quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Detalhes olímpicos

Todas as Olimpíadas fabricam seus heróis. Aliás, toda atividade humana na qual se destaca um papel central, esse destaque dificilmente deixaria de ser visto como o “herói” simplesmente porque sua ausência impediria definir o ponto, dando-lhe um ponto de vista ou um arremate. Afinal, o diálogo com a finitude é o que constrói os heróis e os campeonatos. Dos torneios de várzea aos refinados Jogos Olímpicos, cuja marca é justamente um ciclo mundial de quatro anos. Fosse anual, não haveria Phelps ou Pelés.

O mundo em que vivemos é marcado pela predominância da parte sobre o todo; do individuo sobre o grupo. Para nós, a sociedade é o resultado de uma associação de indivíduos que perseguem os seus interesses, os quais se coordenam, no dizer de um tal de Adam Smith, por meio de uma bruxaria chamada de “mão invisível”. O próprio conceito revela como é central o foco na parte e no sujeito, deixando de lado as relações e, com elas, o reconhecimento do todo que, entre outras coisas, simboliza o limite. E o limite é o olimpo, o assento dos sobre-humanos. Mas, com o fim da monarquia, pode-se subir ou descer deste monte...

Se levarmos esses “detalhes” em conta, descobrimos que comparar conduz a individualizar. Eu prefiro X e você Y; eu sou Z e você X. Tal destaque pode levar ao desprezo ou a ênfase no elo que, afinal, é a base do contraste. Toda comparação pode conduzir a uma competição ou a uma guerra. Não foi por acaso que os Jogos foram reinventados na Europa!

A individualização extremada leva a diferenças que podem se fixar em desigualdades. Ou, ao contrário, em diferenciações que obrigam a rever preconceitos e exclusões. Os Jogos colocam no mapa países ignorados por meio de seus heróis. E, ao mesmo tempo, transformam desigualdades eventuais em diferenças irremovíveis. Um “detalhe” crucial da Olimpíada é o jogo entre eventos (ou “provas”) e um padrão geral — o tal “quadro de medalhas” — que reordena ou confirma nações alinhadas não mais pelo poder militar ou econômico, mas por desempenho neste campo situado entre guerra e arte.

Como mencionei na semana passada, o esporte, como as artes, é um ponto de repouso das rotinas — das questões práticas e das tragédias. Ele não as elimina, mas as converte e, no caso de fracassos, pode agravá-las acentuando ainda mais os radicalismos. De qualquer modo, como tudo que é programado e delimitado por um texto, palco e atores, o esporte é uma fantasia, mas uma fantasia transformada numa realidade tão séria quanto um filme musical ou um martini. Sua “glória” é um transbordamento parcial para o real. Seria maravilhoso se questões políticas pudessem ser resolvidas por meio de uma luta de boxe ou por um jogo de basquete...

De um certo ponto de vista, o campo do esporte é um experimento comparativo e uma abertura para a mudança. Aqui, dois “detalhes” se destacam imperiosamente: as regras explícitas e um uso do corpo com foco exclusivo no seu desempenho, talento e capacidade. No caso, uma refrega do atleta-herói contra o tempo, o espaço e os “estrangeiros” — esses outros que, paradoxalmente, não podem ser eliminados. Nesse sentido, o esporte é um ritual cujo proposito permite diferenciar iguais (todo jogo começa numa igualdade absoluta, como aprendi com Lévi-Strauss) sem, entretanto, esquecer — e isso digo eu — que as diferenciações sejam passageiras e relativas, pois tudo pode mudar numa outra competição.

Vejam a diferença: no mundo “real” a competição promove desigualdades permanentes e naturais, satânicas ou divinas. Mas, no esporte, a contingência da derrota (e da vitória) engloba apenas as inferioridades daquela competição ou jogo.. Nesta esfera da vida, não pode haver um campeonato que acabe com todos os campeonatos (como foi o caso de algumas guerras); ou um estilo de disputa definitivo. Muito pelo contrário, todo torneio tem como pressuposto um outro torneio de modo que a serie derrotado/vitorioso/derrotado seja permanentemente renovada. É muito semelhante a experiência do cantor com a música cujas interpretações são infinitas, embora ela continue sendo a mesma música.

Um dos “detalhes” do esporte como uma esfera de significado social é que nele vitória e derrota estão em relação. Perder não é desonra. É uma “prova” do outro lado desta moeda sem a qual não há jogo, pois sem ela não há vitória.

Roberto DaMatta 

Salvação na virtude

PIEDADE-Ilustração de Bandeira de Mello.:
Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheiro, digo-vos por experiência própria. Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não ter terminado em suicídio os meus pobres dias
Ludwig Van Beethoven (1770 – 1827)

O monólogo vazio de Dilma

Dilma Rousseff leu sua carta ao povo diante de jornalistas, mas não aceitou perguntas. Ela gostaria de ir ao Senado para apresentar sua defesa, mas não quer perguntas. Foi esse gosto pelo monólogo que a levou ao ponto onde está. Mesmo assim, há monólogos que ilustram. Esse não foi o caso da carta lida ontem.

Quando a senhora e o PT não sabiam o que fazer, propunham um pacto. Assim foi em 2013, quando os brasileiros foram para a rua. Ela ofereceu cinco pactos e mudou de assunto semanas depois. Ontem, novamente, ofereceu um “pacto pela unidade, pelo desenvolvimento e pela justiça”. Quando pactos não rendem, surge a carta do plebiscito, e Dilma voltou a tirá-la da manga. Sugeriu a realização de um plebiscito “sobre a realização antecipada de eleições, bem como sobre a reforma política e eleitoral”.

A reforma política é necessária e não precisa de plebiscito, mas é o caso de se lembrar que tipo de reforma era defendida pelo seu partido. O PT queria, e quase conseguiu, a instituição do voto de lista. Ela confiscaria o direito do eleitor de votar no candidato de sua escolha. Esse poder iria sobretudo para as direções partidárias. (O PT teve dois ex-presidentes e três ex-tesoureiros encarcerados.)

Dilma e o PT revelaram-se intelectualmente exaustos. Tiveram em Eduardo Cunha um aliado, um cúmplice e, finalmente, um inimigo. Nem ela nem o PT conseguiram dar apoio à Operação Lava-Jato. Ambos foram ostensivos críticos do instituto da colaboração premiada. Sem ela, a Lava-Jato estaria no ralo.

A um passo das cenas finais de sua carreira politica, a presidente diz platitudes como esta: “É fundamental a continuidade da luta contra a corrupção. Este é um compromisso inegociável. Não aceitaremos qualquer pacto em favor da impunidade.”

A presidente arruinou a economia do país pulando do galho das “campeãs nacionais” para as “mãos de tesoura” de Joaquim Levy, e dele para o breve mandarinato de Nelson Barbosa. Teve em Michel Temer um parceiro de chapa, um articulador político e, finalmente, um inimigo a quem chama de usurpador.

Num episódio raro, a carta de Dilma se parece mais com o programa de um governo que, tendo existido, deixou de existir, mas persiste, vagando qual alma penada.

Sua carta aos senadores poderia ter sido diferente na extensão e no conteúdo. Por decisão dela e de seu bunker do Palácio do Planalto, foi um documento empolado no estilo e catastrófico na essência. Ele não seria capaz de mudar votos no plenário do Senado que baixará a lâmina sobre seu mandato. Poderia ter motivado pessoas que aceitam parte de seus argumentos contra o processo de impeachment. Se ele não tiver esse efeito, isso refletirá a exaustão política do petismo e do dilmismo (se é que isso existe).

A presidente afastada vive seus últimos dias de poder na redoma do Alvorada, transformado em magnífico calabouço. Lá espera o automóvel que a conduzirá ao aeroporto. Poderia ter sido diferente, se ela e o PT tivessem entendido que estar no poder não significa poder fazer o que se queira. Algum dia essa ficha haverá de cair.

Elio Gaspari

Olimpída - De Keynes a Deaton

John Maynard Keynes irrompeu na filosofia política no limiar do século XX. E ganhou notoriedade ao final da II Guerra Mundial em 45, sobre as ruínas materiais e sociais que engoliam o continente europeu na fome e desemprego. O liberalismo do laisser faire reduzia-se impotente e frágil diante do desafio catastrófico de reerguer a economia. Neste cenário apontou Keynes propugnando ao Estado, aos governos o papel de conduzir a economia, naquilo que o empreendedorismo individual mostrava-se incapaz de cumpri-lo. Tese que Franklin Roosevelt levou à prática nos EUA de 39 a 45. Funcionou.


Guardando as devidas proporções, nossa Olimpíada pautou-se por um keynesismo sem fundos. Governos federal, estadual e municipal inadimplentes investiram maciçamente na festa esportiva mundial na esperança de que sobrasse algum proveito à cidade. Dos delírios demagógicos restaram as contas milionárias. E mais, a imposição inarredável de conservar o capital imobilizado ou abandoná-lo à ruína. Compromisso assumido por um estado incapaz de pagar os salários do funcionalismo. O governo olímpico do Rio, no auge da crise hospitalar, foi socorrido por três bilhões do governo deficitário Federal, cujo orçamento grava 170 bi negativos em 2016.

O economista Angus Deaton, prêmio Nobel de 2015, destacou-se nos estudos da micro-economia - a demanda e opção do comprador, o trivial comportamento popular exibido na feira diária. Pode servir à vista da Olimpíada. Afirma Deaton: aumentar apenas a renda dos mais pobres não reduz a pobreza se não for acompanhada do acesso à saúde e educação; mais importante que estimular o consumo é estimular a poupança para reduzir a pobreza. Deaton condenou a doação monetária e outras formas de assistencialismo aos governos africanos no combate à pobreza.

O crescimento econômico é que reduz a pobreza; não as doações. Deste confronto imaginário, ergue-se desafiadora a apolínea questão: pode um país endividado ao horizonte imprevisível, numa capital em guerra cercada de favelas, bancar uma Olimpíada?

