quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


De quem é o poder da IA?

Mark Zuckerberg soltou, na semana passada, um manifesto para tratar de inteligência artificial. A esta altura, deve ser o quinto ou sexto ensaio ou manifesto que algum figurão do Vale do Silício divulga para tratar do tema. Há um aspecto nisso que passa pelo encontro do marketing e da antropologia — o Vale passou a se comunicar com o mundo por ensaios e manifestos, como costumam fazer os movimentos políticos. Mas, no caso de Zuck, há algo de diferente. É, incrivelmente, um manifesto com um tom liberal que não se ouve faz tempo vindo daquele canto da Califórnia.


Ele traz três argumentos. O primeiro é que a segurança, em IA, está na dispersão. Há um medo real de que novos modelos darão poder a hackers ou Estados hostis e porão em risco a infraestrutura de empresas e nações. Com uma ferramenta tão poderosa, do fornecimento de água e luz, passando pelo sistema bancário e incluindo até governos, tudo entra em perigo. Zuck propõe que a solução é colocar IAs poderosas nas mãos de todo mundo. A mesma tecnologia que ataca é a que combate ataques. Que cria defesas. Se todo mundo tem como se proteger, a segurança vem junto. O barão de Montesquieu já sabia disso, quando propôs a ideia da divisão em três Poderes. Quem distribui poder evita o abuso de poder.

Daí ele entra em empregos. Se todo mundo tiver as melhores IAs na mão, não faltará sustento a ninguém. Para o CEO da Meta, não está dado que a automação provocada pela tecnologia vá crescer mais rápido que a capacidade humana de lidar com a mesma tecnologia. Como com qualquer revolução passada, aprenderemos a lidar com ela. Então, talvez algumas empresas precisem de menos funcionários. Mas, ao mesmo tempo, incontáveis outros negócios surgirão. A economia se transformará. A humanidade só sofrerá se o acesso à IA for desigual.

Por fim, seu terceiro argumento. Não são os laboratórios criadores dos modelos de IA que devem determinar seus valores. Zuck defende que esses sistemas devem ser desenvolvidos de forma que cada indivíduo possa adaptar sua inteligência artificial pessoal para operar como deseja. Quem determina os limites de uma IA tem poder concentrado nas próprias mãos. Esse poder é mais perigoso que permitir a cada pessoa no planeta fazer suas próprias escolhas.

O argumento, do início ao fim, é liberal. Distribua o poder, não o concentre. Dê autonomia a cada indivíduo e respeite suas escolhas. O resultado será autonomia, crescimento econômico e ampliação das possibilidades humanas. Liberdade faz crescer. De quebra, Zuckerberg ainda propõe um fundo destinado às comunidades em cuja vizinhança houver data centers. Uma indenização e um incentivo.

Politicamente liberal, o argumento é. Zuckerberg, nem tanto. Passou os últimos anos construindo um bunker para sobreviver com a família ao fim do mundo, deliberadamente bajula Donald Trump e lamenta publicamente o fim da energia masculina. As plataformas que controla, como Facebook e Instagram, exploram o trabalho de inúmeros criadores compartilhando muito pouco da rentabilidade. Modificam sem piscar os algoritmos que muita gente investe tempo em compreender. Com isso, impõem danos a inúmeros negócios, grandes e pequenos. E-mails internos vazados mostram que os mesmos algoritmos usados em suas redes causam danos psicológicos graves em adolescentes. Incluam-se nessa lista casos de suicídio, para não falar de automutilação. Mesmo cientes disso, as plataformas não os mudaram. Zuck não é um liberal. Dispersão de poder e autonomia individual não são preocupações sinceras.

E, pois é, ele tem um problema. Inteligência artificial é o futuro do negócio digital. No Vale, tanto OpenAI quanto Anthropic estão muito à frente da Meta. Não só. O Google está à frente. Até a xAI, de Elon Musk, tem modelos melhores. Defender distribuição de poder e esvaziamento das decisões das empresas que criam IAs lhe é conveniente. Muito conveniente.
Pedro Doria

Ainda assim, faz tempo que não vem da Baía de San Francisco uma visão otimista, que defenda o uso da tecnologia para melhorar a vida. É, de alguma forma, um alento. Mesmo que não seja sincero, quem está no debate deveria prestar atenção.

Como Trump revitaliza a democracia

Na capital da Albânia, os recepcionistas dos hotéis fazem questão de ressaltar que os protestos em andamento do lado de fora são totalmente pacíficos. Aparentemente, houve um número considerável de cancelamento de reservas desde que as manifestações em massa começaram no segundo trimestre. Mas, se perguntados diretamente, eles podem insinuar discretamente que veem com bons olhos a participação de turistas nos protestos. Todas as noites, pessoas de todas as idades se reúnem diante do escritório do primeiro-ministro Edi Rama para denunciar a corrupção e exigir sua renúncia.

A chamada “Revolução dos Flamingos” foi deflagrada por um acordo que muitos consideram questionável entre o governo albanês e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump. Assim, estamos testemunhando um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos Estados Unidos corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele.


Muita coisa pode mudar em um ano. Basta lembrar que, ao longo de 2025, comentaristas de todo o mundo denunciavam, com razão, a destruição da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e lamentavam o que o segundo mandato de Trump prenunciava para a democracia e os direitos humanos em escala global. A mensagem para os autocratas, em praticamente toda parte, era de que eles não enfrentariam resistência. Dado o conhecido apreço de Trump por líderes autoritários, eles poderiam até ser aplaudidos.

Foi assim que o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, ordenou batidas policiais em várias ONGs apoiadas pela Usaid, justificando com entusiasmo esses ataques descarados à sociedade civil ao apontar para a designação da agência como uma “organização criminosa” feita por Elon Musk. Segundo algumas estimativas, o desmantelamento da Usaid levará a milhões de mortes; mas os autocratas do mundo encararam o fim da agência como algo puramente positivo.

Talvez os integrantes da chamada “Autocracia S.A.” devessem ter percebido que receber o apoio de Trump para suas atividades nefastas acabaria sendo uma faca de dois gumes. Afinal, a lógica política que tantos observadores lamentavam em 2025 poderia se inverter, e os vínculos com o regime de Trump passariam a ser vistos como prova da própria corrupção.

E assim aconteceu. Trump não é apenas profundamente impopular em boa parte do mundo, como aqueles que se opõem a governos aliados ao presidente americano podem agora explorar muito mais facilmente os argumentos sobre corrupção. Afinal, mesmo pessoas que não conhecem particularmente bem os meandros da política americana provavelmente já ouviram falar de escândalos como o presente do Catar a Trump: um “palácio voador da propina”.

A reação popular à corrupção à moda Trump parece descrever bem a situação na Albânia. Segundo a própria versão deles, Kushner e Ivanka Trump “descobriram” uma ilha maravilhosa na costa albanesa (Sazan estava longe de ser desconhecida, já que por muito tempo abrigou uma base militar albanesa). Além disso, eles encontraram essa joia e suas belas praias durante uma temporada no superiate de seu amigo bilionário Nathaniel Rothschild, na companhia de ninguém menos do que Edi Rama.

Poucos imaginariam que, apenas um ano atrás, o retorno de Trump à Casa Branca acabaria alimentando um movimento de massa em defesa da democracia e por mais transparência em todo o mundo. Os autocratas do mundo ganharam um novo inimigo: seu melhor amigo.

Pouco depois, Kushner e Ivanka Trump começaram a explorar a possibilidade de transformar em resort de luxo uma reserva natural oficialmente designada para a proteção de flamingos. Quando manifestantes locais se opuseram ao projeto, foram violentamente retirados por seguranças particulares. Mas tudo isso foi registrado em vídeo e as manifestações logo se espalharam do sul do país para Tirana. Agora, grandes manifestações são realizadas todas as noites, com destaque para flamingos de todos os tipos e formatos - de recortes de papelão a grandes infláveis cor-de-rosa.

Curiosamente, em meio às muitas bandeiras albanesas empunhadas pelos manifestantes, também aparecem bandeiras americanas. Em um país tradicionalmente pró-EUA, os cidadãos claramente querem deixar claro que sua mensagem não é antiamericana, mas contra a corrupção. O que eles rejeitam é a completa falta de transparência.

Trump é o catalisador perfeito para um movimento desse tipo porque é mais descaradamente corrupto do que a maioria dos líderes autoritários de hoje. Ele aceita com orgulho presentes extravagantes - de diamantes a pagamentos em criptomoedas - e depois, ao que tudo indica, “coincidentemente” reduz tarifas ou concede indultos em consequência disso. As evidências de operações com informação privilegiada e manipulação do mercado eram esmagadoras antes mesmos da rede social de Trump passar a vender explicitamente acesso antecipado a declarações do presidente capazes de mexer com os mercados.

