segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Perigosa irresponsabilidade

Estamos no décimo mês do ano. Até agora o imobilismo no qual se instalou o Brasil gerou inflação, alta do dólar, desemprego, desajuste fiscal, como frutos do desestímulo à economia e à produção. O medo afasta oportunidades, congela investimentos e faz aflorar a especulação, a agiotagem dos bancos, a sanha arrecadatória do Estado.

Desde que se instalou na Justiça Federal a operação Lava Jato, também se paralisaram as grandes obras, tradicionalmente tocadas pelo feudo das empreiteiras cujos dirigentes amargam há meses na cadeia à espera da conclusão de seus processos, até que sejam expedidas suas sentenças. Na verdade, todos já se acham sentenciados e condenados, pelo menos pela opinião pública e pela mídia, seja em Manga, no Catolé do Rocha e no resto do Brasil. Até no exterior, a avaliação feita do nosso país pelas mídias locais nos instala na liderança do ranking de subdesenvolvimento e de corrupção.


O povo está mais rigoroso nos seus julgamentos, há menos tolerância com os políticos, independentemente de que partido forem ou que história tenham. As dificuldades, a escassez de verbas para manutenção de cargos, privilégios e favores, o arrocho geral dos orçamentos públicos, realidades aliadas aos poderes fiscalizador das mídias e institucional da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal, são fatores que também contribuem para tornar os políticos menos generosos e mais cuidadosos no rateio de facilidades. Esse é o lado bom da história política de nossos tempos. Estamos mais atentos e vigilantes.

Mas, como se acha, estamos em outubro e às portas de mais um ano perdido. É preciso que o país volte a trabalhar, a produzir, a ter segurança e esperança. O país não suporta mais perder tempo com a discussão do impeachment, da permanência ou não de Eduardo Cunha à frente da presidência da Câmara e de Renan Calheiros na presidência do Senado, se vão ambos, junto com seus apoiadores, para a cadeia de qual cidade ou bairro. Se o dinheiro que tem nos bancos da Suíça, a mulher de Cunha ganhou fazendo unha, vendendo Avon ou costurando para fora. Se Dilma pedalou ou rosetou. Se Lula ganhou propina da indústria automobilística para editar MPs, se seu filho, o Lulinha é ladrão, ou foi favorecido com dinheiro da corrupção ou nada disso: é um santo.

Certo é que a vida parou, as pessoas estão com fome, desempregadas, desassistidas, há greves na educação, na segurança pública, na saúde, no Judiciário, no INSS, nos bancos. Daqui a uns dias, nas igrejas, nas boates, nos estádios de futebol, no jogo do bicho, nos shoppings populares. Tudo parou, menos a pontualidade e eficiência de nossos credores. E ainda assim, não se ouvem propostas de mudanças. Estamos mergulhados na maior crise de imaginação e criatividade de nossos tempos. E na maior irresponsabilidade daqueles que têm nas mãos os instrumentos da mudança.

A metafísica do Sudão

O Brasil tem uma máquina estatal gigantesca. Todo mundo sabe. O pior é que aqueles que deveriam pensar esse problema, na sua maioria, são os que permanecem na esfera desse Estado, fazendo uso dele e alimentando sua burocracia infernal. E defendendo-a. Só gente mau informada, de má fé ou ignorante espera alguma coisa do Estado.

A filósofa russo-americana Ayn Rand, boicotada nos departamentos de filosofia no Brasil por ser uma liberal radical, nos chamou a atenção para um fato significativo: quando produtivos dependem de improdutivos para produzir, estamos numa fria. Esse é o caso do Brasil.

No Brasil, você sempre está na condição de herói de tragédia clássica, que luta contra um destino irrevogável, leia-se, o Estado brasileiro. Essa descrição maravilhosa é de José Guilherme Merquior no seu "O Liberalismo - Antigo e Moderno", editora É Realizações. Merquior fala aqui da tradição francesa de esmagar o indivíduo sob a bota da máquina estatal.

Pense no número de formulários enormes que você deve preencher. Pense no que você gasta de tempo e dinheiro para ter gente que te ajude a enfrentar a burocracia criada por especialistas em improdutividade.

No caso específico da educação superior, esta fato é uma evidência. Uma gigantesca burocracia, servida por "gestores" que se locupletam a fim de garantir espaços institucionais de poder, vem transformando a vida da pós-graduação no Brasil numa peregrinação de irrelevâncias.

Agora, a maldição invade a graduação, tornando o dia a dia um deserto de formulários que supostamente servem a universidade, mas que na realidade servem apenas a gente com o "gozo da burocracia", que assim detém o poder sobre as instituições particulares, sempre inimigas de governos ideologicamente estatistas, como o governo federal é há anos.

No Brasil, abrir uma pequena empresa é um inferno de impostos e siglas, que, por sua vez, se constituem num mercado tecnocrático em si, fazendo do infeliz empreendedor um desgraçado a mercê da última invenção de algum burocrata de Brasília.

E todos os neolíticos que apostam na máquina do Estado para fazer "justiça social" batem palmas para essa metafísica do Sudão.

Este tipo de cultura atrasada faz com que aqueles que nada produzem mandem no processo, obrigando você a produzir nada (servindo as exigências burocráticas deles) ou a produzir irrelevâncias que, por si só, servem aos esquemas burocráticos.


Num universo como este (um novo círculo do inferno de Dante), o dinheiro se torna refém de quem nada produz, mas detém os mecanismos de tortura sobre suas vítimas, os produtivos, que os carregam nas costas. Servir a essa máquina se torna a garantia de permanecer existindo dentro dessa cadeia, supostamente produtiva, mas onerada pela metafísica do Sudão que a alimenta.

E a corrupção é a grande cereja do bolo de um país com essa metafísica. Quanto maior o Estado, quanto maior seus tentáculos sobre a sociedade, mais ele venderá facilidades para resolver as dificuldades que ele mesmo cria, e que constitui a moeda de toda mentalidade improdutiva.

Do que vive um improdutivo? Antes de tudo, do gozo de infernizar quem produz (dizendo que está preocupado com a "qualidade" ou com a "igualdade"). Passa suas horas imaginando procedimentos que obriguem as pessoas a saírem da cadeia produtiva para servir a essa cadeia da inércia.

Mas a inércia tem suas vantagens. Primeiro, facilmente garante tempo livre para não fazer nada, claro, às custas de quem tem de correr mais e ficar mais estressado para atender as demandas de quem não produz nada.

Mas, talvez, o maior inferno seja mesmo o fato de que em países com essa metafísica da "justa improdutividade", a lei proteja o improdutivo e puna o produtivo que não aceitar ferir sua produção para servir à máquina que torna a vida um nada de formulários, impostos e exigências, que crescem a cada dia.

Imagino um desses improdutivos, com os olhinhos brilhando, acordando de manhã e se perguntando: como posso tornar a vida dos produtivos mais miserável hoje?

Sonegação este ano já chega a 13 CPMFs

Enquanto o governo Dilma .2 insiste em aprovar uma nova CPMF para cobrir o roubo de R$ 30 bilhões no orçamento, o Brasil perdeu mais de R$ 400 bilhões em impostos sonegados e não cobrados de contribuintes de grande porte. Os números do "Sonegômetro", criado por procuradores da Fazenda, mostra que haveria dinheiro suficiente para dispensar a CPMF, por exemplo, cuja previsão de arrecadação é de R$ 32 bilhões ao ano.

'Malido na lainha'

Quer acesso a recursos públicos para si ou para seu projeto político? Esteja atento ao conselho de Eça de Queiroz em deliciosa crônica de 1871: faça-o numa associação. "Nada há para esses feitos quanto apoiar-se numa associação. A associação inocenta tudo e tudo purifica". Quanta razão tinha o mestre! Que o digam os promotores de invasões. Numa associação, aplicam-se sobre os autores dos crimes camadas e mais camadas de teflon político e jurídico.


A decisão tomada pelo TCU na última quarta-feira foi, como diria o ministro Roberto Barroso, do STF, um ponto fora da curva. Fugiu à regra. Imediatamente, os membros da associação subiram às tribunas e microfones para defender o governo. Na Assembleia Legislativa gaúcha, um deputado afirmou que as pedaladas fiscais não eram novidade. Já eram praticadas em outros governos. Desceu triunfante da tribuna e ouviu do deputado Marcel Van Hattem que, no autoindulgente senso petista, se um crime não for original, inédito, não é crime...

Foram os erros e crimes cometidos ao longo dos últimos 13 anos que, primeiro, proporcionaram a Lula seus anos de Midas e, em seguida, nos precipitaram na crise atual. Agora, em nome do caos que produziram, pedem benevolência para manterem a associação e se preservarem no poder. Ora, o Brasil não pode ser uma terra sem lei. São as crianças que brincam dizendo que lei é o "malido da lainha". Isso não serve para adultos, não serve para homens de Estado. Senhores, não podemos deixar o passado no cabide, por mais que convenha à associação. Aliás, não será entre pessoas condenadas pelo próprio passado que vamos encontrar estadistas para nosso futuro.

