sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Tática velha de militares



Dilma não está inovando ao inventar um “inimigo externo” para eludir a realidade interna. Com sinal trocado, o regime militar utilizou a mesma tática. A teoria da Segurança Nacional de Golbery dizia que os grandes inimigos do Brasil eram o movimento comunista internacional e seus agentes internos.

E na Venezuela o presidente Maduro usa a mesmíssima tática, assim como a utilizou o general Gualtieri, na Guerra das Malvinas.

Hubert Alqueres

Sob o signo da chantagem


Encenado pelos partidos da base parlamentar do governo, espetáculo mais grotesco não poderia ser programado para este mês de janeiro além da caça aos cargos de segundo escalão dos ministérios. Diante da escalação do primeiro time da equipe, o descontentamento do PMDB, PT, PP, PSD, PDT, PTB e penduricalhos acirrou em todos a ambição de alargarem outros espaços de poder, não tendo recebido os ministérios que esperavam. Utilizam a ameaça de sempre: caso não consigam o maior número possível de dirigentes das múltiplas empresas e dos departamentos encarregados de fazer funcionar a máquina governamental, irão retirar o apoio parlamentar prometido ao palácio do Planalto.

Aliás, é no segundo escalão que se localizam as melhores e mais polpudas oportunidades de abastecer os caixas dos partidos e as contas bancárias de seus líderes. Diretorias de toda espécie assemelham-se a frutas maduras prestes a ser colhidas, daí o conflito entre os partidos. Julgam-se no direito de ocupar espaços tidos como herança, assim como de avançar em territórios ocupados por seus concorrentes.

A confusão é geral, mas o pior nessa caça ao tesouro é a postura da presidente Dilma. Ela e seu núcleo palaciano mais próximo consideram a disputa normal. Suas dificuldades são apenas para contentar a todos. Como aconteceu na definição do ministério, existem feudos e capitanias hereditárias a atender, bem como novas ambições a contemplar. A administração pública fica exposta num amplo balcão de negócios onde oferta e procura celebram acordos abjetos, sem a mínima atenção à eficiência da máquina administrativa e ao melhor funcionamento do poder público.

Tudo se faz sob o signo da chantagem. Determinado banco, departamento ou empresa estatal vai para esse ou aquele partido na medida em que a nomeação assegure mais votos na Câmara ou no Senado. Senão… Senão retiram o apoio a projetos de interesse do governo, quando fevereiro chegar…

Nos tempos em que não havia sido criada a indústria automobilística, quando todo mundo andava a cavalo, de carruagem, charrete ou diligência, a sabedoria popular comparou os políticos que não se definiam a ferreiros, daqueles acostumados a dividir suas marteladas entre o cravo e a ferradura.

Setores ligados ao PT e ao governo fizeram chegar à imprensa informes sobre a presença de Eduardo Cunha na ainda não confirmada lista dos envolvidos no escândalo da Petrobras.

Logo veio a oposição, espalhando a versão de que mais de um ministro do governo Dilma integraria a relação que o procurador geral da República ainda está devendo.

A tréplica não demorou. Os jornais divulgam que o recém-eleito senador e ex-governador de Minas, Antônio Anastasia, também faz parte do grupo prestes a ser denunciado junto ao Supremo Tribunal Federal. Para evitar esse festival de suposições e de baixarias, só mesmo se Rodrigo Janot terminasse sua tarefa de denunciar quem merece ser denunciado e de livrar o pescoço de quem não merece ser degolado.

Carlos Chagas

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Liberdade


— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga (1907-1995)

Eu sou Charlie


O ataque terrorista contra a redação da revista Charlie Hebdo, em Paris, foi mais um, dos milhares que ocorrem pelo mundo, diariamente, para eliminar de vez o direito máximo do homem. É um alerta de que atentados desse ou de outros tipos também acontecem, ou são elaborados, também aqui, porque não se mata apenas pessoas para liquidar a liberdade. Também silenciar a informação, controlar a mídia, esconder em proveito próprio ou de terceiros dados de interesse público, defender a marginalidade política e pública, perseguir os críticos (até com processos) só por não pensar segundo o evangelho da estrela, calar o cidadão em seu direito de expressão, seja ele qual for, são outras formas, das muitas, de se fuzilar a liberdade. Sem ela, o homem do século XXI será mais escravo do que em outras eras, porque não mais terá chance de ao menos sonhar com a libertação: um mero apêndice dos governos com o dever de pagar impostos e o direito de ficar calado.

Palmas para a civilização


O escritor nigeriano Chinua Achebe apresentou em “O mundo se despedaça” o território africano ainda virgem de colonização, quando só o que vicejava eram os inhames na terra e as tradições das tribos. É a partir da chegada do homem branco, ocidental e civilizado, que aquele mundo vem abaixo, junto com a autoestima de um povo.

Está claro que o ocidente se expandiu, se expande em busca de soluções para suas necessidades cada vez maiores, é preciso ter conforto, é preciso consumir, parece uma investida da qual não se escapa, esta sociedade se organiza através do consumo, o que fazer com os produtos que o capital precisa vender? Olha que hambúrguer!, assista ao cinema 3D!, jogue o game da hora!, avançamos desta forma desde o século XVIII.

Com o foco na produção, a referência óbvia virou o planeta, que não manterá por muito mais tempo e novas gerações o habitat perfeito do jeito que hoje conhecemos. A gente se arma em defesa do meio-ambiente, mas não atinamos com a verdade: o planeta sobreviverá muito bem à catástrofe chamada espécie humana, já sobreviveu antes a outras, o que está em jogo é a nossa capacidade de sobrevivência nos continentes, onde as condições naturais podem ficar demasiado hostis à civilização. Lembro que este é ainda o único planeta que temos à disposição.

Mas indo além, quando saímos do conforto da sala e mergulhamos no caldeirão de culturas que é a Terra, será que o nosso jeito ocidental de viver reconhece diferenças fundamentais? Ou impõe-se através da exposição maciça de nossas qualidades via satélite, tevê, internet? Creio que é nosso costume reverberar como se não tivéssemos defeitos, projetamos nossa receita imaculada, deve ser difícil para os outros valorizar o que é tradição.

Felizmente, a globalização também tornou visível esse confronto e nossa consciência coletiva deu um salto decisivo, impor nossa cultura como remédio já não é unanimidade, tem quem ainda pense assim, mas já se encontra quem ache que as pessoas devem viver do jeito que quiserem, talvez o mais perto que puderem de suas raízes ancestrais.

Sobra pouca aventura, porque o mundo inteiro logo não será mais novidade, de onde virá o novo quando aceitarmos e se incluirmos toda a nossa população vasta e diversificada? Aprofundaremos a consciência da existência em um movimento inesperado para dentro? Ou nos lançaremos para o espaço em uma aventura sideral que só conhecerá fronteiras se descobrirmos que não estamos sozinhos?

Do modo como vivemos, se não entregarmos a espécie à extinção, parece mais provável a segunda alternativa. O futuro sonhará com a colonização de planetas, de onde retiraremos as matérias-primas necessárias para manter viva tanta vontade de conforto e tecnologia. A Terra será poupada (tomara!) e avançaremos no infinito atrás de planetas desabitados adequados à exploração. Eu disse desabitados… o que acontecerá quando nascerem humanos na Lua ou em Marte? Novas e incríveis culturas virão, forjarão tradições, autoestima, e os naturais de lá protestarão veementes quando perceberem que são os explorados da vez. “Poupem nossa Lua!”, “Marte para os marcianos!”, posso ouvir as palavras de ordem pesarem sobre nossas consciências em férias.