Imagem do Dia

 Maoyuan Cui, ruínas da dinastia Qing em Yuxian, na província chinesa de Hebei 

Carta de despedida

A História do Brasil é importante demais apesar de muitos quererem menosprezar seu passado com a arrogância dos desclassificados de hoje. Entre seus registros, figuram as cartas e não são apenas as de Pero Vaz de Caminha, a certidão de nascimento, ou de Getúlio Vargas. O que falar das de José Bonifácio e da imperatriz D. Leopoldina a dom Pedro I quando da proclamação da Independência? 

Em meio à papelada, também há a rascunhada histriônica. Como os hilários bilhetinhos de Jânio Quadros sem qualquer interferência na História como a carta-renúncia de agosto de 1961.

Para entrar na própria História, Dilma também recorreu à sua veia epistolográfica. Dias e noites escrevendo para repetir o mais do mesmo em seu dilmês de chavões sobre golpes, plebiscito, novas eleições e exaltação à honradez própria como se honradez se auto-elogiasse. Foi outra vez o próprio ventríloquo. 

A carta de Dilma passará à História como a confissão de um poste, que ainda vaga pelos corredores do Alvorada arrastando a própria insignificância de ex-presidente (ou seria presidenta?). Não assusta, apenas se evapora.
E Viva a Farofa

O maior problema do Brasil é o desvirtuamento do Judiciário

Gigante pela própria natureza, o Brasil é o quinto maior país em extensão territorial e número de habitantes. No momento, está disputando a oitava colocação no ranking das maiores economias, e isso depende da cotação do real. Tem o maior volume de água doce do planeta, inclusive no subsolo; a maior capacidade de geração de energia limpa (hidrelétrica, solar e eólica); as mais extensas áreas agricultáveis, em condições ideais de luminosidade, com direito a até três safras anuais; a maior biodiversidade em florestas ainda inexploradas; e uma indústria sofisticada, que produz até computadores e aviões de última geração. Além de tudo isso, dispõe de reservas incomensuráveis em recursos minerais, ainda a serem exploradas, enquanto já caminham para o esgotamento na grande maioria dos países.

A Deusa Themis, simbolo da justiça, no Maranhão parece uma mendiga.:
Mesmo assim, o Brasil não dá certo… Portanto, tem de haver alguma coisa errada. Poder-se-ia até dizer que existe muita coisa errada, mas é preciso encontrar o ponto central da questão, ou seja, o mais importante fator que incida ao mesmo tempo em todos os setores e se revele capaz de impedir o aproveitamento do inegável potencial de desenvolvimento da economia brasileira. E esse fator é a justiça.

Sem a menor dúvida, pode-se afirmar que o maior problema do Brasil é hoje o desvirtuamento do Judiciário. A estrutura da nossa Justiça parece ter sido montada para propiciar a impunidade de governantes, autoridades, políticos e empresários incompetentes e corruptos.

Sem medo de errar, podemos dizer que o país cultiva um regime jurídico que inequivocamente privilegia as chamadas elites, ao mesmo tempo em que se mostra implacável com as camadas inferiores da população, que cumprem penas em condições verdadeiramente desumanas, fazendo com que nos lembremos do grande jurista Sobral Pinto, que na era Vargas se viu obrigado a recorrer à Lei de Proteção aos Animais para impedir que continuassem a torturar um de seus clientes mais famosos.

Não há dúvida de que a Justiça brasileira está falida. Aliás, devemos agradecer a um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (Luís Roberto Barroso, que nunca foi magistrado) a sinceridade de proclamar que o STF não tem a menor condições de conduzir os inquéritos e os processos envolvendo políticos na corrupção da Lava Jato. Simples assim.

Barroso já errou feio no Supremo, no caso do rito do impeachment, conforme denunciamos duramente aqui na Tribuna da Internet, mas é preciso reconhecer que ele teve muita coragem ao denunciar a flagrante incompetência da Justiça brasileira. E o que fizeram os outros dez ministros do STF, diante da afirmação dele? Nada, não fizeram rigorosamente nada.

Isso significa que a farsa vai continuar. O Supremo continuará simulando que trabalha, e a opinião pública fingirá que acredita nisso. É uma situação cômoda, mas que precisa mudar.

Agora, o Supremo (com voto contrário de Barroso) acaba de proclamar que as prestações de contas dos prefeitos só poderão ser recusadas se houver reprovação de dois terços dos vereadores. Ou seja, o STF simplesmente jogou na lata do lixo o trabalho dos Tribunais de Contas e “politizou” (no mau sentido) a contabilidade das Prefeituras. Basta fazer acordo com um terço dos vereadores, e o prefeito pode roubar à vontade. Ah, Brasil…

O silêncio de Marisa Letícia e Fábio Luís

A esposa de Lula e o filho Fábio Luis foram convocados para depor sobre aquele sítio que dizem não lhes pertencer. Como se sabe, a família usava o local como proprietária, atuou nas obras e reformas como se fosse dona, mas tudo era custeado por empreiteiras que trabalhavam para o governo Lula. Por seus advogados, mãe e filho afirmaram nada terem a declarar. Se intimados, permaneceriam em silêncio. O delegado não abriu mão da convocação e os advertiu sobre uma possível condução coercitiva.

Situação constrangedora! Imagine dona Marisa Letícia acompanhando a obra, escolhendo materiais, dispondo sobre detalhes, aceitando isto, recusando aquilo, dando ordens e recebendo mesuras dos engenheiros e arquitetos, gerando despesas vultosas numa propriedade alheia. Por que estava ela ali? Porque o marido assim determinou. De repente, ela e o filho são chamados à delegacia para dar explicações sobre algo tão indecifrável.

Fico a imaginar com quanta diligência qualquer leitor destas linhas se apressaria a comparecer espontaneamente perante a autoridade policial e a tudo esclarecer – fatos, relatos, documentos e testemunhas – para que nenhuma dúvida pairasse sobre sua honestidade pessoal, para que mácula alguma sombreasse sua família.

Se assim agiriam pessoas de bem, de que se pode cogitar quando o silêncio é a resposta possível, quando o chão é o lugar certo para esconder o olhar e quando a imobilidade facial é a única expressão que alguém se permite?

O homem por trás desse constrangimento todo é o chefe daquela família, o ex-presidente da República, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva. Sua ascensão ao poder foi encarada como oportunidade de enriquecimento familiar e assim levada de modo tão minucioso quanto amplo.

O constrangimento de Marisa Letícia e do filho Fábio Luis, que ocuparam o noticiário deste fim de semana, têm tudo a ver com o sentido de honra que o marido, que o pai, não soube preservar. Ao ceder em dignidade, perdeu alguns amigos e granjeou muitos outros. Nasceu a maior organização criminosa de que se tem notícia.

Creio que pelos amigos antigos falou José Carlos Bumlai, com as palavras que li nos jornais de 14 de agosto. Bumlai era tão ligado ao ex-presidente que a recepção do gabinete presidencial mantinha ativo um cartaz com sua foto assegurando total prioridade de acesso a Lula. E o que disse Bumlai sobre suas relações com o ex-presidente e seu partido? – “Fui o trouxa perfeito do PT”!
Em fevereiro, ao depor, Lula tentou empurrar a reforma do sítio para Bumlai. Seria um presente do trouxa perfeito. O advogado do pecuarista, contudo, refutou a afirmação: “Só se a Odebrecht for propriedade de Bumlai, o que não me consta”.

O anunciado silêncio de Marisa Letícia e Fábio Luis certificam o precipício moral em que a cobiça, a arrogância e a vaidade lançaram o chefe da família Lula da Silva.

Proliferação de estatais

A ideologia petista sempre pregou que a solução dos problemas nacionais inclui o aumento da interferência do Estado na vida econômica e social do País, em especial com o fortalecimento e a proliferação de empresas estatais. Com essa distorcida visão, Lula e Dilma aproveitaram seus anos na Presidência da República para criar dúzias dessas empresas. Levantamento feito pelo Instituto Teotônio Vilela (ITV) indica que, entre 2003 e 2015, foram criadas 43 empresas estatais. Continuam ativas 41.

Além de ineficaz – basta ver a herança maldita deixada por 13 anos de PT no governo federal, com uma crise econômica, social, política e moral sem precedentes na história do País –, essa política de proliferação de estatais gerou uma conta cara para o bolso do brasileiro. De acordo com o estudo do ITV, as operações das 28 estatais não financeiras criadas nos anos de gestão petista geraram um prejuízo acumulado de R$ 7,99 bilhões. Além disso, no período, a folha salarial dessas novas empresas consumiu mais de R$ 5,4 bilhões.

Duas subsidiárias da Petrobrás foram as mais deficitárias entre as novas estatais. O prejuízo acumulado da Citepe desde sua criação, em 2009, foi de R$ 4,01 bilhões. Em segundo lugar está a Petroquímica Suape, com um saldo negativo de R$ 3 bilhões.


A ânsia petista de criar estatais foi mais intensa até mesmo que a observada nos governos militares, período marcado por forte presença do Estado na vida econômica. Durante os 21 anos de ditadura militar, entre 1964 e 1985, foram criadas 47 empresas estatais. Já o PT, em 13 anos, criou 43 empresas estatais. É um número mais que expressivo, tendo em conta que, segundo o Ministério do Planejamento, o governo federal tem hoje ao todo 149 estatais.

Não é apenas o número de estatais criadas por Lula e Dilma que chama a atenção. Surpreende a diversidade das áreas de atuação dessas empresas. A lista inclui, por exemplo, uma fábrica de semicondutores no Rio Grande do Sul – cuja promessa na inauguração incluía a transformação da região do Vale dos Sinos em um novo Vale do Silício – e a Hemobrás, empresa de produção de medicamentos derivados do sangue em Pernambuco. Vinculada ao Ministério da Saúde, a estatal deveria “reduzir a dependência externa do Brasil no setor de derivados do sangue e biofármacos”.