As instituições nacionais foram se convertendo, gradualmente, em associações para os fins que Eça ilustrou com seu fino humor. Como consequência, o povo brasileiro - fato sublime - ergueu-se vários degraus acima delas e assumiu a tarefa de pô-las a dançar segundo a música constitucional. O povo fez a bagunçada orquestra sentar e começar a arranhar cordas e resfolegar trompetes e oboés. Por que sublime? É que essas pessoas, indiferentes aos xingamentos dos que as chamam golpistas, coxinhas, lacerdistas, reacionárias, elitistas, e outros adjetivos menos asseados, arregimentam-se para mobilizar as instituições da república. Irrita-se a associação com essa gente de verde e amarelo, rosto exposto e modos civilizados, com lenço e documentos, que não está a serviço de nenhum bandido, seja de que banda ou bando ideológico for. Aliás, como pode alguém indignar-se quando o povo clama às instituições que cumpram seu dever e elas começam a fazer isso?

De olho na frente

Qual o papel do intelectual hoje? Falando a sério, penso que é duplo. Primeiro, é dizer o que as outras pessoas não dizem. Não é dizer que há desemprego em Itália. Segundo, não é resolver os problemas imediatos, é olhar para a frente. Se um poeta está num teatro e há um incêndio, não se põe a recitar poemas: chama os bombeiros. Pode é escrever sobre incêndios futuros
Umberto Eco

Acorda Brasil. Acordemos todos nós!

Dillma Rousseff, os defensores do PT e os agregados de sempre tentam “enrolar”, jogar para baixo do tapete, esconder e empurrar com a barriga seus erros e desvios morais, éticos e administrativos. Se Dillma não errou, se não cometeu pedaladas, mãozadas, dedadas, está fugindo do quê? Está com medo do quê?

Na verdade, os governos petistas, de Lulla a Dillma, foram, são e continuarão a ser pura mentira, desfaçatez, arrogância e manipulação. Estudaram as práticas dos coronéis, dos espertalhões e dos vigaristas, aperfeiçoaram-nas e, conhecendo a falta de cultura, de tempo e de vontade de aprender/conhecer/saber as coisas públicas, por parte de grande parcela da sociedade, dominaram as mentes e as vontades.

Venderam os sonhos almejados pelos incautos.
E agora, como reverter-se isto? O povinho continua dominado, juntinho e misturado, sem saber como separar as verdades (poucas) e mentiras (muitas).

Um governo sério, probo e corajoso, com referendo popular, não necessariamente com apoio do congresso, precisa assumir e varrer toda a sujeira produzida e armazena nas três últimas décadas. É preciso julgar a todos. Aos culpados, penas longas na cadeia.

Ontem, Lembrei de Ulysses, Brizola, Teotônio. Tentei, mais uma vez, encontrar alguém como eles, nos dias atuais. Busca inútil. Como estão fazendo falta!

Olho para os que fazem oposição e só vejo situação!
Olho para os jovens com mandatos – a nova leva de políticos, e vejo pessoas sem conhecimento, sem personalidade, sem patriotismo, sem um norte.

Muitos dos que poderiam tornar-se lideranças positivas e possíveis de seguirmos, já estão contaminados, com idéias e ideais velhos, distorcidos, deformados. Carecem de conhecimento mínimo e postura.

Tomara que a renúncia ou o impeachment de Dillma não oportunize apenas a troca de seis por meia dúzia.

Acorda Brasil. Acordemos todos nós!

Metas climáticas aquém do esperado

Em menos de oito semanas, representantes de 195 países se reunirão em Paris para decidir sobre o futuro do clima global. No dia 1° de outubro, expirou um prazo informal para que todos os Estados que aderiram à "Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima" (UNFCCC) apresentem suas metas para 2025 e 2030. Até agora, 146 nações apresentaram seus planos de contribuição nacional, os chamados INDCs.

"São muitos países, com uma diversificação geográfica alta", diz Nick Nuttall, porta-voz da UNFCCC. "Entre eles, estão todos os países industrializados e os principais países em desenvolvimento. Mesmo que agora sejam apresentados mais INDCs, isso não vai fazer muita diferença."

O programa do clima continua se baseando no princípio da esperança e ainda não em medidas que realmente sejam alcançadas de forma eficaz
Christina Hey, secretário-geral do Conselho do Ambiente

Os pesquisadores acreditam que os piores efeitos da mudança climática só podem ser evitados se a Terra se aquecer menos de dois graus Celsius. No entanto, os INDCs apresentados até agora não conseguem ficar abaixo deste limite.

Se todos eles forem implementados, a temperatura ainda aumentaria 2,7 graus, em comparação com os tempos pré-industriais, segundo cálculos dos pesquisadores da Clima Action Tracker (CAT). CAT é uma análise independente, criada por quatro institutos de pesquisa, que investiga os compromissos voluntários dos países em relação à proteção do clima.


"Todos os governos precisam rever os seus próprios compromissos novamente", reivindica Louise Jeffery, pesquisadora do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto sobre o Clima e que está ligada ao CAT. "Se os países entregarem antes da Conferência sobre Mudança Climática INDCs revistos, se comprometendo a reduzir ainda mais as emissões de poluentes, então isso ajudaria a fechar um acordo climático mais forte", avalia.

Usina de carvão alemã: modalidade energética pode impedir Alemanha de alcançar metas climáticas

Usina de carvão alemã: modalidade energética pode impedir Alemanha de alcançar metas climáticas

A maioria das estratégias climáticas avaliadas pela CAT recebeu o título de "regular" ou "insuficiente". A Índia, por exemplo, ficou entre os últimos países a entregarem seus INDCs – e o país é um dos mais importantes em termos de futuras emissões de CO2. A economia emergente pretende reduzir suas emissões em um terço até 2030 – no entanto, em dependência de seu crescimento econômico. Então, se o PIB indiano se duplicar nos próximos anos, a Índia também poderá emitir duas vezes mais poluentes na atmosfera – subtraindo-se a redução pretendida. 

domingo, 11 de outubro de 2015

Tempos tristes

A vida cotidiana no Brasil de hoje anda tão áspera, o debate intelectual tão fora da curva, o debate político e econômico tão agressivo, que me sinto frequentemente levado a tentar entender o que está-se passando sob uma perspectiva histórica: explicar o presente como resultado de um passado mal vivido. Será que estamos condenados à violência que se apodera de nossas ruas, à desfaçatez dos argumentos, ao imediatismo de nossas opções políticas, econômicas e institucionais? Esse foi em boa medida o nosso passado. Será também o nosso futuro?

Ao ler muitos anos atrás o clássico "Tristes Trópicos" de Claude Lévy-Strauss, antropólogo francês que veio ao Brasil em missão nos anos 30, sublinhei uma passagem que sempre me intrigou. Traduzido livremente do francês, Lévy-Strauss diz haver escutado de um observador malicioso que a América passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. E continua, talvez impressionado pelo crescimento caótico da cidade de São Paulo, afirmando que a fórmula, com mais justiça, poderia ser aplicada às cidades do Novo Mundo, pois vão do frescor à decrepitude sem passar pela antiguidade.

Será esse mesmo o nosso destino? perguntei-me ao longo da vida a cada momento difícil por que passamos no Brasil. E pergunto-me agora que atravessamos uma crise profunda. Estaremos em vias de passar à estagnação e à decrepitude, sem jamais conhecer um apogeu? Onde está o Brasil imaginado, o que tinha um futuro de grandeza e prosperidade, em que a convivência seria cada vez mais cordial?

Todas as sociedades, mesmo as mais antigas e avançadas, têm seus contrastes e seus antagonismos. Na cultura ocidental, nascida na Grécia antiga, renascida ao final da chamada Idade Média e consolidada com as Revoluções Americana e Francesa, a democracia tornou-se um valor absoluto. Fórmulas foram tentadas ao longo da história e ainda hoje para amenizar os contrastes e controlar os antagonismos mediante regimes de força, autoritários e ditaduras do proletariado ou das classes dominantes. Nada deu certo ao longo do tempo. A democracia é, e deverá continuar a ser, o padrão pelo qual se mede a qualidade da vida institucional dos países.


O Brasil, como de resto a maioria dos países conhecidos eufemisticamente como “em desenvolvimento”, não conheceu a democracia liberal a não ser episodicamente. Tivemos 308 anos de regime colonial, 22 anos de presença da Corte Real no Rio de Janeiro e 67 anos de Monarquia. Ao todo 397 anos se passaram antes da Proclamação da República. Praticamente 4 séculos. Hoje, 193 anos depois, apesar de muitos progressos e do estabelecimento da democracia formal, ainda estamos longe de emular o nível das democracias estabelecidas nos países desenvolvidos.

Progredimos, eliminamos barreiras, ampliamos a inclusão social. Mas falta muito ainda. As populações marginais nas favelas urbanas, nas caatingas nordestinas, a falta de educação e de saúde, demonstram a insuficiência de nossos esforços.

