sábado, 3 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia


 

Por que dão a Bolsonaro uma importância que ele já não tem?

Quando cairá a ficha dos que ainda enxergam em Bolsonaro uma importância que ele só faz perder desde sua derrota para Lula nas eleições de 2022, e os passos em falso que deu depois disso?

Antes também quando em pelo menos duas ocasiões planejou dar um golpe e não conseguiu, tentou comprar a reeleição gastando além do que tinha e não conseguiu, e por fim fugiu do país.

De longe, assistiu a uma tentativa amadora dos seus devotos de apear Lula do poder mal ele assumiu a presidência, e de perto, amargou a decisão da justiça que o tornou inelegível por oito anos.


Se não bastasse, está no centro do recém-descoberto escândalo de espionagem praticada pela Agência Brasileira de Inteligência (ou de Intimidação) à época em que (des)governava o país.

Ou a Abin, órgão de assessoramento do presidente da República, sob comando do seu cão de guarda, o delegado Alexandre Ramagem, seria capaz de espionar milhares de pessoas sem que Bolsonaro soubesse?



Bolsonaro confessou o crime antes de o crime começar a ser executado. Era preciso dispor de um sistema para evitar que ele, sua família e seus amigos se “fodessem”, foi o que disse e está gravado.

O sistema foi posto em ação, e sabe-se agora que bisbilhotou a vida de adversários do governo, de supostos adversários, e até de aliados que causaram ou poderiam causar incômodos a Bolsonaro.

O “Metrópoles” já revelou alguns nomes. O jornal da BAND, ontem à noite, revelou outros – entre eles, três ex-ministros de Bolsonaro, a saber:

* Abraham Weintraub, da Educação;

* Anderson Torres, da Justiça;

* e Flávia Arruda, da Secretaria de Governo.

O antecessor de Flávia também foi espionado, assim como o general e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência, Carlos Alberto dos Santos Cruz, amigo há décadas de Bolsonaro.

Santos Cruz foi um dos primeiros-ministros de Bolsonaro a ser demitido por ele. O primeiro foi Gustavo Bebianno, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.

A Bebianno, Carlos Bolsonaro, chefe do gabinete do ódio no Palácio do Planalto, contou que pretendia criar uma Abin paralela. Por exigência de Carlos, Bebianno e Santos Cruz acabaram desempregados.

Deputados federais que passaram a divergir do governo não escaparam à vigilância da Abin: Kim Kataguiri, Alexandre Frota e Joice Cristina Hasselmann; essa, sequer se reelegeu.

Entre os senadores, há nomes de todos os partidos: Otto Alencar, Rogério Carvalho, Omar Aziz, Humberto Costa, Alessandro Vieira, Renan Calheiros, Simone Tebet e Soraya Thronicke.

Ramagem piscou primeiro. Depois de negar que a Abin tenha espionado quem quer que seja, admitiu em entrevista ao “Metrópoles” que ocorreram por lá “atividades ilícitas”.

Para desviar a atenção de si e de Bolsonaro, Ramagem levantou suspeitas sobre a atuação de Paulo Maurício Fortunato, diretor de Operações da Abin ao longo de sua gestão:

“Foi na casa [de Fortunato] que foram encontrados 170 mil dólares, quase R$ 1 milhão. Fui eu que fiz toda a apuração que gerou a exoneração dele. Por que eu agora estou sendo investigado? É perseguição.”

A Polícia Federal já tem fortes indícios de que Bolsonaro seria um dos destinatários das informações do esquema de espionagem da Abin. Os relatórios da agência eram impressos e entregues a ele.

Dê-se, Bolsonaro, por satisfeito se emplacar o vice de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo e candidato à reeleição. Mas até isso está difícil. A proximidade com Bolsonaro aumentaria a rejeição de Nunes.

Esse eu conheço!

Salta aos olhos a trivialidade da expressão acima. No entanto, quanto mais a usamos, menos penetramos em seu significado. Veja como ela pouco diz traduzida para o inglês, justamente porque, como diria Gilberto Freyre, ela — como o carnaval — é um “brasileirismo”.

É um “conhecer cultural” inscrito no nosso inconsciente. Na escondida hierarquia das nossas relações sociais, e no modo como as vivenciamos.

Todos conhecem X, mas nem todos podem dizer com orgulho, revelação ou desprezo: “Esse eu conheço!” — o que equivale a revelar um elo pessoal. Um laço instaurador de um conhecimento íntimo, cotidiano e familiar. Tudo o que socialmente faz diferença, porque afasta o demônio do informal e do impessoal que não sabe quem somos.

Realmente, nossa aversão à impessoalidade chega às raias da repulsa. De tal modo que a regra universal é tida como desgraça ou castigo, jamais como regulador informal de um hábito ou costume.


Como o tal sinal vermelho que fechou justamente “contra” mim! Ouvi esse absurdo numa pesquisa sobre o trânsito, uma esfera social que — como a economia ou o Direito — opera por meio de normas gerais que valem para todos, inclusive para quem tem carro importado ou “se acha” melhor, mais rico, mais importante e, por nobreza autoatribuída, é dispensado de seguir os hábitos “deprimentes” como entrar numa fila (veja-se o livro “Fila e democracia”, Editora Rocco, escrito com Alberto Junqueira).

O vandalismo pode ser visto como um clone perverso dos privilégios abusivos das elites que — para começo de conversa — imaginam não cometer crimes e, se criticadas, sentem-se vítimas de mentiras, tramoias, má-fé e, como bem definiu nosso primeiro mandatário, “mancomunações”.

Aliás, um lado meu quase diz “macumbas”, reveladoras dessa naturalidade de seguir certos costumes, mas achar absurdo cumprir leis que são formalidades reguladoras de costumes, como as normas do trânsito ou as regras de comensalidade ou de controle financeiro. Como não arrotar, roubar o Erário ou, exceto no carnaval, mijar na rua.

Leis e costumes devem ser coerentes, mas temos leis que inutilmente proíbem o avunculato — numa demonstração notória do “esse eu conheço” — e, assim sendo, trago-o de volta, apesar de sua desonestidade ou incompetência.

Eis um conhecer que desmonta qualquer sistema fundado na norma do prêmio ao mais competente e de justiça ao criminoso. Pois a competência — essa inimiga da incapacidade de sanar a pátria desenhada para ser roubada — exclui os que Nélson Rodrigues chamava de “bestas quadradas”, e eu tenho testemunhado como “burros doutores”...

Mas o pior é que todos são “conhecidos” daquele “eu” que é o dono dos donos do poder. Do mandão geral que não erra e de quem todos puxam o saco, naquele cordão que jamais termina, como diz a marchinha de 1945, criada por Roberto Martins e Eratóstenes Frazão. Marchinha definitiva como teoria da esfera política brasileira. Um “marchar” revelador de como o “cordão” ou partido dos puxa-sacos (apadrinhados, compadres, companheiros etc.) dão vivas a seus maiorais e, no outro verso, crava a vergonhosa verdade que estão nos impingindo: a interminável repetição como apagamento da História: Quem está na frente é passado pra trás, e o cordão [seria melhor dizer partidos] dos puxa-sacos [dos esses eu conheço!] cada vez aumenta mais.

Como eu disse — puxa vida — há 45 anos, em “Carnavais, malandros e heróis”, Editora Rocco, o carnaval ritualiza nossas verdades verdadeiras. Pois em sua forma, ritmo e discurso, em sua aliança entre o legal e o impessoal, no consentimento festivo da competição que todos entendem, ele aponta como não conseguimos escapar das repetições que uma estúpida polarização formaliza. E, de quebra e lambuja, desmascara quem são as eminências e excelências que — à direita e à esquerda, em cima e embaixo — reinam entre nós.

