segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

As vítimas inocentes

Quando olhamos para os horrores do mundo hoje, concretamente para a Ucrânia e o Médio Oriente, é o horror pura e simplesmente, pensando concretamente nas vítimas inocentes. Mas não foi sempre assim? Veja-se Auschwitz. A gente vai lá e fica estarrecido. Bento XVI foi lá também e deixou estas palavras: Há “um silêncio que é um grito interior para Deus: Por que te calaste? Por que quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Por que se calou?”

Ele deixou uma encíclica sobre a esperança - Spe salvi -, e nela debruça-se sobre uma pergunta decisiva, “a pergunta fundamental da Filosofia” (Max Horkheimer) : o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? Elas clamam, um grito ensurdecedor percorre a História.


E ergue-se um ateísmo moral precisamente por causa das injustiças do mundo e da História . “Um mundo no qual há tanta injustiça, tanto sofrimento dos inocentes e tanto cinismo do poder, não pode ser obra de um Deus bom.” Quase se poderia dizer que se é ateu ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror do mundo, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus.

Afastado Deus, deve ser o Homem a estabelecer a Justiça no mundo. Mas não será esta uma pretensão arrogante e intrinsecamente falsa? Quem não ouve o eco das palavras de Sófocles: Na terra “há muita coisa terrível, mas nada existe mais terrível do que o Homem”. Tem, pois, razão Bento XVI, ao acrescentar: “Um mundo que tem de criar a sua Justiça por si mesmo é um mundo sem esperança. Ninguém, nem nada responde pelo sofrimento dos séculos.”

Aqui, ele lembra a Escola de Frankfurt, nomeadamente Max Horkheimer e Theodor Adorno, que viveram filosoficamente a inconsolável “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível erguer uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz, já que ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por elas e então não era humana, porque insolidária.

Horkheimer e Adorno exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer, “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”.

Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, o “anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra”. E Adorno também escreveu que, frente às aporias da razão, neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”.

Embora se não possa afirmar nada para lá da imanência, a pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da História dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela Justiça universal.

Anselmo Borges

Os generais e o Estado de Direito

Há uma enorme diferença entre Estado de Direito (Rule of Law) e legalismo (rule by law). O Estado de Direito implica a ideia de que todos são iguais perante a lei e de que o poder público será limitado por ela. É o governo da lei, sendo a Constituição a lei fundamental. O legalismo refere-se à ideia de que os governos agem por meio de leis, decretos e portarias. O Estado de Direito diz respeito ao conteúdo das normas, e o legalismo está relacionado a sua forma.

Nem sempre as leis propostas pelos governantes estão de acordo com o Estado de Direito e a Constituição. Cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) avaliar os casos de conflito entre as leis propostas e a Carta.

Esses dois conceitos nos ajudam a entender a postura de alguns militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado. A revelação das conversas dos conspiradores mostra que os generais Mário Fernandes, Estevam Theophilo e Freire Gomes tinham visões distintas sobre o tema.


Com o fim do regime militar, os militares passaram a cultivar a imagem de legalistas. Fazia sentido, pois o golpe de 1964 foi feito à revelia da lei. A declaração do general Mário Fernandes de que os conspiradores deviam agir fora das “quatro linhas” é elucidativa. Afinal, segundo ele, não foi preciso nenhuma lei para derrubar o governo João Goulart. Fernandes claramente não é um legalista.

A postura do general Theophilo revela outra posição. Segundo as conversas relevadas pela Polícia Federal, ele disse que executaria as ações para Garantia da Lei e da Ordem e executaria o Estado de Sítio, desde que Jair Bolsonaro assinasse um decreto. Se a norma tivesse sido assinada, ele teria desencadeado o golpe. Seria um golpe legalista.

Finalmente, a posição de Freire Gomes mostrou que alguns generais entenderam a diferença entre Rule of Law e rule by law. Mesmo que tivesse formato legal, a minuta era claramente inconstitucional. Caberia, portanto, ao STF analisar a constitucionalidade da medida.

Jogar dentro das “quatro linhas”, como repetia exaustivamente Bolsonaro, não quer dizer agir de acordo com o Estado de Direito. Não basta que o formato pareça legal. É necessário que o conteúdo da norma seja constitucional. A Constituição tem muito mais que quatro linhas. E essas linhas são interpretadas pelo Poder Judiciário.

Embora distintas, as posições de Fernandes e Theophilo revelam a relutância de alguns militares em aceitar os princípios do Estado de Direito, que pressupõe a submissão da espada à toga. Cabe ao Judiciário, e não às Forças Armadas, decidir a legalidade das normas. É preciso que todos os militares entendam isso. Não precisamos de militares legalistas. Precisamos de militares submetidos à força da lei, ao poder da toga e ao controle civil.

O golpe para abolir a democracia e o silêncio cúmplice da direita

Conta a lenda que um escafandrista, nos anos 1970, vestido com sua pesada roupa de mergulho, entrou no bar e restaurante Antonio’s, reduto da boemia carioca, no Leblon, sentou-se a uma mesa de canto, tirou a máscara e pediu um chope.

As outras 12 mesas estavam ocupadas, a algazarra era grande, mas todos fingiram não ver o escafandrista. Depois de algum tempo, o jornalista João Saldanha, irritado com a indiferença coletiva diante do que acontecia, subiu numa cadeira e falou em voz alta:

– Pessoal, tem um homem aqui, um escafandrista, com capacete e tudo, tomando cerveja, e isso não é normal, não pode ser normal.



Ninguém deu bola para o que disse Saldanha, nem mesmo o pacato escafandrista que, depois de tomar três cervejas e servir-se de petiscos, pediu a conta, pagou, repôs o capacete de metal que escondia todo o seu rosto e foi embora se arrastando.

A normalização do absurdo não é coisa dos cariocas da Zona Sul nem de zona alguma – é dos brasileiros em muitas partes. Antigamente, podíamos dizer que ela mostrava o quanto éramos um povo tolerante, acolhedor e capaz de conviver em relativa paz.

Hoje, não mais. E desconfio que amanhã será muito menos. Tudo fruto da normalização do absurdo na política que avançou a galope nos últimos seis anos, despertando nossos instintos mais rudes e primitivos. Não há sinais de que isso irá arrefecer tão cedo.

Bolsonaro e seus comparsas são os maiores responsáveis, mas não só; também os que os apoiaram com entusiasmo e principalmente os que assistiram em silêncio a escalada da adoção de medidas extremas para abolir nosso modo de vida.


Não podia ser normal um presidente que acusou fraude no pleito que o elegeu com grande folga de votos. Não podia ser normal um presidente que, indiferente ao sofrimento coletivo, sabotou todos os meios de enfrentar a maior pandemia deste início de século

Não se pode dizer apenas conservadora e ainda por cima civilizada uma direita que finge desconhecer a gravidade do conteúdo explosivo do relatório da Polícia Federal sobre os golpes abortados de dezembro de 2022 e de 8 de janeiro de 2023.

O que disseram até aqui as vozes mais representativas e ouvidas dessa direita? O ex-presidente Michel Temer (MDB) limitou-se a dizer que não vê riscos para a democracia e que não há clima para golpe. Houve riscos e houve clima? Ele não comenta.

Quanto à participação de militares no plano de matar Lula, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, Temer a minimizou, dizendo que somente uns poucos se envolveram. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado nada disseram.

Os presidentes dos maiores partidos da direita (MDB, União Brasil, PP, PSD, Republicanos, PR), tampouco. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, sugeriu que a investigação da Polícia Federal “carece de provas”, mas saiu em defesa de Bolsonaro.

Tarcísio é o nome mais cotado da direita que se diz democrática para disputar a eleição presidencial daqui a dois anos. Ronaldo Caiado, governador de Goiás, que já se lançou candidato, disse sobre o indiciamento de Bolsonaro:

– E daí? A vida continua. Se eu fosse ficar preocupado com as pequenas coisas, eu não governaria.

Não é uma pequena coisa o indiciamento de um ex-presidente pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta da democracia, roubo de joias e organização criminosa. O Brasil nunca viu nada sequer parecido. Bolsonaro deverá ser condenado e preso.

O governador Cláudio Castro, do Rio, disse não acreditar em tentativa de golpe, mas sim “em baderna”. O governador Ratinho Jr., do Paraná, afirmou que indiciamento “não é sinônimo de condenação”. De fato não é, mas ninguém disse que era.

Calado estava, calado (não Caiado) permanece Romeu Zema, governador de Minas Gerais. O único nome de peso da direita a condenar o golpe foi Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Essa é a gente que se oferece para suceder Lula e fazer melhor do que ele?

Os chefes militares não disseram uma só palavra para reafirmar seu compromisso com a democracia. Mesmo os que se opuseram ao golpe e os que ficaram em sua “zona de conforto”, nada viram de suspeito nos acampamentos de golpistas à porta de quarteis.

Se viram, foram cúmplices com o que por um triz não deu certo.

domingo, 1 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Comprar, descartar, repetir: reflexões sobre o mundo material

Estou lendo, há algumas semanas, o livro Mundo Material: uma história substancial do nosso passado e futuro, de Ed Conway, e ele traz reflexões que raramente fazemos nos dias de hoje. E olha que eu penso bastante. Às vezes, até sinto uma certa dor de cabeça de tanto pensar — o famoso “overthinking” ou, como dizem alguns amigos em Portugal, “magicar”.

Mas, voltando ao livro, além de nos fazer “magicar” sobre o mundo, logo no início, algo me chamou atenção e certamente não vou esquecer: Ed Conway comenta que, para se produzir uma aliança de casamento de ouro vulgar, podem ser necessárias entre 4 e 20 toneladas de rocha. Apesar de pensar muito, nunca tinha refletido sobre isso — sobre a quantidade de ouro necessária para para produzir uma aliança ou brinco, por exemplo.

Em um momento em que se fala muito em transição energética, em digitalização de tudo, raramente nos damos conta de que, para abastecer esse mundo digital que está tão presente em nossas vidas — e que, ao mesmo, parece tão etéreo —, muitas matérias primas são necessárias. Nada no digital existe sem o material.


