terça-feira, 26 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Delírio político

Acabar com a pobreza em todas as suas formas e circunstâncias é apenas um delírio político, que erradica a miséria das ilusões nos números vermelhos de uma economia que é mais vulnerável do que os próprios pobres neste mundo.

O leão e a gazela

Daqui a pouco, chega dezembro, o mês que carrega um largo espaço para reflexão. Um tempo que nos convida a pensar sobre as nossas vidas, a partir da insensatez desses tempos turbulentos. Tempo de recauchutar o espírito. Aproveito para sugerir uma pauta temática, pinçando fatos, historinhas e um apólogo, escolhidos para iniciar uma breve leitura do cotidiano.

Há dias, um empresário foi assassinado no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, ao voltar com a namorada de uma a viagem a Alagoas. Fuzilado com balas de fuzil, a mando, dizem, do PCC. Pretendia fazer de sua delação premiada passaporte para continuar a viver a vida na festança. Dispensou, incrível, a cobertura do programa de “proteção à testemunha”. Arriscou-se, assim, ao fuzilamento, achando que policiais contratados para proteger seus passos lhe garantiriam plena segurança. A investigação levanta suspeitas sobre seus seguranças.

O segundo episódio é o de um motoqueiro que fazia muito barulho com sua moto. Em um semáforo, em São Paulo, policiais o pararam. E o castigaram de modo inusitado. Colocaram o motoqueiro com os ouvidos na boca do escapamento da moto e baixaram o pé no acelerador. Um ronco infernal. O rapaz não conseguia tapar os ouvidos, eis que suas mãos estavam contidas pelos policiais. Punição que lembra tempos imemoriais.


Insensatez, loucura, banalização da criminalidade, frieza ou simplesmente um fragmento da brutalidade infernal desses tempos ditos de globalização? O assassinato do empresário mostra o poder informal, as forças da violência, suplantando o poder formal do Estado.

Os dois fatos têm mais significados que a simples fotografia do cenário de terror que estamos vendo. Expressam o estado ilógico, antinômico e alienado de um mundo em que os princípios da eficiência (e aí, Elon Musk?), a meta da competitividade a qualquer custo, da concorrência e aética, estão tornando as pessoas infelizes, solitárias e menos solidárias.

Domenico de Masi, sociólogo italiano, autor de O Futuro do Trabalho, pinça o apólogo do Leão e da Gazela para mostrar a que ponto chega a esquizofrenia bárbara das ruas e dos ambientes de trabalho, que se transformam em campos de guerras da modernidade.

A historinha é emblemática: “Toda manhã, na África, uma gazela desperta. Sabe que deverá correr mais depressa do que o leão para não ser devorada. Toda manhã, na África, um leão desperta. Sabe que deverá correr mais que a gazela para não morrer de fome. Quando o sol surge, não importa se você é um leão ou uma gazela: é melhor que comece a correr”.

Esse lembrete é exibido em ambientes de trabalho como profissão de fé de executivos e dirigentes empresariais. À primeira vista, parece um bom conselho para quem quer vencer na vida. Trata-se, porém, de uma exaltação à barbárie. Basta intuir que, pelo conselho, “leões humanos” (aspas nossas) são autorizados a agarrar “gazelas humanas” (aspas nossas), que, apavoradas, devem se desdobrar para realizar suas tarefas ou a se esconder para fugir das intempéries das ruas e do trabalho (ou dos ataques dos leões). É evidente o estímulo ao instinto da violência, ao cultivo dos perfis agressivos, às lutas por espaço e poder, às táticas aéticas e aos golpes traiçoeiros, tudo justificado pela necessidade da competitividade.

Nessa arena de “leões e gazelas”, a alternativa que se apresenta é única: correr ou matar. Escapar ou morrer. E é isso que se vê nos corredores da morte, nos ambientes de trabalho competitivos, no chão das fábricas, nos palácios e nas ruas. Afinal de contas, ladrões que surripiam calmamente celulares (roubam e se afastam da vítima andando calmamente pela calçada), ele mesmo um “leão faminto” (dinheiro, drogas, satisfação psicológica), é produto de um meio cada vez mais degradado. A estética de medo, subordinação e culto à tecnologia dos teatros de competição, montados nos ambientes de trabalho, soma-se à estética de banalização da violência nas ruas, cuja multiplicidade é assombrosa: as cidades têm seus serviços deteriorados, um tormento que torna a vida massacrante; a violência da miséria absoluta, que exclui milhões de pessoas, principalmente contingentes marginalizados das periferias urbanas; a violência contra o menor e pelo adolescente infrator; a violência contra mulheres (o feminicídio), muito discriminadas; a violência étnica; a violência da falta de oportunidades e assim por diante.

Eis o paradoxo da modernidade. Esse caldeirão, que deveria ser quente, pela alta temperatura das situações, está transfigurando a sociedade em um ente frio, compartimentalizado em grupos e feudos, recortado por imensos apartheids econômicos e sociais. De outro lado, a organodemocracia, a “democracia” dos departamentos criados nos ambientes hierarquizados do trabalho privado, está amortecendo o conceito da sociedade convivial, sociedade voltada para os cidadãos e não para a produção. Os burocratas não sentem o cheiro das ruas e os dirigentes empresariais só têm olhos para a produtividade, não raro procurando fórmulas para atenuar os golpes furiosos do tacape de impostos e tributos governamentais. Sob esse desenho, não há tempo, interesse ou motivação para se tratar de outras questões e das coisas do espírito.

Onde estão os valores da solidariedade, do companheirismo, da doçura nas relações do trabalho, da amizade, da comunhão, do jogo em equipe? Estão se despedindo da Humanidade. Em seu lugar, surge uma modelagem tétrica, um aparato desordeiro, um jogo maléfico, altamente competitivo, que convive com golpes, morte, assassinatos, traições, desprezo à vida. Fechando a galeria da insensatez, aparecem bandidos nas ruas usando camisetas com Cristo, Gandhi ou santos de sua veneração.

Eis o mundo alienado. Que Deus nos proteja do apocalipse. Antes que mísseis intercontinentais (esses que a Rússia começa a usar na guerra contra a Ucrânia) caiam sobre nossas cabeças.

Um golpe para o cinema

Presenciei dois golpes militares no século XX. Primeiro foi no Brasil; nove anos depois, no Chile. Traços comuns: ocupação de pontos estratégicos, deslocamento de tropas, prisões em massa. Não houve planos de assassinato do governante deposto, embora Allende tenha morrido resistindo no Palácio de La Moneda.

No século XXI, os golpes de Estado tomaram outra forma. Há uma batelada de livros descrevendo-os. Agora, a democracia é devorada por dentro. O Poder Executivo aos poucos neutraliza Congresso e Judiciário e passa a mandar sozinho. É possível ver mais ou menos isso na Hungria ou na Venezuela.