A mensagem oficial da Casa Branca de Trump para o resto do mundo não poderia ser mais clara. Em 2025, ela “suspendeu” a aplicação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (Foreign Corrupt Practices Act), uma importante arma contra o suborno fora das fronteiras dos EUA. Depois, neste verão no Hemisfério Norte, esvaziou a Lei da Transparência Corporativa (Corporate Transparency Act), que já havia sido celebrada pelo secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, como “a lei mais importante contra a corrupção e a lavagem de dinheiro em décadas” - facilitado para criminosos americanos e estrangeiros se esconderem atrás de empresas de fachada.

Diante dessa mensagem, não chega a surpreender que aqueles que fazem negócios ostensivos com o nascente “Estado mafioso” de Trump acabem levantando suspeitas. Embora o discurso de Trump sobre “fake news” tenha ajudado autocratas de todas as partes do mundo a justificar ataques à imprensa, sua corrupção descarada também acabou chamando atenção para os próprios esquemas de favorecimento desses líderes.

No caso da Albânia, os manifestantes estão criticando tanto Rama quanto o líder da oposição, Sali Berisha, um ex-presidente e ex-primeiro-ministro. A condenação moral dos manifestantes recai sobre toda a classe política do país, que há muito tempo apenas finge apoiar a adesão à União Europeia, ao mesmo tempo em que torna esse desfecho menos provável ao atender os interesses de figuras como os Kushner. Parlamentares da União Europeia já alertaram Rama de que acordos que ignorem as regras do bloco podem colocar em risco a adesão do país.

Rama reclama que “se não fosse Jared Kushner... ninguém daria a mínima para os flamingos, para a Albânia, para nada. É todo esse ódio contra Trump que está provocando todo esse escrutínio”. Ele tem razão, embora não da maneira que pretendia. Poucos poderiam imaginar que, apenas um ano atrás, o retorno de Trump à Casa Branca acabaria alimentando um movimento de massa em defesa da democracia e por mais transparência em todo o mundo. Os autocratas do mundo, porém, ganharam um novo inimigo: seu melhor amigo.

Monstruosamente normal

A violência de gênero contra as mulheres é uma epidemia global. De acordo com o relatório mais recente das Nações Unidas sobre feminicídios, ela vitima, em média, 140 mulheres por dia em todo o mundo, um número equivalente ao desaparecimento diário de uma pequena aldeia de mulheres. Na Espanha, a última pesquisa nacional sobre violência de gênero (2024) mostra que 9,2% das mulheres com 16 anos ou mais residentes no país sofreram violência física por parte de seus parceiros em algum momento de suas vidas (o que representa aproximadamente dois milhões de mulheres), 3% (629.994) nos quatro anos anteriores às entrevistas e 1,5% (326.298) no último ano. Esses números descrevem uma violação vergonhosa dos direitos humanos em escala planetária. E, no entanto, ela continua a crescer: um fluxo constante e feroz que corrói nossas sociedades, sem que a indignação imediata provocada por cada novo caso se traduza em mudanças estruturais duradouras.


O recente assassinato de Laura Cruz pelas mãos de seu ex-companheiro ilustra de forma contundente o mecanismo que perpetua essa violência em todos os cantos do mundo. A jovem indiana casada prematuramente; a sul-africana agredida na rua; a dona de casa abusada durante décadas pelo marido; ou, neste caso, uma agente da Guarda Civil assassinada por seu ex-companheiro, também agente da Guarda Civil. Todas compartilham a mesma perda fundamental vivenciada por todas as vítimas de violência de gênero: a perda do controle sobre suas próprias vidas.

A violência de gênero é diferente de qualquer outro crime violento. Ela ocorre dentro da família, justamente o lugar onde todos deveríamos nos sentir seguros. A violência é perpetrada por alguém não apenas conhecido da vítima, mas com quem ela compartilha afeto, intimidade, planos de vida e até mesmo filhos. Alguém que alega amar sua vítima. Esse tipo de violência é corrosivo e insidioso: muitas vezes permanece oculto até mesmo dos parentes mais próximos, porque as lesões físicas mais visíveis são frequentemente precedidas por feridas igualmente devastadoras: o abuso verbal e emocional.

Essa violência se alastra por meio de mecanismos psicológicos tóxicos baseados no controle obsessivo do agressor, que emprega uma ampla gama de estratégias para limitar, monitorar e dirigir a vida da mulher que afirma amar, minando progressivamente sua capacidade de tomar decisões e sua independência. Um argumento recorrente entre os agressores é que o amor intenso que sentem por suas parceiras domina completamente sua vontade, a ponto de levá-los a cometer atos de violência e crueldade inaceitáveis. A ideia de que amor e violência têm a mesma origem não é apenas enganosa: é aterradora. E é também uma ideia que nossa cultura tem alimentado por gerações por meio de narrativas românticas onde o ciúme é disfarçado de paixão e o controle é confundido com cuidado.

Em seu livro *Marcas Invisíveis *, a jornalista Sandra Susany retrata agressores marcados por um narcisismo exacerbado, propensos ao engano e à duplicidade, com vícios (principalmente álcool) que são mais ou menos visíveis e tolerados. Estudos acadêmicos acrescentam outros fatores associados a esse perfil: exposição à violência na infância, falta de apoio social, pobreza ou abuso de substâncias. Mas essas evidências provêm principalmente da análise de casos de violência que terminam em feminicídio, e o feminicídio é apenas o desfecho final de uma longa trajetória de abuso e agressão que muitas vezes permanece silenciada pelos inúmeros obstáculos que as vítimas enfrentam ao tentar denunciá-la.

A produção cultural dos últimos anos nos aproxima desse caminho, povoado por fantasmas, silêncios, medos e desolação absoluta. Séries como Querer retratam a rejeição social e familiar que uma mulher pode sofrer ao ousar denunciar décadas de violência doméstica. Muitas vítimas não denunciam porque sabem de antemão o calvário que as aguarda: tanto a polícia quanto o sistema judiciário oferecem ferramentas limitadas para protegê-las. Há lacunas particularmente difíceis de preencher, como os recursos financeiros das mulheres para reconstruir suas vidas, ou a lentidão e ineficácia dos intermináveis protocolos judiciais que obrigam a vítima a reviver seu trauma repetidamente perante autoridades, peritos e juízes. Frequentemente, os homens acusados encontram maneiras de se esquivar das obrigações financeiras e das penas criminais, enquanto o processo se arrasta por anos e a mulher permanece presa em um limbo jurídico que a mantém, de fato, vinculada ao seu agressor.

O caso de Laura Cruz é mais uma ilustração trágica dessa longa jornada, e também das limitações das instituições que deveriam proteger as vítimas. Ela tentou ativamente escapar, passo a passo, utilizando as ferramentas e os recursos que o sistema vigente lhe disponibilizava, sempre vigilante, fazendo tudo ao seu alcance para sair da situação em que estava presa. O pior é que o caso dela não é isolado: muitas mulheres que ousam denunciar o abuso acabam presas em um pesadelo sem fim, incapazes de se libertar completamente da experiência de maus-tratos.

Muitas mulheres que conseguem escapar de seus agressores ainda são obrigadas a manter contato com eles se compartilharem a guarda dos filhos. E mesmo sem filhos envolvidos, muitas vítimas continuam a viver em constante medo muito tempo depois de escaparem de uma situação de abuso, especialmente quando o processo legal termina com a prisão do agressor. Nesses casos, as idas e vindas da casa da vítima se tornam particularmente perigosas.

Tudo isso deveria nos levar a repensar a natureza complexa da violência de gênero. Embora ocorra na esfera privada e familiar, ela tem consequências muito graves para a saúde pública de milhões de pessoas em todo o mundo. Não é apenas um problema de Laura; ela teve o azar de escolher o parceiro errado. Se aconteceu com ela, pode acontecer com qualquer uma de nós. Tratá-la como uma série de tragédias individuais e distantes é justamente o que permitiu que a violência masculina permanecesse, ano após ano, uma das principais causas de morte violenta entre mulheres em todo o mundo.