Assim como Ed Conway, percebo que passei grande parte da vida em outro mundo. Embora seja parte de um “ABC das fábricas” e da produção, diferentemente dos meus pais, grande parte da minha vida se desenrolou no mundo das ideias e dos serviços. Nesse mundo, também etéreo, vendemos serviços. É um mundo confortável: escrevemos textos, damos aulas, transferimos dinheiro, gravamos vídeos, entregamos pizzas aos finais de semana e desenvolvemos aplicativos.

Mas, quando você observa a cadeia produtiva de um semicondutor, por exemplo — que é apenas uma parte, porém fundamental, de praticamente todos os dispositivos eletrônicos que usamos no dia a dia —, percebe que ela envolve processos extremamente complexos e uma ampla gama de materiais. Desde a mineração de metais raros, passando pela fabricação em ambientes controlados, até a distribuição global, tudo depende de recursos materiais e humanos que estão muitas vezes distantes de nossa percepção cotidiana.

Aqui, cabe uma nota pessoal. Há alguns meses, passei a viver em um bairro com poucas opções de lazer. A principal atração por aqui é um grande shopping, que abriga também uma enorme loja de uma marca global de decoração. Eventualmente, vou até lá apenas para dar uma volta e tomar um café — afinal, não há muito mais o que fazer em bairros dormitórios. O curioso é que, mesmo aos domingos pela manhã, quando vou, tentando evitar a multidão, tanto o shopping quanto a loja estão sempre lotados. Sempre. As pessoas parecem estar em uma busca incessante por algo.

Com meu olhar sociologicamente treinado, observo as pessoas em suas rotinas e fico ali algum tempo anotando o que vejo. Às vezes em um caderninho, às vezes no celular. Não é algo que faço por acaso; sou também um produto dessa sociedade digital que tanto estudo. E se a loja e o shopping estão sempre lotados, eu também estou ali, ou seja, há uma ausência de algo em nossas vidas que, ao menos neste bairro, leva todos ao mesmo lugar. Porém, como socióloga, tento me esconder na análise para deixar que o fenômeno se revele.

Vejo gente comprando móveis, decorações, trocando tudo o que têm. Por quê? Talvez porque, de repente, a vida lhes tenha parecido sem graça. Talvez porque mudar as coisas seja um escape.

Quem sabe? E essa febre de consumo — e a necessidade que ela revela — me faz pensar também que é difícil não consumir nada em lojas que seguem o chamado “layout de percurso”. Ou seja, você entra na loja e é guiado por um único caminho que o obriga a passar por todas as seções, aumentando as chances de vermos uma variedade de produtos desfilando na nossa frente e pensarmos em comprar algo.

É uma rotina tão automática que parece hipnótica. Consumimos o tempo todo, mas quase nunca paramos para refletir sobre a origem material do que consumimos. E é isso que o livro Mundo Material nos obriga a fazer. Como diz Conway, se o Instagram ou a rede X desaparecessem, o mundo continuaria. Mas, se o aço ou o gás acabassem, tudo mudaria drasticamente.

Somos absolutamente dependentes desse mundo material. É aqui que entra outra reflexão que tenho pesquisado nos últimos meses: a exploração de lítio no Brasil e em Portugal. Em conversas com geólogos, especialistas de áreas técnicas e ativistas anti-mineração, percebo que, apesar das divergências e de se colocarem em lados opostos, há um ponto em comum: uma crítica ao modelo atual.

Os geólogos sabem, como bem aponta o livro, que é impossível viver hoje em dia sem as matérias-primas. E estão certos: a mineração é uma atividade da qual dependemos. Isso não significa que concordem com as formas de extração e as consequências que essas práticas geram no mundo. Por outro lado, os ativistas, muitas vezes com argumentos ancorados na “solidariedade mecânica moral”, criticam a extração infinita — e com razão, afinal os impactos causados pela expansão dos projetos não são poucos.

Mas, quando olho além desses dois grupos, para o shopping lotado ou para as pessoas consumindo desenfreadamente, percebo que, no meio da cadeia — entre quem extrai e quem consome —, fomos derrotados. Ninguém parece se importar com este grupo, que é a imensa maioria, daqueles que apenas consomem e consomem de maneira irrefletida.

Poucos param para pensar de onde vem a gasolina do carro ou quais são as consequências deste nosso estilo de vida que sequer alcança a todos. Longe de mim transformar este debate em um sermão moralista. Não é isso. Mas precisamos entender o mundo em que vivemos e nos implicar nele. Nós também o construímos. E, se a construção é coletiva — como não poderia deixar de ser —, precisamos olhar para todos os envolvidos, não só para aqueles que concordam conosco.

O livro nos lembra que durante a pandemia, enfrentamos uma crise que deixou marcas profundas. Faltou tudo: máscaras, zaragatoas, reagentes. Escassearam cimento, aço, papel, semicondutores. Trabalhadores, ao longo de uma cadeia global que começa nas minas e termina nas fábricas, evitaram um colapso maior. Mas, ainda assim, vivemos de maneira trágica o impacto da nossa dependência deste mundo material e a necessidade de salvar vidas quando todos precisavam ser atendidos quase que simultaneamente.

Esse mundo material nos é alienado. Sabemos muito pouco sobre ele — ou sobre o destino dos seus resíduos. A maior parte de nós simplesmente consome. Compra, descarta, repete… E é essa reflexão que o livro provoca. Porque, sem dúvida, vivemos em um mundo material. E, de maneira alarmante, parecemos mais conectados digitalmente e cada vez mais desconectados dele.
Elaine Santos, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Uma luz no fim do túnel

A desordem política em que o Brasil vive há mais de duas décadas decorre de três fatores: o pequeno número de pessoas genuinamente vocacionadas para a vida pública, deformações grotescas em nosso sistema institucional e, mais importante, a obscena desigualdade de nossa sociedade.

Aos fatores acima haveria que acrescentar o quadro mundial, no qual despontam ditadores como Nicolás Maduro, um presidente condenado eleito para a presidência dos Estados Unidos e ditaduras totalitárias como as da Rússia, China e Coreia do Norte. Vladimir Putin chega a ameaçar o mundo abertamente com o recurso a seu gigantesco arsenal nuclear.

Quanto ao Brasil, a escassez de vocações políticas a que me refiro diz respeito ao excesso de indivíduos ávidos por viver “da política” e não “para a política”. O quase total desaparecimento da geração de líderes do Congresso constituinte (1987-1988) deixou aberto o espaço para o discurso ideológico vazio do PT, o populismo de Lula da Silva e um Congresso no qual, com as exceções de praxe, pululam larápios e trapaceiros. Essa “oferta” molda a “demanda”, ou seja, aprofunda o descrédito da instituição legislativa, que afugenta possíveis bons candidatos e assim por diante, num círculo vicioso cujo fim não está à vista.

As deformações do sistema político-institucional têm sido amplamente discutidas, sem que apareçam lideranças lúcidas, dispostas a agarrar pela unha o touro da reforma política. Sabemos que o sistema presidencialista de governo é ruim mesmo onde haja partidos políticos; onde não os há, como é o nosso caso, é péssimo. Associado a contínuas rixas entre os Três Poderes, na contramão do que a Constituição estipula, não há como visualizar um panorama diferente desse que Brasília nos oferece dia sim, outro também.


Contudo, para avaliar a hipótese da descida aos infernos, como ocorreu na Argentina, é preciso repisar o óbvio: somos uma das sociedades mais desiguais do planeta. Uma minoria inferior a 10% açambarca metade da riqueza nacional e não assume o que deveria ser sua cota de responsabilidade na arrumação do País. Na parte inferior da pirâmide social, podemos dizer sem medo de errar que 30% dos cidadãos são incapazes de transmitir num simples bilhete o que tenham ouvido pelo telefone. São infracidadãos. Na última eleição municipal, o alto índice de abstenção resultou deste conjunto de elementos: candidaturas em sua maioria inexpressivas, ausência de propostas realistas para a melhoria da vida nas cidades, desânimo geral.

Sendo a realidade o que acima resumidamente se expôs, nada há a estranhar no desinteresse generalizado pela atividade política. Menos ainda quando se considera que a pequena parte capacitada da elite não tem sabido como motivar os eleitores e reverter tais tendências. Menos ainda a estranhar que o desinteresse se agudize entre os jovens, se a eles não se oferece o que mais lhes interessa: um mínimo de esperança. Esta, outrora, se consubstanciava nas ideologias, hoje moribundas, fato que só não enxergam os que não querem enxergar, ou que se valem de mitos ideológicos a fim de organizar partidos de araque, através dos quais assegurem acesso ao erário, a empregos públicos e prebendas, que são seus meios de vida.

Mas, exultai, uma luz começou a reluzir no fim do túnel. "Ainda Estou Aqui", o já celebrado filme de Walter Salles, despertou os corações e mentes, notadamente no seio da juventude. Mostrou que os cidadãos, de todas as idades, não viraram as costas à vida pública. Desde que verdades relevantes lhes sejam ditas, com franqueza, clareza e competência, seus corações despertam. O filme vai fundo num dos episódios mais macabros do período dos governos militares, o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, narrado em livro por seu filho Marcelo Rubens Paiva. Esse fato não ocorreu na pré-história, ocorreu algumas décadas atrás, mas só agora chega com toda a sua força dramática aos jovens, seja porque a informação lhes tenha sido sonegada, seja porque só agora surgiu um grupo de artistas com competência para relatá-lo como deve ser relatado: em sua simples verdade.

O êxito do trabalho de Walter Salles suscita uma questão muito mais ampla. Nós, brasileiros, não conhecemos nossa história. Não a conhecemos em seus momentos horrendos, que foram muitos, nem nos relativamente promissores, que foram poucos e curtos, mas existiram.

Essa constatação permite-nos ousar mais um pouco, ampliando esta reflexão: por maior que seja o descrédito das instituições, por mais generalizadas e cruéis que sejam nossas desigualdades sociais, é possível enfrentá-las com esta arma simples: a oferta de verdades relevantes.

