cena pública a pouco mais de um ano de eleições gerais. Não há muitos termos de comparação para nossas agruras e a referência inevitável para este nó aparentemente insolúvel entre questões judiciais e questões políticas continua a ser a Operação Mãos Limpas, italiana, na década final do século passado.

Diferentemente do caso brasileiro, em que partidos frouxamente organizados conduziram a transição e dominaram o poder central até 2002, a Primeira República Italiana, que nasceu no segundo pós-guerra, era uma República de partidos de massa, dois dos quais se tornaram reconhecidos até fora do país: a Democracia Cristã (DC) e o Partido Comunista (PCI). Ambos portavam visões de mundo comunitaristas, não necessariamente antagônicas, admiravelmente retratadas na arte culta ou popular. Para dar um exemplo divertido, foram tempos de Don Camillo e Peppone, o pároco e o prefeito comunista – criaturas de Giovannino Guareschi – que se comportavam expressivamente ora como adversários, ora como aliados.

Positivamente, aquela República fez nascer a Itália moderna; negativamente, reduziu-se muitas vezes, segundo os críticos, a uma “partidocracia”, em que cargos e nomeações, em toda a estrutura do Estado, se dividiam segundo regras bizantinas de filiação partidária. Sempre no poder, a DC e seus aliados de centro ou centro-esquerda; eternamente na oposição, o PCI – uma disposição que se tornaria disfuncional em razão, precisamente, do veto que os condicionamentos da guerra fria impunham à alternância.

A Mãos Limpas levou à implosão daquele sistema bloqueado: dois partidos tradicionalíssimos, a DC e o Partido Socialista, entre outros menores, foram tragados na grande crise. Forza Italia, a agremiação berlusconiana, e os separatistas da Liga Norte dariam voz à nova direita. O PCI continuaria o processo de reconstrução que o levaria muito além do comunismo de origem. E na margem a galáxia ultraesquerdista, a praticar “rachas” e cisões, seu esporte preferido.

Começada de forma casual, a Lava Jato terá topado, progressivamente, com um esboço de “sistema de poder” à italiana, estruturado não só a partir de nossa maior empresa pública, mas, pelo que se vê, espalhado por fundos de pensão, bancos e demais órgãos públicos. As regras de repartição saíram do âmbito artesanal: não se tratava mais de dar, ao sabor de pressões momentâneas, “diretorias que furam poços e acham petróleo” para este ou aquele personagem folclórico, mas de criar máquinas eleitorais poderosas e alianças parlamentares imbatíveis, roçando a unanimidade.

Não se pode dizer, de forma alguma, que o mecanismo fosse inteiramente inédito, salvo na proporção que passou a assumir. Mudanças quantitativas, como se diz, acarretam saltos de qualidade e no auge de sua vigência o mecanismo pareceu capaz de autorreprodução: mal se descobriam feitos e malfeitos que deram vida ao “mensalão”, surgiram indícios de algo mais grave a envolver empresas públicas e privadas numa escala que nos assusta ainda agora.

Alguém poderá lembrar que Sérgio Motta, um dos ministros mais fortes do primeiro governo FHC, certa vez vaticinou um domínio de 20 anos para consolidar as reformas liberais de então. A lembrança é cabível, mas não de todo pertinente: essa espécie de reforma é normalmente impopular, independentemente das justificativas que possa ter, e costuma minar as bases de sustentação de qualquer governo. E, ainda mais importante, os tucanos, como de resto seus aliados do antigo PFL ou do PMDB, eram partidos à moda antiga, fortes eleitoralmente, mas com pouca ou nenhuma vida orgânica ou elaboração autônoma. A adesão que obtinham, no mais das vezes, era de tipo passivo; salvo na implantação da nova moeda e em algumas outras situações, não entusiasmavam nem mobilizavam seus eleitores ao longo do tempo. Não lhes davam argumentos para a boa luta cotidiana, em meio às pessoas comuns.

Uma forte assimetria, ao contrário, caracterizou o sistema de poder petista. Longe de ser um partido comunista, especialmente se considerado o conjunto de fins (realizáveis ou irrealizáveis) que caracterizava esse tipo de partido, o PT sempre trouxe em si algo dos velhos PCs: a centralização, a disciplina e, ai de nós, o culto do chefe, não raro imantado dos dotes de messianismo e infalibilidade. Em contato com tradicionais “partidos de Estado”, que a ele se aliaram a partir do segundo mandato de Lula, o PT pôde exercer por alguns anos, quase sem contestação, seus pendores hegemonistas e seus vezos de cooptação. De fato, o “franciscano” toma lá dá cá atingiu o estado da arte, muito além dos desvios – intoleráveis! – de caixa 2 eleitoral e “sobras de campanha” que sempre atingiram os amorfos partidos brasileiros.

As democracias estão sob ataque por toda parte. Inútil buscar situações exemplares ou receitas definidas. Os partidos, em particular, veem-se assediados por “não políticos”, que estimulam a vaga populista contra a “casta” e disso se beneficiam – até porque, reconheçamos, há muito de “casta” no comportamento político convencional. Os italianos não estão fora do abalo sísmico que varre o mundo. Contudo, sem contar flutuações conjunturais, apontaram um caminho promissor ao tentarem associar num só “partido democrático” os reformistas egressos do comunismo e do catolicismo social.

A esquerda brasileira até agora não contou com tal sabedoria. Gira em círculos em torno de seus anacronismos e tabus. Reduz-se à defesa de seu chefe único e se fecha ao aggiornamento. Parece não ver que é necessário resgatar a si mesma – consciente de que “esquerda” é hoje um conceito desonrado – e contribuir para a missão comum de renovar a política, o Estado e, não por último, a sociedade brasileira.

Imagem do Dia

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Portão do templo, Chengdu (China)

Com o diabo no corpo

Michel Temer, 76 anos, quase 40 deles dedicados à política, não se enquadra na categoria dos desprecavidos. Não teria sobrevivido se o fosse. Muito menos na dos ingênuos, o que torna inexplicável ter se deixado enredar na armadilha de Joesley Batista, para quem Temer, na noite de 7 de março, abriu os portões do Palácio do Jaburu e do inferno, lançando nas chamas ele próprio, o seu governo e o país.

Ainda que monossilábico, o presidente da República ouviu disparates de um investigado pela Justiça, concordou com o inconcordável, postou-se como cúmplice de relatos criminosos. Nada fez.

E deu muito mais do que os irmãos Batista precisavam para selar a delação premiada junto ao Ministério Público Federal: um diálogo cifrado, no qual Joesley poderia introduzir recheio de qualquer sabor.

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Ao relatar a Temer que estava de bem com Eduardo Cunha, Joesley não cita a que se refere. Não fala de compra, de dinheiro, de valores – permitindo que ele dê a sua versão aos procuradores, como os tais R$ 400 mil que teriam sido pagos pelo silêncio de Cunha, com conhecimento do presidente. Algo que não está no escopo da conversa e, portanto, não aparece na gravação.

Há mais dúvidas do que certezas nessa hecatombe provocada pela delação dos donos e diretores da JBS, a maior processadora de carnes do mundo, uma das campeãs nacionais selecionadas por Lula da Silva e Dilma Rousseff, com direito a generosíssimos recursos do BNDES e da Caixa.

No que tange a Temer é incompreensível o fato de ele ter aceitado encontrar-se com Joesley no tardar da noite, em sua residência e sem testemunhas. Ter deixado a conversa se enveredar por temas nada republicanos – ao contrário, criminosos. De não ter desconfiado da armação. Teria rabo preso? Culpa? Medo?

Na outra ponta, a delação dos Batistas abre dezenas de questionamentos – a começar pelos dadivosos termos do acordo que os livrou de qualquer pena.