Sem falar na corrupção, que nos acompanha desde sempre. Martim Afonso de Souza, o grande personagem das navegações e da exploração colonial do Brasil (1530-1533) dizia: “Quem diz que sou cobiçoso, diz a maior verdade do mundo, que eu cobiço dinheiro porque não o tenho e porque não posso servir-vos, nem ser honrado sem ele...” Quinhentos e tantos anos depois ainda somos obrigados a conviver com um tipo de ambição corrupta por parte de muitos de nossos homens públicos. A sociedade não pode aceitar isso como se fosse inevitável. Não é! O conformismo agrava nossos problemas, que já não são poucos.

Hoje achamo-nos completamente desorientados. Discutem-se cargos quando deveriamos estar discutindo programas de Governo. As lideranças calam sobre visões de futuro. Colocam-se esparadrapos sobre as feridas profundas que dilaceram o corpo da nação. Concentramo-nos no curto prazo, deixando-se o médio e longo prazo continuamente postergados. O crime toma conta das ruas e dos gabinetes. Nas ruas, roubam-se valores e assassinam-se pessoas. Nos gabinetes, valores ainda mais expressivos são roubados e valores morais são assassinados. Os ladrões nas ruas são algumas vezes apanhados e, mal tratados, persistem no crime. Os ladrões nos gabinetes, quando apanhados, são bem tratados e suas famílias continuam a usufruir do que foi roubado.

Reina no Brasil de hoje um profundo cinismo. Para que servem os valores? Para que serve a justiça? Como promover o bem comum? Ainda prevalece a injustiça, a impunidade, a truculência. Como assegurar a convivência democrática numa sociedade descrente de si mesma?

Tomado por essas inquietações, reabri um livro importante, que marcou muito meu pensamento quando o li no final dos anos 70. Trata-se de obra da historiadora americana Barbara Tuchman. Chama-se The March of Folly (A Marcha da Insensatez). A senhora Tuchman analisa diversos episódios internacionais, a começar pelo mítico cavalo de Tróia e, passando pela secessão do protestantismo, a perda da América pelos britânicos, termina com a guerra do Vietnã. Mostra como, através da história, Governos tomaram conscientemente decisões contrárias a seus próprios interesses e persistiram nelas contra todas as evidências. E tenta entender por que líderes políticos frequentemente agem em sentido contrário aos ditames da razão e do próprio auto-interesse.

Erros são inerentes à natureza humana. Todos os cometemos. O que é estranho é persistir no erro mesmo sabendo que estamos errados. Quem se acha convencido da excelência de suas políticas frequentemente não se deixa abalar, por mais evidentes que sejam os sinais do fracasso. Persiste no erro. O poder, além de corromper, conduz à insensatez. E a responsabilidade do poder se dilui à medida que seu exercício se prolonga. Os exemplos e as experiências do passado estão aí. Replicam-se no Brasil de hoje com crescente licenciosidade.

Não terá chegado o momento de verdadeiramente transformar esse destino trágico que nos acompanha desde o Descobrimento? Nada mais eloquente do que o último parágrafo da Carta de Caminha ao Rei de Portugal. Depois de descrever as maravilhas do país, Caminha pede ao monarca a transferência e um emprego para seu genro Jorge da Cruz, então em São Tomé. Em se plantando tudo dá, e em se pedindo, tudo vem!

Norberto Bobbio, no seu livro sobre o envelhecimento, De Senectute, conta que, ao ouvir um palestrante fazer determinado contraste entre o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade, levantou-se e declarou para quem quisesse ouvir que o pessimismo de sua inteligência sempre foi acompanhado por certo pessimismo da vontade. O Brasil é essencialmente plural, unido por valores reais e imaginários. Fomos capazes de construir a duras penas um processo institucional democrático. Não sucumbimos ao pessimismo da vontade. Mas ainda não conseguimos - apesar de todos os progressos - estabelecer a coesão social desejada e conter a corrupção. Espero que não estejamos condenados ao fracasso, a tomar indefinidamente as decisões erradas, sabendo que são erradas!

São tempos tristes. Mas nossa democracia e nossa visão de um futuro melhor para o país não podem ser abaladas pela corrupção e pelo conchavo político. É tempo de tomar as decisões certas e não persistir no erro!

Luiz Felipe de Seixas Corrêa

Relíquia da assombração

Lula perdeu o bem mais precioso de um político – a capacidade de gerar esperança. Faria bem o PT se o preservasse como uma espécie de relíquia do bem e do mal 
Ricardo Noblat 

O silêncio de Lula

No final de setembro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Brasília para acertar de vez o governo cambaleante de sua pupila. Assumiu publicamente o papel de salvador da pátria, que tanto adora. Meteu-se em sucessivas reuniões com a afilhada e o PT, com diferentes alas do PMDB, o vice Michel Temer e até o desafeto Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Costurou ponto a ponto a reforma que Dilma Rousseff, ainda que a contragosto, anunciou dias depois.

De nada adiantou.

Na última semana, Dilma amargou derrota atrás de derrota. E Lula, o inspirador, estrategista e tático da nova política governista, sumiu de vista. Calou-se, evaporou.


Dilma seguiu à risca o que o mestre mandou. Negociou direto com o baixo clero do PMDB, passando por cima dos líderes históricos do partido. Na barganha, entregou quase um quarto do governo - sete dos 31 ministérios. Afastou o amigo Aluizio Mercadante do núcleo de decisões do governo e ainda engoliu Jaques Wagner como articulador político. Sem tirar nem por, cumpriu todas as ordens do chefe.

No Congresso, Wagner, o escolhido de Lula, falhou no primeiro teste. Falhou de novo e de novo.

Dilma perdeu também no TSE, com a decisão da Corte de reabrir a investigação sobre a origem dos recursos de sua companha. Como se não bastasse, sabe-se lá por ideia de quem, o governo decidiu cometer suicídio coletivo ao tentar anular o relator e o relato das contas de 2014, primeiro no próprio Tribunal de Contas da União, depois no Supremo.

Como nada deu certo, Lula desapareceu. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Nada.

Correr do pau não é novidade quando se fala de Lula. Hábil, sempre que se enrola, ou não sabe e não viu o ocorrido, ou simplesmente foge. Dizem algumas línguas que esse comportamento se repete desde os idos do ABC. Portanto, o silêncio dele não causa surpresa.

São os tropeços e equívocos do grande chefe que chamam atenção. Ele nunca errou tanto. Avaliou mal, foi mau conselheiro. Colocou gasolina em vez de água na fogueira de Dilma, que não precisava de mais combustível para arder.

Dirão alguns – talvez ele próprio – que tudo foi planejado. Que na sua permanente metamorfose, ora ele quer prolongar ora encurtar o calvário de Dilma. Só que desta vez Lula colocou em campo o que resta do time titular petista, agravando a derrota. Para o PT, para Dilma e para ele.

Em tempo de crise e bolsos vazios, de médios e pobres ainda mais pobres, Lula vem demonstrando dificuldade para mobilizar massas. Só discursa, quando discursa, em ambiente fechado. Já não goza de unanimidade nem mesmo junto aos companheiros da CUT, MST, UNE e outros movimentos aquinhoados com recursos e cargos no governo.

Provou com o desastre desta semana, que sua magia também já não encanta os políticos, nem mesmo os de escalões inferiores.

Com popularidade construída na fartura, Lula manipula um condão que só funciona na bonança. Na tormenta, imerge. E hoje, além do naufrágio iminente da sucessora que ele inventou, Lula tem de lidar com outro revés: a Lava-Jato. Essa, sim, com potencial para afundá-lo. A ele e ao PT.

Tem preferido ficar calado. Não dar um pio.

Game over

Anotem, na última quarta-feira, entre o fim da tarde e o início da noite, o Tribunal de Contas da União, fundado em 1890 e também conhecido como TCU, pela segunda vez na história recomendou ao Congresso Nacional que fossem rejeitadas as contas de um Presidente da República. A partir daquele instante, Getulio Vargas, cujo balanço recebeu a mesma avaliação em 1937, já não estava sozinho, passava a ter a companhia de Dilma Rousseff.

Luís Inácio Adams, advogado-geral da União, alegou que as pedaladas não foram irregulares e até usou o Bolsa Família para justificá-las, mas driblar tantos zeros não era tarefa fácil e foi impossível evitar o capote. Bufão, ainda conseguiu causar espécie quando falou sobre impeachment em tom pretensamente ameaçador, como se o Tribunal não devesse satisfação à democracia, ao fazer valer a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas sim ao petismo.

Lamentei somente o horário, muitos de nós ainda estavam trabalhando, espremidos em vagões de trem, no metrô, ou quem sabe, aproveitando o trânsito caótico para imaginar uma maneira de sair do buraco. Assim, não puderam testemunhar um momento crucial em suas próprias vidas, que certamente será revisitado nas escolas pelas próximas gerações de brasileiros.

