sexta-feira, 17 de abril de 2015

Sobre as manifestações

Desqualificar os protestos não muda o fato de que não são só os bolsonaros que estão cheios do governo
Mal terminaram as manifestações de domingo, e as redes sociais já estavam cheias de postagens da militância governista, reproduzindo com perversa alegria os seus piores momentos: uma senhora covardemente agredida em Copacabana porque ousou perguntar aos manifestantes se sabiam quem governaria o país se Dilma fosse afastada, um fotógrafo mineiro apanhando apenas porque se parece com o ex-presidente Lula, analfabetos funcionais pedindo intervenção militar em mau português e pior inglês, como se este absurdo não fosse suficiente numa só língua.

Infelizmente, os protestos contra o governo têm mesmo reunido uma turma indigesta. Mas, ao contrário do que se esforçam em fazer crer os posts que atacam as manifestações, essa turma está longe de ser representativa da maioria dos brasileiros e brasileiras que têm ido às ruas. Desqualificar o descontentamento da população apontando para os piores boçais pode até servir de consolo para os petistas, mas não muda o fato de que não são só os bolsonaros da vida que estão cheios do governo.

Dito isso, é triste constatar como o Brasil anda mal frequentado. Em todos os cantos e por toda a parte, a começar naturalmente pela Esplanada dos Três Poderes.

Os idiotas e desmemoriados que pedem intervenção militar estão contaminando as passeatas. Assim como os black blocks nas manifestações de junho de 2013, que também eram minoria, eles comprometem o todo, e podem afastar — se é que já não estão afastando — as pessoas que estão descontentes, gostariam de se fazer ouvir, mas não querem compactuar com essa sandice.

“Esquerda” e “direita” são conceitos maniqueístas ultrapassados. Ainda são utilizados porque não interessa aos fundamentalistas de um e de outro lado perceber a imensa gama de posições políticas que existe entre os dois extremos. Aos dois lados, que são muito mais parecidos do que diferentes, interessa dividir o país e semear o ódio.

O PT, por estar no poder, tem mais culpa pela polarização do que qualquer outro partido. Cabe aos vencedores estender a mão aos vencidos, e não o contrário. Se Dilma Rousseff fosse minimamente dotada para o cargo, teria feito um belo discurso de conciliação nacional ao tomar posse, ao invés de ignorar por completo a oposição; se Lula estivesse minimamente preocupado com os rumos do país, falaria para todos e em todos, e não em “nós” e “eles”. Estadistas que cuidam de um país, ao contrário de oportunistas que cuidam de um partido, se dirigem a todos os cidadãos, indistintamente. Cultivam a união, e não a cizânia.

O que esperam os luminares do PT ao bater nessa tecla? Acham que não enfrentarão reação alguma? Acham que as pessoas que não votaram em Dilma vão cobrir a cabeça de cinzas e aceitar, humildemente, as incontáveis ofensas que lhes são dirigidas pelo establishment?

Não se iludam. A cada ação corresponde uma reação igual e contrária. Quando Lula ameaça convocar o “exército do Stédile”, os defensores da intervenção militar correm a pintar suas faixas e a telefonar para os generais; quando Dilma participa de atos do MST, os outros imbecis também perdem a modéstia.

Nas redes sociais, na mídia e por toda a parte as pessoas se perguntam por que houve menos gente nas ruas no domingo passado do que no dia 15 de março, uma vez que os índices de rejeição ao governo continuam iguais, se não maiores. Como todo mundo, eu também tenho as minhas teorias.

Para começo de conversa, acho que as duas datas foram muito próximas: para quem ainda tem quatro anos de Dilma pela frente, fazer uma passeata por mês é desgastante e, convenhamos, um tanto inútil. A manifestação do dia 15 de março foi importante para mostrar ao governo o grau de insatisfação que sentimos; mas o governo sabe, e nós sabemos que ele sabe, que esse sentimento não mudou de lá para cá. É possível que, uma vez dado o recado, não seja necessário repeti-lo com tanta frequência.

No caso específico do Rio, a Atlântica não é uma boa avenida para protestos. Há lugares que representam o coração das cidades, onde todos os moradores têm uma sensação de pertencimento igual; mas a Atlântica não é um deles. Ela é Zona Sul demais, elite demais. O Centro sempre foi o ponto nevrálgico do Rio, o bairro para onde todas as tribos e classes sociais convergem nas grandes manifestações de cidadania.

Finalmente, acho que, como as manifestações de 2013, as deste ano também carecem de foco. Isso ficou claro nos cartazes exibidos, que tinham de tudo, de reclamações contra a infame tomada de três pinos a declarações perigosamente reacionárias.

Ora, ninguém consegue ficar protestando contra “tudo isso que está aí” indefinidamente. As primeiríssimas manifestações, tanto aquela de junho quanto essa de março, serviram para tirar o grito que estava entalado na nossa garganta coletiva. Dado o berro inicial e libertador, porém, é preciso uma pauta mais concreta. Faltam palavras de ordem. Mesmo o “Fora Dilma!”, tão repetido, não é suficientemente representativo, nem tem a força da unanimidade do antigo “Fora Collor!”

A militância petista insiste em dizer que as manifestações têm alma de golpe, que os pedidos de impeachment da Dilma são golpe, que a oposição é movida a golpe. Veem golpe em toda a parte. Só não perceberam o golpe que foi dado debaixo do seu nariz. Elegeram o PT, mas agora estamos, oficialmente, nas mãos do PMDB.

Pensando bem, quando é a próxima manifestação?

Cora Rónai 

Resultado de imagem para manifestação de domingo nas ruas

A operação Zelotes e os ladrões blindados

Nada parece ser tão compensador quanto ser empresário ladrão no Brasil. Organizam um saque sistemático aos cofres públicos, são pegos com a boca na botija e recebem de troco incrível blindagem midiática. Falo do maior escândalo de corrupção da história recente do país. Não, não é o da Petrobras. O assim chamado “petrolão”, com todas as suas conexões partidárias – do PT ao PSDB, passando pelo PMDB de Renan Calheiros e Eduardo Cunha –, representou um desvio estimado em R$ 2,1 bilhões, segundo o Ministério Público Federal.

Muito dinheiro, é verdade. E um caso revelador do modus operandi do sistema político brasileiro, fundado no financiamento privado das campanhas eleitorais. Ou, como confessou Paulo Roberto Costa: “Não existem doações de campanha, só empréstimos a juros altos”. Mas, evidentemente, não é por aí que vai a exploração midiática do caso .

O mais impressionante é que, no final de março, há menos de quinze dias, explodiu um escândalo de proporções maiores que o da Petrobras, mas alvo de cuidadosa blindagem. A operação Zelotes da Polícia Federal descobriu um esquema de desvio de recursos públicos por grandes empresas

Operado através do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), com a mediação de escritórios de advocacia, empresas conseguiam anular ou reverter multas bilionárias com o poder público, mediante propinas a conselheiros. Estão sob investigação mais de 70 companhias, totalizando um desvio de R$ 19 bilhões. Quase dez vezes o valor desviado da Petrobras.

Apenas o montante do maior processo, do banco Santander, é de R$ 3,34 bilhões. O segundo maior, do Bradesco, é de R$ 2,74 bilhões. Cada um deles, sozinho, supera os R$ 2,1 bilhões da Petrobras. Somente os 12 casos em que a Polícia Federal detém provas mais conclusivas –incluindo os dois bancos citados– representam um rombo de R$12 bilhões aos cofres públicos.

Um deles é o do grupo de comunicação RBS, a maior afiliada da Rede Globo, investigada na Zelotes pela fraude num processo de R$ 671 milhões.

Corrupção graúda, protagonizada por magnatas das finanças e do mundo corporativo. Mas onde estão as manchetes histriônicas? E o som das panelas? Seria pedagógico para o país ver multidões de verde e amarelo manifestando-se em frente ao Santander, pedindo nosso dinheiro de volta. Só que não.

Nem no Santander, na Gerdau, no Bradesco e na Ford. Nem no Safra, na Mitsubishi. A Mitsubishi, tão limpinha! Essa é a imagem do setor privado no Brasil, sempre positiva, apresentado como alternativa à roubalheira no setor público.

A preservação desta imagem, mesmo após escândalos como o da Zelotes e do HSBC, só se explica pela blindagem que os grandes grupos econômicos conseguem garantir junto à maior parte da mídia, da qual são também poderosos anunciantes.

É inaceitável que os grandes corruptores continuem tendo suas identidades preservadas e tratados como coadjuvantes, mesmo sendo desde sempre os maiores beneficiários dos esquemas.

São ladrões blindados. Saem da lama limpinhos e cheirosos. E se, por descuido, vier algum respingo à marca, nada que a próxima campanha publicitária –quiçá paga com dinheiro desviado da Receita– não possa resolver.

Denúncias seletivas, indignação seletiva e acusados seletivamente blindados. Essa é a turma que fala em limpar o Brasil da corrupção?