Entre as obras-primas da administração petista está também a Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade S.A. (Etav), criada para supervisionar a execução das obras de infraestrutura e implantação do trem de alta velocidade que ligaria Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Posteriormente, a estatal teve suas competências ampliadas para abrigar os estudos e pesquisas de planejamento integrado de logística no País, envolvendo rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e hidrovias. Com a mudança, passou a se chamar Empresa de Planejamento e Logística S.A. (EPL). Nada disso, porém, fez mudar a realidade da estatal, reconhecidamente irrelevante no planejamento da infraestrutura logística nacional.

A diversificada lista das 41 estatais petistas faz parecer que os governos petistas operavam com a ideia fixa de que, para todo problema, se devia ter uma estatal. Esse modo primário de gestão pública tem um alto custo social. Com enormes desafios econômicos e sociais a serem enfrentados – basta citar saúde, educação e saneamento básico –, o governo federal despendeu energias e recursos em atividades inúteis.

Ou seja, o prejuízo dessa política não se resume ao rombo econômico, já por si escandaloso, que se vê nos balanços das novas estatais. Entre os efeitos danosos da gestão petista incluem-se também todas as omissões administrativas – aquilo que podia e devia ser feito, mas foi deixado de lado em função de o governo estar preocupado com a criação de novas estatais.

Além do mais, num ambiente de tanta conivência com a corrupção, sempre fica a dúvida se era apenas ideológica a motivação para criar tanta estatal.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A vida é de direita

A primeira vez que vi a luz foi num botequim, tomando um cafezinho com o chefe teórico de minha base no Partido Comunista, um excelente stalinista com um nariz inchado em “couve-flor”. Ele me disse a frase decisiva: “O comunista não morre. Só quem morre é o individuo iludido. O comunista se sabe um ser social. Ele faz parte de uma coisa maior, logo, comunista não morre”.

E eu, emocionado, sonhei com a vida eterna. Vi a luz. A partir daí, eu era parte de um processo histórico inelutável, muito mais importante que meus anseios burgueses.

Mas confesso que, para atingir a verdade ideológica, percorri um labirinto de dúvidas. Desviei-me da pequena burguesia, evitei as teses reacionárias dos social-democratas.

A fé entrou em mim como uma água santa. Um batismo. Contra todos os obstáculos, chegaríamos ao futuro. Mesmo os erros nos levariam a um acerto final, como ensina a dialética materialista.

Daí para a frente vivi com fé e força. Minha vida seria salvar o Brasil. Quando conquistamos o poder com Lula, eu pensei: vamos fazer agora o que não conseguimos em 63. Agora é o trem em direção ao fim da história, ao paraíso social.

No entanto, hoje exalo uma cava depressão, à beira do impeachment de nossa presidenta! Que horror esse golpe!... A direita neoliberal imperialista burguesa, a oligarquia alienada e aliada à mídia conservadora conseguiram destruir nosso grande projeto histórico.

Não viemos para essa piadinha de “democracia representativa”, não; a gente tomou o poder para mudar o Estado.


Em 2010, o presidente seria o Dirceu, mas a direita conseguiu expulsar nosso guerreiro do povo. Que pena... Fomos tão sérios em nosso projeto, fizemos tudo certo, sempre seguimos a “linha justa”, sempre soubemos usar os meios para nossos fins. Os inimigos dizem que os fins não justificam os meios, mas nós – vamos botar a bola no chão, amigo leitor –, nós somos pessoas especiais, superiores mesmo à estupidez geral das classes médias, essa gente horrenda, burra, que deveria ser apunhalada ou enterrada viva, como bem disseram dois professores de São Paulo e Rio. Fins justificam meios, sim. Por exemplo, dizem que roubamos, mas nunca usamos essa palavra. Sim, “desapropriamos” empresas burguesas para montar nosso pecúlio para o socialismo bolivariano.

Alguns neoliberais dirão: “E a Petrobras?”. Muito simples. A Petrobras é uma empresa do povo brasileiro, e seu capital pode ser usado para o bem do mesmo povo. Foi tudo dentro de um projeto progressista.
Por exemplo, qual o problema de comprar a refinaria de Pasadena, no Texas (apelidada de “lata-velha”, rs, rs) por um preço 30 vezes maior do que ela valia? US$ 800 milhões não foram desviados por acaso; nossa presidenta fez olhos de cabra-cega para o memorando do Cerveró porque essa grana seria para vencermos a luta entre opressores e oprimidos. Só a luta de classes nos explica.

Agora, está na moda uma visão crítica do patrimonialismo brasileiro, invenção daqueles revisionistas Sérgio Buarque e Gilberto Freire. Quiseram explicar o Brasil por complexidades sociais e psicológicas. Mas onde está a opressão, a injustiça que tanto gostamos de lembrar e de sofrer? Eles já estão sendo denunciados por nossos intelectuais. Criticar a injustiça nos enobrece.

Vejam aquela festa de abertura das Olimpíadas, por exemplo. Foi uma coisa sórdida embelezar nossa vida, sob aquela ladainha política de “país tropical”, abençoado por Deus.

O show uniu a favela e o asfalto, numa falsa conciliação multicultural, mas no fundo para silenciar nossas contradições e a violência dos conflitos. Dizem que foi belíssima a apresentação para 3 bilhões de pessoas no planeta, mas não me deixo enganar: a beleza pode ser reacionária. Foi um show de direita, para uma Olimpíada reacionária.

Não vi nenhum jogo, a não ser da Venezuela e Coreia do Norte, bastiões de defesa contra o imperialismo norte-americano, que será destruído. Os sinais estão no ar.

Acho até bom que o Trump seja eleito presidente dos Estados Unidos – aí fode tudo logo e arrasa aqueles gringos, responsáveis por nossa desgraça. O próprio Estado Islâmico é culpa dos norte-americanos; são a consequência do imperialismo na Ásia.

Ouso dizer mesmo que todo o desmanche que aconteceu com o Brasil teve um lado, digamos, “progressista”. Desorganizou a oligarquia capitalista, uma coisa que é sempre boa. Temos de avacalhar o capitalismo, mesmo sem ter o que botar no lugar.

Fizemos muito pelo povo, mas agora fomos barrados pela direita mais sórdida: os fascistas que só pensam em equilibrar as contas do país. Mas que contas? Estávamos no poder e resolvemos distribuir grana para o povo porque o apoio popular era mais importante que uma contabilidade certinha de armazém. Chávez quebrou a Venezuela, mas, como um passarinho no ouvido do Maduro, detém o poder com ajuda de juízes e militares dominados.

Talvez nosso maior erro, como disse brilhantemente a direção do PT, tenha sido não termos nos aproximado mais dos militares. Fico olhando o povo. É minha única delícia ainda. Amo sua ignorância, sua simplicidade, sua obediência fácil. Sou um homem bom. E hoje minha consciência está tranquila. Sempre lutei pelo povo, mas sobretudo por minha própria boa consciência. A pobreza seria nossa bússola para salvar a sociedade. Um grande Estado regulando tudo e nosso povo pobre, mesmo analfabeto, mas todo arrumadinho, regido por um Comitê Central esclarecido.

Claro que minha vida pessoal melhorou com algumas sobras de campanha, caixas 2 etc. Menti sobre isso, sim, mas o que tem mentir? São mentiras revolucionárias. Mas estou muito triste porque esse sonho ficou impossível. Eles, os neoliberais, os cães capitalistas, desfizeram todas as nossas grandes obras. A vida social hoje é um caos, sem a tranquilidade do ritmo socialista de viver. Chego a ter inveja da vida arrumadinha da Coreia do Norte. Não aceito a vida como ela é hoje no Ocidente. O presente não presta; só existe o futuro. O certo está no avesso de tudo. A vida é de direita.

O golpe da ideologia

Do ponto de vista do marketing, faz todo o sentido a narrativa de que o impeachment da presidente Dilma seria um golpe. Com essa interpretação, o PT ganha fôlego ao jogar sobre o novo governo a responsabilidade por todos os problemas que os governos Lula-Dilma criaram nos últimos anos, ficando livre para lembrar as boas políticas que fez e tendo a bandeira da vitimização.

Tanto no caso de Dilma, quanto de Collor, o impeachment é uma violência constitucional e pode-se duvidar se os crimes identificados seriam suficientes para justificar a destituição de presidentes eleitos. No caso de Collor, o crime teria sido enriquecimento ilícito, sem crime de responsabilidade contra a Constituição; e mesmo desse crime comum, não de responsabilidade, ele foi posteriormente inocentado pelo STF.


No caso de Dilma, o uso de banco estatal para financiar programas do governo e a assinatura de decretos orçamentários sem autorização do Congresso são crimes de responsabilidade que ferem a Constituição. Mesmo assim, faz sentido duvidar se essas ilegalidades seriam suficientes para sua destituição. Incomoda a falta de dosimetria para a sentença.

Mas o que não pode ser aceito racionalmente é a falsa narrativa de que as pessoas se dividem em direita, se querem o impeachment, e esquerda, se defendem a volta da presidente Dilma. Nada mais falso. Ser de esquerda significa: em primeiro lugar, sentir inconformismo com a realidade social, política, econômica e ética do país; em segundo, ter expectativa de que é possível um mundo melhor, alguma forma de utopia; e terceiro, que este mundo melhor não ocorrerá naturalmente, por regras de mercado. Ele só será construído pela prática política progressista ou revolucionária.

É certo que muitos dos que defendem o impeachment são notórios conservadores, saídos do próprio bloco de apoio à presidente Dilma. Mas aqueles que se opõem ao impeachment são em geral acomodados politicamente em relação ao presente, comemoram pequenas conquistas sociais, perderam a capacidade de sonhar uma sociedade utópica, como, por exemplo, os filhos dos pobres estudarem em escolas tão boas quanto às dos ricos, e abriram mão do vigor transformador da sociedade. Além disso, ficaram coniventes com a ideia de que se todos roubam, não há porque exigir honestidade dos aliados. Ainda mais, olham pelo espelho retrovisor da história, sem perceberem que a realidade mudou e que as propostas e os processos políticos precisam levar em conta as mudanças.

