quarta-feira, 20 de março de 2024
Murar o medo
Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra-Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.
Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivos se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples fato de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:
“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”
E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
Mia Couto, Conferências do Estoril (2011)
Liberdade, desigualdade, agressividade
A defesa da liberdade individual irrestrita, sem limites mesmo com consequências danosas para terceiros, tem levado à desigualdade e à agressividade crescentes, afastando-nos do sonho original.
Como acolher pleitos de que a liberdade individual não pode ser restringida? Qualquer um pode ter o “direito” de dirigir do lado esquerdo da pista, mesmo estando no Brasil, ou do direito, quando na Inglaterra? E o “direito” de difundir falsidades ou ocultar verdades, apenas por que trazem benefício a quem as espalha ou oculta? E o “direito” de mascarar que o fumo e a queima de combustíveis fósseis fazem mal? A extensão da “liberdade” pessoal ao capital, por sua vez, é que possibilita a destruição da biosfera, em proveito de poucos: ainda hoje, nada menos que 77% dos humanos vivem com menos de R$3.000,00/mês (fonte: Our World in Data)!
Oligopólio e manipulação de mercados são consequências da liberdade sem peias ao capital. Por mais que algumas dessas estruturas sejam denunciadas, é forçoso reconhecer que esta é, hoje, a forma dominante de organização da economia, local e mundialmente. Alguns dos efeitos desse tipo de organização, além da destruição citada, são a obesidade crescente da população (e custos cada vez maiores em mortes e em despesas com saúde!), decorrente da “liberdade” de anunciar o consumo de refrigerantes como sendo a porta da felicidade, ou de opioides como solução dos males sociais de solidão e desagregação social, ou defender mais armas para se chegar à paz! Levando, ainda, à ampliação da desigualdade.
Processo que desemboca em maior agressividade, tanto para “subir na vida” (para tal, “danem-se os princípios morais”!), como para se defender daqueles que não “subiram na vida” e passaram a ser vistos como “inferiores” e “invasores”, a exemplo de quem busca sair do Sul Global migrando ao Norte Global. Tidos, por alguns possíveis dirigentes de grandes nações, como “animais”.
A agressividade se manifesta também no discurso político: Ocidente X Oriente; líder A x líder B; alguns ameaçando guerra nuclear; outros praticando genocídios.
E onde estão sendo aplicadas políticas, coerentes e eficazes para além do discurso, para ampliar as liberdades, desde que preservada a qualidade de vida de terceiros, para reduzir as desigualdades e para promover a fraternidade? Não é loucura esperar que esses valores e atitudes sejam reabilitados e floresçam, apesar da manutenção de políticas que os estão solapando e minando?
A mudança de rumo tem de ser radical! Talvez seja hora de inverter dogmas assentados em muitas constituições e proibir que maiores de 35 anos assumam cargos diretivos em municípios, estados e nações!
Gaza: o que virá depois de um cessar-fogo provisório?
As ordens militares de evacuação da população resultaram em deslocamento forçado do norte para o centro, logo alvo de bombardeios, para o sul e, dali, para Rafah —agora também sob ataque.
Todo esse quadro é agravado por impedimentos, por parte dos israelenses, para a distribuição de ajuda humanitária —apesar de uma das medidas provisórias impostas pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) ter obrigado Israel a facilitar o acesso do apoio internacional à região.
O volume de ajuda humanitária entrou em colapso em razão dos ataques de Israel a policiais —suspeitos de serem militantes do Hamas— que vigiam os comboios. Nas últimas semanas, 62 caminhões entraram em Gaza —bem abaixo dos 200 por dia que Israel se comprometera a liberar, ainda que se estime que para atender às necessidade básicas da população seriam necessários 500 veículos.
Há piquetes de civis israelenses, compostos inclusive por mulheres e adolescentes, muitos deles com machadinhas e cortadores de caixas, que atacam os comboios a pretexto "de impedir que a ajuda vá para o Hamas". O ministro da Segurança Nacional, Ben-Gvir, indicou que a polícia não iria reprimir protestos bloqueando o acesso dos caminhões.
Apesar das tentativas de dissuasão por parte dos aliados ocidentais, o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, promete que Israel atacará Rafah depois de evacuar 1 milhão e meio de refugiados. Mas qualquer ordem de evacuação nas presentes condições na região —sem abrigo, comida, água e atendimento médico— provocaria sofrimentos cruéis e seria uma flagrante violação do direito internacional humanitário e dos direitos humanos.