Impeachment  (Foto: Arquivo Google)

Se seria exagero rotular a sova aplicada pelo TCU a este governo corrupto como histórica? Não, muito pelo contrário, e de tão espetacular, conseguiu pacificar três questões de uma só vez.

Primeiro, fez o favor de calar o terrorismo boboca que pintava um Brasil em vias de se tornar a próxima Venezuela. Tal retórica, confesso, não me incomodava apenas pelo erro de avaliação em si, mas principalmente pela pachorra de alguns em ofender a inteligência alheia na hora de arregimentar adeptos.

Depois, por meio do seu veredicto, tirou de Lula a possibilidade de utilizar um processo de impedimento mal ajambrado a seu favor. Aliás, agora, com a carta do golpismo indisponível, arrisco-me a dizer que o fim de sua carreira política, pelo menos no papel de candidato, ficou realmente próximo. Ou mancharia a própria biografia com uma provável derrota acachapante nas urnas?

Mas o principal dividendo, claro, foi garantir que nenhuma mesa de bar livre de fanáticos, em todo o País, seja capaz de tolerar a manipulação de centenas de bilhões para patrocinar a mentira e a perpetuação no poder.

E não apenas decretou o fim de uma conversa deseducadora, que levava o cidadão a achar natural pedir a saída de alguém eleito baseado apenas na própria insatisfação, mas diga-se, fez exatamente o oposto, ao escancarar fatos capazes de convencer a opinião pública e, sabe-se lá, possivelmente até de constranger o esquerdista moderado.

Verdade seja dita, Dilma nunca foi genuinamente popular. A atual presidente do Brasil, isto sim, assassina contumaz da Língua Portuguesa, incapaz de ler um texto corrido que seja, de semblante pesado, e cuja suposta competência gerencial não passou de mais uma guirlanda eleitoreira, até hoje só mostrou aptidão para desempenhar o papel de títere. Com arroubos de manda-chuva, mas sempre um títere.

Legitimidade, entretanto não é coisa à toa, e defender determinados posicionamentos, principalmente na linha do “por um bem maior”, às vezes apenas nos aproximam de quem justamente queremos afastar.

Celebremos, pois àqueles que agora reclamam de intolerância e pedem respeito à democracia, mesmo tendo insistido no afastamento de todos os presidentes democraticamente eleitos até hoje, nem mesmo restará a contradição.

Enfim, pedir o impeachment de Dilma Rousseff já não é mais um direito, passou a ser um dever.

Digitalização dissemina imagens que o mundo não viu

Para o jornalista Elio Gaspari, o mundo só começou a encarar o Holocausto a partir dos anos 1960, com o julgamento público de Adolf Eichmann em Israel. De fato, a captura do oficial nazista em Buenos Aires por um comando israelense, seu transporte clandestino para Tel Aviv e as audiências na Suprema Corte em Jerusalém renderam milhares de reportagens, centenas de livros e ensaios, questionamentos políticos, filmes e documentários.

Entretanto, essa revelação histórica – a do mais brutal massacre institucional de cidadãos promovido por um governo em solo europeu – poderia ter sido antecipada e exibida ao mundo 15 anos antes, ainda em 1945, caso as autoridades britânicas e americanas não tivessem arquivado em uma repartição pública militar os cinco cilindros de filme que registraram em tempo real o horror dos campos de concentração alemães.

Uma decisão jamais discutida, em qualquer tempo, pelos meios de comunicação, pesquisadores, intelectuais e organizações sociais a quem caberia, ao menos, uma palavra de indignação diante do ocorrido.
Campo de Bergen-Belsen, imagem do
documentário Memory of the Camps 
A filmagem feita por cinegrafistas do exército aliado acompanha a libertação de onze campos de concentração nazistas – de um total de 1.094 já documentados – a partir de abril de 1945. Entre eles os campos de Bergen-Belsen, com 70 mil mortos (onde Anne Frank morreu), Majdanek (80 mil), Dachau (30 mil) Buchenwald (56 mil), Ebensee (20 mil), Matthausen (150 mil) e Auschwitz-Birkenau (1,1 milhão).

As imagens aéreas mostram vastas planícies ocupadas por fileiras de barracões cercadas por arame farpado e guaritas. No solo, cadáveres sem roupa se misturam aos doentes e moribundos que agonizam sob a indiferença daqueles que ainda reúnem forças para disputar algum resto de comida. Um cenário macabro onde proliferam a imundície, as epidemias e a fome.

O filme também mostra as equipes nazistas – homens e mulheres – que atuavam nos campos da morte. Sob a ordem do exército aliado, esses soldados alemães cavam imensos buracos onde são jogados os milhares de cadáveres que jazem insepultos. Todos esquálidos e desnudos. O material, catalogado sob a inscrição F3080, permaneceu abandonado nas prateleiras de um departamento do antigo ministério da Guerra (hoje, ministério da Defesa) e em 1952 foi transferido para o “Imperial War Museum” – IWM que o registrou sob o título de “Memory of the Camps” (Memória dos Campos). Ali ficou enterrado e esquecido por décadas.

Planejado para ser um documento histórico e didático que funcionaria como uma prova real da existência dos campos e das práticas abomináveis exercidas pelo regime nazista, o projeto do comando aliado ficou sob a responsabilidade de Sidney Bernstein (1899-1993), chefe da seção de cinema da divisão de Informação britânica, que chamou Richard Crossman para ajudá-lo no roteiro. Crossman foi um dos primeiros oficiais britânicos a pisarem no campo de Dachau e posteriormente entrou para a política, tornando-se líder do Partido Trabalhista e ministro do Trabalho. Com apoio dos colegas do serviço americano de informação, Bernstein recrutou ainda o diretor de cinema Alfred Hitchcock (1899-1980), que trabalhava em Hollywood, para supervisionar o documentário.

Mas, em 9 de julho de 1945, menos de três meses após o início efetivo do projeto, os americanos retiram a sua participação no filme. Em setembro de 1945, com o documentário inacabado, as autoridades britânicas resolvem interromper o trabalho. O comando militar, àquela altura, estava empenhado em melhorar as relações anglo-germânicas, conter uma possível expansão soviética e não dar publicidade à vitimização dos judeus que lutavam por uma pátria na terra de Israel sob mandato britânico. A exibição do filme iria incutir uma culpa coletiva sobre a população alemã, o que segundo as autoridades aliadas aumentaria ainda mais o caos e a desmoralização de uma nação derrotada.

Nas imagens engavetadas, moradores das cidades e vilas próximas aos campos, convocados pelo exército aliado, visitam esses locais em plena efervescência de uma indescritível e absurda tragédia humana. As câmeras registram o constrangimento e a aparente vergonha dos alemães diante daquela multidão de seres desfigurados, reduzidos ao nível mais baixo de miséria e humilhação. Um pesadelo inimaginável que se sucedia a poucos quilômetros de suas casas, sem que ninguém soltasse um suspiro de misericórdia. Vizinhos das indústrias da morte, os moradores são forçados a encarar, naquela primavera de 1945, a máquina genocida que amparada na indiferença e pouco caso de seus cidadãos exterminou milhões de crianças, idosos e cidadãos civis inocentes.

O historiador Geoffrey Megargee, do Museu do Holocausto de Washington, afirma que de 1933 a 1945 o regime nazista implantou uma rede de trabalho escravo que funcionou em 42.500 locais na Alemanha e nos países ocupados. Foram 1.094 campos de concentração e 1.150 guetos, além de milhares de fábricas e outros centros de trabalho forçado, de tortura e de morte.

O controle do controlador

Na origem mais remota do termo controle, encontramos sua raiz na expressão francesa contre-rôle. Em épocas medievas, de absolutismo monárquico, os fiscais do reino, cobradores de impostos – ainda sem a juba que os viria a identificar no futuro –, se dirigiam às propriedades rurais e o aldeão era obrigado a apresentar uma relação (rôle) dos produtos negociados sobre os quais recolhiam os impostos devidos à Coroa. Porque no meio do caminho alguma coisa podia se “perder”, o rei determinava que fosse feita outra relação (contre- rôle), que, ficando com o devedor, em caso de necessidade pudesse provar que o valor entregue pelo fiscal à Coroa correspondia exatamente ao imposto pago pelo aldeão. Assim nasceu o controle, na sua forma mais rudimentar.

Vê-se, daí, que o primeiro controle era o do agente do rei sobre o produtor, e o segundo, o do rei sobre o seu fiscal.

Pedaladas furadas

O fim do absolutismo trouxe a necessidade do controle também dos atos dos governantes e do seu entorno de agentes públicos. Porque, em determinado momento da história, os cidadãos que promoveram as inúmeras revoluções libertárias que a história registra deram-se conta de que era dos impostos cobrados sobre o seu trabalho que aqueles se sustentavam.

Conscientes da necessidade de atender aos justos reclamos de seus governados, e até para que estes os vissem com a simpatia capaz de mantê-los no poder, os governantes criaram órgãos de controle de seus próprios atos. Não apenas os internos, como também os externos, estes resultado da implantação, desde a teoria de Montesquieu, do exercício separado dos poderes de Estado.