Nosso dever

Nós passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.
Doris Lessing, "The golden notebook"

Prefiro não saber

Agora toda a gente quer saber tudo e, se não lhes dizem o que querem saber, desconfiam a redobrar.

As confissões, por muito chorosas, já não convencem ninguém. Os pedidos de desculpa muito menos — então quando cheiram a dedos de advogado… Querem mais. Mais lágrimas.

Já ninguém acredita que houve um tempo em que isto de querer sempre saber tudo era visto como uma obsessão mesquinha, uma curiosidade insana, um caminho certo para a infelicidade.

Lembro-me do meu pai a ler, e a levantar os olhos do livro para registar a realidade da minha interrupção. Num olho meio-amarelo, meio-castanho, estava a consciência do dever de um pai para com um filho. No outro, meio-castanho, meio verde-azeitona, estava a revolta: “Deixa cá ver o que este quer…”

Mal eu me tinha lançado a fazer a minha confissão, aproveitando a frescura do ensaio que um minuto antes tinha feito à frente do espelho da casa de banho, ele dizia estas três palavras, enquanto a cabeça baixava outra vez para o livro: “Prefiro não saber.”

Se eu protestasse, ele apaziguava-me: “Deixa estar, Miguel, eu também já fui novo. Tenho a certeza que aquilo que tens para me dizer é muito importante, mas acredita que assim é melhor para todos, está bem?” E depois lá vinham as três palavras, já com um pingo de nitroglicerina: “Prefiro não saber.”

Hoje dou-lhe razão. Guardemos a nossa curiosidade para as coisas que, uma vez sabidas, nos trazem riso e excitação. Guardemos a nossa curiosidade para as coisas e para as pessoas que se deixam descobrir, sem resistência ou esperteza, ou estratégia, ou manipulação.

Numa vida, só temos tempo para saber tão poucas coisas, porque é que havemos de arranjar espaço para os pormenores que nunca mais acabam, das confissões que outros nos fazem?

Dizem-nos que é por termos direito a saber, mas é mais pelo direito que eles acham que têm, de desabafar. Eles ficam aliviados. Nós ficamos pressionados a reagir. Quem é que ficou a perder? Quem é que ficou a ganhar?

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Na mira do araponga

Se a Abin fez o meu dossiê, ignoro. Mas o que sairá da investigação sobre Bolsonaro será letal

Em algum momento de 2020 ou 21, alguém me soprou: "Fique esperto. Ouvi dizer que estão de olho em você. Tem gente do governo levantando os podres de cada desafeto do Bolsonaro e reunindo num dossiê para ser usado um dia." Não me surpreendi. Eu desconfiava que o então presidente não era grande fã das minhas colunas na Folha, porque, desde o começo de seu mandato, eu apontava para a inevitabilidade do golpe com que ele esperava se perpetuar no poder.

Hoje, com a investigação em curso sobre o uso por Bolsonaro da Abin (Agência Brasileira de Informação) para bisbilhotar os passos de ex-aliados, juízes, advogados, políticos e jornalistas, vejo que a dica fazia sentido. E começo a me dar conta das vezes em que tive a sensação de estar sendo observado e de algo que parecia diferente do que deveria ser.



Por não usar celular, eu estaria fora do alcance do FirstMile, o software de monitoramento que eles acionaram para saber quem estava com quem e onde, e, daí, tirar ilações. Mas os telefones fixos, como o meu, também podem ser arapongados e, em várias ligações, pude ouvir baixinho, sob a voz do interlocutor, "A tonga da mironga do kabuletê", velho sucesso de Toquinho e Vinicius. Era para abafar o ruído do gravador.

Vejo agora também que fui seguido pelo clássico sujeito encostado no poste e fingindo ler jornal à espera de que eu saísse. Lembro-me de que passei por ele e não lhe dei importância. Pois devia ter dado, porque o jornal atrás do qual se escondia era o Correio Braziliense. Ora, como moro no Rio, o normal seria que o jornal fosse a Folha ou O Globo. Significava que ele viera de Brasília para a tarefa e já trouxera de lá o material de trabalho.

Se fizeram meu dossiê, ignoro. Mas o dossiê sobre a arapongagem da quadrilha Bolsonaro a partir desta investigação, assim que publicado, exigirá um lindo segundo volume - para a sentença judicial.

Sem valor

Este país inocente colocou você num gueto, no qual existe a intenção, de fato, que você morra. Deixe-me precisar exatamente o que quero dizer com isso, visto que é o xis da questão e a raiz da minha desavença com meu país. Você nasceu onde nasceu e enfrentou o futuro que enfrentou por ser negro e por nenhum outro motivo. Esperava-se assim que os limites da sua ambição estivessem postos para sempre. Você nasceu numa sociedade que estipulou com brutal clareza, e de todas as formas possíveis, que você era um ser humano sem valor.
James Baldwin

Feridas, famintas e sozinhas – as crianças de Gaza órfãs pela guerra

Ela nasceu por cesariana depois que sua mãe, Hanna, foi esmagada em um ataque aéreo israelense. Hanna não viveu para dar o nome à filha.

“Nós apenas a chamamos de filha de Hanna Abu Amsha”, diz a enfermeira Warda al-Awawda, que cuida do pequeno recém-nascido no Hospital al-Aqsa em Deir al-Balah, no centro de Gaza.


No caos causado pelos combates em curso e com famílias inteiras quase exterminadas, os médicos e as equipes de resgate muitas vezes lutam para encontrar cuidadores para as crianças enlutadas.

“Perdemos contato com a família dela”, conta a enfermeira. "Nenhum dos parentes dela apareceu e não sabemos o que aconteceu com o pai dela."

As crianças, que representam quase metade da população de 2,3 milhões de Gaza, tiveram as suas vidas destruídas pela guerra brutal.

Embora Israel diga que se esforça para evitar vítimas civis, incluindo a emissão de ordens de evacuação, mais de 11.500 menores de 18 anos foram mortos, segundo autoridades de saúde palestinas. Ainda mais pessoas sofrem lesões, muitas delas que mudam vidas.

É difícil obter números exactos, mas de acordo com um relatório recente do Monitor Euro-Mediterrânico dos Direitos Humanos, um grupo sem fins lucrativos, mais de 24 000 crianças também perderam um ou ambos os pais.

Ibrahim Abu Mouss, de apenas 10 anos, sofreu graves lesões nas pernas e no estômago quando um míssil atingiu a sua casa. Mas suas lágrimas são pela mãe, pelo avô e pela irmã falecidos.

“Eles ficavam me dizendo que estavam sendo tratados lá em cima, no hospital”, diz Ibrahim enquanto seu pai segura sua mão.

“Mas descobri a verdade quando vi fotos no telefone do meu pai. Chorei tanto que fiquei todo dolorido.”

Os primos da família Hussein costumavam brincar juntos, mas agora sentam-se solenemente junto às sepulturas arenosas onde alguns dos seus familiares estão enterrados numa escola transformada em abrigo no centro de Gaza. Cada um perdeu um ou ambos os pais.

“O míssil caiu no colo da minha mãe e o seu corpo foi feito em pedaços. Durante dias retirámos partes do seu corpo dos escombros da casa”, diz Abed Hussein, que vivia no campo de refugiados de al-Bureij.

"Quando disseram que meu irmão, meu tio e toda a minha família foram mortos, senti como se meu coração estivesse sangrando em chamas."


Com olheiras escuras, Abed fica acordado à noite, assustado com os sons dos bombardeios israelenses e sentindo-se sozinho.