Os aliados ocidentais de Israel, diante desse quadro humanitário horrífico, reafirmam mais uma vez o direito de defesa do país de atacar o Hamas, ainda que essa defesa tenha se constituído na retaliação contra a população civil em Gaza. Imersos numa enorme contradição, esses países começaram a cobrar de Israel a proteção aos civis palestinos, a entrada da ajuda humanitária e, ainda, a proposta de um cessar-fogo de seis semanas. Dessa forma, iniciaram o lançamento de ajuda fundamental básica por aviões, como também anunciaram uma rota marítima com a construção de um píer flutuante, permitindo assegurar o fornecimento regular. Calcula-se, porém, que esse porto deverá levar dois meses para ser construído.
Depois de serem vetadas no Conselho de Segurança da ONU todas as resoluções impondo um cessar-fogo (inclusive as do Brasil), os aliados de Israel negociam com os países árabes, que têm acesso ao Hamas, um cessar-fogo de seis semanas —sem muito sucesso até este começo do Ramadã.
A pergunta obrigatória é: o que vai acontecer caso se realize esse cessar-fogo provisório de seis semanas? Israel vai bombardear Raffah? Continuará a desrespeitar as medidas provisórias ditadas pela CIJ, não protegendo os palestinos de Gaza de atos de genocídio, como o deslocamento forçado da população, a privação do acesso à comida e água e a obstrução de ajuda humanitária, incluindo combustíveis, abrigo, roupas e higiene? E quanto à destruição da vida dos palestinos em Gaza?
Não há nada mais macabro e cruel que uma pausa de atos de genocídio com prazo marcado de antemão para sua continuidade. Todos os Estados-membros da ONU que respeitam o direito internacional, incluindo o Brasil, devem tomar medidas para que esse cessar-fogo seja permanente. Nenhum crime pode ser interrompido com data marcada para sua continuidade.
domingo, 17 de março de 2024
A glória de ser medíocre
A atração fatal pela mediocridade se espalha em todos os níveis da sociedade. Alguns exemplos: quem acha que nosso Congresso é composto por mentes brilhantes? Quem acha que pessoas capazes ocupam nossos ministérios? Como Eike Batista chegou tão longe e acabou em Bangu? Seria apenas pela aliança com um governador que levou 16 milhões de dólares dele para o exterior? Por que tantos turistas compulsórios visitam Curitiba tendo a PF como cicerone? Onde foi que um presidente afirmou que nunca tinha lido um livro – e não lhe fez falta? Por que tantos?
Se você acha que a cultura da mediocridade para aí, está enganado. Escute com atenção as músicas que fizeram maior sucesso em 2016, curta a riqueza das letras e das melodias, encante-se com a mesmice e o ridículo. Veja um programa na televisão, desses que arrancam dinheiro do espectador a cada minuto, eleve-se ao nível da danação intelectual ou caia no fundo do poço da exploração humana. Sintonize a grade das tvs abertas e delicie-se com o vazio que elas nos impingem travestido de entretenimento. Leia também os best-sellers, mergulhe na profundidade de suas páginas, repare quanta sabedoria eles lhe trazem, quanta novidade divulgam, quanta sede de escrever diários de bananas eles propagam. Não se esqueça de ver os filmes nacionais de maior bilheteria: como são inteligentes, criativos, nem um pouco machistas e, cá entre nós, que humor. Que humor requintado! Gaste oito ou dez horas por dia, como nossos jovens, enfrentando os games e seus inspiradores combates, ache-se mais esperto, mais genial, com neurônios mais rápidos, longe da alienação e do vício.
Observe bem as propagandas nas mídias, admire os estereótipos tão maravilhosamente engendrados pelas mentes sedutoras das agências, tão sedutoras que a crise passa longe dos produtos que anunciam. Mergulhe de cabeça nos posts inovadores do Facebook ou nas mensagens do “zapzap” e sinta-se pronto para conquistar o Vale do Silício, depois do implante de um cilício mental.
A lista não tem fim. Estamos conseguindo, a passo acelerado, a mediocridade. Viva! Como é bom ser medíocre, a grande mania nacional! Deixemos que outros pensem por nós. O melhor é que a opção pela mediocridade é nossa, o gosto é nosso, as consequências cairão em nossas cabeças.
A natureza das alegrias
Antoine de Saint-Exupéry, "Cidadela"
Borracha no futuro
São anomalias. Começa a ficar claro que elas reabrem de algum modo a noção de política. Por menos práticos que sejam pronunciamentos políticos de filósofos, vale evocar as posições públicas de Jurgen Habermas nos anos 1980 contra o neoconservadorismo irracionalista na Alemanha, assim como a sua especulação de que "se tivesse de apostar qual o próximo país que se tornaria fascista, minha aposta poderia ser: os EUA". Sem bola de cristal, anteviu Trump.
Entre nós, é recorrente a análise de que vivemos numa sociedade de classes com uma esquerda atrasada. Dessa redundância acaciana nada se conclui sobre a subjetividade política dos brasileiros nem sobre a dissonância entre seus comportamentos sociais e a infraestrutura socioeconômica. As massas acordaram para a experiência política, mas sob formas perversas, captadas pela extrema direita, a saber, setor financeiro, agronegócio e coorte de reacionários religiosos.