Vem daí a rebeldia que os agentes públicos desenvolveram por qualquer forma de controle.

De degrau em degrau, o controle da atividade financeira do Estado – que se resume em obter receita, promover-lhe a gestão em benefício do bem comum e efetuar a despesa para o respectivo custeio – atingiu o ápice, no caso brasileiro, mediante a Lei de Responsabilidade Fiscal, imposta pelo contribuinte através de seus representantes no parlamento. Nada mais perfeito em termos de democracia representativa. O TCU não fiscaliza para o rei, como no absolutismo, mas para o povo, de quem emana todo o poder e, enquanto contribuinte de impostos, toda a riqueza. Governo não produz riqueza, mas recolhe significativa parte dela e, pois – tecnicalidades diversionistas à parte –, não pode controlar o controlador da aplicação da riqueza alheia.

Quem mais sente a crise

Nota-se que os países mais prósperos, estáveis, as potências econômicas, se sustentam na produção, no trabalho e na tecnologia. Embora não sejam exemplos de santidade, sabem que o ambiente precisa estar permeado de credibilidade e confiança nas instituições, fundamentais para garantir a legalidade e a proteção das atividades.

Os marcos regulatórios são condições “sine qua non”. Ninguém investe, empreende ou se dá ao risco maluco de ficar à mercê do acaso. As relações fluem na legalidade, e com isso se multiplicam as oportunidades.

A fraqueza do Brasil se encontra exatamente na falta de garantias, no excesso de burocracia e numa desregrada sede de impostos, e ainda pior, pessimamente aplicados.

Por parte das elites brasileiras falta valorizar as regras do jogo. A corrupção, a infidelidade e as trapaças têm suas raízes no modelo colonial. Subverte-se a ordem natural, e trava-se o fluir das relações, complica-se quem pretende apenas trabalhar, inibe-se o surgimento de empregos, dificulta-se a vida de todos, enfraquece-se, assim, o conjunto nacional, da ex-colônia que continua a agir como tal.

A cultura da Coroa portuguesa – colonizadora no pior dos sentidos – instalou no Brasil a exploração sistêmica de tudo e de todos, a ela é devida uma cota sem qualquer compromisso de retorno. O Brasil era sangrado pela Coroa e o é mais ainda pelo Estado republicano. Está na história como o último país do planeta que aboliu a escravatura. Mesmo assim manteve o viés escravagista nas relações sociais e o ampliou na gana de cobrar. Não se desintoxicou. Tirava-se da natureza e vendia-se matéria-prima (não elaborada) nos séculos passados, e continua sendo essa a prática mais comum. Raros e insuficientes são os grupos econômicos nacionais que desenvolveram tecnologia e competitividade. Também as multinacionais preferem outras fronteiras para industrializar e inundar o mundo.

A produção da indústria na década de 60 representava 17% do PIB, secou em 2014 para 8%, demonstrado que não existe uma tendência nem uma política definida pelo interesse a transformar, acrescentar valores e aproveitar a farta mão de obra local.

Vendem-se montanhas de recursos minerais em valor médio de US$ 50 por tonelada e importam-se smartphones por US$ 5 milhões a tonelada. Em termos de peso, a relação é de 1 para 100 mil. Existe preocupação com essa situação? Nenhuma. Despende-se uma fortuna para manter inativa a nossa mão de obra com esmolas que não geram oportunidades, cultura, emancipação.

Enche-se um navio com 100 mil toneladas para pagar algumas caixas cheias de matéria-prima brasileira elaborada no exterior.

A elite política e pensante se lixa disso.

Transcorridos 515 anos do Descobrimento, os Brasis mantêm a tradição do colonizador. Não existe uma aspiração definida de desenvolvimento ou de proteção às atividades produtivas. Apenas ganhar com o menor esforço. Os valores estratégicos de soberania de uma nação nem sequer são lembrados. O Estado brasileiro é um assassino da competitividade econômica, sabe cobrar tributos, gera complicações, defende a prática de cobrar em excesso. Trata quem trabalha como um idiota, perde seus melhores quadros para o exterior e castra seu futuro. Sem preocupação com a sustentabilidade. O sonho mais comum é criar gargalos para cobrar pedágios. Dessa forma, nada anda.

Quando aqui cheguei, há 40 anos, me incomodava a frase frequente, não generalizada, de “quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro”. Como? Achava mesquinho citar isso. Na escola me ensinaram desde a infância que “o trabalho dignifica o homem”, que é “melhor pouco com Deus que muito com o diabo”.

Ouvia dos mais velhos em casa que o estudo, a dedicação e a persistência eram fundamentais para qualquer sólida realização, condenavam-se as transgressões, que eram taxadas de vergonhosas. Diziam-me que não existia um sucesso estável fora da legalidade.

Assustou-me, assim, a insolente forma de contar vantagens de cânticos à esperteza.

Enfrenta-se agora a queda de 3% do PIB nacional, mas o Estado de Santa Catarina, uma ilha de Mittel Europe (Europa do Meio) ainda consegue crescer, em 2015, ao ritmo de 1,5%. Provavelmente, o Estado mais respeitoso com valores dignos.

Vale lembrar que o exército romano não ganhava batalhas pelo porte físico de seus soldados, mas pela inteligência de seus generais (conhecimento e disciplina) e pela qualidade dos armamentos (tecnologia).

Mais sente a crise, neste momento, a cigarra que a formiga.

Como ficará o país sem Dilma e sem Cunha?

Palavra cruzada pode cair dilma ou cunha com 5 letras

Metade da Câmara quer o impeachment da presidente Dilma. A outra metade deseja a cassação de Eduardo Cunha. Engalfinham-se os deputados, sem perceber que o povão tem outras preocupações: o desemprego em massa, o aumento do custo de vida, o congelamento e até a redução dos salários, a alta dos impostos e taxas de serviços essenciais, a péssima qualidade da saúde e da educação públicas e a violência urbana e rural.

A falta de sintonia entre eleitos e eleitores acentua-se cada vez mais, como se vivessem em dois mundos distintos. Não vai dar certo, ainda que tanto Dilma quanto Cunha possam ser objeto da frustração e da indignação geral. Falta um roteiro, um plano e um esforço para enfrentar as carências generalizadas, mas nem o governo nem o Congresso parecem preocupar-se. Madame e o deputado querem preservar os respectivos mandatos, como se suas obrigações se esgotassem nesse objetivo.

Vale indagar como ficaria o país sem Dilma e sem Cunha. Mudaria o quê, caso ambos fossem postos para fora? Nada. A população talvez vivesse dez minutos de euforia, comemorando as duas ausências, mas logo voltaria a sofrer as mesmas agruras. O grave na conjuntura atual é a inexistência de alternativas. Executivo e Legislativo comportam-se como se não lhes coubesse enfrentar a desagregação nacional. Desconhecem a falência do Estado, hoje posto em frangalhos.

Já se escreveu muito sobre a rebelião das massas, sonho de alguns poetas. Elas poderão ganhar as ruas por pouco tempo, mas logo terão que ir para casa.

Em suma, só um programa capaz de enfrentar um por um os obstáculos que nos assolam substituiria com extrema vantagem a presença de Dilma e Cunha. O diabo é que inexistem partidos, corporações, associações e centrais sindicais cuidando disso. Sendo assim, não vai adiantar nada trocar seis por meia dúzia, ainda que mudanças assim sirvam ao menos para melhorar o humor...

Sabe nada, inocente!

“Não existe nada contra mim. Não posso pagar pelo que não fiz”. A ser verdade o que alega a criatura de Lula, engana-se quem imagina que só agora, quando foi forçada por seu criador a abrir mão do comando político do governo, a presidente deixou de governar. Ela acaba de confessar: não governa desde sempre. Pois as decisões de governo foram sempre tomadas, à sua revelia, por subalternos atrevidos, e por isso ela não pode ser acusada de nada. A não ser de ter enganado o País por tanto tempo vendendo a imagem de “gerentona” atenta, eficaz e centralizadora e de continuar pensando de acordo com a cabeça torta de seu mestre, para quem todo brasileiro é idiota 
Editorial - Estadão, "Os efeitos da decisão do TCU" 

A floresta encantada

Quem vê tudo dominado não entende a real natureza de uma liderança. O que fazemos aqui dia sim e dia também é procurar, com nossas lanternas de pouco alcance, pessoas dispostas como nós a saírem do pântano em que nos encontramos e recolocar o país nos trilhos, depois do acidente consumado. Não comungo com a ideia de que o brasileiro é simplesmente um idiota que sempre vai fazer escolhas erradas na vida. Comecemos pelo fato de que ele não elegeu essa corja que aí está.

Fomos todos ludibriados pela maior quadrilha que já se instalou no poder. O mote dessa tunga era justamente “acabar com os pequenos roubos e compadrios” com um partido que tinha como bandeira a tal “ética na política”. Deu no que deu. Não acho que o consumidor é o culpado final pelo produto estragado que comprou. A cidadania, as leis, o senso comum estabelecem que ele tem o direito de reclamar, de exigir a correção dos problemas encontrados e até obter seu dinheiro de volta, caso o produto não satisfaça seus desejos e necessidades.

