sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
O presidente fujão
Bolsonaro deixou o país devido à fracassada tentativa de quebra da ordem institucional e o receio sobre sua situação jurídica ao passar do fórum privilegiado do STF para a 1ª instância do judiciário.
Roberto Damatta em O que faz o brasil, Brasil, diferencia entre o Brasil com b minúsculo dos nossos indicadores sociais, e o Brasil com B maiúsculo do nosso congraçamento cultural. Max Weber, em A Política como Vocação, diferencia entre dois tipos de políticos, o que trata a política como se fosse um negócio, e o que trata a política como representação social. Bolsonaro foi um presidente com p minúsculo, o da quebra da ordem institucional, e não o Presidente com P maiúsculo, da representatividade pelo bem social.
A caneta de Lula usada na posse difere da caneta de Bolsonaro para a ensejada Op GLO – Operação de Garantia da Lei e da Ordem. A caneta de Lula, presente de um eleitor do Piauí, representa o cidadão e o respeito pela democracia. A caneta de Bolsonaro, no uso da Op GLO, em interpretação equivocada por sua parte, representaria um instrumento de exceção para a quebra da ordem institucional.
Foi de fundamental importância a atuação do STF e do TSE na vigilância e manutenção da lei, expresso aqui na pessoa do Ministro Alexandre de Moraes.
Bolsonaro atentou continuamente contra a ordem institucional. Os 300 do Brasil, ataques ao STF, a tentativa de bloqueio do Planalto pelos caminhoneiros no 7 de setembro de 2021, o episódio da prisão do Deputado Daniel Silveira, as investigações do STF sobre fake news, o 7 de setembro de 2022 no Rio de Janeiro, o período pós-eleitoral com os caminhoneiros e patriotas à frente dos quartéis, o silêncio na expectativa do que não ocorreu. Como nada deu certo, Bolsonaro saiu do país.
O legado de Bolsonaro é danoso. De 2018 a 2021, o PIB caiu de US$ 1,9 trilhões para US$ 1,6. No COVID, 693 mil mortes, 10,5% dos óbitos mundiais para 2,7% de sua população. Foram prejudicadas a saúde, a educação, a cultura e o meio ambiente. As relações internacionais se deterioraram. O Brasil foi reincluído no Mapa Mundial da Fome da ONU.
O Bolsonarismo radical é mais diminuto do que se possa imaginar. Nas pesquisas Sensus, somente 2% são bolsonaristas radicais, contra a democracia e dispostos à ação política. Mas Bolsonaro se ausentou perante seus seguidores, não cumprindo seu papel de líder. Como diz Simmel, na liderança existe um processo recíproco de subordinação e superordenação, onde o liderado busca por um líder para se eximir da responsabilidade da ação social. Bolsonaro faltou a seus seguidores.
Bolsonaro não tem futuro na política Presidencial. O gabinete criado pelo PL para Bolsonaro parece mais para “Inglês ver”. Parece mais parte de acordos que possam ter ocorrido entre as partes políticas para melhor amortecer a inevitável saída de Bolsonaro. Bolsonaro foi um ponto fora da curva da história política brasileira. Pregou o inexistente.
Roberto Damatta em O que faz o brasil, Brasil, diferencia entre o Brasil com b minúsculo dos nossos indicadores sociais, e o Brasil com B maiúsculo do nosso congraçamento cultural. Max Weber, em A Política como Vocação, diferencia entre dois tipos de políticos, o que trata a política como se fosse um negócio, e o que trata a política como representação social. Bolsonaro foi um presidente com p minúsculo, o da quebra da ordem institucional, e não o Presidente com P maiúsculo, da representatividade pelo bem social.
A caneta de Lula usada na posse difere da caneta de Bolsonaro para a ensejada Op GLO – Operação de Garantia da Lei e da Ordem. A caneta de Lula, presente de um eleitor do Piauí, representa o cidadão e o respeito pela democracia. A caneta de Bolsonaro, no uso da Op GLO, em interpretação equivocada por sua parte, representaria um instrumento de exceção para a quebra da ordem institucional.
Foi de fundamental importância a atuação do STF e do TSE na vigilância e manutenção da lei, expresso aqui na pessoa do Ministro Alexandre de Moraes.