Além dos ganhos de milhões no entardecer da quarta-feira, 17, dia D do vazamento da delação, com compra de dólares e manipulação de ações, objeto de cinco investigações abertas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os donos da JBS – que estão livres, leves, ricos e soltos - acumulam discrepâncias entre o que dizem e o que deixam de dizer.

Eles são capazes, por exemplo, de afirmar com precisão cartesiana que beneficiaram 1.829 políticos via dinheiro sujo, mas não conseguem lembrar os nomes dos cinco parlamentares – apenas cinco – que teriam recebido R$ 3 milhões cada para votar contra o impeachment de Dilma, depois de recusar o pedido para comprar 30, que eles também não dizem quem são.

A JBS teria gasto quase R$ 600 milhões para financiar políticos, menos de 2% de forma lícita. Aécio Neves, enrolado até o último fio de cabelo pela gravação em que aparece pedindo dinheiro e acertando, como um meliante, a entrega das notas em espécie, teria levado mais de R$ 60 milhões. Gilberto Kassab, José Serra, Fernando Pimentel e outros 15 governadores estariam na lista de receptores. Os Batistas dizem possuir uma bancada invejável: 167 deputados federais e 28 senadores, 179 deputados estaduais em 23 estados.

Questionado sobre um juiz que ele teria no bolso e que citara a Temer, Joesley diz que inventara esse fato ao falar com o presidente – e o dito parece ter sido convincente. Em outro ponto, o delator afirma que só com Lula e Dilma foram gastos US$ 150 milhões (mais de R$ 320 milhões). Um recorde absoluto. Ainda assim, sabe-se lá por que, as transações com os dois ex não se tornaram objeto de denúncia específica.

Michel Temer, 76 anos, político experiente, foi incisivo no pronunciamento que fez na última quinta-feira, 21 horas depois do vazamento do teor da gravação, uma hora antes de oficialmente o áudio de seu encontro com Joesley ser liberado pelo ministro-relator da Lava-Jato no Supremo, Edson Fachin.

Após ouvir a gravação, o presidente teria voltado a respirar. Como dissera pouco antes, não havia menção alguma quanto à compra do silêncio de Eduardo Cunha. Mas continha tudo o que não podia: silêncio, concordância e cumplicidade com um empresário corrupto.

No sábado, Temer voltou a se dirigir à nação. Anunciou que sua defesa protocolaria pedido de suspensão do inquérito contra ele até que a gravação – objeto de edição revelada por peritos contratos pelos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo – fosse oficialmente periciada.

Abre-se assim um novo flanco de dúvidas. Pior, capaz de ferir de morte o MPF, ao qual cabe atestar a veracidade de provas-chave de delação e de abertura de inquérito.

Algo gravíssimo caso seja confirmado. Mas, ainda que venha a servir como extintor para as chamas que Temer lançou sobre si naquele 7 de março, não conseguirá apagar a revelação de que ele já havia se rendido ao diabo.

Mary Zaidan

Michel Temer se acovardou e saiu às pressas sem dar entrevista aos repórteres

O pronunciamento deste sábado de Michel Temer e que foi transmitido ao vivo por todas as emissoras de televisão que formaram rede, foi um tremendo fracasso. Temer falou por 13 minutos. Falou sozinho. Temer parecia marionete. Por que não se sujeitou a ser entrevistado pelos jornalistas presentes? Medo, eis a resposta. Medo de ser confrontado. De ser pego em mais mentiras. Medo de não saber o que responder. Temer se serviu de uma rede nacional de rádio e televisão para desmerecer o pedido de abertura de inquérito policial feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e aceito pelo Supremo Tribunal Federal, por decisão monocrática do ministro Edson Fachin.

Temer, baseado em reportagem do jornal Folha de São Paulo – e não mais que isso – disse que a gravação foi editada. Que ela não é inteira. Que recebe qualquer brasileiro, a qualquer dia e hora, que queira falar com ele. Por isso recebeu o empresário Joesley Batista, da JBS, um brasileiro como outro qualquer que contou uma porção de, digamos, “lorotas”…
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Temer disse que está pedindo ao “colendo Supremo” a suspensão do inquérito policial para que uma perícia seja feita na gravação. Quanta bobagem! Ainda mais dita por um presidente-jurista. Inquérito policial não se suspende, senhor Temer. Inquérito policial ou é arquivado exclusivamente por ordem do juiz, ou com base nele o promotor público oferece ou não denúncia contra quem for no inquérito indiciado.

Mesmo se pudesse empregar a analogia do Código de Processo Civil, que permite a suspensão do curso de um processo cível, durante a suspensão nenhum ato processual pode ser praticado pelas partes. Portanto, durante a pretendida suspensão que Temer está pedindo ao ministro Fachin, a perícia que ele quer realizar não poderá ser feita, porque o inquérito estaria suspenso. Acontece que, para uma perícia judicial ser feita, em inquérito ou em processo, penal ou civil, é preciso que o processo ou o inquérito esteja em andamento. Ou seja, não esteja suspenso. Temer, vá estudar as leis processuais.
E ainda: Temer neste sábado abusou de denegrir a imagem do empresário. Justamente daquele que Temer recebeu no subsolo do palácio do Jaburu, bem tarde da noite, sem audiência marcada, sem revista na entrada, tudo na residência oficial da presidência da República, para ouvir o relato de um monte de crimes que Joesley & Cia praticaram ao longo dos anos e continuam a praticar.

O pronunciamento deste sábado de Michel Temer o afundou ainda mais. Seria infinitamente menos danoso se Temer tivesse recebido o Beira-Mar e dele ouvisse o relato dos crimes que praticou e depois se despedisse deste outro meliante, sem mais. Afinal, Temer disse que está de portas abertas para receber qualquer brasileiro, sem qualquer formalidade. Quanta empulhação!

O país que presta não tem bandidos de estimação

Os democratas antipetistas tentados a interromper a agonia política de Aécio Neves, Michel Temer e outras figuras mortalmente atingidas pela devassa nas catacumbas do Brasil precisam livrar-se imediatamente desse surto de esquizofrenia ética. O país que presta não tem bandidos de estimação, reitera esta coluna há mais de oito anos. Quem cumpre a lei e cultiva valores morais permanentes não pode ser cúmplice de corruptos condecorados. Quem aplaude a Lava Jato não pode bater palmas para os sonham com o fim da operação que desencadeou a dedetização dos porões do Brasil.

Todos os beneficiários da ladroagem institucionalizada pela Era da Canalhice devem ser punidos pelos crimes que praticaram, sejam quais forem os partidos que escolheram para homiziar-se. Quem luta contra a roubalheira não pode ser clemente com oportunistas que ou se aliaram ao esquema criminoso montado pelo PT, caso de Michel Temer, ou passaram 13 anos em silêncio obsequioso frente às falcatruas empilhadas durante os governos de Lula e Dilma Rousseff. Os figurões do PSDB sempre reagiram com miados às bravatas do chefão Lula. Agora se sabe por quê.


A turma que ousou desafiar o renascimento da Justiça e obstruir os avanços da Lava Jato precisa compreender definitivamente que agora todos são iguais perante a lei. Por terem deixado de ser mais iguais que os outros, Michel Temer deveria renunciar à Presidência antes de ser dela despejado, Lula coleciona pesadelos com Curitiba, Aécio Neves antecipou a irreversível aposentadoria da vida pública e Dilma descobriu que não tem votos sequer para eleger-se síndica do prédio onde se refugia em Porto Alegre.

Desmatada por Sérgio Moro, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, a estrada percorrida pelos gatunos cinco estrelas leva a um Brasil sem vagas, sem paciência e sem estômago para obscenidades de quaisquer partidos. O país do futuro ainda está em trabalhos de parto, mas certamente será muito melhor que o repulsivo Brasil que agoniza neste outono de 2017. Retirados os tumores que restam, a Nação mostrará a si mesma que fez mais do que sobreviver. Ficou mais viva e saudável do que nunca.