A esquerda do retrovisor não percebe, por exemplo, que o aumento na esperança de vida e o esgotamento fiscal do Estado exigem reformas nos fundamentos do sistema previdenciário; que a globalização apresenta limites à autonomia das decisões nacionais; que a revolução científica e tecnológica, junto com a informática e a robótica, exige um aperfeiçoamento das leis trabalhistas. Não percebe que a economia tem limites fiscais e ecológicos; que o estatismo muitas vezes se divorcia do interesse público, do povo; que a democracia com liberdades plenas deve ser um compromisso absoluto, inegociável, e que a política de esquerda não pode ser feita com a arrogância de donos da verdade, nem pode tolerar corrupção, ou aceitar que os fins justificam os meios.

Com um mínimo de seriedade, não é possível dividir as posições sobre esse impasse como um debate entre esquerda e direita: há muitos direitas entre os que defendem o impeachment, mas também muitos esquerdas do retrovisor entre aqueles que se opõem ao impeachment, porque não querem fazer a história avançar. Mas, sobretudo, há muitos de esquerda que olham para frente, pelo para-brisa e consideram necessário o impeachment para virar a página e avançar em direção a um novo tempo.

Não é difícil entender que a volta da presidente Dilma seria um gesto de retrovisor e não de avanço; e que sua substituição pelo vice conservador que ela escolheu, desde que seguindo os ritos constitucionais, possa possibilitar uma travessia para que a esquerda do para-brisa entenda as mudanças, se sintonize com o futuro e leve adiante a luta que os acomodados não fizeram nem farão. E que tentam impedir o impeachment com o golpe da ideologia, sabendo das dificuldades políticas, econômicas, sociais, éticas que este acomodamento conservador da esquerda retrovisor provocaria.

O 'trouxa' e a 'inocenta'

Ela se considera vítima do próprio partido e da oposição, traída pelos aliados e até hoje perseguida pelos assassinos e torturadores da ditadura acabada 31 anos atrás. Ele se acha “trouxa”, otário, simplório, fácil de ser enganado.

Foi dessa forma que a ex-presidente Dilma Rousseff e o pecuarista José Carlos Bumlai se apresentaram nos últimos dias.

Dilma, em defesa prévia, culpou o PT por “responsabilidade” no pagamento ilícito de US$ 4,5 milhões aos publicitários João Santana e Mônica Moura para saldar dívidas da sua campanha presidencial de 2010.


O dinheiro teve origem em propinas cobradas pelo ex-secretário de Finanças do PT João Vaccari sobre os contratos da Petrobras com o um estaleiro de Cingapura, Keppel Fels — contou no tribunal o engenheiro Zwi Skornicki, intermediário de repasses mensais de US$ 500 mil para Santana, via Suíça, entre setembro de 2013 e outubro de 2014, quando Dilma foi reeleita.

Era um segredo das campanhas presidenciais de 2010 e 2014: “Achava que isso poderia prejudicar profundamente a presidente Dilma”, disse Santana, em juízo, ao explicar por que não contara antes. “Eu que ajudei, de certa maneira, a eleição dela, não seria a pessoa que iria destruir a presidente. Nessa época (da sua prisão, em fevereiro deste ano), já se iniciava um processo de impeachment”.

Há mais coisas ocultas. Envolvem o fluxo de dinheiro da Odebrecht para campanhas de Dilma, Lula e outros do PT. Ficaram reservadas à colaboração premiada cujo desfecho talvez coincida com o impeachment no Senado.

Nesse outro processo, a “presidenta inocenta” — segundo o golpismo gramatical da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) — apresentou sexta-feira uma defesa de 675 páginas. Nela se definiu como vítima de uma “farsa” marcada pelo “desvio de poder, pela traição, pela desonestidade e pela ilegalidade”. Amaldiçoou quem discorda: “Nunca poderão afastar das suas mentes a lembrança dos que morreram e foram torturados.”

Se confirmado o epílogo, Dilma estará fora do baralho, inelegível aos 68 anos de idade. E, sem imunidade, passa ao centro das investigações sobre corrupção na Petrobras. Isso porque os publicitários confirmaram seu aval para operações ilegais com fornecedores da estatal.

Como Dilma, o pecuarista Bumlai também culpa o PT por suas dores. Apresentou uma defesa em 70 páginas na sexta-feira. Delas emerge como o “amigo de Lula” que aos 72 anos coleciona doenças, carros (23) e imóveis (23) — entre eles, uma fazenda de R$ 90,4 milhões. Bumlai se define, literalmente, como “um trouxa usado pelo PT e pelo Banco Schahin” na lavagem de R$ 12 milhões.

Esse dinheiro teria sido usado, em parte, para pagamento de uma suposta chantagem sobre Lula, quando era presidente da República. O objetivo era evitar revelações sobre o sequestro, a tortura e o assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel, no ano eleitoral de 2002. A vítima teria descoberto desvio dos cofres municipais para o caixa do PT.

O caso permaneceu à sombra por 14 anos. Ressurgiu no juízo de Curitiba pela voz de Bumlai, agora no improvável papel de “trouxa” — confissão que lhe abriu o caminho para um acordo de delação premiada.

José Casado

Imagem do Dia

Becky Cloonan

Só sobrou a fúria

A platinada exibiu neste domingo de madrugada um “desenho desanimado” genuinamente brasileiro. É um longa lançado há pouco tempo, no auge da ditadura do proletariado possível, instalada por aqui por aquela fraude chamada PT.

Eu tinha um professor acometido de um tipo de paralisia que lhe tirou os movimentos das rótulas dos joelhos. Tal deficiência não o impedia de fazer qualquer coisa na vida – exceto se abaixar para pegar alguma coisa – e não causava qualquer comoção ou constrangimento, mas era evidentemente engraçada de experimentar, com seus passinhos duros de RoboCop e a necessidade de afrouxar os parafusos de uma prótese para o cara “parecer sentado” enquanto lecionava.

Lembrei dele porque o resultado é semelhante. De “animação” a coisa passa longe: tecnicamente, é uma sucessão de “ilustrações movimentadas” semelhantes as dos desenhos do Hulk dos anos sessenta. A limitação técnica empurrada para o público como “linguagem” só não é uma fraude pior que o próprio roteiro e o argumento. É aí que mora a sacanagem propriamente dita.

Os recursos técnicos de hoje acabam permitindo que coisas primitivas e sem fundamentos se mimetizem naquilo que não são, como os discursos de Dilma do Chefe, o partido dos trabalhadores que não trabalham, os cultos nas igrejas fast food da fé e a bancada da chupeta. São fraudes, brandindo a máxima de que eles também detém o direito de terem um lugar ao sol na confraria, sem pagar pelo assento.

As citações aos filmes que o autor viu – Blade Runner, Minority Report, Forrest Gump, Highlander, The Day After, Matrix, entre tantos – são escancaradas tentativas de revestir com um verniz tecnológico uma cartilha vagabunda de curso primário, onde uma improvável dupla de Ceci e Peri com deslavada orientação de esquerda trafegam enfadonhos pelo roteiro que mistura balaiada, militarismo e canibalismo tupinambá.

Isso só para ressaltar um heroísmo discutível frente “ao sistema opressor e injusto” que os obriga a tornar-se assaltantes de bancos para promoverem “uma retomada” do dinheiro que eles fingem que lhes pertence. E a “atriz principal”, até bem pouco tempo, era protagonista de anúncios da “Nossa Caixa”. Uma salada.

O velho de 600 anos tentando encontrar três mulheres que são uma só é um caso a parte no romantismo pilantra do projeto. É o “amor de aparelho”, no jargão da macacada que não comia ninguém na época, mas fazia um barulho danado para chamar a atenção de suas vítimas, como seus colegas símios fazem na jaula, quando confinados.

Confesso que de “amor” e “fúria” só sobrou esta última, depois de ter engolido o filme inteiro sem maionese nem salgadinhos. Impressionante saber que uma aberração audiovisual como esta – como outras tantas outras “obras” paridas do mesmo jeito – teve o apoio improvável do nosso próprio dinheiro para se concretizar contra nós mesmos, pagantes de toda sorte de impostos indecorosos,

Essa é a fraude. Usando o jargão do Bernardinho do vôlei, eu diria que é o dá pra jogar sem atentar para os fundamentos. Tal como andar sem joelhos, a coisa fica esquisita. Animação sem animadores parece que é, mas passa longe.

Indo aonde?

O Brasil está crescendo em que direção? Para onde? Para ser celeiro do mundo ou para ser uma pátria sem fome? O Brasil está dando prioridade para quê? Para que cada família tenha um poder de compra mínimo para sua dignidade? Isso significa gerar empregos para os brasileiros. Eu não sei qual é a prioridade do crescimento brasileiro pelo simples fato de que ele não está explicitado 
Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES

A carta de Dilma

Cabeçalho: Brasília, (__) de agosto de 2016. Destinatário: Ao Povo Brasileiro. "Desculpem qualquer coisa. Sei que estou sendo afastada pelo conjunto da obra e de minha teimosia, que acabaram desenhando os acontecimentos que vivemos. Grata pela compreensão, e um pedido: não gostaria que se associasse isso tudo ao fato de eu ser mulher. Não tem nada a ver. Apenas me uni a um projeto de poder político que se mostrou patético e falido". Assinado, Dilma.

Pronto, estava dito.

Mas não. Quer porque quer causar. Sair batendo o pé. Agora a coisa está piorando e a tal missiva ameaça até ser uma espécie de carta-testamento, tipo a de Getúlio Vargas - sem o suicídio, esperamos, claro, que ninguém quer sangue. Dá para acreditar? Mais, a ameaça continua: poderá não ser só uma carta, mas duas! Mais ainda: ameaça listar as lutas da esquerda brasileira que acredita encarnar contra os contrários ao Deus Supremo Lula. Coisa mais antiga, démodé. Fico preocupada se ela não vai acabar fazendo logo um livro capa tão dura quanto sua cintura. Novela a história toda já virou. Toques venezuelanos emocionantes.