A mudança de atitude sugerida no parágrafo anterior vai muito além do sempre desejável adensamento da cidadania. Diz respeito à prevenção da grave crise que já nos espreita. Sabemos todos que um ajuste fiscal sério é a condição sine qua non para a retomada do desenvolvimento econômico e social. Mas a bússola pela qual se pretende orientar o País é ainda a polarização idiota que temos vivido desde 2016.

Encadeamentos desastrosos

O golpe de Estado aconteceria em dezembro, após as eleições presidenciais de 2022, para impedir a posse dos eleitos e sequestrar Alexandre de Moraes. Os três seriam então simplesmente assassinados. Agora, a Polícia Federal revelou tudo, reunindo as apurações em um calhamaço de quase 900 páginas.

O planejamento golpista teve uma história. Começou em 2019, com as mentiras sobre fraude eleitoral, forjadas para instigar a população e mexer com os militares. Nos quatro anos seguintes, o gabinete de Jair Bolsonaro foi um larvário de articuladores e “tropas de combate”, que infestou a opinião pública com mensagens salvacionistas causadoras de caos e temor.

Tudo o que houve de estranho e esquisito naqueles quatro anos esteve encadeado: ministros desqualificados, ataques ao sistema eleitoral, desinformação, militares boquirrotos e indisciplinados, discursos virulentos, acampamentos “populares” às portas de quartéis, kids pretos empoderados, milícias digitais, toda uma mixórdia de fatos, personagens, palavras e atitudes, difundidas sibilina ou ostensivamente.

Havia ódio impulsionando a movimentação, juntamente com uma visão obtusa do mundo, brutal, tosca, sem preocupação pública. Forjou-se assim uma cultura hostil à sociedade, calcada em um “patriotismo” rastaquera.


Os golpistas construíram um castelo no ar. Pensaram ter mais força e melhor organização, e acharam que a fortuna (as circunstâncias) os beneficiaria. Que as Forças Armadas e o sistema político os apoiariam e que um “clamor popular” empurraria os tanques pelas ruas. Na hora H, deram-se conta de que a montanha a ser escalada era mais alta, a democracia era resiliente e não seria abatida com facilidade.

O golpe morreu na praia, em dezembro de 2022. Bolsonaro fugiu do País dias antes de transmitir o cargo. Em 8 de janeiro de 2023, bateu o desespero: uma chusma fanatizada e devidamente orientada depredou a Praça dos Três Poderes. O ato repulsivo mostrou a face tragicômica do plano, deixando claro que ele carecia de gente preparada, de lideranças competentes, de uma ideia razoável de País, de um princípio de honra.

O ataque à democracia não se consumou, mas produziu estragos.

Passaram-se dois anos para que a sordidez acumulada fosse investigada e exposta pela Polícia Federal. Foram então presos quatro militares e intimadas dezenas de oficiais de alta patente, assessores, um padre e o próprio Bolsonaro, que, segundo o inquérito, “planejou, atuou e teve o domínio de forma direta e efetiva” do golpe. Uma página que envergonha a história nacional começou, assim, a ser virada.

As revelações deste novembro de 2024 estão sendo esmiuçadas. O importante, agora, é refletir sobre as razões que possibilitaram a cogitação golpista, cuja gosma infecta escorreu pelo gabinete presidencial, pelo entorno de quartéis e redes sociais. Por que pensaram em algo tão estarrecedor? Além do incentivo do presidente, houve outros estímulos? As Forças Armadas não caíram na esparrela, mas não visualizaram o que se tramava?

A complexidade da vida atual explica parte do problema. Hoje ficou mais fácil tramar conspirações. Por mais que haja anteparos estatais, há muitas brechas para serem exploradas com más intenções. O Brasil não está sozinho nessa condição.

Uma sociedade fragmentada e com dificuldades de coesão, com uma cultura política rarefeita, com muitos desníveis sociais, tudo girando em alta velocidade, é propensa a complôs, ações terroristas e lideranças autoritárias. A confiança nas instituições declina, as reclamações se sucedem e a insegurança generalizada clama por uma “ordem” que caia do céu, como se fosse apaziguar mentes inquietas e sofridas. Diálogos refluem, a política torna-se uma batalha mais árdua.

Descrições desse tipo devem ser relativizadas. A desconfiança cresce, mas não predomina inconteste. As instituições falham, mas não deixam de respirar. O sistema democrático enfrenta dificuldades, mas se reproduz. Os cidadãos parecem desnorteados, mas a cada dia são mais bem informados e se mostram capacitados para enfrentar os desgovernos e brigar pela vida.

Tragédias servem para que aprendamos algumas coisas. Uma delas é exigir que se vá a fundo na apuração das responsabilidades. Anistiar os envolvidos é debochar da sociedade. Eles precisam ser punidos, exemplarmente, para que tragédias semelhantes não voltem a acontecer.

O País não está em clima de guerra civil, como mostraram as eleições municipais de 2024. Pode haver gente confusa e reacionária, mas não há uma maioria expressiva com sangue nos olhos e facas nos dentes.

É um erro trabalhar com narrativas que simplifiquem o que é complexo. O binarismo político, a falta de diálogo, os embates polarizados jogam contra os democratas, afastando-os da política como negociação e busca de consensos criativos.

A inteligência política é indispensável quando o cenário é estranho e escorregadio. Os democratas precisam tratá-la como recurso estratégico. Tanto para resolver problemas e construir um país, quanto para minimizar o risco de que pasmaceiras golpistas ganhem corpo e alma.

Quando teremos a coragem de travar a crise climática?

Se continuarmos a queimar combustíveis fósseis ao ritmo atual, iremos inevitavelmente caminhar para o colapso apocalíptico da civilização. E o mais surpreendente é que quase ninguém mais discorda seriamente dessa afirmação. Não só porque o consenso científico é esmagador, mas porque, cada vez mais, nós próprios podemos ver as provas em primeira mão. Eventos climáticos mortais estão se tornando mais frequentes e graves em todos os lugares. Os agricultores estão a sofrer em primeira mão as consequências do aumento das temperaturas, dos padrões climáticos instáveis e da perda de biodiversidade. A maioria dos líderes mundiais comprometeu-se a reduzir as emissões de carbono. “Não se pode negar a ciência”, diz Simon Harris, “o planeta está em chamas”. Apesar disso, ano após ano, as metas não são cumpridas, os combustíveis fósseis geram enormes lucros e as emissões globais de carbono continuam a aumentar.


Como isso é possível? A humanidade parece estar envolvida em um sinistro combate mortal e em uma luta desesperada para sobreviver. Mas contra que inimigo? Que força poderosa é essa que luta pela extinção da humanidade? Alguns querem que acreditemos que somos criaturas intrinsecamente gananciosas, condenadas a destruir tudo o que tocamos. Mas a verdade é que os humanos habitam a Terra há centenas de milhares de anos e só começaram a emitir níveis perigosos de dióxido de carbono com o nascimento da sociedade industrial no século XVIII. E a maior parte desse aumento ocorreu muito recentemente. Numa proporção esmagadora, durante as últimas décadas, quando já era conhecido o perigo das alterações climáticas . Se a causa do aquecimento do nosso planeta é a ganância humana, deve ser uma ganância especial, surpreendentemente tardia – dada a longa história da nossa espécie – e inesperadamente forte. Mas talvez possamos dar-lhe um nome mais apropriado e concreto: capitalismo.

Ao contrário de outras formas de organização da vida econômica, o sistema capitalista gera – e necessita – de crescimento exponencial. Antes da era do capitalismo industrial, a produção econômica normalmente não variava muito de década para década, ou mesmo de século para século. Um campo produzia mais ou menos as mesmas colheitas em 1200 e em 1600. A emergência do capitalismo mudou tudo. Hoje, como na era da máquina a vapor, as economias capitalistas devem crescer sem parar, e não até atingirem um suposto estado final de abundância perfeita, mas sim continuar avançando: mais recursos, mais produção, mais consumo, sempre mais. Crescimento significa rentabilidade do investimento, que é a base da economia capitalista. Aqueles que têm capital para investir querem que o seu dinheiro cresça, não porque sejam maliciosos ou insanos, mas porque esse é o princípio básico do próprio investimento. Como explica o filósofo político Kohei Saito , o capitalismo simplesmente não pode “desacelerar”. O impulso para crescer é o motor do sistema. E esse motor, como quase todos os outros, funciona com combustíveis fósseis.

Claro, esta imagem está incompleta. Carvão, petróleo e gás nada mais são do que substâncias inanimadas, sem capacidade intrínseca de influenciar a nossa economia. Para que os combustíveis fósseis sejam rentáveis, as pessoas devem pagar por eles ou pelos bens que ajudam a produzir. E pague. Desde voos de longo curso a carros de luxo e fast fashion , os consumidores abastados ficam felizes em profanar o nosso planeta em troca de diversão e conveniência. Mas o consumo, por si só, por mais desperdício que seja, não gera nem necessita de crescimento exponencial. Se uma pessoa compra 10 camisas num ano, não há lógica econômica que a obrigue a comprar 12 ou 15 no ano seguinte. O crescimento é um princípio do capitalista, não do consumidor. E a diferença entre as necessidades das pessoas e as necessidades do capital é muito evidente. Aqui na Irlanda, enquanto muitas famílias lutam para pagar a sua conta de electricidade, os centros de dados de empresas privadas consomem mais electricidade do que todos os agregados familiares urbanos juntos.

E a democracia? Democracia de quem? Afinal, o nosso sistema político não é uma democracia global única, mas uma hierarquia desigual de nações. Na prática, um punhado de eleitores nos estados indecisos dos Estados Unidos têm mais poder para determinar a velocidade e a magnitude do aquecimento global do que outros milhares de milhões de pessoas na Terra. Como se sabe, os colonos americanos rebelaram-se contra o fato de pagarem impostos mas não estarem representados. A destruição ambiental é muito diferente sem o direito à representação? Mesmo que as emissões de carbono fossem distribuídas democraticamente – o que não acontece – porque é que os eleitores dos países mais ricos teriam o direito de envenenar o ar, o mar, o solo e os rios de toda a Terra? O carbono emitido nos Estados Unidos e na Europa causa estragos no Paquistão, no Haiti, na Somália e nas Filipinas, mas as pessoas nesses países não têm o direito de votar nas eleições americanas ou europeias. Esta forma de organizar a nossa vida política coletiva assemelha-se, mais do que uma democracia, a outro sistema político que nós na Irlanda conhecemos bem: o império.