O filme “Apocalypto”, de Mel Gibson, surpreende com essas questões decorrentes dos males da civilização. Certamente é mais um, mas me faz lembrar que não existem bonzinhos neste jogo cínico onde se enfrentam as influências cotidianas e os modos de vida. Mesmo a selva, a natureza, para onde convergem os olhares querendo uma solução, não explica nada. Os animais são pródigos em se dividirem em violentos clãs e bandos, em disputa eterna pelos melhores territórios. Dali sobressai neste aspecto só a lei do mais adaptado. Somos melhores?

Por que então esta dor sobre o que é o certo a fazer? Esta civilização que mata e decepciona, que incorre em omissões terríveis, também convoca o ser humano a admirar a ciência e a arte. Não há duvida: estamos ferrados entre as noções de beleza e de crime. Por enquanto nós. Até quando?

Marco Antonio Martire (Transcrito de Rubem)

Paisagens Brasileiras

Tempo chuvoso em Ouro Preto, Aguilon 

Minha mãe já sabia


Em seu discurso de posse, a presidente reeleita Dilma Rousseff anunciou o lema de seu governo, Brasil, pátria educadora: "Isso significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis". O que causa admiração não é descobrir que só agora, em seu segundo mandato, a educação aparece como prioridade – mesmo porque o tema nunca interessou, de verdade, a nenhum político, nem a seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, nem, muito menos, ao tucano Fernando Henrique Cardoso. Surpreendente é a frase explicativa.

"Universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis" aponta para uma dessas duas interpretações possíveis: ou já atingimos um patamar de excelência na educação e o que precisamos é apenas garantir o ingresso do conjunto dos cidadãos nas escolas; ou devemos assegurar a admissão de todos num sistema que nos próximos quatro anos apontará para um grau de aprimoramento digno de Primeiro Mundo. Como o Brasil ocupa as últimas posições em testes de avaliação internacional de ensino – por exemplo: o Relatório de Capital Humano, formulado pelo Fórum Econômico Mundial nos coloca na em 88º lugar entre 122 países –, e como reputamos que a presidenta Dilma Rousseff é uma pessoa íntegra, podemos, sem sombra de dúvida, descartar a primeira hipótese de interpretação da frase explicativa.

Então, ainda que tarde, e ainda que descrentes, devemos analisar a frase de acordo com a segunda hipótese: iremos assistir, nos próximos 48 meses, um esforço para sanear as bases da educação brasileira, assentadas em um pântano de omissão, incompetência e desmando, para transformá-la em um oásis de eficiência, disseminação de conhecimento e preparação para a vida, que é o que todos ansiamos. Verifiquemos, pois, como a presidenta Dilma está se organizando para enfrentar esse desafio.

Não há mágica para resolver o gravíssimo problema da educação nacional, herança da mentalidade colonizadora, gananciosa, egoísta e predatória, que sobrevive em nossa elite individualista e burra. O Brasil dedica cerca de 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, percentual bem próximo daquele destinado pelos países ricos que contam com ensino de qualidade. O problema, então, não reside necessariamente no montante do dinheiro aplicado nessa área, mas em como ele é gerido.

O Ministério da Educação, encarregado de levar à frente o projeto, foi entregue ao ex-governador Cid Gomes, que divide com o irmão, Ciro, o controle da política cearense. Juntos, os Gomes garantiram a vitória acachapante de Dilma no Estado: quase 80% dos votos foram dados a ela. Cid é filiado ao Partido Republicano da Ordem Social (PROS), minúscula legenda que fez, no último pleito, um governador (o do Amazonas, José Melo) e 11 deputados federais. Não consta que ele tenha relação íntima com a pasta da qual é titular, mas, a bem da verdade, isso não tem importância, pois trata-se de um cargo político.

Mas qual o saldo da administração de Cid Gomes no Ceará? Embora tenha se tornado nacionalmente conhecido por uma declaração infeliz, ele implementou algumas políticas que impulsionaram o ensino fundamental no Estado. Em 2011, durante uma greve de trabalhadores da educação, o então governador afirmou, diante das reivindicações por melhores condições de emprego, que quem entra na vida pública – e ele estava pensando nos manifestantes – deve se sentir motivado não por questões financeiras, mas por "amor e espírito público". Como essa declaração acirrou os ânimos, os grevistas se reuniram em protesto em frente à Assembleia Legislativa, tendo sido dispersados pela Polícia Militar com cassetete, gás pimenta e gás lacrimogênio. Por outro lado, o nível do ensino fundamental no Ceará avançou – as notas subiram, nos primeiros anos, de 4,4 em 2011 para 5 em 2013, e, nos últimos anos, de 3,7 para 3,9 –, embora o desempenho no ensino médio tenha caído de 3,4 para 3,3 no mesmo período, segundo avaliação do do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Escola Básica).  
 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Aberta a temporada


Pior é quem recua


Adversários no Norte da África e depois no continente europeu, os generais George Patton, dos Estados Unidos e Erwin Rommel, da Alemanha, tinham características iguais. Para eles, o bom soldado não era o que morria pela pátria, mas o que fazia o inimigo morrer pela dele. Só admitiam uma estratégia: avançar sempre. Jamais manter posições ou aferrar-se ao terreno, mas seguir adiante, com o objetivo da vitória final.

Do discurso da presidente Dilma, na posse, ao pronunciamento do ministro Joaquim Levy, ao receber o cargo, o que se viu foi o governo abrindo trincheiras para enfrentar o adversário. Mais ainda, recuando.

Vão perder a guerra. Nenhuma administração pode aspirar sucesso quando prega apenas aumento de impostos, ajustes fiscais, corte nos investimentos, redução dos benefícios sociais, demissões e perda do poder aquisitivo dos salários.

Falta ao governo um plano para a vitória sobre a crise econômica, impossível de ser conquistada apenas com medidas de contenção. Nem é preciso citar os presidentes da República que deram certo e os que quebraram a cara. Os que ficaram nas trincheiras e os que avançaram.

Qual o objetivo do segundo mandato de Dilma? Se for apenas garantir o bolsa-família e demais programas assistencialistas, fica fácil prever o resultado: as demandas nacionais aumentarão não apenas no campo social, mas na economia. Para atendê-las não basta arrumar as contas e pagar as dívidas. É preciso avançar.

QUEM SERÁ O PRIMEIRO?

Uma aposta toma conta da Esplanada dos Ministérios: dos 39 ministros, qual será o primeiro a pedir para sair ou ser saído? As atenções se dividem entre os ministros de primeira e de segunda classe, quer dizer, aqueles que detêm os controles do processo político, econômico e social, e aqueles que apenas enfeitam o governo. Desimportantes, uns, vigiados, outros. A presidente Dilma dá sinais de que depende dela o julgamento de todos.

Saída, cadê a saída?


A crise política é inevitável. Os efeitos judiciais do processo do petrolão vão atingir em cheio o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Teremos, efetivamente, o grande teste das nossas instituições — o impeachment, em 1992, não passou de um ensaiozinho: chutar cachorro morto, todo mundo chuta. As antigas formas de pensar vão, como de hábito, recitar suas ladainhas, eivadas de estrangeirismo, preconceito e autoritarismo.

O desafio vai ser o de encontrar uma saída democrática, original e de acordo com a nossa formação histórica. Pode ser o tão esperado momento de ruptura que estamos aguardando desde 15 de novembro de 1889, quando a República foi anunciada, mas até hoje aguarda, ansiosamente, ser proclamada.