O plano de golpe revelado na semana passada pela Polícia Federal representa um brutal retrocesso. Ele começaria com a morte do ministro Alexandre de Moraes, de Lula e Geraldo Alckmin. Teria características do século XIX, assim mesmo em países muito atrasados. Isso revela que o mundo avançou, e os golpistas, criando uma situação grotesca, recuaram no tempo, não chegam aos pés de seus antecessores do século passado.


Apesar da condenação inequívoca, seria interessante conhecer mais detalhes para contar a história. Há pontos ainda obscuros. O projeto era matar e envenenar. Matar a tiros — usando fuzis, pistolas e até um lança-granadas — é uma coisa. Envenenar é outra, em termos de planejamento. Você não lança uma granada envenenada; de um modo geral, usa outros métodos. A mais avançada prática no mundo talvez seja a da Rússia. Um simples chá pode destruir o oposicionista. Tanto o polônio-210 quanto o tálio são muito usados pela polícia política de Putin. Eis a pergunta sobre o envenenamento: qual era o plano, qual sua viabilidade no tempo escolhido, o mês antes da posse?

Não tivemos acesso ao esquema completo, escrito pelo general Mário Fernandes. Foram divulgadas apenas algumas de suas mensagens. Nelas, ele repete a palavra “porra” 53 vezes. Se continuasse produzindo textos, acabaria aumentando o índice de natalidade nacional.

Também não ficou claro como seria o assassinato de Moraes. Houve um olheiro colocado perto do restaurante Gibão, especializado em carne de sol. Ele reclama de falta de táxi; parece que esqueceram que não se pegam táxis na rua em Brasília. É preciso telefonar. O agente era Gana, os outros eram Áustria, Japão, Brasil, nomes de países. Creio que se inspiraram na série “Casa de Papel”, onde se usavam nomes de cidades: Paris, Tóquio.

As armas mencionadas ainda não apareceram. Eram fuzis pistolas, lança-granadas e uma bazuca. É um arsenal considerável. Como se encaixa no planejamento? Se usassem tudo, matariam ministro, motorista, segurança e eventualmente algum adepto de carne de sol próximo ao restaurante Gibão.

À medida que as investigações avançam, creio que algumas dúvidas serão esclarecidas para que se possa montar uma história mais detalhada. Há coisas que só alguém pensando no futuro roteiro pode perguntar. Por exemplo: você envenenaria o presidente e o vice ao mesmo tempo? Caso houvesse espaço entre um e outro, não seria possível que o sobrevivente desconfiasse e tomasse precauções?

Só o general no seu labirinto poderia responder a essas perguntas. Certamente diria:

— Não me venha com detalhes, porra.

Mas o trabalho da PF continua, desvendando toda a trama, encontrando o escalão superior do golpe e criando as condições para que se conte a história de forma precisa.

A série televisiva espera Gana, Áustria, Japão, Brasil, com a mesma atenção que deu a Paris, Tóquio, Londres, na “Casa de Papel”.

O retorno dos tecnolibertários

A vitória de Donald Trump representa muitas coisas transformadoras do mundo. Uma é o casamento entre o determinismo tecnológico e o libertarianismo. No mundo deste novo governo, a linha que separa Milton Friedman dos bilionários da tecnologia como Elon Musk, Peter Thiel, Marc Andreessen e Mark Zuckerberg fica difusa e se confunde em uma filosofia cujo objetivo é acabar com todas as restrições aos mercados.

A turma de “voluntários” tecnolibertários de Trump - como Musk disse de maneira um tanto insincera, dado que Tesla e SpaceX recebem mais financiamento federal do que a NPR - acredita que deveria ser deixada livre para desmontar o aparato estatal em nome da eficiência e do lucro. O lucro já foi alcançado, pelo menos para o pessoal do Vale do Silício: inteligência artificial, criptomoedas e qualquer empresa vinculada a Musk viram o valor decolar desde a eleição.


Os EUA, contudo, não são o único lugar onde os “senhores digitais” exercem influência excessiva. Na semana passada, Musk anunciou que parlamentares britânicos “serão convocados aos Estados Unidos para explicar a censura por parte deles e as ameaças a cidadãos americanos”. Isso ocorreu após Chi Onwurah, deputada trabalhista e presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia do Parlamento britânico, sugerir que Musk deveria depor sobre a disseminação de desinformação antes dos tumultos no Reino Unido em agosto.

Por sorte, alguém teve coragem de enfrentar as gigantes tecnológicas. Por sua vez, Peter Kyle, secretário britânico de Ciência e Tecnologia, cometeu um deslize ao dizer que países como o Reino Unido deveriam interagir com as empresas internacionais de tecnologia mais poderosas como se fossem Estados-nação. Os governos deveriam mostrar um “senso de humildade” e valer-se de “diplomacia” ao lidar com empresas como Google, Microsoft e Meta, segundo Kyle.

Se aprendemos algo desde meados da década de 1990, é que ser cauteloso e humilde não é a maneira de lidar com as big techs, que jogam conforme suas próprias regras e em benefício próprio. Enquanto Trump monta seu novo governo, os ganhos já são espetaculares. Observe enquanto a Palantir assume o complexo militar-industrial, os bitcoins alcançam novos recordes, a X favorece republicanos em detrimento de democratas e a riqueza da classe tecnolibertária dispara. Como Andreessen disse recentemente em um podcast: a vitória de Trump parece “tirar uma bota que pisava a garganta”. “A cada manhã, acordo mais feliz do que no dia anterior”.

O sonho de um mundo impulsionado pela tecnologia, livre de todas as restrições governamentais, existe pelo menos desde o surgimento da internet. A desregulamentação da era Reagan ajudou, mas também a abordagem laissez-faire para o desenvolvimento da internet de consumo nos anos 1990, no governo Bill Clinton. Ele promulgou a agora infame “seção 230”, que isenta empresas de tecnologia de responsabilidade pelo conteúdo em suas plataformas.

Jonathan Taplin escreveu o livro premonitório de 2023 “The End of Reality: How Four Billionaires Are Selling a Fantasy Future of the Metaverse, Mars, and Crypto” (O fim da realidade: como quatro bilionários estão vendendo um futuro fantasioso de metaverso, Marte e criptomoedas, em inglês), sobre Musk, Thiel, Andreessen e Zuckerberg. Ele traça uma linha direta entre a era Clinton/Gore, Musk e os comentários de Kyle.

“Acredito que os oligarcas da tecnologia já estão no comando”, diz. “Afinal, são essas entidades que constroem a infraestrutura de computação em nuvem e a IA para Estados-nação, os cabos submarinos que sustentam o comércio e a comunicação digitais, os drones militares e a tecnologia de satélites cruciais para a defesa, e agora, os novos sistemas de moeda internacional que podem muito bem ser o cerne da próxima crise financeira”.