Acontece que a política parece ter-se deslocado da base normativa das formas democráticas para preocupações populares como anticorrupção e comunitarismo religioso. Da linguagem desses fatores está ausente não só a esquerda, mas também a formação política (sindicalista, social-democrata) de Lula. O que sai da boca do povo não aparece no radar de Brasília.
O fenômeno pertence ao neopopulismo global, com núcleos organizadores regionais, que delegam tarefas. No ato de 25 de fevereiro, na Paulista, mesmo com maioria branca, terceira idade e renda média, os 200 mil aderentes constituíam o estrato inferior de uma divisão de classes nas incumbências visíveis, com as quais o núcleo já não se compromete diretamente. Algo como a camada externa de uma cebola, que oculta outras. Com o mesmo odor.
O decréscimo da popularidade de Lula é da mesma natureza do sinal enviado pela presença de uma multidão daquele tamanho ao redor de uma personagem trêfega e desconexa. Mas no fenômeno das anomalias em pauta, desconexão é coerência: o abilolado que mete a mão no esgoto extremista é o mesmo que depositará o voto na urna da ultradireita, outubro à vista. Um índice resiliente da ideia antipolítica de nação sem democracia nem justiça social: olho no retrovisor e borracha passada no futuro.
Não foi por mal
Ser estúpido é um azar. Prejudica. Dá mais trabalho. Atrapalha. Causa atrasos e malentendidos. A única vantagem de ser estúpido é ser-se capaz de enfurecer os espertalhões com muito pouco esforço.
Como é proibido chamar estúpidas às pessoas – mesmo àquelas que não são –, a estupidez é um flagelo invisível. Apesar de ser a causa principal – alguns diriam a única – de tudo o que corre mal, a estupidez atira sempre com as culpas para outra causa qualquer.
Teoricamente, é possível retraduzir o discurso público para obter as equivalências da estupidez que são culturalmente autorizadas.
São palavras como incompetência, falta de profissionalismo, estreiteza de vistas, inocência, simplicidade, e uma imperturbável alegria de viver.
Mas é muito bom sinal aceitar a estupidez e fazer o respectivo desconto. Quando alguém nos diz, desculpando as acções de um estúpido, que “não foi por mal”, a única maneira justa e saudável de reagir é aceitar esse apelo à intenção.
O inferno não está cheio de boas intenções. Pelo contrário, não há uma única boa intenção no inferno. O inferno está é cheio de bons resultados.
Se isto fosse uma tese, chamar-se-ia “Intenção, Resultado e Merecimento na Cultura Portuguesa”. Felizmente, isto deixa-se complicar até mais não, mas não aqui.
Ao longo da vida – mais depressa para quem dá aulas –, vemos que os grandes esforços andam divorciados dos grandes resultados, que a qualidade humana é completamente independente do talento e da inteligência, e que as intenções estão entre as poucas coisas que se podem julgar com generosidade.
Cada vez é mais fácil preferir um mau resultado, obtido com boas intenções, a um bom resultado, obtido com más.
A estupidez também precisa de ser reenquadrada: não acredito que os estúpidos sejam todos bonzinhos.
sexta-feira, 15 de março de 2024
Democracia morre no tédio trumpista
Ele fez um expurgo no Comitê Nacional Republicano, demitindo 60 funcionários — o movimento inicial de sua nora Lara Trump, que ele escolheu a dedo como presidente-adjunta do comitê. Ele voltou atrás em relação ao TikTok, dizendo agora que sua controladora chinesa deveria manter a posse. Ele imitou a gagueira de Joe Biden, insistiu que a verdadeira taxa de inflação nos EUA foi de 50% e atacou Jimmy Kimmel, classificando-o de o pior apresentador do Oscar de todos os tempos. Parece quase trivial acrescentar que surgiram novos detalhes sobre a aparente queda de Trump por Adolf Hitler.
Tudo isso aconteceu desde sexta-feira. Agora, multiplique isso por 47, que é o número de intervalos de cinco dias entre agora e as eleições gerais. Até mesmo o mais diligente observador de Trump ficaria catatônico após alguns desses acréscimos. Portanto, não é nenhuma surpresa que a maioria desses episódios recentes não tenha chegado às manchetes dos jornais. Em outros tempos, com um candidato normal, qualquer um deles dominaria o noticiário. A candidatura de Trump é tão fora do comum que é quase paranormal. Esta é a essência do apelo político dele. Significa que ele é julgado por um padrão diferente do de Biden, ou qualquer outro político, seja democrata ou republicano.