Bolsonaro atentou continuamente contra a ordem institucional. Os 300 do Brasil, ataques ao STF, a tentativa de bloqueio do Planalto pelos caminhoneiros no 7 de setembro de 2021, o episódio da prisão do Deputado Daniel Silveira, as investigações do STF sobre fake news, o 7 de setembro de 2022 no Rio de Janeiro, o período pós-eleitoral com os caminhoneiros e patriotas à frente dos quartéis, o silêncio na expectativa do que não ocorreu. Como nada deu certo, Bolsonaro saiu do país.
O legado de Bolsonaro é danoso. De 2018 a 2021, o PIB caiu de US$ 1,9 trilhões para US$ 1,6. No COVID, 693 mil mortes, 10,5% dos óbitos mundiais para 2,7% de sua população. Foram prejudicadas a saúde, a educação, a cultura e o meio ambiente. As relações internacionais se deterioraram. O Brasil foi reincluído no Mapa Mundial da Fome da ONU.
O Bolsonarismo radical é mais diminuto do que se possa imaginar. Nas pesquisas Sensus, somente 2% são bolsonaristas radicais, contra a democracia e dispostos à ação política. Mas Bolsonaro se ausentou perante seus seguidores, não cumprindo seu papel de líder. Como diz Simmel, na liderança existe um processo recíproco de subordinação e superordenação, onde o liderado busca por um líder para se eximir da responsabilidade da ação social. Bolsonaro faltou a seus seguidores.
Bolsonaro não tem futuro na política Presidencial. O gabinete criado pelo PL para Bolsonaro parece mais para “Inglês ver”. Parece mais parte de acordos que possam ter ocorrido entre as partes políticas para melhor amortecer a inevitável saída de Bolsonaro. Bolsonaro foi um ponto fora da curva da história política brasileira. Pregou o inexistente.
Nada é impossível de mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht
Ufa! Ou... o valor dos símbolos
Eu sei: já é quinta-feira e a posse foi no domingo, quase uma vida atrás. Mas vou falar da posse mesmo assim, porque há muito tempo eu não via uma cerimônia cívica tão bonita e tão carregada de símbolos positivos. Nós estávamos muito precisados disso, de beleza e de uma simbologia representativa do que temos de bom, do lado melhor da nossa natureza.
Foi exaustivo passar quatro anos sob peso de rancor e ressentimento, exprimidos em mãos fazendo arminhas, em motociatas intermináveis e naquele profundo desprezo a qualquer forma de gentileza, de educação e de diversidade.
Na vida pública tudo é símbolo, e foi uma alegria imensa rever o Brasil simbólico de que tanto gostamos subindo a rampa numa celebração de cores; foi um alívio ver seres verdadeiramente humanos em desfile, na companhia triunfal de Resistência, a Primeira Cã.
O ar está mais leve, respiramos melhor.
Por falar em símbolos — tenho duas lembranças marcantes da posse de 2019: a presença imprópria do 02 sentado no capô do Rolls-Royce e a presença suave da primeira dama fazendo um discurso em libras. Um símbolo de psicopatia contrapondo-se a um símbolo de afabilidade, fato e fake na mesma medida.
Que pesadelo.
E que diferença para o Rolls-Royce de 2023, com dois antigos rivais lado a lado, sorridentes, unidos num ideal comum.
A ausência do cramulhão permitiu o melhor da festa. Janja encontrou a receita do verdadeiro significado da subida da rampa, aquela que, uma vez vista, parece óbvia. É claro que tem que ser assim, um grupo, a sociedade representada em sua ampla pluralidade.
Haverá tantas combinações possíveis quantas cabeças se dedicarem a pensar no assunto, mas é isso, um conjunto de pessoas, e não aqueles casais solitários, raramente à vontade, em que ela poucas vezes foi mais do que uma sombra.
Não tenho dúvidas de que vamos passar muita raiva com Lula e vamos nos desesperar com incontáveis problemas do novo governo; para já, é duro ter que aceitar uma ministra envolvida com milicianos, completamente estranha à pasta e que, ainda por cima, se nomeia “Daniela do Waguinho” em pleno ano de 2023.
(Ou Turismo é um assunto importante e como tal teria que ser tratado, ou não tem importância nenhuma — e, nesse caso, nem precisaria de ministério. Do jeito que ficou é uma ofensa a quem leva a área a sério.)