No entanto, a captura cognitiva das autoridades e governos pelas gigantes tecnológicas é apenas parte do problema. Nos últimos anos, o tecnolibertarianismo se somou à proliferação de domínios extraterritoriais - portos livres, zonas econômicas especiais, paraísos fiscais, cidades de administração privada - nos quais os colossos digitais e seus seguidores escapam dos limites da democracia. Livros recentes, como “Crack-Up Capitalism” (algo como “capitalismo acidentado”), de Quinn Slobodian, e “The Hidden Globe” (o globo oculto), de Atossa Araxia Abrahamian, descrevem como esses locais canalizam riqueza de países ricos para os pobres, sem o incômodo de impostos ou normas e regulamentações locais.

Grande parte do dinheiro e das pessoas nesses lugares vem do Vale do Silício. Veja o caso de Próspera, uma cidade privada em Honduras financiada em parte por fundos que contam com apoio de Andreessen, Thiel e Sam Altman. Lá, as empresas podem criar as próprias regulamentações, empreendedores podem conduzir ensaios clínicos malucos sem precisar seguir os padrões da Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês), e cidadãos são protegidos por uma firma privada de seguranças armados. Seu objetivo é claro: “construir o futuro da governança humana: de administração privada e com fins lucrativos”.

Esse pode muito bem também ser o mantra do governo Trump. No entanto, os investidores devem lembrar que o tecnolibertarianismo em geral chega a picos para depois cair. Em 2006, Richard Haass, ex-oficial do Departamento de Estado de George W. Bush, escreveu sobre a elevação das empresas ao status de quase Estados-nação. Empresas como Microsoft e Goldman Sachs, argumentava ele, tinham um papel a desempenhar em “deliberações regionais e globais”, uma vez que o “quase poder monopolista” dos Estados estava enfraquecido.

A crise financeira mundial de 2008 tornou essa ideia tanto ultrapassada quanto politicamente tóxica, ao menos por algum tempo. Agora, estamos prestes a testemunhar como o poder monopolista privado disfarçado de governo se manifesta. Eu me pergunto por quanto tempo o sonho - ou pesadelo - durará antes que o mundo volte a acordar?

 Rana Foroohar, editora especial do Financial Times

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Semeando ódio


As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda
Mia Couto

Golpe e castigo no Brasil em transe

O inquérito sobre os atos antidemocráticos, a trama de golpe de Estado e o uso da desinformação como estratégia de desestabilização da democracia chegou aos estágios finais, após dois anos de investigação. A Polícia Federal indiciou formalmente Jair Bolsonaro, toda a cúpula militar da Presidência, o delegado Alexandre Ramagem, da Polícia Federal, ex-chefe da Abin, e o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, por tentativa de golpe de estado, tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito e por organização criminosa. Foram 36 indiciados, entre eles 24 militares, além de Bolsonaro. A única exceção entre os oficiais palacianos foi o ex-secretário-geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos.

Os golpistas foram reunidos em seis núcleos diferentes: desinformação, jurídico, operacional, inteligência, oficiais de alta patente e responsável por incitar militares a apoiar o golpe. A Procuradoria-Geral da República deve oferecer denúncia contra todos. Muitos dos oficiais de alta patente eram do grupo de elite do Exército, as Forças Especiais, os "kid pretos".

O grande ausente é o general Ramos, também da cúpula militar palaciana. Não é crível que um general saído do comando do 2º Exército em São Paulo para ocupar a Secretaria de Governo e depois a Secretaria-Geral, tendo como seu "vice" o general "kid preto" Mário Fernandes, principal idealizador do plano "Punhal Verde-Amarelo", não saber, nem ter participado da conspiração pelo golpe. O general Fernandes, em mensagem a ele, que era seu superior imediato, trata do golpe e o chama de "kid preto".

Esse foi um golpe estimulado, idealizado, tramado e planejado por toda a cúpula militar da Presidência da República, no governo Bolsonaro. Ele foi o chefe político e comandante supremo desses oficiais superiores em cargos estratégicos. Após o julgamento na Suprema Corte civil, os militares devem ser julgados, também, no Superior Tribunal Militar. Será a primeira vez que oficiais responderão a IPMs por crime político. Espera-se que os golpistas sejam punidos de forma exemplar e, com agravantes por serem de alta patente, estarem em funções de grande responsabilidade, vários deles em posições cujo mandato incluía a obrigação de defender a integridade do Estado Democrático de Direito.

Foi um golpe inacabado e é precisamente porque não se consumou que pôde ser investigado e será julgado. Golpes consumados cancelam o Estado Democrático de Direito e se asseguram a imunidade. Como fizeram os militares de 1964, que forçaram um Congresso sitiado a incluí-los na anistia a suas vítimas, em troca de uma abertura política negociada. O tipo penal é tentativa de golpe de Estado, isto é, tentar depor o governo legalmente constituído, com emprego de violência ou grave ameaça. O outro tipo penal é tentar abolir o Estado Democrático de Direito, com emprego de violência ou grave ameaça, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais. As penas são leves diante da gravidade dos crimes, no máximo 12 anos de prisão, para cada crime.

Mesmo a pena agravada em um terço por ocupar os mais altos postos de comando não guarda proporção com a seriedade dos crimes e a oportunidade que um golpe desse tipo abre para crimes hediondos, como tortura e execução de adversários. O organograma do Gabinete de Crise previsto para logo após a deposição e morte de Lula, Alckmin e Moraes, que seria comandado pelos generais agora indiciados, Heleno Augusto e Braga Netto, previa uma "Assessoria de Inteligência" encarregada de ações de "inteligência e contrainteligência, nos níveis federal, estadual e municipal". Quem viveu os anos de chumbo, sabe no que se tornaram esses aparatos de "inteligência e contrainteligência" das Forças e do SNI.

Pelo menos se todos os envolvidos no plano de golpe e abolição do estado democrático de direito, mentores, financiadores e operadores, forem condenados pela pena máxima, acrescida de seus agravantes, passarão uma boa temporada encarcerados. Seria o fim da impunidade crônica que caracterizou o tratamento judicial de crimes políticos no Brasil e da leniência com as tramas golpistas, inclusive, aquela que terminou nos 21 anos de ditadura militar e abusos aos direitos humanos em seus porões. O inquérito do golpe não estará completo até que toda a cúpula de responsáveis por seu planejamento, custeio e operação sejam punidos, inclusive, aqueles que escaparam ao indiciamento no primeiro relatório. Esperemos por outros.

Sérgio Abranches

Macondo é aqui

As revoluções, ou suas respectivas tentativas, têm um aspecto ridículo que nunca deve ser desprezado. O realismo mágico existe, não é invenção de escritores do quilate de Gabriel Garcia Marques. Eles perceberam o fenômeno na política latino-americana. Nestas histórias, há sempre um general, cheio de medalhas no peito, a se proclamar o benefactor da Pátria, em nome da defesa das instituições, da moral e dos bons costumes, que baixa o cacete nos opositores. Às vezes em nome de Deus.