É simples assim. Estamos diante de estelionatários. Gente disposta a não largar o osso e fingir que o tablet que compramos e que veio com um tijolo dentro e só uma foto do referido equipamento não é um escárnio com quem acreditou na loja e sua promessas, com sua propaganda milionária e enganosa. Estamos diante de um caso de polícia comum. Ou alguém aqui acha que é mesmo o caso de juntar um bando, depredar o estabelecimento, roubar a mercadoria e surrar seus proprietários? Por mais que a vontade seja esta, o país tem leis. E é com estas leis que precisaremos mostrar ao mundo que o crime não compensa.

Se compensou até hoje, pelo tamanho e extensão da roubalheira cometida, é melhor começar a não compensar, pois a turba está se unindo para o quebra-quebra. A visão simplista de que o povinho é burro, pobre, alijado e alheio ao que acontece ao seu redor interessa a todo vigarista político que acha que pode manipular a massa como bem entende. É uma mentira deslavada. Boa parte de minha família é muito pobre e nem por isso fazem as escolhas erradas e se mancomunam com bandidos.

Pelo contrário: é a parte mais rica até, ou aquela um pouco mais esclarecida, que se encanta com a “subida pelo atalho”percorrida por todos estes aspirantes a bandidos hoje no poder. Afirmo que a sociedade aprende pelo exemplo. E o exemplo se dá pelo contraponto. A democracia se sustenta nisso; as ditaduras acabam por isso; a ausência do contraditório. Derrubamos uma ditadura militar e derrubaremos também essa protoditadura comunista e vigarista que por aqui se instalou.

Aprendi muito com vinte anos seguidos de esquerda no poder por aqui. Aprendi que não quero vê-los nunca mais cacarejando na minha frente. É ou não é uma avenida a pavimentar? Acredito no Brasil. Acredito na boa índole e na capacidade do brasileiro de fazer as escolhas certas. Não acredito é nessa política que aí está e nos seus representantes picaretas. Esses já morreram e não sabem. Já eram, como eles mesmos sabiamente constataram. Serão substituídos em breve, por uma tablet novinha. O consumidor sempre tem razão, meus caros. Mexe com quem tá quieto.

Na contramão da liberdade

O Congresso Nacional não se cansa de trazer consternação aos brasileiros. Como se não bastasse a brutal perda de credibilidade que vem sofrendo por conta de delitos contra o patrimônio público atribuídos aos seus membros mais graduados, como se não bastasse o grotesco espetáculo de cambalacho em que se transformou a pretensa reforma ministerial e que fez a população enrubescer de vergonha e humilhação, ainda se permite, aproveitando a incerteza em que o país está mergulhado, dar guarida a uma onda obscurantista cuja última façanha veio da lavra de um obscuro deputado evangélico. Este se arrogou a prerrogativa, com mais um punhado de deputados, de definir o que é a família brasileira.

Famílias, sabemos todos, são realidades tão complexas e multifacetadas quanto é complexo o mundo dos afetos, ganham formas diversas segundo as circunstâncias e momentos de uma história de vida. Ora, para os senhores deputados, é tudo muito simples: um homem, uma mulher, um casamento e os filhos desse matrimônio.


O presidente da Câmara apressou-se em fazer avançar a votação dessa aberração a que se deu o nome pomposo de Estatuto da Família, aprovado, a toque de caixa, por uma comissão especial do Congresso. O Estatuto da Família é aberrante, sim, contraria a Constituição e decisões do Supremo Tribunal Federal. Não tem qualquer futuro no campo jurídico, mas deve ser levado a sério como sintoma de uma investida insidiosa e perigosa do que há de mais atrasado na sociedade brasileira. Como tal, é alarmante e não deve passar despercebido. Traz de volta o cacoete autoritário de, em obediência a preceitos religiosos, querer invadir e controlar a intimidade e a liberdade dos indivíduos.

Impor um padrão único de família não é uma questão de opinião. O deputado que não reconhece as famílias homoafetivas como tal quer privar quem as vive dos direitos que teriam face ao ordenamento jurídico, e que a Justiça, em boa hora, já garantiu. Quem escolhe esse tipo de família não está privando ninguém de nada. Quem a exclui do campo dos direitos está, sim, negando a liberdade do outro, submetendo os direitos universais assegurados pelo Estado democrático à condenação do que alguns consideram um pecado.

É o autoritarismo fundamentalista que impede de reconhecer que as famílias não são mais e nunca mais serão como eram até meados do século passado. Hoje, na esfera afetiva, quem comanda é a liberdade de cada um.

Sempre que igrejas ou o Estado decidem se imiscuir na intimidade e na liberdade dos indivíduos para regulá-la, logo descobrem que a pretensão é temerária porque inócua. É ilusório acreditar que políticos retrógrados possam moldar a sociedade a golpes de canetadas. A sociedade seguirá soberana, moldando-se a si mesma. O que já deveriam ter aprendido quando a união civil homoafetiva entrou no campo dos direitos assegurados por uma sociedade democrática como uma evidência.
Temos vivido nos últimos anos, no Brasil, no reino da mentira e do faz de conta. Heróis que se revelaram bandidos, homens probos que se revelaram ladrões, empresas poderosas que desabam roídas pelo cupim da corrupção. Um país supostamente rico e próspero, que acorda pobre e endividado, o colapso escondido em contabilidades fajutas. Essa convivência com a mentira só tem nos trazido desesperança e medo do futuro. A aposta da onda obscurantista é acenar com o passado supostamente seguro quando o futuro está embaçado, é imprevisível e, por isso mesmo, ameaçador. Mas estão subestimando a sociedade brasileira.

Enquanto políticos profissionais se alimentam e tentam nos alimentar com mentiras, impõem uma politica carcomida, uma sociedade dinâmica, em sintonia com o mundo contemporâneo continua a produzir-se a si mesma e abre caminho às liberdades pelo seu simples viver, afirmando a sua verdade.

O mais surpreendente fenômeno brasileiro é essa ruptura entre o mundo político que apodrece e uma sociedade viva que floresce.

Vai ser cada vez mais difícil o diálogo entre essa sociedade que quer a liberdade de escolha em todos os atos fundamentais da vida privada, a maternidade escolhida, o amor e a sexualidade também, o direito de viver e morrer com dignidade e os mentirosos que acenam com um Brasil que não existe.

O Brasil não é feito só de corrupção e atraso. É feito por gente que se reinventa a cada dia, afirmando a sua liberdade e lutando pela sua felicidade. Vivendo o presente com coragem vão construindo o futuro. Os outros agonizam, resistem a morrer mas seu prazo de validade está se esgotando.
Rosiska Darcy de Oliveira

sábado, 10 de outubro de 2015

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O declínio do gigante brasileiro

O que está acontecendo no Brasil, com um governo que mal consegue chegar aos 7% de aprovação e uma moeda que desvalorizou 35% neste ano e 55% nos últimos 12 meses? Onde e quando vai terminar essa investigação judicial [Operação Lava Jato] que já levou à prisão o ministro estrela de Lula, José Dirceu, o tesoureiro do partido no governo, os dirigentes das maiores empresas de construção (verdadeiras multinacionais), enquanto aparecem acusações contra os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado?


Esta revelação da corrupção é o epicentro do terremoto. Afetou a Petrobras, a principal empresa do país, em números surreais, que ainda não terminaram de serem avaliados. Basta pensar que –obrigada pela justiça– a Camargo Correa, uma das empresas, já devolveu 200 milhões de dólares; que o ex-gerente geral da petroleira estatal restituiu 97 milhões e o de abastecimentos devolveu 25 milhões (dois funcionários, simplesmente). Todas essas quantias respondem à intenção dos acusados de aliviar sua sentença, enquanto são feitos acordos de “delação premiada” em que alguns dos envolvidos, por sua vez, arrastam outros. É um “salve-se quem puder”, que tornou o juiz Sérgio Moro, que encabeça o expediente, a personalidade mais popular do país.

A essa crise moral soma-se uma situação econômica já por si difícil. A queda dos preços das matérias-primas, encabeçadas por minério de ferro, petróleo e soja, atingiu seriamente uma economia que na última década desfrutou de uma formidável bonança, alegremente esbanjada em consumo doméstico. Isso desnuda outra realidade histórica: o Brasil sonhou ser uma grande potência industrial e Getúlio Vargas, um caudilho gaúcho, em 1930, abriu as primeiras siderúrgicas; por sua vez, Juscelino Kubitschek deu continuidade ao sonho e, como testemunho desse otimismo, levantou — nos anos cinquenta — esse Versalhes moderno que é a Brasília de Niemeyer e Lúcio Costa. Esse sonho acabou. O Brasil hoje é muito mais potência agrícola que industrial. Com a queda desses preços, a economia começou a estagnar e há três anos apresenta baixíssimo crescimento, sendo esperada inclusive uma recessão em 2015. O último ano de expansão foi 2010, mas com uma ilusão de ótica, porque tinham sido estabelecidos incentivos ao consumo da indústria automobilística e eletrodoméstica, aumentando o endividamento popular. A consequência dessa economia estagnada e com forte déficit público levou à perda do investment grade, que incentivou, por sua vez, a desvalorização que hoje domina psicologicamente o país. Assim, quem vai investir, seja estrangeiro ou brasileiro?