“Quando minha mãe e meu pai eram vivos, eu costumava dormir, mas depois que eles foram mortos não consigo mais dormir. Costumava dormir ao lado do meu pai”, explica ele.

Abed e seus dois irmãos sobreviventes estão sob os cuidados de sua avó, mas a vida cotidiana é muito difícil.

“Não há comida nem água”, diz ele. "Estou com dor de estômago por beber água do mar."

O pai de Kinza Hussein foi morto tentando buscar farinha para fazer pão. Ela é assombrada pela imagem de seu cadáver, trazido para casa para ser enterrado depois que ele foi morto por um míssil.

“Ele não tinha olhos e sua língua estava cortada”, lembra ela.

“Tudo o que queremos é que a guerra acabe”, diz ela. "Tudo está triste."

Quase todas as pessoas em Gaza dependem agora de ajuda para as necessidades básicas da vida. De acordo com dados da ONU, cerca de 1,7 milhões de pessoas foram deslocadas, muitas delas forçadas a deslocar-se repetidamente em busca de segurança.

Mas a agência da ONU para as crianças, a Unicef, afirma que a sua maior preocupação é com cerca de 19 mil crianças que são órfãs ou que acabaram sozinhas, sem nenhum adulto para cuidar delas.

“Muitas destas crianças foram encontradas sob os escombros ou perderam os pais no bombardeamento das suas casas”, disse-me Jonathan Crickx, chefe de comunicações da Unicef ​​Palestina, de Rafah, no sul de Gaza. Outros foram encontrados em postos de controle israelenses, hospitais e nas ruas.

“Os mais novos muitas vezes não conseguem dizer o seu nome e mesmo os mais velhos ficam geralmente em estado de choque, por isso pode ser extremamente difícil identificá-los e potencialmente reagrupá-los com a sua família alargada”.

Mesmo quando é possível encontrar parentes, eles nem sempre estão bem posicionados para ajudar a cuidar das crianças enlutadas.

“Tenhamos em mente que muitas vezes eles também se encontram numa situação muito difícil”, diz Crickx.

“Eles podem ter os seus próprios filhos para cuidar e pode ser difícil, se não impossível, para eles cuidarem destas crianças desacompanhadas e separadas”.

Desde o início da guerra, uma organização sem fins lucrativos, as Aldeias de Crianças SOS, que trabalha localmente com a Unicef, afirma que tem trabalhado para acolher 55 dessas crianças, todas com menos de 10 anos. .

Um membro sénior da equipa SOS contou-me sobre uma criança de quatro anos que foi deixada num posto de controlo. Ela foi trazida com mutismo seletivo, um transtorno de ansiedade que a deixou incapaz de falar sobre o que havia acontecido com ela e sua família, mas agora está progredindo depois de ser acolhida com presentes e brincar com outras crianças com quem mora.

A Unicef ​​acredita que quase todas as crianças em Gaza necessitam agora de apoio à saúde mental.

Com as suas vidas destroçadas, mesmo quando houver um cessar-fogo duradouro, muitos ficarão com perdas terríveis que terão de lutar para superar.

Corajoso mundo real

Consideramos os romances distópicos como grandes parábolas das sociedades que tememos que possam tornar-se, sujeitas ao domínio do Estado totalitário que se torna uma máquina de controle das relações privadas e até das consciências.

Nossa referência distópica mais comum é 1984 , de George Orwell , onde a ditadura atinge a perfeição de seus instrumentos de dominação, e o Big Brother, o onipresente líder supremo da Oceania, nos vigia nas telas. É um poder absoluto que cria uma nova realidade que pode ser apagada e reescrita de acordo com as necessidades da ideologia oficial.

A felicidade é imposta à força sob um molde uniforme de comportamento. É isso que nos ensina um romance anterior ao de Orwell, Admirável Mundo Novo , de Aldous Huxley, o admirável mundo novo que Miranda oferece em A Tempestade, de Shakespeare, belas criaturas, bela humanidade. Neste novo mundo reinam a paz e o bem-estar, mas os seres humanos são fabricados em laboratórios e a educação é ensinada através de slogans que se repetem até ficarem fixados na memória.


Ou The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, que se passa num futuro incerto em Gilead, antigo Estados Unidos, onde uma seita de fanáticos fundamentalistas impõe um regime teocrático de estilo policial. As mulheres só são úteis para dar à luz filhos, sob ameaça de execução ou exílio.

As sociedades que estes romances descrevem, subjugadas por tiranias totais que procuram destruir o indivíduo anulando as suas liberdades, são distopias que permanecem graças a ficção. Longe de funcionarem apenas como parábolas daquilo que rejeitamos como um futuro sistema de vida, foram possíveis no século passado, o século dos grandes modelos totalitários, e continuam a sê-lo no século XXI, quando as ameaças contra a democracia se multiplicam, mesmo onde as suas instituições nos parecem mais firmes.

Os totalitarismos arquetípicos do século XX, tal como descritos por Frank Dikötter no seu livro Ditadores, podem ser vistos como verdadeiras distopias: baseavam-se num único partido e, para funcionarem como máquinas de poder implacáveis, dependiam de um líder supremo e infalível, sua figura onipresente, cultivada com cuidado e perseverança; desde aqueles que surgiram em países onde as democracias liberais estavam em estado de deterioração, Hitler ou Mussolini, até aqueles que foram fruto de cataclismos e guerras revolucionárias, como Stálin e Mao Tsé-Tung, todos rodeados por uma aura mitológica.

Nas distopias imaginadas, e nas reais, o líder único passa a ter uma imagem onipresente na vida dos cidadãos, e sua imagem é divinizada através do aparato de propaganda que insiste em manter vivo o que no marketing totalitário tem sido chamado de culto à personalidade .

Talvez nenhum outro romance distópico recente nos aproxime da realidade atual, e nos coloque no reino do que já vimos e vivenciamos, do que Prophet Song , de Paul Lynch, vencedor do Booker Prize na Inglaterra no ano passado.

Não ocorre em nenhum tempo distante, nem num país mitológico, mas na Irlanda real, no tempo presente. Um partido totalitário chega ao poder, decreta a suspensão das garantias, e sob o estado de emergência desencadeia uma onda de repressão que leva opositores e dissidentes às prisões, reprime manifestações à bala, semeia o terror nos lares, multiplica os desaparecimentos. Cria-se então um estado de rebelião e irrompe a guerra civil.

É um romance de acabamento impecável, escrito em tons sombrios e que nunca descura a tensão, que cresce à medida que avançamos no conhecimento do destino da personagem central, Eilish Stack, mãe de família que vê como o seu mundo é destruído sob o peso da perseguição política implacável levada a cabo pela polícia secreta, a prisão do seu marido Larry, o bombardeio da sua casa, a morte dos seus filhos, a fuga através da fronteira para o Reino Unido, juntamente com milhares de outros que emigram em busca de refúgio, nas mãos de gangues de tráfico de pessoas.

Tudo parece inédito porque acontece num país onde até à véspera existiam regras democráticas, garantias constitucionais, tribunais de justiça, meios de comunicação independentes, todos aqueles fatores da vida quotidiana que são tidos como garantidos. Mas e se de repente aparecer um novo Governo que negue tudo isso? Houve um golpe de Estado, ou pior, o Governo foi eleito livremente pelos próprios cidadãos.