Ainda assim, daqui para a frente pisaremos no terreno da Democracia, e não na zona minada do golpismo latente, na região patológica de uma perversidade indefinível.
A profunda felicidade que sentimos com a posse não foi necessariamente por Lula, mas pelo Livramento.
Quem não acompanha os movimentos de proteção animal talvez não faça ideia da importância da presença de Resistência na posse. Resistência, a Primeira Cã, apareceu no acampamento em frente à Polícia Federal de Curitiba, e passou a dar plantão com a militância. Quando Lula e Janja se casaram, a levaram consigo. Vários recados importantes subiram a rampa nas suas quatro patinhas, sendo o principal deles o de que os animais fazem parte indissociável das nossas vidas e merecem todo o respeito.
As redes sociais festejaram.
— Ela é o segundo animal a subir a rampa!
— É, mas ela está com todas as vacinas em dia.
Foi exaustivo passar quatro anos sob peso de rancor e ressentimento, exprimidos em mãos fazendo arminhas, em motociatas intermináveis e naquele profundo desprezo a qualquer forma de gentileza, de educação e de diversidade.
Na vida pública tudo é símbolo, e foi uma alegria imensa rever o Brasil simbólico de que tanto gostamos subindo a rampa numa celebração de cores; foi um alívio ver seres verdadeiramente humanos em desfile, na companhia triunfal de Resistência, a Primeira Cã.
O ar está mais leve, respiramos melhor.
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Por falar em símbolos — tenho duas lembranças marcantes da posse de 2019: a presença imprópria do 02 sentado no capô do Rolls-Royce e a presença suave da primeira dama fazendo um discurso em libras. Um símbolo de psicopatia contrapondo-se a um símbolo de afabilidade, fato e fake na mesma medida.
Que pesadelo.
E que diferença para o Rolls-Royce de 2023, com dois antigos rivais lado a lado, sorridentes, unidos num ideal comum.
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A ausência do cramulhão permitiu o melhor da festa. Janja encontrou a receita do verdadeiro significado da subida da rampa, aquela que, uma vez vista, parece óbvia. É claro que tem que ser assim, um grupo, a sociedade representada em sua ampla pluralidade.
Haverá tantas combinações possíveis quantas cabeças se dedicarem a pensar no assunto, mas é isso, um conjunto de pessoas, e não aqueles casais solitários, raramente à vontade, em que ela poucas vezes foi mais do que uma sombra.
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Não tenho dúvidas de que vamos passar muita raiva com Lula e vamos nos desesperar com incontáveis problemas do novo governo; para já, é duro ter que aceitar uma ministra envolvida com milicianos, completamente estranha à pasta e que, ainda por cima, se nomeia “Daniela do Waguinho” em pleno ano de 2023.
(Ou Turismo é um assunto importante e como tal teria que ser tratado, ou não tem importância nenhuma — e, nesse caso, nem precisaria de ministério. Do jeito que ficou é uma ofensa a quem leva a área a sério.)
Ainda assim, daqui para a frente pisaremos no terreno da Democracia, e não na zona minada do golpismo latente, na região patológica de uma perversidade indefinível.
A profunda felicidade que sentimos com a posse não foi necessariamente por Lula, mas pelo Livramento.
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As redes sociais festejaram.
— Ela é o segundo animal a subir a rampa!
— É, mas ela está com todas as vacinas em dia.
Mourão sentiu o impacto das primeiras medidas de Lula
Lula tem, acertadamente, revogado medidas de última hora do governo Jair Bolsonaro e outras que fazem parte de uma visão ideológica equivocada do ex-presidente da República, como a distribuição descontrolada de armas. Para o senador eleito Hamilton Mourão, contudo, uma eleição como a do ano passado – voto a voto – dá ao bolsonarismo algum tipo de salvo conduto eterno.
Disse o general da reserva à Folha: “[Lula] chegou com espírito de revanche e sem entender que venceu uma eleição no photochart, portanto sem um apoio francamente majoritário”.
Depois de ser a linha auxiliar de uma gestão que colocou o país no retrocesso, no negacionismo e no obscurantismo – ou seja, nas trevas – Mourão quer que o presidente eleito mantenha as bizarrices que, em parte, incomodavam até ele mesmo.