Paisagem brasileira

Petrus Verdié (Firminy, França, em 1875 Rio de Janeiro em 1951.) óleo sobre tela Lagoa Rodrigo de Freitas, Dois Irmãos e Pedra da Gávea medindo 65 cm por 91 cm
Lagoa Rodrigo de Freitas, Paul Verdié (1875 -1951)

A comédia política

Ao escrever a "Comédia Humana", Balzac colocou mais de 300 personagens no enredo de sua obra-prima. Karl Marx, depois de ler um dos mais importantes monumentos da literatura universal, não se impressionou com tanta gente e comentou: "O livro do senhor Balzac só tem um personagem: o dinheiro".

Na comédia política que o Brasil está atravessando, com tantos figurantes de alta ou baixa atuação, pode-se dizer que há um só personagem: o dinheiro.

Com o poder ganha-se dinheiro de uma forma ou outra. Com o dinheiro, ganha-se o poder. Esse é o resumo bastante resumido da crise que o Brasil está atravessando.
Na democracia representativa, que até Fernando Henrique Cardoso criticou num discurso na Academia Brasileira de Letras, poder é dinheiro e dinheiro é poder. Os partidos que ambicionam o poder não têm dinheiro nem para pagar as contas de luz e telefone de suas esquálidas sedes.

Por sua vez, os candidatos, em sua maioria, também não têm dinheiro suficiente para manter as suas campanhas eleitorais. A solução é buscar recursos nas grandes empresas e nas grandes fortunas. Evidente que o poder político precisa de dinheiro das grandes empresas e dos gigantes do mercado. A mão de uns lavará a mão de outros. Se somarmos as quantias ganhas e gastas no mensalão, no petrolão e na Lava Jato, teríamos mais dinheiro do que o produto interno bruto.

Nelson Motta, em artigo desta semana, pergunta: "Quanto vai valer em cargos, vantagens e dinheiro vivo um voto? Não tem preço".

Balzac, Karl Marx e Nelsinho Motta botaram o dedo na chaga que ameaça a saúde nacional. Não adianta tirar Michel Temer do poder ou reformular os partidos que estão falidos. Pior mesmo é reeditar a ditadura militar ou civil.

Não seria uma comédia política, mas uma tragédia humana.

A Constituição, acima dos dignos e dos indignos

Se o Diabo veste Prada, as esquerdas vestem Armani, consomem caviar, têm penthouses na Flórida e triplexes no Guarujá. Curiosamente, porém, lhes são atribuídas importantes virtudes na relação com os ocupantes dos mais miseráveis porões da vida social. É um fenômeno real: não é o pobre que precisa da esquerda; é a estratégia e o projeto político da esquerda que precisam do pobre na sua pobreza. Duvida? Vá a Cuba e à Venezuela e depois nos conte. A aparente empatia entre a esquerda e a pobreza não se compara à que une seus mais poderosos representantes aos donativos, mesadas e jatinhos disponibilizados pelo capitalismo de compadrio, construído com dinheiro do condomínio Brasil, ou seja, com o dinheiro de nossos impostos. Enquanto faz juras de amor aos pobres, pisca o olho e vai para a cama com os mais inescrupulosos bilionários.

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A conversa entre Michel Temer e Joesley Batista faz lembrar muito, mas muito mesmo, certas gravações colhidas em grampos com pessoal do PCC. Ouvindo a confusa loquacidade do empresário, construindo frases de um modo meio cifrado, a gente fica à espera do momento em que vai chamar Temer de "mano". E este se comporta como tal, embora alguém do PCC tivesse, ligeirinho, percebido a armação e dado uma curva no escandaloso encontro.

O presidente caiu como um pato em pleno voo e a crise política instalou-se no mais inoportuno dos momentos, quando o país começava a se aprumar para uma gradual emersão desde as profundezas da pior crise de nossa história econômica. Quem perde com essa nova enxurrada de lama? Há quem, feliz da vida, diga que perde a base do governo, que perdem os "golpistas". Eu vi essa expressão nos rostos de diversos parlamentares quando a notícia da gravação chegou ao Congresso Nacional. De fato, embora quase todos os que observei tivessem contas a acertar com o mesmo STF, a nova situação os excitou positivamente. "Enfim, uma notícia boa!" - pareciam dizer.

Boa? Eis onde quero chegar. Nas horas subsequentes, ocorreram manifestações. Pontos de concentração, em várias capitais do país, pintaram-se de vermelho. Era marcante o tom político, partidário e militante que caracterizava quem a elas afluiu. A atitude, as bandeiras, as faixas e cartazes funcionavam como carteiras de identidade do público presente. O povo, aquele que "vive e move-se por vida própria", na feliz definição de Pio XII, estava em casa, chocado, desolado, porque inteligentemente presumiu as penosas consequências daquelas revelações. O povo sabe que fora, acima e além das mesquinharias políticas, é ele quem perde. Ele perde sempre que o espírito público é comprado e o interesse nacional, vendido.

É hora de prestar atenção a quem tenha atitude responsável, esteja pensando no Brasil, na imagem do país, nas necessárias reformas, na retomada do crescimento em favor dos desempregados, dos endividados, dos jovens da geração nem-nem. E é uma boa oportunidade, também, para monitorar e, em 2018, varrer da cena política corruptos, demagogos, populistas, oportunistas. E como os temos!

Nesta quadra amargamente pedagógica da vida nacional resta-nos a Constituição. Silenciosa, ela se ergue acima dos dignos e dos indignos. Há que segui-la, sem casuísmos, para a necessária substituição do presidente, forçada ou voluntária, repudiando quem queira aprofundar a crise e convulsionar ou parar o país.

Percival Puggina

A moralidade estuprada por um presidente que não renuncia

“Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país” – a frase é de John Fitzgerald Kennedy, 35º Presidente dos Estados Unidos. Mais do que isso. É a frase que separa um simples governante de um estadista. E o que é um estadista? Um estadista é o governante que se preocupa com o bem comum, acima de seus interesses pessoais.

Todos sabemos que para se tirar um Presidente do cargo há regras e procedimentos. É o que os juristas chamam de princípio da legalidade. E sabemos, igualmente, que até Lúcifer tem direito de defesa. É o que separa um governo bolivariano de um Estado Democrático de Direito. Mas porque então as palavras de Kennedy ecoam na minha mente?
Eu explico. É que há momentos em que o valor supremo da moralidade administrativa deve prevalecer sobre o direito individual, embora fundamental, da presunção de inocência.

A questão não é saber se Temer é culpado ou inocente, pois ele terá sempre o direito a se defender, no momento processual próprio, mas de acabar com o sofrimento das pessoas de bem, ordeiras, dignas e honestas, que não aguentam mais acordar num país órfão de moralidade.

Quando Richard Nixon renunciou, por causa do escândalo da invasão do edifício Watergate, é bem verdade que ele ficou proscrito por um tempo, mas não é menos verdade que hoje se reconhece o bem que ele fez à nação norte-americana. Alguns economistas, inclusive, reconhecem que ele foi importantíssimo para a economia, em função de ter, no seu governo, desatrelado a emissão do dólar ao chamado “padrão-ouro”.

Parece-me que Temer poderia trilhar o mesmo caminho. Assim como Nixon, a história poderá redimi-lo, ou não. Mas, se renunciar, terá mais chances de que isso aconteça, pois ao menos se reconhecerá que ele não foi covarde e, em algum momento, colocou o interesse público acima de suas vaidades e interesses pessoais, como, aliás, deveria fazer todo Estadista.

O Brasil precisa se recompor, pois como diz a música da Legião Urbana, cada dia quando acordamos não temos mais o tempo que passou (Tempos Perdidos).