Há quase três anos, a irmã de outra vítima de feminicídio, a estudante universitária italiana Giulia Cecchettin, assassinada pelo ex-companheiro, expressou sua dor com uma mensagem poderosa, com aquela clareza que só a dor às vezes proporciona. Elena Cecchettin lembrou a todos que seu luto não era privado, mas público e político, e que o assassino de sua irmã não era um “monstro” ou uma pessoa “depravada”, mas um indivíduo “monstruosamente normal”. As mulheres que tomaram as ruas de diversas cidades italianas naquela onda de manifestações carregavam as chaves de casa nas mãos, bem visíveis: uma forma de dizer que a violência de gênero não é algo que acontece apenas com outras mulheres. Esses homens comuns vivem em nossas casas, sentam-se às nossas mesas e, muitas vezes, nem sequer se dão conta de que estão reproduzindo um padrão que a sociedade os ensinou a confundir com amor. Reconhecer isso não é um exercício de culpa coletiva, mas o primeiro passo necessário para desmantelá-la.

Programa Bolsonaro: extermínio, entrega de minerais críticos e respeito a todos os arranjos familiares

O programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso, registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava. Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais (“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”; zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas (que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.

Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.

O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.

Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?


A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.

Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.

O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.

Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.

A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.

Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.

A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.

O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.

Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.

Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.

Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.

O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.

Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.

O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.

Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.

O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.

Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.

O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.

E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.

O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.

A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.

Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.

Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.

O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.

A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.

A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.

Na estação das escolhas

Todos os políticos devem estar sob o mesmo escrutínio popular, eles representarão o país inteiro e, por isso, têm contas a prestar. Porém, não se pode tratar todo mundo com a mesma desconfiança. Há uma convicção disseminada de que eles e elas estão nesse caminho para ter vantagem pessoal. Esse sentimento difuso não surgiu à toa. Veio na esteira dos inúmeros escândalos políticos, das desculpas esfarrapadas dadas por muitos, e das imagens dos dinheiros em caixas, malas, bolsas, cofres, cuecas. No país das altas taxas de juros, nenhum dinheiro guardado em casa, em grande quantidade, parecerá inocente. No banco estaria rendendo.

Na semana passada, os candidatos tiveram que divulgar sua evolução patrimonial. Uma saudável rotina. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, apresentou o valor de R$ 274.503 de patrimônio acumulado em 40 anos de vida pública. Alguns órgãos de imprensa destacaram no título que ela teve um aumento de 87%, descontada a inflação, nos seus bens. É justo escrever isso? Não é. Os números podem enganar, distorcer e alimentar o perigoso estigma que cerca a imagem dos políticos.


Perguntei à deputada e candidata ao Senado por São Paulo, como foi essa evolução. Marina Silva tem uma aposentadoria como professora em torno R$ 5 mil. Isso é respeito ao dinheiro público. Ela optou por se aposentar como professora. Se o fizesse como parlamentar ou ministra teria um benefício muito maior. Durante o período sem mandato, fez palestras, o que lhe dava renda em torno de R$ 10 mil por mês, em média.

— Quando passei a ser deputada minha renda aumentou para R$ 40 mil. Eu usei os recursos extras para ajudar minhas irmãs e guardei um pouco. Meu patrimônio então saiu de em torno de R$121 mil para R$ 274 mil. Poderia ser destacado que eu sou a mais pobre entre os candidatos a senador, ainda que não veja demérito em ter uma renda maior do que a minha, mas ao pegarem apenas o acréscimo percentual sem a explicação devida iniciaram um processo, no qual tenho recebido críticas.

A ex-ministra Simone Tebet saiu de R$ 2,3 milhões para R$ 10,6 milhões e também explicou, quando divulgou os números, o fato de ter triplicado seu patrimônio. Foi consequência de ter recebido de sua mãe uma herança antecipada. Isso é facilmente verificável.

É natural que o país se debruce sobre esses números em busca de alguma estranheza. Mas é bom lembrar que os que estão na vida pública com más intenções costumam esconder com fórmulas espúrias, contas em paraísos fiscais e outros estratagemas o que realmente amealharam. No tempo da informação rápida, o que ficou foi o número do aumento dos bens, em títulos que davam a falsa impressão.



A falha ao dar a notícia, desinforma. O perigo maior não é atingir uma pessoa com a desconfiança injusta. A questão que trato aqui não é individual, mas coletiva. Se prevalece a interpretação de que todos os políticos estão na política para enriquecer, a democracia vai sendo minada.

A democracia no Brasil atravessa mil riscos. Há os que a desmoralizam em transações ilegais, há os que a ameaçam porque não acreditam nela e preferem o modelo autocrata ou ditatorial que levam a caminhos nos quais a gente já se perdeu muitas vezes na História da República. Foram tantos os descaminhos que se pode dizer que há um veio de autoritarismo estrutural na política brasileira. A luta contra esse desvio tem que ser constante na nossa vida cívica.

Este autoritarismo de fundamentos é reativado a cada momento em que se espalha a ideia de que todos os políticos são iguais e corruptos. Assim nascem os salvadores autocratas. A antipolítica levou milhares às ruas em 2013 no Brasil. A raiva foi galvanizada pela extrema direita. Dez anos depois, o país viu a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O movimento foi estimulado pelo governo que tentou um golpe de Estado.

Faltam 47 dias para as eleições e a última pesquisa Quaest mostrou que na espontânea da disputa presidencial, 51% ainda estão indecisos. Na estimulada do primeiro turno 30% dizem que podem mudar o voto atual.

Nas eleições para o Legislativo, a indefinição ainda é maior. Estamos, portanto, em plena estação das escolhas democráticas. A nossa sabedoria será testada. É agora que eleitoras e eleitores tomarão suas decisões. É fundamental lutar contra o desalento que nasce das generalizações indevidas. Há candidatos e candidatas que querem sinceramente servir ao país.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O que separa Minsk de Ceuta?

Na sequência da fraude eleitoral em 2020, das manifestações de protesto dos bielorrussos e da pressão política da União Europeia, Alexander Lukashenko anunciou, a 7 de julho de 2021, que a Europa seria invadida de “droga e de migrantes”. O governo bielorrusso organizou e patrocinou a vinda de milhares pessoas do Médio Oriente, organizando voos aéreos e prometendo entrada fácil na União Europeia. Conduzidas à fronteira com a Letónia, a Lituânia e a Polónia, foram-lhes entregues machados e alicates para que cortassem as redes, e fisicamente ameaçadas se não avançassem.

As redes sociais foram essenciais na montagem do plano. O KGB bielorrusso criou dezenas de contas falsas de “jornalistas” e “ativistas de direitos humanos” no Instagram e no Facebook. As contas eram utilizadas para disseminar informação falsa e acusar os guardas fronteiriços polacos de violência.

No Instagram, no Telegram e no Facebook, agências turísticas controladas pelos bielorrussos promoviam pacotes de viagens e garantiam a entrada na União Europeia. Publicavam também instruções precisas de como chegar a determinados pontos da fronteira e incentivavam a entradas em grupo para maior sucesso.

Redes sociais são o principal instrumento de destruição das instituições democráticas, e os extremistas utilizam-nas com grande sucesso na manipulação dos nossos sentimentos mais básicos

O que separa Minsk de Ceuta? A escala. Se em Minsk foram atraídas cerca de quatro mil pessoas, em Ceuta terão atravessado a fronteira mais de 60 mil. E o custo logístico na montagem da operação também foi diferente. Em Ceuta não foi necessário transportar ninguém de avião até à Europa. Toda a operação foi exclusivamente montada usando redes sociais. Rumores – posts – espalharam desinformação sobre uma decisão judicial e prometeram salvos-condutos. Em poucas semanas, houve mais de 11 milhões de visualizações do boato “a fronteira de Ceuta está aberta”. No Facebook foram postadas mais de 1100 publicações em árabe distorcendo o conteúdo da decisão do Supremo Tribunal Espanhol. A Inteligência Artificial foi utilizada para criar imagens falsas, mas realistas, incluindo a de um polícia marroquino a atirar uma pedra a um migrante. Grupos russos espalharam a narrativa de que Espanha estava a ser “invadida” e em poucas horas estes posts tiveram mais de 500 mil visualizações, promovendo a narrativa, dos partidos de extrema-direita, de que a Europa está vulnerável a fluxos migratórios e desestabilizando as relações entre governos Europeus.