Como se sabe, Mourão virou pária para a família do ex-presidente. E muitas vezes por ter uma postura menos extremista (o senador também é afeito ao extremismo) que a do seu companheiro de chapa de 2018. Não à toa, foi preterido da chapa de 2022.
Outro dia, o vereador Carlos Bolsonaro chamou o senador eleito de “bosta”. E sabem o que Mourão fez para merecer isso? Com razão, afirmou que o silêncio de Bolsonaro após o resultado das urnas estava criando o caos no país.
Aliás, o caos foi criado em vários momentos do mandato anterior. Caos institucional, caos na Saúde, caos no meio ambiente, caos na Cultura, caos nas Forças Armadas, caos na Polícia Federal, caos nos direitos humanos, caos nas Relações Internacionais.
Mas, segundo o senador eleito, o que está mesmo na hora, após dois dias de governo, é de o PT “compreender o país que precisam governar, despindo seus preconceitos políticos, econômicos e ideológicos”.
Mourão bem que poderia ter dito isso nos últimos quatro anos.
Disse o general da reserva à Folha: “[Lula] chegou com espírito de revanche e sem entender que venceu uma eleição no photochart, portanto sem um apoio francamente majoritário”.
Depois de ser a linha auxiliar de uma gestão que colocou o país no retrocesso, no negacionismo e no obscurantismo – ou seja, nas trevas – Mourão quer que o presidente eleito mantenha as bizarrices que, em parte, incomodavam até ele mesmo.
Como se sabe, Mourão virou pária para a família do ex-presidente. E muitas vezes por ter uma postura menos extremista (o senador também é afeito ao extremismo) que a do seu companheiro de chapa de 2018. Não à toa, foi preterido da chapa de 2022.
Outro dia, o vereador Carlos Bolsonaro chamou o senador eleito de “bosta”. E sabem o que Mourão fez para merecer isso? Com razão, afirmou que o silêncio de Bolsonaro após o resultado das urnas estava criando o caos no país.
Aliás, o caos foi criado em vários momentos do mandato anterior. Caos institucional, caos na Saúde, caos no meio ambiente, caos na Cultura, caos nas Forças Armadas, caos na Polícia Federal, caos nos direitos humanos, caos nas Relações Internacionais.
Mas, segundo o senador eleito, o que está mesmo na hora, após dois dias de governo, é de o PT “compreender o país que precisam governar, despindo seus preconceitos políticos, econômicos e ideológicos”.
Mourão bem que poderia ter dito isso nos últimos quatro anos.
Assim se passaram quatro anos
Há dias, numa roda de amigos que falavam dos 21 anos da ditadura (1964-1985) e de como os militares tinham vergonha de sair à rua fardados, o filho adolescente de um de nós perguntou: "Se eles eram tão impopulares, por que vocês deixaram que ficassem tanto tempo no poder?".
Boa pergunta e difícil de responder. Alguém explicou que os militares não estavam sozinhos, que contavam com civis dispostos a alterar e corromper as instituições para lhes dar respaldo jurídico. Que, em certo momento, rapazes e moças, com coragem e ingenuidade suicidas, pegaram em armas para tentar derrubá-los, mas foram esmagados à custa de prisão, tortura e mortes; e que, em outro, fomos às ruas aos milhões exigindo eleições diretas — em vão. Derrotados, conformamo-nos em esperar que os milicos se cansassem e nos devolvessem o país.
No futuro, outro adolescente perguntará por que aturamos viver sob Jair Bolsonaro durante quatro anos se, já no dia de sua posse, em 2019, ele declarou que iria destruir tudo para depois "reconstruir". Significava fazer do Brasil ruínas e imperar sobre elas no primeiro mandato e, no segundo, consolidar uma nova ordem legal de modo a se eternizar no poder. Para tanto, Bolsonaro passou quatro anos nos ameaçando com o Exército (o "seu Exército"), o feitor armado a seu serviço, pronto a um golpe para nos enquadrar.
Um dia, de fato, a constatação de que o Exército se deixou usar por um desclassificado será uma resposta. Mas não a única. Deveremos olhar para nós mesmos e perguntar por que, quando a situação exigia, não saímos às ruas para protestar, promover comícios, denunciar as fake news, apoiar a imprensa independente, a CPI da Covid e os ministros do STF e do TSE, chamar os liras e aras pelos nomes que mereciam, enfim, mostrar que existíamos —como os bolsonaristas de então e até hoje.