No entanto, as moléculas de carbono não conhecem a política eleitoral ou a soberania nacional. O carbono presente na atmosfera não respeita fronteiras, por mais armadas e monitoradas que estejam. Podemos considerar-nos cidadãos de um país e membros de uma democracia nacional, mas, face à destruição dos ecossistemas planetários , somos, acima de tudo, habitantes da mesma Terra. Sabemos que as pessoas mais pobres do mundo – que trabalham em centros de exploração, campos e minas, para enriquecer ainda mais os mais ricos – são as que já sofrem as primeiras e mais graves consequências climáticas. Mas não nos enganemos: esta crise atingirá todos nós. Inundações devastadoras como as que acabaram de ceifar centenas de vidas em Valência, na Espanha, estão a tornar-se mais frequentes e catastróficas. O mesmo acontece com as tempestades mais prejudiciais. Só em 2023, estima-se que 47 mil europeus morreram em consequência do calor extremo. E isso apenas começou.

Os eleitores preocupados com o futuro da vida humana na Terra ainda podem optar por apoiar os poucos partidos de esquerda radical que estão a tentar compreender a magnitude do problema, como o People Before Profit na Irlanda. Por seu lado, os consumidores preocupados com o clima podem reduzir o seu próprio impacto nas emissões de carbono voando menos, comendo menos ou nenhuma carne, comprando menos artigos desnecessários, e assim por diante. Estes gestos não são de todo negligenciáveis, mas não são suficientes para colocar de joelhos os grandes interesses dependentes dos combustíveis fósseis. A destruição do ecossistema global e o aumento das temperaturas exigem que procuremos soluções fora – e contra – do quadro do nosso actual sistema político. Se quisermos que as crianças de hoje tenham um futuro neste planeta, não podemos continuar a colorir obedientemente dentro das fronteiras marcadas.

O que nos resta então? Protestos de rua, cartas, campanhas públicas? Jogar sopa em galerias de arte? Mas todas estas táticas servem apenas para influenciar a opinião pública. As multinacionais não estão a destruir a Terra porque querem ganhar a simpatia das pessoas, mas sim para obter lucros. Se quisermos uma mudança real, temos de estar dispostos a pôr em risco esses benefícios e aprender com aqueles que já o fizeram. Aqui no condado de Mayo, os ativistas da Shell to Sea passaram mais de uma década a lutar contra a construção de um gasoduto e de uma refinaria pela gigante dos combustíveis fósseis Shell. Em 2005, começaram a fazer piquetes nos locais de construção , impedindo a entrada de trabalhadores e até sabotando infraestruturas, por exemplo, destruindo trilhos de madeira colocados sobre turfeiras. Os manifestantes foram sujeitos a violenta repressão e intimidação por parte da polícia (Garda) e da segurança privada, mas resistiram. Em 2012 estimou-se que os atrasos causados pelas ações comunitárias triplicaram o custo total do projeto. Sim, o gasoduto acabou sendo construído. Mas, numa economia de mercado, pensar apenas no custo dos atrasos pode tornar o investimento menos atraente. Se um grupo local de activistas empenhados pode custar à Shell mil milhões de euros ou mais, imagine quanto uma dúzia ou uma centena de tais grupos poderiam conseguir.

O que dá às multinacionais o direito de poluir o ar que respiramos, drenar as nossas águas subterrâneas e esgotar os recursos escassos do nosso planeta, ao mesmo tempo que nos retira o direito de os impedir? Uma ideia conclusiva: propriedade privada. Como os ricos possuem as coisas e os pobres não, é legal que os ricos destruam a Terra e ilegal que os pobres os detenham. Em seu livro de 2021 , How to Dynamite an Oil Pipeline , o teórico e acadêmico sueco Andreas Malm escreveu: “A propriedade não está acima da Terra; Não existe nenhuma lei técnica, natural ou divina que, nesta emergência, a torne inviolável.” Ou enfrentamos o sistema que ameaça a nossa civilização, ou “a propriedade custar-nos-á a terra”. A cada ano e a cada mês que passa, o argumento torna-se cada vez mais difícil de refutar. Sabemos o que já está acontecendo ao nosso redor. E sabemos o que está por vir. Quando teremos coragem de pará-lo?

Talvez, na melhor das hipóteses, os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos olhem para nós com horror e perguntem-se como foi possível que tantos de nós – inclusive eu – fôssemos tão passivos, desorganizados e cobardes quando sabíamos que as suas vidas estavam em risco. vida. Claro, outra perspectiva muito plausível é que não há muitos vivos e eles não têm tempo para se lembrar de nós.

Sally Rooney

A costura a inferno aberto do golpe

Quando do atentado do Riocentro, 40 e tantos anos atrás, dirigíamos a TV-E, ao lado de um colega universitário. Recebemos então visitas, uma delas do coronel-ministro. Ele recomendou cautela no noticiário, pois "agimos abertamente, enquanto a direita age embuçada". A conversa, jogo de cena para encobrir censura, valeu uma resposta sorrateira: "Será mesmo, ministro, é difícil validar essa hipótese..." E ele "como assim, então não acham que seja coisa da direita?" Retrucamos: "se estão embuçados, como saber o que são?"

O diálogo enviesado ficou na memória, pois naquele instante já estava claro que o atentado provinha do sistema. Logo, só eles próprios saberiam quem estava encapuzado. O regime militar estertorava (daí, aliás, a razão do terrorismo), já não mais se invadiam residências de cidadãos inocentes como o ex-deputado Rubens Paiva, mas ainda era tempo de cautela.

O incidente ganha pertinência no quadro das 37 pessoas acusadas de sedição, o núcleo de governo do ex-presidente Bolsonaro, cujos crimes atribuídos podem chegar a 28 anos de prisão. Além das já conhecidas tentativas de abolição violenta do Estado de Direito, estarrece o intento de assassinar as mais altas autoridades da República recém-eleitas.


Há de velho e novo nisso tudo. Nova é a transparência do mal à luz do dia. Meio século atrás, algo se embuçava nas trevas dos porões. Mas a trama centralizada no Planalto sempre transpareceu no regurgitamento verbal do mandatário, nos acampamentos, nas ações terroristas, nos documentos e nos celulares dos mandantes. Crime organizado, com delinquentes agindo a inferno aberto.

Conspiração às claras é estranho fruto de uma realidade paralela, com espionagem semioficial e forma espectral de vida criada pelas redes. A massa arrebanhada trafegava num planeta imaginário feito de celulares, enquanto uma quadrilha empoderada, os mentores da trama, surfava na mesma impunidade sonhada pelos escritórios do crime, despercebido substrato do assassinato de Marielle Franco. Ao lado, inédita lógica tabajara: o golpe seria acionado por vivandeiras acampadas, nada de tanques desmoralizados por fumaça. Era, na autodefinição de um dos generais sediciosos, um "alopramento da rataria, com ética abaixo da cintura".

Ações toscas, linguagem sórdida de submundo, mas com a coerência sádica explicitada por M. Blanchot como o cerne da moral sadiana: "A única regra de conduta é que eu prefira tudo que me afeta com felicidade e que eu tenha como nada tudo que em minha preferência possa resultar de mal para o outro" (em "Lautréamont e Sade"). Nenhuma razão política, apenas o gozo de lesar o próximo.

Na derrama de ficções, a única verdade é a traição. Valeria para todo golpe de Estado. Mas, no caso, o álibi fantasioso do anticomunismo deu lugar a uma modalidade extrema, moralmente intolerável e sádica de agarramento ao poder. Nada, como no passado, de matar ideias de esquerda. O que esteve mesmo em pauta foi o desejo confesso por parte de chefetes e vivandeiras, de exterminar fisicamente o outro de si mesmo, o vizinho pensante. Razoável agora é a perspectiva de que as "quatro linhas" traçadas com água suja se convertam nas quatro paredes sólidas da punição.

sábado, 30 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Brasileiro, homem do amanhã

Há em nosso povo duas constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil é o único país brasileiro de todo o mundo. Brasileiro até demais. Constituindo as colu­nas da brasilidade, as duas constantes, como todos sabem, são: 1) a capacidade de dar um jeito; 2) a capacidade de adiar.

A primeira é ainda escassamente co­nhecida, e muito menos compreendida, no estrangeiro; a segunda, no entanto, já anda bastante divulgada no exterior, sem que o corpo diplomático contribua direta ou sistematicamente para isso.

Aquilo que Oscar Wilde e Mark Twain diziam apenas por humorismo (nunca se fazer amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã) não é no Brasil propriamente uma deliberada norma de conduta, uma diretriz de base. Não, é mais, é bem mais forte do que princípio voluntarioso: é um instinto inelutável, uma força espontâ­nea da estranha e surpreendente raça bra­sileira.

Para o brasileiro, os atos fundamentais da existência são: nascimento, reprodução, procrastinação e morte (esta última, se possível, também adiada).


Adiamos em virtude de um verdadeiro e inevitável estímulo, se me permitem, psi­cossomático. Trata-se de um reflexo condi­cionado, pelo qual, proposto um problema a um brasileiro, ele reage instantaneamente com as palavras: daqui a pouco; logo à tar­de; só à noite; amanhã; segunda-feira.