Quando se justapõem a data em que telemóveis e redes sociais se tornaram omnipresentes (por volta de 2015) e a progressão dos partidos de extrema-direita na Europa, a tendência é inegável. Durante anos, partidos extremistas com uma votação entre os 4% e os 5% aumentaram de forma progressiva o número de simpatizantes, e hoje são uma força política que se aproxima dos 20%, um pouco por toda a Europa. Igualmente, quando o mesmo exercício é feito utilizando o índex de democracia que todos os anos a revista The Economist elabora, verifica-se uma degradação da qualidade das instituições democráticas nos países europeus pós-2015. As redes sociais são o principal instrumento de destruição das instituições democráticas, e os extremistas utilizam-nas com grande sucesso na manipulação dos nossos sentimentos mais básicos: o medo, a fúria, o nojo. O resultado visível da crise de Minsk foi a construção de um muro de cinco metros, em aço, de 186 km, entre a Polónia e a Bielorrússia. Um custo de 350 milhões de euros (mais 72 milhões de euros em vigilância eletrónica utilizando câmaras térmicas e de visão noturna). Não é um sucesso. Para os inimigos de uma Europa democrática, basta selecionar um outro ponto da fronteira e orquestrar, sem grande custo e com meia dúzia de computadores portáteis, uma nova crise humanitária e política. Se não aceitarmos que a legislação em vigor é insuficiente para controlar a utilização terrorista das redes sociais, que sem responsabilização penal dos donos das plataformas novas crises irão suceder-se a uma velocidade estonteante, em breve estaremos condenados a ser liderados não por quem defende a Europa, mas por aqueles que são a antítese dos seus valores.

Se a favela também é cidade, quem planejará sua adaptação?

As mudanças climáticas obrigam as cidades a rever seus modelos de planejamento. Ondas de calor, enchentes, secas e deslizamentos deixaram de ser acontecimentos extraordinários para fazer parte da gestão cotidiana do território. No Brasil, porém, esse desafio expõe uma contradição antiga: milhões de pessoas vivem em territórios que ainda são tratados como exceções ao planejamento urbano, embora sejam parte constitutiva das cidades. As favelas estão no centro dessa contradição. Pensar adaptação climática, portanto, exige mais do que infraestrutura: exige rever quem é reconhecido como parte da cidade e quem participa da construção de suas respostas.

Durante décadas, as favelas foram discutidas sobretudo a partir de suas carências: habitação, saneamento, infraestrutura, regularização ou segurança. A emergência climática desloca essa discussão. Se os eventos extremos atingem de maneira desigual os diferentes territórios, a adaptação deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ser também uma questão de justiça territorial. O clima não produz sozinho as desigualdades urbanas. Ele evidencia aquelas acumuladas pela própria forma como as cidades foram produzidas.


A história das favelas ajuda a compreender essa relação. O episódio ocorrido após a Guerra de Canudos, em 1897, quando soldados retornaram ao Rio de Janeiro sem receber os pagamentos prometidos e ocuparam as encostas próximas ao Ministério da Guerra, tornou-se uma das narrativas fundadoras da favela brasileira. Mais do que uma curiosidade histórica, o episódio revela a distância entre direitos reconhecidos e direitos efetivamente garantidos. A cidade precisava de trabalhadores, mas não assegurava a eles acesso equivalente à terra urbanizada e à moradia. A favela, nesse sentido, não surgiu simplesmente fora da cidade: ela também é resultado de suas escolhas e omissões.

Essa perspectiva ajuda a deslocar o olhar sobre esses territórios. A substituição, pelo IBGE, da expressão “aglomerados subnormais” por “favelas e comunidades urbanas” representa mais que uma mudança de nomenclatura. As palavras utilizadas para classificar um território também influenciam a forma como ele é planejado. Reconhecer a favela como parte da cidade significa deixar de defini-la apenas pelo que lhe falta e considerar também aquilo que produz: cultura, trabalho, redes de solidariedade, conhecimento e formas próprias de organização territorial.

Essa mudança é especialmente necessária diante da emergência climática. Dados do MapBiomas e do IBGE indicam que, a cada 100 hectares de favelas que cresceram no Brasil, 16,5 estão em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos. O dado evidencia a vulnerabilidade, mas também revela um problema histórico: durante décadas, o acesso desigual à terra segura e à infraestrutura empurrou populações de baixa renda para áreas ambientalmente frágeis. A vulnerabilidade climática, portanto, não é apenas natural. É também social, política e territorial.

Nas comunidades, condições como baixa arborização, impermeabilização do solo, dificuldades de drenagem e materiais construtivos que acumulam calor pode ampliar os impactos dos eventos extremos. Mas atribuir essas condições às escolhas individuais dos moradores significa ignorar a ausência histórica de investimento público, assistência técnica e planejamento continuado. A questão central passa a ser outra: quando falamos em resiliência urbana, estamos falando de políticas públicas ou da capacidade das populações vulneráveis de sobreviverem apesar da ausência delas?

A dimensão desse desafio torna difícil sustentar a ideia de que a favela seja uma exceção. O Brasil possui mais de 12,4 mil favelas e comunidades urbanas, onde vivem aproximadamente 16 milhões de pessoas. São territórios que participam da economia, da cultura e da vida cotidiana das cidades. Se são parte tão expressiva da urbanização brasileira, por que ainda ocupam um lugar secundário nas estratégias de adaptação?

É nesse ponto que a COP30, realizada em Belém em 2025, ofereceu um parâmetro importante. A conferência colocou a adaptação, a implementação e a justiça climática no centro da agenda, defendendo que as respostas climáticas precisam se aproximar da vida cotidiana das pessoas. A Agenda de Ação buscou justamente conectar compromissos internacionais a soluções e iniciativas já existentes nos territórios.

Esse princípio produz uma exigência concreta para o planejamento urbano brasileiro: não basta dialogar com os territórios; é preciso transformar esse diálogo em decisão, investimento e ação. A participação comunitária não pode permanecer restrita a consultas, encontros ou discursos sobre resiliência. Ela precisa interferir na definição das prioridades, na localização dos investimentos e na formulação das soluções. A própria agenda brasileira de adaptação já reconhece que o engajamento das comunidades locais é decisivo para sua implementação.

O Morro da Providência permite observar essa possibilidade. Ao lado de situações de vulnerabilidade, existem iniciativas comunitárias, hortas agroecológicas, projetos culturais e experiências de turismo de base comunitária que produzem conhecimento e fortalecem redes locais. Essas práticas não substituem a responsabilidade do Estado. Ao contrário, mostram onde políticas públicas podem encontrar conhecimentos já existentes e transformá-los em ações de maior alcance.

Essa aproximação exige abandonar uma oposição simplista entre conhecimento técnico e conhecimento comunitário. Mapas, indicadores e projetos de infraestrutura são indispensáveis, mas não dão conta sozinhos de um território vivido. Quem mora em uma área sujeita a enchentes ou deslizamentos conhece percursos, pontos críticos, redes de apoio e estratégias de emergência que dificilmente aparecem integralmente nos mapas oficiais. Incorporar esses saberes não significa romantizar a precariedade, mas reconhecer que adaptação também é produção de conhecimento.

O desafio colocado pela emergência climática é, portanto, maior do que adaptar fisicamente as favelas. É adaptar o próprio planejamento à realidade de uma cidade que já existe. Isso significa investir em drenagem, arborização, habitação, saneamento e contenção de encostas, mas também garantir que os moradores participem efetivamente das decisões sobre onde, como e para quem esses investimentos serão realizados.

A COP30 deixou uma pergunta que precisa ultrapassar os espaços de negociação: como transformar compromissos climáticos em mudanças concretas na vida cotidiana? Para as favelas brasileiras, essa resposta passa por deixar de produzir políticas para esses territórios e começar a produzi-las com eles.

A diferença é pequena na linguagem, mas enorme na prática. Em um caso, moradores permanecem como destinatários de decisões externas. No outro, seus conhecimentos passam a integrar a construção das respostas. Se a crise climática tornou evidente que nenhuma cidade será resiliente enquanto parte dela permanecer vulnerável, talvez seja hora de reconhecer aquilo que a história urbana brasileira insiste em esconder: a favela nunca esteve fora da cidade. Ela sempre foi cidade. E, se a COP30 pretende ser lembrada não apenas pelos diálogos, mas pela implementação, é justamente nesses territórios que esse compromisso precisa ser testado. Não em discursos sobre adaptação, mas em obras, investimentos, decisões compartilhadas e soluções capazes de permanecer depois que as conferências terminam.

O sionismo no centro da política internacional

O Estado Nazista, que dominou a Alemanha durante doze longos anos, de 1933 até a sua derrocada em 1945, caracterizava-se por ser racista, expansionista e bélico. Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha passou por um processo acelerado de desnazificação. Nos currículos escolares, contudo, a história da Alemanha não ia além do final do século XIX. O estudo do Terceiro Reich só começou a ser introduzido nas escolas em 1959, em resposta ao renascimento de incidentes antissemitas na Alemanha. Em 1961, Hanna Vogt publicou Schuld oder verhangnis? (Culpa ou fatalidade? traduzido para o inglês como The burden of guilt, O peso da culpa), um texto escolar que se transformou em best-seller, na Alemanha.