Ressaca brasileira

Observou-se que, com seu novo gabinete, Dilma Rousseff buscou se blindar de Lula. Mas talvez aconteça o contrário
Durante seu segundo mandato, Dilma Rousseff estará impedida de cumprir as duas promessas tradicionais da esquerda: desafiar as pretensões do mercado e refundar a política sobre procedimentos transparentes. Dilma consumirá parte de seu capital em ajustar a economia. E deverá continuar dando explicações pelo escândalo da Petrobras, com o qual conviverá durante todo o seu mandato. Lula da Silva e a cúpula do PT a observam a partir de agora com a precaução de quem olha o equilibrista caminhar com passo incerto sobre uma corda-bamba. Já escolheram a bandeira em que se envolverão até a próxima eleição: o conflito com os meios de comunicação. É uma estratégia habitual no populismo latino-americano. Já que não pode modificar a realidade, contesta sua interpretação.

Em 9 de setembro, Dilma acusou sua rival Marina Silva de pretender, caso chegasse à Presidência, entregar sua gestão econômica aos banqueiros. Na quinta-feira passada, nomeou Joaquim Levy, diretor da área de investimentos do Bradesco, o segundo maior banco privado do Brasil, como ministro da Fazenda. Levy, que se doutorou em Chicago, é chamado de Mãos de Tesoura. Ele adora esse apelido. Promete reduzir subsídios e a inflação para recuperar o crescimento. Cabe a ele, junto com Nelson Barbosa, ministro do Planejamento oriundo do Banco do Brasil, e Alexandre Tombini, que permanece no Banco Central, administrar a ressaca de uma festa de consumo.

O novo ministro do Desenvolvimento é o empresário Armando Monteiro. E a da Agricultura, Kátia Abreu, lidera a Confederação Nacional da Agricultura. É a Thatcher do campo.

Impossível duvidar da ortodoxia dessa equipe. O enigma é se Dilma a respaldará. Além de reparos ideológicos, ela poderá ter restrições temperamentais. Padece de uma propensão ao micromanagement e costuma submeter seus colaboradores a surtos de ira que eles denominam, respeitosamente, de “síndrome da tensão criativa”. Barbosa inaugurou a experiência: já precisou desmentir que, como havia prometido, vá reduzir o salário mínimo.

A Petrobras é outro manancial de dissabores. Ninguém conhece a lista completa dos políticos que se locupletaram nessa caixa preta, da qual saíram cerca de 10 bilhões de reais. A partilha do dinheiro complica a partilha de poder. Cada nomeação pode esconder um novo pesadelo. Na semana passada, o diretor de uma empresa japonesa confessou que recursos foram desviados para a campanha de Rousseff.

A Petrobras deve 135 bilhões de dólares. E a queda do preço do petróleo dificulta a exploração de sua grande jazida de águas profundas. O fundo de investimentos Aurelius pediu que seja declarado seu default. A empresa contamina a imagem geral dos negócios. E começa a se ouvir que outra tempestade pode se desencadear na Eletrobras, a maior empresa elétrica da América Latina.
Leia mais o artigo de Carlos Pagni

O Reizinho


Holanda corta serviços sociais e transfere carga a municípios

Manifestação contra os cortes do Governo, em novembro em Haia
O atendimento a idosos e dependentes passa a ser uma ‘obrigação’ familiar
Depois de quase meio século de funcionamento intensivo, o Estado de bem-estar social muda de nome na Holanda e passa a chamar-se “sociedade participativa”. A medida envolve cortes orçamentários e grandes mudanças para a população. Desde o dia 1º de janeiro o auxílio aos idosos e às pessoas dependentes de ajuda, incluindo as crianças incapacitadas, se transforma em uma “obrigação moral” das famílias, amigos e vizinhos. E o descumprimento desse novo dever não está sujeito a punição legal, pelo menos por ora.

Somente quando a situação for insustentável, as pessoas que não têm como cuidar de si mesmas poderão ter acesso a um centro subvencionado. A recém-criada Lei de Cuidados de Longa Duração estabelece que caberá às prefeituras proporcionar o atendimento, para o qual receberão financiamento estatal.

O primeiro discurso da Coroa do novo rei holandês, Willem-Alexander, introduziu em setembro de 2013 a ideia da sociedade participativa, em forma de advertência e, também, de desafio. Por um lado, mostrava a insustentabilidade de manter, com a crise, um sistema de cuidado que em 2010 custou 23.500 bilhões de euros (R$ 75,9 bilhões) ao erário público –com esse orçamento foram atendidos 250 mil dependentes em instituições públicas e outros 350 mil por meio de ajuda paga aos domicílios. Considerando o envelhecimento crescente nesse país de 16,7 milhões de habitantes, o desafio consiste em convencer os cidadãos de que têm de apoiar-se e ser responsáveis pelos que os rodeiam. A questão é saber se eles o farão espontaneamente. Porque, a partir de agora, o direito histórico de receber atendimento somente poderá ser exercido quando a pessoa não puder cuidar de si mesma e carecer de uma rede informal de apoio. Com essa mudança, o Estado pretende economizar 2,3 bilhões de euros este ano.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
Miguel Torga

Verdades


Uma história sem fim

Mantenha a esperança, disse-me a esperança, e, em seguida, avançou filosofando: só quem nada espera a suas lembranças recorre. Preocupada com os jovens, contemporizou como o poeta: não queira um pão melhor do que pode ser feito desse trigo.

Todo mundo sabe que com a política não há novidade. Como seu interesse não se define em termos morais, seus mistérios são inúteis. Um ar cada vez mais rarefeito de teoria e doutrina combina muito com a parte mais visível de pessoas indiferentes a especulações abstratas ou emoções estéticas. Não é um defeito, nem incomum, a mente material e prática predominar nessa atividade que sempre cheira à dissidência. Mas, para não alimentar a sedição, é prudente evitar dar ouvidos aos que acreditam que persuasão combina com ferro e fogo. Se interessar mais pela Constituição e dar à lealdade à lei o mesmo valor da gratidão aos aliados ajudaria muito a evitar suas incertezas.

O Brasil se acostumou com a pressa e as convicções de vento dos seus partidos políticos. Tornou-se sócio de um número de facções tão espetacularmente singular que fez dessa atividade quase uma irrealidade. Nosso pluripartidarismo é exclusivamente um fato do mundo dos políticos e seus interesses. Não tem correspondência cultural, religiosa ou social como a que explica esse fenômeno na Índia, por exemplo, onde tudo é multidão. Os tipos previsíveis que nascem a cada dia nesse laboratório de siglas se deslocaram da vida da sociedade para viverem dentro dos seus 30 céus esplendorosos. Legendas e nomes com aquele ar de proprietários de seus votos dados a quem quiserem, primeiro um parente necessitado, é óbvio. Como a imensidão do oceano, cada vez mais só desponta dali um gosto de sal.

Diferentemente de Dona Baratinha, sem dinheiro na caixinha, mas com fita oficial, a presidente o que mais tem é pretendente. Com alto índice de ambiguidade diante do poder, por aqui todas as maiorias politicas se parecem. O que as distingue de tempos em tempos são os ciclos de prosperidade e contenção, as ondas ascendentes ou descendentes da esperança em que vive imersa a sociedade. Sistema eleitoral e político como o nosso, de velhas panelinhas e renovada insinceridade, lembra embarque e desembarque de navios. Não são interesses democráticos, na maioria das vezes, que decidem sucessões dentro das coalizões governistas.