Katie Britt, senadora republicana, monopolizou as ondas de rádio por dois dias na semana passada, após dar a resposta republicana ao discurso de Biden sobre o Estado da União. Além do estilo de entrega sobrenatural de Britt, o erro dela foi enganar os ouvintes com um caso de uma mulher que foi vítima de tráfico sexual no México. Toda vez que Trump faz um discurso, ele dispara um mínimo de mentiras descaradas. Suas inverdades merecem um encolher de ombros: as dos outros são classificadas como escândalos.
Esse padrão duplo é, em grande parte, subconsciente. Em 2018, o então principal estrategista de Trump, Steve Bannon, descreveu suas táticas midiáticas como “inundar a zona com merda”. Quanto mais bizarrices Trump gera, menos as pessoas notam. Economistas chamariam isso de hiperinflação, exceto que o item que está sendo desvalorizado é a nossa capacidade de ficar horrorizado.
Um bom exemplo é a diferença como a sintaxe de Biden é medida em relação à de Trump. Biden confunde datas e nomes e nunca foi articulado. Ainda assim, o ponto que ele tenta enfatizar é geralmente claro. Suas confusões merecem tratamento de primeira página.
Trump recorre regularmente a jargões que poderiam desencadear uma grande reação se viessem de Biden. Este foi o raciocínio de Trump, feito esta semana, sobre a inflação real: “E vamos olhar fora do mercado de ações. Estamos passando por um inferno”, disse ele no programa “Squawk Box” da CNBC. “As pessoas estão passando por um inferno. Elas têm — acredito que o número seja 50%. Eles dizem 32% e 33%. Acredito que temos uma inflação acumulada de mais de 50%. Isso significa que as pessoas estão, você sabe, elas precisam ganhar mais de 50% a mais em um período de tempo relativamente curto para se manter... E elas têm sido muito, muito maltratadas pela política.” Boa sorte ao tentar entender a política de inflação de Trump.
Depois da eleição de Trump em 2016, o “Washington Post” adotou o lema “A democracia morre na escuridão”. Mas ele estava incompleto. Independentemente da abordagem que os meios de comunicação dos EUA adotem em relação a Trump, a controvérsia está assegurada. Ignorar o que ele diz é negligência. Transmitir seus discursos ao vivo é um subsídio em espécie. O mesmo se aplica às reportagens tradicionais do tipo “ele disse, ela disse”. Verificar fatos é para perdedores. A beleza do dilema da comunicação do ponto de vista de Trump é que tudo o que ele faz provoca controvérsia. Bannon descreveu a grande mídia como “partido de oposição”. O adversário ideal é sempre aquele que está em guerra consigo mesmo. Em agradecimento, Trump rotineiramente chama os jornalistas de “criminosos”.
A combinação estranha das eleições de 2024 será igualmente monótona e assustadora. Se Trump for fiel à sua palavra, daqui a dez meses ele estará prendendo milhões de imigrantes para deportação. A guerra da Ucrânia contra a Rússia de Vladimir Putin terá terminado. O mesmo destino recairá sobre os julgamentos criminais federais de Trump. Seu Departamento de Justiça estará investigando seus adversários. E ele terá invocado a Lei de Insurreição para acabar com protestos civis usando tropas dos EUA.
Ser quem somos
Como não? — respondeu ele.
A condição humana sempre foi feita de contendas, caos e dor. Vivemos inexoravelmente à beira do precipício, mas a cultura também emerge, sempre. Se adiássemos a busca do conhecimento e a procura do belo até haver alguma paz, nem sequer as pinturas rupestres existiriam.
— O ser humano propõe teoremas matemáticos em cidades sitiadas, conduz argumentos metafísicos em calabouços, faz piadas em cadafalsos e penteia o cabelo em trincheiras. Isso não é panache; é nossa natureza — argumentou.
A matemática lhe dá razão. Historiadores já calcularam que, ao longo de toda a trajetória humana, tivemos até hoje míseros 29 anos sem que alguma guerra estivesse em curso em algum ou em vários pontos do planeta. Atualmente, o portal Rule of Law in Armed Conflicts Online (Rulac), da Universidade de Genebra, monitora mais de 110 conflitos armados a espalhar desgraças. Ucrânia e Gaza são apenas os mais visíveis.
É neste mundaréu atritado que se comemorou, na semana passada, mais um Dia Internacional da Mulher. Haja fôlego para ainda precisarmos tanto desse reconhecimento com efeméride, apesar das distâncias já caminhadas. Boa oportunidade para querer ir além, alcançar o mais difícil para qualquer bípede: encontrar a si mesmo. O poeta e.e. cummings (em minúsculas, como ele gostava) sabia das coisas quando escreveu que “para sermos aquilo que somos — num mundo que se dedica, dia e noite, a fazer com que sejamos como os outros —, é preciso embrenhar-se na luta mais árdua de nossas vidas”. Tinha razão o poeta, visto que, para alcançar algum grau de autoconfiança, cabe a cada um construir sua ponte individual sobre o rio da vida. Como já se escreveu aqui, quase todo ser humano é capaz de aprender a pensar, a fazer, a saber; mas nenhum ser humano consegue ser ensinado a sentir. O motivo? Porque, em qualquer atividade outra que não a sensorial, somos sempre a soma de outras pessoas, enquanto no sentir somos únicos — somos só nós mesmos, verdadeiros. E é apenas a partir desse “eu” raiz, secreto e íntimo, que adquirimos coragens, selecionamos lutas, armazenamos confiança, arriscamos mudanças.