Adiamos tudo, o bem e o mal, o bom e o mau, que não se confundem, pelo con­trário, que tantas vezes se desemparelham. Adiamos o trabalho, o encontro, o almoço, o telefonema, o dentista, a conversa séria, o pagamento do imposto de renda, as férias, a reforma agrária, o seguro de vida, o exame médico, a visita de pêsames, o conserto do automóvel, o túnel para Niterói, a festa de aniversário da criança, as relações com a China, o pagamento da prestação, adiamos até o amor. Só a morte e a promissória são mais ou menos pontuais entre nós. Mesmo assim, há remédio para a promissória: o adiamento trimestral da reforma, uma instituição sacrossanta no Brasil. Quanto à morte, é de se lembrar dois poemas típicos do Romantismo: na “Canção do Exílio”, Gonçal­ves Dias roga a Deus não permitir que ele morra sem que volte para lá, isto é, pra cá; já Álvares de Azevedo, tem aquele poema famoso cujo refrão é sintomaticamente bra­sileiro: “Se eu morresse amanhã!” Nem os românticos queriam morrer hoje.

Sim, adiamos por força de um incoer­cível destino nacional, do mesmo modo que, por força do destino, o francês poupa di­nheiro, o inglês confia no Times, o português espera o retorno de dom Sebastião, o ale­mão trabalha com um furor disciplinado, o espanhol se excita diante da morte, o japo­nês esconde o pensamento e o americano usa gravatas insuportáveis.

O brasileiro adia; logo existe.

Como já disse, o conhecimento da nos­sa capacidade autóctone para a incessante delonga transpõe as fronteiras e o Atlântico. A verdade é que já está nos manuais. Ainda há pouco, lendo um livro francês sobre o Brasil, incluído numa coleção quase didática de viagens, achei no fim do volume algumas informações essenciais sobre nós e a nossa terra. Entre endereços de embai­xadas e consulados, estatísticas, informações culinárias, o autor intercalou o seguin­te tópico:

DES MOTS
Hier: ontem
Aujourd’hui: hoje
Demain: amanhã
Le seul important est le dernier


A única palavra importante é amanhã. Esse francês malicioso agarrou-nos pela perna. O resto eu adio para a semana que vem.

Paulo Mendes Campos, Manchete (14.3.1964)

Populismo requer humildade dos especialistas

Em 2018, o Porta dos Fundos lançou a série “Polêmica da semana”, satirizando a prática jornalística de dar voz aos “dois lados”, mesmo quando uma das posições é desqualificada. No primeiro vídeo da série, um mediador tenta permanecer equidistante num debate entre a defesa científica das vacinas por uma professora da UFRJ e a defesa da eficácia do “óleo de coco e da bala de gengibre” por um gamer. A série segue satirizando outras falsas polêmicas, como o aquecimento global e o racismo. Como quase tudo do Porta dos Fundos, os vídeos são muito engraçados. O problema que apresenta, porém, é mais complicado do que parece: qual a responsabilidade dos especialistas na era do populismo?

Movimentos populistas, como bolsonarismo ou trumpismo, caracterizam-se pela profunda desconfiança das elites intelectuais e das instituições liberais. Populistas não confiam nos cientistas, nos jornalistas, nos artistas e em suas respectivas instituições. Acreditam que esses “sabidos” são movidos por interesses escusos ocultos — pela agenda woke ou por privilégios econômicos, como as “boquinhas” da Lei Rouanet. O populismo foi capaz de organizar um ressentimento social contra os especialistas e transformá-lo em plataforma política poderosa. Diante do desafio populista, as instituições têm agido da maneira recomendada pela sátira do Porta dos Fundos, negando acesso a vozes desqualificadas. Será que essa estratégia tem funcionado?


Negar espaço institucional a tais vozes não fará com que desapareçam ou permaneçam marginalizadas. O discurso populista tem forte penetração social e, quando a universidade ou o jornalismo profissional não oferecem respostas adequadas, as inquietações encontrarão acolhimento nos meios militantes. Há vários motivos por que devemos levar o discurso populista a sério, descer do pedestal das instituições consagradas e nos engajar didaticamente com as inquietações do povo comum seduzido pelo discurso populista.

Em primeiro lugar, temos de ter respeito e consideração com as inquietações. Caçoamos demais de gente que quer se certificar de que as vacinas são seguras. Não apenas caçoamos, também caricaturamos sua posição. Não ajuda a persuadir e ainda colabora para ampliar a desconfiança dos especialistas. Muitas posições populistas têm formulações mais sofisticadas que deveríamos incorporar, entender e debater, no espírito da “caridade interpretativa”, princípio filosófico de que devemos sempre tomar a versão mais racional das posições do interlocutor.

No debate sobre o voto impresso, juízes, jornalistas e acadêmicos retrataram a proposta como retrocesso ao voto manual dos anos 1980 e 1990 ou como se sugerisse que o eleitor poderia levar o voto impresso para casa. A proposta, porém, previa que a urna eletrônica imprimisse uma cópia do voto automaticamente numa urna física, para conferência em caso de suspeita de fraude — uma ideia razoável, adotada noutros países e respaldada por especialistas. Deveríamos ter enfrentado a proposta real e mostrado que ela não poderia ser implementada naquele momento por questões financeiras e logísticas. Além disso, era necessário explicar como essa proposta séria era usada para promover desconfiança em nosso robusto sistema eleitoral. A estratégia da caricatura não funcionou, fez a população se sentir desrespeitada, com ainda menos confiança nos especialistas.

Fizemos o mesmo com o debate sobre o poder moderador atribuído às Forças Armadas pela leitura dos golpistas do artigo 142 da Constituição, apresentando-o como se fosse uma interpretação amalucada, e não como um incômodo enxerto autoritário imposto pela ditadura na Constituinte de 1988. Poderíamos ter explicado isso e, em seguida, argumentado que ele não era acolhido pelo espírito democrático do conjunto da Carta. Mas preferimos tratar os proponentes como iletrados e ignorantes.

Fizemos isso de novo com o debate sobre os excessos do Judiciário, apresentando as críticas contra as exclusões de contas nas redes sociais como se fossem apenas uma defesa do direito de atacar a democracia ou de publicar fake news. No entanto a ideia de que essas exclusões poderiam configurar censura prévia era um lugar-comum no debate jurídico especializado antes dos eventos do 8 de Janeiro. Muitas vezes, temos feito o oposto do princípio da caridade interpretativa, acreditando, de forma equivocada, que maltratar o interlocutor e sugerir que siga a luz dos especialistas será suficiente para convencê-lo.

O caminho atual de ridicularizar, desqualificar e caricaturar falhou em recuperar a confiança pública nas instituições. Mais que nunca, especialistas precisam adotar uma postura humilde e didática, engajando-se com as preocupações populares e mostrando, com respeito, que o conhecimento científico e as instituições liberais ainda podem ser os pilares de uma sociedade democrática.

Petroleiras são responsabilizadas por crise do lixo plástico

É até difícil de conceber o que 400 milhões de toneladas representam. No entanto, esse é o volume de plástico virgem produzido anualmente – o equivalente ao peso de toda a população humana.

Mesmo com essa pegada gigantesca, o plástico está em vias de ocupar ainda mais espaço no mundo. Projeções atuais sugerem que a produção praticamente triplicará até 2060. Estima-se que 20 milhões de toneladas de plástico acabem no meio ambiente a cada ano, enquanto as taxas anuais de reciclagem global são de apenas 9%.

Há anos, especialistas e grupos da sociedade civil têm alertado sobre a impossibilidade de resolver o problema das crescentes montanhas de resíduos plásticos apenas por meio da reciclagem. Um limite para a produção tem sido sugerido no lugar, na contramão do que vem acontecendo na prática.

Em uma era de expansão das fontes de energia renováveis, o aumento do volume de produção de plástico virgem tem muito a ver com os setores de petróleo e gás, já que a grande maioria desse material é produzida a partir de combustíveis fósseis.

Cavalo em meio a lixo plástico no reservatório de Cerron Grande (El Salvador)

"Atualmente, as empresas de combustíveis fósseis não dependem da venda de gasolina ou combustível para energia ou transporte como forma de se manterem vivas", disse Delphine Levi Alvares, gerente da campanha global de petroquímicos do Centro de Direito Ambiental Internacional (CIEL), em um comunicado. "Elas estão dependendo cada vez mais da produção de produtos petroquímicos."

Em outras palavras, as empresas que tradicionalmente vendiam combustível para o mundo agora estão investindo cada vez mais na produção de plástico. Na ordem de dezenas de bilhões de dólares.

A redução da produção surgiu como uma questão polêmica durante dois anos de negociações para chegar a um tratado global sobre plásticos. Ainda não se sabe se a rodada final, em andamento na Coreia do Sul, chegará a um acordo sobre esse ponto.

Mas há outros movimentos significativos em curso para forçar mudanças, como a queixa legal apresentada no início deste ano pelo estado americano da Califórnia contra a ExxonMobil, grande empresa de petróleo e gás.

Na ação judicial, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, alega que a ExxonMobil, a maior produtora de plásticos de uso único do mundo, "promoveu agressivamente o desenvolvimento de produtos plásticos baseados em combustíveis fósseis e fez campanha para minimizar a compreensão do público sobre as consequências prejudiciais desses produtos".

Dessa forma, a empresa "enganou os californianos por quase meio século ao prometer que a reciclagem poderia e resolveria a crescente crise do lixo plástico", sustenta a procuradoria.

Mark James, diretor interino do Instituto de Energia e Meio Ambiente da Faculdade de Direito de Vermont, disse que, embora a ExxonMobil não venda diretamente aos consumidores, as empresas de petróleo e gás têm sido muito intencionais na criação de mercados para os produtos plásticos que vão para a cesta de compras.

"Definitivamente, houve marketing da reciclabilidade dos plásticos para esses usuários finais", disse ele. "Mas essa é uma criação do setor e, quando sabemos disso, podemos entender tudo o que eles têm feito para manter essa falsa sensação de reciclabilidade de seus produtos."

Em resposta, a ExxonMobil argumentou que as autoridades da Califórnia "sabiam que seu sistema de reciclagem não era eficaz" e não agiram. Procurada pela DW, a empresa não comentou o assunto.

Levi Alvares vê a ação judicial da Califórnia como um passo fundamental para unir os pontos que o público em geral nem sempre vê – o elo entre a produção de plástico e as empresas de combustíveis fósseis.