Não será surpresa se, dentro de alguns anos, tudo isso que a Polícia Federal descobriu seja esquecido ou considerado ilegal. Foi assim com a operação lava-jato, que encontrou uma roubalheira abissal nos negócios da Petrobrás. Apesar das confissões, feitas em juízo, de repente, todos foram inocentados. Aqui não há memória.

A Polícia Federal colocou o guiso no pescoço do gato. O capitão Bolsonaro utilizou todo o período de seu governo para tramar contra as instituições nacionais. Ele esqueceu ou não teve competência para governar. Não inaugurou uma única escola, não avançou um passo no sentido de colocar o país em posição melhor no contexto internacional. Frequentou colóquios internacionais como personagem exótico, que abandonava o local dos encontros de autoridades estrangeiras para fazer refeições em restaurantes de comida rápida. Vendeu as joias recebidas como presente em visitas de estado que fez, representando o Brasil. Frequentou os quarteis durante os quatro anos de seu mandato. E concedeu generosos aumentos de salário aos militares.



Roteiro muito semelhante ao trilhado por Nicolas Maduro, o homem forte da Venezuela, que nos últimos tempos passou a fazer críticas abertas ao presidente Lula, de quem era amigo íntimo. Ele quebrou a PDVSA, a petroleira venezuelana, entregou os melhores cargos para seus correligionários, fechou os olhos para o tráfico de drogas e colocou os garimpos de ouro à disposição dos militares.Encheu o peito de medalhas, o que lhe concedeu o direito de prender, torturar e matar opositores. De vez em quando conversa com o falecido Chaves por intermédio de passarinho que pousa na sua janela. Tudo em nome do pobre do Bolívar, que apenas comandou a independência das colônias espanholas na América do Sul. O libertador morreu tuberculoso. Sua mulher, Manuela Sáenz, chamada de la libertadora, viveu seus últimos anos vendendo pasteis em Guayaquil, Equador.

Esta é a nossa América do Sul. Não esquecer a paixão dosargentinos pelo cadáver de Evita Peron que perambulouinsepulto durante anos e viajou entre Espanha e Argentina. No caso brasileiro, o presidente ao invés de governar passou a tramar contra as instituições de seu país. Ele teve todos os instrumentos ao alcance da mão. Tinha a caneta, a polícia, a maioria dos parlamentares e apoio popular. Decidiu caminhar pelo lado escuro da política. Perdeu a eleição por incompetência e incumbiu militares de forças especiais do Exército de matar o presidente da República,o vice e o então presidente o Tribunal Superior Eleitoral. Coisa de amador. Como acontece na melhor literatura latino-americana sempre dá tudo errado, seja porquealguém falou demais, ficou bêbado ou chegou atrasado na hora fatal. Ou, ainda, sujou as calças.

Não havia o menor risco de dar certo. Eles fizeram o ensaio geral no dia da diplomação de Lula e Alckmin. Promoveram a maior baderna no centro de Brasília. Chegaram a tentar invadir a sede da Polícia Federal. A PMDF limitou-se a olhar. Mas o golpe, ou o que restou, dele, já estava em curso. Depois veio o oito de janeiro, que foi claramente conduzido por gente do ramo. A invasão do Congresso pelo teto, com apoio de uma escada de cordas, a utilização de água para reduzir o efeito do gáslacrimogêneo, denuncia a presença de especialistas. Os militares colocaram dois tanques de guerra para defender oenorme acampamento de manifestantes, onde eram servidas três refeições por dia. O pessoal tinha dinheiro.

Naquele dia, Lula estava em Araraquara, interior de São Paulo. Foi o secretário executivo do Ministério da Justiça, Ricardo Capelli, que teve a coragem de entrar no quartel general do Exército e determinar a retirada dos manifestantes da frente das instalações miliares. Todos foram presos. Agora a Polícia Federal chegou aos mandantes. Eles são herdeiros do falecido ministro da guerra, Sylvio Frota, de quem o general Augusto Heleno foi ajudante de ordens. Ele foi exonerado pelo presidente Ernesto Geisel, por ser contra a redemocratização do país

Se tivessem conseguido dar o golpe, além de prender, torturar, matar e censurar a imprensa, eles iriam brigar entre si. Jamais generais admitiriam bater continência paracapitão. Bolsonaro correria o risco de ser preso por seus amigos, em nome da defesa da ordem. Macondo não existe somente na literatura de Garcia Marques. Macondo é aqui.

domingo, 24 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


O cruzado que Trump escolheu para a Defesa

Aos 44 anos, o veterano Pete Hegseth mantém o corpanzil sarado dos tempos em que foi soldado de elite do Exército americano. Prestou serviços no Iraque, no Afeganistão e na abominável prisão militar de Guantánamo antes de se tornar personalidade cultuada da Fox News. Ali ancorava um dos programas de maior audiência e estridência do canal, até ser pinçado por Donald Trump para ocupar o cargo de futuro secretário da Defesa.

Em condições mínimas de razoabilidade, a indicação de Hegseth teria poucas chances até de chegar ao Senado, ainda menos de ser aprovada na sabatina — os legisladores democratas, somados a alguns republicanos pensantes, pareciam decididos a impedir tamanha insânia. Antes, porém, era preciso abortar outra indicação de Trump: a do agora ex-deputado federal Matt Gaetz como procurador-geral. A pressão contra Gaetz funcionou. Detestado por seus pares e retratado como predador sexual contumaz em relatório da Comissão de Ética da Câmara, ele desistiu do cargo antes de precisar ser sabatinado.


À primeira vista, uma derrota indigesta para o triunfal vencedor da eleição de 5 de novembro. Mas só à primeira vista. É possível que Trump tenha usado Gaetz como isca calculada. Os republicanos dificilmente correrão o risco de implodir também, de forma tão frontal e acelerada, mais um candidato do firmamento Make America Great Again (Maga). Trump não perdoaria a infiel reincidência, e da ira vingativa do futuro presidente muitos no Senado já provaram.

Para explicar quem é e o que significaria Hegseth chegar ao comando do Departamento de Defesa, vale começar pelas tatuagens que traz no corpo. Cobrindo boa parte do tórax direito, está a Cruz de Jerusalém (também conhecida como Cruz das Cruzadas). Apesar de datar da Idade Média, ela voltou a ser cultuada por extremistas de direita e protofascistas. Na cerimônia de posse do democrata Joe Biden em 2021, Hegseth chegou a ser excluído da equipe que fazia proteção presidencial por causa dessa tatuagem. Explica-se: duas semanas antes, no fatídico 6 de Janeiro, supremacistas e trumpistas inconformados haviam tentado impedir pela força a diplomação de Biden no Capitólio.

— Este momento de nossa história clama por uma Cruzada Americana — escreve Hegseth num de seus livros mais perturbadores.