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Resposta rápída

Vaccari e preso policia federal puxa lata empilhada pt desaba estrela

Por que Dilma recusou João Vaccari Neto, tesoureiro da campanha de 2010, para o mesmo cargo em 2014?
As investigações apontam que "Moch", o tesoureiro do Brasil, conseguiu doações ilegais naquela época. Dilma não queria se arriscar a deixar o cargo pelas irregularidades de um mero tesoureiro, que foi o homem forte das finanças sob o comando de Lula, sempre desafiando tudo e todos na maior cara de pau. 

Ao indicar Fachin, Dilma exibe menosprezo ao Congresso

Ficou na dúvida, escolheu o pior e agora não sabe o que acontecerá
O discurso que valeu a ida ao STJ


Quando surgiram as primeiras informações na internet sobre a indicação do professor Edson Fachin para o Supremo Tribunal Federal, ficou difícil de acreditar. Pareciam especulações, que podem ser desmentidas ou não. Diante do silêncio do Planalto, logo ficou patente que a notícia era verdadeira, embora só viesse a ser confirmada muitas horas depois, o que demonstrou que a presidente Dilma Rousseff ainda estava na dúvida e demorou até se decidir.
Ao escolher Fachin, ficou claro que a chefe do governo não estava apenas em busca de um jurista de notório saber e reputação ilibada. O que ela verdadeiramente pretendia era peitar o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), que há duas semanas havia alertado que os senadores não aprovariam um nome com “DNA do PT”.

Esta declaração de Renan foi indevida e importuna, não há dúvida, mas refletia o pensamento dos senadores. Esperava-se que a presidente da República, que precisa desesperadamente recuperar parte do prestígio perdido, desta vez indicasse para o Supremo um jurista de notório saber, reputação ilibada e isento, sem vinculação com qualquer partido político.

Mas Dilma bateu pé, fez beicinho e encaminhou ao Senado justamente o nome de um advogado muito ligado ao PT, que já chegou a ponto de pedir votos para o partido. Portanto, não tem a menor isenção, jamais poderia ser ministro do Supremo. Se fosse um simples juiz, jamais poderia participar de um julgamento que envolvesse o partido ou seus membros, pois teria de se considerar suspeito. E se Dias Toffoli não tem essa grandeza, como esperar que Fachin a tenha?

Não se trata de questionar seu notório saber, mas sim a neutralidade e a imparcialidade que se deveria exigir de um ministro do Supremo. Portanto, cabe uma reflexão sobre o que seja reputação ilibada. Afinal, que conceito é este? Fachin teria mesmo reputação ilibada? Para sabê-lo, certamente será necessário averiguar e analisar os contratos de seu escritório de advocacia, para saber quem eram seus clientes, com objetivo de apurar se prestava ou não serviços ao governo federal.

Chama a atenção o fato de ter participado de última campanha política, dando nítida impressão de compromissos político-partidários, inclusive quando atacou governos de FHC e defendeu os governos Lula, pedindo votos para Dilma. Terá este jurista a reputação necessária para manter a imparcialidade em seus votos? Sabemos que já houve indicação de advogado do PT, no caso, Dias Toffoli, mas agora estamos falando de um militante partidário.

Os jornais divulgaram que a presidente Dilma teria consultado o senador Renan Calheiros, que concordara e até se prontificara a defender o nome de Fachin. Será que Renan realmente mudou de opinião? Ou simplesmente deu força a mais erro político da presidente, para que ela seja novamente humilhada no Congresso?

Com apoio ou sem apoio de Renan, a perspectiva é de que Fachin deverá ter problemas na sabatina do Senado. Não é a primeira vez que um nome indicado pelo governo enfrenta resistências no plenário. O presidente Jânio Quadros, por exemplo, indicou o empresário pernambucano José Ermírio de Moraes para embaixador, mas o Senado recusou. Moraes ficou furioso, entrou na política e também se elegeu senador. Muitos anos depois, no leito de morte, fez os dois filhos (José e Antonio Ermírio) prometerem jamais entrar na política.

Agora, Dilma Rousseff se arrisca a repetir Jânio Quadros e ser derrotada no Senado. Ela hoje reina, mas não governa. E parece ter se tornado uma espécie de Rei Midas ao contrário, pois tudo o que Dilma faz acaba dando errado. Vai ficar na História como encarnação da célebre Viúva Porcina, criada por Dias Gomes, “aquela que foi sem nunca ter sido”
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Carlos Newton

O novo mito dos movimentos

Os únicos aparelhos por trás das manifestações chamam-se Samsung e iPhone, mas os gritos saem da alma

O PT cultiva o mito dos “movimentos sociais”. Em torno das multidões que vão para a rua pedir que ele se vá do governo gravita o novo mito, o dos “movimentos da rua”. Em tese, eles representam as manifestações. Há o “Vem pra Rua”, o “Movimento Brasil Livre”, o “União Contra a Corrupção”, o “Revoltados Online” e o “Pesadelo dos Políticos”. São todos filhotes das redes sociais que já levaram perto de três milhões de pessoas para as ruas sem que tenham distribuído uma só quentinha. Pelo contrário, geraram um mercado de ambulantes e em São Paulo uma espiga de milho cozida custava R$ 5.

Salvo os gritos contra a corrupção e o “Fora Dilma”, esses movimentos pouco têm a ver um com o outro. A maioria deles esclarece que não propõe iniciativas fora da Constituição. Mesmo assim, produzem-se excentricidades. Na Avenida Paulista havia um carro de som com cartazes em inglês e um orador que discursava também em inglês, ajudado por um tradutor. Denunciava a tentativa de bolchevização da América Latina. Mais adiante, noutro caminhão, havia personagens vestindo roupas de camuflagem militar. Um deles, no sol, com capacete de combate.

Quem foi para a rua seguiu um impulso para manifestar-se contra o governo e o PT. Fora daí, por enquanto, o aparelho que os conduziu pode ter sido um Samsung ou talvez um iPhone. O meio foi irrelevante, a essência esteve na mensagem: “Fora Dilma”.

Tudo bem, resta saber como. Admitindo-se que até agora três milhões de pessoas tenham ido às ruas para pedir que a doutora seja dispensada, faltam 500 mil para cobrir apenas a diferença entre sua votação e a de Aécio Neves (54,5 milhões x 51milhões). Ficando-se nos números do Datafolha, 63% dos entrevistados querem que se abra um processo de impedimento. Nesse grupo, um terço não sabe quem irá para o lugar. Entre eles, metade não sabe quem é Michel Temer. Só 12% dos entrevistados juntaram lé com cré.

Quem votou em Dilma e está arrependido poderá cobrar uma parte da conta na eleição municipal do ano que vem. O PT tem 22 prefeitos nas 85 cidades com mais de 200 mil eleitores. É petista o prefeito da cidade onde fica a Avenida Paulista. A fatura final só poderá ser cobrada em 2018. Fica o argumento de que Fernando Collor foi posto para fora no meio do mandato. Levado às últimas consequências, esse paralelo joga uma urucubaca sobre o sistema democrático brasileiro, pois, nesse caso, de cada quatro presidentes, dois não conseguem concluir seus mandatos. Sabendo-se que Lindberg Farias, o líder dos cara-pintadas do movimento de 1992, é hoje um senador (PT-RJ) e compartilha com o colega Fernando Collor a lista do procurador Rodrigo Janot, pode-se concluir que a política brasileira foi mal, mas os produtos dos movimentos estão no mesmo barco.

A doutora Dima ainda não sabe o que fazer com a rua. Enquanto busca uma resposta, pode botar seu governo para funcionar. No início do mês, ela determinou que seus 39 ministros não usassem os jatinhos da FAB para viajar aos seus estados nos fins de semana. Três deles já driblaram a proibição. Um, com 12 convidados para um evento que durou três horas. O pessoal que paga a conta e vai pra rua voa na rede comercial.

Elio Gaspari

Um líder se apagando

image

República das faixas

O afã de se promover às custas de qualquer obra pública tem levado algumas autoridades brasileiras a flertar com o ridículo. Em Brasília, os servidores do Senado ganharam há três anos um novo refeitório para o almoço. Entre uma garfada e outra, uma placa na parede não os deixa esquecer: o espaço foi inaugurado na gestão do ex-presidente José Sarney.

No Rio, quem frequenta a Lagoa Rodrigo de Freitas se depara desde o ano passado com um “banco panorâmico” decorado com pastilhas coloridas. Só há espaço para poucas pessoas se sentarem, mas foi o suficiente para que o município instalasse um letreiro com o nome do prefeito Eduardo Paes.

A desfaçatez dos políticos para falar de si mesmos não é novidade. O que espanta é que em pleno século 21 eles ainda teimem em espalhar seus nomes em placas e pedras fundamentais, mesmo que a obra a ser exaltada seja um mero banco de praça ou um bandejão.

Se prestar atenção, o leitor vai encontrar outros exemplos perto de casa. As placas estão por toda parte: viadutos, calçadas, estações de metrô. São pagas com o dinheiro de todos, o dinheiro dos impostos.