Nossa democracia é jovem. Não temos que nos envergonhar dos percalços, nem dos erros cometidos. O erro só prova que somos humanos. Deus criou o erro para que existisse o perdão. Será mais fácil que a história perdoe os erros de Temer do que a sua falta de coragem em renunciar. Se não renunciar, passará para a estória como um covarde, como um traidor do povo, um oportunista.

A voz do povo diz que a burrice é cega, assim como o amor. Tendo a concordar. Ainda a mais quando o Temer presidente teima em não ouvir a consciência do Temer professor de direito constitucional. Faça uma ponderação e um balanceamento, Sr. Presidente. O Senhor conhece o método exegético, e deve verificar o que é mais importante para o Brasil nesse momento: a presunção de inocência (individual) ou a moralidade administrativa (pro societatis)?

Quando ficamos sabendo pelos jornais que o Brasil é governado pelas grandes corporações (Odebrecht, Queiroz Galvão, Delta, JBS, Facility e tantas outras) e não pela ideologia e pelo voto, e que a longa manus dos empresários se estende à CVM, ao Banco Central e ao BNDES, a esperança do povo recebe uma violenta bofetada na cara, pois o cidadão comum passa a perceber que a sua voz não tem representatividade alguma e que vivemos uma Democracia de aparências, “para inglês ver”.

Certamente, Temer sairá do cargo no dia 6 de junho quando o TSE condenar a chapa Dilma-Temer. Podia, entretanto, dar exemplo de coragem para os nossos filhos e netos, para a nova geração que vem aí, e deixar o cargo com um mínimo de dignidade.

O Brasil não pode esperar. Precisamos restabelecer a esperança política e buscar na meritocracia a nomeação para preenchimento de todos os cargos públicos, via concurso. Não dizima a corrupção, vício do ser humano, é claro, mas ajuda a mitigá-la. Por que o BNDES, a CVM e o Banco Central não são comandados pelos seus funcionários de carreira concursados? Por que não são livres e independentes das politicagens e conchavos políticos?

Não se percebe que as duas instituições que ainda funcionam e guardam alguma independência moral são a Polícia Federal e a Procuradoria da República, exatamente porque seus membros são inamovíveis, concursados, e estão protegidos da discricionariedade própria dos políticos de ocasião? É assunto sério a ser discutido, possivelmente através de um Projeto de Emenda Constitucional.

O País está envergonhado, Sr. presidente. Não estupre a moralidade. Apenas renuncie. Será melhor para todos, inclusive para o senhor e para os nossos filhos. O Brasil agradece penhorado!

sábado, 20 de maio de 2017

O Brasil pós-Temer

As crises institucionais – e o Brasil vive neste momento uma das mais agudas de toda sua história - não costumam estar atreladas à agenda ou muito menos à vontade dos governantes. Têm curso e ritmo próprios. Implacáveis. Desafiá-los não costuma dar certo.

O presidente Michel Temer o fez: disse que não renuncia, embora a crise já o tenha renunciado. Ninguém mais raciocina com sua continuidade. O presidente é um cadáver político, cuja remoção já se providencia – e espera-se que não se prolongue.

Os debates se dão em torno do pós-Temer. Como não quer renunciar, o presidente deverá ser cassado pelo TSE, no próximo dia 6. Não se pode falar em saída honrosa, já que honra é palavra estranha a esse contexto. O presidente quer um salvo conduto.


Não há. Fora do poder, ele e seus ministros estarão à disposição da primeira instância judicial, a maior parte da clientela direcionada ao juiz Sérgio Moro. Daí a resistência.

Seu legado político é problemático: ninguém, à direita ou à esquerda, faz ideia do que virá. Há mais torcida por essa ou aquela saída – e as hipóteses vão de diretas já a intervenção militar, passando por desobediência civil e Constituinte –, mas não há certeza quanto à viabilidade de nenhuma.

A receita constitucional parece simples: assume o presidente da Câmara e, em 30 dias, convoca eleições indiretas, pelo Congresso. O candidato não precisa ser um parlamentar. Filia-se protocolarmente a um partido, sem necessidade de prazo de carência.

Mas aí começam os problemas. O presidente da Câmara é Rodrigo Maia, investigado pela Lava Jato; o do Senado, o seguinte na linha sucessória, é Eunício Oliveira, investigado pela Lava Jato.

A última da fila – e única palatável - é a presidente do STF, Carmem Lúcia, mas como fazê-la furar a fila? Maia e Eunício têm precedência legal. E mais: quem seria esse nome capaz de fazer convergirem Congresso e sociedade? Que força moral tem o atual Congresso para resolver uma crise que ele mesmo deflagrou?

O único consenso é este mesmo: Temer já era. Ontem, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, esteve com o presidente e lhe fez breve relato de seu encontro, na véspera, com os comandantes militares. Eles têm a expectativa de serem chamados a intervir. E é a primeira vez que cogitam disso oficialmente.

O Conselho Federal da OAB reúne-se hoje, em caráter extraordinário, para decidir sobre o encaminhamento de um processo de impeachment. Diante do primeiro áudio liberado, na quarta-feira, em que Temer parecia aprovar a mesada que seu interlocutor Joesley Batista informava estar dando a Eduardo Cunha, havia ainda dúvidas.

Diante, porém, do HD, com a íntegra das delações e respectivos documentos, ontem liberada pelo STF, as dúvidas cessaram. Nada menos que 1 terabyte de denúncias, que superam as da Odebrecht, por irem diretamente ao presidente da República, sem esquecer seus antecessores, Lula e Dilma, a quem os delatores devem, via BNDES, a ascensão espúria à casta dos bilionários.

O governo Temer, como segundo escalão do PT, herdou e zelou por aquela relação criminosa, que nutriu também o PSDB.

Os irmãos Batista relacionam 1.829 políticos, de vereadores ao presidente da República, na clientela das propinas, nutridos pelo dinheiro roubado de estatais – fundos de pensão, bancos (BNDES, sobretudo), administrações direta e indireta. Sobrou alguém?

A imprensa levará alguns dias decompondo os HDs, o que garante, a exemplo do que ocorreu com as delações da Odebrecht, uma sequência prolongada de mais um strip-tease moral da República. Ontem, o Jornal Nacional consumiu mais de uma hora de seu noticiário – algo inédito – somente com esse tema.

Um massacre. Faltam ainda as delações da Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, UTC. Mas a crise não aguardará por elas.

As proporções que adquiriu, abrangendo toda a classe política – a rigor, os três Poderes -, não encontram saída rápida e segura na legislação. Nenhum legislador poderia conceber tal quadro.

Antecipar as eleições diretas de 2018 – mantra da esquerda – oferece também problemas. Carece de emenda constitucional, cujo rito – duas votações, com quórum qualificado de três quintos, na Câmara e no Senado -, além de prolongado, encontra resistências, pois lança fora do manto protetor do foro privilegiado legiões de parlamentares investigados.

Impeachment é complicado: com a jurisprudência que o STF estabeleceu para Dilma Roussef, se arrastaria pelo resto do ano, período em que o país aprofundaria a recessão e mergulharia em densa instabilidade política e social. Renúncia ou TSE, para encerrar um pesadelo. E dar início à reconstrução do país.

O pós-Temer é, na verdade, um pós-guerra.

Cada boi tem o nome que merece

 Ladrão é ladrão. E o Brasil continua a ser maior do que qualquer ladrão
O Antagonista 

Mais uma vez uma nau sem rumo?

Em 1985 apresentei à Comissão Afonso Arinos, da qual fazia parte, um diagnóstico da estrutura partidária brasileira. No ano seguinte a Editora Brasiliense publicou esse texto como um livrinho, intitulado Partidos Políticos e Consolidação Democrática: o Caso Brasileiro.