Tem mais. Na parte interna do braço esquerdo, a tatuagem de uma sinuosa serpente evoca a libertação americana da Inglaterra; no antebraço, uma frase em latim: Deus Vult (Deus o quer), apropriada das Cruzadas por neonazistas como grito de guerra contra a disseminação do islamismo. Uma bandeira dos Estados Unidos, uma imensa cruz com espada e dizeres em hebraico, um “We the People”, do preambulo da Constituição americana, em letras gigantes, também fazem parte do ideário gravado no corpo de Hegseth. Seus disparates verbais também assustam:

— Germes não existem. Não consigo vê-los, portanto não são reais — sustentou do sofá curvilíneo que ocupou por uma década no programa Fox & Friends.

Certa vez Hegseth rasgou seu diploma de Harvard ao vivo e leu um trecho do livro “American Crusade” em que desanca as universidades de elite que “envenenam a mente de nossos filhos”. Na vida real, porém, adora mencionar, en passant, que tem graduação em Princeton e pela John F. Kennedy School of Government (Harvard).

É sua obra mais recente, “War on Warriors” (guerra contra guerreiros), que aponta melhor para a temeridade de deixar Hegseth comandar um orçamento militar anual de quase US$ 900 bilhões, um arsenal nuclear e convencional sem paralelo na História, um pessoal ativo de 1,36 milhão de fardados, 811 mil reservistas, um poderio global com 800 bases militares espalhadas pelo planeta, e muito mais.

— Enquanto patriotas da geração do 11 de Setembro lutaram contra inimigos lá fora, permitimos que os inimigos em casa dominassem nosso território cultural, espiritual e político. Nossa retaguarda ficou exposta, e o inimigo avançou — avisa ele.

Lutar contra “extremistas domésticos” como o ex-presidente Barack Obama, os democratas e liberais seria a segunda etapa de uma guerra pela liberdade. O livro é de 2020, mas há poucas chances de os fantasmas de Hegseth terem sumido. Com visão apocalíptica da sociedade, vê no outro uma ameaça existencial. Por isso exorta outros cruzados a “desprezar, humilhar, intimidar e esmagar” o inimigo interno.

— O tempo está acabando para o país — anuncia. — Será uma guerra sagrada de 360 graus pela causa da liberdade (...) até a aniquilação total da esquerda. Nos veremos na zona de combate! Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a América. Deus vult!

Socorro.

Juan Arias, o homem feliz da praia de Saquarema


“E se você tiver dúvidas, pergunte a Juan Arias , que mora lá.” Esse foi o principal conselho que meus chefes me deram quando me enviaram para São Paulo em 2014 como correspondente e chefe de delegação da edição brasileira do EL PAÍS. Liguei para Juan logo que cheguei: não entendi nada daquele país fascinante e difícil onde há quem vá de helicóptero para fugir dos engarrafamentos de São Paulo e quem viaje de canoa para vender frutas na Amazônia. Juan me atendeu ao telefone com sua voz doce de uma pequena cidade do Estado do Rio de Janeiro e sempre me livrou de problemas com aquela mistura de lucidez, sabedoria e paciência que logo reconheci como parte de sua personalidade requintada. Aos poucos fui ligando para ele cada vez mais, e para mais e mais coisas. E algumas semanas depois fui visitá-lo em sua casa naquela cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro.

A cidade se chama Saquarema e a casa tinha paredes coloridas, pouca mobília, muita luz e dava para um mar azul e uma praia linda e infinita. Naqueles dias falamos muito do Brasil e deste jornal, mas também do Papa – muitos papas –, da Itália, dos livros, do jornal Pueblo, da religião ou do presunto serrano. Fazíamos isso em casa, acompanhados de sua esposa, a maravilhosa Roseana Murray, escritora e poetisa, mas também em longas caminhadas pela orla. Digo que conversamos, mas tentei deixá-lo falar, porque ele tinha muito mais coisas para dizer e o fez com aquele misto de sabedoria, paciência e lucidez que eu já começava a admirar. Naquele fim de semana, ele e Roseana me contaram sua história de amor: como Juan deixou tudo para trás quando tinha mais de 60 anos e se mudou para o Brasil e como Roseana deixou todo o Brasil para trás e se mudou para Saquarema. Quando voltei para São Paulo naquele domingo e vi os dois se despedindo de mim na porta de sua casa, com toda a luz do mar no rosto, pensei que, como naquele famoso filme argentino de Adolfo Aristarain, Juan Arias foi um daqueles poucos homens de sorte que encontrou seu lugar no mundo.

Fora filho da guerra, seminarista, sacerdote, teólogo, ex-padre, jornalista de Pueblo , correspondente em Roma do EL PAÍS, membro da revista Babelia, Defensor do Leitor, escritor e, por fim, correspondente no Brasil. Talvez ele tenha te dado uma palestra sobre Giulio Andreotti que decifrou Lula da Silva ou te orientado onde plantar uma orquídea. Foi um verdadeiro professor para todos, especialmente para os jovens jornalistas que compunham o EL PAÍS Brasil, brasileiros e espanhóis, a quem ajudou generosamente desde o primeiro dia, sem conhecê-los, e a quem posteriormente acompanhou ao longo de toda a carreira. Mas sempre me lembrarei dele caminhando sorridente pela praia de Saquarema com as mãos nos bolsos da calça jeans. Além disso, nestes últimos dias, quando eu já sabia que ele estava morrendo, ele me disse no WhatsApp, com a lucidez, sabedoria e paciência de sempre, que não tinha o direito de reclamar, porque havia tido uma vida muito longa e feliz.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar de que lado está

A direita que se diz civilizada ganhou mais uma chance de mostrar que é de fato civilizada. Em 2018, ela apoiou a eleição de Bolsonaro por querer acreditar que ele governaria dentro das quatro linhas da Constituição. Embora lhe faltasse preparo, Bolsonaro saberia cercar-se de pessoas competentes. O mercado estava repleto delas.

Não foi o que aconteceu. Com apenas um ano e quatro meses no cargo, em ato público defronte ao QG do Exército em Brasília, Bolsonaro falou a manifestantes que pediam abertamente a volta da ditadura. Censurou-os? Pelo contrário. Exaltou-os do alto de uma camionete ao dizer entre outras coisas:

– Não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente. Todos, sem exceção, têm que ser patriotas e acreditar e fazer a sua parte para que possamos colocar o Brasil em lugar de destaque. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder.

– Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro. Tenho certeza, todos nós juramos um dia dar a vida pela pátria. E vamos fazer o que for possível para mudar o destino do Brasil. Chega da velha política.

A turba rugiu satisfeita e em êxtase.

Salvo poucos nomes, Bolsonaro cercou-se de auxiliares tão medíocres quanto ele, de preferência militares. Nem os governos da ditadura empregaram tanta gente fardada em lugares quase reservados a civis. A política arrombou de vez as portas do quarteis e começou a sangrar a disciplina. Deu no que vimos.