“Os governantes ‘autografam’ qualquer cômodo que mandam reformar, e não se envergonham disso”, observa Eugênio Bucci em seu novo livro, “O Estado de Narciso”.

O professor compara esses políticos a adolescentes que levam um canivete no bolso para gravar o apelido em bancos de madeira.

“Os ocupantes de cargos públicos rabiscam seus nomes e sobrenomes em todo lugar. Não percebem que fazer placa oficial com o próprio nome é uma forma legalizada de pichar o espaço público”, critica.

Além do desperdício com placas e letrinhas, está em jogo um princípio constitucional: o da impessoalidade. Numa democracia, o que é feito pela administração pública deve pertencer ao público - e não aos administradores de plantão.

Bernardo Mello Franco

Se é para colocar faixas, Maricá sai na frente


Detalhe é que as placas indicam a mesma obra, mas uma destaca apoio federal e a outra simula uma obra inteiramente feita com recurso municipal. Em qual acreditar?  

Os índios e o golpe na Constituição

Por que você deve ler essa coluna “apesar” da palavra índio

Os índios vão ocupar Brasília nesta semana. Ao escrever a palavra “índio”, perco uma parte dos meus leitores. É uma associação imediata: “Índio? Não me interessa. Índio é longe, índio é chato, índio não me diz respeito”. E, pronto, clique fatal, página seguinte. Bem, para quem ainda está aqui, uma informação: mais de mil lideranças indígenas ocupam Brasília de 13 a 16 de abril em nome dos seus direitos, mas também em nome dos direitos de todos os brasileiros. Há um golpe contra a Constituição em curso no Congresso Nacional. Para ser consumado, é preciso exatamente o seu desinteresse.

Guarde essa sigla e esse número: PEC 215. Quando se fala em PEC 215, só a sigla e o número já afastam as pessoas, porque neles estão embutidos toda uma carga de burocracia e um processo legislativo do qual a maioria da população se sente apartada. Os parlamentares que querem aprová-la contam com esse afastamento, porque a desinformação da maioria sobre o que de fato está em jogo é o que pode garantir a aprovação da PEC 215. Se durante séculos a palavra escrita foi um instrumento de dominação das elites sobre o povo, hoje é essa linguagem, é essa terminologia, que nos faz analfabetos e nos mantém à margem do centro do poder onde nosso destino é decidido. É preciso vencer essa barreira e se apropriar dos códigos para participar do debate que muda a vida de todos. A alienação, desta vez, tem um preço impagável.

O que é uma PEC? PEC é uma Proposta de Emenda à Constituição. Um instrumento para, em tese, aprimorar a Constituição de 1988. O que essa PEC, a 215, pretende, em resumo, é transferir do Executivo para o Congresso o poder de demarcar terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação. Só que o resumo, como a gente sabe, nunca explica muita coisa. O direito ao território ancestral é uma garantia fundamental da Constituição porque a terra é parte essencial da vida dos índios. Sem ela, condena-se povos inteiros à morte física (genocídio) e cultural (etnocídio). Isso explica por que, em 2012, um grupo de Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul pediu, numa carta aos brancos, que fossem declarados mortos.Preferiam ser extintos a ser expulsos mais uma vez:

“Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais”.

Sem a terra de seus ancestrais, um índio não é. Não existe. Os Guarani Kaiowá, uma das etnias em situação mais dramática do Brasil e possivelmente do mundo, testemunham o suicídio de um adolescente a cada seis dias, em geral enforcado num pé de árvore, por falta de perspectiva de viver com dignidade no território dos seus antepassados. Por isso esse grupo afirmou que preferia morrer a ser expulso, mais uma vez, porque pelo menos homens, mulheres e crianças morreriam juntos, já que os indígenas se conjugam no plural, e morreriam no lugar ao qual pertencem.
O pacote maligno

O poder de demarcar terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação é atribuído ao Executivo pela Constituição não por acaso, como se fosse um jogo de dados, em que a sorte determina o resultado e tanto faz. Foi atribuído por critérios claros, estudados em profundidade, com o objetivo de reconhecer direitos e proteger o interesse de todos os brasileiros. É o Executivo que tem a estrutura e as condições técnicas para cumprir o rito necessário à demarcação, desde equipes capacitadas para fazer os estudos de comprovação da ocupação tradicional até a resolução de conflitos e a eventual necessidade de indenizações. Da mesma forma, é bastante óbvio que a criação de áreas de preservação são parte estratégica da política social e ambiental de qualquer governo.

Quando os parlamentares tentam tirar o poder de demarcação do Executivo para entregá-lo a eles próprios, o que estão tentando fazer não é aprimorar a Constituição, mas dar um golpe nela. Na prática, a PEC 215 é apenas a pior entre as várias estratégias em curso para acabar com os avanços da Constituição no que diz respeito à preservação do meio ambiente e aos povos indígenas, aos quilombolas e aos ribeirinhos agroextrativistas que o protegem.Na prática, se a PEC 215 for aprovada, o mais provável é a paralisação do processo de demarcação de terras indígenas e quilombolas, assim como a paralisação da criação de unidades de conservação. É nesse ponto que a PEC 215 passa a ameaçar também o direito fundamental de todos os brasileiros a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e, por extensão, ameaçar o direito à vida.

PT desmoralizou o vermelho

O lulopetismo conseguiu uma façanha que vai entrar para a história universal: nunca tão poucos safados conseguiram chegar tão longe a ponto de desmoralizarem o vermelho. A cor da luta como nas revoluções francesa, russa e chinesa, na Comuna de Paris, em 1871, nas camisas dos revolucionários de Giuseppe Garibaldi, e nos lenços dos maragatos, simboliza hoje, no Brasil, a cor da corrupção.

Foram tão longe e com tanta gana de encher as burras que emporcalharam até mesmo as próprias bandeiras vermelhas do Partido dos Trabalhadores, não o de hoje, um mero antro de meliantes, mas o de ontem, que era símbolo de ética, motivo de orgulho.

E continuam a usar o vermelho como pano de chão para limpar o que emporcalham, encobrir os rombos. Sequer ficam vermelhos, pudera, com a institucionalização do assalto a mão armada do governo. No máximo, tudo é cor de rosa, pálida de vergonha, quando a têm - ainda poucos - de deixar de lembrança na história familiar a pecha de marginal.

Exército suspeito do MST

Lula convocou o exército do MST. João Pedro Stédile, general-mor dos sem-terra, bateu continência: "Vamos enfrentar a burguesia". Semana seguinte, começaram a estripulia. Bloquearam rodovias, ocuparam fazendas, invadiram prédios públicos e agências bancárias.

Guerra declarada.

Misturaram a causa agrária com a defesa da Petrobrás. Segundo o MST, a estatal está seriamente ameaçada pela pressão do capital internacional, correndo risco de ser privatizada pelos imperialistas. Entendeu? Na reforma agrária, a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Camponesas e a Jornada Unitária do Campo mobilizaram cerca de 20 mil pessoas, brandindo foices e facões, em 22 Estados mais Brasília. Violentos.

A pergunta é: quem paga a conta dessas manifestações do MST? Vamos comparar. Em São Paulo, naqueles mesmos dias, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) organizou, na Avenida Paulista, um ato para defender o governo Dilma. Também juntou perto de 20 mil pessoas. Os próprios participantes afirmaram ter recebido uma espécie de "kit protesto", com petrechos, incluindo o transporte gratuito e um "vale" entre R$ 35 e R$ 50. Multiplicado pelo total, a ação da CUT custou, no mínimo, R$ 2 milhões. Onerou o imposto sindical.

Nós, provavelmente, é que estamos pagando a conta das manifestações dos sem-terra. O dinheiro dos ônibus, das camisetas, dos lanches, das faixas parece estar saindo dos convênios entre o governo e certas entidades ligadas ao MST. Com esses acordos se irriga o movimento com recursos do Orçamento da União. Vem de longe tal conjectura.

Em dezembro de 2003 uma comissão parlamentar de inquérito, mista de senadores e deputados, se formou para analisar a questão. A CPMI da Terra ouviu 125 pessoas, de todos os lados. Colheu vários depoimentos em segredo de Justiça. Acionou o Tribunal de Contas da União (TCU). Resultado: descobriu-se grande sujeira debaixo do tapete do MST. Duas organizações, na verdade, apareciam como operadoras, ou controladoras, dos principais convênios daquela época: a Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca) e a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab). O MST, sabe-se, nunca teve personalidade jurídica nem apresenta balanço contábil.

Chamados a depor na então CPMI da Terra, os responsáveis pelos braços operacionais do MST não abriram a boca. Francisco Dal Chiavon avocou o direito constitucional de permanecer calado por 27 vezes. José Trevisol emudeceu na resposta de 25 perguntas, Emerson Rodrigues da Silva também permaneceu horas repetindo o jargão daqueles que temem a verdade. Um vexame. Inidôneas se tornaram a Anca e a Concrab.