"Esse tipo de ação judicial realmente consolida na mente das pessoas essa tendência de que muitos não estão conectando o impacto que essas empresas têm sobre a crise climática ao impacto que elas têm em outros setores."
"Reciclagem avançada" seria a solução?

Apesar da taxa historicamente baixa de reciclagem global – apenas 10% de todo plástico já produzido foi transformado em outra coisa – e da realidade de que muitos produtos não podem ser facilmente transformados em outros bens, a ExxonMobil está apostando na "reciclagem avançada". Essa tecnologia, segundo a empresa, "converte os resíduos plásticos de volta em blocos de construção molecular", o que significa que eles se tornam a matéria-prima para novos produtos.

A empresa afirma ter usado a reciclagem avançada para "processar mais de 60 milhões de libras [aproximadamente 27 mil toneladas] de resíduos plásticos em matérias-primas utilizáveis, mantendo-os fora dos aterros sanitários". E poucas semanas depois que a Califórnia entrou com a ação, a ExxonMobil anunciou que estava expandindo sua capacidade.

Mas a denúncia da procuradoria californiana, que se baseia em dois anos de investigação, diz que mesmo no "melhor cenário possível" da ExxonMobil, a reciclagem avançada será responsável por uma pequena fração do plástico que a empresa continua a produzir. E, portanto, "nada mais é do que um golpe de relações públicas destinado a incentivar o público a continuar comprando plásticos de uso único que estão alimentando a crise da poluição por plásticos".

Adam Herriott, especialista sênior da ONG de ação ambiental global WRAP, afirma que, devido à sua posição no início da cadeia de suprimentos de plástico, as empresas de combustíveis fósseis "afetam significativamente o volume de plástico que entra no mercado" e que "ao participar ativamente dos esforços para reduzir a produção de plástico virgem, elas podem ajudar a promover mudanças sistêmicas".

No entanto, assim como outras importantes empresas de combustíveis fósseis, petroquímicas e de bens de consumo de alta rotatividade, a ExxonMobil é membro da Alliance to End Plastic Waste (AEPW), uma organização global independente e sem fins lucrativos, que trabalha para lidar com o plástico depois que ele se torna resíduo, em vez de abordar o problema por meio da redução da produção.

Em um e-mail enviado à DW, Louise Lam, gerente de comunicações corporativas da AEPW, disse que seu mandato se concentra principalmente no desenvolvimento de "soluções que apoiem a coleta, a classificação e a reciclagem de resíduos plásticos para promover uma economia circular para o plástico". Lam acrescentou que a AEPW acredita que "é a soma do trabalho das várias partes interessadas – de soluções 'upstream' a 'downstream' – que ajudará a resolver o desafio".

Há muita coisa em jogo no caso da Califórnia contra a ExxonMobil. Além de definir se a empresa será condenada a atender às exigências da procuradoria, que incluem reparações financeiras, e se deixará de fazer alegações enganosas, o processo pode criar precedente e levar outras empresas de combustíveis fósseis para os tribunais.

Patrick Boyle, advogado de responsabilidade corporativa da CIEL, diz que espera ver mais casos desse tipo nos Estados Unidos, e até mesmo em outros países, porque as provas e os depoimentos apresentados no contexto do processo da Exxon – que provavelmente se desenrolará ao longo de alguns anos – se tornarão registros públicos.

Mesmo que um caso não pareça exatamente com esse litígio contra a Exxon, com essas alegações específicas, as evidências coletadas podem ser aproveitadas no futuro para combater outros casos relacionados a questões como microplásticos, lavagem verde ou licenças para reciclagem avançada, afirma Boyle.

"Portanto, acho que há muitas conversas e 'brainstormings' realmente interessantes a serem realizados e iniciados com parceiros para ver como podemos aproveitar o que obtemos aqui, no contexto internacional."

Enquanto isso, Levi Alvares diz que a queixa contra a Exxon está fortalecendo o entendimento de que os resíduos plásticos são um problema "criado pela indústria".

O que andam ensinando nas escolas militares?

Pelo português típico dos bordéis de zona portuária, pela visão de mundo da altura de uma sarjeta e pelo apego à violência com base na premissa de que atentados à vida são meios que justificam quaisquer fins, os militares presos pela Polícia Federal por terem elaborado um plano para matar o presidente da República, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal, na passagem de 2022 para 2023, entreabrem três perguntas.

São elas: 1 - Qual a formação que esse pessoal obteve nas escolas militares?; 2 - Em que medida eles representam o alunado médio dessas escolas?; 3 - Em caso negativo, de que modo esses militares conseguiram diplomar-se e fazer uma carreira nas Forças Armadas, ascendendo a posições de destaque e chegando à irresponsável iniciativa de afrontar o Alto Comando do Exército ao planejar um golpe de Estado?


Uma das respostas possíveis é a que tem sido dada por importantes historiadores, como José Murilo de Carvalho. Segundo eles, a República foi fruto de uma intervenção militar, configurando um golpe que viciou o regime político desde seu início. A partir daí, a intervenção militar na vida pública teria se convertido numa espécie de norma, em decorrência da propensão dos membros das Forças Armadas a intervir na via política quando assim o desejassem, como se sua missão fosse tutelar a sociedade.

Outra resposta tem sido dada por respeitados analistas e sociólogos, como Roberto Godoy, Eliezer de Oliveira e Celso de Castro. Por ficarem reclusos aos quartéis e às academias, apartando-se do restante da sociedade, os militares transformaram-se progressivamente num grupo social específico dotado de formação técnica. Constituindo-se numa corporação disposta a se emparelhar com a elite civil, eles se imaginaram como um "poder moderador", agindo a partir daí como um poder potencialmente desestabilizador da ordem jurídica.

Por mais que nos primórdios do golpe de 1964 o então ministro Roberto Campos dissesse que o "‘projeto de grandeza’" do novo regime apagaria "a imagem do militar como um profissional abrutalhado pela caserna, de treinamento estreito e bitolado", isso não ocorreu, como revelam as gestões de Costa e Silva, Médici e Figueiredo.

Desde então, o que se vê é um confronto entre duas burocracias. A inerente ao sistema representativo, com suas negociações e acertos, garantindo governabilidade mas não o desenvolvimento econômico e social. E a burocracia militar, com suas concepções de patriotismo. Enquanto na vida política os atores são obrigados a respeitar a ordem jurídica, no caso dos militares —ainda que estejam sujeitos ao direito positivo— prevalecem mais a autoridade hierárquica superior e os regulamentos disciplinares.

São duas formas de pensar e agir, como dizia o professor Oliveiros Ferreira, nos anos 1960. Ao decidir, o burocrata civil se ampara nas leis, com base nas quais pode se recusar a cumprir decisões impostas por seus chefes, colocando-os diante da alternativa de serem responsabilizados no caso de irregularidades.

Já o militar se ampara em decisões superiores tomadas por seus chefes e adotadas com base em princípios diferentes daqueles que regem os cidadãos comuns. Como os dois grupos disputam o controle de recursos escassos, decorre daí a tensão entre eles —e, principalmente, a hostilidade dos segundos aos primeiros.

Este ponto é essencial. O que se viu na prisão de militares pela PF não é apenas um choque entre as duas burocracias, como em 1964. Foi, sim, um choque dentro da própria burocracia militar. Foi um embate em que os defensores de um plano de assassinato de três autoridades agiram contra a vontade de seus próprios superiores. E os palavrões que disseram ao afrontar generais oficialistas dá a medida do desrespeito desse pessoal pela hierarquia.

Felizmente, as instituições foram mais fortes do que esses aventureiros bolsonaristas. Mas isso não obscurece as indagações feitas acima: o que se passa com as escolas militares, que diplomam fardados sem formação e condições morais de vestir uma farda?

Influencers mirins

Estarrecido. Foi como me senti num tempo em que nada mais estarrece, com a matéria da GloboNews sobre influencers mirins e seus coaches. São crianças de 11, 12 anos dizendo que ganham mais de R$ 100 mil por mês influenciando. Para que estudar? Para que trabalhar? É tudo tão fácil e agradável. É só postar vídeos de cenas divertidas, viagens, bichos, dancinhas, e falar o que fala uma criança de 11, 12 anos. Se forem bonitinhos, com graça, com personalidade, é tiro certo, ganharão milhares de seguidores, influenciarão a opinião e o gostos de milhares de outras crianças. Logo serão patrocinados por uma marca de produtos para crianças, venderão reels e stories como espaço publicitário.


Sim, a publicidade gasta cada vez mais dinheiro na internet do que na mídia tradicional. Já estão no mercado malandros que vendem cursinhos para aspirantes a influencer mirim. O pior: muitas vezes os pais incentivam. Em alguns casos são crianças pobres que se tornam arrimo de família, o que é bacana, em outras são os pais, de várias classes sociais, que estimulam e faturam em cima da popularidade do seu influencer mirim. Um vídeo promocional de um cursinho impressiona: o garoto paupérrimo que dá para o pai seu grande sonho, um celular — a arma de fazer dinheiro do filho. Não é preciso dizer que as consequências serão desastrosas, para influenciadores e influenciados.

Sim, tem todo um problema legal, de menores de tantos anos só poderem exercer certas atividades com autorização judicial. No caso de novelas, filmes, teatro e comerciais, a fiscalização pode ser realizada com relativa facilidade. Mas um influencer mirim... acho que a lei ainda nem prevê essa possibilidade. Os juizados de crianças e adolescentes podem tirar do ar páginas e sites de crianças? Como controlar e fiscalizar isso, sem a ajuda dos pais? Mas os pais querem essa grana mole. Quem não?

Estarrecedor 2: saber que 9 entre 10 crianças, quando perguntadas o que queriam ser quando crescessem, responderam em massa: influencer. É claro: moleza máxima, é só fazer o que quiser e gravar em vídeo, não tem que fazer nenhum esforço, nenhuma pesquisa, estudar nada. O que pode ser melhor?