Mártir de si mesma, a presidente afastada sugere que não viu que foi quem montou o jogo que perdeu, o mundo se desmoronando à sua frente em erosão constante, promessas e mentiras desmascaradas. Que não ouviu os primeiros berros à sua porta em junho de 2013. Não admite que a cada passo que se revela da mangueira de sucção instalada na Petrobras vem à tona sua cegueira, incompetência de gestão. Ou, o que tem hora que até eu acredito, que foi feita de otária - e o que deve ser duro para a valenta admitir - as coisas correram ali nas suas barbas. Barbas, não, melenas caprichosamente cultivadas na sua visível transformação nos últimos anos.

O mesmo com relação ao partido, o PT e seus radicais livres, muitos que inclusive agora não mais o são, e estão ou foram presos, com o quais ela nunca pareceu ter afinidade mesmo, mas fazer o quê? Vivem ranhetando entre si. Mas poste não tem vez, nem voz. O problema maior é que caiu a lâmpada que iluminava o poste e o fazia imprescindível.

Igual soluço, a palavra golpe está até cansada de tanto senta e levanta, de tanto que entrou e saiu dessa tal carta que já marcou várias datas para nascer de cesariana, e deu para trás até agora em todas. Parto difícil, alto risco.

Outro dia dessa semana, pelo que se deu a entender, Lula foi até Brasília para conhecer a tal pecinha. Vocês conhecem o Lula? Conseguem imaginar o que é que ele realmente pensa dessa ideia de escrever cartinha, como deve se referir com desdém, o que será que acha? Do papelzinho? O intuitivo Lula deve achar uma papagaiada, entre outros termos menos airosos.

Fora que pelo que se ouve por aí, na tal epístola ela quer - e se voltar, garante que o fará - chamar o povo - esse arrepiante coletivo - para opinar em plebiscito. Um eufemismo para admitir sua própria derrota.

Não quero ser chata, tinha até pensado em ajudar a escrever uma minuta completa para abreviar a angústia que essa carta, ao fim e ao cabo a nós endereçada, deve causar a Dilma. Será que ela levanta de madrugada pensando nela? Será que é ela mesma que a está escrevendo sentada em sua penteadeira, com caneta bico de pena (imagem romântica)? Qual a cor da tinta? Ou escreverá a lápis, apagando detalhes com borracha cheirosa? Usará branquinho?

Se perde pensativa, desenha casinhas no papel? Escreve os palavrões que pensa? Ou teclará catando milho palavra por palavra? Tira cópias? Parece a carta mais vazada e aberta do mundo, mais que obra de Umberto Eco. Imprime para ler? Destrói no triturador as partes que despreza? Deixa guardada em um pendrive que mantém junto a si, amarrado em uma corda no pescoço?

Escreveu não leu, o pau comeu.

Marli Gonçalves

A nação sobreviverá à decadência do Estado?

NAÇÃO é um conjunto de indivíduos que normalmente falam a mesma língua, habitam o mesmo território, possuem passado, cultura e costumes comuns, assim como um mesmo objetivo e, acima de tudo, dispõem da vontade de continuar juntos. ESTADO existe quando uma nação se organiza politicamente, adotando instituições capazes de gerir e ordenar a nação. GOVERNO é o grupo de cidadãos que, pela força ou pelo consenso, dirigem o estado. PAÍS é o território de uma nação. PÁTRIA, apenas uma projeção sentimental do conjunto.

Os rótulos, no entanto, não são mandamentos. De vez em quando enrolam-se e se atropelam, misturando-se e confundindo quantos imaginam exprimir a sua exegese uma ciência exata.

Paul Kuczynski
Vale referir que de quando em quando nos deparamos com nações que falam diversas línguas e mantém costumes diferentes, como a Rússia e a China. Existem nações que habitam territórios distintos e separados, como o Paquistão e Bangladesh, ou a Inglaterra e as Ilhas Malvinas, a França e o Suriname. Notam-se até nações sem território, como os judeus durante dois mil anos, antes da criação do estado de Israel. Também surgem nações divididas em dois estados, a exemplo das Coréias do Sul e do Norte e, até pouco, o Vietnã, a República Democrática da Alemanha e a República Federal da Alemanha.

Essas simples e mal alinhadas referências nos conduzem a uma pergunta crucial: será o Brasil uma nação, ou melhor, continuará sendo?

A mesma língua caminha para tornar-se uma ficção, porque um gaúcho posto no Nordeste faz-se entender com dificuldade. Pronúncia, conceitos, cultura e costumes continuam se afastando, apesar dos esforços das novelas da Rede Globo. Claro que existe um sentimento de unidade em todo o território nacional, por ação inicial do colonizador português. No empenho de ganhar dinheiro, os lusitanos realizaram esse milagre, ao tempo em que a América Espanhola fracionou-se em diversos estados e países. O passado, assim, costuma sinalizar as fraquezas de nossa formação, do Bequimão à Confederação do Equador e aos Farrapos até a predominância econômica e política de São Paulo, sem esquecer o sacrifício e a distância do Nordeste.

Tendo em vista a calamitosa situação em que nos encontramos pela existência de dois Brasis, o formal e o real, que não adianta negar, o risco é flagrante. Já que com a evidência de a pátria só aparecer nos desfile militares e de o governo haver perdido a confiança e o respeito, conclui-se que o estado vem sendo posto em frangalhos. E a nação, sobreviverá?

Crise boa

É bom ver como artistas e cronistas apoiadores do poder, durante décadas, agora contorcem a boca e suas palavras se retorcem para inexplicar o fracasso de suas crenças ou conveniências.

A direita era ruim e a esquerda não é melhor, finalmente chegamos ao empate para começar um novo jogo.

Afinal, porque direita ou esquerda se temos dois olhos, duas pernas e dois braços? Ninguém anda só com uma perna ou vê bem só com um olho – e pouco podemos fazer só com uma das mãos.

Não quero me guiar nem por direita nem por esquerda, quero é ver governo funcionando bem e custando pouco.

O movimento para enxugar as câmaras municipais começou em pequenas cidades, mas pode ser o grande sinal de que começamos a enxergar o Mal.

O Mal, senhores padres, pastores, pais, patriotas, cidadãos e irmãos, o Mal é serviços públicos custando tanto e servindo tão pouco, Estado castigando a nação.

Mas que bom: isso gerou a crise em que tanto se purga e tanto se aprende.

A água, por exemplo, começou a ter a atenção que sempre mereceu. Talvez até aprendamos, com a crise, a apagar a luz e acender a mente.

Que seria de nós sem crises? O vento que castiga a planta também espalha suas sementes.

Embora ache (“e quem acha pode se perder”, já ensinou Noel) que o melhor para o Brasil seria Dilma fora, mas também acho que só pela lei. A esta altura, rua deve voltar a servir apenas ao trânsito.

Conforme a Constituição, Temer será o presidente. Se não puder ou não quiser, será Cunha, se ainda for presidente da Câmara, ou então Renan ou, em pela ordem, o presidente do Supremo (artigo 80) Isso, enquanto se organiza nova eleição, pois “vagando os cargos de Presidente e vice-presidente da República, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional” (artigo 81).

Fora da Lei de novo, jamais! Precisamos da Constituição – e de sua renovação – se quisermos continuar em frente.

Enquanto isso, no mundo de quem trabalha e sustenta o Estado, grandes e pequenas empresas crescem e prosperam ou micham e quebram, driblando ou sofrendo a crise, que bom.

A Crise é um jogo, e pode apostar que vai render melhoramentos para a Civilização, time do meu coração.

Com a Crise, veja que bom, a arrogância entra em crise e a criatividade se atiça!

Quem dança com a nova música, cresce; quem não cresce, dança com qualquer música.

As crises derrubam, elevam, incubam, cevam, amadurecem, a felicidade das crises é mexer com o mundo, senão apodrece!

E só a Crise ensina direitinho que numa república temos de ter direitos e também deveres.

Não vamos sair da crise maiores, mas melhores com certeza. Então vivamos a crise!

Domingos Pellegrini

Volta ao mundo em 50 escolas inovadoras

A criança que foi Alfredo Hernando não se parece em nada com o aluno que ele mesmo encontrou, infalivelmente, em todas as escolas que viu. Em seu primeiro dia de aula, com dois anos, foi levado a um pátio onde apenas conseguia ver três grandes muros e um enorme bueiro que era apenas três palmos menor que ele. “Mas o que é isso? Como podem nos trazer aqui?”, lembra-se que pensou. Aquele outro aluno, que sempre encontra, nem repara no recreio. “Me chamou muito a atenção. Em uma escola, em outra, em outra... sempre há alunos que ficam na sala de aula e não fazem distinção entre tempo livre e aula”, explica.

Hernando, de 34 anos, é um pesquisador que deu a volta ao mundo visitando escolas com projetos inovadores, centros onde professores sozinhos, com as famílias ou com o apoio de seus governos conseguiram ensinar e estimular seus alunos. Durante quase um ano – com alguma pausa – este psicólogo de Aranda de Duero (Burgos) andou por escolas nos Estados Unidos, Colômbia, Peru, Chile, Brasil, Gana, Indonésia, Bangladesh, Japão, Itália, Finlândia, Espanha... Tudo começou, recorda, “como surgem esse tipo de projetos que unem o vital com o profissional”.

Enquanto estudava psicologia pensou que estava mais interessado na educação do que em montar uma clínica. Também suas viagens tinham outro tom vital. Em vez de um mapa de monumentos e montanhas, Hernando fez um das escolas inovadoras que queria visitar. “A primeira semana que passei em Nova York ia todas as manhãs às oito ver uma escola. E no sábado, eu me perguntava: Mas o que estou fazendo?”, lembra ele com uma risada.