Meu argumento era mais enfático, mas no essencial não diferia do antigo entendimento de que o Brasil não chegara a formar um sistema de partidos à altura de suas necessidades. Em perspectiva histórica e comparada – escrevi logo na primeira linha –, o Brasil é um caso notório de subdesenvolvimento partidário. O resultado de nossa descontínua história partidária, com poucas exceções, fora uma sucessão de sistemas frágeis e amorfos. E fui mais longe, afirmando que uma estrutura mais forte dificilmente se constituiria a partir de uma organização institucional que combinava o regime presidencialista com a Federação, um multipartidarismo exacerbado e um sistema eleitoral individualista, frouxo e permissivo. Para que a redemocratização chegasse a bom porto era, pois, imperativo adotar outro conjunto de incentivos, entre os quais o voto distrital misto.


A tese acima exposta não se firmou. Poucos anos mais tarde o meio acadêmico acolheu um entendimento precisamente oposto. Nossos partidos e balizamentos institucionais seriam perfeitamente adequados e não seria exagero dizer que se incluíam entre os melhores do mundo. Não representavam nenhum risco para a estabilidade democrática, muito menos para a governabilidade – ou seja, para a desejada eficácia na condução dos programas de governo. A tese da fragilidade partidária não passaria de um mito.

Relembrar essa discussão no momento atual é um exercício surrealista. Quem tem olhos de enxergar sabe que praticamente todos os partidos couberam no bolso de duas empresas, a Odebrecht e a JBS. Sabe que as duas não apenas obtinham quando queriam as leis e medidas provisórias (MPs) de seu interesse, como – e isto é muito mais importante – fábulas de dinheiro no BNDES, como viria a ocorrer no transcurso dos governos Lula e Dilma. As cifras, que à época o País desconhecia, eram (são) estonteantes. Ou seja, o cartel das empreiteiras, Eike Batista e os irmãos Joesley e Wesley mandavam muito mais do que centenas de deputados eleitos pelo voto popular. Em 2010, três grandes eleitores – Lula, Marcelo Odebrecht e o marqueteiro João Santana – substituíram-se à grande massa votante e enfiaram Dilma Rousseff pela goela abaixo dos brasileiros. O quadro acima se alterou graças a dois fatores principais: o instituto da delação premiada e a circunstância até certo ponto fortuita de o “mensalão” ter caído nas mãos de Joaquim Barbosa e o “petrolão”, nas do juiz Sergio Moro.

Como bem mostrou Fernando Gabeira no Estadão de ontem (19/5), o que ruiu não foi um ou outro partido, mas todo o sistema: “Todo o esquema político-partidário estava envolvido, por intermédio de suas principais siglas. A delação da JBS apenas confirmou o processo de decomposição irreversível” (grifo meu). Mais adiante, Gabeira pergunta se não será o caso de esquecermos a ideia de partido e passarmos a pensar em “movimentos”. Não sei o que isso significa, mas aqui já me afasto dele. Como também me afasto de toda cogitação sobre “democracia direta”, “conselhos populares” e assemelháveis. A democracia representativa é o único modelo sério e consistente de democracia que a História produziu e os partidos lhe são essenciais.

Admito, porém, que a “decomposição” a que Gabeira se refere já não pode ser resolvida por meio de uma reforminha política qualquer, como essas que o Congresso propõe um ano sim e o outro também, creio que com o saudável intuito de divertir a imprensa. O “povão” – aquele sempre acusado de “não saber votar” – não tem nada que ver com isso. Se o que lhe dão é o paternalismo do Bolsa Família, ele vota para mostrar gratidão pelo que lhe deram, e interesse em continuar recebendo tais migalhas.

O buraco é mais em cima. É a desorientação mental e política que grassa entre as “elites”, ou seja, entre os 20% mais escolarizados, com mais acesso à informação e de renda mais alta. No dia 29 de abril, milhões de brasileiros observaram, pasmos, a vetusta Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apoiar a contrafação de “greve geral” imposta ao País pelas centrais sindicais. Destas, realmente, é pouco o que se pode esperar, mas a CNBB tem o dever de expressar pelo menos os anseios da parcela católica da sociedade. Não creio que uma ação daquela ordem, baseada na supressão violenta do direito de ir e vir e em depredações, esteja entre tais anseios. Nas universidades e até no ensino médio, uma grande parte – talvez a maioria – dos docentes e discentes parece aferrada a chavões ideológicos decididamente peremptos.

Aí, a meu ver, é que está a raiz do problema. Podemos mudar as regras eleitorais quantas vezes quisermos, mas não sejamos ingênuos: não iremos a lugar algum se as elites dos diversos setores não assumirem suas responsabilidades. A referência que fiz acima à eleição de 2010 ilustra bem o que estou tentando dizer; com uma elite dessa ordem, incapaz de enxergar a trama urdida por três grandes eleitores, o Brasil não reencontrará o caminho do desenvolvimento econômico e político. Permaneceremos na condição de uma nau frágil, açoitada de quando em quando por violentas ventanias, por crises pré-fabricadas, desperdiçando o escasso tempo de que dispomos para aumentar a renda nacional e melhorar nossas condições sociais. Os 14,2 milhões de desempregados decididamente NÃO agradecem.

Gente fora do mapa

(29) - Entrada - Terra Mail - Message - ricardogbarreto@terra.com.br:
Fan Ho

Independente do desenlace da crise, o estrago está feito

O desfecho ainda não está dado, mas o estrago já foi feito. O governo foi abatido no ar, no momento em que a galinha do desenvolvimento ameaçava alçar seu primeiro voo. A credibilidade, já debilitada, foi recolhida a uma espécie de UTI, a articulação, baseada — quase que exclusivamente — no fisiologismo, viu a fidelidade migrar para o oportunismo indignado dos que se dizem, convenientemente, surpreendidos. O cronograma das reformas, pedra de toque do processo econômico, foi pelo ralo.

As últimas denúncias completam, no entanto, a tentativa de varredura do entulho político nacional, que, até aqui, dizia-se, ser perseguição exclusiva ao PT. Injusto: em Curitiba, há gente sortida, de partidos variados. Mas o fato é que, agora, o turbilhão chega também ao centro do novo poder e o veneno atinge o coração do grupo que esfolou petistas em praça pública: Michel Temer e o tucano Aécio Neves. A narrativa da perseguição perde sentido e a Lava Jato ganha força para seguir em frente, inclusive em direção a Lula.

Charge do dia 20/05/2017

Vamos aos fatos: no PSDB, a imagem de Aécio Neves, seu presidente, parece irremediavelmente rasgada. A justiça pode decidir o que quiser, mas as cenas exibidas na TV, são definitivas: o senador atarantado com as denúncias somadas aos áudios do diálogo com Joesley Batista nada têm de inconclusivas — duas milhas, dividas em 4 lotes de 500 mil, é dinheiro para toda existência de muitas vidas, no padrão médio da sociedade brasileira. Há também o símbolo: a irmã, Andréia Neves, de frente e perfil, recolhida à PF; são os netos de Tancredo. A Nova República termina desse modo melancólico.

Os tucanos, é claro, pedem a justa moderação que não tiveram no passado; copiando o PT de ontem, foram inclementes com os adversários; assumiram o jeito UDN de ser e, agora, mordem a língua. São medidos pela mesma régua da impiedade que usaram. Fanáticos adoram atirar pedras, o problema é quando o farisaísmo se revela. A reputação despencou pela janela. Parece vingança de autor de novela.

Mais concreta em consequências, porém, é a situação de Michel Temer. Trata-se do presidente da República, da condução de uma política econômica com objetivos de retomada do desenvolvimento perdido e da tentativa de reorganização — agora frustrada — do país. Foi para isto que o presidente e seus ministros apelaram durante toda a quinta-feira. “Logo agora…”, diziam num muxoxo desolado. Trens desgovernados não têm mesmo hora para descarrilhar. Dependem, antes, de vacilos na direção.