A direita dita civilizada também viu. Mas isso não impediu que parte dela, jamais mensurada, apoiasse a reeleição de Bolsonaro. Foi por um suspiro que ele não se reelegeu, derrotando Lula, o candidato da tal frente ampla pela democracia. E não foram apenas os extremistas da direita que votaram nele.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Foi o Estado Democrático de Direito que esteve em perigo e por um triz o golpe não se consumou. Quem o reverteria se Lula, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes tivessem sido mortos? Os generais que acolheram gentilmente os golpistas acampados?

Uma junta militar convocaria novas eleições. O plano era esse. Bolsonaro teve em mãos várias versões do plano e estabeleceu um prazo para que o golpe fosse aplicado – até o final de dezembro de 2022. Como não deu certo, escafedeu-se para os Estados Unidos e de lá assistiu o levante popular nada espontâneo do 8/1.

Indiciado pela Polícia Federal nos crimes que quis ocultar, próximo de ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República, de que lado ficará a direita dita civilizada quando Bolsonaro e os demais golpistas sentarem no banco dos réus? Não se diga que ele é um problema da justiça e de mais ninguém.

Não há meio termo. Não cabe isenção. Escolha seu lado. Bolsonaro é um problema dos que votaram nele e de todos que arcaram com as consequências de sua gestão desastrosa e reacionária.

Esbórnia orçamentária é ataque ao crescimento

De repente, acorre à memória uma historinha infantil versejada: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça morava na roça / por voracidade, quis ir à cidade com toda essa troça / os cinco fedelhos de Rafo Rafelhos que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça, que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças e nem sequer pensa...". E adiante narra a ouvidos ainda inocentes um assalto sistemático de ratos à desprevenida Fifica Fogaça. Outro nome para o tesouro da "Viúva", mote de um arguto historiógrafo das mazelas nacionais.

A memória foi acionada pela burlesca assonância de uma notícia: no Maranhão, o ministro dos Esportes, André Fufuca, visitou o estádio Fufucão, batizado em homenagem ao avô. Além do Fufucão, uma areninha em Pindaró, cidade governada por Fufuca Dantas, pai de André Fufuca. Cerca de R$ 90 milhões foram reservados para a construção de novos campinhos-soçaite, com grama sintética e dependências confortáveis.

Essa nota ressalta aos olhos quando o governo se debate para anunciar um pacote de corte de gastos, tido como indispensável ao equilíbrio econômico do país. Educação e saúde são os alvos de sempre, mas se suplica o quinhão de outros Poderes, como a magistratura e o parlamento.

As mordomias são ofensivas, senão obscenas. Juízes têm direito a 120 dias de folgas, fora os 60 de férias tradicionais. Parlamentares dispõem de R$ 44,67 bilhões para esbanjar em emendas aleatórias. O custo das isenções tributárias para empresas é de R$ 97,7 bilhões. E, para defender o país de ameaças supostamente internas (como se depreende do sinistro conspiracionismo "punhal verde e amarelo"), pois inexistem as externas, as Forças Armadas ficam com R$ 86, 8 bilhões.

No campo social, as despesas são modestas, mas é premente o caso das universidades federais, que consomem R$ 5,5 bilhões em meio a enormes dificuldades. Neste mês de novembro, a UFRJ, aliás com um reitor competentíssimo à frente, deu nó em pingo d´água para não ficar sem luz. É caso representativo porque se trata da maior universidade federal do país, uma das melhores da América Latina, com professores de alta qualidade, laboratórios e pesquisas relevantes para a sociedade nos campos da tecnologia, da saúde, da matemática e das ciências sociais.

Para o economista João Sicsú, "quem corta a luz da universidade é o governo federal, não a concessionária de energia. Ela forneceu o serviço, quem não pagou a conta foi o governo" (Sintufrj, 14/11/2024). Este argumento sugere uma revisão de prioridades na elaboração do orçamento, que entenda "valor" não como o monetarista da meta de redução a zero do déficit público, e sim como uma atribuição desejável, dotada de conteúdo acessível a todos os agentes sociais e de uma significação apta como objeto de atividade útil.

É patético confrontar dificuldades mesquinhas de um centro de excelência do conhecimento, indispensável ao crescimento econômico, com facilidades triviais da esbórnia orçamentária. Na historinha, o gato conteve dona Ratusca Boduça. Na história vivida, déficit zero não pode continuar a ser álibi da rataria que rói há séculos, sem dó, o baú patrimonial da nação.

sábado, 23 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


É preciso fazer um detox digital

Imagine uma doença cujos sintomas sejam ansiedade, irritabilidade, comportamentos compulsivos, dificuldade de concentração, insônia, sudorese, tremores, taquicardia. E para a qual não haja vacina ou medicamento, máscara que evite o contágio ou isolamento social que dê jeito (ao contrário: até agrava o quadro).

Pois ela existe, é pandêmica e atende por “nomofobia” (do inglês “no mobile phobia”): medo irracional de ficar sem o celular — ou sem conexão. Você pode estar infectado — e só se dará conta quando se vir privado do aparelho ou do sinal. O que fazer naqueles intermináveis 90 segundos de espera pelo elevador? Como sobreviver a 20 minutos no metrô, tendo (na ausência de um livro salvador) de entrar em contato com os próprios pensamentos?

A nomofobia pode estar associada ao FoMO (“fear of missing out”), o medo (igualmente irracional) de perder algo por não conseguir acompanhar em tempo real tudo o que é divulgado na internet. Vai que uma subcelebridade se separou ou fez uma tatuagem — ou, pior, se separou e removeu a tatuagem! — e você ainda não está sabendo? E se tiver nascido um panda num zoológico holandês, e você só for informado disso depois do expediente?

A dependência digital se tornou um problema sério nas escolas, pelo impacto negativo na memória e na concentração, prejudicando o desempenho dos alunos (e infernizando a vida dos professores). Seguindo a tendência mundial, no Brasil vêm sendo aprovadas leis para proibir o uso de celulares, tablets e smartwatches (exceto quando necessários às atividades curriculares), seja durante as aulas, seja nos intervalos.

Mas o mau uso desses eletrônicos não se restringe ao ambiente escolar. É difícil encontrar um policial ou guarda de trânsito no Rio de Janeiro que não esteja de celular na mão, subindo a tela, teclando, completamente absorto. Talvez sirva para aliviar a tensão — mas impede a percepção de atitudes suspeitas e compromete o tempo de reação numa emergência.

Sem falar nas pessoas que assistem a vídeos, sem fones de ouvido, no transporte coletivo ou que fazem e recebem chamadas em cinemas e teatros — atrapalhando o público, o sábado, o espetáculo.

Em 1883, abismado com a falta de educação dos usuários dos bondes, Machado de Assis escreveu, na Gazeta de Notícias, uma lista de regras de comportamento. Entre elas, escarrar apenas para o lado da rua (“salvo em caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação etc., etc.”); sentar de pernas fechadas (ou pagar pelos dois lugares); ler o jornal “sem roçar as ventas dos vizinhos”; não contar dos seus negócios íntimos “sem primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência se ele é assaz cristão e resignado”; ao dizer alguma coisa em voz alta, ter “o cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras” e por aí afora.