De volta à necessidade do belo enquanto bombas explodem à nossa volta, o mesmo e.e. cummings soube como poucos, por meio da arte, ser ninguém outro que ele mesmo. Deu um conselho sobre a busca pela palavra certa para jovens candidatos a poetas: se, ao final de dez ou 15 anos de tentativas, eles percebessem ter conseguido compor uma única linha de um só poema, poderiam considerar-se sortudos.
— Daí meu conselho para quem deseja dedicar-se à poesia: a menos que você esteja disposto a lutar até morrer em nome de cada palavra, é melhor fazer algo mais simples como aprender a explodir o mundo. Isso soa sombrio? Não é. Essa é a vida mais esplendorosa do mundo — concluiu.
Estava com 53 anos e morreu em nome de cada palavra arrancada de si.
Coisa para poucos.
A nós, como sociedade, que na definição do francês Frédéric Gros “não sabemos mais viver, apenas ocupamos o mundo e consumimos”, sempre resta a oportunidade de dar um restart. Coisa difícil e tortuosa, pois nenhuma travessia expõe tanto nossa vulnerabilidade e nossa força como começar algo novo. Mergulhar no extraordinário e assustador desconhecido do possível embute riscos e exige confiança. Receitas não faltam, tanto por parte de pensadores universais como em livros de autoajuda: expandir ao máximo os campos de interesse; cultivar a dúvida que permite erros e correções; desconfiar de certezas absolutas; repelir o discurso mecânico, qualquer que seja a nobre causa; saber que o desprezo pelo que não é compreendido nunca é um sentimento democrático.
Mulher combina com democracia. Não dá rima, mas dá alegria. É uma delícia poder gostar de ser mulher.
Lula explica por que sua popularidade está definhando
Contra alguns que esperavam que o presidente pudesse culpar a mídia pelos resultados negativos de seu mais de um ano de mandato, como alguns membros de seu partido, o PT, tendem a fazer, Lula reagiu com inteligência emocional. Ele não culpou ninguém. Ele ainda disse que via essa queda de popularidade como normal: “Tenho certeza de que o povo do Brasil não tem motivos para me dar cem por cento de popularidade, pois ainda estamos muito longe do que prometemos. Eu sei o que prometi e os compromissos que assumi.”
Com uma imagem gráfica explicou: “Até agora só preparamos a terra, aramos, colocamos adubo e enterramos as sementes”. E continuando com o otimismo, acrescentou: “Este é o ano em que começaremos a colher o que semeamos”. Na mesma entrevista, Lula abordou a outra questão espinhosa da polarização política, que segundo ele o seu Governo não facilita. Ele também se mostrou otimista: “Não me preocupo com a polarização do país. Também foi assim no passado. Agora o Brasil está polarizado entre duas pessoas, porque na verdade se trata de duas pessoas e não de dois partidos.” Referia-se a ele e a Bolsonaro, embora enfatizasse que na verdade a extrema-direita não tem e nunca teve partido próprio. Ele tentou criá-lo no primeiro ano de seu governo e falhou.
Em sua entrevista, Lula foi contundente: “A mensagem que quero deixar ao povo brasileiro, independente de quem vote, em que partido ou em que religião aposte, vamos fazer deste país um país onde as pessoas vivam felizes. Vamos criar mais trabalho, melhores salários, mais educação, mais cultura e mais prazer.”
Lula deu uma muleta e lembrou ainda que a polarização que o Brasil vive e que de alguma forma dificulta o seu Governo não foge à regra: “Acho que o mundo inteiro está hoje polarizado em todos os continentes”. Uma forma elegante de indicar que a sua dificuldade em começar com as promessas feitas depende também da crescente polarização da política mundial entre esquerda e direita, como as eleições em Portugal acabam de demonstrar.
Em seu otimismo nunca disfarçado, Lula chegou a dizer que a polarização atual no Brasil pode até ser positiva. E ele acredita que os brasileiros logo perceberão que seu governo será capaz de cumprir suas promessas, especialmente em termos de melhorias econômicas para os mais necessitados.