As dicas e os conselhos e valores dessas crianças não valem nada, mas tem o poder de fazer outras crianças acreditarem naquelas bobagens. Só o que conta são as aparências, o conteúdo é vazio, fugaz como os stories. E crianças passam horas on-line vendo páginas de crianças, em vez de estudar, brincar, jogar, aprontar alguma, como crianças. E quando são manipuladas pelos pais, o inferno é o limite.
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Poeminha dos 80 anos

não tenho saudades de nada,
porque tudo foi vivido intensamente,
até o fundo em cada momento,
de felicidade e de sofrimento.
saudades, só de algumas pessoas
amadas, idas mas sempre presentes,
e não de tempos e acontecimentos,
de vitórias, derrotas e vivências.
não tenho mais tempo a perder
para lembrar, tenho mais a fazer,
lazer, viagens, diversão, prazer,
amar, criar, curtir e compartilhar.
Nelson Motta

Os criadores de boatos aproveitam a indignação para espalhar mentiras online

A indignação vende. Quem mexe os cordelinhos da desinformação na internet, seja quem for , sabe disso melhor do que ninguém e usa isso a seu favor para amplificar suas narrativas. Um estudo publicado esta quinta-feira na revista Science mostra que as publicações nas redes sociais que contêm informações falsas provocam mais indignação do que aquelas que incluem informações fiáveis. E é precisamente essa emoção que facilita a propagação de mentiras pela Internet.


Para chegar a essa conclusão, Killian McLoughlin, doutorando em psicologia e política social na Universidade de Princeton e principal autor da pesquisa, e sua equipe analisaram mais de um milhão de links no Facebook e 44 mil postagens na rede social, classificando as fontes como confiáveis ou desinformativo. Eles então conduziram dois experimentos nos quais mediram a indignação gerada por certas manchetes – verdadeiras e falsas – em 1.475 participantes. McLoughlin concluiu que “as pessoas podem partilhar informações ultrajantes sem verificar a sua exatidão, porque a partilha é uma forma de sinalizar a sua posição moral ou o pertencimento a determinados grupos”. E isso parece importar mais do que a verdade ou a mentira.

À luz dos resultados, Ramón Salaverría, professor de Jornalismo da Universidade de Navarra e coordenador do Observatório Ibérico dos Meios Digitais, assegura que “esse estudo confirma com fortes evidências empíricas a hipótese de que as emoções desempenham um papel fundamental nos processos de comunicação pública”. O especialista acredita que a principal novidade deste estudo é que “detecta que a indignação é especificamente a emoção chave na ativação dos processos de disseminação de falsidades”.

Sander Van Der Linden, diretor do Laboratório de Tomada de Decisões Sociais de Cambridge, que não esteve envolvido na pesquisa, confirma que a indignação é uma emoção muito intensa e negativa. “Não acho que a maioria das pessoas goste de experimentar isso. Pode haver um sentimento de indignação moral coletiva face aos acontecimentos mundiais que pode ser socialmente gratificante, mas, de um modo geral, não é uma emoção que as pessoas persigam.”

Então, qual é a recompensa? Van Der Linden arrisca uma hipótese: “Os usuários que compartilham esse tipo de notícia, verdadeira ou falsa, buscam interação, pois isso leva tanto à validação social quanto a recompensas financeiras em plataformas como X. Se você produz conteúdo que gera muita interação, você pode monetizá-lo, o que cria incentivos perversos nas redes sociais.” O negócio da indignação existe, muitas vezes impulsionado pela amplificação algorítmica das próprias plataformas.

Os pesquisadores também descobriram que os usuários são mais propensos a compartilhar informações falsas e indignantes sem lê-las primeiro. Esta descoberta coincide com a de outro estudo publicado dias atrás na revista Nature Human Behavior . Uma análise de mais de 35 milhões de publicações com links para notícias que circularam na rede social com grande virulência entre 2017 e 2020, mostrou que três em cada quatro usuários as compartilharam sem clicar ou ler seu conteúdo. Ou seja, se você encontrou este artigo no Facebook e está lendo estas linhas, você foi muito além de 75% dos usuários.

Esta segunda pesquisa sugere que a maioria dos internautas se limita a ler manchetes e notas curtas sem se envolver muito com a informação. S. Shyman Sundar, co-diretor do Laboratório de Pesquisa de Efeitos de Mídia da Penn State e principal autor do estudo, diz que sempre se preocupou com a facilidade com que os usuários das redes sociais confiam no que veem por aí. “Neste projeto, meus colaboradores e eu nos perguntamos se as pessoas leem e verificam o que compartilham”, acrescenta. A resposta à sua pergunta é categórica na maioria dos casos: não.

“O fato de o percentual de pessoas que compartilham notícias sem lê-las chegar a 75% nos chocou muito”, diz o pesquisador. Embora os dados deste estudo tenham sido limitados ao Facebook, Shyman diz que os padrões não deveriam ser diferentes em outras plataformas como X. “O que descobrimos é uma tendência psicológica, um padrão de comportamento online que resulta da função de compartilhamento de conteúdos. Portanto, desde que uma plataforma ofereça esse recurso, provavelmente veremos resultados semelhantes.”

Agora, por que fazemos isso? Todos os especialistas consultados concordam que grande parte da responsabilidade reside na sobrecarga de informação. “Somos bombardeados diariamente com informações de todos os tipos de mídia por meio de diversos dispositivos, o que esgota nossa capacidade mental. Assim, economizamos nossos recursos cognitivos recorrendo a atalhos, como ler apenas as manchetes e clicar imediatamente no botão de compartilhar, sem pensar muito nas consequências de nossos atos”, arrisca Shyman.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


O capitalismo de compadrio está chegando aos EUA

Estamos no final de 2025, e Donald Trump fez o que prometeu: impôs altas tarifas —impostos sobre importações— em produtos vindos do exterior, com tarifas extremamente altas sobre importações da China. Essas tarifas tiveram exatamente o efeito que muitos economistas previram, embora Trump insistisse no contrário: preços mais altos para os compradores americanos.

Digamos que você tenha um negócio que depende de peças importadas —talvez da China, talvez do México, ou de outro lugar. O que você faz?

Bem, a lei comercial dos Estados Unidos dá ao poder executivo ampla discricionariedade na definição de tarifas, incluindo a capacidade de conceder isenções em casos especiais. Então, você solicita uma dessas isenções. Seu pedido será atendido?

Em princípio, a resposta deveria depender de se pagar essas tarifas impõe dificuldades reais e ameaça empregos americanos. Na prática, você pode adivinhar com segurança que outros critérios terão um papel. Quanto dinheiro você contribuiu para os republicanos? Quando você realiza retiros empresariais, eles são em campos de golfe e resorts de Trump?


Não estou especulando à toa aqui. Trump impôs tarifas significativas durante seu primeiro mandato, e muitas empresas solicitaram isenções. Quem as obteve? Uma análise estatística recentemente publicada descobriu que empresas com laços republicanos, medidos por suas contribuições de campanha de 2016, eram significativamente mais propensas (e aquelas com laços democratas menos propensas) a ter suas solicitações aprovadas.

Mas isso foi apenas um ensaio em pequena escala para o que pode estar por vir. Embora ainda não tenhamos detalhes, as propostas de tarifas que Trump apresentou durante a campanha eram muito mais amplas em escopo e, no caso da China, muito mais altas do que qualquer coisa que vimos na primeira vez; o potencial para favoritismo político será uma ordem de magnitude maior.

Pelo que entendo, o termo "capitalismo de compadrio" foi inventado para descrever como as coisas funcionavam nas Filipinas sob a ditadura de Ferdinand Marcos, que governou de 1965 a 1986. Descreve uma economia em que o sucesso nos negócios depende menos de uma boa gestão do que de ter as conexões certas —muitas vezes compradas por meio de favores políticos ou financeiros para aqueles no poder. Na Hungria de Viktor Orban, por exemplo, a Transparência Internacional estima que mais de um quarto da economia é controlado por empresas com laços estreitos com o partido no poder.

Agora é muito provável que o capitalismo de compadrio esteja chegando à América.

Houve muitas análises do provável impacto macroeconômico das tarifas de Trump, que, se forem tão grandes quanto ele sugeriu, serão seriamente inflacionárias. No entanto, pode-se argumentar que sua influência corruptora será, a longo prazo, uma história ainda maior.

Por que as tarifas criam mais potencial para o compadrio do que outros impostos? Porque a forma como operam sob nossas leis oferece muito espaço para a aplicação discricionária. O secretário do Tesouro não pode simplesmente isentar seus amigos dos impostos sobre a renda (embora Andrew Mellon tenha concedido reembolsos altamente questionáveis na década de 1920).

O presidente pode, no entanto, isentar aliados das tarifas. E alguém realmente acredita que a administração Trump será ética demais para fazer isso? O próprio Trump se gabou de sua capacidade de manipular o sistema; ele se gabou de que não pagar sua parte justa dos impostos o torna "esperto".

As tarifas serão o único grande motor potencial do capitalismo de compadrio sob a nova administração? É duvidoso. Se você pensar bem, os planos de deportação de Trump também oferecerão muitas oportunidades para favoritismo.

Alguns dos conselheiros de Trump, notadamente Stephen Miller, parecem imaginar que podem rapidamente purgar a América de imigrantes que entraram ilegalmente nos EUA, reunindo milhões de pessoas e colocando-as em "vastas instalações de detenção". Mesmo que você deixe de lado questões legais, no entanto, isso provavelmente é logisticamente impossível. O que é muito mais provável que vejamos são anos de tentativas de aplicação dispersas, com batidas em várias empresas suspeitas de empregar tais imigrantes.

Mas quais critérios decidirão quais empresas se tornarão alvos prioritários para essas batidas e quais serão deixadas em paz, efetivamente isentas, por anos? O que você acha?

E há mais, é claro. Por exemplo, Trump sugeriu disposição para retirar as licenças de redes de TV que, em sua visão, fornecem cobertura desfavorável.

Se o capitalismo de compadrio está chegando, o que ele fará com a América? Obviamente, será ruim para a democracia, tanto por ajudar a consolidar uma grande vantagem financeira republicana quanto por garantir apoio empresarial vocal a Trump, não importa o quanto suas políticas causem danos. Também enriquecerá Trump e aqueles ao seu redor.