Aproveitou congressos e férias para visitar por conta própria todos os selecionados. Ele as chama de Escuelas21 e estão registradas em um livro recém publicado com a Fundação Telefônica, Viaje a la escuela del siglo XXI. Así trabajan los colégios más inovadores del mundo (Viagem à escola do século XXI. Assim trabalham as escolas mais inovadoras do mundo), que apresentou em Madri na última quarta-feira e, no dia seguinte, em Barcelona. O documento, que pode ser baixado gratuitamente na internet e já teve mais de 25.000 downloads, é um manual para transformar as escolas e “ajudar para que todos os alunos tenham sucesso”, promete Hernando.

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Em seu livro registra a experiência de escolas espanholas como o centro de formação de Padre Piquer de Madri, que usa classes cooperativas, onde professores e alunos trabalham juntos. Ou o colégio Montserrat de Barcelona, que aplica a teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner, entre outras inovações. É com ele que Hernando ficaria se tivesse que escolher apenas um de todos que visitou.

Se a questão fosse apontar um único professor de todos que conheceu, escolheria Morten Smith-Hansen, professor de Espanhol e História no centro Ørestad Gymnasium de Copenhague. Smith-Hansen, que veio a Madri para a apresentação do livro, explica como trabalha. “Tenho uma classe com 28 crianças, de filhos de imigrantes desempregados a alunos com famílias de muitos recursos. E tudo que há entre os dois. Não faz sentido que eu fique na lousa divulgando uma verdade acadêmica que é para três pessoas”. A solução que encontrou foi se tornar uma espécie de professor particular para cada um de seus alunos com a ajuda das novas tecnologias. Para ensinar gramática, por exemplo, cada aluno deve abrir um documento na nuvem (um texto compartilhado na rede ao qual diferentes usuários podem ter acesso). Ali contam o que sabem de gramática, ele responde, abre-se um diálogo e ele consegue que cada um melhore sobre sua própria base.

É fácil mudar uma escola? Hernando acha que sim. “Há muitas escolas com muita vontade de fazer coisas e que abrem suas portas. Os professores se sentem atraídos por outros que têm sucesso com seus alunos. Aqueles que estão criando a mudança na Espanha são professores que estão interessados. Muitas pessoas já perceberam que precisamos de outra escola. Esse é o primeiro passo. A segunda é saber como queremos que ela seja e isso não se para”, explica. E conclui com um sorriso: “A educação está na moda”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Fernando de noronha eleicao 4 em 4 anos mudanca carro malas voto prefeito

Vira-latas que mordem

Não que seja surpresa. Ou novidade. Mas olhar as próprias mazelas é sempre traumático. Talvez seja por isso que a gente tente não ver. Ou mesmo finja não ver. Mas com tantas câmeras, tanta atenção, fica difícil evitar. Impossível, até. E a gente vai se descobrindo. Ou melhor, descobrindo o que a gente é.

Somos gente que gosta de festa. Jamais houve duvida. Basta juntar gente, ter uma musiquinha que aparece a festa com sorrisos e (pelo menos aparente) alegria. E ninguém anima festa como nós. Vitimas de déficit de atenção, temos a capacidade de entregar o corpo e a alma à festa, esquecendo problemas, ignorando falhas, perdoando fracassos. Especialmente os próprios.

Talvez até a gente seja ou se considere vira-latas. Vira-latas por vezes adoráveis, diga-se. Mas nosso complexo de vira-latas não parece ser a crença na própria incapacidade. Se fosse assim, não prometeríamos tantos resultados, não estabeleceríamos metas ambiciosas. E não teríamos que arranjar desculpas para não tê-las atingido.

A estratégia verde-amarelo sempre foi prometer muito, entregar pouco, e ficar grato que o mínimo, ainda que imperfeito, foi feito. E declaramos vitória. Sempre. Afinal, critica, só valem se forem a favor. Nossos vira-latas são arrogantes. Não erram jamais.

Problemas, a gente nega. Ou pelo menos tenta esconder. Inventa mitos, historias, e lendas que justificam o inexplicável. E acreditamos nelas. Até o fim. Crer nas próprias enganações é coisa é qualidade indispensável a bons vira-latas.

A gente se acostumou com tudo. Violência falta de qualidade de vida, injustiça. E fica chocado, indignado, magoado quando outros povos se recusam a aceitar aquilo com o que a gente se acostumou. Vira-lata que se preze aguenta tudo e ignora os problemas.

Injustiça parece ser parte do nosso jeito de ser, incorporada ao modo de viver. Por isso nos damos o direito de agredir mesmo sem motivo justificado. Apesar de nos acharmos simpáticos, dóceis e pacíficos, somos arrogantes, xenófobos, agressivos.

Sonhamos com o topo, fracassamos nos objetivos, e culpamos aqueles que tentaram. Que o digam os atletas com os quais nos desapontamos, justa ou injustamente. O mesmo país que fez quase nada por eles aplaude somente quando e se, apesar de tudo, eles logrem sucesso.

Nada menos que isso é perdoado. Tropeços, fracassos e percalços não recebem incentivo, reconhecimento ou apoio. São razoes para condenação ao ostracismo, humilhações, agressões. Somos ingratos ao limite. E muitas vezes além dele.

Nossos vira-latas são agressivos. E mordem. Muito.

Obras nossas

Está garantido que vai errar, sempre, quem disser que “o grande problema do Brasil” é este ou aquele, por mais tenebroso que seja. O Brasil, sendo o Brasil, não trabalha com essa mercadoria – “o grande problema”. Não há por aqui a possibilidade prática de separar uma calamidade bem definida ou mesmo duas, três ou meia dúzia que consigam ficar claramente acima de todas as demais em matéria de perversidade em estado puro. São tantas, e de índole tão ruim, que nossos melhores esforços para escolher uma prioridade capaz de inserir o Brasil no mundo desenvolvido, caso existissem, dariam bem pouco resultado no mundo das coisas reais. Bons tempos os da saúva, por exemplo, que nos fazia a gentileza de oferecer a qualquer momento a explicação comprovada para tudo o que dava errado neste país. Na verdade, era tão simples eleger na época “o grande problema” nacional que praticamente ninguém tinha dúvida: ou o Brasil acabava com a saúva, ou a saúva acabava com o Brasil. Vá tentar alguém, hoje em dia, dizer alguma coisa parecida. Só conseguirá produzir ruído de motor que não pega – e deixar todo mundo com a certeza de que falou bobagem. Melhor ficar quieto, e dar a impressão de que você não tem preparo para falar de assuntos sérios, do que abrir a boca e eliminar as dúvidas a respeito, como nos aconselhava Mark Twain.


Em certos momentos, porém, um desses “grandes problemas” que impedem o Brasil de ir adiante como deveria é exposto de maneira realmente espetacular, em plena luz do meio-dia – e em tais momentos é apenas lógico, além de humano, que a calamidade exibida na frente de todos chame mais atenção que quaisquer outras. É o caso, justo agora, da Olimpíada do Rio de Janeiro, que joga para o primeiro plano o problema fatal que o Brasil tem com as suas obras públicas. É de fato um fenômeno: fora as aberrações que acontecem nos países mais desgraçados do mundo, não há nada parecido com as misérias das obras públicas brasileiras. Quase nunca ficam prontas no prazo, com a qualidade e no preço que foram escritos no contrato – ou, pior ainda, como ocorre com alta frequência, não ficam prontas nunca. Há as que não podem ser usadas depois de entregues. Há as que simplesmente desabam; o Brasil deve ser um dos campeões mundiais em matéria de viadutos, pontes ou ciclovias elevadas que vêm abaixo de uma hora para outra. Há as que não servem para nada, como hospitais sem equipamento, açudes sem água ou museus para a recepção de extraterrestres. Todas produzem rigorosas investigações que não impedem que tudo continue igual na obra seguinte. São nossas obras. São obras nossas.

A Olimpíada do Rio, naturalmente, é uma celebração. Uma vez em andamento, o foco se concentra na magia do esporte – o público está mais interessado em Usain Bolt do que no prefeito Eduardo Paes, quer ver medalhas de ouro para os atletas brasileiros em vez de discutir os encanamentos da Vila Olímpica. Além disso, a cidade ganhou com os Jogos, de forma indiscutível, melhorias que enriquecem os seus extraordinários encantos, desde que não sejam abandonadas logo após o fim dos Jogos. Mas o fato é que o Brasil mostrou mais uma vez, diante do mundo inteiro, o relacionamento doentio que existe entre governos, construtoras de obras, bancos estatais, políticos, partidos e mais um monte de gente com carteirinha de autoridade na hora de construir qualquer obra pública – nada, simplesmente nada, é normal quando eles se juntam. É como se todos trocassem de personalidade. Quando uma empresa privada contrata uma empreiteira para a construção de um galpão com tantos metros quadrados de área e com tais ou quais itens de acabamento, vai receber exatamente o que contratou, não vai ter de pagar mais do que o combinado e receberá a obra pronta no dia previsto. Quando a mesma empreiteira faz uma obra para o poder público, tudo fica diferente – o poder público aceita qualquer absurdo em matéria de atraso, estouro no orçamento, qualidade da construção e por aí vai. É claro: o governo não paga nada, nunca, porque nada produz. Quem paga é o contribuinte de impostos, a quem não se permite um minuto de atraso na hora de pagar, e quem paga mais são justamente aqueles a quem o dinheiro faz mais falta.

A Olimpíada chegou no exato momento em que os processos de Curitiba expõem a corrupção e a inépcia sem freio que marcaram nos últimos treze anos de governo a contratação de obras e a compra de equipamentos públicos no Brasil. Ninguém, pelo jeito, aprendeu nada.

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The Amazing Surreal Art by Vladimir Kush | Draw As A Maniac:
Vladimir Kush

Os burros também amam

Não sei se os leitores aqui presentes se dão conta de que isto que é denunciado pelo J. R. Guzzo em seu primoroso artigo já se transformou numa filosofia de vida. Uma mentalidade. Um hábito, terrivelmente arraigado em nossa sociedade produtiva e que só tem sentido por conta de um Estado elefântico inoportunamente enfiado em nossos ombros combalidos.