Independente de serem ou não conclusivas as gravações até aqui conhecidas — e não parecem mesmo conclusivas —, a questão é que o trem desgovernado passou por cima do maquinista. O encontro furtivo de Michel Temer com Joesley Batista é inexplicável; a natureza dos diálogos que mantiveram é ruidosa em todos os sentidos — presidentes da República não podem ouvir certas coisas; no cargo 24 horas por dia, não têm folga. É a vida. Logo Temer, tão cheio de formalismos…

Também inexplicável é o envolvimento de seu homem de confiança, Rodrigo Rocha Loures, com o carregamento de numerário em espécie, e sem justificativas até aqui, pelo menos. Loures sofreu apupos — no aeroporto, em sua volta ao Brasil — dignos dos grandes símbolos da raiva nacional. Como explicar os encontros, as fotos, a grana, as coincidências, tudo… Sobretudo, após os diálogos entre Temer e Batista?

A base do governo — que analistas os mais entusiastas do temerismo, cantavam em verso e prosa, relevando sua natureza — já se coloca na cabeceira da pista para escapar dos efeitos de um governo desde sempre impopular que, agora, cai também de cabeça na maldição da Lava Jato. Incomodados com as reformas, que já não queriam votar, cantavam Tim Maia, “me dê motivos”. E Michel Temer deu. As revelações de Joesley são mesmo música para seus ouvidos — no mínimo, uma sirene que alerta “hora de fugir”.

Dificílimo será retomar o processo, voltar ao ponto em que o nervo se rompeu. Pelo menos por enquanto, a ênfase de um Michel Temer indignado cai no vazio. Seu “Não renunciarei. Repito: não renunciarei”, apoiado, ao fundo, por uma tímida e desanimada salva de constrangidas palmas, parece pouco como reação. O presidente, no entanto, é verdade, ganhou um inconclusivo sopro se não de vida, pelo menos, de tempo — solicitará perícias e alongará essa agonia. Assim, o desenlace da crise não será rápido, se alongará para um desfecho ainda desconhecido. Enquanto isso, o governo rezará a Santo Expedito, o advogado das causas perdidas.

Carlos Melo 

Direito de trabalhar

O direito mais essencial da democracia é o direito à liberdade. Ainda mais básico é o direito à vida, mas esta é considerada inviolável e não há, na Constituição, legalidade prevista para ceifar a vida de qualquer cidadão, mesmo o Estado e alguns de seus agentes fazendo isso diariamente.

Mas a liberdade ainda continua sendo não só constantemente violada por quem deveria garanti-la, como ameaçada pelos que se autodenominam progressistas e defensores da democracia: os revolucionários reacionários.


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No Brasil, 96% das empresas são de pequeno e médio porte, responsáveis por 53% dos empregos, e tiveram crescimento de produção quadruplicado entre 2001 e 2011. Logo, ter pequenas e médias empresas é um excelente negócio para o país. Porém, estas empresas são mais vulneráveis por possuírem menor capital e obterem crédito mais caro para sobreviver em épocas de crise. E foram as mais atingidas.

Sem a liberdade de contratar e demitir com rapidez e burocracia baixa, de demitir-se e empregar-se livremente, mantendo direitos como FGTS, décimo terceiro e férias, possibilidade de trabalhos em meio período, esse setor trava.

O empreendedorismo deste século é mais variado, graças à tecnologia. Não dá para achar que todo trabalho é precário como nos séculos passados. Que toda relação patronal em empresa é exploratória. Que não existe Justiça do Trabalho cada vez mais acessível e atuante. Que o trabalhador não tem mais qualquer voz individual, mesmo gozando das redes sociais.

Nas pequenas e médias empresas, as contratações podem ser mais flexíveis, tendo em vista a proximidade entre empregado e patrão. Ampliar legalmente a versatilidade das negociações e dos modelos parece desatar muitos nós destas relações.

A possibilidade de retirada do FGTS, dinheiro conquistado pelo trabalhador e administrado pelo governo (?), no momento de saída do emprego para empreender ou fazer o que bem entender, também parece lógica.

Achar que todo empresário e empreendedor brasileiro é um potencial inimigo do trabalhador e que toda empresa só contrata visando menor salário é fechar os olhos para a acirrada concorrência do empreendedorismo ágil. É desvalorizar o pequeno e médio empresário que está enforcado com a burocracia estatal e luta para conseguir pagar salário em dia, com os tais direitos e a bocada do Estado, e manter qualidade de serviço.

O direito básico do trabalhador é o trabalho. Apoiar um governo que fez a economia cuspir mais de 13 milhões de brasileiros, enquanto destinou maior parte do crédito a megacorporações corruptas e ser contra qualquer reforma em leis rígidas e originalmente fascistas é jogar contra o país e a favor de certos interesses — que não são do trabalhador.

O caminho do Brasil não é, e nunca será, pelo assédio governamental ao capital privado, tampouco por delírios heroicos com corruptos ideólogos. O caminho é a liberdade individual. Liberdade de poder contribuir com o próprio talento.

Liberdade.

Este direito mais básico da democracia.

Thiago Mourão

É preciso um país

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Não mais Alcácer Quibir.
É preciso voltar a ter uma raiz
um chão para lavrar
um chão para florir.
É preciso um país.
Não mais navios a partir
para o país da ausência.
É preciso voltar ao ponto de partida
é preciso ficar e descobrir
a pátria onde foi traída
não só a independência
mas a vida.
Manuel Alegre

Paisagem brasileira

Gente olha que sonho esse lugar…:

Temer se acha vivo, mas aliados mandam flores

Menos de 24 horas depois de Michel Temer ter declarado diante das câmeras que não renunciará ao mandato, a palavra renúncia voltou a ser pronunciada nos diálogos entre o presidente, seus auxiliares e apoiadores. O governo acordou sonhando com a superação da crise. “Já passou a tempestade”, chegou a dizer o chefe da Casa Civil Eliseu Padilha. Na sequência, o Supremo Tribunal Federal trovejou sobre o noticiário a íntegra do inquérito aberto contra Temer e os vídeos da delação do Grupo JBS.


O cenário é de franca deterioração. É como se o presidente, convertido pelos fatos em cadáver político, testemunhasse os preparativos para o velório do seu governo. Temer grita que está vivo. Mas alguns de seus aliados já encomendam coroas de flores. E discutem sobre o melhor momento para atirar sobre a presidência de Temer a última pá de cal.

Numa metáfora feita por um dirigente do PSDB, Temer é um paciente na UTI. Os partidos monitoram a situação. A qualquer momento, podem desligar os aparelhos. A senha para o desfecho está no áudio da conversa vadia que Temer teve com o empresário Joesley Batista. A certa altura, Temer diz que o apoio congressual é o grande trunfo da sua administração. “Se eu não tenho o apoio do Congresso”, disse Temer, “eu tô ferrado”. É disso que se trata.

Os filhos da Lava-Jato

Ninguém pode se dizer surpreso com o que a Lava-Jato está trazendo à tona. Todos nós, mais ou menos, sabíamos que campanhas políticas, licitações e negócios públicos em nosso país seguiam desvios e muitas vezes ignoravam princípios éticos. Faltavam as provas e os depoimentos que agora surgem a cada dia.

Ética vem do grego ethos e significa caráter. Em filosofia, é aquela parte responsável pela investigação dos princípios que motivam, disciplinam e orientam o comportamento humano.

Olhando para o Brasil de hoje, as perguntas vêm automaticamente: O que aconteceu com o nosso caráter? Onde erramos?

Algum tempo atrás, antes de entrar em uma reunião, pediram para deixar os celulares do lado de fora. Elogiei a decisão: “Que bom. Assim ninguém vai se distrair olhando o celular toda hora para checar e-mails e mensagens!”.
A verdade veio a seguir: “Não, estamos preocupados em evitar que alguém grave a conversa. É por segurança”.

Essa é uma distorção ética. O problema não é a gravação. É o conteúdo.