Passaram-se os anos. Nenhuma providência concreta foi tomada. Hoje a situação permanece mais nebulosa ainda. Levantamento executado a partir do Portal da Transparência mostra que o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) repassou, entre 2003 e 2014, a enormidade de R$ 2,75 bilhões - sim, bilhões! - a 1.424 entidades civis. Muito dinheiro.

Lidera a lista das beneficiadas a Fundação para o Desenvolvimento do Semiárido Nordestino. Fui ao Google procurar conhecer tal ONG. Não localizei sequer seu site. Como teria ela aplicado os R$ 58 milhões que recebeu, em sete convênios, para investir na reforma agrária? Em segundo lugar aparece a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), que recebeu R$ 48 milhões. Essa entidade pelo menos é histórica. Seguindo-a está o Instituto Creatio. Pesquisei na internet. Trata-se de uma ONG, de Mato Grosso, que afirma atuar repassando recursos públicos nas áreas de educação, cultura e, principalmente, saúde. Nada consta sobre reforma agrária. Muito estranho. Depois se encontra a surpreendente Associação de Produtores Rurais Boa Esperança. Alguém sabe onde fica tal associação? Há várias com nomes parecidos: uma em Querência (MT), outra em Primavera (PA), outra em Seringueiras (RO). Todas pequeninas. Alguma delas faturou R$ 36,3 milhões do MDA. Por aí vai. A lista completa das entidades conveniadas encontra-se em www.xicograziano.com.br.

É de arrepiar o cabelo. Mas o grande mistério mora noutro lugar. O MDA também repassa parte de seus recursos orçamentários à Caixa Econômica Federal (CEF). Daí, a CEF distribui o dinheiro, via convênios, para execução de serviços e obras nos assentamentos agrários. Entre 2003 e 2014 firmaram 8.303 convênios, no valor de R$ 1,98 bilhão. O Portal da Transparência diz que 84% já foram liberados. Não informa, porém, o destino. Não se divulga a execução prática nem a respectiva prestação de contas. Funciona assim, terceirizada e oculta, a reforma agrária no Brasil.

Não se deve generalizar. Muitos convênios, por certo, aplicam corretamente o recurso público, ajudando os menos favorecidos no campo. Existem ONGs sérias e responsáveis. Mas o joio mistura-se no trigo. Falta transparência, existe manipulação política. Tudo piorou quando, na partilha do poder efetuada por Lula em 2003, o MST passou a controlar o Incra. Escalou seus quadros dentro da instituição. Garantiu o soldo de seu exército.

Pense no petrolão. Depois da Operação Lava Jato, que fez aflorar toda aquela podridão, fica difícil botar fé na ética do poder. Ninguém sério acredita que esse assunto nebuloso dos convênios com organizações agrárias tenha michado. Ao contrário, com certeza o ralo se aprofundou.

Gato escaldado tem medo de água fria. Chegou a hora de esgoelar. Apertar a fiscalização. Milhões, em nome da causa agrária, se esvaem pelo desconhecido.

Desgraçadamente, a reforma agrária parece também não ter escapado da corrupção.


Roubalheira inacreditável

O PT é um partido formado basicamente por ladrões. Eles roubam tudo: petróleo, setor elétrico, merenda escolar, superfaturamento de obras, fundo de pensões...

Já existe até quem defenda a prisão de todos os seus integrantes, analisando-se caso a caso e soltando-se paulatinamente inocentes que possam ser encontrados, pois toda regra tem exceção e será possível achar gente honesta mesmo dentro de legenda tão desmoralizada e dedicada à gatunagem como é o PT.

 

Mas o Partido dito dos Trabalhadores vem roubando e roubou além das medidas. Veja-se o fundo de pensão Postalis, dos Correios, cujo buraco financeiro atingiu a soma de cinco bilhões e 600 mil reais! Os sindicalistas do PT dizem ter administrado “muito bem” o dinheiro do Postalis. Investiram sozinhos num fundo do Bank of New York, comprando títulos da Venezuela e da Argentina. Títulos podres.

Para que se tenha ideia, o fundo perdeu 65% de seu valor e o dinheiro da pensão dos Postalis desapareceu. Fala-se agora que os empregados dos Correios deverão pagar 25% de seus salários, até que o montante se recomponha. Outras empresas nas quais os sindicalistas do PT investiram foram as seguintes: a EBX, de Eike Batista, Bancos Cruzeiro do Sul e BVA, além da Financeira Oboé.

Mas isso não é tudo: grande montante de dinheiro foi investido no Lehman Brothers, em agosto de 2008, menos de 30 dias antes de sua falência. Se investigados outros fundos (e serão), descobrir-se-ão novos roubos. Os sindicalistas do PT administram o dinheiro dos trabalhadores assim como Dilma administra o Brasil.

Costa, Gabrielli, Dilma e Lula: todos mal na foto

Dilma foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras, à época em que a roubalheira ali se processava a todo vapor, mas afirma que não sabia de nada e que também nada viu. A presidente é cúmplice da roubalheira, mas vem mentir com a maior cara de pau. Acha que todos nós somos cretinos. A mulher que prometeu milhares de creches ao longo da campanha, pencas de aeroportos pelo país (sem contar o terceiro aeroporto de São Paulo) e trem bala antes da Copa, esgotou seu repertório.

Todos os dias são descobertos novos roubos praticados pelo PT, em volume descomunal. Este partido tem de ser extinto, juntamente com outros que vivem de assaltar os cofres públicos nacionais, inclusive o PSDB! É preciso que se dê todo o apoio possível ao juiz federal Sérgio Moro, o paranaense que está expondo as vísceras da roubalheira praticada por Lula da Silva, o Lularápio, e seus seguidores.

Não devem ser esquecidas as pressões sofridas pelo ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, a quem se concede todo o crédito pela prisão de gente como Zé Dirceu e Zé Genoíno, figurões de pés de barro. Mas é preciso mais, muito mais.

O PT tenta desconstruir as manifestações de rua, querendo levar o país para uma guerra civil. O partido não quer desalojar seus ladrões, inclusive a própria presidente da República, cúmplice de toda a roubalheira. O cinismo da presidente é de doer: vejam que o Palácio do Planalto determinou a vários senadores que retirassem suas assinaturas da CPI que deveria apurar o assalto que vem sendo praticado no BNDES.

Na propaganda petista veiculada pelos meios de comunicação, o partido diz que está prendendo corruptos, como se as instituições nacionais dependessem de legendas partidárias. Enquanto isso fica montando armadilhas, pregando através de jornais amigos, reféns de fartas verbas, que o número de participantes nas manifestações está diminuindo. Quer dar a entender que a população está desistindo do impeachment.

A insatisfação é generalizada e ninguém aguenta mais tantos desmandos. Dilma tem de ser afastada, para que se inicie processo de limpeza. Fazer aqui como se fez na Itália, com a Operação Mãos Limpas. O governo desgovernado está apodrecido. 

Sem dias: velhice e crise moral

Dilma completa cem dias de governo e entre malandragens e trapalhadas, os amigos dizem que eu - com 78 anos! - não sou velho!
Mas como quem sabe de mim sou eu; ele, o meu eu (ou pelo menos um dos seus múltiplos sujeitos), me afirma e confirma a velhice. Como? Pela impossibilidade de descer a escada do meu escritório-biblioteca-fábrica de estrume sem segurar no corrimão. Meu equilíbrio, o qual, nos meus jovens 60 anos, me permitia lidar com três objetos ao mesmo tempo, tal como os artistas de circo ou os pugilistas de filmes pornográficos, sumiu pelos neurônios do meu cérebro.

Afora essa e outras impossibilidades impublicáveis numa crônica, chega à minha mente (uma entidade muito mais complexa que o meu mero cérebro) um total desânimo e, confesso, um intenso desejo de sair do palco. Não de morrer, propriamente, com todos os ritos e rezas (que espero não ter), mas de ficar no meu canto, porque eu olho pra rua e só vejo ruína, desespero, incompetência, descaso, insulto, mentira, malandragem e desonra.

Uma das sensações mais claras do fim de uma existência é descobrir que o drama no qual você entrou como um ator não convidado - pois ninguém escolhe onde vai nascer ou se deseja nascer - não funciona porque a companhia teatral, o diretor, o contrarregra, o produtor, o ator principal, e parte da plateia estão liquidando com a peça - no caso, com o Brasil. O Brasil que eu pensava que ia deixar de ser um ninho de ratos para ser um lugar razoável para se viver. Essa sensação de estranhamento e de desentendimento com o mundo, é um sintoma claro de que não há mais nada a representar ou, pior que isso, de estar fazendo o papel de idiota ou, como dizem alguns ex-amigos, de reacionário.