Os judeus constituíam as vítimas por excelência do racismo nazista, que incluía os eslavos e todos os demais povos considerados não arianos. O lema nazista era Juden raus! Auf nach Palastina! (Judeus fora! Fora para a Palestina!). Desde 1933 – principalmente depois das Leis de Nuremberg de 1935, que classificavam os judeus como cidadãos de segunda categoria – intensificou-se a imigração judaica para a Palestina sob Mandato Britânico, habitada majoritariamente por árabes muçulmanos.

Entre 1936 e 1939, a Palestina foi palco da Grande Revolta Árabe, um levante nacionalista dirigido contra a crescente imigração judaica, facilitada pelas autoridades britânicas. A imigração ganhou um novo patamar após a Segunda Guerra Mundial. A acomodação dos judeus na Palestina era uma forma da Europa se livrar dos judeus sobreviventes, enquanto a criação do Estado de Israel era considerada uma reparação histórica pelo Holocausto e uma forma de proteger os judeus do antissemitismo.


Para os judeus europeus sobreviventes, alojados nos campos de refugiados dos países derrotados em 1945 – Alemanha, Áustria e Itália –, a Palestina era um sonho, a Terra Prometida. Mas a criação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, é lembrada anualmente pelos palestinos, em 15 de maio, como o Dia da Catástrofe, al-Nakba. O sonho dos judeus era – e continua sendo – o pesadelo dos palestinos. Enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados da Europa, os palestinos deixavam suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados da Cisjordânia, de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.

Frente à comoção do mundo pelo destino dos judeus durante o Holocausto, a violência perpetrada contra a população palestina nativa foi silenciada. O filme Exodus, baseado no romance de Leon Uris, contrapondo os judeus exterminados na Europa com os israelenses combatentes, teve enorme importância cultural e política, popularizando uma narrativa heroica da criação de Israel, que moldou a imagem do país para o público ocidental. O filme enaltecia os valentes novos judeus israelenses que ocuparam o lugar dos passivos judeus que se submeteram ao trabalho escravo nos campos de concentração nazistas e caminharam como ovelhas ao matadouro em Auschwitz. 

Três gerações de israelenses, assim como de judeus da diáspora, viveram uma mentira, foram alimentadas e formadas ouvindo uma história gloriosa fabricada oficialmente pelo Estado de Israel e pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. E, por uma ironia da história, como se fosse uma herança nazista, ao longo dessas oito décadas, Israel tem-se caracterizado como um Estado racista, expansionista e bélico, em que os palestinos passaram a constituir os “judeus da vez”.

Israel é hoje um posto avançado da “civilização” ocidental contra a “barbárie” asiática, cumprindo o destino profetizado pelo fundador do moderno sionismo político Theodor Herzl em "O estado judeu", escrito no final do século XIX. Em estreita associação com os Estados Unidos, a aventura de Israel em expandir o conflito para o Irã coloca o sionismo no centro da política internacional.

Na Alemanha, país que agenciou o genocídio judaico, críticas ao Estado de Israel e manifestações contra o genocídio palestino têm sido fortemente reprimidas. E os governos de direita no mundo inteiro se apressam em apoiar Israel. O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, mesmo antes da posse, anunciou que iria restabelecer as relações diplomáticas com Israel e transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém ocupada.

Jean-Paul Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência era a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Contudo, a cultura humanista, internacionalista e pacifista do judaísmo, anterior à criação do Estado de Israel, foi radicalmente corrompida e ultrapassada – menos de 10% dos judeus em Israel e na diáspora se consideram antissionistas. E, ao invés de proteger os judeus do antissemitismo, o genocídio do povo palestino fomenta manifestações populares em vários países do mundo contra o Estado que assume o papel de porta-voz tanto dos judeus israelenses como dos judeus da diáspora.

Embora eu seja palestino, tenho parentes judeus vivendo em Israel, de norte a sul. A maior parte destes parentes se considera sionista de esquerda – só um, desde sempre, mantém-se crítico ao sionismo. Outro dia recebi uma mensagem sua dizendo “Não achamos que as coisas vão ficar boas em Israel. Sei por que o mundo inteiro odeia Israel e concordo com eles.”

Para Rubio, América Latina é o quintal dos EUA

"A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado." A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.


“A América para os americanos” de Monroe era uma mensagem às potências europeias, contra a ingerência delas nas novas nações independentes do que os Estados Unidos passavam a denominar “Hemisfério Ocidental”. A ideia de domínio — mas não a palavra! — emerge no final do século XIX e ganha justificativa com o Corolário Roosevelt. Sua abrangência, porém, circunscrevia-se à América Central/Caribe. Marco Rubio almeja estendê-la ao conjunto da América Latina.

O vice, J.D. Vance, e o secretário de Estado, Rubio, personificam as duas vertentes ideológicas conflitantes do segundo mandato de Trump. O primeiro é um arauto do isolacionismo populista do Make America Great Again (Maga), enquanto o segundo representa o internacionalismo agressivo da ala mais tradicional do Partido Republicano. No início de sua carreira, Rubio alinhou-se aos neoconservadores de Geoge W. Bush. Sua adesão tardia a Trump exigiu uma renúncia parcial ao internacionalismo imperial, que ficou circunscrito ao “Hemifério Ocidental”.

Numa entrevista concedida em 2025, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, declarou a necessidade de recuperar a influência “perdida para a China” no “quintal” dos Estados Unidos. Rubio concebeu a “Doutrina Donroe”, inscrita na nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Seu foco é restaurar o “quintal”, termo cunhado na época do intervencionismo de William McKinley e do próprio Theodore Roosevelt, entre 1897 e 1909. Eis aí o pano de fundo das sanções tarifárias e da intensa pressão diplomática aplicadas pela Casa Branca ao Brasil.

De Milei, na Argentina, a Bukele, em El Salvador, passando por Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru), Noboa (Equador) e Espriella (Colômbia), uma onda da direita dura espraiou-se pela América Latina. Os sucessivos êxitos da direita devem-se, fundamentalmente, às tensões ligadas à ascensão do crime organizado, à imigração e à corrupção. Trump teve escassa, ou nenhuma, contribuição para tais desenlaces eleitorais. Contudo o alinhamento dos novos líderes à Casa Branca isola regionalmente o Brasil. Mais uma vez, como no século XIX, nossa diplomacia encara o desafio de impedir o surgimento de uma coalizão hostil entre os vizinhos sul-americanos.

Nicolás Maduro, sequestrado por forças especiais dos Estados Unidos em janeiro, aparece como destaque no vídeo emanado do Departamento de Estado. A ditadura venezuelana segue em pé, mas agora obedece às ordens de Rubio. Desenrola-se uma operação de submissão do regime cubano, possivelmente em colaboração com Raulito Castro, “El Cangrejo”, neto do nonagenário Raúl Castro. Pelas urnas ou pelas canhoneiras, avança o projeto hemisférico do secretário de Estado.

Tanto Vance quanto Rubio mantiveram-se, prudentemente, à distância da aventura iraniana. A desastrosa guerra contra o Irã derivou da decisão de um Trump embevecido pelo sucesso na Venezuela e pela promessa de célere vitória de Netanyahu. O humilhante fracasso presidencial no Golfo Pérsico solicita a compensação de triunfos no teatro da América Latina.

O vídeo ameaçador é narrado pelo embaixador no Panamá, Kevin Cabrera, sinal de que veicula um recado direto ao país do canal. Entretanto o recado mais relevante, indireto, tem o Brasil como endereço: o governo dos Estados Unidos engajou-se na campanha de Flávio Bolsonaro.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


EUA projetam poder militar nas Américas às vésperas da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro

Cinco países da América Latina aceitaram o emprego de militares dos EUA em seus territórios para combater o crime organizado. Eles fazem parte de um grupo de 19 países que aderiram à Coalizão Anticartéis das Américas. O presidente Donald Trump tem mantido posição ambígua em relação à possibilidade de intervenção militar sem autorização de governos.

Os países que já assinaram a autorização são Guatemala, Honduras, Jamaica, Colômbia e Equador. Do total de 19 países, apenas dois não estão sob governos de direita: Guatemala e Bahamas.

A Colômbia aderiu depois da posse do presidente Abelardo de la Espriella, no dia 7.

Seu antecessor, Gustavo Petro, rejeitava ação militar americana, da mesma forma que a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Mesmo assim, Trump se negou a responder se poderia ou não ordenar ações militares nos dois países.