Quando se trabalha de forma correta, sem jeitinhos, sem vantagens indevidas, não há com o que se preocupar. Os celulares podem ser acionados sem problema porque quem está ali trabalha por uma sociedade melhor e com a certeza de que sua decisão será capaz de disseminar uma cultura ética nos negócios que só irão favorecer a empresa e seus produtos.

Mas ainda estamos bem longe disso, até porque é difícil mensurar os resultados que a cultura ética pode incorporar à empresa.

O impacto real da ação ética no faturamento e crescimento das empresas está no comprometimento dos funcionários com essa cultura. Quanto mais comprometidos, mais vão se esforçar para que os negócios cresçam e a empresa avance. Sabem que é melhor ser remunerado por valores justos pelo seu trabalho do que receber valores altos pagos de forma irregular.

Queremos que os nossos filhos, os filhos da Lava-Jato, cresçam sem valorizar, entender e seguir valores éticos? Preocupados com a gravação de reuniões? Sejam homens e mulheres sem caráter? Descomprometidos com resultados? O que importa agora é mudar. Mudar o comportamento, o pensar e o agir em nossa casa, empresa, na comunidade com a qual convivemos, na sociedade.

Não estou pregando utopias. Basta lembrar o passado recente. Antes, toda sala de reunião, cinema, teatro, tinha uma placa de “proibido fumar”. Hoje, isso não é mais necessário: todos sabem que nesses locais não se fuma porque faz mal à saúde e se deve respeitar o direito da maioria.

Mas temos um longo caminho a seguir. E a estrada passa pela educação. Ética tem de ser um aprendizado incorporado ao currículo escolar. Não cabe apenas aos pais ensinar, mas aos professores também. O conceito de uma sociedade ética precisa ser incorporado pelas novas gerações, valorizado e entendido desde os primeiros anos escolares.

Só assim seremos capazes, daqui a 20, 30 anos, de entrarmos em uma sala de reunião com smartphones de última geração sem nos preocuparmos se nossa conversa for gravada, porque faremos parte de uma geração com valores éticos. Uma geração com caráter.

Sob qualquer nome

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Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo 
Antonio Cândido (1918-2017)

Choque de verdade no paraíso de mentira

Nos primeiros dias do segundo ano do governo Temer e indo para o quarto de paralisia o Brasil segue perdido nos falsos diagnósticos do mal que o acomete.

A ultima vez em que os fatos que a Lava Jato investiga foram avaliados no seu devido contexto foi nas sentenças do mensalão. Desde então tanto a imprensa quanto o Ministério Público deixaram a conspiração pelo poder de lado, focaram nos indivíduos e têm tratado tudo como se a acumulação de dinheiro fosse o fim ultimo de toda essa roubalheira.

Se fosse verdade, disso decorreria que o estado, benfazejo como “rousseaunianamente” é, não precisa de reforma, só precisa de limpeza. Mas o Brasil real não embarca mais nessa. Já entedeu que essa luta é pelo controle e a preservação e não pela desmontagem do “sistema” e tem pouco a ver com ele. E expressa o seu ceticismo com uma crescente indiferença. A “voz das ruas” calou-se. A “vanguarda do proletariado”, mesmo com as aposentadorias e os “direitos trabalhistas” que desempregam todo mundo menos os funcionarios públicos na berlinda, não enche uma praça de tamanho médio nem a rogo pessoal e intransferível do “maior líder da história da classe operária brasileira”.

Charge O Tempo 19.05.2017

Michel Temer e seus economistas hesitantes são os únicos que, por obra do destino, bandearam-se para a causa do país real. Só que se pusesse o foco no problema como ele é incidiria num “sincericídio”. Assim, tenta responder ao desafio jogando nos bastidores com as armas do passado. É um esforço louvável pela persistência, mas vão. O “sistema” mostra-se imune aos venenos e manhas que ele próprio inventou.

O populismo “socializa” as migalhas da corrupção para adubar o chão em que vai plantar a sua mentira. Estamos em plena safra. Mente a esquerda, criminosamente, quando diz que o “achaquismo” trabalhista não desemprega nem ha rombo na previdência; mentem o centro e a direita, por omissão, quando pedem mais sacrifícios ao povo “para salvaguardar o seu próprio futuro” e só, como se tudo que estivesse em jogo fosse a questão atuarial e demográfica que também existe.

Hoje 28% da população, 57,9 milhões de pessoas, numero que corresponde ao eleitorado cativo de Lula, é diretamente sustentada pelo estado. Recebe todo mes um cheque do seu provedor. Estatisticamente falando, toda família brasileira tem, portanto, ao menos um pé embarcado no “sistema”. Senão o seu próprio o de alguém muito próximo que bebe na mesma fonte em que a ponta de cima da “privilegiatura” se empanturra. E isso torna fluidas todas as fronteiras e distorce todas as cadeias de cumplicidade.

A esmagadora maioria desse quarto da população que também sabe identificar a mentira mas tem menos meios de se dar o luxo da verdade recebe um salário mínimo ou menos. 13,4 milhões dividem os R$ 24,7 bi do Bolsa Família. Tudo que os 5.560 municípios sustentam, que em geral é o que o cidadão comum realmente tem, é mantido com outros magérrimos R$ 27,7 bilhões. Os estados, vale dizer, as polícias e os professores, as duas primeiras corporações a pularem fora da reforma da Previdência, consomem R$ 106 bi. E a União, que não é Brasil, é Brasilia, se empanturra com R$ 273,6 bilhões. Como as aposentadorias “deles” se dão aos 50 anos e são “reajustadas” com os aumentos dos funcionários da ativa que, somente nos estados, foram de 50% acima da inflação em 10 anos, o INSS custa hoje R$ 507,8 bi. Mas não são os soldados das PMs, as professorazinhas do ensino básico e nem mesmo os “amarajalados” funcionários do rés do chão do Legislativo e do Judiciário que levam essa conta a essas alturas. O estado que nos assalta a pretexto de “redistribuir a renda” faz exatamente o contrário. Por cima de cada uma das corporações que o controlam boia a nata dos que cavam os seus privilégios legislando em causa própria, criando falcatruas semânticas ou simplesmente empilhando fraudes em cima de fraudes que, em geral, são eles próprios os encarregados de coibir, para fazer do céu o seu único limite.

Esse grupinho sabe exatamente o cheiro de revolução que têm os seus proventos indecentes num país que foi levado ao esgotamento muito mais que pela outra, por esse tipo de roubalheira “legalizada”. E como não ha argumento racional capaz de vender o seu peixe, trata de institucionalizar a mentira.

A imprensa e o resto do país viveu a semana retrasada inteira da troca apaixonada de insultos em torno do tema do impedimento das autoridades judiciárias para decidir sobre “feitos” de que (CPPenal, art. 252, IV) “ele próprio ou seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, for parte ou diretamente interessado”. Mas a concessão ou não de habeas corpus é a faixa mais estreita da imensa zona de conflito em que todos vivem mergulhados. Sendo o Ministério Publico, com média de aposentadorias de R$ 30 mil, o Judiciário, com R$ 29 mil, e o Legislativo, com R$ 25 mil no país em que a média aqui fora é R$ 1,6 mil e o limite legal R$ 5,5 mil, que chance tem a minoria interessada em justiça de não ver o seu trabalho desfeito pela maioria se a cúpula da Lava Jato não denunciar o problema como ele é em vez de seguir com enxugamento de gelo e silêncio? Qual o jornalista, especialmente os que viveram e constituíram família no isolamento de Brasilia, cujos “cônjuges, parentes, consanguíneos ou afins” não são “parte direta ou indiretamente interessada” nas prerrogativas da “privilegiatura”? Porque, ao fim de quatro anos, o tema dos supersalários, das super-aposentadorias, da colonização do estado pelas corporações e pelos caronas dessa intrincada cadeia que se alimenta do Brasil dos Miseráveis não se apossou sequer da “voz das ruas”?