Fernando Sabino riu dos provincianismos na literatura brasileira em carta a Clarice Lispector. Recordo-a, aqui, livremente aplicada à política. Devemos reabilitar o amadorismo: cada defeito a menos tem sido um pecado a mais nos profissionais. Desistir de muita inteligência e classificar os tipos a partir de categorias mais simples: políticos redondos, quadrados, políticos cônicos, políticos piramidais. Enquadrar logo aliados afoitos em subespécies: os que começam e se acabam. Os que nos acabam e não começam. Os que começam, mas não acabam. Os que nem começam nem acabam. E por fim batizar ministros com locuções correspondentes: o “Apesar de Tudo”; o “Ainda Mais”; o “Contra o Qual”; o “Ele Outra Vez”; o “Ora Bolas!”; “Ora Pro Nobis”...

Ministro esportivo


O réveillon de Dilma


Um bom governo não se faz com discursos e estardalhaço publicitário, mas com boas práticas e boas iniciativas. O primeiro governo Dilma não conseguiu ir além do discurso naquilo que mais importa: uso criterioso dos recursos públicos e desenvolvimento econômico. Por mais que o governo, a cada novo escândalo, insistisse em se atribuir méritos pelas investigações, o fato é que as denúncias sempre vieram de fora do governo. E sempre foi ele, governo, o investigado. Mérito têm a PF, o MPF e o Dr. Sérgio Moro.

É desalentador saber que enquanto a ação penal do Mensalão era julgada ao vivo e a cores, enquanto os ministros do STF não economizavam adjetivos para qualificar os crimes e desqualificar os criminosos, corria livre, leve e solto, um esquema bilionário drenando recursos da Petrobras. E são fortíssimas as suspeitas de que algo semelhante lateja noutras entranhas da máquina federal.

Do desenvolvimento econômico dependem os investimentos privados, a absorção da força de trabalho, a manutenção dos postos existentes, a elevação da renda, a arrecadação tributária, os investimentos estatais e a atenção social prestada pelo poder público. Ora, somados os dados dos últimos quatro anos, vê-se que a taxa de crescimento que deveria ser buscada como meta anual – algo em torno dos 6% – corresponde ao total atingido em todo o primeiro mandato de Dilma e equivale a pífios 1,5% ao ano. A meta de 6% pode ser considerada inatingível, mas foi alcançada pela economia brasileira em 2004, 2007 e 2010.

O primeiro mandato da presidente, portanto, extinguiu-se melancolicamente em 31 de dezembro. A festa do dia seguinte, que deveria ser o “réveillon” de Dilma, ficou devendo às expectativas. O governo esperava 100 mil pessoas, queria algo que sinalizasse a restauração da confiança abalada por escândalos e pela manipulação de dados oficiais. As estimativas mais generosas falam em 40 mil pessoas, numa comemoração nitidamente partidária, nem cívica nem espontânea, com muito vermelho, e quase nenhum verde-amarelo.

Em seu discurso, a presidente deu sequência a um artifício que se desgastou durante a campanha eleitoral. Mais uma vez escondeu a realidade. Mais uma vez apelou para a vanglória, desfiando realizações que, se verdadeiras, lhe teriam proporcionado espetacular vitória eleitoral. Simples como isso. E, ao mesmo tempo, tão assustador quanto isso. O discurso mostrou o mesmo alheamento que caracterizou a política de seu partido e de seu governo. Espero que, desta feita, a “posse” não seja confundida com propriedade ou usufruto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Manual para fazer uma Pátria Educadora


1. Entender que o principal recurso da Pátria Educadora são as crianças, por isso, a pátria educadora nasce na escola de base, incluindo a educação infantil, desde a primeira idade.

2. Reconhecer que esta escola é formada sobretudo pelo professor e que, para a pátria ser educadora, ela deve escolher para professor de suas crianças os jovens mais brilhantes de suas universidades.

3. Saber que para atrair os melhores jovens para a atividade de magistério, esta carreira deve estar entre a aquelas com as melhores remunerações de todas as profissões.

4. Considerar que na Pátria Educadora os melhores e melhor equipados prédios públicos de cada cidade devem ser suas escolas, na qualidade e beleza de suas edificações, nos equipamentos culturais e esportivos disponíveis e no uso dos mais modernos equipamentos de tecnologia da informação para fins pedagógicos.

5. Definir nacionalmente os métodos de formação, seleção e avaliação para que os jovens atraídos devam ser escolhidos de forma cuidadosa, exigindo-se deles a mais absoluta competência, dedicação exclusiva ao magistério e sujeitos a um regime de trabalho que permita substitui-los se não participam realmente da construção da Pátria Educadora.

6. Perceber que a educação é um processo integral, com o máximo de tempo da criança em atividade escolar, complementada com o envolvimento dos pais, da mídia e de toda a sociedade pela prática cultural e pelo exemplo dos líderes. O que vai exigir um grande programa de educação de todos brasileiros, desde a erradicação do analfabetismo entre adultos, até uma educação também para os que são instruídos mas são deseducados. Esta educação de todos será necessária inclusive para que a população entenda e adote o lema de Pátria Educadora, depois de 515 anos em que a educação tem sido vista sem a prioridade merecida.

7. Assumir que, para a pátria ser educadora, a educação tem de quebrar as duas amarras que hoje aprisionam as crianças: o CPF dos pais para pagar uma boa escola privada e o CEP de onde ela mora para oferecer uma boa escola pública, por isso, para construir a Pátria Educadora, a responsabilidade pela educação terá de ser responsabilidade da nação, ou seja: financiada, normatizada e avaliada pela União, com uma carreira nacional para o professor e todas as escolas com a mesma qualidade.

8. Adotar a educação como uma responsabilidade federal e não municipal ou estadual, limitando o papel das unidades federativas à tarefa de definir a parte local do curriculum e participar da gestão descentralizada de cada escola.

9. Convencer as universidades, a mídia, o congresso, os partidos, empresários toda a sociedade de que educação é progresso e formar um pacto nacional para que isto possa ser executado ao longo das próximas décadas, em sucessivos governos.

10. Transformar o lema Pátria Educadora em realidade legal, sob a forma de leis, decretos e normas inclusive orçamentarias, além de criar a base política necessária para fazer o lema sair do marqueting inicial e entrar na história.

O boa-vida


“Lula passou, pela segunda vez consecutiva, o Réveillon na mansão de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, em Angra dos Reis. Lula, Marisa, filhos e noras chegaram na terça-feira e, pela previsão, ficariam até o primeiro fim de semana de 2015. Lula saiu de barco para pescar todos os dias. Fez uma pausa apenas para ir à posse de Dilma Rousseff na quinta-feira”.
(Nota de Lauro Jardim, em Veja, revela as boas amizades com os poderosos do guru petista e ex-presidente. Seripieri Jr. ficou bilionário controlando a Qualicorp, maior administradora de planos de saúde no Brasil, onde a saúde pública está cada vez pior e os preços dos planos de saúde estão altíssimos.)

O ano começou com uma boa notícia

A melhor notícia de 2015 veio nos últimos dias de 2014: a Petrobras suspendeu novos negócios com as 23 empreiteiras apanhadas na Operação Lava-Jato e abriu uma investigação nas contas da Transpetro, da BR Distribuidora e no fundo de pensão Petros. Com quase um ano de atraso, o comissariado partiu para o ataque, se é que partiu. Nesse período, a empresa perdeu 37% do seu valor de mercado e danificou sua credibilidade.