Não fizemos isso, e assim se passaram quatro anos.
Boa pergunta e difícil de responder. Alguém explicou que os militares não estavam sozinhos, que contavam com civis dispostos a alterar e corromper as instituições para lhes dar respaldo jurídico. Que, em certo momento, rapazes e moças, com coragem e ingenuidade suicidas, pegaram em armas para tentar derrubá-los, mas foram esmagados à custa de prisão, tortura e mortes; e que, em outro, fomos às ruas aos milhões exigindo eleições diretas — em vão. Derrotados, conformamo-nos em esperar que os milicos se cansassem e nos devolvessem o país.
No futuro, outro adolescente perguntará por que aturamos viver sob Jair Bolsonaro durante quatro anos se, já no dia de sua posse, em 2019, ele declarou que iria destruir tudo para depois "reconstruir". Significava fazer do Brasil ruínas e imperar sobre elas no primeiro mandato e, no segundo, consolidar uma nova ordem legal de modo a se eternizar no poder. Para tanto, Bolsonaro passou quatro anos nos ameaçando com o Exército (o "seu Exército"), o feitor armado a seu serviço, pronto a um golpe para nos enquadrar.
Um dia, de fato, a constatação de que o Exército se deixou usar por um desclassificado será uma resposta. Mas não a única. Deveremos olhar para nós mesmos e perguntar por que, quando a situação exigia, não saímos às ruas para protestar, promover comícios, denunciar as fake news, apoiar a imprensa independente, a CPI da Covid e os ministros do STF e do TSE, chamar os liras e aras pelos nomes que mereciam, enfim, mostrar que existíamos —como os bolsonaristas de então e até hoje.
Não fizemos isso, e assim se passaram quatro anos.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2023
Feliz Nova Década, Brasil
Neste momento, em que iniciamos um novo tempo, é esperançoso ouvir o novo presidente dizer que foi eleito para reduzir a desigualdade social; e vê-lo chorar no instante em que se refere aos que ficam nas esquinas pedindo ajuda para comer. Desejo que nesta década o país saia do mapa da fome para não voltar e enfrente o problema estrutural da desnutrição, ao lado da abundância e do desperdício.Para isto, desejo o Brasil entender que a mãe da desigualdade social está na desigualdade educacional.
Que, ao longo da próxima década, implantemos um sistema público de educação para nossas crianças, todas elas; nenhum talento desperdiçado por falta de escola com a máxima e mesma qualidade para cada uma delas, independente da renda e do endereço da família.
A população educada aumentará a riqueza nacional e fará a distribuição entre todos, não apenas para uma minoria privilegiada.
Para tanto, recuperemos e inspiremos confiança graças à responsabilidade como trataremos nossos recursos humanos, naturais e fiscais. Não usando mais do que é sustentável nas florestas, rios e finanças; e formando o maior de nossos recursos: o talento de cada brasileiro. Ao cuidarmos de nossos recursos, adquirirmos e passarmos confiança, teremos o futuro que desejamos e é possível, se tivermos uma década que aproveite a força e o equilíbrio da democracia.
Desejo que o Brasil não relaxe na prática da democracia e no respeito às nossas instituições. Para tanto, que a democracia não se suicide pela tentação autoritária, nem pelos devaneios corporativos, nem pela depredação de nossos recursos: nossas florestas derrubadas, nossas finanças desrespeitadas, nossos cérebros incinerados por falta de escola na hora certa. Neste primeiro ano depois do bicentenário,
desejo que a democracia não seja sequestrada por militares sem consciência de que as armas devem ser submissas às urnas; nem por civis sem patriotismo que submetem o país aos interesses de classes.
Desejo que o talento beneficie cada um conforme o esforço e a vocação, mas sem beneficiar-se por vantagens contrárias aos interesses nacionais, nem às necessidades das camadas mais pobres. Que o Estado não restrinja o talento, nem o esforço de cada um, nem o empreendedorismo que aumenta o produto social do país; nem que esta riqueza se mantenha a concentrada, beneficiando a poucos, como tem sido nas 52 décadas passadas de nossa história; e que nossas organizações estatais sejam eficientes, sem privilégios, nem mordomias para seus dirigentes. Que o futuro se recuse a manter privilégios injustos das elites dirigentes, e respeite os direitos e tradições dos povos originários.