De agente da anti-história, que, infantilmente, ainda fica indignado com a ladroagem, quando não entende que o projeto político em curso é comprar com o dinheiro roubado da sociedade a tal "democracia popular"; é o de transformar o Brasil num paraíso socialista moreno como dizia, apesar de todos os pesares, um nobre pensador como Darcy Ribeiro. (Aliás, permitam-me uma pausa: o que diria ele se estivesse testemunhando essa fieira de vergonhas relativas ao que se chama vulgarmente de "governo" transformado, nessa última década, numa quadrilha cujo objetivo é assaltar o povo trabalhador do Brasil. Fim da pausa.) É claro que, ao lado desse projeto social-popular, alguns viram duques, mas isso faz parte do jogo e do "realismo" implacável da política brasileira.

Outro sintoma é acordar em meio às trevas, quando todos são virtualmente mortos, roncando serenamente para vagar como alma penada, justamente porque a alma não sabe mais onde está. Sabe, contudo, e com a certeza mais absoluta, que não pode mais ficar em plena sintonia com o corpo: esse corpo brasileiro sujeito a um Brasil que derrete pela crise moral que o desmorona por todos os lados.

Sou de uma geração caracterizada por uma mudança cosmológica. Para nós, "esquerdistas", o futuro não seria mais comandado pela religião e pelas compensações do outro mundo, mas pela política, a qual transformaria (por bem ou por mal) esse mundo. Queríamos o paraíso agora, como me ensinou um jovem Richard Moneygrand de olhos muitos azuis numa Harvard banhada de intensa luminosidade.

O sonho permanece, como todas as ilusões - nem o velho Freud viveu sem elas. A questão é descobrir que depois dos males do império, da escravidão, da velha república reformada em Estado Novo -, enfim do domínio da "direita entreguista e reacionária", tudo continua no mesmo lugar, agora sob o sol amarelo da "esquerda" petista. Essa esquerda que rejeitaria os sindicatos, que "não roubava nem deixava roubar", mas que - no poder - emasculou-se justamente pelo saque aberto da coisa pública, em nome de um republicanismo pervertido.

O centro da crise moral que conduz à morte dos valores que nos tornam humanos e nos salvam, justamente porque demandam tudo de cada um de nós naquilo que se chama de crença, honradez, fidelidade, trabalho e esperança, jaz justamente na depravação de que a nossa história não dependeria de nós. Ela, como os elevadores, seria determinada por dispositivos automáticos. Hoje, com os olhos arregalados, descobrimos que não está. Não pode ser entregue a um só ator como um Lula ou uma Dilma e seus comparsas. Tem que ser de todos nós.

A crise moral que atinge todas as esferas do nosso sistema, exceto o da aristocratização sistemática, a qual conduz à impunidade e a garantias que roubar do povo é um belo projeto de vida, consolidou-se e está sendo revelada justamente porque um grupo de procuradores e juízes tem firmemente atuado em conjunto com a polícia federal.

Só isso - e uma mudança radical do nosso sistema jurídico-político-teológico - pode nos salvar na nossa indiferença, da nossa insanidade pública e da nossa perversidade. Os ratos não estão só no navio, estão - valha-nos Deus! - em todo lugar!

Roberto Damatta

Dilma está nos chamando de idiotas

Notório saber jurídico, ah, isso o doutor Luiz Edson Fachin tem. O bicho – ao contrário do chefão do partido que ele sempre apoiou – estudou muito.

É mestre e doutor em Direito pela PUC de São Paulo. Fez pós-doutorado no Canadá, atua como pesquisador convidado do Instituto Max Planck, da Alemanha. É professor visitante no King’s College, naquela horrorosa, nojenta monarquia capitalista.Todo mundo fala bem dele. O senador Álvaro Dias, do PSDB, correu para dizer que o doutor Fachin é uma maravilha. O senador Roberto Requião, do PMDB, ex-governador do Paraná, o Estado em que o doutor Fachin se formou e labutou e labuta, diz que ele é o homem, o cara, o gênio.

Todo mundo fala bem dele. O senador Álvaro Dias, do PSDB, correu para dizer que o doutor Fachin é uma maravilha. O senador Roberto Requião, do PMDB, ex-governador do Paraná, o Estado em que o doutor Fachin se formou e labutou e labuta, diz que ele é o homem, o cara, o gênio.
Não interessa se o doutor Fachin é o melhor jurista que já houve no mundo. Ele pode ser o maior jurista que já pisou na face da terra – mas ele não pode ser ministro do Supremo Tribunal Federal, de forma alguma, porque ele é petista. Ele trabalhou para a CUT, o MST. Ele foi garoto-propaganda da candidata Dilma Rousseff em 2010,

Pode ser um águia de Haia, pode botar no chinelo todo e qualquer Ruy Barbosa – mas é partidário.

Um ministro da Suprema Corte não pode ser partidário.

Como estes são tempos ruins, horrorosos, sem qualquer tipo de respeito à ética, já temos na nossa Suprema Corte dois petistas de carteirinha: Ricardo Lewandowski, cuja atuação erm defesa dos mensaleiros o país viu na TV, e Dias Toffolli, o neguinho que trabalhou a vida inteira pelo PT e – embora tenha levado bomba duas vezes nas duas tentativas de virar juiz estadual, com saber jurídico equivalente ao de uma banana, vai julgar agora o petrolão. Incapacitado, mas com poder de raposa sobre as galinhas.

Indicar um sujeito que fez campanha para Dilma na TV para a vaga deixada por Joaquim Barbosa, no momento em que milhões de brasileiros vão às ruas clamando contra a corrupção e pedindo fora Dilma, ah, isso é um acinte. Uma provocação.

O governo está nos chamando, a nós todos, brasileiros, de imbecis.

Sérgio Vaz

Depois do grito, as propostas

Se os 60 milhões de jovens brasileiros lutarem contra a corrupção, ainda há esperança

Novamente, no domingo passado, centenas de milhares de pessoas voltaram a rugir em mais de duzentas cidades brasileiras com o grito de protesto contra Dilma Rousseff, e contra o veneno da corrupção política que envergonha o país.

Agora, depois do grito, é urgente a chegada das propostas concretas de mudança.

Foi um grito saudável, ao revelar que os brasileiros, depois de anos de silêncio, perderam o medo do protesto. Exigem que os governantes “lhes devolvam o Brasil” sequestrado, segundo eles, por aqueles que pretendem se eternizar no poder, sem saber mais como fazer para que o país volte a crescer.

Os políticos deste país, pouco acostumados a ver a classe média, melhor informada, sair às ruas, correm o risco de demonizar essas manifestações como golpistas ou da direita. No entanto, como bem disse o vice-presidente da República, o hábil político de centro Michel Temer, as manifestações revelam uma “democracia poderosa” e os políticos têm o dever de escutar esse grito, em vez de condená-lo.

Sem ser pautadas nem organizadas, como no passado, por partidos políticos ou movimentos sociais de esquerda, as novas manifestações brasileiras refletem necessariamente desordem e, ao mesmo tempo, a criatividade de centenas de exigências, às vezes até conflitantes. Por isso agora, depois do grito que liberta e ameaça, chegou a hora de apresentar um programa capaz de transformar positivamente o país, resgatando-o da crise econômica à qual foi arrastado por uma política equivocada de desperdício de dinheiro público, assim como pela corrupção organizada que acaba atingindo os mais pobres.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Depois dos gritos, as propostas

Novamente, no domingo passado, centenas de milhares de pessoas voltaram a rugir em mais de duzentas cidades brasileiras com o grito de protesto contra Dilma Rousseff, e contra o veneno da corrupção política que envergonha o país.

Agora, depois do grito, é urgente a chegada das propostas concretas de mudança.

Foi um grito saudável, ao revelar que os brasileiros, depois de anos de silêncio, perderam o medo do protesto. Exigem que os governantes “lhes devolvam o Brasil” sequestrado, segundo eles, por aqueles que pretendem se eternizar no poder, sem saber mais como fazer para que o país volte a crescer.

Os políticos deste país, pouco acostumados a ver a classe média, melhor informada, sair às ruas, correm o risco de demonizar essas manifestações como golpistas ou da direita. No entanto, como bem disse o vice-presidente da República, o hábil político de centro Michel Temer, as manifestações revelam uma “democracia poderosa” e os políticos têm o dever de escutar esse grito, em vez de condená-lo.

Sem ser pautadas nem organizadas, como no passado, por partidos políticos ou movimentos sociais de esquerda, as novas manifestações brasileiras refletem necessariamente desordem e, ao mesmo tempo, a criatividade de centenas de exigências, às vezes até conflitantes. Por isso agora, depois do grito que liberta e ameaça, chegou a hora de apresentar um programa capaz de transformar positivamente o país, resgatando-o da crise econômica à qual foi arrastado por uma política equivocada de desperdício de dinheiro público, assim como pela corrupção organizada que acaba atingindo os mais pobres.

Como afirmou a este jornal o analista político Thiago Aragão, as manifestações “são um meio, não um fim”. Ao não dar frutos concretos, perdem sua importância, e até acabam fortalecendo o poder que desejavam confrontar.