Assim como sucedeu com a seleção brasileira na Copa, a defesa da Petrobras sofreu um apagão. No início de 2014, sabia-se que estourara um escândalo nas suas operações com a companhia holandesa SBM, que lhe alugara sete navios-plataforma. Falava-se de um pagamento de comissões que chegavam a US$ 139 milhões. A doutora Graça Foster poderia ter soado algum alarme. Deu-se o contrário. Uma delegação da empresa foi a Amsterdam e concluiu que nada houvera de errado. Em novembro, a SBM foi multada, na Holanda, em US$ 240 milhões pelas propinas que distribuiu mundo afora.

As petrorroubalheiras tinham três vértices: o comissariado, funcionários corruptos e empresas corruptoras. Durante todo o ano o governo e as empresas acreditaram que prevaleceria algum tipo de código de silêncio. O “amigo Paulinho” não contaria o que sabia. Muito menos Alberto Youssef, seu operador financeiro. Empreiteiras? Nem pensar, isso jamais acontecera.

Em março, a doutora Graça Foster anunciou que a Petrobras investigaria as roubalheiras, e “não ficará pedra sobre pedra”. Parolagem. A essa época, a Polícia Federal e o Ministério Público já puxavam os fios da meada das roubalheiras, e, paralelamente, sabia-se que o fundo da Petros fechara 2013 com um rombo de R$ 7 bilhões, corrigido para R$ 2,8 bilhões. O comissariado e as empreiteiras acreditavam que ninguém desafiaria seus poderes, e seria possível conter as denúncias brandindo-se o santo nome da Petrobras. Lula chegou a marcar um fracassado ato público em frente à sede da empresa. A casa começou a cair em agosto, quando o “amigo Paulinho” passou a colaborar com as investigações. Num de seus depoimentos, ele mencionou uma propina de US$ 23 milhões da empreiteira Odebrecht. Foi rebatido pelo presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, que classificou a afirmação como “denúncia vazia de um criminoso confesso”. O ano terminou com pelo menos nove “criminosos confessos”, entre os quais, pela primeira vez, havia uma empreiteira, a Toyo Setal.

Documentos apreendidos pela polícia revelaram a estratégia de defesa dos envolvidos. Tratava-se de conseguir um acordo com o Ministério Público e de tirar o processo das mãos do juiz Sérgio Moro. Afinal, mexer com as empreiteiras significaria “parar o país”. Um escritório fixou seus honorários em R$ 2 milhões, mais R$ 1,5 milhão caso o estratagema fosse bem-sucedido. Como no fatídico jogo do Brasil contra a Alemanha, deu tudo errado.

A doutora Dima disse que a Petrobras “já vinha passando por um aprimoramento de gestão”. Cadê? Durante todo esse tempo o governo e a Petrobras foram agentes passivos da crise. Paulinho, Youssef e Pedro Barusco, um felizardo do segundo escalão que entesourara R$ 252 milhões, eram velhos conhecidos da rede petista, mas fazia-se de conta que eram marcianos. Durante quase um ano as poucas iniciativas tomadas pela Petrobras foram provocadas por fatores externos, sobretudo depois da abertura da investigações e processos nos Estados Unidos.

A decisão de Graça Foster ao final do ano passado pode significar uma mudança de comportamento. Em vez de jogar com uma defesa bichada, a empresa partiria para o ataque contra as roubalheiras. A entrada do fundo Petros no elenco pode ser um sinal disso, desde que se coloque mercadoria na vitrine. A doutora Dilma disse que “vou investigar a fundo, doa a quem doer”. Dor mesmo, seu governo só deu aos acionistas da empresa, que perderam uma parte de de seus investimentos. Ela assumiu seu segundo mandato dizendo que é preciso defender a Petrobras dos “inimigos externos”. Doze anos de poder petista mostraram que Lula e ela cevaram “predadores internos”.

Tomara que os dois discursos de Dilma Rousseff durante as cerimônias de sua posse tenham sido os últimos lances de uma campanha eleitoral que acabou no ano passado. Se não fossem tão longos e defensivos, poderiam ser atribuídos ao marqueteiro João Santana. Prova da sua falta de assunto foi a enésima defesa de uma reforma política (há um projeto no Congresso, cuja discussão é obstruída pelo PT). “Pátria educadora” é um slogan ruim, que parece ter saído dos versos oitocentistas do Hino Nacional.

O comissariado acusa a oposição de não ter saído do palanque. Viu-se em Brasília que quem não quer deixá-lo é o governo. Repetindo o Lula de 2003, apropriou-se da agenda econômica dos tucanos, no que pode ter feito bem. Quem falou aos brasileiros como presidente da República foi a representante de uma facção, porta-voz dos “nossos governos” (o dela e o de Lula).

Tudo bem, mas a partir de amanhã ela e seus 39 ministros terão um serviço para tocar.


Elio Gaspari

Jararaca que não muda

Dividir o poder não se resume ao loteamento de cargos do governo entre partidos que o apoiam, mais ainda sabendo que tal prática favorece a corrupção acima de tudo.

Ricardo Noblat, A velha Dilma de sempre 

'Eu sou a verdade, o caminho e a vida'


O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado
Albert Einstein

Bem longe falar aqui de um exemplo no mundo. A frase do título também poderia ser dita (ou repetida, ou copiada, ou explorada) por um canalha fantasiado de santo. Quem seria o autor de tal heresia? Louco ou bandido? Ambos. A psicopatia criminal explica.

Se há tantos séculos, alguém pôde multiplicar os pães e os peixes, porque em tempos de alta tecnologia e uma boa maquiagem nas contas não se poderia também repetir o milagre? O milagre bíblico, pois, se repetiu. Os pobres ganharam mais peixe e pão. Como outra é a era, de quebra, o divino psicopata também produziu o circo para todos.

Se não fez a transformação da água em vinho, muito melhor se saiu o deus brasileiro. Transformou o sertão em mar. Quer dizer, ainda não completou a obra, porque apesar de sua santidade ainda não conseguiu agilidade nos milagres. Naqueles anos da Galileia, era só uma magia de transformar. Agora era preciso transportar água em meio à seca secular. Convenhamos um milagre de maior porte e muito mais complexo. Mas enorme mesmo foi, com magia extra, produzir do nada tanto dinheiro para pagar a obra.

Arregimentar os pobres, pescá-los pela palavra. Isso então foi muito fácil. Bastou se tornar o salvador deles, com gesticulação apropriada de mistificador. Depois fez distribuir, santo milagre, as moedas jorrando dos céus, quer dizer, dos cofres públicos como jorrou trigo dos celeiros do faraó.

Trovejou que nada de fora atingiria o país. O tsunami que varria o mundo chegaria aqui como uma marolinha. Profeta, usou desbragadamente o consumo como barreira. E foi elevado às alturas de mestre salvador. Prodígio fácil. Saiu-se mais uma vez com o milagre que também os militares sempre fizeram na ditadura. Têm resultados rápidos e põem os milagreiros nas alturas.

Anunciou que o mundo era dos bons que sempre deviam competir contra os maus (os outros). Santa divisão. Para isso percorreu em caravana milionária, sem isso de apóstolos, mas carregado de comissariado, para divulgar o verbo da boa nova. Os pobres seriam atendidos pelo abençoado e os ricos excomungados, condenados aos infernos. “Quem me seguir será reunido no reino dos céus”. E seguiram muitos para os reinos da corrupção, da boa vida, do descanso remunerado ad eternum.

Sob suas bênçãos, prodigalizou o surgimento de uma mãe dos pobres, desvalidos, desesperançados. Conclamou a união em torno da nova santa. Atendido, se tornou deus único, a pairar no nirvana de um tríplex à beira da praia em Santos, de onde atenderá agora os mais necessitados de amparo legal para que seus milagres não sejam nunca desvendados como maracutaias de um psicopata.