Desejo que o governo que se inicia cumpra as esperanças com que foi eleito. E o país vença ao reacionarismo, ao negacionismo, aos preconceitos, ao anti-humanismo disfarçado de patriotismo, ao corporativismo disfarçado de democracia e ao populismo disfarçado de popular.
Feliz Nova Década, Brasil, e que, depois desta, estes desejos fiquem desnecessários, por terem sido atendidos.
Que, ao longo da próxima década, implantemos um sistema público de educação para nossas crianças, todas elas; nenhum talento desperdiçado por falta de escola com a máxima e mesma qualidade para cada uma delas, independente da renda e do endereço da família.
A população educada aumentará a riqueza nacional e fará a distribuição entre todos, não apenas para uma minoria privilegiada.
Para tanto, recuperemos e inspiremos confiança graças à responsabilidade como trataremos nossos recursos humanos, naturais e fiscais. Não usando mais do que é sustentável nas florestas, rios e finanças; e formando o maior de nossos recursos: o talento de cada brasileiro. Ao cuidarmos de nossos recursos, adquirirmos e passarmos confiança, teremos o futuro que desejamos e é possível, se tivermos uma década que aproveite a força e o equilíbrio da democracia.
Desejo que o Brasil não relaxe na prática da democracia e no respeito às nossas instituições. Para tanto, que a democracia não se suicide pela tentação autoritária, nem pelos devaneios corporativos, nem pela depredação de nossos recursos: nossas florestas derrubadas, nossas finanças desrespeitadas, nossos cérebros incinerados por falta de escola na hora certa. Neste primeiro ano depois do bicentenário,
desejo que a democracia não seja sequestrada por militares sem consciência de que as armas devem ser submissas às urnas; nem por civis sem patriotismo que submetem o país aos interesses de classes.
Desejo que o talento beneficie cada um conforme o esforço e a vocação, mas sem beneficiar-se por vantagens contrárias aos interesses nacionais, nem às necessidades das camadas mais pobres. Que o Estado não restrinja o talento, nem o esforço de cada um, nem o empreendedorismo que aumenta o produto social do país; nem que esta riqueza se mantenha a concentrada, beneficiando a poucos, como tem sido nas 52 décadas passadas de nossa história; e que nossas organizações estatais sejam eficientes, sem privilégios, nem mordomias para seus dirigentes. Que o futuro se recuse a manter privilégios injustos das elites dirigentes, e respeite os direitos e tradições dos povos originários.
Desejo que o governo que se inicia cumpra as esperanças com que foi eleito. E o país vença ao reacionarismo, ao negacionismo, aos preconceitos, ao anti-humanismo disfarçado de patriotismo, ao corporativismo disfarçado de democracia e ao populismo disfarçado de popular.
Feliz Nova Década, Brasil, e que, depois desta, estes desejos fiquem desnecessários, por terem sido atendidos.
Compromisso com o erro derrotou Bolsonaro
A frase é do presidente Juscelino Kubistchek, o fundador de Brasília:
“Costumo voltar atrás, sim, não tenho compromisso com o erro!”.
Os versos são do compositor, cantor e músico Raul Seixas, um dos pioneiros do rock brasileiro:
“Eu prefiro ser essa Metamorfose Ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”.
Quando governou o Brasil pela primeira vez, Lula admitiu que era uma metamorfose ambulante. Seus adversários, então, o acusaram de querer dizer com isso que não tinha compromisso com as próprias ideias, ou que não tinha ideias. Erraram.
Lula quis apenas atualizar a frase de Juscelino. Por exemplo: ao dar-se conta do erro que foi o mensalão do PT, recuou e desculpou-se. Em seguida, demitiu José Dirceu de Oliveira, chefe da Casa Civil do governo, que mais tarde seria cassado pela Câmara.
No ano seguinte, demitiu Antonio Palocci, ministro da Fazenda, o queridinho da imprensa e do mercado financeiro, envolvido no escândalo da quebra do sigilo bancário de um caseiro que o vira numa mansão palco de tenebrosas transações e de farras épicas.