O perfil não violento dos últimos dois grandes protestos nacionais, e seu espírito lúdico e até festivo, revela que os brasileiros não exigem soluções revolucionárias à margem ou contra a democracia e contra a Constituição, embora saibam que esta última não representa as Tábuas da Lei e pode, às vezes, ter de ser mudada.

O Brasil e seu povo querem viver cada vez melhor. Por isso, têm medo de um retrocesso em sua qualidade de vida. Tremem diante da possibilidade de perder o emprego, de ver sua renda corroída pela inflação ou o Estado saqueado por políticos e partidos corruptos.

Se o pedido insistentemente repetido nas ruas do Brasil foi “Fora Dilma”, não é porque a ex-guerrilheira seja para eles mais ou menos simpática, ou a vejam mais ou menos de esquerda ou de direita. A querem fora da presidência porque a consideram responsável pela crise econômica que ameaça conquistas passadas, por sua pouca habilidade política, e porque carregam a dúvida de que possa ser moralmente responsável pelo escândalo da Petrobras.

Os protestos, organizados através das redes sociais por dezenas de movimentos sem partido político, foram obra dos jovens.

E tiveram uma série de méritos, além de seu caráter pacífico, em um dos países mais violentos do mundo, com altos índices de homicídios que já superam os 60.000 por ano, a maioria de negros e pobres.

Esses jovens têm arrastado um número cada vez maior de pessoas com mais idade, e até senhoras idosas das quais ganharam a confiança. Talvez as mesmas que, por estereótipos, consideram os jovens de hoje incapazes de se comprometer politicamente.

Na manifestação de domingo, foram os jovens que desmentiram a ideia de que os brasileiros se preocupam pouco com a corrupção, já que é tolerada em sua cultura, e continuam sendo eleitos políticos que “roubam, mas fazem”.

Forte ofensiva depois de acordo com Zuckerberg

O desgoverno teve a insensibilidade de fingir que nenhuma manifestação aconteceu no domingo. Seria tolice supor que a Presidenta Dilma Rousseff, que terceirizou sua presidência para o PMDB e os banqueiros, não entendeu nada do recado das ruas. E nem quis tocar no assunto. A equipe de marketagem do Palhasso do Planalto preferiu inundar o Facebook com mensagens de Dilma - que serão impulsionadas em seu alcance depois da conversinha que ela teve na cúpula das Américas com o jovem chefão da rede social, Mark Zuckerberg.

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Ninguém, nas passeatas em 450 cidades do País, pediu "Ajuste Fiscal" - que o condutor da economia, Joaquim Levy, e a festiva ministra da Agricultura, Kátia Abreu, tiveram a ousadia de defender para produtores rurais, em Rio Verde (GO), na abertura da Tecnoshow Comigo 2015 — feira de tecnologia rural do Centro-Oeste. Nas ruas, se pediu: Fora, Dilma! Fora, PT! Chega da corruptos no poder! Impeachment! Intervenção Constitucional! Ninguém pediu mais aperto, mais juros ou mais impostos...

Fingindo ignorar as manifestações, a Dilma do Facebook tratou de outro tema polêmico: "Reduzir a maioridade penal não vai resolver o problema da delinquência juvenil. Isso não significa dizer que eu seja favorável à impunidade. Menores que tenham cometido algum tipo de delito precisam se submeter a medidas socioeducativas, que nos casos mais graves já impõem privação da liberdade. Para isso, o País tem uma legislação avançada: o Estatuto da Criança e do Adolescente, que sempre pode ser aperfeiçoado. É preciso endurecer a lei, mas para punir com mais rigor os adultos que aliciam menores para o crime organizado".

Ou seja, Dilma continua "sangrando" na Presidência (conforme definiu um de seus braços direitos, em conversa telefônica ilegalmente interceptada pela arapongagem de Brasília). Só o aumento da pressão popular conseguirá fazer com que ela saia desta nada confortável "zona de pretensa ignorância" acerca da vontade da maioria do eleitorado. Ou será que a pressão interna, promovida pelo PMDB que a mantém como refém, produzirá tal efeito de fazê-la acordar para a realidade?

O desgoverno morto se finge de muito vivo. O preço deste cinismo pode custar muito caro aos políticos que lhe dão sustentação, na hora do "juízo Final" - cada vez mais próxima.

Quaquá, o 'pato' que fala demais

A coisa tá mais do que preta para o PT. Mas não inclua aí a cretinice convicta dos partidários capazes de vender a própria mãe em nome da continuação no poder que mana dinheiro. Nem se saia, destrambelhado, aplaudindo falatório de efeito. Como o do presidente fluminense do PT, Washington Quaquá. Revoltado ao ser barrado pela segurança (imaginem!) de Dilma Rousseff durante a solenidade de entrega de um conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida, em Duque de Caxias: "É por isso que este governo (o do PT) está assim...a desorganização demonstra bem as coisas: um governo de idiotas!". 
 
Mais do que conhecido por suas “bravatas” em prol do povo, com um destacamento de seguranças pagos com dinheiro público, o prefeitinho também alcunhado de Pato, depois que assumiu o comando do PT no Rio se acha mesmo um “presidente”, podendo tudo e contra todos. Durante a campanha eleitoral, até colocou nas ruas seus mercenários para impedir passeata de Pezão num gesto deselegante, truculento de coronelismo e calhorda de manda-chuva. 

Não faz por menos em sua megalomania de se achar, por baixo, um Che Guevara caiçara. Lulista de carteirinha e com um prontuário de processos, se arvora revolucionário com ideias mirabolantes a ponto de implantar um “socialismo bolivariano lulopetista”, ou o que venha a ser isso, no município. A revolução do professor sociólogo não passa de pirotecnia conhecida dos demagogos de porta de bar, hoje alçados aos cargos bem pagos pelo contribuinte para não fazerem nada, ou quando resolvem fazer cheira mal na obra e no custo.

Por se achar impune e com corpo fechado, vociferou contra o “governo de idiotas”. Está indo longe sua “valentia”? Nem tanto, é apenas mais uma daquelas frases bombásticas para ganhar destaque no noticiário. Só que de tanto falar, vai acabar morrendo pela língua, pois tem gente que não está gostando do valentão nem muito menos de suas bravatas. Como caiçara, deve saber que o peixe morre pela boca. E de tanto falar e aparecer, a Justiça pode de vez fazer caminhar aquela montoeira de processos até hoje blindados. Sem contar que a Lava-Jato ainda não fechou para balanço.

Terceirização é enganação

O Brasil de hoje me lembra aquelas galeras da antiguidade, tocadas a remo por seres espoliados, navegando em mares revoltos e sem rumo. Será que estou sendo um pessimista de plantão, que nunca enxerga saída nas dificuldades que se apresentam? Pode ser. Mas não estou aqui para falar o que pensam os leitores, e sim para dizer o que sinto e como vejo os acontecimentos dessa graça que é viver. Sei que existo porque penso. Assim, é como um cartesiano que estou escrevendo e vendo aquela galera sendo tragada por ondas gigantes, como tudo o que compõe a mitologia grega...

Nossa nau começa a afundar porque Dona Dilma dividiu o governo em dois e entregou uma parte a Joaquim Levy, que acredito ser um homem competente e probo, mas é banqueiro, e a outra parte, a política, a Michel Temer, que, por sua vez, dividirá sua missão com duas raposas políticas, no pior sentido: Renan e Eduardo Cunha. Resta a Dona Dilma ocupar-se com o trabalho dos maquiadores e cabeleireiros e, nos intervalos, com o celebérrimo marqueteiro João Santana, figura hecatonquira, cheia de mãos e dedos de fazer inveja a quem não os tem...

Terceirizacoes
Em meio a essa tempestade, aparece, do nada, alguém que estava na espreita e saca o projeto da terceirização, leizinha que chega na ponta dos pés, mas vai fazer um barulho dos diabos. Dizem seus autores que só poderão ser terceirizadas as atividades-meio, nada nas atividades-fim. Quer um exemplo dessa treta? O acordo do Brasil com Cuba no programa Mais Médicos: o Brasil compra serviços de Cuba, que fornece os médicos. O Brasil paga o serviço a Cuba, que paga aos médicos um quinto do que recebe. Essa sacanagem comercial pode ser chamada de “trabalho escravo” ou “serviço terceirizado”. E, se quiserem, serviço de espionagem de gente esperta contra gente besta metida a esperta... Essa lei burocratiza os contratos de trabalho, prejudica os assalariados, desfaz vantagens adquiridas pela classe trabalhadora e se enquadra em princípios que só Marx e Lônin previram na exploração do homem pelo homem. É um acinte ao bom senso. Arrisco-me a afirmar que, aprovada e sancionada essa lei, torna-se necessário submetê-la ao crivo do egrégio Supremo Tribunal Federal (STF), pois ela tem o cheiro podre das inconstitucionalidades.