Trabalhadores não são apenas os que ganham salário mínimo


Numa entrevista a Marta Beck, Cristiane Bonfanti, Gabriela Valente e Henrique Gomes Batista, publicada na edição de sábado de O Globo, o ministro Nelson Barbosa tocou na questão do salário mínimo, mas de uma forma que desagradou a presidente Dilma Rousseff, a ponto de levá-lo a rever suas declarações. O salário mínimo, pela lei em vigor, deve ser corrigido por índice acima da inflação, com base no aumento do custo de vida adicionado ao crescimento do Produto Interno Bruto nos últimos dois anos. Este é um fato. Não se sabe a razão da tempestade que atingiu o barco do Planejamento. Talvez a hipótese de seu titular ter se referidos aos jornalistas sobre a iniciativa de enviar o projeto de lei ao Congresso alterando a regra vigente. Pode ser. Afinal de contas enviar projetos ao Congresso é atribuição exclusiva da Chefe do Executivo.

Entretanto, a questão salarial como um todo possui diversos aspectos, a começar pela realidade de que os trabalhadores e servidores públicos brasileiros não são apenas os que percebem o piso básico. Estes compõem uma faixa, muito ampla, de 33%. Porém, e as outras correntes? Na verdade nenhum grupo assalariado deve ter seu reajuste menor do que a inflação do ano anterior, pois se tal ocorrer ele estará sendo reduzido em seus vencimentos, de maneira disfarçada, porém essencialmente inconstitucional, já que a Carta Magna impede a redução salarial.

Antes das urnas de outubro foi divulgada uma escala salarial em vigor no país, atribuída ao IBGE, na qual revelou-se que a metade dos trabalhadores do Brasil ganha praticamente entre 3 a 4 salários mínimos. E que 70% percebem entre 5 a 6 pisos básico. 5% somente abrangem os que ganham até 10 mínimos. E mais de 20 mínimos são apenas 0,8% da mão de obra. Mas este é um outro aspecto da questão.

O salário médio do país até dezembro alcançava em números redondos menos de R$ 2.000,00. O quadro salarial existente, como se vê, não se restringe ao salário mínimo. Dessa forma, em princípio nenhuma faixa (e não apenas a menor) deve perder para o índice inflacionário. Compatibilizar o avanço salarial com a inflação e a redistribuição de renda é que é a questão essencial. Porque, se o aumento atribuído ao mínimo for maior do que o aplicado aos demais salários, poder-se-á estar se realizando uma redistribuição de renda, mas do trabalho para o trabalho e não do capital para o trabalho. A desigualdade pode ser diminuída assim, entre as diversas classes, mas não o avanço social que depende do desenvolvimento econômico e da participação maior do rendimento trabalhista na formação do PIB. Mesmo porque existe a questão da renda per capita, que é o resultado da divisão do PIB pelo número de habitantes. É fato que a renda per capita não exprime a concentração, ela pode ser elevada dentro de um sistema muito amplo de concentração.

O desafio salarial está colocado. Ele é, na verdade a raiz de praticamente todos os problemas de forma direta ou indireta envolvem o país. Trata-se da grande questão colocada a frente dos governos e dos governantes. No momento projeta-se à frente da mesa da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. A questão do mínimo marcou a primeira contradição ocorrida no Poder Executivo. Vamos torcer que não surjam outras, desejando-se assim, êxito e boa sorte à presidente Dilma Rousseff.

Pedro do Coutto

domingo, 4 de janeiro de 2015

Aberto o saco de maldades

O que significa a proposta anunciada pelo novo ministro do Planejamento, de novas regras para o salário mínimo? Com perdão palavra, é trolha que vem por aí. Como sempre, penalizando os pobres e os humildes, no caso, quem consegue sobreviver com 788 reais por mês. Pois vai ficar pior. Segundo Nelson Barbosa, os reajustes do salário mínimo ainda serão superiores à inflação…

Dá para traduzir ajuste fiscal como algo diferente do que aumentar impostos? É o que também se prevê, assim como cortes nas despesas sociais. Jamais, é claro, nos recursos destinados a pagar juros ou a saldar débitos externos.

Num estalar de dedos o país toma conhecimento do que será o segundo mandato de Dilma Rousseff, porque apesar das promessas de não recuar um milímetro na preservação dos direitos sociais, a presidente assinou medida provisória cortando pela metade o abono salarial, o salário-desemprego, o auxílio-doença, as pensões pela morte de um cônjuge e até os benefícios para os pescadores proibidos de pescar.

Vale aguardar mais peças do conteúdo do saco de maldades aberto pelo novo governo todos os dias, começando na véspera da posse e seguindo impávido no rumo da desconstrução de uma sociedade mais justa. Calaram as forças que poderiam opor-se a esse massacre do PT aos sindicalistas. As oposições parlamentares nada farão, pelo menos até que o esbulho se estenda às classes privilegiadas. Enquanto isso, com as exceções de sempre, os ministros recém-nomeados batem cabeça, reconhecendo nada ter a ver com os setores para os quais foram escolhidos. É constrangedor citá-los. Mais responsáveis do que eles e os partidos que os impuseram será a presidente da República, que os nomeou.

No capítulo da corrupção, com ênfase para o escândalo na Petrobras, chega a ser hilariante a explicação de que deveu-se a uns poucos maus funcionários e à pressão de forças externas. Estas sempre existiram,  aqueles integram a parte visível da quadrilha que ocupou o poder para transformá-lo na caverna do Ali Babá, não obstante os protestos do já agora ex-ministro Gilberto Carvalho em seu canto de cisne. Ladrões existem, são identificados e continuarão agindo à luz do dia, pertençam ao PT, ao PMDB, ao PP, PR e penduricalhos.

Logo depois de sua primeira posse, Dilma conseguiu livrar-se de seis ministros envolvidos na roubalheira, mas quatro anos depois eles tinham voltado a influir no governo, diretamente ou através de prepostos. Participaram ativamente da montagem do segundo ministério.

Outra vez a conta da incúria vai para os menos favorecidos e, em pouco tempo, atingirá a classe média. Trata-se de uma questão de tempo saber onde a corda se romperá.
Carlos Chagas

A presidente, os novos ministros e o samba

Seu Presidente,/ Sua Excelência mostrou que é de fato/Agora tudo vai ficar barato/Agora o pobre já pode comer/Seu Presidente,Pois era isso que o povo queria/ O Ministério da Economia/ Parece que vai resolver/ Seu Presidente//Graças a Deus não vou comer mais gato/Carne de vaca no açougue é mato/Com meu amor eu já posso viver.
(Do samba Ministério da Economia, de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos)

Basta trocar o tratamento inicial de Senhor para Senhora Presidente e fazer algumas pequenas adaptações de linguagem para evitar os chatos de plantão no tempo do “politicamente correto”, que atravessamos, e está tudo OK. A exemplo do que rolou em Brasília na última quinta-feira, primeiro dia de 2015.

Temos até, na letra e melodia do velho e bom samba “Ministério da Economia”, sucesso popular absoluto no Brasil de 1951 (pode parecer distante, mas é quase ontem para os registros históricos), o tema musical da festa da posse para o segundo mandato da petista Dilma Rousseff. Acompanhada do coro de calouros e veteranos ministros, de múltiplas e desafinadas vozes, que ela escolheu na largada de seu segundo mandato no ano regido pelo guerreiro Oxóssi, a entidade sincrética de São Jorge nos cultos afro-brasileiros.