O leitor pensou que seria em outro lugar, não é mesmo? Também serve. O fato é que é meio difícil – mas não impossível – imputar exclusivamente aos petistas e suas sanhas pilantras a culpa por todas as nossas mazelas, mas o fato é que o PT é uma espécie de “versão 2.0″ de uma prática que já vinha sendo adotada, tolerada e acobertada em toda a esfera pública.

Conjugou-se apenas a burrice crônica com a esperteza calhorda para termos por aqui toda sorte de bucaneiro e vigarista se candidatando a cargos públicos. Notem que as seitas pilantras proliferaram em todos os setores onde se criam dificuldades para vender facilidades, nestas terras que tudo engole e tudo aceita.

Da orgia nas contas públicas municipaisao indecoroso bordel das empreiteiras e afins, o que vemos pode não ser uma “conspiração mundial” ou um projeto hegemônico, mas tem cheiro, cor e cara de uma deformidade de caráter muito em evidência nos dias de hoje, em todas as sociedades. Creio que a esquerda, como as novíssimas religiões dos fast food da fé, atendem uma demanda por soluções rápidas – e erradas – para a “inclusão da marginalidade”.

É uma forma de nos fazer acreditar que existe salário sem trabalho, função sem ação e cargo sem mérito que sobrevivam ao linchamento moral decorrente da absoluta incompetência com que esses agentes assumem seus postos e “imaginam uma política”; qualquer uma, ancorada em suas convicções tortas, crendices crônicas e falta de conhecimento mesmo, que resultam em presidentes analfabetos funcionais, ministros pornográficos, juízes lenientes, confrades e políticos com uma pobreza cristalizada em suas inúteis carreiras públicas.

Não sei se o mundo vai sobreviver a essas hordas de bandidos que exigem um lugar ao sol em nossa esteira. Não sei se terá tempo de desanimalizar seus instintos mais primitivos. Não sei se o produto do roubo generalizado produzirá uma patrulha que finalmente vai livrar a coisa pública dessa deformidade, mas o fato é que não gosto nem de lembrar na mão de quem repousam os principais governos estaduais.

O governo federal se incumbiu de roubar a Copa e a Olimpíada com suas respectivas obras superfaturadas, mas esses “viadutos” com data marcada pra cair são esmagadoramente da cota da tal “oposição” encastelada nos Estados. Aquela mesmo que todo mundo aqui celebra como a salvação da nossa lavoura, carcomida pelas mesmas pragas que infestam a cabeça oca da petralhada. Dar o direito dessa gente continuar a cacarejar é que é o problema, meus caros.

Ao contrário dos extremistas, não quero a volta da censura ou do militarismo. Mas acho que temos o direito ao nosso próprio palanque, para denunciar todos os dias essas fraudes travestidas de políticos e administradores, até que sejam expurgados da vida pública como se espreme um furúnculo. Os burros também amam. Educados, então, seria a glória. De pires.

Ideologia tornou-se uma ideia fora de moda, porém cada vez mais necessária

Embora se trate de uma discussão ultrapassada, antiga e arcaica, sempre desperta interesse a troca de ideias sobre direita e esquerda, capitalismo e comunismo etc. Todavia, enquanto pessoas altamente intelectualizadas perdem tempo e consomem neurônios nesse tipo antiquado de debate, a humanidade permanece em situação degradante. A maioria das nações continua vivendo em condições medievais, a metade dos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta ainda estão em abandono, com dificuldades de sobrevivência.

Não há a menor dúvida de que nas últimas décadas o capitalismo teve uma evolução extraordinária, mas falta muito para que haja justiça social e oportunidades iguais. Por isso, é inaceitável que ainda haja quem continue a desconhecer os males do neoliberalismo, que é apenas o mais novo codinome do velho capitalismo.


Lembro que, na década de 80, quando o Brasil discutia uma nova Constituição, eu costumava ir com frequência ao gabinete do então deputado Delfim Netto, para entrevistá-lo e trocar ideias. E fiquei espantado, esperava que ele se comportasse como um ardoroso defensor do neoliberalismo, mas isso aconteceu. O ex-ministro não aceitava integralmente as então famosas regras do Consenso de Washington e dizia que o Estado precisava ser forte, como no Japão, para poder intervir e regular o mercado, sempre que se fizesse necessário.

Certa vez, provoquei o ex-czar da economia no regime militar, perguntando-lhe sobre o liberalismo radical (denominado “laissez faire”, uma espécie de anarquia econômica à francesa). Ele riu e disse que isso é impossível, porque o mercado não pode ser totalmente livre nem comandar a economia, trata-se de uma utopia irresponsável.

 Pawel Kuczynski

Bem, o professor Delfim Netto faz críticas ao neoliberalismo, mas não é nenhum defensor do comunismo ou do socialismo. Apenas se recusa a defender o capitalismo selvagem que ainda predomina na maioria dos países subdesenvolvidos, até porque esse tipo de regime costuma ser sinônimo de ditadura ou de democracia incipiente e frágil. Delfim Netto tem razão, porque o fato concreto é que o radicalismo político não leva a nada, o equilíbrio sempre está no meio.

Desde os anos 80 eu entendo que as ideologias radicais já acabaram. Escrevi uma série de artigos a esse respeito na Revista Nacional, que na época era o órgão de imprensa de maior circulação no país. Soube que minhas matérias motivaram discussões na Escola Superior de Guerra, uma instituição que permanentemente se interessa pela evolução dos fatos políticos e ideológicos. Na época, eu ironizava a antiga União Soviética, por praticar um falso comunismo, e dizia que, se Marx e Engels ainda estivessem vivos, estariam presos na Sibéria, chupando picolé de gelo.

É por isso que vejo com muita surpresa essa extemporânea discussão entre direita e esquerda, que ainda ocorre com intensidade aqui na Tribuna da Internet. Parece um filme antigo, do tipo “noir”, em preto e branco.

O fato concreto e indiscutível é que, nas últimas décadas, a Humanidade enfim conseguiu esboçar um regime político-administrativo que pode ser visto como mais adequado. Nos países nórdicos, as instituições públicas e privadas convivem em harmonia, a livre iniciativa é respeitada, os três poderes funcionam, a ninguém é dado o direito de enriquecer na política ou na administração pública, não existe abismo entre o menor e o maior salário, essas nações não se deixam dominar pelo sistema financeiro, como ocorre no Brasil e em outros países.

Portanto, o que hoje se deve debater no Brasil é a forma de evoluirmos para atingir o estágio dos países nórdicos, que estão no ápice das estatísticas em termos de qualidade de vida (IDH – Índice de Desenvolvimento Humano), estabilidade econômica, educação pública, assistência médica universal e justiça social. Este é o grande desafio.

É claro que os países nórdicos não atingiram a perfeição. Uma das falhas ainda existentes é a assistência médica de qualidade inferior para quem não possui plano de saúde. Outro problema é a necessidade de universalizar a educação pública, que apenas a Finlândia já superou.

Outros países já caminham nessa direção. O jogador de futebol Raí, quando morou na França, ficou surpreso ao constatar que sua filha estudava na mesma sala onde estava matriculada a filha da empregada da família. Além disso, as duas meninas eram tratadas pelos mesmos médicos, no sistema de saúde francês.

Marx e Engels jamais poderiam imaginar que houvesse essa maravilhosa evolução do sistema capitalista. Infelizmente, porém, esses avanços ainda são um sonho distante para o Brasil, onde se alarga cada vez mais o abismo entre as elites e as classes trabalhadoras, como se fosse possível a riqueza total conviver em paz com a miséria absoluta.

De toda forma, debater capitalismo e comunismo, nos dias de hoje, representa uma tremenda perda de tempo. Devemos discutir apenas o que é certo e o que é errado, sem conotações ideológicas.

Somos todos cobaias

Os mais de 144 milhões de brasileiros aptos a votar em 2 de outubro são protagonistas de um experimento. Suas reivindicações, como a do voto facultativo, registrada como prioritária no canal aberto pela Câmara dos Deputados, nem mesmo foram debatidas, quanto mais votadas.
Tem-se um modelo eleitoral de conveniência que com a proibição da doação privada finge inibir a roubalheira e a doação ilícita. E até gente séria finge acreditar. 
Mary Zaidan

Parem de usar a Rafa, do judô, para fazer poesia vigarista do pobrismo

Se comecei desafinando o coro quando afirmei, antes do início dos jogos, que achava que tudo caminharia bem; se continuei a fazê-lo ao puxar a orelha da torcida durante a apresentação da ginástica de solo masculina, seguirei agora expressando meu repúdio ao espetáculo de poesia intelectualmente vigarista que se seguiu à vitória da judoca Rafaela Silva, primeira medalha de ouro conquistada por um atleta brasileiro nesta Olimpíada.

Rafaela mora em Cidade de Deus, o lendário conjunto habitacional construído no Rio no que deveria ser um processo de desfavelização, mas que acabou, no que esta palavra tem de mais perverso, se favelizando e se tornando um dos redutos do crime organizado. Em carioquês, deve-se chamar o local de “comunidade”.

Bastou a vitória de “Rafa”, como é conhecida, para que todas as ruindades das teses do “pobrismo” viessem à flor dos textos. E se oferece ao distinto público, então, aquela receita indigesta do conformismo de exaltação.

Sem dúvida, essa menina é digna de todos os aplausos. Penso, sim, na sua determinação, na sua entrega, nas muitas dificuldades que teve de enfrentar. Mas eu me nego a chamá-la, como cheguei a ler, de uma “atleta tipicamente brasileira”, como se o nosso “típico”, o sangue que corresse nas nossas veias, fosse feito de sofrimento, renúncia e ascese da superação. As condições em que vive Cidade de Deus devem fazer parte das coisas que nos envergonham. Não servem à patriotada.