Na verdade, Lula baseia seu otimismo no fato de que em breve a sociedade compreenderá que seu governo está disposto a demonstrar o que a ex-presidente Dilma Rousseff cunhou como: “Gastar é vida”. Lula quer que a riqueza do país, que é muita, chegue o mais rápido possível não só aos mais mortificados pela inflação, mas também à classe média baixa que pressiona para não ser esquecida.
Os analistas mais críticos, como Merval Pereira, colunista do jornal O Globo , atual presidente da Academia de Letras, ressaltam, porém, que o slogan de Lula de gastar a qualquer custo pode ter um efeito bumerangue. O acadêmico escreve: “É saudável a preocupação de Lula com os pobres que fogem por entre seus dedos na direção da direita religiosa (os evangélicos), mas ele não consegue entender que o mercado, em vez de ser uma fera faminta, é um marcador de democracia como transmissor de informação e expressão da opinião pública.”
Lula, porém, em seus esforços para minimizar as pesquisas que indicam queda na valorização de seu Governo, chegou a dizer: “As pessoas não devem esquecer uma única palavra dita na minha campanha eleitoral”. Mas como ninguém é de ferro, numa das suas promessas, a de não tentar um novo mandato presidencial em 2026, Lula deixou agora claro que, se a sua saúde e a idade o permitirem, tentará novamente a sorte.
O que ninguém pode acusar o velho sindicalista, sem instrução, é de falta de perspicácia política, já que nos seus mandatos anteriores acabou sempre por “comer a oposição”, como escreveu na altura este jornal. Será que desta vez ele conseguirá digeri-la também para poder governar em paz?
quinta-feira, 14 de março de 2024
O ‘você sabe com quem está falando’ à bala
Volto ao assunto quando, horrorizado, tomo conhecimento do absurdo cruel ocorrido em Vila Valqueire, no Rio de Janeiro, onde um motoboy entregador de refeição levou um tiro por não ter se comportado convenientemente com a esposa de um cliente militar. Foi, sem dúvida, um “você sabe com quem está falando” à bala.
Insisto em que precisamos ter consciência desses hábitos autoritários embutidos em fórmulas habituais que, no discurso político populista, alimentam a proposta de prometer para não cumprir. É preciso realizar uma engenharia política capaz de neutralizar esses costumes aristocráticos, responsáveis por graduações e hierarquias em todos os lugares.
Não há quem não queira ser celebridade ou autoridade no Brasil. Ser “conhecido” é não se preocupar mais em anunciar, em viva voz ou à bala, quem somos. O preço alto e, às vezes violento, de não saber com quem se fala é um sintoma de resistência à mobilidade e ao anonimato. Anonimato que cimenta a igualdade, pois trata todos do mesmo modo.
Se há a suposição de que tenho de saber com quem estou falando, então a sociedade onde vivo diz que todos devem se conhecer. Ora, o conhecer mútuo implica saber o lugar de cada um no sistema. O resultado dessa ética de gradação é obvia. Se não “trato bem” e não presto atenção aos outros, posso sofrer uma reprimenda que chega na forma de uma advertência sobre minha inferioridade. Sobretudo se desempenho papéis como vendedor, motoboy, carteiro, motorista, porteiro, garçom — a lista é enorme e móvel —, que demandam o anonimato e a impessoalidade, essas dimensões que exigem a igualdade na relação com todos os clientes.
O “você sabe com quem está falando?” é fruto de uma sociedade em que as relações são mais importantes que as leis. Ela é avessa à mobilidade e à igualdade. Nela, inferiores e superiores se conhecem (esse traço é o eixo das “elites”) e têm códigos habituais de tratamento, porque a exceção é uma intrusiva igualdade, e não a boa e velha hierarquia. Vivemos entre a impessoalidade da lei e as demandas irrecusáveis e particularistas dos amigos e conhecidos.
Nossa questão permanente e exaustiva é como, no universo público, enfrentar os “mal-educados”, os malandros e os que querem levar vantagem em tudo. Os possuídos por um salve-se quem puder, quando se encontram na nudez de um maldito anonimato. Eu corria para entrar na barca e imbecilmente ficar ao lado de quem fazia o mesmo. No bonde ou no ônibus, fazia a mesma coisa. Até que pude “andar de carro” e fui obrigado a “furar” o sinal para escapar dos “barbeiros”. Passei da indignada fila do ônibus para o frustrante engarrafamento do trânsito. Uma frustração que tem sua raiz no conflito de uma sociedade dividida entre o ideal hierárquico do “eu sou especial” e um sistema baseado na impessoalidade de uma igualdade lida como erro, confusão ou insulto. É complicado, e fica cada vez mais impraticável, lidar com o mundo público da “rua” como “casa” — um espaço onde todos sabem com quem estão falando.
A passagem da família e da amizade para a cidadania requer a consciência da universalidade das leis que valem para todos. Mas, para isso, será preciso ceder ao particularismo relativista, mãe do apadrinhamento que distingue os interesses pessoais das demandas impessoais e universais da sociedade. Não cabe continuar com o refrão maquiavélico do “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”, o anonimato, a impessoalidade e, é claro, pois ninguém é de ferro, o “você sabe com quem está falando?”.