Além disso, um sistema que recompensa empresas com base em suas conexões políticas certamente exercerá um freio no crescimento econômico. Muitas tentativas de explicar o desempenho econômico desastroso da Itália na última geração atribuem o mau desempenho em parte ao compadrio generalizado. Um estudo recente descobriu que regimes populistas, sejam de esquerda ou de direita —regimes que geralmente também são capitalistas de compadrio— tendem a sofrer uma penalidade de crescimento de longo prazo de cerca de 1 ponto percentual a cada ano.

O tempo dirá. As evidências sugerem que as regras para ter sucesso nos negócios americanos estão prestes a mudar, e não de uma maneira boa.
Paul Krugman

Leitura entre o caos

 

O fotógrafo argentino Eduardo Soteras recebeu o prêmio Foto do Ano da UNICEF ao registrar duas crianças se refugiando entre livros numa biblioteca escolar destruída na região do Tigray, na Etiópia. Soteras tem documentado a situação das crianças no norte da Etiópia desde 2020


Kianush Sanjari matou-se para escrevermos sobre isto

Escrevo este texto porque, ao ler sobre a morte do jornalista iraniano Kianush Sanjari, senti que era essa a sua vontade: que alguém escrevesse sobre Fatemeh Sepehri, Nasrin Shakarami, Toomaj Salehi e Arsham Rezaei.

Poucos sabem quem eles são. Até Sanjari se suicidar, eu só conhecia um, o rapper Salehi.

No dia 13 de manhã, Sanjari escreveu nas redes sociais que iria matar-se se até às 19h os quatro prisioneiros políticos não fossem libertados. Às 19h, sem notícias de qualquer libertação, publicou uma fotografia tirada da cobertura de um centro comercial no centro de Teerão e atirou-se.

Escrevo sabendo que de nada serve. Ainda assim, aqui vai.

Fatemeh Sepehri, 60 anos, é uma activista política e defensora dos direitos das mulheres. Em 2004, viúva há 20 anos, licenciou-se em Administração de Empresas pela Universidade Ferdowsi de Mashhad. Após as eleições iranianas de 2009, o “movimento verde” e os meses de protestos, tornou-se ativista. Um irmão, Mohammad Hossein Sepehri, assinou a célebre Carta dos 14 Ativistas Políticos, em 2019, no 10.º aniversário das eleições de 2009, que pede democracia no país e a demissão do ayatollah. Os dois irmãos estão presos.

Sepehri foi detida a primeira vez em setembro de 2022, durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade, contra a morte de Mahsa Amini e o uso obrigatório do véu religioso. Passou 30 dias no Ministério da Informação, onde foi submetida a interrogatórios, e a seguir foi para a prisão de Vakilabad.


Em janeiro de 2023, um tribunal condenou-a a um ano de prisão e uma multa de 20 milhões de tomans por “espalhar falsidades, perturbar a opinião pública através de atividades nos meios de comunicação social e presença em meios de comunicação fora do Irã”, diz a Comissão dos EUA para a Liberdade Internacional Religiosa.

Este verão, Sepehri foi condenada a mais 18 anos e meio de prisão depois de ter feito esta declaração pública: “Condeno o ataque do Hamas a Israel e digo em voz alta que a nação iraniana apoia a nação israelense. A República Islâmica e os seus agentes gastam a riqueza do Irã para comprar balas e atacar Israel. Nós, o povo do Irã, não queremos a guerra nem a matança de pessoas indefesas. Condeno mais uma vez o ataque do Hamas. Desde a ascensão ao poder de Ali Khamenei e a fundação da República Islâmica, o Médio Oriente não tem visto paz.” O Tribunal Revolucionário de Mashhad condenou-a na segunda sessão do julgamento por “propaganda contra o regime”, “colaboração com governos estrangeiros hostis”, “insulto aos ayatollahs Ruhollah Khomeini e Ali Khamenei” e “reunião e conluio contra a segurança nacional”.

No ano passado, Sepehri, muito doente, foi hospitalizada. Tem diabetes e hipertensão. Foi operada do coração e, uma semana depois, reenviada para a prisão. Em outubro, foi hospitalizada de novo. Diz a agência americana que ter-lhe-ão sido “negados os cuidados médicos adequados”.

Nasrin Shakarami, presa em 2024

Nasrin Shakarami é a mãe de Nika Shakarami, de 16 anos, morta a 20 de setembro de 2022, durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade, quatro dias depois da morte de Masha Amini.

Nika destacou-se da multidão ao subir em um contentor de lixo no Parque de Laleh, em Teerã, com um lenço a arder e o cabelo descoberto.

Nove dias depois, a mãe soube que estava morta. Pediu explicações e o governo disse-lhe que Nika se tinha suicidado e que a morte não tinha nada que ver com os protestos. Mas quando foi identificar o corpo à morgue, a mãe notou que as mãos, pés e o tronco da filha não tinham qualquer sinal de violência e que a cara, ossos faciais, dentes e cabeça estavam partidos, e o crânio tinha uma contusão tão grande que estava amolgado.

Um mês depois, a televisão estatal CCTV transmitiu uma “reportagem” na qual apresentou a teoria do suicídio, mostrando imagens de um suposto vídeo que teria sido captado por uma câmara de vigilância onde se vê uma rapariga parecida com Nika a entrar no prédio de onde ela teria saltado. A mãe diz que não tem dúvida de que aquela não é a sua filha e mesmo quem que não conheceu Nika consegue ver que as raparigas são diferentes.

Pouco depois, a unidade de investigação da BBC recebeu um documento classificado como “altamente secreto”, seis páginas de um dossier de 350 sobre os protestos de 2022, que incluem entrevistas às forças policiais e militares que prenderam Nika e que estavam na carrinha onde a adolescente terá sido morta.

O relatório secreto, diz a BBC, revela “uma versão muito diferente das razões que levaram à sua morte e dos homens envolvidos”. A BBC dedicou “meses a verificar a autenticidade” do documento com “múltiplas fontes independentes”. Nika Shakarami terá sido morta dentro do carro das forças policiais a caminho da prisão, depois de um ato de abuso sexual. Um dos homens terá metido as mãos dentro das suas calças, a rapariga gritou e insultou-o, ele bateu-lhe na cabeça com muita violência e Nika morreu. Sem saberem o que fazer, com a adolescente morta no carro, os guardas ligaram às chefias, que lhes disseram para abandonarem o corpo numa rua.

Desde cedo que Nasrin Shakarami acusa publicamente as autoridades de terem assassinado a sua filha. Foi presa há pouco tempo.

Toomaj Salehi, condenado a prisão perpétua

Foi também em outubro de 2022, durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade, que Toomaj Salehi, um rapper de 33 anos, foi detido por causa das suas canções a criticar o regime. Foi acusado de “espalhar corrupção na Terra” e condenado à morte pelo Tribunal Revolucionário de Isfahan.

Em 2021, o Irã executou 853 pessoas e, em 2022, 600. Salehi passou um ano na prisão e foi libertado sob caução em 2023. Mas em maio deste ano publicou um vídeo nas redes sociais no qual revelava pormenores sobre a sua prisão: foi “severamente torturado”, ficou com “ossos partidos”, “lesões oculares” e “dentes partidos”. Injetaram-lhe alguma coisa no pescoço que, disse-lhe outro preso, era adrenalina, para que se mantivesse consciente e sentisse o máximo de dor. Disse também que tinha sido posto em isolamento durante 252 dias seguidos e privado de cuidados médicos vitais.

No vídeo, o rapper amigo do cineasta Jafar Panahi conta que essa foi a quarta vez que foi preso. Nas vezes anteriores, por causa de canções a criticar o regime e a pedir liberdade e democracia. Logo a seguir ao vídeo, o músico foi preso outra vez. A pena de morte terá sido alterada para prisão perpétua.

Arsham Rezaei, preso em 2023

Este outubro, o Tribunal de Apelação de Teerã manteve a sentença de 50 chicotadas e uma multa de 16 milhões de tomans a Arsham Rezaei, preso na famosa prisão de Evin desde o ano passado. As novas acusações decorrem de um caso iniciado durante a sua prisão.

Preso por agentes de inteligência do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, Rezaei foi condenado em dezembro a 15 anos de prisão. A sua condenação foi decidida num processo conjunto no qual o juiz terá condenado 11 presos políticos a 95 anos de cadeia. É talvez a sétima ou oitava vez que o ativista é preso.

Em agosto de 2023, Rezaei publicou um vídeo no Instagram onde conta que 12 agentes do Governo tocaram à porta da casa da sua mãe. Identificando-se como “funcionários do departamento de eletricidade”, invadiram a casa e confiscaram todos os seus documentos e cartões bancários. Foi preso dois meses depois. Em 2018, foi julgado no Tribunal Revolucionário de Teerã sem a presença de um advogado de defesa e condenado a uma pena suspensa de oito anos e seis meses sob a acusação de “propaganda contra o sistema”, “reunião e conluio com a intenção de agir contra a segurança nacional” e de “insultar os líderes” do país.

Não sei que razões levaram Sanjari a escolher estes quatro presos políticos. Há centenas de presos políticos no Irão, muitos deles jornalistas.

Sei que Sanjari foi preso, libertado, que conseguiu fugir do país e em 2008 chegou aos EUA, onde recebeu o estatuto de exilado político. Até 2016, trabalhou como jornalista para o serviço de notícias em farsi da rádio e agência de notícias Voice of America, ao mesmo tempo que fazia trabalho de pesquisa em organizações de direitos humanos. Em 2016, a mãe ficou doente e Sanjari voltou para o Irã. Os amigos dizem que acreditou que já ninguém se lembraria dele, tantos anos depois. Mas foi preso e condenado a 11 anos de prisão, dos quais cumpriu cinco.

Agora, antes de saltar, escreveu no X: “Ninguém devia ser preso por exprimir as suas opiniões. Protestar é o direito de cada cidadão iraniano.”