Durante décadas, as favelas foram discutidas sobretudo a partir de suas carências: habitação, saneamento, infraestrutura, regularização ou segurança. A emergência climática desloca essa discussão. Se os eventos extremos atingem de maneira desigual os diferentes territórios, a adaptação deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ser também uma questão de justiça territorial. O clima não produz sozinho as desigualdades urbanas. Ele evidencia aquelas acumuladas pela própria forma como as cidades foram produzidas.
A história das favelas ajuda a compreender essa relação. O episódio ocorrido após a Guerra de Canudos, em 1897, quando soldados retornaram ao Rio de Janeiro sem receber os pagamentos prometidos e ocuparam as encostas próximas ao Ministério da Guerra, tornou-se uma das narrativas fundadoras da favela brasileira. Mais do que uma curiosidade histórica, o episódio revela a distância entre direitos reconhecidos e direitos efetivamente garantidos. A cidade precisava de trabalhadores, mas não assegurava a eles acesso equivalente à terra urbanizada e à moradia. A favela, nesse sentido, não surgiu simplesmente fora da cidade: ela também é resultado de suas escolhas e omissões.
Essa perspectiva ajuda a deslocar o olhar sobre esses territórios. A substituição, pelo IBGE, da expressão “aglomerados subnormais” por “favelas e comunidades urbanas” representa mais que uma mudança de nomenclatura. As palavras utilizadas para classificar um território também influenciam a forma como ele é planejado. Reconhecer a favela como parte da cidade significa deixar de defini-la apenas pelo que lhe falta e considerar também aquilo que produz: cultura, trabalho, redes de solidariedade, conhecimento e formas próprias de organização territorial.
Essa mudança é especialmente necessária diante da emergência climática. Dados do MapBiomas e do IBGE indicam que, a cada 100 hectares de favelas que cresceram no Brasil, 16,5 estão em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos. O dado evidencia a vulnerabilidade, mas também revela um problema histórico: durante décadas, o acesso desigual à terra segura e à infraestrutura empurrou populações de baixa renda para áreas ambientalmente frágeis. A vulnerabilidade climática, portanto, não é apenas natural. É também social, política e territorial.
Nas comunidades, condições como baixa arborização, impermeabilização do solo, dificuldades de drenagem e materiais construtivos que acumulam calor pode ampliar os impactos dos eventos extremos. Mas atribuir essas condições às escolhas individuais dos moradores significa ignorar a ausência histórica de investimento público, assistência técnica e planejamento continuado. A questão central passa a ser outra: quando falamos em resiliência urbana, estamos falando de políticas públicas ou da capacidade das populações vulneráveis de sobreviverem apesar da ausência delas?
A dimensão desse desafio torna difícil sustentar a ideia de que a favela seja uma exceção. O Brasil possui mais de 12,4 mil favelas e comunidades urbanas, onde vivem aproximadamente 16 milhões de pessoas. São territórios que participam da economia, da cultura e da vida cotidiana das cidades. Se são parte tão expressiva da urbanização brasileira, por que ainda ocupam um lugar secundário nas estratégias de adaptação?
É nesse ponto que a COP30, realizada em Belém em 2025, ofereceu um parâmetro importante. A conferência colocou a adaptação, a implementação e a justiça climática no centro da agenda, defendendo que as respostas climáticas precisam se aproximar da vida cotidiana das pessoas. A Agenda de Ação buscou justamente conectar compromissos internacionais a soluções e iniciativas já existentes nos territórios.
Esse princípio produz uma exigência concreta para o planejamento urbano brasileiro: não basta dialogar com os territórios; é preciso transformar esse diálogo em decisão, investimento e ação. A participação comunitária não pode permanecer restrita a consultas, encontros ou discursos sobre resiliência. Ela precisa interferir na definição das prioridades, na localização dos investimentos e na formulação das soluções. A própria agenda brasileira de adaptação já reconhece que o engajamento das comunidades locais é decisivo para sua implementação.
O Morro da Providência permite observar essa possibilidade. Ao lado de situações de vulnerabilidade, existem iniciativas comunitárias, hortas agroecológicas, projetos culturais e experiências de turismo de base comunitária que produzem conhecimento e fortalecem redes locais. Essas práticas não substituem a responsabilidade do Estado. Ao contrário, mostram onde políticas públicas podem encontrar conhecimentos já existentes e transformá-los em ações de maior alcance.
Essa aproximação exige abandonar uma oposição simplista entre conhecimento técnico e conhecimento comunitário. Mapas, indicadores e projetos de infraestrutura são indispensáveis, mas não dão conta sozinhos de um território vivido. Quem mora em uma área sujeita a enchentes ou deslizamentos conhece percursos, pontos críticos, redes de apoio e estratégias de emergência que dificilmente aparecem integralmente nos mapas oficiais. Incorporar esses saberes não significa romantizar a precariedade, mas reconhecer que adaptação também é produção de conhecimento.
O desafio colocado pela emergência climática é, portanto, maior do que adaptar fisicamente as favelas. É adaptar o próprio planejamento à realidade de uma cidade que já existe. Isso significa investir em drenagem, arborização, habitação, saneamento e contenção de encostas, mas também garantir que os moradores participem efetivamente das decisões sobre onde, como e para quem esses investimentos serão realizados.
A COP30 deixou uma pergunta que precisa ultrapassar os espaços de negociação: como transformar compromissos climáticos em mudanças concretas na vida cotidiana? Para as favelas brasileiras, essa resposta passa por deixar de produzir políticas para esses territórios e começar a produzi-las com eles.
A diferença é pequena na linguagem, mas enorme na prática. Em um caso, moradores permanecem como destinatários de decisões externas. No outro, seus conhecimentos passam a integrar a construção das respostas. Se a crise climática tornou evidente que nenhuma cidade será resiliente enquanto parte dela permanecer vulnerável, talvez seja hora de reconhecer aquilo que a história urbana brasileira insiste em esconder: a favela nunca esteve fora da cidade. Ela sempre foi cidade. E, se a COP30 pretende ser lembrada não apenas pelos diálogos, mas pela implementação, é justamente nesses territórios que esse compromisso precisa ser testado. Não em discursos sobre adaptação, mas em obras, investimentos, decisões compartilhadas e soluções capazes de permanecer depois que as conferências terminam.
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