A distopia, como estamos vendo, pode se tornar uma história cotidiana. Não é apenas que tememos que isso possa acontecer. Aconteceu, está acontecendo. É a distopia possível, a distopia real. A distopia que temos às nossas portas. É o anjo da espada flamejante que te expulsa do paraíso democrático.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 

Ramsés (Suíça)

Computação quântica, inteligência artificial e o homo sapiens sapiens: O futuro de hoje

Este crescimento exponencial da tecnologia do chip ajudou a revolucionar a indústria da computação, permitindo máquinas mais rápidas e mais confiáveis que poderiam ser usadas para uma gama cada vez maior de aplicações. Serviu como uma pedra angular no desenvolvimento de computadores.

Hoje nossos aparelhos celulares tem a capacidade computacional superior a muitos dos nossos computadores pessoais, que nesse momento já excedem a necessidade básica de trabalho e entretenimento pessoal, da maioria das pessoas na pesquisa. Dito isto, questionamos se a lei de Moore vai se esvair pela falta de necessidade pessoal de tanto hardware e processamento? Claro que não, essa capacidade vai migrar para outras áreas de conhecimento trazendo novas respostas e necessidades que nem sabíamos que tínhamos

Aqui proponho um exercício futurologico, que como todo exercício de análise para o que há de vir, pode estar fadado ao fracasso pois baseado no presente projetamos o futuro, porém acredito que por conta do caminho que opera nossa tecnologia científica, podemos prever com bastante segurança o casamento inexorável da atual tão discutida inteligência artificial, com a pouco lembrada tecnologia computacional quântica.


A grosso modo para o leigo compreender o que é essa tecnologia, o sistema computacional atual e baseado no sistema binário de zero e um, respondendo basicamente sim ou não a cada pergunta proposta, o sistema binário é usado pelos computadores é e constituído como dito de dois dígitos 0 e o 1. A combinação desses dígitos leva o computador a criar várias informações, como, letras, palavras, textos, cálculos, ou seja, tudo que vivenciamos em nossas máquinas hoje.

Já a tecnologia quântica é um campo multidisciplinar que compreende aspectos da ciência da computação, da física e da matemática e que utiliza a mecânica quântica para resolver problemas complexos mais rapidamente do que em computadores tradicionais, a grosso modo além de responder com o zero e o um binários, tem uma terceira resposta que é zero e um ao mesmo tempo e isso muda tudo, seria o depende entre o sim e o não das questões propostas.

Agora sim entramos na nossa viagem ao futuro próximo, imaginem o casamento dos computadores quânticos com a inteligência artificial (IA)? Que mundo novo pode advir dessa unificação?

A questão não é se, mas, quando acontecer teremos uma modificação completa do mundo do trabalho, tecnologia, ciências, estudos e entretenimento.

O potencial é incalculável e irá transformar radicalmente a vida cotidiana das pessoas em várias áreas, impulsionando a revolução científico-tecnológica de maneiras que ainda são difíceis de imaginar completamente. Vamos explorar apenas algumas das possíveis mudanças que essa fusão pode trazer nesse admirável mundo novo:

1. Processamento de dados ultrarápido:

Os computadores quânticos podem processar enormes quantidades de dados de maneira incrivelmente rápida, tornando possível realizar cálculos complexos em uma fração do tempo que os computadores convencionais levariam. Isso pode melhorar significativamente a eficiência em diversas atividades, desde análises financeiras e previsões climáticas até a otimização de rotas de tráfego em tempo real;

2. Avanço nas ciências e medicina:

Com a capacidade dos computadores quânticos de modelar sistemas complexos de maneira mais precisa, a pesquisa científica e a medicina podem dar passos gigantescos. Por exemplo, novos medicamentos podem ser descobertos mais rapidamente, acelerando a cura de doenças e condições médicas atualmente incuráveis;

3. Inteligência artificial mais poderosa:

A união dos computadores quânticos com a IA pode aprimorar a capacidade de aprendizado e tomada de decisões dos algoritmos de IA. Isso permitirá que a IA compreenda e processe dados complexos em tempo real, levando a assistentes virtuais mais inteligentes, sistemas de reconhecimento de voz mais precisos, chatbots mais eficientes e avanços significativos em áreas como diagnósticos médicos e análise de grandes conjuntos de dados;

4. Criptografia e segurança mais robustas:

Embora a computação quântica possa ameaçar os sistemas de criptografia atuais, a unificação com a IA pode ajudar a criar algoritmos criptográficos quânticos mais seguros e eficientes. Isso garantiria uma comunicação mais segura e protegeria as informações pessoais dos usuários;

5. Realidade virtual e aumentada avançada: Com o poder de processamento dos computadores quânticos combinado com a inteligência artificial, a experiência de realidade virtual e aumentada pode ser revolucionada. Seria possível criar ambientes virtuais mais realistas, interativos e personalizados, permitindo novas formas de entretenimento, treinamento e comunicação;

6. Otimização de logística e transporte: Com a capacidade de resolver problemas complexos de otimização, a união da computação quântica com a IA pode melhorar significativamente a logística e o transporte. Isso inclui aprimorar a logística de cadeias de suprimentos, otimizar o tráfego em tempo real e planejar rotas mais eficientes para entrega de produtos e serviços;

7. Mudanças na indústria financeira:

A velocidade e a precisão dos computadores quânticos com IA podem revolucionar o setor financeiro. Algoritmos avançados podem detectar fraudes com maior eficiência, prever mudanças econômicas de forma mais precisa e aprimorar estratégias de investimento;

8. Avanço na inteligência de máquinas autônomas: 

A combinação de computação quântica e IA pode impulsionar veículos autônomos, drones e robôs inteligentes, permitindo que eles tomem decisões mais rápidas e precisas em ambientes complexos e em constante mudança.

Essas são apenas algumas das maneiras pelas quais a unificação dos computadores quânticos com a inteligência artificial pode modificar a vida cotidiana das pessoas. É importante ressaltar que, apesar do grande potencial positivo, essa revolução também apresenta desafios éticos e de segurança, como o controle e a responsabilidade dessas tecnologias avançadas. Portanto, um desenvolvimento cuidadoso e ético é essencial para aproveitar plenamente os benefícios dessa fusão tecnológica. Lógico que seremos impactados, sim muitos empregos deixarão de existir e muitos serão desempregados por essa nova etapa da evolução tecnológica fato que ocorreu em todas revoluções científicas e que consolidou saltos evolutivos do conhecimento da humanidade, mas diferente dos trabalhadores que quebravam as máquinas da revolução industrial vamos ter que saber absorver a mão de obra e inteligência humana para outras áreas mais necessárias onde a inventividade e criatividade das pessoas são fundamentais, chegará ao fim o modo de trabalho repetitivo baseado no taylorismo ou mesmo no fordismo.

Cabe a nós trazer para humanidade um momento único de crescimento da liberdade humana para progredir em aspectos até hoje não imaginados, novas relações de trabalho com jornadas menores porém mais eficientes, foco no lazer e também o ócio criativo como proposto por Domenico de Masi.

Como visto, esse mundo que se descortina pode ser o início de uma bela jornada para o ser humano se utilizada para o crescimento e igualdade de oportunidades na utilização dessa ferramenta maravilhosa, mas também pode ser um futuro distópico que esses instrumentos forem mantidos nas mãos de poucos representando a continuidade opressiva de um mundo onde o abismo entre os mais ricos e mais pobres cada vez se acentua. Temos mais uma oportunidade de fazer o certo e levar nossa sociedade a um outro patamar, mais inclusiva, ambientalmente justa e socialmente solidária, não percamos pois mais essa oportunidade, e como dizia o poeta, "é você que ama o passado e não vê que o novo sempre vem".

Força da grana move Brasília

No fim do século passado, um famoso artigo de Francis Fukuyama previu o fim da História. Errou o alvo, ainda bem, porque, sem as peripécias da História, nossa vida seria tomada pelo tédio e pela melancolia. Apesar disso, há momentos arrastados na História do Brasil, como essa briga do Congresso por verbas do Orçamento, algo tão chato como uma reunião de condomínio.