A coalizão tem origem em uma reunião de cúpula realizada em março na Flórida. A tese da ação militar americana é apoiada pela designação de narcotraficantes como terroristas.

Em 28 de maio, o Departamento de Estado incluiu o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho nessa lista, composta por 12 grupos da América Latina. A medida foi adotada logo depois de o senador Flávio Bolsonaro, agora candidato à Presidência, entregar em Washington um dossiê defendendo a designação.

Em vídeo divulgado na quinta-feira, em que aparece com uma camiseta da unidade de selva do exército americano, e cercado de militares, o secretário de Defesa Pete Hegseth avisa que os narcotraficantes serão tratados como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.

O Comando Sul conduziu desde setembro ao menos 59 bombardeios contra barcos no Caribe e no Pacífico, provenientes de Venezuela, Colômbia e Equador, deixando 196 mortos. Segundo relatos de moradores, havia pescadores entre eles. Nenhuma evidência foi apresentada pelo Pentágono de que se tratava de criminosos.

Os documentos de Estratégia de Segurança e de Defesa dos EUA preveem a concentração de forças militares nas Américas, para fazer frente à influência chinesa e projetar poder na região.

Na hipótese de eleição de Flávio Bolsonaro, o Brasil deverá ser incluído na coalizão, e talvez na lista menor dos países que aceitam o emprego de forças americanas em seu território. O senador comentou no X, em 23 de outubro, um post de Hegseth, mostrando um ataque contra uma embarcação.

Ele escreveu em inglês: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil de drogas. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”

A impunidade do genocídio e a perda da conquista histórica de Nuremberg

“A única pista para aquilo que o ser humano pode fazer é aquilo que o ser humano já fez.” A advertência de R. G. Collingwood, utilizada no encerramento do filme Nuremberg, não deveria ser recebida como uma reflexão melancólica sobre um passado encerrado. Ela contém uma profecia política: os mecanismos que permitiram as grandes barbaridades do século XX não desapareceram com a derrota militar do nazismo. Podem reaparecer sempre que o Estado converte o medo em doutrina, o preconceito em identidade nacional, a obediência em virtude e a destruição de outro povo em requisito de segurança.

A formulação exige, porém, uma precisão indispensável. Não são os transtornos psiquiátricos que explicam o nazismo, os crimes de guerra ou os projetos contemporâneos de extermínio. Associar doença mental à barbárie seria cientificamente frágil e injusto com milhões de pessoas que convivem com sofrimento psíquico sem jamais praticar violência. A descoberta mais perturbadora de Douglas Kelley foi justamente a inversa: pessoas sem uma patologia psiquiátrica incapacitante podem participar de crimes extraordinários quando determinadas circunstâncias políticas, institucionais e morais tornam o crime normal, recompensado ou socialmente aceitável.

Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa.

Em O nazista e o psiquiatra, Jack El-Hai reconstrói o encontro entre Kelley, então psiquiatra do Exército norte-americano, e os principais dirigentes nazistas presos antes do primeiro julgamento de Nuremberg. Kelley deveria avaliar se aqueles homens possuíam condições mentais para responder perante o tribunal. Esperava talvez encontrar uma estrutura psicológica especificamente nazista, uma deformação que separasse aqueles acusados da humanidade comum. O livro mostra que sua investigação não produziu uma fronteira confortável entre monstros e pessoas normais. Encontrou homens inteligentes, ambiciosos, socialmente funcionais e capazes de adaptar consciência, linguagem e comportamento às oportunidades oferecidas pelo poder.

A conclusão de Kelley antecipa uma questão que atravessaria o pensamento político do pós-guerra: o mal organizado não depende apenas de uma personalidade excepcionalmente perversa. Depende da criação de um ambiente em que a responsabilidade individual seja diluída entre ordens superiores, procedimentos administrativos, discursos patrióticos e interesses profissionais. A profecia de Nuremberg não é a de uma doença psiquiátrica que se repete. É a de uma possibilidade humana e institucional que permanece disponível.


Hannah Arendt encontrou na figura de Adolf Eichmann não a ausência de responsabilidade, mas a incapacidade de pensar criticamente sobre aquilo que fazia. Sua ideia de banalidade do mal foi muitas vezes reduzida à afirmação simplista de que os criminosos seriam burocratas inocentes. O argumento é mais exigente: atos monstruosos podem ser praticados por pessoas que substituem o julgamento moral pela linguagem administrativa, pela carreira e pela obediência. A banalidade não está no sofrimento causado, mas na normalidade com que o agente aprende a administrá-lo.

Christopher Browning, em Homens comuns, examinou como integrantes de um batalhão policial composto majoritariamente por alemães de meia-idade se transformaram em executores de milhares de judeus. Não eram todos militantes fanáticos nem foram todos obrigados sob ameaça imediata de morte. Pressão do grupo, conformismo, carreira, medo de parecer covarde, antissemitismo e adaptação progressiva tornaram possível aquilo que inicialmente poderia ter parecido impensável.

Robert Jay Lifton, ao estudar os médicos nazistas, demonstrou outra dimensão decisiva. Profissionais treinados para curar puderam participar da seleção, da experimentação e da morte porque construíram uma separação interna entre a identidade médica e a função exercida no sistema de extermínio. O conhecimento científico não impediu o crime; foi colocado a serviço dele. A medicina, quando capturada pelo Estado totalitário, deixou de proteger a vida concreta e passou a administrar uma suposta saúde racial da nação.

Essas contribuições não eliminam a responsabilidade pessoal. Fazem exatamente o contrário. Demonstram que não podemos esperar sinais de loucura para reconhecer o perigo. Um governante pode discursar racionalmente, vencer eleições, dominar estatísticas, reunir especialistas e, ainda assim, conduzir políticas criminosas. Um oficial pode amar sua família e ordenar a destruição da família de outro. Um médico pode preservar a saúde de determinados cidadãos e aceitar a privação médica de uma população considerada inimiga. Um eleitor pode defender valores democráticos para seu próprio grupo e tolerar a suspensão desses valores para quem foi colocado fora da comunidade nacional.

O Museu Memorial do Holocausto, dos Estados Unidos, resume as motivações dos participantes e colaboradores do nazismo em dois grandes campos: elementos culturais e ideológicos, como o antissemitismo, e mecanismos psicossociais, como medo, oportunismo e pressão para conformar-se. Muitos europeus testemunharam perseguições, violência, deportações e apropriação de bens, mesmo sem conhecer a extensão completa da chamada Solução Final. A propaganda ocultou métodos e utilizou eufemismos, mas a exclusão dos judeus da sociedade ocorria diante de vizinhos, funcionários, comerciantes e beneficiários diretos da desapropriação.

O Estado nacional-socialista criou as circunstâncias em que o crime deixou de parecer crime. O judeu foi primeiro transformado em problema jurídico, econômico, biológico e territorial. Vieram as classificações, as proibições profissionais, a expropriação, a segregação, a deportação e, finalmente, o assassinato industrializado. O Holocausto foi um processo em evolução: a perseguição sistemática iniciada em 1933 culminou, entre 1941 e 1945, na política de assassinato em massa denominada pelos nazistas “Solução Final”.

A Alemanha nazista e seus aliados e colaboradores assassinaram seis milhões de judeus europeus, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime. Aproximadamente 9,5 milhões de judeus viviam na Europa em 1933. Ao final da guerra, dois de cada três haviam sido mortos – uma destruição equivalente a cerca de 63% da população judaica europeia anterior ao nazismo. Nenhuma comparação contemporânea deve apagar a especificidade histórica, continental, racial e industrial desse processo.

Comparar, contudo, não significa declarar equivalência. A história comparada não coloca tragédias em uma competição macabra. Ela identifica mecanismos, ritmos, proporções e estruturas de impunidade. O Holocausto e a destruição de Gaza não são acontecimentos idênticos: diferem em duração, escala absoluta, tecnologia, configuração territorial e contexto histórico. Mas a singularidade do Holocausto não pode ser utilizada para proibir toda comparação, porque os princípios jurídicos construídos em resposta a ele foram deliberadamente formulados como universais.