Alguém lembra?
Contradições de uma humanidade sem rabo
É isso mesmo. Uma matéria recente da BBC revela que o ser humano só virou gente depois que perdeu a cauda! O homo sapiens é um macaco sem rabo. E quem comprova tal hipótese é a New York University. Nossa evolução acelerou quando nossa cauda sumiu.
Não quer dizer que, para diversos animais, o rabo não seja um instrumento importante de defesa no caso do jacaré, ou de equilíbrio para os gatos, ou mesmo de locomoção para alguns de nossos primos macacos.
Dá pra imaginar que a teoria da NYU faz todo sentido, quando comparamos nosso elevado desenvolvimento, por exemplo, com o das cobras (que são praticamente só cabeça e rabo), considerando que elas continuam rastejando após 170 milhões de anos.
Segundo a BBC, a grande dúvida agora é quem veio primeiro, a queda do rabo ou a evolução. Alguns discordantes acham que é possível só termos perdido o rabo depois que evoluímos.
A coisa fica mais confusa ainda quando se acrescenta ao debate a Teoria da Evolução de Darwin, segundo a qual os humanos seriam parentes próximos dos macacos. Ou seja, será que outros macacos como os chimpanzés, que hoje não têm mais rabo, já atingiram o auge de sua evolução acima dos demais primatas? Ou devemos temer alguma concorrência futura no estilo Planeta dos Macacos?
A tese da evolução decorrente da perda do rabo (há uns 25 milhões de anos) está relacionada, entre outras coisas, com a possibilidade de caminharmos com duas pernas, liberando as mãos para outros afazeres mais criativos e produtivos.
Sendo assim, não seria exagero imaginar que, se ainda ostentássemos frondosas caudas, não teríamos sido capazes de inventar maravilhas como o telescópio espacial James Webb e o acarajé. Visto de outro ângulo, não é absurdo supor que não haveria bomba atômica se Oppenheimer ou Einstein tivessem rabo.
Qualquer que seja a conclusão dessas pesquisas, já servem pelo menos para fazermos uma reflexão crucial. Ao perder o rabo, o ser humano teria perdido também seu senso de autopreservação? Estaria na cauda a nossa consciência de pertencimento à natureza?
Vale a pena observar que, sem o rabo, fomos capazes de inventar e produzir milhões de automóveis movidos a petróleo e agora substituí-los por outros tantos milhões movidos a baterias de lítio, sem sequer questionarmos para que (e a quem) servem tantos automóveis.
A falta do rabo também nos garantiu inteligência para criar o Estado e a democracia, sem que os utilizemos para eliminar a desigualdade social e a violência. Da mesma forma, sob a justificativa contraditória de protegermos a humanidade (de si própria) trocamos nossa cauda por um volume trilionário de armamentos e munições.
Outra recente curiosidade sobre a humanidade sem rabo é que nas eleições de Portugal, ocorridas esta semana, grande parte dos eleitores brasileiros com cidadania portuguesa votou na mesma extrema direita xenófoba que os agride esbravejando “porcos, saiam daqui e voltem para o Brasil”.
Tantas contradições levam a crer que ainda pode ter sobrado algum pedacinho de rabo em algumas pessoas.Felipe Sampaio
O exercício da liberdade
Vencedor do Prêmio Jabuti em 2021, traduzido em 16 países e proibido a estudantes do Paraná, Mato Grosso e Goiás, o livro pode ser entendido como uma obra sobre o afeto entre filho e pai, a complexidade das relações raciais no Brasil, a violência cotidiana de gestos, palavras, supostas piadas, abordagens policiais a que os negros brasileiros são submetidos. Fala da dificuldade de ensinar literatura a jovens, e da corrida do professor entre colégios para ter uma renda. É um livro sobre o Brasil com suas feridas. É tudo, menos um livro de pornografia.
Quem quer censurar usa uma cena ou um palavrão para atirar contra o livro. Pretexto. Parte de quem não vê o que é realmente escandaloso no país. É a educação ter caído no IDH em 2022. É sermos ainda um país que fere diariamente os negros com uma divisão inaceitável. Muita gente tem reagido em defesa do livro, mas ficam as dúvidas. Quando termina um movimento que começa com a retirada de livros das escolas? Que mal íntimo a censura faz ao autor? Perguntei a Jeferson Tenório se esses fatos podem acabar provocando a autocensura.