No entanto, se vencermos as barreiras do tédio, veremos que estamos diante de algo essencial para nossa vida cotidiana e mesmo para o futuro da democracia. Trava-se uma luta pela grana que todos pagam em impostos. Teoricamente, esse dinheiro deveria ser usado de uma forma racional para a prestação de todos os serviços que o Estado nos deve.

Isso é tão importante que, nas revoltas de 2013, segundo muitos observadores, houve protesto porque o Estado não devolvia em serviços eficazes o grande volume de impostos pagos a ele.

O avanço do Congresso sobre o dinheiro a ser gasto tem sido intenso nos últimos anos. Alguns ainda se lembram do orçamento secreto do período Bolsonaro. Era ilegal e acabou caindo por ordem do STF. Mas a força do Congresso é tão grande que ele continua impondo ao governo altos gastos em suas emendas parlamentares. Só no Orçamento deste ano, a coisa vai para mais de R$ 47 bilhões. Isso sem contar os quase R$ 5 bilhões que destinaram ao financiamento das eleições municipais.


Não vai dar certo. O dinheiro já é curto e, se não for usado com o máximo de racionalidade, com visão nacional, as frustrações podem aumentar. Salário mínimo um pouco melhor não basta. Há outros fatores — como escola pública de qualidade, saneamento, hospitais razoáveis — que influenciam a sensação de pobreza ou bem-estar.

Os deputados dizem que não há problemas se destinarem grande parte da grana nacional para suas obras. Afinal, argumentam, ninguém conhece melhor o país do que eles. Acontece que conhecem tão bem, a ponto de saber qual obra dá mais votos que a outra, e de modo geral sempre optarão por bons resultados eleitorais.

Na época do orçamento secreto, houve coisas do arco-da-velha que, provavelmente, continuarão acontecendo. Escolas receberam equipamento de robótica e não tinham sequer conexão com a internet. O episódio mais pitoresco ocorreu em Igarapé Grande, no Maranhão, onde a Polícia Federal fez a Operação Quebra-Ossos. O município tem 12 mil habitantes, mas registrou gastos de raio X com 7.500 dedos quebrados. Inimaginável o que fizeram com as mãos para chegar a esses números. Há registro também, noutros pontos do país, de tratoraços, a compra de tratores por preços superfaturados.

Sinceramente, não escrevo com intenções moralistas. A esta altura da vida, fora da política, trabalho outras categorias, distante do protesto indignado. Prefiro fazer parte de uma discreta versão moderna de um coro grego, como na Antígona. Qualquer procura humana que ignore limites, sugere Sófocles, inevitavelmente trará a desgraça.

Surfando numa conjuntura de tolerância com os erros, os políticos brasileiros estão passando dos limites, uma forma de perder a sabedoria. Com todos os pequenos deslizes recebidos com silêncio pela sociedade, avançam cada vez mais rumo a uma dominação indiscriminada, voltada apenas para o próprio umbigo.

Todos sabemos das grandes necessidades do país. Sabemos também que, mesmo usando racionalmente os recursos, não conseguiremos satisfazê-las, o cobertor é curto.

O uso leviano do dinheiro arrecadado, gastos milionários com partidos políticos, isso é muito perigoso. Em 2013, tudo parecia bem, até que alguma coisa explodiu. Há tempo de corrigir o rumo, embora seja difícil imaginar como o gênio voltará para a lâmpada, como o Congresso se conformará em não ter tanto dinheiro para se perpetuar no poder. Infelizmente, é disso que se trata. Os donos da grana se reelegem, e as coisas nunca mudam por lá.

Partido Miliciano, o sujeito oculto da política nacional

Apenas 12 dos 28 partidos e federações que disputaram as eleições de 2022 conseguiram alcançar a cláusula de desempenho fixada pela Emenda Constitucional 97, de 2017. De lá para cá, somente essas 12 legendas têm acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda gratuita de rádio e televisão.

As novas regras em vigência desde 2018 impuseram às 16 legendas que não alcançaram o critério de desempenho três alternativas de sobrevivência – a fusão, incorporação ou federação com aquelas que obtiveram melhor desempenho nas urnas.

Bom para a política, esse enxugamento deu mais nitidez ideológica ao sistema partidário, com prevalência da corrente conservadora. Porém, nessa contabilidade partidária o sujeito oculto é o Partido Miliciano, infiltrado na direita como um cavalo de Tróia.

Camuflado em legendas majoritárias, serve-se do dinheiro público destinado ao desenvolvimento das atividades partidárias para alavancar sua estratégia de ampliação territorial. Como fez no Rio, a partir da Assembleia Legislativa.


Essa turma abraça as pautas conservadoras, embora pouco ou nada lhe importem os valores religiosos e morais da direita tradicional. O faz pela conveniência de atrair essa direita para temas próprios que aparentam similaridade ideológica.

Importa-lhes não aprimorar a política antidrogas e materializar um braço parlamentar do crime, blindando-se no bolsonarismo para impedir a ação dos poderes constituídos e consolidar-se como um poderoso grupo paramilitar a serviço de um estado paralelo, cujo comando divide com o tráfico.

Ao permitir a fusão de interesses distintos com uma pauta de valores comum apenas na aparência, a direita corre o risco de associar sua imagem – e suas biografias individuais – a temas que são caros apenas aos milicianos. E comprometer-se com uma associação criminosa infiltrada no parlamento.

É quando, por exemplo, a bancada do agronegócio defende a política bolsonarista de armar cada morador de Copacabana, quando o que lhe importa é garantir o direito de defender suas propriedades no campo.

Nesse contexto se inserem as recentes operações de busca e apreensão nos gabinetes parlamentares dos deputados Alexandre Ramagem e Carlos Jordy, cada um, a seu modo, flagrado em crimes contra o Estado.

Ambos são os únicos beneficiados , nesse momento, pela mobilização da direita contra o STF em decorrência do episódio. A soberania do Legislativo, nesse caso, é mero pretexto para acobertamento de ambos.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, e o do Senado, Rodrigo Pacheco, parecem já entender esses riscos. Evitaram dar repercussão às operações da PF contra Ramagem e Jordy. Mas se tornaram alvo indiscriminado da direita, novamente contaminada pelos interesses milicianos.

A carga sobre ambos para que comprem a briga contra o STF aumentou e levou Pacheco a abdicar de seu estilo mineiro e polido para desancar o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, que o chamara publicamente de “frouxo” por não agir contra Alexandre de Moraes.

O que mobiliza a direita contra o STF não é a mesma causa que mobiliza a milícia. Esta pretende neutralizar o STF para escapar da prisão; aquela pretende limitá-lo à interpretação da Constituição e impedi-lo de ultrapassar a fronteira entre o intérprete da Constituição e o legislador.

Tem-se que o agronegócio não precisa dos milicianos para enfrentar sua batalha com o STF, como estes precisam da direita para materializar a guerra contra o Judiciário, em nome da liberdade para delinquir. A direita pode resolver suas contendas pela via política; as milícias, não.

O experiente advogado de muitos políticos, de diferentes matizes ideológicas, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, calcula em duas dezenas os parlamentares já alcançados pelas investigações que culminaram com o 8 de janeiro e que estão no mesmo roteiro de Jordy e Ramagem.

A ex-deputada Joice Hasselmann que, bem ou mal, transitou pela intimidade do bolsonarismo, concorda com esse cálculo, desde que ele se refira apenas aos ex-integrantes do PSL. “No macro, é bem mais”, diz ela. A tirar por ambos, vem mais encrenca aí no roteiro de operações judiciais contra parlamentares.