A garimpagem atenta e certeira, retirada do fundo do baú da MPB, da música interpretada à perfeição pelo saudoso sambista Geraldo Pereira, deve ser creditada ao jornalista baiano Claudio Leal. De São Paulo, ele postou no site blog Bahia em Pauta, o vídeo do Youtube, acompanhado da letra e informações básicas sobre a composição genial.

No título, o jornalista cravou com a inteligência e refinada perspicácia de sempre: “Seu Presidente/ Graças a Deus não vou comer mais gato”. Um samba de Geraldo Pereira para sonhar com as promessas dos discursos de posse em todo o Brasil”.

Na mosca!!!

Vejam, por exemplo, aquela foto tradicional em dia de posse, que todos os jornais fazem e quase nenhum publica na edição do dia seguinte. A chamada “foto de Arquivo” no jargão das redações, para ajudar em futuras comparações à medida que os governos vão passando e vários dos sorridentes ou circunspectos auxiliares do primeiro escalão vão se desgastando política ou tecnicamente, perdendo força e visibilidade.

No caso em tela, um amontoado de 39 figuras díspares, boa parte surge e desaparece como miragens no deserto, sem que a maioria dos brasileiros saiba de fato quem são, ou o que fazem. A não ser quando os malfeitos e escândalos explodem e se multiplicam com suas sequelas e contaminações inevitáveis.

Alguns acabam descartados. Sem sequer um “muito obrigado” do poderoso da vez. Em outros casos, simplesmente, são deixados na margem da estreita e selvagem estrada do poder, sem verbas, sem atenção, abandonados para morrer à mingua.

Neste começo do segundo governo Dilma, a “foto de Arquivo” foi publicada em alguns diários impressos, como a Tribuna da Bahia, sites e blogs. A imagem que tenho é a publicada na edição de ontem (2) do jornal espanhol El Pais (Edição do Brasil, que sempre leio junto com a TB).

Nela, uma figura se destaca no meio do bolo completo de novos e antigos auxiliares da presidente: O Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ele assume de fato o comando Economia na segunda-feira, 5, em cerimônia no Banco Central que promete dar o que falar. Atualmente é ele o nome do samba.

Vitor Hugo Soares

Ainda hoje


Pichavam nos muros o slogan de Marx: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Mas quem pichava e quem lia não sabia o que era uni-vos.
Graciliano Ramos 

Dilma não corta nem faz bainha


Sequer um Ministério a menos entre os 39, nenhuma redução em bônus, gratificações ou pessoal. Nada. A máquina de Dilma continua igual, obesa e cara

Dilma Rousseff inaugurou o 13º ano de governo petista com o mesmo de sempre: discurso recheado de generalidades, fantasias fabulosas, autoelogios e um amontoado de mentiras. Algumas de descaramento espantoso.

Nem corou ao dizer “assim como provamos que é possível crescer e distribuir renda, vamos provar que se pode fazer ajustes na economia sem revogar direitos conquistados ou trair compromissos sociais assumidos”. Isso dois dias depois de seu governo anunciar um pacote que reduz benefícios adquiridos de trabalhadores e de os mais otimistas apostarem em 0,3% de crescimento em 2014, número próximo à estagnação, com consequências seriíssimas nas arrecadações estaduais e municipais.

Mas enquanto governadores anunciam cortes na própria carne, como fez o do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), e o de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), Dilma só desossa a carne alheia.

Sequer um Ministério a menos entre os 39, nenhuma redução em bônus, gratificações ou pessoal. Nada. Nem bainha, quanto mais corte. A máquina de Dilma continua igual, obesa e cara.

Suas escolhas expõem a fragilidade dos compromissos que assumiu no Congresso Nacional. Basta um exemplo: prefere agradar 21 deputados do PRB, nomeando para o Esporte o polêmico George Hilton, do que reduzir ministérios inúteis.
Até agora, o ajuste de Dilma limita-se a regras mais rígidas e redução de percentuais pagos aos trabalhadores na pensão por morte, auxílio-doença, abono salarial, seguro-desemprego e seguro defeso, criado para proteger pescadores.

As reformas propostas, que devem vir por Medida Provisória, até poderiam ser louváveis se constitucionais forem, mas nem de longe arranham privilégios dos aboletados no poder. Passam longe do Planalto, da Esplanada, do governo e dos seus.

Representam uma economia de R$ 18 bilhões, pouco mais do que a metade do último aporte R$ 30 bilhões do Tesouro feito para tapar rombos no BNDES. O banco de fomento financiou a construção do Porto de Muriel, em Cuba, fez a alegria de gente seleta como o ex megaempresário Eike Batista e de todas as empreiteiras enroladas com a roubalheira na Petrobras.

Os bilhões que a Petrobras perdeu para a corrupção, em negócios mal geridos e mal explicados, são apenas parte da herança de Dilma para Dilma. Há encrenca para todo lado, com faturas já preparadas para os brasileiros pagarem. Estão previstos aumentos de energia, gás, combustíveis. Mais impostos.

No caso da petroleira, Dilma atribuiu todos os males a predadores internos e inimigos externos. Nada disso. Quem matou a charada foi Paulo Ferraz, em um comentário no Facebook: são inimigos íntimos. Ou amigos íntimos. E esses são imexíveis.

Os Ninguéns


As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
Eduardo Galeano

Por que Dilma não revela os 'inimigos' externos da Petrobras?



Até agora nenhum dos acusados denunciou inimigos externos responsáveis pelo seu colapso

A presidenta Dilma Rousseff em seu discurso de posse perante o Congresso fez uma afirmação grave, uma das mais importantes de seus 40 minutos de discurso, e que causou perplexidade. Falou que existem “inimigos externos” que conspiram contra a Petrobras, a grande petroleira brasileira hoje sofrendo grande humilhação da Justiça e da Polícia Federal por ter sido descoberto em seu interior o maior escândalo de corrupção política e empresarial da democracia. E garantiu que está disposta a combatê-los.

Não revelou, no entanto, quem são esses famosos inimigos que decidiram causar a crise na importante petroleira. Por que esse silêncio?

Fez bem, Dilma, em tecer os elogios à que já foi a joia da coroa da indústria brasileira fora e dentro do país. Fez bem em prometer que deseja extirpar o câncer que corrói a Petrobras, que tem, entre os diretores e gestores nomeados por ela ou seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, alguns que estão na prisão acusados de ter subtraído da empresa bilhões de dólares para alimentar o partido do governo ou partidos aliados, além de terem enriquecido pessoalmente, como estão revelando os interrogatórios da Justiça.

Ocorreu, porém, um lapso grave da presidenta em seu discurso, como puseram em evidência os analistas políticos, no fato de ter mantido o silêncio e suspense em relação a esses misteriosos “inimigos externos” da Petrobras.

É estranho porque a tentativa de lançar sobre inimigos externos os males de um governo costuma ser patrimônio de democracias frágeis, inseguras, dominadas por populistas ou ditadores incapazes de fazer autocrítica de seus erros.

Não é o caso do Brasil, que, como a própria presidenta destacou, goza de uma democracia onde funcionam com liberdade os três poderes e todas as instituições.

Os cidadãos brasileiros e todos os que têm ações da empresa, que perdeu 60% de seu valor, têm o direito, portanto, em respeito à democracia que desfrutam, de conhecer quem são esses inimigos de fora da Petrobras que os levaram a perder parte de seu patrimônio.