Nuremberg estabeleceu que o indivíduo responde por crimes internacionais; que a legislação interna não elimina essa responsabilidade; que a condição de governante não oferece imunidade absoluta; e que a alegação de cumprimento de ordens não basta para absolver aquele que possuía possibilidade de escolha. A Convenção do Genocídio, aprovada em 1948, incluiu entre os atos proibidos o assassinato de integrantes do grupo, a produção de danos físicos ou mentais graves e a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial

É precisamente por isso que Gaza não pode ser analisada apenas pela comparação entre números absolutos. O universo populacional é decisivo. Segundo a UNICEF, 71.803 palestinos haviam sido registrados como mortos na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 3 de fevereiro de 2026, entre eles pelo menos 21.289 crianças. Outros 171.230 haviam sido registrados como feridos, incluindo cerca de 44.500 crianças. Em uma população estimada em 2,1 milhões de habitantes, as mortes diretas registradas correspondem aproximadamente a 3,4% da população; as crianças mortas, isoladamente, superam 1% de todos os habitantes; e os feridos representam mais de 8%. Trata-se de uma aproximação proporcional baseada nos números publicados, não de uma estimativa de mortalidade total ou de uma comparação de equivalência com o Holocausto.

Essa contagem também não representa necessariamente toda a dimensão humana da catástrofe. Ela registra mortes oficialmente reportadas, não todas as pessoas desaparecidas sob escombros nem os efeitos futuros de ferimentos, doenças, desnutrição, contaminação da água e interrupção de tratamentos. O rigor exige que não inventemos números além dos documentados. Exige também que não reduzamos a destruição aos corpos já contabilizados.

Aproximadamente 1,9 milhão dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza permaneciam deslocados em julho de 2026 – mais de 90% da população. Cerca de 82% das famílias enfrentavam insegurança hídrica, e até 70% não conseguiam acesso a seis litros de água por pessoa ao dia, volume inferior aos padrões mínimos de emergência. Dos 633 caminhões de ajuda da UNICEF provenientes do Egito em maio e junho, apenas 280 conseguiram descarregar seus suprimentos.

Mais de 60 milhões de toneladas de escombros haviam sido geradas desde outubro de 2023. Somente uma fração havia sido removida. Nos centros coletivos avaliados pela OCHA, 69% apresentavam esgoto visível e 80% não possuíam iluminação funcional. No primeiro semestre de 2026, foram registradas quase quatro mil perdas gestacionais; mais de 57% das gestantes apresentavam anemia, e a morbidade materna grave chegou a 82 casos para cada mil partos.

Esses dados dimensionam uma forma de destruição que ultrapassa o ataque militar direto. Uma sociedade é atingida em sua possibilidade de continuidade quando hospitais deixam de funcionar, mulheres não conseguem realizar partos seguros, crianças adoecem por falta de água, escolas desaparecem, áreas agrícolas se tornam inacessíveis e famílias são obrigadas a deslocar-se repetidamente sem lugar seguro para permanecer.

Mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, a OCHA informou outras 1.180 mortes e 3.810 feridos até 22 de julho de 2026. Entre 15 e 22 de julho, 59 palestinos foram registrados como mortos e mais de 190 como feridos. O termo “cessar-fogo” perde parte de seu conteúdo quando a população continua submetida a ataques, mortes e deslocamentos.

Nada disso justifica os crimes cometidos pelo Hamas e por outros grupos armados em 7 de outubro de 2023. A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que foram praticados ataques intencionais contra civis, assassinatos, tratamentos cruéis, tortura e tomada de reféns. Condenar esses crimes é uma obrigação moral e jurídica. Contextualizá-los historicamente não significa legitimá-los.

Mas a história palestina não começou naquele 7 de outubro. Em 1948, mais de 750 mil palestinos foram arrancados de suas casas, muitos deles à força, no processo conhecido como Nakba. A crise dos refugiados palestinos tornou-se a mais longa crise prolongada desse tipo no mundo contemporâneo. Em 2007, Israel intensificou o bloqueio terrestre, marítimo e aéreo de Gaza, aprofundando restrições anteriores e produzindo impactos profundos sobre a economia, a mobilidade e o tecido social do território.

A violência posterior ao atentado não surgiu do nada. Foi a intensificação colossal de uma estrutura anterior de ocupação, bloqueio, deslocamento e desigualdade jurídica. O ataque terrorista ofereceu ao governo Netanyahu a oportunidade política de transformar o trauma israelense em autorização para uma campanha cuja escala destrutiva passou muito além da responsabilização dos autores do ataque.

Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido e continuavam cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza. Israel rejeita essa conclusão. A Corte Internacional de Justiça ainda não proferiu uma sentença definitiva sobre o mérito da ação apresentada pela África do Sul, embora tenha determinado medidas provisórias de proteção. Essa diferença deve ser preservada: uma comissão da ONU apresentou uma conclusão jurídica de genocídio; o processo de responsabilidade estatal perante a CIJ permanece em andamento.

No campo da responsabilidade individual, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra, assassinato, perseguição e outros atos desumanos. O mandado contra Netanyahu permanece registrado pelo tribunal. Não é uma condenação antecipada, mas uma ordem para que o acusado seja apresentado à Justiça, conheça as provas, exerça sua defesa e seja submetido ao devido processo.

Prender Netanyahu em território de um Estado obrigado a cooperar com o TPI seria juridicamente legítimo. A presunção de inocência não significa o direito de evitar o julgamento. Significa o direito de ser julgado por tribunal competente, de contestar a acusação e de não ser condenado sem prova. Impedir a prisão não protege o devido processo; impede que ele aconteça.

A reação dos Estados Unidos confirma a perda da conquista histórica de Nuremberg. Washington apoiou o Tribunal Penal Internacional quando a instituição expediu mandado contra Vladimir Putin, mas passou a atacar o tribunal quando a mesma lógica de responsabilização alcançou Netanyahu. Uma norma aplicada aos adversários e suspensa diante dos aliados deixa de ser norma universal. Converte-se em arma geopolítica.

Essa seletividade também aparece no cerco contra Cuba. As situações de Gaza e Cuba não são equivalentes: uma população está submetida a uma campanha militar destrutiva; a outra sofre há décadas com um bloqueio econômico, comercial e financeiro. A lógica comum é o uso das condições materiais de vida de uma sociedade para impor submissão política.

Cuba não deve ser idealizada nem isentada de críticas sobre liberdades, participação política, gestão econômica e direitos civis. Mas suas contradições internas não autorizam uma potência estrangeira a decidir, pela escassez de combustível, crédito, tecnologia e medicamentos, qual regime os cubanos devem adotar.

A experiência socialista cubana produziu conquistas reconhecidas internacionalmente. A UNESCO descreve a Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 como o acontecimento mais marcante da educação e da cultura cubanas no século XX. O método Yo, sí puedo contribuiu para alfabetizar mais de seis milhões de pessoas em 29 países. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a expectativa de vida em Cuba alcançou 78,3 anos em 2024, superando a média das Américas. Reconhecer esses resultados não exige silenciar os problemas do regime; exige apenas analisar a trajetória histórica de Cuba sem as caricaturas construídas por Washington.

Em outubro de 2025, 165 países votaram na Assembleia Geral das Nações Unidas pelo fim do embargo norte-americano contra Cuba; apenas sete votaram contra e doze se abstiveram. A votação mostra a amplitude da rejeição internacional, mas também a impotência da Assembleia para obrigar a maior potência econômica e militar a modificar sua conduta.

Gaza e Cuba revelam, por métodos diferentes, o mesmo limite da ordem internacional. O TPI emite um mandado, mas não possui força policial para executá-lo. A Assembleia Geral condena um bloqueio, mas não possui meios para encerrá-lo. A norma existe, porém a aplicação depende daqueles que controlam armas, sistemas financeiros, alianças e sanções.

A sociedade israelense não pode ser responsabilizada coletivamente pelas decisões de Netanyahu. O povo judeu, o judaísmo, os cidadãos israelenses e o governo de Israel não são a mesma coisa. Transformar judeus em culpados por sua identidade seria reproduzir a lógica antissemita de culpa étnica. Mas negar a culpa coletiva não elimina a responsabilidade democrática individual.

A lição de Kelley dirige-se também aos cidadãos. O fato de uma pessoa não emitir ordens, lançar bombas ou administrar bloqueios não encerra sua responsabilidade moral. Há momentos em que permanecer neutro diante do que é feito em nome de sua sociedade significa permitir que o sistema continue funcionando. A resistência necessária em Israel deve ser civil, democrática e não violenta: nas ruas, nos sindicatos, nas universidades, na imprensa, nos tribunais, nas eleições e na recusa de participar de condutas incompatíveis com o direito humanitário.

A memória do Holocausto não concede imunidade a um Estado. Seu valor universal está precisamente na recusa de que qualquer população seja expulsa da humanidade. Honrar os seis milhões de judeus assassinados não significa silenciar diante da morte de crianças palestinas. Significa reconhecer nelas o mesmo direito à vida que o mundo jurou proteger depois de Auschwitz.