O STF dobrou a aposta e realizou uma operação de busca e apreensão contra o vereador Carlos Bolsonaro na extensão das investigações sobre a Abin paralela – a rede de espionagem política ilegal comandada por agentes de inteligência a serviço do governo Bolsonaro. Não daria esse bote se não estivesse já respaldado por informações seguras e ainda sigilosas.

Até 2019, a milícia era um fenômeno de alcance e ação estaduais. O ciclo Bolsonaro lhe deu escala nacional e se a direita conservadora, mas democrática, continuar a trata-la como igual, estará se associando à ideologia do crime e contribuindo decisivamente para que o Congresso Nacional se torne, em pouco tempo, uma Alerj federal.

Fábricas de fraude online são motivadas com trabalho escravo

Aaron mal podia acreditar na própria sorte: uma companhia de tecnologia da Tailândia lhe ofereceu o emprego de seus sonhos – salário alto, benefícios generosos, uma via para escapar de um futuro desolador no sul da África. "Eu torci para ir trabalhar em outro continente, e um dia me contatei. Eu descobri que tudo era legítimo – até que cheguei ao Bangcoc."

A Organização das Nações Unidas calcula que mais de 100 mil indivíduos estão confinados nos centros de fraude online de Mianmar, num regime praticamente de escravidão . A equipe investigativa da DW encontrou-se com diversos sobreviventes de uma dessas "fábricas", o KK Park, que descrevem vigilância rigorosa, tortura e assassinato atés.

No aeroporto, Aaron teve uma recepção calorosa e foi convidado a entrar num carro, junto com dois outros jovens da África Oriental. "Achamos que iríamos para um hotel que fica talvez a uns dez minutos do aeroporto. Mas o motorista tomou outra direção."

Depois de quase oito horas de viagem, o grupo chegou à cidade fronteiriça de Mae Sot, no norte de Taiwan, onde foi transportado através do rio Moei até o estado de Kayin, região de Mianmar devastada por uma guerra pela independência. "Tinha gente com armas. Eles disseram que era para entrarmos no barco. E nós atravessamos", relata Aaron.

Dali, ele e seus companheiros foram levados para o KK Park, uma central onde milhares são submetidos a ações criminosas, enganando internautas dos Estados Unidos, Europa e China. 

“A gente trabalhava 17 horas por dia, nada de férias, sem feriados, sem descanso”, conta o jovem Lucas, da África Oriental, que foi suspenso à força 12 meses na central de fraudes online. "E se a gente disse que queria ir embora, eles ameaçaram que iam vender a gente – ou matar."

Chegando ao KK Park, Aaron, Lucas e os demais receberam instruções sobre como praticar os golpes. Sua tarefa era convencer os “clientes” – como são designados internamente como vítimas – a investir em criptomoedas . Estes pensaram ter depositado suas economias em investimentos lucrativos, mas ao invés disso o dinheiro entraria numa conta controlada pelos criminosos. Assim que se alcançasse uma determinada soma, as contas eram zeradas.

KK Park, apenas uma entre pelo menos dez fábricas
de golpes online na fronteira Mianmar-Tailândia

Esse tipo de golpe online é apelidado pig abate (abate de porcos): os trapaceiros engordam suas vítimas e em seguida as levam para o matadouro. Os manuais distribuídos à chegada no centro descreviam em detalhes como estabelecer confiança e aproveitavam os pontos fracos dos alvos. Por exemplo: "Seja engraçado. Os clientes devem se apaixonar por você ao ponto de esquecer tudo."

Havia metas semanais: uma soma determinada que os "agentes de venda" à revelação deviam arrecadar ou um número de "clientes" para entrar em contato. Quem não alcançava essas metas, era punido.

“Quem até o meio-dia não conseguiu nenhum novo cliente, ficou sem almoço. Se alguém reparasse que deixou de atender a uma chamada, você era espancado, ou forçado a ficar horas de pé”, conta Lucas. Vídeos e os relatos de prisioneiros anteriores da fábrica de fraudes confirmam torturas psíquicas e físicas sistemáticas.

Confrontados com imagens exclusivas tiradas do interior do complexo, todos os entrevistados consideraram os crachás nos uniformes dos guardas: trata-se das insígnias da Força de Guarda de Fronteira, um grupo de ex-rebeldes que deixou de combater a junta militar birmanesa há uma década atrás , em troca do controle total sobre seus territórios. Os soldados policiais do KK Park, mas os chefes de operação são chineses, de acordo com diversas fontes.

A trilha de pagamentos de diversas vítimas de fraude leva até as carteiras de criptomoedas usadas pelo KK Park para recuperação das economias dos defraudados. Lá, o dinheiro é distribuído por outras carteiras que funcionam como contas digitais para armazenar criptomoedas.

Uma delas foi aberta por Wang Yi Cheng, um empresário chinês residente em Tailândia. Ele recebeu moedas de milhares de dólares em criptomoedas de carteiras usadas pelo KK Park, e integra uma rede maior, de empresários chineses no exterior, que inclui um notório chefão da máfia chinesa.

No período em que recebia transferências diretas de carteiras geridas pela fábrica de fraudes tailandesas, Wang era vice-presidente da Thai-Asia Economic Exchange Association, uma associação sedada em Bangcoc que promove relações entre a Tailândia e a China.

A Tailândia-Ásia partilha o seu edifício-sede com o Overseas Hongmen Culture Exchange Center, que em 2023 foi alvo de uma batida policial, juntamente com outros centros da Hogmen, por operar ilegalmente e servir como fachada para o crime organizado chinês.

Essas organizações têm conexões estreitas com Wan Kuok Koi, aliás "Broken Tooth". Ex-líder da tríade 14K, depois de passar mais de dez anos na prisão por atividades criminosas em Macau, em 2018 fundou a World Hongmen History and Culture Association. Nesse ínterim ela foi aplicada a avaliação pelos Estados Unidos, devido ao seu envolvimento com o crime organizado.

Jason Tower, especialista em crime organizado do American Institute for Peace, menciona que Wan Kuok Koi gosta de repetir que costumava lutar pelos cartéis, mas agora luta pelo Partido Comunista da China.

De fato, sua organização Hongmen também promove uma ambiciosa Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), um projeto de infraestrutura trilionário, também conhecido como Um Cinturão, Uma Rota ou Nova Rota da Seda, que envolve integrar a China ainda mais à economia global.

O terreno em que foi construído o KK Park é uma área-alvo dos investimentos da China na BRI: relatórios do governo saudaram projetos de construção em suas áreas específicas, embora mais tarde Pequim tenha se distanciado, devido a denúncias de fraude em ampla escala.

O complexo em si não é mencionado nos comunicados oficiais da China, nem foi palco de cerimônias pioneiras, como as realizadas em outros projetos de construção na área. Em vez disso, o KK Park foi construído sob medida para a aplicação de golpes online. Soldados armados vigiavam todas as entradas e tinham câmeras de vigilância por toda parte.

As relações de poder nebulosas na região de conflito de Kayin, na fronteira birmanesa, proporcionam solo fértil a atividades criminosas. O KK Park é apenas uma de pelo menos dez fábricas de golpes online da área.

Suas operações ilícitas remontam a uma complexa rede de firmas e associações usadas por criminosos para legitimar seus crimes e "lavar" milhões em capital originário de fraudes. Suas operações estão se expandindo continuamente do Sudeste da Ásia para a África, Europa e América do Norte.