É preciso muito cuidado para andar no escuro, situação a que estamos sujeitos neste momento. Vejo agora que o prefeito de nossa BH se elegeu presidente da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) e já vem falando noutro absurdo: buscar respaldo na legislação para que a administração das cidades grandes adquira empréstimos externos para destravar o desenvolvimento econômico. Já pensou que desgraça poderá ser isso? Prefeitos com competência para tomar dinheiro emprestado no exterior? Onde vai parar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF)? Sem essa lei, o Plano Real não sobreviverá, e, aí, salve-se quem puder. Eu sei de modo muito mais fácil para acabar de liquidar com nosso país: votar novamente no PT, se possível no mentiroso ex-Luiz...

Recusa ao habitual

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(…) pedimos encarecidamente que vocês não achem natural o que sempre acontece e o que vocês leem no jornal todo dia.
Neste tempo de confusão sangrenta, de desordem tão ordenada, de arbitrariedade sistematizada, de humanidade desumanizada, é importante que nada seja tomado por natural, é importante que tudo seja explicado, para que essas coisas não continuem acontecendo…
Por favor: estranhem o que normalmente não é estranho, não aceitem o que já se tornou habitual! Procurem remédio! Procurem uma saída! Procurem uma mudança! E nunca sigam a regra, pois do jeito que está, está muito mal…”
Bertolt Brecht

Vai aumentando o rombo no plano de saúde estatal Geap

Deparamo-nos, de surpresa, com uma notícia estarrecedora nos jornais e rádios de Brasília. Roubaram R$ 3 milhões da GEAP, a prestadora de assistência à saúde dos servidores da Previdência, Saúde e Trabalho. Anteriormente, sumiram outros R$ 10 milhões da mesma GEAP, aplicados no Banco de Santos , na véspera da falência, por ordem de anjos e arcanjos do além.

Como isso é possível? Ninguém sabe, ninguém viu? Desta vez, o golpe consistiu em abrir uma conta no Banco do Brasil e mandar ofício as patrocinadoras convidando -as a depositarem nessa conta o dinheiro que deveria ser depositado na conta da GEAP. Algumas patrocinadoras o fizeram. Quais? É piada!?


A GEAP ainda é a maior empresa de saúde estatal, contratada para atender as mais de 700 mil vidas de servidores públicos que pagam em dia, com inadimplência zero e atendimento crítico.

Com centenas de funcionários e executivos bem pagos para cuidarem da administração do dinheiro, que não é da GEAP, mas dos servidores, muitos executivos sem nenhum conhecimento de plano de saúde, páraquedistas, sem compromisso com a atividade final da GEAP, não estão nem um pouco preocupados com o desaparecimento do dinheiro, nem quem foi ao banco e sacou.

Segundo informações, R$ 700 mil foram retirados na boca do caixa, quando nós, pobres mortais, temos de preencher uma papelada para o Banco Central se retiramos mais de R$ 10 mil. Quem sacou? Será que não assinou nenhum papel? Que banco é esse que libera uma bolada, quando geralmente pede tempo para dispor de grandes somas? Será que avisaram que iriam sacar? Quem avisou? Não deixaram rastro?

Continuam todos os executivos sentados em seus belos assentos, festejando a impunidade. No nosso entendimento isso é má gestão, má administração, pouco caso em uma instituição que passa por momentos difíceis, com atraso de pagamento, descredenciamento dos principais hospitais, clínicas, laboratórios, profissionais médicos, especialistas nas diversas áreas, pediatras, por absoluta falta de pagamento e o valor abaixo do mercado oferecido por outras operadoras.

O caso é de polícia, aliás, os dois, o roubo e a falta de atendimento. A GEAP foi criada como patronal para atender os servidores dos antigos institutos de previdência, depois INPS, Sinpas, e mais recentemente recebeu os servidores da Saúde, egressos do antigo Inamps, do Trabalho e de outras instituições públicas. Como patronal, conquistou padrão de eficiência e qualidade. Tornou-se referência entre os servidores. Tinha uma carteira de benefícios para os servidores da Previdência.

Ao longo do tempo foi-se descaracterizando na medida em que deixou de atender o seu público do antigo SINPAS, passando a atender uma população desassistida.

Hoje é administrada por um Conselho Deliberativo composto por seis membros, sendo três indicados pelas patrocinadoras e três eleitos pelos servidores. Nas administrações anteriores, foram criados dois conselhos (Consult, CRR), a nosso ver desnecessários, aumentando os custos.

Temos em nosso poder relatórios de vários estados sobre os padrões ínfimos de atendimento e desconforto. O Conselho Deliberativo tem que exigir explicações para os desmandos da GEAP, sob pena de levá-la à falência e os 700 mil assistidos ao desespero. É o que querem as empresas de planos de saúde, de olho na clientela, agora que o governo lhes escancarou as portas.

Paulo César Regis de Souza é presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência e da Seguridade Social

Quem lidera?

O País atravessa um conjunto combinado de crises, que desemboca em outra maior, republicana


No ano passado, no Guarujá, litoral de São Paulo, uma mulher morreu massacrada por seis ou sete moradores de seu bairro. Ao sair de um supermercado local, deu uma fruta para uma menina sentada na calçada, supondo que estivesse com fome. Abruptamente, a mulher foi desacordada com um soco, a partir do grito de um morador: “É a bruxa!” O jornal local havia reproduzido naqueles dias um retrato falado de uma bruxa que em 2012, na Baixada Fluminense, teria assassinado crianças para rituais satânicos. Quem gritou identificou a moradora como a bruxa. Abriram-lhe a bolsa e encontraram um pequeno livro de capa vermelha e dois retratos de meninas. Arrastaram a suposta bruxa para o meio da rua e, diante de mais de cem indivíduos, a mataram com o máximo de violência. A assassinada era mãe de família, o livro vermelho era um catecismo religioso e os dois retratos de meninas eram de suas filhas. Há uma equivalência dessa terrível manifestação com o episódio das Bruxas de Salem, no qual a população local em pânico chacinou em 1692 duas dúzias de mulheres da pequena comunidade nos Estados Unidos.

A tragédia do Guarujá revelou uma população inteiramente descrente da eficiência policial e da atuação da Justiça. Fez, pelas próprias mãos, publicamente, um “justiçamento” local. Essa é a pior dimensão de uma crise de governabilidade.

Creio que o Brasil atravessa um conjunto combinado de crises, que desemboca em uma maior crise republicana. Hoje, 80% da população brasileira é urbana, mais de 50% metropolitana. As cidades estão sem qualquer recurso para se salvaguardar de uma interrupção de abastecimento: qualquer metrópole em três dias entra em colapso. Evidências dessa vulnerabilidade estão disponíveis nas últimas semanas. Os caminhoneiros interromperam o abastecimento de combustível e, em diversos municípios no Sul do Brasil, frangos e porcos morreram por falta da ração, o que repercutiu em toda a rede urbana. Falhas derivadas do “petrolão” produziram protestos localizados. Em um deles, a Ponte Rio-Niterói ficou bloqueada por horas, causando um gigantesco engarrafamento. Pneus queimados geram efeitos parecidos e essa prática tem se generalizado.

Na ordem democrática, a luta pelo direito social de um grupo deve ser assumida pela cadeia de representações sociais e políticas e não deve sacrificar os direitos de outros grupos sociais. A multiplicação de manifestações que dispensam as representações legais indica uma profunda crise política.

A crise atual combina a exaustão da política macroeconômica, que priorizou o consumo individual de mercadorias mediante o endividamento em longo prazo das famílias, com câmbio flexível valorizando o real, mediante a atração por juros elevados. Esta política deixou de lado a expansão quantitativa e qualitativa dos serviços públicos, engendrou uma situação estrutural de degradação da mobilidade urbana, educação e saúde pública, conduziu as forças produtivas em direção à exportação de alimentos e matérias-primas, desestruturou cadeias produtivas industriais e fraturou a soberania nacional com privatizações e desnacionalizações.

A ausência de eleição direta sancionou a visão ingênua de que todos os problemas nacionais se derivavam do autoritarismo, sendo o governo militar o culpado. Para todos os males, prevaleceu a tese de que a democracia seria não o médico, mas o medicamento que tudo resolveria.

Como o regime militar assumiu a tese do nacional-desenvolvimentismo e se propôs elevar o Brasil a potência mundial no ano 2000, o seu repúdio facilitou a crítica aos grandes projetos de infraestrutura, abriu caminho para um ambientalismo hostil à chaminé da fábrica, desqualificou nosso triunfo industrial e movimentou a desconstrução do homem brasileiro, que não seria cordial e que, apesar de mestiço, seria preconceituoso etc. etc. Houve o expurgo das expressões “desenvolvimento”, “industrialização”, “nação”.

A singela variável explicativa que culpava os militares do passado foi substituída pelo marajá da Era Collor e orientada ideologicamente para culpar o Estado. Foi proposta a destruição da Era Vargas e não foi discutido qualquer novo projeto nacional. As diretivas de industrialização e urbanização foram substituídas pela inserção globalizada e a adoção do chamado Consenso de Washington.