Seria de bom alvitre atualizar seu decálogo, adaptando-o ao uso civilizado do celular. Isso pode incluir campanhas educativas ou políticas restritivas, o estímulo ao uso de aplicativos que monitorem o tempo de tela ou, se tudo o mais falhar, a ativação do semancol — aquele santo remédio contra a ausência de bom senso.

Um detox digital viria bem a calhar. É melhor que repetir de ano, deixar o ladrão escapulir, levar uma descompostura do passageiro (ou espectador) ao lado ou ter de tratar todos os sintomas do primeiro parágrafo.

Derrotar o golpismo

A prisão de quatro oficiais do Exército, entre eles um general reformado, e de um policial federal que planejaram um golpe de Estado, incluídos os assassinatos do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, não elimina a ameaça golpista. Certamente, a descoberta do plano e as prisões são um passo importante, mas insuficiente.

É necessário prender o general Braga Netto, candidato a vice de Bolsonaro. As investigações mostram que ele era o comandante operacional tanto do plano dos assassinatos quanto do golpe em si. Assumiria a chefia do comitê de crise a ser instaurado se o golpe vingasse. É preciso também prender o general Augusto Heleno, notório mentor golpista.

É necessário ir além: Jair Bolsonaro precisa ser preso, pois as investigações mostram não só seu conhecimento do plano do golpe, mas também sua supervisão.


O golpe não se consumou no intervalo que vai da vitória de Lula ao 8 de Janeiro unicamente pelo fato de a maioria do Alto Comando do Exército ter sido contra. Os ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica, Freire Gomes e Carlos Baptista Júnior, em depoimento à Polícia Federal, testemunharam a participação de Bolsonaro na reunião na qual foi discutida a minuta golpista. De acordo com as investigações, na reunião dos comandantes das três forças, o então chefe da Marinha, almirante Almir Garnier, teria sinalizado apoio à intentona.

A descoberta do plano de assassinatos veio à tona na semana seguinte do atentado contra o Supremo Tribunal Federal, cometido pelo catarinense Francisco Wanderley Luiz. Mesmo que tenha sido um ato individual, não pode ser colocado fora do contexto político de toda a incitação golpista de Bolsonaro e de todos os graves incidentes, acampamentos em frente a quartéis, bloqueios de estradas e ruas, atos violentos e o 8 de Janeiro de 2023. O planejamento do golpe era a face oculta e mais perigosa de tudo o que aconteceu.

O movimento golpista continua politicamente ativo e se concentra em quatro temas prioritários para convencer a opinião pública. O primeiro consiste na naturalização do 8 de Janeiro. Para os bolsonaristas golpistas, tudo não passaria de uma invasão e depredação de prédios públicos, a exemplo do que alguns movimentos sociais teriam feito no passado. O objetivo é descaracterizar o caráter golpista dos acontecimentos, reduzindo-os a um mero protesto político. Essa tese precisa ser combatida e desmascarada, mostrando as inconsistências das comparações e a evidência da violência praticada naquele fatídico dia.

Articulados com a tentativa de naturalização do 8 de Janeiro, os golpistas brandem a tese da anistia. Se tudo não passaria de um protesto político, o STF estaria a cometer uma arbitrariedade ao condenar os invasores e depredadores a duras penas. Com o atentado contra a Corte e a descoberta do plano de assassinatos, é necessário enterrar a proposta de anistia. Se a ação combativa não for feita, a tese poderá ganhar novo fôlego adiante.

O terceiro movimento consiste em minimizar o atentado contra o STF. Ele teria sido levado a efeito por um indivíduo isolado e psicologicamente desequilibrado. Seus artefatos não passariam de fogos de artifício.

O quarto movimento visa manter o STF sob fogo cerrado, tanto nas redes, com a proposta de impeachment de ministros, quanto no Congresso, com projetos que limitariam seu poder. Propõem até a possibilidade de anulação de decisões pelo Legislativo.

Essa trama é de natureza golpista. Precisam ser denunciados, desmascarados e combatidos. Precisam ser enfrentados no Congresso, nas redes e nas ruas. Este é o caminho político para derrotar o bolsonarismo e o golpismo.

O outro caminho consiste na via judicial. É certo que o STF se tornou, desde ainda o governo Bolsonaro, o bastião de combate ao golpismo e de defesa do Estado de Direito. Não por acaso é o centro dos ataques golpistas. Mas os ministros do Supremo precisam ter clareza de que a sua tarefa não será concluída se os principais líderes, planejadores e financiadores do golpismo não forem julgados e condenados com penas mais duras do que aquelas imputadas aos invasores e depredadores das sedes dos Três Poderes.

Caso a punição de Bolsonaro e dos oficiais das Forças Armadas envolvidos nos atos golpistas não seja condizente com a gravidade dos atos, as portas para futuras aventuras golpistas permanecerão abertas. Militares das três forças e policiais de todas as corporações precisam entender que o fato de portarem armas não os coloca acima das leis e da Constituição. Seu dever é servir ao povo e à sociedade. 

Festa familiar




Em outubro de 1930
Nós fizemos - que animação!
Um pic-nic com carabinas.

Murilo Mendes

Militares brasileiros sempre planejaram golpes estapafúrdios, mas alguns prosperaram

Uma das justificativas utilizadas para tentar minimizar a tentativa de golpe de Estado que ocorreria no final de 2022 é dizer por aí que se tratava de um delírio de meia dúzia de militares delirantes. Que planejar conspiração não é crime e por aí vai. O raciocínio não leva em conta que os golpes bem-sucedidos na história do Brasil partiram de ações ou tresloucadas ou de arroubos não planejados. Já acusado de tramar um atentado no qual o sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro seria atingido, o que abreviou sua carreira militar, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi formado nessa cultura sublevações.


Tome se o caso da decisão do general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª divisão de infantaria. Aparentemente sem consultar os superiores, na noite do dia 31 de março de 1964 partiu de Juiz de Fora, Minas Gerais, em direção ao Rio de Janeiro para tomar o poder do então presidente João Goulart. Acabou precipitando uma ação longamente calculada, de expulsar Jango, mas não executada. O resultado foram 21 anos de ditadura que começou, diga-se de passagem, com o apoio de grande parte da classe média, das classes empresariais e mesmo da elite política.

Cerca de três décadas antes, um estratagema inventado pelo mesmo Mourão Filho, o Plano Cohen, que colocava o Brasil sob o risco iminente de uma insurreição comunista, foi uma das principais justificativas para Getúlio Vargas dar um autogolpe e instalar o Estado Novo, que durou oito anos. Tudo a partir de um engenho fantasioso. Getúlio, aliás, que também caiu por outro golpe, mas pelo menos para instalar uma breve democracia.