“Estamos realmente vendo que essas redes criminosas se tornam cada vez mais poderosas, mais influentes, e mais ramificadas em países de todo o mundo”, comenta Tower. "E os esforços de aplicar a lei estão tocando a ponta do iceberg."

Aaron e Lucas tiveram sorte. Depois de o salário lhes ser negado diversas vezes, eles e outros prisioneiros se recusaram a continuar trabalhando, e receberam ordem de arrumar seus pertences. “Escutei eles dizendo que iam nos vender para uma outra organização”, recorda Lucas.

Os jovens africanos reagiram rapidamente e contataram o ativista australiano Judah Tana, conhecido por auxiliar refugiados na fronteira Mianmar-Tailândia. E assim Aaron e Lucas escaparam, escondidos no banco de trás de seu jipe. Algumas semanas depois, ambos puderam retornar ao seu país de origem: seu pesadelo de tráfico humano e escravidão chegou ao fim.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


O racismo sem limites: agora a UNRWA

Que porcentagem de 30 mil empregados são 12 empregados? Pus num calculador da Net, deu 0,04. Imaginem agora 30 mil pessoas num hospital, numa escola, numa cidade. Suspeita-se que 12 estejam envolvidas num ataque brutal. Essas 12 são despedidas, uma investigação é iniciada. Mas mesmo assim, por causa de 0,04, todas as outras são castigadas. Todas as outras 29.988. Que no caso de que vou falar prestam uma assistência vital a 5,9 milhões de pessoas. Mais de metade da população portuguesa.

É o que está a acontecer desde ontem com os 30 mil empregados da UNRWA, a agência que em 1949 a ONU criou para apoiar os refugiados palestinianos. Em 1949: desde o fim da guerra que se seguiu à criação do Estado de Israel, que para os palestinianos é a Nakba, a Catástrofe. A UNRWA começou a trabalhar em 1950: eram 750 mil refugiados em tendas. Agora são 5,9 milhões de refugiados em campos de cimento. Que em Gaza, desde 7 de Outubro, voltaram a ser tendas amontoadas num espaço impossível.

O mais antigo problema de refugiados do mundo. Um limbo único, que nos envergonha a todos. Avós, pais, filhos, sucessivamente nascidos num buraco da justiça, aos quais toda a comunidade internacional deve uma solução desde 1948. Vamos em 76 anos.

Mas isto não impede que algumas das potências brancas se precipitem desde ontem a suspender toda a ajuda à UNRWA. Primeiro, os Estados Unidos. Depois, à hora a que escrevo, a Austrália, o Canadá, a Itália, a Finlândia e o Reino Unido. A UNRWA vive quase exclusivamente de fundos dos membros das Nações Unidas. E que faz a UNRWA? É a responsável por aquilo de que o mundo se descartou há 76 anos: a educação, saúde, habitação, alimentação, infra-estruturas, serviços sociais, assistência de emergência, microfinanciamentos de 5,9 milhões de palestinianos que tinham um território, mas continuam a não ter um Estado. Que estão em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e nos países vizinhos para onde foram forçados a fugir, Jordânia, Síria, Líbano. A UNRWA trabalha em todos eles. Há diferenças entre as condições que cada país lhes deu. Fora da Palestina, os que estão pior são os do Líbano. Campos miseráveis, vidas sem horizonte, interditas a inúmeras profissões.

Desde 7 de Outubro vimos escancarar-se como nunca a indecência de regimes do mundo branco. Aquilo a que podemos chamar “dualidade de critérios”, ou mais claramente “racismo”. Um racismo que ontem perdeu um pouco mais a vergonha. Não basta ao mundo branco que as pessoas suspeitas tenham já sido afastadas, e que a UNRWA tenha assumido a responsabilidade, e gravidade, da investigação. Estas potências querem provar uma vez mais como estão horrorizadas com os 1200 mortos israelitas (sem perderem o sono com os 26 mil mortos palestinianos, e todos os outros a ser bombardeados neste instante). Então, fazem questão de dar a Israel ainda isto: cancelar o dinheiro para que seis milhões de refugiados sobrevivam. E o verbo é “sobreviver”, porque o mundo lhes nega uma vida digna.

Tenho questões com a acção humanitária, e especificamente da ONU. Escrevi sobre isso antes e depois de 7 de Outubro. Sobre como a assistência pode contribuir para perpetuar os problemas que alivia, desresponsabilizando quem é suposto resolvê-los. Atalhando: se o mundo pode viver com 5,9 milhões de refugiados palestinianos atirados para debaixo do tapete, e isso continua a não ser cobrado a Israel, também foi porque a UNRWA esteve lá a fazer com que não morressem à fome. E claro que isso é parte do problema, se queremos olhar as coisas de frente. Um problema de todos nós.

Depois do que vi em Dezembro–Janeiro pela Cisjordânia e em Jerusalém Oriental (já que em Gaza os repórteres não podem entrar), deixei a Palestina com a sensação de mais uma Intifada a explodir, tal a aflição, o cerco. Enquanto Gaza morre, e os que não morrem sofrem danos para sempre.

Apesar de, também ontem, os juízes de Haia terem exposto de forma inédita num tribunal as violações de Israel à lei internacional, não foram ao ponto de pedir o cessar-fogo. E agora EUA, Canadá, Austrália, Reino Unido, Itália e Finlândia (para já) suspendem o ventilador da UNRWA. Porque os 5,9 milhões que dependem dele são palestinianos. E os palestinianos não contam como vidas brancas.

A cada dia, a mentira dos regimes brancos é mais visível. Digo regimes brancos porque as categorias Norte e Ocidente não dão conta (por exemplo, da Austrália). Regimes racistas e reféns de Israel. Da sua própria culpa.

Hoje mesmo, sábado, o ministro dos Estrangeiros de Israel pediu o fim da UNRWA, simplesmente. Que não faça parte do “day after” da guerra de Gaza. Num ponto estamos de acordo: sim, que a UNRWA deixe de existir — mas porque deixaram de existir refugiados palestinianos. É esse fim que queremos.

Poderá a União Europeia, entretanto, contrariar o racismo desta punição colectiva? Ou esperamos por uma Intifada geral?

Alexandra Lucas Coelho 

Tem alma os verdugos?

Uma alma que fosse possível considerar responsável por todo e qualquer acto cometido teria de levar-nos, forçosamente, a reconhecer a total inocência do corpo, reduzido a ser o instrumento passivo de uma vontade, de um querer, de um desejar não especificamente localizáveis nesse mesmo corpo. A mão, em estado de repouso, com os seus ossos, nervos e tendões, está pronta para cumprir no instante seguinte a ordem que lhe for dada e de que em si mesma não é responsável, seja para oferecer uma flor ou para apagar um cigarro na pele de alguém. Por outro lado, atribuir, a priori, a responsabilidade de todas as nossas acções a uma identidade imaterial, a alma, que, através da consciência, seria, ao mesmo tempo, juiz dessas acções, conduzir-nos-ia a um círculo vicioso em que a sentença final teria de ser a inimputabilidade. Sim, admitamos que a alma é responsável, porém, onde é que está a alma para que possamos pôr-lhe as algemas e levá-la ao tribunal? Sim, está demonstrado que o martelo que destroçou o crânio desta pessoa foi manejado por esta mão, contudo, se a mão que matou fosse a mesma que, tão inconsciente de uma coisa como da outra, tivesse simplesmente oferecido uma flor, como poderíamos incriminá-la? A flor absolve o martelo?