A inflação desenfreada e os problemas estruturais mais bem visibilizados e sem solução intensificam a crise política como uma rejeição dos mecanismos de representação. A fruição dos direitos civis que como o ar são percebidos quando faltam é esquecida perante as frustrações acumuladas. Prospera o discurso de exaustão do modelo anterior; aparece como exaltação: “exportar é a solução” e “integração competitiva ao cenário global”. Avança a crise institucional. À Constituição de 1988 se sucedem 73 Emendas Constitucionais; combinadas com milhares de Medidas Provisórias, compõem, por si, só, um enigma, que realimenta outras dimensões críticas.

Na entrada deste milênio, a espetacular elevação dos preços internacionais dos produtos primários e a queda dos preços internacionais dos produtos industriais primários permitiram um intenso desenvolvimento social pelo ângulo do consumo privado e uma perversa evolução das forças produtivas com desindustrialização e desnacionalização, o que acentuou a vulnerabilidade brasileira. Houve margem de manobra para elevar o padrão de vida de milhões de famílias brasileiras. A política de elevação de juros criou uma situação externa financeira confortável. Em contraponto ao benefício social do Bolsa Família, foi outorgada liquidez em moeda internacional aos ativos dos ricos e tornou-se possível até fenômenos especulativos como aquele do grupo das empresas X, de Eike Batista, além dos brutais ganhos do sistema financeiro.

Neste novo milênio, houve melhora dos padrões de consumo de itens privados e regressão nas forças produtivas. A fragilidade estrutural se evidencia com a crise geopolítica mundial e a perda da situação externa excepcionalmente favorável que o País desfrutou até 2009. O Brasil “celeiro do mundo”, com fome ainda presente. A multiplicação da frota automobilística sem aperfeiçoamento do sistema de transporte coletivo, o atraso nos investimentos logísticos, os equívocos e adiamentos nos projetos de energia e a desmontagem dos estoques preventivos de alimentos são componentes de uma ausência de planejamento nacional. Pairam no ar a destruição de empregos de qualidade, a insolvência familiar e a falta de perspectivas para os jovens. Em resumo, crise econômica, política e institucional compõem os vetores de uma crise social que ameaça com recessão, desemprego e perdas patrimoniais.

Há, hoje, um quase consenso sobre a necessidade de um ajuste e o desejo de mudança. O ajuste não é um fim em si mesmo, tampouco é claro se ele é ou seria por cortes de gastos públicos ou aumento de impostos. Cortar o quê e de quem? Cortar custeio? Investimentos públicos? Subsídios? Gastos com juros e amortização da dívida pública? Cortar a União, estados e municípios? Pelo outro ângulo, elevar impostos diretos ou indiretos? Sobre renda ou patrimônio? Sobre circulação? Elevar a receita de qual entidade da federação?

Essas discussões podem evoluir de um espectro conservador ou reformador estrutural. Um amigo registrou nas manifestações de 2014 um casal de namorados que levava dois cartazes: “menos impostos” em um e “mais saúde e educação”, no outro. O desejo generalizado de mudança implica a exaustão da Nova República.

O desejo de mudança é transbordante, principalmente na juventude brasileira em formação, ávida pela colocação do Brasil em pauta. Parte dela chega a sonhar com um corolário da globalização, que é migrar para o exterior, sem perceber a crise geopolítica e as perplexidades quanto ao extra-Brasil.

Quem propõe a pauta que permitirá organizar nosso futuro? Quem garantirá nossa governabilidade? É necessário ter presente que, à fragilidade urbana, sobrepõe-se a fragilidade de nossos serviços essenciais. Quem? Na República, os Três Poderes são responsáveis.

Carlos Lessa

terça-feira, 14 de abril de 2015

Dilma falou!

Haja óleo de peroba

Dilma deveria restituir ao Tesouro Nacional o que gasta na compra de barris de óleo de peroba. Mais uma vez exibiu sua cara de pau na VII Cúpula das Américas, na Cidade do Panamá, para uma plateia de governantes, que já sabem de cor e salteado o que fala a presidente. Para quem representa um país, fazer o papel que Dilma faz é um descaso com os brasileiros para não dizer um papelão. Os estrangeiros se penalizam com o descaramento da presidente fazer discurso para uso interno, saudar o público ignorante. 

Com seu jeito anta de governar, talvez nem se tenha tocado dos puxões de orelha de Barack Obama, que pediu que a América Latina garanta que os benefícios do crescimento econômico cheguem a todos, não somente às classes alta e média pois, mesmo com o prosperar da região, "a lacuna entre ricos e pobres, muitas vezes, está aumentando". Para quem exalta a criação (como se isso fosse prerrogativa de uma governanta não de deuses) de um "país de classe média", foi um direto no ringue internacional no queixo da presidente.

Obama levou para o fórum no Panamá um saco de golpes, que fez os inteligentes governantes no plenário soubessem bem a quem se dirigiam.

O presidente norte americano também falou sobre a necessidade de melhorar a infraestrutura na região e reduzir os custos de energia; que os líderes latino-americanos apostem na "transparência" e "responsabilidade" para promover um "bom governo".

Se Dilma apostou em utilizar o palco da Cúpula para um discursinho de baião-de-dois, bem ao gosto interno, Obama falou verdades para aplauso dos brasileiros. Pediu o que os manifestantes pedem nas ruas e na internet. Mas a surdez da governanta impediu que vista a carapuça. Continua a desfilar o modelito dietético de gorduras e de responsabilidades, que transferiu para a canga dos outros. Inclusive nem eleitos que dirigem o barco seguindo a direção que desejam.

É só esperar

 
Às vezes, e então com décadas de atraso, até mesmo os atiradores de pedras serão os vitoriosos
Günter Grass (1927-2015) 

O inferno do PT vem por aí

Um governo rejeitado, um partido que vê cair ano a ano a preferência que o povo tinha por ele, enfrentarão maiores dificuldades para montar coligações

Está próximo. E produzirá resultados surpreendentes se até lá o governo não reverter sua situação de forte impopularidade.

Para isso, a economia haverá de se recuperar, e o mais rapidamente possível. Mas não é o que parece provável. Pelo contrário.

Se tal não ocorrer, portanto, 2016, ano de eleições municipais, deverá ser o mais catastrófico da história recente do PT.

Não é possível que a rejeição a Dilma, ao governo, ao PT, agravada por uma conjuntura econômica que dará saudades da que enfrentamos hoje, não enseje a derrota do partido nas maiores cidades.

De que outra maneira os brasileiros poderão manifestar sua revolta?

Um governo rejeitado, um partido que vê cair ano a ano a preferência que o povo tinha por ele, enfrentarão maiores dificuldades para montar coligações. Quem desejará a companhia deles?

Qual político, hoje, se arriscaria a posar para fotos ao lado de Dilma? Ou mesmo de Lula? 

A grande diferença


Bem diferente da diferença da solidariedade, que é horizontal e se exerce de igual para igual, a caridade se pratica de cima para baixo, humilha a quem recebe e jamais altera nem um pouco as relações de poder
Eduardo Galeano (1940-2015) 

Confesso que chorei

Domingo, quando entrei no carro, no final da passeata, chorei convulsivamente, como há muito tempo não fazia. Sim, eu estava sensibilizado pelas muitas e generosas manifestações de carinho que recebi ao longo da tarde, traduzidas em gestos, abraços e fotos com amigos. Mas, principalmente, chorei de felicidade por ver, pela segunda vez, em menos de trinta dias, o meu Brasil diferente. Vi o meu país como sempre quis que ele fosse. Democrático, alegre, mas intransigente com a criminalidade instalada no poder. Antes aos meus 70 anos do que nunca!

Agora, já posso dizer que vi. Vi nossa gente clamando por um país decente. Vi, Brasil afora, milhões saírem de casa para dizer basta! Chega! Já foram longe de mais! Ponham-se no olho da rua, malfeitores!

Os que se acreditavam senhores da Nação, jamais conseguiram mobilizações semelhantes, mesmo que a peso de ouro, mesmo contratando celebridades e promovendo shows, pagando diária, transporte e alimentação.

Por duas vezes, neste mesmo período, tentaram se contrapor e não tiveram eco. Pagaram mico, deram vexame. É difícil reunir fiéis à infidelidade.

O Brasil está atravessando o mar vermelho. O PT está acossado, o petismo acuado pelos próprios pecados, pelos próprios fantasmas.

O PT fez o diabo? Ou foi o diabo que fez o PT?

O que sim sei, e com isso respondo uma pergunta que circulava entre os manifestantes de domingo: essa casa vai cair? Vai, pela irresistível força da gravidade, quando as estruturas de sustentação entram em colapso. E a base do governo está em franca decomposição.

Esse governo não tem como chegar ao fim. Além disso, que Constituição seria essa nossa se servisse para proteger uma quadrilha no poder e não para proteger o povo dessa quadrilha?

Percival Puggina