Há também uma série de tentativas que deram errado. Como as rebeliões da Força Aérea para impedir a posse de Juscelino Kubitschek – militares envolvidos anistiados estiveram envolvidos no golpe de 1964, aliás. Houve um plano do brigadeiro João Paulo Burnier de explodir o Gasômetro, no Rio de Janeiro e colocar a culpa na oposição, no final dos anos 60. Foi impedido por militares legalistas. Imagine o tanto de esquemas que nunca chegaram ao público. “Quando um golpe “dá certo” (para os golpistas), ninguém se lembra de que ele começou com uma iniciativa ousada. Quando um golpe fracassa, a tendência é ridicularizar o plano como delirante ou inviável”, afirmou, no “X”, o professor titular de história do Brasil na UFRJ, Carlos Fico.

Talvez a nossa sorte em 2022 seja que parte do oficialato resistiu aos devaneios golpistas, assim como resistiram à pressão dos perturbados que foram para a porta dos quartéis pedir golpe de Estado até descerem à Esplanada dos Ministérios para quebrar os três poderes no dia 8 de janeiro de 2023. Pode ser que a sociedade esteja mais consciente da importância da democracia e os militares tiveram que recuar. São muitas lacunas que precisam ser esclarecidas. Mas o fato é que esse mundo de derrubadas, bombas, insubordinação e indisciplina – além da admiração pelo regime instalado em 1964 - foi o que forjou Jair Bolsonaro. Em outras palavras, foi criado em um ninho de golpistas alucinados.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A disputa das ideias

Depois de todos os esforços do passado, entrámos num período de retrocesso. Vê bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lança uma nova ideia no mundo, ela é imediatamente apanhada por um mecanismo de divisão, constituído por simpatia e repulsa. Primeiro vêm os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes convêm a essa ideia, e despedaçam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os adversários destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais não é do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado é uma ambiguidade generalizada. Não há Sim a que se não junte um Não. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que são contra. Quase somos levados a acreditar que é como no amor e no ódio, ou na fome, em que os gostos têm de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.
Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

A arte de escapar dos cortes

Neste momento, o tema corte de gastos públicos subiu na agenda tanto aqui como nos EUA. Eleito, Donald Trump designou Elon Musk para comandar o processo no qual pretende economizar US$ 2 trilhões. Será possível? A que custo, em termos políticos?

Parece que a tática de Musk é a de cortar o máximo, errar por excesso, nunca por timidez.

No caso brasileiro. O corte de gastos públicos parece um consenso, restando apenas a grande dúvida: cortar para cima ou para baixo? Supersalários, máquina dispendiosa, fantásticos subsídios às empresas. O panorama nas alturas é animador para quem maneja a tesoura.


Um dos episódios mais dramáticos desta história de cortes ocorreu na Grécia. Uma política fiscal descontrolada acabou levando o país a uma dívida impagável. Fundo Monetário Internacional (FMI) e União Europeia pressionaram e um plano de cortes atingiu salários e aposentadorias. Era triste ver os velhinhos assustados com a pobreza que se aproximava. Na verdade, a pobreza veio acompanhada de desemprego e exclusão social. E, em 2015, um partido de esquerda, o Syriza, foi eleito com uma política contra a austeridade que sufocava o país.

Apesar das boas intenções, a Grécia concedeu, de acordo em acordo, à pressão do mundo financeiro e teve de se ajustar à nova situação, ao custo de muito sofrimento.

O exemplo grego, vivido num momento muito difícil, mexeu com as normas de vigilância financeira da União Europeia, mas, sobretudo, colocou o debate sobre limites de uma política de austeridade.

A posição do Brasil não é semelhante à da Grécia. Mas as premissas sobre os limites de planos de austeridade estão de pé, sobretudo num país onde a pressão de cima para baixo é muito forte. É politicamente mais fácil derrubar algum tipo de benefício social do que suprimir os supersalários, por exemplo. Há três anos o deputado Rubens Bueno redigiu um relatório minucioso sobre os penduricalhos que elevam os rendimentos às alturas, muito acima do permitido por lei. Esse relatório, contudo, dorme na gaveta da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, presidida por Davi Alcolumbre – aliás, favorito para a própria presidência do Senado.

A elite da burocracia federal é poderosa, assim como as empresas que recebem subsídios do governo. O mundo financeiro pressiona cegamente: não importa tanto como fazer o corte, desde que seja feito.

Há muitos anos que participo desta discussão. Houve uma época em que foi preciso acentuar o potencial da revolução digital para reduzir custos. Houve ano em que o governo federal gastava R$ 800 milhões só com passagens e diárias. As conferências a distância já eram possíveis e enfatizávamos esse caminho, mas a pressão para manter o velho esquema de viagens era muito forte: as diárias ampliavam os salários.

Pensando bem, em todos os debates sobre uma economia em todos os Poderes da República, é possível afirmar que dinheiro não falta. O grande obstáculo é subjetivo. O Brasil não reduz os custos da máquina porque as forças que se beneficiam dela não deixam.

Num contexto como esse, reduzir benefícios sociais é uma proposta obscena, apesar de que a desorganização e o atraso tornem esses benefícios mais caros e ineficazes. Muitas vezes mencionei aqui a experiência da Índia, que criou o número pessoal e evitou que milhões fossem para o ralo – mais um exemplo de como a tecnologia pode ser uma aliada no programa de cortes de gastos.

Dificilmente esta questão do uso racional dos recursos vai se resolver apenas com um rápido corte de gastos. É preciso uma grande mexida que possa contar também com a participação social.

É um pouco melancólico gastar dinheiro mal num país que precisa ao máximo de seus recursos. Mais triste ainda é compreender que uma reviravolta racional sempre foi possível. O País, nesse particular, parece o personagem de Kafka parado anos diante da porta de um castelo sem compreender que ela sempre esteve aberta para ele.

De novo, estamos sendo confrontados com nossas limitações políticas. É quase impossível realizar uma campanha nacional, mobilizar a maioria da sociedade para que este processo de racionalização aconteça.

Não se trata apenas de liberar recurso para as necessidades fundamentais do País. Enquanto o dinheiro for gasto de forma errada e a máquina também, por incompetência, não responder aos anseios mais profundos, que chegaram a se manifestar nas revoltas de 2013, a própria democracia estará fragilizada.

A fórmula escolhida é um combustível para aventuras políticas e soluções autoritárias, ainda que sejam soluções ilusórias, destinadas apenas a eleger extremistas.

Interessante como é difundido o discurso de defesa da democracia, mas como ele se concentra apenas na necessária defesa das liberdades. Os riscos mais profundos não são captados, sobretudo a frustração popular diante de um Estado que coleta implacavelmente os impostos, mas não consegue devolvê-los em forma de serviços eficazes.

A dificuldade de ver essa realidade, até mesmo de tomar consciência dela, está na grande resistência a aceitar cortes na própria seara, tanto em ministérios como em empresas oficiais, estendendo-se até os salários acima da lei. É uma cegueira perigosa para a própria sobrevivência do aparato burocrático.