Em seguida, Lula reelegeu-se, elegeu Dilma e a reelegeu. Condenado, preso, solto, contrariou os que esperavam estar de volta um homem repleto de feridas, vingativo e com gosto de sangue na boca. Bolsonaro foi um dos que se enganaram:
“Se o cara voltar, José Dirceu irá para a Casa Civil, e Dilma para o Ministério da Defesa?”
Dirceu fez parte da turma sem convite para a posse do último domingo; para o Ministério da Defesa foi José Múcio Monteiro, líder do PTB de Roberto Jefferson à época do mensalão. Se Lula quiser e ela topar, Dilma será embaixadora do Brasil na Argentina.
Compromisso com o erro foi o que derrotou Bolsonaro do “morram os que tiverem de morrer”, das armas que foram parar nas mãos do crime organizado, do enfrentamento com a Justiça, dos atos hostis à democracia e do regime autoritário à vista.
Bolsonaro celebrou a chegada do Ano Novo comendo sanduíche de frango frito em uma rede de fast food do KFC, em Orlando, onde se refugiou com medo de ser preso. Lula, ontem, começou a despachar no Palácio do Planalto, previamente dedetizado.
Na galeria dos presidentes do palácio, a foto de Bolsonaro está em preto e branco. Colorida só a foto do presidente que ocupa o cargo.
“Costumo voltar atrás, sim, não tenho compromisso com o erro!”.
Os versos são do compositor, cantor e músico Raul Seixas, um dos pioneiros do rock brasileiro:
“Eu prefiro ser essa Metamorfose Ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”.
Quando governou o Brasil pela primeira vez, Lula admitiu que era uma metamorfose ambulante. Seus adversários, então, o acusaram de querer dizer com isso que não tinha compromisso com as próprias ideias, ou que não tinha ideias. Erraram.
Lula quis apenas atualizar a frase de Juscelino. Por exemplo: ao dar-se conta do erro que foi o mensalão do PT, recuou e desculpou-se. Em seguida, demitiu José Dirceu de Oliveira, chefe da Casa Civil do governo, que mais tarde seria cassado pela Câmara.
No ano seguinte, demitiu Antonio Palocci, ministro da Fazenda, o queridinho da imprensa e do mercado financeiro, envolvido no escândalo da quebra do sigilo bancário de um caseiro que o vira numa mansão palco de tenebrosas transações e de farras épicas.
Em seguida, Lula reelegeu-se, elegeu Dilma e a reelegeu. Condenado, preso, solto, contrariou os que esperavam estar de volta um homem repleto de feridas, vingativo e com gosto de sangue na boca. Bolsonaro foi um dos que se enganaram:
“Se o cara voltar, José Dirceu irá para a Casa Civil, e Dilma para o Ministério da Defesa?”
Dirceu fez parte da turma sem convite para a posse do último domingo; para o Ministério da Defesa foi José Múcio Monteiro, líder do PTB de Roberto Jefferson à época do mensalão. Se Lula quiser e ela topar, Dilma será embaixadora do Brasil na Argentina.
Compromisso com o erro foi o que derrotou Bolsonaro do “morram os que tiverem de morrer”, das armas que foram parar nas mãos do crime organizado, do enfrentamento com a Justiça, dos atos hostis à democracia e do regime autoritário à vista.
Bolsonaro celebrou a chegada do Ano Novo comendo sanduíche de frango frito em uma rede de fast food do KFC, em Orlando, onde se refugiou com medo de ser preso. Lula, ontem, começou a despachar no Palácio do Planalto, previamente dedetizado.
Na galeria dos presidentes do palácio, a foto de Bolsonaro está em preto e branco. Colorida só a foto do presidente que ocupa o cargo.
Matemos os pobres!
Fazia quinze dias que eu estava exilado no meu quarto, cercado de livros em voga na época, isto é, há dezesseis ou dezessete anos atrás. Refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos, em vinte e quatro horas. Eu digerira, ou melhor, engolira todas as elucubrações de todos esses empresários da felicidade pública, que aconselham os pobres a se tornarem escravos, e de todos os que procuram convencê-los de que são reis destronados. Não será de admirar que eu estivesse, então, num estado de espírito que se aproximava da vertigem ou da estupidez.
Confinado no fundo do meu intelecto, apenas sentia o gérmen obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de boa mulher, cujo dicionário eu acabara de percorrer. Mas, era simplesmente a ideia de uma ideia, alguma coisa de infinitamente vago.