À crise moral e econômica sobrepõe-se uma crise política, que retroalimenta a desconfiança. O Partido dos Trabalhadores (PT), partido no governo, sofre deterioração e até o ex-presidente Lula, que parecia imune, começa a perder imagem. As denúncias de corrupção atingem-no e põem em questão a própria presidenta,Dilma Rousseff. Paira sobre ela o fantasma de um julgamento político que teria de apoiar-se na evidência de um delito pessoal dela. Não apareceu uma prova direta que a envolva, mas a ameaça está presente, como também indica uma denúncia perante o Supremo Tribunal Eleitoral pelo uso em campanha de recursos espúrios oriundos de fraudes públicas. Como se fosse pouco, permeia uma sensação de fraude intelectual, porque Dilma fez uma campanha prometendo estimular a economia e acusou o social-democrata Aécio Neves de ser o candidato dos bancos. Assim que chegou à presidência, nomeou um banqueiro como ministro da Economia e lançou um ortodoxo programa de ajuste fiscal. Isso constituiu outro combustível para a fogueira que já fumegava.

Ninguém duvida que seria ruim para a democracia se Dilma não terminasse seu mandato. Mas, como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, se não houver um gesto de grandeza da presidenta “assistiremos à desarticulação crescente do Governo e do Congresso”. Esse é o dilema de hoje. Encurralada, a presidenta encarou uma reforma de seu desmesurado gabinete de 39 ministros, reduzindo seu número, mas tendo que contemplar uma nuvem de pequenos partidos e o poderoso PMDB, seu principal aliado, hoje com um frágil apoio. Assim, não parece que vá acontecer esse choque de confiança que se espera. Com emplastros e remendos, tudo continuará se esgarçando e a sétima potência econômica do mundo, o gigante latino-americano, continuará a se arrastar em um agônico declive.

Julio María Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai

Meu bandido favorito


Em relação à crise político-criminal em curso, os lados em litígio unem-se em torno de um mesmo refrão, que soa como um solene apodítico: as instituições estão sólidas e garantem a lisura do processo democrático. Estão?

No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há pelo menos três ministros – Dias Toffoli, Luciana Lóssio e Maria Theresa Moura – que, antes de lá chegarem, foram advogados do PT, atuando, inclusive, em campanhas eleitorais.


São agora chamados a julgar contas e atos de campanhas eleitorais de seus ex-clientes, sem que nenhum se ache nem remotamente suspeito para fazê-lo. Ninguém argui também essa óbvia suspeição. A ministra Luciana Lóssio chegou a pedir vistas do processo que, com maioria já estabelecida, instaurava investigação das contas da campanha de Dilma, acusada pela Lava Jato de receber doações de dinheiro roubado da Petrobras.

Diante das pressões da sociedade, e tão somente por isso, acabou devolvendo o processo e as investigações foram abertas.

No Supremo Tribunal Federal (STF), fala-se em “bancada do PT” – e a imprensa acostumou-se, com a maior naturalidade, a avaliar previamente o resultado das votações, com base nesse pressuposto. Tem acertado.

No Superior Tribunal de Justiça (STJ), o quadro não é diferente. Fala-se em “ministros do PMDB, do PT”, e repete-se, com eficácia, o exercício adivinhatório que precede as votações.

A recente nomeação do desembargador Marcelo Navarro, que não encabeçava a lista tríplice – e a praxe é nomear quem a encabeça -, gerou polêmicas de fundo político-partidário.

No Ministério Público, dá-se o mesmo, e o protagonismo presente do órgão evidencia o problema. O procurador-geral, Rodrigo Janot, até aqui, não denunciou nenhum político do PT – nenhum! - em decorrência das delações premiadas da Lava Jato, que tem o partido como carro-chefe da roubalheira na Petrobras.

Entre outros, foram denunciados pelos delatores ao juiz Sérgio Moro dois ministros de Estado, Edinho Silva e Aloizio Mercadante. A própria Dilma foi denunciada por nada menos que seis delatores em busca de premiação.

O procurador, no entanto, não se manifestou. Mas não hesitou em denunciar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cuja atuação tem sido contrária aos interesses do governo, e o senador José Agripino Maia, presidente do DEM, que, por óbvio, não participou do Petrolão. Seu caso é, comparativamente, de propina miúda.

Não que essas denúncias sejam infundadas, ou que não devessem ser feitas, mas não se comparam, em gravidade, extensão e profundidade com as que envolvem a turma do PT.

O que se questiona não são as denúncias feitas – de Cunha e Agripino -, mas as não feitas. Tem-se, digamos assim, a impressão de uma investigação seletiva, que busca obstar o processo de impeachment. Seletiva é também a indignação do pessoal do PSol e adjacências, que investe contra Cunha e simultaneamente finge ignorar a situação dos dois ministros de Dilma – e ela própria - envolvidos em denúncias bem mais cabeludas.

Cunha, em face da denúncia, está, segundo eles, moralmente incompatibilizado com o exercício do cargo; Edinho Silva e Mercadante (para não falar da própria Dilma), não. ???!!

Nenhum dos críticos de Cunha, até aqui, se escandalizou com a informação de que Lula, no exercício da presidência da república, vendeu uma medida provisória à indústria automobilística, a 471, prorrogando a vigência da isenção do IPI.

A transação rendeu aos lobistas intermediários – em que se inclui um filho de Lula, Luís Cláudio – nada menos que 36 milhões de reais, quase quatro vezes o valor dos depósitos de Cunha em bancos suíços (US$ 2,4 milhões, segundo a denúncia).

Se as instituições tivessem a solidez que se propaga, o PT, que comandou o Petrolão – e a rapina até aqui, segundo disse ontem o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, deve superar os 20 bilhões de reais, a maior da história da humanidade, segundo o The New York Times - teria a precedência nas denúncias.

Mas não é o caso, o que indica, ao contrário do que se diz, o aparelhamento das instituições. E acaba gerando um quadro bizarro: de um lado, os governistas, investindo contra os malfeitores que os incomodam – e apenas contra estes; de outro, a oposição investindo na defesa desses mesmos malfeitores, na expectativa de que apressem o impeachment. Um enredo perfeito para um filme cujo título seria “Meu bandido favorito”.

Não há dúvida: as instituições estão funcionando – só que pelo avesso.

Dilma só sai após concluir a destruição do país


Todos já sabiam que a presidente Dilma Rousseff nada entende de Economia Política,embora alardeasse na internet ter mestrado e doutorado, que depois se constatou serem apenas uma das invencionices dela. E como realmente ficou comprovado que nunca fez mestrado nem doutorado, também pode-se até duvidar que tenha cursado alguma faculdade de Economia, tal o seu despreparo.

Agora, constata-se que os brasileiros elegeram (e reelegeram) para a Presidência da República uma autoproclamada mulher sapiens que nada entende também de administração pública ou de política. É uma estranha no ninho do Planalto/Alvorada.

Ao contrário do lendário Rei Midas, que transformava em ouro as coisas nas quais tocava, a presidente Dilma consegue destruir o que aparece à sua frente. Podem reparar: tudo o que é feito pelo primeiro escalão do governo sempre dá errado. Há quase um ano tenta fazer um ajuste fiscal que não existe nem tem Plano B, enquanto a economia vai derretendo.

Vejam bem: em junho de 2014 a presidente foi advertida pelo então presidente do TCU, Augusto Nardes, sobre as irregularidades em sua prestação de contas. E o que fez ela? Ao invés de se adaptar e obedecer às normais legais, fez exatamente o contrário e extrapolou as pedaladas e a maquiagem das contas, baixando dez decretos inconstitucionais, para fazer despesas não-autorizadas pelo Congresso. Um festival de crimes de responsabilidade em série, puníveis com impeachment.

Depois veio a público alegar que não sabia de nada e a culpa era no secretário do Tesouro, Arno Augustin.

O TCU então deu à presidente todas as oportunidades de se defender, até adiou duas vezes o julgamento das contas. E como dona Dilma respondeu a essas gentilezas? Simplesmente mandou alegar a suspeição do relator Augusto Nardes, e simultaneamente foi logo recorrendo duas vezes seguidas ao Supremo, numa confusão total.

Como tudo o que o governo faz dá errado, o resultado foi a decisão do TCU por unanimidade, propondo a rejeição das contas e abrindo fundamentação jurídica para o impeachment.