— Acho que isso é uma das estratégias do ultraconservadorismo, em que se inverte a lógica. Então você coloca a culpa na vítima. Como se fosse um crime colocar um palavrão ou uma cena de sexo num livro. E aí o autor, o artista, passa a se questionar: será que eu estou de fato exagerando? É um exercício que a gente deve fazer enquanto criadores. O exercício de liberdade. Um exercício interno de entender que o que eu estou produzindo depende justamente desse consentimento de liberdade que o fazer estético nos dá. Ou seja, eu só posso criar uma obra literária a partir dessa premissa da liberdade. Mas não é fácil mesmo porque a gente tem que estar sempre lutando consigo mesmo: será que eu coloco isso aqui? Será que não? — respondeu Jeferson, na entrevista que fiz com ele na GloboNews.
A censura é insidiosa. Ela arma essa cilada. Tenta ganhar até quando perde, entrando dentro do autor. Jeferson está escrevendo um novo livro que se passa no ambiente acadêmico em mudança, após a chegada de pessoas negras.
— Houve uma revolução silenciosa, o rosto da universidade se modificou e com isso mudou também o conhecimento que é validado ali dentro.
Hoje há muito mais negros publicando obras que fazem sucesso e têm destaque, mas há aí uma sutileza importante a ser entendida, no que ele define como uma “primavera negra”.
— Isso deve ser comemorado. A gente pode falar de Conceição Evaristo, Itamar Vieira Junior, Eliana Alves Cruz, Ana Maria Gonçalves. Por outro lado, me preocupa um pouco esse discurso de tentar “guetizar” os escritores negros, e dizer que eles não fazem uma literatura canônica. Como se a gente estivesse fazendo outra coisa que não literatura. Porém, é importante que a gente marque um território político ao dizer e reforçar, em determinados momentos, que são autores negros e, em outros, se colocar como autor.
“O avesso da pele” é sobre literatura, relações familiares, racismo estrutural. O autor explica:
—O professor Henrique é um professor negro de literatura, essas relações familiares acabam sendo atravessadas pela questão do racismo estrutural e pela violência policial. É um livro que congrega todos esses temas em torno da história entre pai e filho.
“O avesso da pele” é lindo, forte e narrado de forma a criar a imediata intimidade do leitor com a história. “Até o fim você acreditou que os livros podiam fazer algo pelas pessoas”, diz Pedro ao seu pai, Henrique. É esse o livro que tentam censurar no Brasil. Começam assim as fogueiras.
quarta-feira, 13 de março de 2024
Qual Brasil queremos ser?
Claro, jamais poderemos ser qualquer desses, todos eles resultados das respectivas histórias. Assim como nós. Queremos ser, todos concordam, um Brasil “melhor”. Mas a incerteza persiste, tantas são as respostas possíveis para qualificar esse país “melhor”. Queremos o paraíso na Terra? Sim, queremos, mas modéstia e realismo são necessários para “melhorar”, progressivamente. Assim, devemos definir “melhor” com os pés na terra, cientes que as grandes caminhadas começam com o primeiro passo. Devemos escolher melhorias passíveis de serem alcançadas em poucos anos e usar a criatividade e a diversidade da população brasileira para experimentar caminhos e encontrar aqueles mais curtos para alcançar as melhorias desejadas.
Acabar a dengue em quatro anos? Desejável, mas talvez impossível. Reduzir a incidência da doença em 50%? Especialistas, embora divergindo, dirão com mais precisão da viabilidade de tal meta, e as ações necessárias para torná-la realidade. Se nos pusermos de acordo que tal fim é desejável, seja ele uma queda de 40% ou 60%, poderemos construir caminhos diversificados para chegarmos lá, uns aprendendo com os outros. E, ainda que nada mais mude, teremos um Brasil melhor (ainda que apenas um pouquinho) em quatro anos!
Claro, não basta um único objetivo, ainda que meritório como o citado acima. E na educação, na limpeza urbana, na pontualidade do transporte coletivo, na habitação, no saneamento, quais os objetivos factíveis no curto prazo de um mandato?
Se elegermos uma bancada legislativa e um, ou uma, presidente, comprometidos com o alcance de um pequeno número de metas claras e objetivas, que de fato melhorem a qualidade de vida dos mais carentes, como exemplificado acima com a dengue, saberemos encontrar os meios para alcançá-las, assim como os norte-americanos encontraram maneiras para levar e trazer uma pessoa à Lua em menos de uma década! E nós mesmos conseguimos construir uma belíssima capital e transformar o Brasil no mandato de JK. Clareza quanto aonde chegar, mas com realismo e sem a pressa inflacionária de então!
Pena que desde então nossas lideranças ficaram míopes correndo atrás da miragem chamada “desenvolvimento”, sem que saibamos qual Brasil queremos ser. Nesse nevoeiro, a confusão prevalece, assim como a dita “bateção de cabeça” entre poderes e no interior de cada um deles. E não saímos do atoleiro em que nos colocaram!
Afinal, não há bom vento para quem não sabe aonde vai!


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