Ficou dito acima que a vontade, o querer, o desejar (sinónimos que, apesar de o não serem efectivamente, não podem viver separados), não são especificamente localizáveis no corpo. É certo. Ninguém pode afirmar, por exemplo, que a vontade esteja alojada entre os dedos médio e indicador de uma mão neste momento ocupada a estrangular alguém com a ajuda da sua colega do lado esquerdo. No entanto, todos intuímos que se a vontade tem casa própria, e deverá tê-la, ela só poderá ser o cérebro, esse complexo universo cujo funcionamento, em grande parte (o córtex cerebral tem cerca de cinco milímetros de espessura e contém 70 000 milhões de células nervosas dispostas em seis camadas ligadas entre si), se encontra ainda por estudar. Somos o cérebro que em cada momento tivermos, e esta é a única verdade essencial que podemos enunciar sobre nós próprios. Que é, então, a vontade? É algo material? Não concebo, não o concebe ninguém, com que espécie de argumentos seria defensável uma alegada materialidade da vontade sem a apresentação de uma “amostra material” dessa mesma materialidade…

O voluntarismo, como é geralmente conhecido, é a teoria que sustenta que a vontade é o fundamento do ser, o princípio da acção ou, também, a função essencial da vida animal. No aristotelismo e no estoicismo da antiguidade clássica observam-se já tendências voluntaristas. Na filosofia contemporânea são voluntaristas Schopenhauer (a vontade como essência do mundo, mais além da representação cognoscitiva) e Nietzsche (a vontade de poder como princípio da vida ascendente). Isto é sério e, por todas as evidências, necessitaria aqui alguém, não quem estas linhas está escrevendo, capaz de relacionar aquelas e outras reflexões filosóficas sobre a vontade com o conteúdo deste livro, cujo título é, não o esqueçamos, A alma dos verdugos. Aqui talvez tivesse eu de deter-me se, felizmente para os meus brios, não me tivesse saltado aos olhos, folheando com mão distraída um modesto dicionário, a seguinte definição: “Vontade: Capacidade de determinação para fazer ou não fazer algo. Nela se radica a liberdade”. Como se vê, nada mais claro: pela vontade posso determinar-me a fazer ou não fazer algo, pela liberdade sou livre para determinar-me num sentido ou noutro. Habituados como estamos pela linguagem a considerar vontade e liberdade como conceitos em si mesmos positivos, apercebemo-nos de súbito, com um instintivo temor, de que as cintilantes medalhas a que chamamos liberdade e vontade podem exibir do outro lado a sua absoluta e total negação. Foi usando da sua liberdade (por mais chocante que nos pareça a utilização da palavra neste contexto) que o general Videla viria a tornar-se, por vontade própria, insisto, por vontade própria, num dos mais detestáveis protagonistas da sangrenta e pelos vistos infinita história da tortura e do assassinato no mundo. Foi igualmente usando da sua vontade e da sua liberdade que os verdugos argentinos cometeram o seu infame trabalho. Quiseram fazê-lo e fizeram-no. Nenhum perdão é portanto possível. Nenhuma reconciliação nacional ou particular.

Importa pouco saber se têm alma. Aliás, desse assunto deverá estar informado, melhor do que ninguém, o sacerdote católico argentino Christian von Vernich que há alguns meses foi condenado a prisão perpétua por genocídio. Seis assassinatos, torturas a 34 pessoas e sequestro ilegal em 42 casos, eis a sua folha de serviços. É até possível, permita-se-me a trágica ironia, que tenha alguma vez dado a extrema unção a uma das suas vítimas…

23 de outubro de 2008
José Saramago, "O caderno"

Devorador do Tempo

A televisão mostra o que acontece? Nos nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não o mostra.

A televisão, essa luz derradeira que nos salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: aos que se portam bem, o sistema promete um assento cômodo. 
Eduardo Galeano, "O Livro dos Abraços" 

Bolsonaro e seus filhos estão com água pelo nariz

O republicano Richard Nixon estava por trás da operação de espionagem ao comitê nacional do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington, no início dos anos 1970 e, por isso, foi obrigado a renunciar ao mandato de presidente dos Estados Unidos; o único a fazê-lo até aqui.

Bolsonaro não tem mandato para abrir mão: perdeu-o para Lula ao tentar renová-lo em 2022. Pelos próximos oito anos não poderá ser candidato a nada, uma vez que foi condenado por abuso de poder econômico e político. Só lhe resta ser preso ou mergulhar à espera que a tempestade passe.

Nixon não foi preso porque deixou o cargo ao concluir que essa seria a melhor saída política para ele. Seu sucessor, o vice Gerald Ford, anistiou Nixon, retirando-lhe as devidas responsabilidades legais perante qualquer infração que tivesse cometido. Nixon morreu amargurado.

De certo modo, pelo menos nos Estados Unidos, o chamado “Escândalo Watergate” tornou-se um caso paradigmático de corrupção. No total, cerca de 69 pessoas foram indiciadas, com 48 delas, a maioria integrante do governo Nixon, sendo condenadas.

É cedo, por ora, para especular sobre o número de integrantes do governo Bolsonaro que poderão ser indiciados e condenados. Mas pelo andar da carruagem, ou melhor, do inquérito que apura o “Escândalo da Abin paralela”, esse número não será pequeno.


Durante o governo Bolsonaro, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) esteve mais para Agência Brasileira de Intimidação. Sua inteligência foi usada para o mal, não para o bem do Estado de Direito Democrático. A dúvida é se ainda guarda resquícios disso.

Não se fala em Forças Armadas paralelas para distingui-las das oficialmente existentes que apoiaram Bolsonaro em todas as suas investidas para derrubar a democracia, apenas se dividindo na hora de dar o golpe para impedir a posse de Lula. O golpe acabou fracassando.

Não se deveria falar em Abin paralela. Enquanto esteve sob o comando do delegado Alexandre Ramagem, hoje deputado federal eleito pelo PL da dupla Bolsonaro-Waldemar Costa Neto, a Abin espionou adversários e aliados do governo, esses para chantageá-los se fosse necessário.

Bolsonaro nunca escondeu que queria uma Polícia Federal para chamar de sua. Como não pode fazer de Ramagem o diretor-geral da Polícia Federal, fê-lo diretor da Abin, caroneando o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional.

Antes mesmo de Ramagem assumir a Abin, Bolsonaro disse, em reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que dispunha de um sistema de inteligência “particular”. E criticou:

“Sistemas de informações: o meu funciona. O meu particular funciona. Os oficiais desinformam. Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho”.

Trocou a marcha, apertou o acelerador com o pé e desabafou tresloucado:

“Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura nossa”.

Em 22 de maio do mesmo ano, o segundo dele como presidente, depois que o vídeo da reunião foi tornado público por Celso de Mello, então ministro do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro correu a se explicar:

“O que é meu serviço de informações particular? É o sargento do batalhão do Bope do Rio de Janeiro, é o capitão do grupo de artilharia lá de Fortaleza, é o policial civil que tá em Manaus, é meu amigo que tá na reserva e me traz informação da fronteira.”

Era tarde. O mais distraído dos deputados federais sabia que algo se movia e que sua vida poderia estar sendo bisbilhotada. Nenhum ministro de tribunal superior sentia-se mais seguro para atender ligações telefônicas, a não ser por WhatsApp.

Na última quarta-feira, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra suspeitos de integrarem o esquema de espionagem da Abin – Ramagem foi um dos alvos. Ontem, o alvo principal foi o vereador Carlos Bolsonaro, o Zero 3 do pai.

O meu Exército; a minha família; o meu Posto Ipiranga… Como autoridade número um do país, Bolsonaro achou que tudo lhe pertencia, que tudo estava a seu serviço, e que todos lhe deviam obediência. Triste fim. Mereceu. É só aguardar o desfecho.

Ao contrário de Nixon, não será anistiado.