O desafio ultrapassa Israel e Palestina. O que se decide é se a civilização aceitará uma ordem em que tribunais são obedecidos quando acusam inimigos e sancionados quando investigam aliados; em que a fome pode ser administrada como instrumento militar; em que a energia se converte em arma de mudança de regime; e em que o destino de povos inteiros depende da conveniência de uma potência.

A resposta precisa chegar às instituições políticas. No Brasil, o primeiro turno das eleições gerais ocorrerá em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Nos Estados Unidos, as eleições federais parlamentares serão realizadas em 3 de novembro. Esses pleitos não resolverão sozinhos Gaza, o bloqueio contra Cuba ou a crise do direito internacional, mas podem alterar a correlação política que sustenta a hegemonia pela força.

Derrotar eleitoralmente o trumpismo e seus representantes brasileiros não significa hostilidade contra o povo norte-americano nem submissão acriticamente a qualquer governo adversário de Washington. Significa rejeitar uma política que sanciona tribunais, protege aliados procurados, ameaça a soberania econômica de terceiros países e trata a força como fonte última de legitimidade.

Nuremberg será perdido não quando seus documentos forem queimados, mas quando se transformarem em objetos cerimoniais sem eficácia contra os poderosos. Será perdido quando a responsabilidade individual valer para os derrotados e a imunidade política permanecer reservada aos aliados. Será perdido quando a humanidade concluir que determinados povos podem ser destruídos desde que o responsável disponha de proteção militar suficiente.

A profecia de Douglas Kelley permanece diante de nós. Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança.

A história já demonstrou aquilo que pessoas comuns podem fazer sob as circunstâncias de um Estado que organiza a desumanização. Cabe às sociedades de Israel, dos Estados Unidos, do Brasil e do mundo demonstrar aquilo que pessoas comuns também podem impedir quando se recusam a entregar sua consciência ao poder.

A Europa entre o populismo, a inação política e o descontentamento

Atualmente, a Europa atravessa um período de transformação social, económica e política que será um dos momentos mais desafiantes desde o final da Guerra Fria. A crescente radicalização do debate político, a perceção de inação política e o aumento do descontentamento dos cidadãos pressionam as instituições e fragilizam as democracias europeias.

Nos últimos tempos, o aumento do custo de vida em todos os países europeus, a dificuldade de muitos jovens europeus em comprarem a sua primeira habitação e a sucessiva instabilidade no panorama internacional face aos conflitos e à imprevisibilidade dos Estados Unidos têm contribuído para o aumento do descontentamento das populações face aos governos e às instituições do Estado de Direito.

Segundo os dados da Pordata e da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), cerca de oito a cada dez cidadãos tendem a não confiar no sistema partidário português e 62% manifestam desconfiança face ao Parlamento português. Estes dados não representam uma crise de credibilidade das instituições, mas sim, uma crescente distância entre as instituições e as pessoas.


Este contexto político no continente europeu tem fortalecido movimentos e partidos populistas que se apresentam como alternativas ao sistema político. Existem diversas formas de populismo face à realidade social e política de cada país, mas uma das características mais evidentes em todos os movimentos é a defesa de uma solução simples para problemas complexos. Esta característica é o reflexo da degradação do espaço político e da perigosidade que o discurso populista pode ter relativamente aos problemas reais das pessoas.

Porém, o fortalecimento do populismo nos países europeus é o exemplo da inação política de muitos atores políticos face às preocupações reais dos eleitores. O imobilismo político é um dos principais motores da ascensão do populismo nas democracias europeias, e torna-se um desafio à capacidade das democracias liberais de defenderem a promoção do debate maduro e sério sobre soluções concretas para os problemas reais.

A inação política não é só uma perceção e um dos principais motivos para o crescimento do populismo, mas um sintoma das transformações rápidas do mundo contemporâneo. Cada vez mais, uma sociedade é marcada pela rapidez da informação e pela exigência de soluções para o imediato, algo em que a democracia já demonstrou, diversas vezes ao longo da sua história, que as soluções reais para os problemas complexos de uma sociedade exigem tempo e negociação para terem a efetividade que todos querem. Nesse sentido, a demora pode ser interpretada como incapacidade de resposta face aos problemas dos cidadãos, apesar de existirem casos em que é evidente a falta de vontade política.

Por outro lado, a aceleração da história faz com que as sociedades não acompanhem as mudanças estruturais do tempo, e as plataformas digitais são exemplo disso face à relação entre governantes e governados. Tanto contribui para uma maior participação política pelos mais jovens, como também fragiliza a democracia com a desinformação e o aumento da polarização política.


O último perigo para a Europa é o crescimento do descontentamento das populações face à realidade europeia e do mundo, mas, acima de tudo, à realidade económica, social e política de cada país europeu, porque a perceção de inação política e o aumento exponencial dos movimentos populistas nas sociedades europeias farão com que os atores políticos não tenham espaço de manobra para solucionar os problemas reais com tempo e credibilidade, tal como a pressão política é muito maior quando o descontentamento se torna combustível político para os populismos.

Neste sentido, as democracias europeias têm de mostrar, mais uma vez, a força da resiliência europeia e a defesa intransigente dos valores da democracia. Os cidadãos precisam de uma política de proximidade, de auscultação, mas, principalmente, de uma política concreta para voltar a trazer a confiança às pessoas e a credibilidade às instituições democráticas.

O mundo de hoje acelera no tempo com mudança e rapidez. A Europa precisa de se reinventar e aproximar-se dos cidadãos. O desafio da minha geração não é só resistir aos populismos, mas também renovar a esperança de que a democracia continua a ser o melhor regime político. Como dizia Winston Churchill, “Democracy may be the worst form of government, except for all the others that have been tried ”. Cabe-nos, por isso, torná-la mais próxima e capaz de responder às preocupações dos europeus.

O crime nos trinques

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.


A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.

É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business — cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.

Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.

Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.

Lula sai na frente do primeiro dia da campanha para presidente

Lula larga na frente. Não importa o empate técnico no segundo turno com Flávio Bolsonaro, registrado pela mais recente pesquisa Quaest. No primeiro turno, ele abre sete pontos de vantagem sobre Flávio (PL), 34 sobre Ronaldo Caiado (PSD), 34 sobre Renan Santos (Missão) e 36 sobre Romeu Zema (Novo). Os demais candidatos mal pontuaram.

No domingo, o primeiro dia de campanha oficial, Lula também largou na frente. Basta comparar o tamanho do comício que promoveu no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, onde surgiu como líder sindical, com o tamanho do comício realizado por Flávio na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.


Para tentar vender sua visão de futuro, Lula resgatou feitos passados seus e dos governos do PT, citando o mais importante de todos: a inscrição definitiva dos pobres na agenda nacional. Desde então, qual foi o candidato a presidente que ousou ignorar os pobres na hora de prometer mundos e fundos para atrair votos?

Flávio não tem feitos para resgatar, nem seus, nem do seu pai, nem do partido de aluguel que o abriga hoje com toda a sua família. A não ser que considere como dignos de menção a “rachadinha”, a condecoração de milicianos, o comportamento do seu pai durante a pandemia da Covid-19 — que matou 700 mil brasileiros — e o golpe de 8 de janeiro.

Eleição é emoção na veia aplicada por meio de falas e propaganda. Lula e Flávio usaram essa receita em seus respectivos atos. Porém, houve mais emoção no estádio em São Bernardo, onde os símbolos predominaram, do que em Copacabana. À beira-mar, bandeiras dos Estados Unidos indicaram com clareza de que lado está Donald Trump.

“O atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros de distância da gente, mas não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador e assassino”, disse Flávio. Contrapôs Lula: “Que futuro querem para o povo brasileiro se riem de quem morre asfixiado por falta de ar e não investem em educação, saúde, casa e emprego?”

A esquerda de todos os tons uniu-se em torno de Lula, com o apoio de sete partidos. Já Flávio só conta com o PL, pois a direita se fragmentou. Os partidos do Centrão, ideologicamente afinados com Flávio, declararam-se neutros, embora uma parte deles no Sudeste vote em Flávio e, no Nordeste, em Lula.

Chapa “puro-sangue”, como a de Flávio com Antônio Gaspar de vice, só ganhou eleição presidencial uma vez: em 1989, com Fernando Collor e Itamar Franco, ambos filiados ao PRN. Mesmo assim, isso aconteceu porque aquela foi uma eleição isolada, não geral. Votou-se apenas para presidente, e os partidos não tinham a importância que têm hoje.

Estamos ou não no rumo do tetra, por um lado, ou do bi, pelo outro? Existe algum sinal de zebra, como a chance de Cabo Verde ganhar a Copa? Façam suas apostas.