Não seria porque dinheiro pouco têm sob as asas do estado muitos e são todos um pouco cúmplices do “sistema” que a ninguem nega ao menos “um golinho”?

É um choque de verdade que está fazendo falta aqui no paraíso da mentira. O resto acontece sozinho.

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Lofoten Island of Senja, Norway:
Lofoten, na ilha de Senja (Noruega)

O fantasma do Planaltto

Respeitantemente, “no creo en las brujas pero que las hay, las hay”.

Há alguns meses, o presidente assegurou ter visto fantasma no palácio. Talvez apenas se olhasse no espelho, numa antevisão apocalíptica do que viria em seguida.

O presidente, vaidoso da fama de negociador, se vangloriava das maiorias no Congresso e, no espelho de Narciso, antevia-se nos livros de história como o grande reformador de um Brasil que vem implorando pela salvação desde 1722, vem gritando pela salvação desde 1822 e vem lutando pela salvação desde 1922.


Há anos abortamos modernizações, dando um passo à frente e recuando dois. Num dia, somos a sexta, sétima economia do mundo, com um mercado interno pujante, noutro somos o fracasso à beira do precipício com Estados falidos e municípios insolventes.

Antes deste, presidentes já haviam enfrentado esqueletos no armário, golpes no escuro, nudez no sambódromo, cachaça no sítio, forças ocultas no vinho do porto, dragões da inflação. Presidente golpista, sem votos? Bobagem, quase metade dos presidentes brasileiros não foi eleita pelo povo. Do Planalto sairia imortal para a Academia Brasileira de Letras.

Agora, como presente de aniversário, ganha malotes da Carne Fraca que cheiram a carne podre. Político de negociação hábil, enquanto propunha reformas, é suspeito de estar a fazer negócios. De hábil negociador vê-se rotulado como astuto negociante. Refém do foro privilegiado, impopular, isolado, ouve apupos e panelas das ruas.

A cara classe política já não representa a política. Fechou-se no interesse dos ali babás, surda aos anseios, cegada pelas ambições escusas. A nação de novo à beira da bancarrota, o povo descrente, em meio ao caos político-econômico, espera o desenrolar das investigações.

Há vários Brasis e há diversos caminhos para o Brasil, na esperança – sempre ela – de que, lá no destino, os caminhos das divergências afinal se convirjam. É neste momento, neste tempo em que se tem opinião sobre tudo e certeza de nada, que se deve buscar a encruzilhada da convergência. Ali duas grandes estradas se abrem para a construção do futuro. São apenas duas e não se pode trilhar as duas. O país deverá escolher entre o crescimento e o atraso.

O presidente foi o primeiro a ver fantasma no Planalto. Brasileiro cordial, permite agora que todos os brasileiros experimentem a mesma visão.

Aventuras totalitárias, à direita e à esquerda, precisam ser rechaçadas

Medida acertada do ministro Edson Fachin, ao quebrar o sigilo das delações dos irmãos Batista. A condução da Lava Jato, nesta fase decisiva, que tem como relator o ministro Fachin, tem se tornado uma agradável surpresa, pela rapidez nas decisões e pela eficiência comprovada. É um desempenho espetacular, seguindo a mesma linha do falecido ministro Teori Zavascki.

A cada semana, um estrondo se houve de longe, expondo as entranhas das relações espúrias entre o público e o privado. Entranhada em toda a máquina pública, a corrupção é indiscutivelmente a razão da crise econômica. Bilhões foram desviados para irrigar contas abertas em paraísos fiscais e para compor fortunas colossais no mercado interno.

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O dinheiro surrupiado é de tal monta que, no mínimo, dez gerações dos corruptos não precisariam trabalhar. Viveriam apenas de rendas, oriundas de propinas de toda ordem. Um escândalo, que apavora e entristece o povo, sem serviços adequados e eficientes nas áreas vitais da saúde, educação e segurança, numa crise agravada pelo sufocante desemprego, que coloca grande parte da sociedade em situação de calamidade.

A corrupção é um crime contra a nação e a cidadania, sem sombra de dúvidas. Quando pensávamos que o Mensalão e as punições geradas pelo processo da Ação Penal 470 viessem a mudar as práticas ilícitas, pelo contrário, avançaram rumo ao Petrolão, dilapidando as finanças e a credibilidade da estatal petrolífera, então a maior empresa do Brasil.

Nada mudou, infelizmente. Mesmo diante das prisões dos corruptos da Lava Jato, continuaram a delinquir, como se demonstra no universo das carnes e dos frangos da JBS. E, perguntamos nós: O que mais está por vir em outro segmento do público e do privado?

Certamente, a contaminação corruptiva extrapola o entendimento do mais otimista dos cidadãos brasileiros. O ceticismo em relação as boas práticas éticas no meio político e no meio empresarial vai se formando no inconsciente do povo.

Nesse clima, está aberta a caça a qualquer aventureiro que apareça prometendo o paraíso e depois entregando o calvário ao povo.
A direita se assanha para levar um personagem não-político ao Poder Central ou então fabricar um ditador para solapar a nossa democracia e a liberdade de expressão. Mas as aventuras totalitárias, à esquerda e à direita, devem ser rechaçadas. Além de não serem garantia de resolução dos graves problemas nacionais, os atos e totalitarismo poderão colocar mordaças e impedir o crescimento das gerações futuras.

Por mais que sejam intoleráveis, os fatos envolvendo corrupção têm vindo a tona. Não poder criticar e não conseguir receber informações concretas sobre a condução do país significam uma situação incomparavelmente pior, pois os atos de corrupção continuarão a ocorrer, mas o povo estará impedido de sabê-los, através da volta à censura, de triste memória dos tempos idos.

A limpeza dos porões precede o parto de uma República de verdade

Em 1954, o suicídio físico de Getúlio Vargas fez com que o presidente morto continuasse politicamente vivo por pelo menos mais dez anos, ao longo dos quais seguiu influenciando fortemente a vida pública brasileira. Neste outono de 2017, o suicídio moral de Michel Temer e Aécio Neves, consumado pela divulgação das conversas com os comparsas Joesley e Wesley Batista, reduziu a zumbis da política o ainda presidente da República e o já ex-presidente do PSDB.

Graças a cenas de cafajestagem explícita protagonizadas em companhia dos donos da JBS — dois açougueiros especializados no esquartejamento da lei —, Temer e Aécio logo estarão arrastando correntes nos porões onde gemem ou uivam Lula e seus quadrilheiros.


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É sempre chocante a contemplação da face escura de gente que governou, por pouco não governou ou ainda governa a Nação. Mas quem não tem bandidos de estimação também não tem motivos para acreditar que o Brasil não tem jeito. O que está morrendo é o Brasil da roubalheira impune, da gatunagem a céu aberto, do cinismo repulsivo — essa abjeção que Lula concebeu, o PT e seus asseclas alugados amamentaram, e que teria durado muitos e muitos anos se não tivesse a existência abreviada pela Lava Jato.

A República está acabando?, perguntam-se neste momento milhões de brasileiros indignados com tanta ladroagem. Resposta certa: está nascendo uma República que merece este nome. É verdade que as dores do parto poderiam ser menos agudas, mas não tenham dúvida: a República surgida desta grande crise será muito mais robusta e saudável do que a velharia a caminho do jazigo.

Como no Brasil arrasado por 13 anos de hegemonia lulopetista até tragédias têm seu lado divertido, é impossível não gargalhar diante da reação dos devotos de Lula à divulgação das conversas produzidas pelos irmãos Batista. A seita agora acredita em revelações feitas por delatores premiados e, quem diria?, nas denúncias veiculadas pela imprensa. O rebanho de fiéis vai mudar de ideia de novo quando Joesley e Wesley contarem tudo o que fizeram em parceria com o chefão do maior esquema corrupto de todos os tempos.