Pelo que até agora estão descobrindo tanto a Polícia Federal como os promotores e juízes federais por meio dos interrogatórios e das delações premiadas, esses inimigos ficaram aninhados durante anos dentro da empresa, foram escolhidos pelo governo, às vezes para agradar aos partidos aliados, e eles mesmos estão revelando que o demônio que tentou a Petrobras estava dentro, muito dentro, e não fora.

Nenhum deles, nem sequer os empresários opulentos que faziam seus cambalachos com a empresa para obter benefícios –altos dirigentes que continuam na cadeia –, acusou nenhum inimigo externo pelos males que prejudicaram a Petrobras e a levaram a perder valor e prestígio.

Já que a presidenta preferiu o silêncio sobre esse enigma dos “inimigos externos”, cabe imaginar que poderia referir-se, por exemplo, aos meios de comunicação que trouxeram a públicos os escândalos hoje confirmados pelos juízes.

A liberdade da mídia, porém, de trazer a público os escândalos do poder não só não pode ser vista como “inimiga” da Petrobras, mas, pelo contrário, como um estímulo a mais para ajudar o governo a corrigir os graves casos de corrupção, cada vez mais numerosos e graves.

Quantos desses escândalos teriam ficado ocultos para sempre, impunes, sem a colaboração dos meios de comunicação, cuja missão em uma democracia é a de ser uma das instituições que vigiam o poder? A experiência nos ensina que poucos, talvez nenhum, dos casos de corrupção denunciados pela imprensa brasileira nos últimos 20 anos eram falsos.

Leia mais o artigo de Juan Arias


sábado, 3 de janeiro de 2015

As duas Dilmas


Da existência de dois Brasís, o dos ricos e o dos pobres, ninguém duvida desde Pedro Álvares Cabral. O inusitado, agora, é reconhecermos também a realidade de duas Dilmas. Não deixam dúvidas seus pronunciamentos no Congresso e no parlatório do palácio do Planalto, ao tomar posse pela segunda vez. A presidente declarou: “Nenhum direito a menos! Nenhum passo atrás!” Referia-se à legislação trabalhista.

Ora bolas! Dois dias antes ela havia enviado Medida Provisória ao Legislativo, cortando pela metade o abono salarial, o seguro-desemprego, o auxílio-doença, as pensões por morte do cônjuge e até os benefícios aos pescadores impedidos de pescar. Qual das duas Dilmas será a verdadeira?

O processo de redução das prerrogativas sociais foi iniciado faz muito, nos idos de 1964, prolongando-se até o momento em que, imaginávamos, seria estancado, com a ascensão do governo dos trabalhadores. Presumia-se, até, o restabelecimento de alguns direitos trabalhistas, como a estabilidade no emprego.

Adianta pouco ou nada constatar que as supressões acima citadas estão longe de significar meros ajustes e eliminação de excessos, como quer o governo. Foi supressão mesmo, ou seja, abre-se outra vez o saco de maldades. Só que Dilma, depois de suprimir, tripudia: “Nenhum direito a menos!” “Nenhum passo atrás!” Quem garante?

O grotesco nessa farsa está no silêncio da CUT e do PT. Nenhuma voz sindical ou partidária foi ouvida daqueles que tinham por obrigação defender o trabalhador. Por ironia, foram os tucanos a protestar, eles que nos tempos de Fernando Henrique Cardoso fartaram-se de reduzir direitos sociais. A conclusão é de estar abandonada a classe operária, precisamente pelos que deveriam guardá-la.

Múltiplas contradições podem ser pinçadas no discurso da presidente da República, ficando a impressão de ser outro o país que ela governa. O que será, na concepção dela, o “menor sacrifício possível” a ser exigido pelo ajuste fiscal que vem por ai?

Pronto a explodir


Quando o cretino abre a boca...

A política é feita para servir. A imensa maioria dos nossos companheiros, ministros e assessores trabalha aqui por amor, trabalha aqui para servir. Nós não somos ladrões. (...) É verdade que há entre nós aqueles que tombaram e aqueles que caíram nos erros. Diferentemente de antes, cada um de nossos companheiros que cometeu um erro foi punido, pagou um preço doloroso para nós, mas pagou o preço e isso eu espero que sirva de fato para um novo padrão republicano

Ex-ministro Gilberto Carvalho, o mesmo que promoveu a primeira visita ao papa Francisco, em Roma, um bonde presidencial que custou quase R$ 300 mil de hospedagem em hotel de luxo. Se não roubou, abusou do dinheiro público para “abençoar” a imagem de Dilma. Com José Eduardo Cardoso, da Justiça, formou a dupla Cosme e Damião para blindar a presidente tascando o pau em uns e outros. E isso foi pouco porque a operação Pronto Emprego da PF sumiu do mapa e se faz de tudo para enterrar o caso de Celso Daniel. Agora vai desfrutar da sua “quitinete rural” (????) 

Apelo a Sua Santidade, o papa Francisco

Minha geração já assistiu a diversos milagres políticos. Um deles foi o desmonte do socialismo real no Leste Europeu, que provavelmente não teria ocorrido, naquele momento, se não fosse a liderança moral do papa João Paulo II. Com seu sentimento polonês, ele teve papel fundamental no despertar da necessidade das mudanças que as forças sociais empurravam nos países daquela área.

Nesses dias, o milagre foi a retomada das relações diplomáticas entre dois povos que viviam como inimigos a poucos quilômetros de distância, sem que um conseguisse vencer o outro. Nem os Estados Unidos estrangularam Cuba pelo uso do poder econômico, nem Cuba estrangulou os EUA com guerrilhas na América Latina.

O reatamento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, que um dia ocorreria pela pressão das forças sociais nos dois países, não teria acontecido agora sem a ousadia tanto do presidente Barack Obama quanto do presidente Raúl Castro, e sem, sobretudo, a força moral, aliada ao sentimento latino-americano, de Sua Santidade.

O mundo inteiro reconhece o papel de Sua Santidade na quebra do impasse de cinco décadas entre os dois países. Mesmo com a força política dos dois presidentes, as forças sociais não definiriam o momento; poderiam ficar represadas por outras décadas, até que um gesto as despertassem.

No Brasil, passamos por isso. A desigualdade que nos envergonha, a violência que nos mata, a corrupção que nos rouba recursos, a ineficiência que nos estrangula. Tudo isso pressiona para que algo ocorra e permita nosso salto para uma sociedade eficiente e harmônica. Sabemos o que é preciso fazer, sabemos como fazer, temos os recursos para isso, falta que as lideranças políticas se indignem, colocando a moral à frente da política, e a política tomando decisões decentes quanto ao uso dos recursos dos quais dispomos.

Mas parece que internamente não estamos conseguindo esse despertar. Agimos barrando a vontade das forças sociais, e não a favor delas.

Precisamos reatar as relações entre nossas classes sociais. E o caminho é colocar todas as nossas crianças em escolas com qualidade e com a mesma qualidade: os filhos dos pobres em escolas tão boas quanto as escolas dos filhos dos ricos. As forças sociais buscam isso, na ânsia de fazer com que o Brasil seja um país eficiente, justo, decente e com liberdade individual plena. Mas a política não se sensibiliza.

Aparentemente, há um divórcio entre a ansiedade das forças sociais, querendo um país melhor no futuro, e o comodismo das forças políticas, que querem apenas administrar improvisadamente o presente. Por isso, meu apelo a Sua Santidade: escreva aos líderes políticos brasileiros, do governo e da oposição, como fez para os líderes de Cuba e dos EUA, e fale da necessidade do reatamento social. Talvez Sua Santidade consiga nos despertar, como fez com os presidentes Obama e Castro.

O Ano Novo é um bom momento para isso.

A dúvida