Sinceramente, o comportamento da presidente Dilma Rousseff não parece normal. Será que as anfetaminas que toma para manter a dieta não estão lhe fazendo mal? Não seria caso de terapia? O que ela enfim pretende? Vai se agarrar ao governo como uma preguiça pendurada na árvore, incansavelmente imóvel? Até onde vai levar esta farsa? Não governou durante quatro anos e dez meses, quer continuar assim até o final de 2018? Ou seja, só pretende sair do governo depois de concluir a destruição do país?

Como dizia o humorista Agildo Ribeiro, perguntar não ofende. Especialmente quando todos sabem a resposta.

Uma carnificina arduamente conquistada


O Brasil teve 58.559 homens, mulheres e crianças assassinados em 2014. Não tem maquiagem nem desvio. Só foram contados os homicídios dolosos oficialmente definidos como tal no país em que só 8% dos casos que a PM, que patrulha as ruas, leva à Policia Civil, que tem o monopólio da porta de entrada do sistema penal e processual mais intrincado e cheio de vazamentos do mundo.

São 5, indo para 6 vezes o que o Estado Islâmico matou em um ano na ultima vez em que a ONU fez essa estatística. Somos o 16º país mais violento do mundo em quase 200 medidos. Temos 2,8% da população mundial e 11% dos assassinatos do planeta. 28,9 de cada 100 mil brasileiros foram intencionalmente trucidados na rua no ano de 2014. São Paulo, o estado que mais prende e que vive sendo alvo de críticas ferozes de acadêmicos e jornalistas para demonstrar que “repressão é o pior remédio contra o crime, só serve para aumentar a violência dos criminosos”, tem o melhor índice do país com menos da metade da média nacional: 12,7 assassinados por 100 mil habitantes. A média mundial é de 6,2 por 100 mil. A dos Estados Unidos, com toda a sua apedrejada “cultura armamentista” e os massacres recorrentes perpetrados por malucos suicidas é de 4,7 pessoas por 100 mil. A da Suiça onde não ha um exército formal e cada cidadão é obrigado por lei a ter uma arma de guerra em casa, a taxa é de 0,6 assassinados por 100 mil habitantes.

Não obstante todos esses “elementos probatórios”, no entanto, uma boa parte da imprensa e das autoridades constituídas brasileiras, com a Rede Globo de Televisão à frente, continua impávida fazendo uma campanha cerrada para nos provar que quem assassina esses 58.559 brasileiros todo ano “são as armas” e não quem as aponta para alguém e puxa o gatilho, e que a solução para isso é “proibir a circulação de armas” mas manter circulando nas ruas os que as fazem disparar contra seus semelhantes porque prende-los – alem de ser “politicamente incorreto”, vitimas da sociedade que são – seria arriscar “torná-los irrecuperáveis” (como às vidas que eles destroem por motivos cada vez mais fúteis).

Graças à promoção que a televisão dá a todos quantos abraçam essa tese neste país onde toda a gigantesca corrupção que assombra o mundo gira em torno do comércio de tempo de exposição de candidatos na TV, todos os cidadãos honestos e sem ficha na polícia, dos nossos atiradores olímpicos para baixo, foram obrigados a engolir uma das mais draconianas legislações para impedir o seu acesso a armas em todo o mundo. Quem tem uma é tratado pela mídia como um assassino em potencial e pelas pragmáticas autoridades constituídas que tomam carona nela como alguém a ser ordenhado no bolso e na paciência com taxas abusivas e uma burocracia inexplicável por qualquer critério racional deliberadamente ofensiva à sua inteligência e à sua dignidade de cidadão. Tudo isso se transformou numa verdadeira guerra santa depois do povo ter ousado derrotar o desarmamento nas urnas. A Rede Globo, em especial, liderou a campanha para atiçar políticos dispostos a se vender por exposição na telinha para punir o eleitorado rebelde com uma regulamentação que literalmente jogou a expressão da vontade popular no lixo, um comportamento em tudo semelhante ao que ela hoje critica no PT.

É a mesma rede, aliás, que das seis da tarde às 11 da noite, diariamente, exibe novelas com pretensões assumidamente didáticas nas quais, invariavelmente, a traição de todos por todos – pais e mães a filhos e filhas, avós a netos e vice-versa, amantes de todos os sexos e meios-sexos uns aos outros – é apresentada como um padrão desejável de “normalidade” enquanto qualquer tipo de adesão a qualquer tipo de valor moral é apedrejado como manifestação aberrante e odiosa de autoritarismo ou até de desvio psíquico (“fobia”). Outras redes de TV fazem da exploração “gráfica” da violência que hoje rola ao vivo um ritual diário.

Isso não quer dizer que a imprensa e a televisão são as responsáveis diretas pelo massacre em curso. Mas aqueles entre eles que disseminam com uma paixão quase religiosa a idéia de que neste nosso país, na arte como na vida, nenhum efeito tem causa, nenhum ato é fruto de arbítrio, todos somos vítimas “da sociedade” ou “dos estrangeiros” e ninguém, individualmente, tem culpa de nada — tudo que resta fazer são seções de exorcismo contra ferramentas inanimadas — certamente não ajudam esse quadro a melhorar.



A reafirmação reiterada desse tipo de “verdade” é o que incentiva e libera consciências entre o que ha de pior nas nossas “autoridades competentes” para, diante desses numeros aterradores e com o país inteiro assistindo diariamente à chocante banalidade e frieza dos assassinatos ao vivo, determinar que qualquer bandido preso, mesmo em flagrante, que não for apresentado a um juiz dentro de 24 horas, será obrigatoriamente solto porque – danem-se os quase 59 mil mortos! – o que não podemos admitir é o mais leve risco de que os “supostos” autores desse massacre sejam lesados no seu direito à “ampla defesa”.

Acontece que aqui rejeita-se o método universalmente aceito do “ciclo completo de polícia” no qual o policial que primeiro chega à cena de um crime é quem mede as reações dos circunstantes, interroga testemunhas, colhe provas materiais e monta o quebra-cabeças, terminando frequentemente como testemunha-chave dos julgamentos. Mantem-se duas polícias que não falam uma com a outra e enfia-se entre a cena do crime, que é território da PM, e o inquérito que pode levar o seu autor à justa punição, exclusivo da Polícia Civil, um absurdo labirinto burocrático cuja persistência só pode ser explicada pela corrupção que enseja.

O policial que viu os fatos frescos neste país sem escolas fica obrigado a relatá-los por escrito a um delegado e a um escrivão de escritório que respondem a outros chefes seguindo uma fórmula que se não for cumprida à risca tem força até para apagar dos autos o fato relatado, danem-se a verdade, as vítimas e os culpados. Estes delegado e escrivão, se e quando puderem, expedirão outro papel com uma ordem para que alguem volte à cena do crime para “reinterrogar testemunhas” e “colher provas” de que eles “dêm fé”, ordem que frequentemente levará anos para ser executada…

Esse ritual ofensivo à inteligência de qualquer um e criminoso com relação a quem clama por justiça, explica porque temos a impressionante marca de 8% dos crimes relatados transformados em Inquéritos Policiais oficiais, dos quais só 0,8% acabam em condenações, o que quer dizer que é muito maior a probabilidade de um criminoso reincidente ser atingido por um raio do que pagar pelos seus crimes.

O pequeno pormenor desconsiderado pelos “humanistas” que estabeleceram essa regra insana é que a maioria das delegacias da Policial Civil fecha à noite, tendo delegados e escrivães dessa corporação “conquistado o direito”especialíssimo de fazer turnos de 12 horas de plantão por até 96 horas de descanso!!

Não vem ao caso: seja o crime cometido em zona urbana, seja o flagrado pela Policia Rodoviária – de roubo de carga com morte, por exemplo, a segunda facção mais rica e violenta do crime organizado no Brasil – a 300 km de qualquer delegacia aberta, é isso que vai ser: apresentação a um juiz em 24 horas ou nada.

Essa carnificina em meio à qual se esgueiram apavoradas as famílias brasileiras não é, portanto, consequência de um defeito no DNA do famigerado “povinho que deus pôs neste paraíso”. É uma conquista ardua e soberanamente trabalhada.

País governado por uma anedota

Dilma Rousseff vem demonstrando diariamente que tem tudo para fazer bonito como comediante involuntária. No momento, a presidente protagoniza dois vídeos, ambos gravados na recente visita à ONU, que são campeões de audiência na internet. Ela merece.

O primeiro ensina que o mundo seria muito melhor se cultivasse com mais carinho a arte de estocar vento. Isso mesmo: estocar vento. No segundo numerito humorístico, o neurônio solitário usa um acento circunflexo inexistente para abrir a Caixa de Pândora ─ e não Pandora ─ que guarda a pasta de dente que sai de um dentifrício.

Somados, os vídeos imploram pelo pronto despejo da inquilina do Planalto. Impeachment por bandalheiras criminosas é coisa demorada? Que venha imediatamente a interdição formalizada por uma junta de psiquiatras, a camisa de força e a temporada no manicômio.

Gabinete presidencial não foi feito para estocar anedotas. País nenhum merece uma piada no poder.