“Ah, mas quem disse que há patriotada, Reinaldo?” Há, sim. Eu vi na televisão a garota sendo convidada a cantar os versos mais boçais jamais popularizados no Brasil. Como é mesmo?
“Eu só quero é ser feliz/
Andar tranquilamente na favela em que eu nasci/
E poder me orgulhar/
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”.

Nem vou me ocupar de saber quem escreveu essa bobagem. Que tenha surgido em alguma favela, vá lá. Que isso seja resgatado pela imprensa e oferecido como expressão da brasilidade, eis o que chamo de poesia da perversidade dos integrados.

Não! Não devemos, como projeto de país, “andar tranquilamente na favela”. A favela é uma anomalia, não a normalidade. Diga-se de passagem que “andar tranquilamente” sempre foi uma referência crítica à Polícia, não ao narcotráfico.

E, obviamente, uma cultura em que “o pobre tem seu lugar” confirma o lugar da pobreza como um estamento. Eu, que não sou de esquerda; eu, que não faço demagogia do “pobrismo”; eu, que sou um liberal, eu não acho “que o pobre tem deu lugar”. Eu só acredito numa sociedade que ofereça condições para que o pobre SAIA DO SEU LUGAR.

Não se ganha uma medalha de ouro do dia para a noite, não é? Suponho que Rafa não tenha alcançado tal feito na base apenas da sorte. Entendo ser ela já uma atleta de ponta. Então pergunto: O QUE FAZ ELA AINDA NA CIDADE DE DEUS? Por que já não está fora de lá?

Eu explico. Porque, de algum modo, moralmente, os bacanas acham que Rafa “só quer andar tranquilamente na favela em que ela nasceu”. Porque, de algum modo, os bacanas acham que Rafa expressa que, neste país, “o pobre tem seu lugar”.

Ah, eu também aplaudo Rafa, mas não a poesia do “pobrismo”; não a ilação imbecil de que sua conquista é tão mais importante porque, afinal, vem temperada com uma história de exclusão e racismo.

Noto, nos textos lacrimosos e encomiásticos que se produzem sobre essa moça, aquele “olhar” sobre o qual já escrevi tantas vezes: é como se os bem-pensantes estivessem diante de um “outro antropológico”.

O mínimo que espero é que as empresas que lucraram muitos milhões com os jogos melhorem agora, e não mais tarde, as condições de vida e moradia de Rafa. Seria bom que não existissem experiências urbanísticas desastrosas como Cidade de Deus. E, no entanto, elas existem.

Mas, por favor, em nome da decência, não convidem as Rafas do Brasil “a andar tranquilamente na favela em que nasceram”, orgulhando-se do fato “de que o pobre tem seu lugar”.

Em vez de cantar essa poesia da miséria, tirem as Rafas das favelas. Livrem as Rafas da pobreza.

E, bem…, havendo tempo, vão estudar um pouco de poesia de qualidade e parem de encharcar a biografia alheia com lágrimas de péssima qualidade.

O Brasil precisa se lembrar de novo que “feio não é bonito”, como a esquerda já cantou um dia…

Bom momento de escolher bem

Não há dia que a imprensa não traga uma notícia de desvio ou mau uso dos recursos públicos no Brasil. Abstraindo-nos da operação Lava Jato, já por demais conhecida, e dos mensalões, o nacional e o regional, – esse último andando a passos de tartaruga no Judiciário mineiro –, a cada dia pode-se tomar conhecimento de superfaturamentos, de compras por meio de fornecedores fantasmas, da imoral contratação de assessores parentes de deputados e vereadores, do pagamento de diárias milionárias a quem não viaja ou viaja sem necessidade, enfim, o que há de pior de práticas sustentadas pelo Orçamento público. Isso num momento em que se alega absoluta falta de receitas para a manutenção do mínimo, especialmente pelas prefeituras, para assim fecharem escolas, postos de saúde, hospitais, creches, parcelarem folhas de vencimentos de servidores ou até mesmo não lhes pagar salários devidos.

Eleições - Antes e Depois:
Uma triste realidade porque, muitas vezes, essa situação decorre da incapacidade dos gestores públicos, eleitos por um povo malformado e, por consequência, desinformado. Noutras circunstâncias, tal quadro associa a incapacidade de gerir e administrar a posturas gritantes de desonestidade e improbidade. Chovem denúncias que movimentam timidamente as Câmaras Municipais, o Ministério Público, os tribunais de contas, as delegacias de polícia, e quase sempre resultam em nada, especialmente porque os prazos de prescrição e preclusão dos atos processuais cerceiam o Judiciário no julgamento e consequente aplicação de penas. Exemplos são prefeituras mais distantes da capital, invariavelmente de cidades que vivem um quadro de miséria, como por exemplo Montalvânia, no nosso extremo norte, onde o prefeito responde por haver pagado a maior pela contratação da banda Chicletes com Banana, que lá se apresentou num dos cinco dias de festejos do aniversário da cidade. Não se sabe o que é pior: se é o denunciado superfaturamento do valor pago ou se é contratar uma banda de música baiana para tocar numa cidade onde se nota um forte quadro de carências e de miséria.

Isso é revoltante. É fazer o povo de idiota, tripudiar sobre o sofrimento de uma população que não tem a quem recorrer ou em quem pedir socorro. Bom momento este em que se avizinham eleições nas quais são candidatos novos ou, muitos, prefeitos em reeleição; vereadores, muitos ineficientes ou acumpliciados com esse quadro de indigência moral. É hora de renovar, de escolher bem, de não permitir que se elejam aqueles que sabemos apenas desejarem pôr nos bolsos o que certamente faltará para o custeio das obrigações genuínas do poder público. A contratação de conjuntos musicais não integra esse rol. É um desrespeito de quem o faz. Superfaturando seu custo, ainda muito pior. Não desperdicemos esse momento que nos permite escolher melhor quem pode, com seu trabalho e honestidade, fazer diferença à vida das nossas cidades, das nossas famílias e à nossa também. Chega de descaso.

Decálogo do papa Francisco para se ter uma vida mais feliz

O Papa Francisco concedeu recentemente uma importante entrevista à revista argentina “Viva”, e entre as respostas deixou aos leitores alguns conselhos para uma vida feliz. Vale a pena conferir esses pensamentos do Papa, que exaltam a simplicidade, a bondade e a lógica como caminhos para uma existência melhor e para aprimorar a vida em comum, em excessos de egoísmo consumismo, que não levam a nada.

1) Viver e deixar viver, primeiro passo para a felicidade
“Aqui os romanos têm um ditado e podemos levá-lo em consideração para explicar a fórmula que diz: ‘Vá em frente e deixe as pessoas irem junto’.” Viva e deixe viver é o primeiro passo da paz e da felicidade.
2) Doar-se aos outros para não deixar o coração dormindo
“Se alguém fica estagnado, corre o risco de ser egoísta. E água parada é a primeira a ser corrompida.”
3) Mover-se com humildade, com benevolência entre as pessoas e as situações
“No romance ‘Dom Segundo Sombra’ há uma coisa muito linda, de alguém que relê a sua vida. Diz que em jovem era uma corrente rochosa que levava tudo à frente; quando adulto, era um rio que andava para frente; na velhice, sentia-se em movimento, mas remansado. Eu utilizaria essa imagem do poeta e romancista Ricardo Guiraldes, este último adjetivo, remansado. A capacidade de se mover com benevolência e humildade, o remanso da vida. Os anciãos têm essa sabedoria, são a memória de um povo. E um povo que não se importa com os mais velhos não tem futuro.”
4) Preservar o tempo livre como uma sadia cultura do ócio
“O consumismo levou-nos a essa ansiedade de perder a sã cultura do ócio, desfrutar a leitura, a arte e as brincadeiras com as crianças. Agora confesso pouco, mas, em Buenos Aires, confessava muito e quando via uma mãe jovem perguntava: Quantos filhos tens? Brincas com os teus filhos? E era uma pergunta que não se esperava, mas eu dizia que brincar com as crianças é a chave, é uma cultura sã. É difícil, os pais vão trabalhar e voltam às vezes quando os filhos já dormem. É difícil, mas há que fazê-lo”.
5) O domingo é para a família
“Um outro dia, em Campobasso (Itália), fui a uma reunião entre o mundo universitário e mundo trabalhador, todos reclamavam que o domingo não era para trabalhar. O domingo é para a família”.
6) Ajudar, de forma criativa, os jovens a conseguirem um emprego digno
Temos de ser criativos com este desafio. Se faltam oportunidades, caem na droga. E é muito elevado o índice de suicídios entre os jovens sem trabalho. Outro dia li, mas não me fio, porque não é um dado científico, que havia 75 milhões de jovens com menos 25 anos desempregados. Não basta lhes dar de comer, há que inventar cursos de um ano de encanador, eletricista, costureiro. A dignidade de levar o pão para casa”.
7) Cuidar da natureza, amar a criação
“Há que cuidar da criação e não estamos fazendo isso. É um dos maiores desafios que temos.”
8) Esquecer-se rapidamente do negativo que afeta a vida
“A necessidade de falar mal de alguém indica uma baixa autoestima. É como dizer: sinto-me tão em baixo que, em vez de subir, rebaixo o outro. Esquecer-se rapidamente do negativo é muito mais saudável”.
9) Respeitar o pensamento dos outros
“Podemos inquietar o outro com o testemunho para que ambos progridam com essa comunicação, mas a pior coisa que se pode fazer é o proselitismo religioso, que paralisa: ‘Eu converso contigo para te convencer’. Não. Cada um dialoga sobre a sua identidade. A Igreja cresce por atração, não por proselitismo”.
10) Buscar a paz é um compromisso
“Vivemos uma época de muitas guerras. Na África, parecem guerras tribais, mas são algo mais. A guerra destrói. E o clamor pela paz é preciso ser gritado. A paz, às vezes, dá a ideia de quietude, mas nunca é quietude, é sempre uma paz ativa”.