Afinal, saí com uma grande sede. O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional do ar livre e dos refrescos.
Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar ao meu ouvido, uma voz que reconheci bem: era a voz de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda parte. Se Sócrates tinha o seu bom Demônio, porque não teria eu o meu Anjo bom, e porque não teria a honra, como Sócrates, de obter o meu título de loucura, assinado pelo sutil Lelut e pelo circunspecto Baillarger? Entre o Demônio de Sócrates e o meu, existe uma diferença: é que o de Sócrates só se manifestava para evitar, impedir, avisar, ao passo que o meu se digna aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates tinha apenas um demônio proibidor, e o meu é um grande afirmador, um Demônio de ação, ou de combate.
Mas, aquela voz murmurava-me o seguinte: — Só é igual de outrem quem o prova, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la.
Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco, tapei-lhe um olho, que ficou, num segundo, grande como uma bola. Parti uma unha quebrando-lhe os dentes e, como não me sentisse bastante forte, por ter nascido franzino e ser pouco exercitado no box, para liquidar rapidamente o velhote, peguei-o com uma das mãos pela gola do casaco e, com a outra, apertei-lhe a garganta e pus-me a sacudir vigorosamente a cabeça contra um muro. Devo confessar que tomara a preocupação de inspecionar os arredores com um rápido olhar e que verificara que, naquele arrabalde deserto, estaria muito tempo fora do alcance de algum agente de polícia.
Depois, com um pontapé nas costas, bastante violento para quebrar-lhe as omoplatas, joguei por terra o enfraquecido sexagenário e, empunhando um grosso galho de árvore que estava no chão, bati-lhe com a energia dos cozinheiros, quando querem amolecer um bife.
De repente, — oh milagre! Oh satisfação do filósofo que verifica a excelência de sua teoria! — vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com uma energia que eu jamais teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada. E, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o decrépito vagabundo atirou-se sobre mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, me bateu até mais não poder. Com minha enérgica medicação, eu lhe dera o orgulho e a vida.
Esforcei-me, então, por lhe fazer compreender que considerava a discussão acabada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, disse-lhe o seguinte: — Cavalheiro, o sr. é meu igual! Queira dar-me a honra de partilhar comigo a minha bolsa. E, se é realmente filantropo, lembre-se de que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem uma esmola, a teoria que eu tive o pesar de pôr à prova em suas costas.
Ele jurou que tinha compreendido minha teoria e que obedeceria ao meu conselho.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Confinado no fundo do meu intelecto, apenas sentia o gérmen obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de boa mulher, cujo dicionário eu acabara de percorrer. Mas, era simplesmente a ideia de uma ideia, alguma coisa de infinitamente vago.
Afinal, saí com uma grande sede. O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional do ar livre e dos refrescos.
Ao entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu, lançando-me um desses olhares inesquecíveis que seriam capazes de derrubar os tronos, se o espírito pudesse abalar a matéria e se os olhos de um magnetizador lograssem amadurecer as uvas.
Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar ao meu ouvido, uma voz que reconheci bem: era a voz de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda parte. Se Sócrates tinha o seu bom Demônio, porque não teria eu o meu Anjo bom, e porque não teria a honra, como Sócrates, de obter o meu título de loucura, assinado pelo sutil Lelut e pelo circunspecto Baillarger? Entre o Demônio de Sócrates e o meu, existe uma diferença: é que o de Sócrates só se manifestava para evitar, impedir, avisar, ao passo que o meu se digna aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates tinha apenas um demônio proibidor, e o meu é um grande afirmador, um Demônio de ação, ou de combate.
Mas, aquela voz murmurava-me o seguinte: — Só é igual de outrem quem o prova, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la.
Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco, tapei-lhe um olho, que ficou, num segundo, grande como uma bola. Parti uma unha quebrando-lhe os dentes e, como não me sentisse bastante forte, por ter nascido franzino e ser pouco exercitado no box, para liquidar rapidamente o velhote, peguei-o com uma das mãos pela gola do casaco e, com a outra, apertei-lhe a garganta e pus-me a sacudir vigorosamente a cabeça contra um muro. Devo confessar que tomara a preocupação de inspecionar os arredores com um rápido olhar e que verificara que, naquele arrabalde deserto, estaria muito tempo fora do alcance de algum agente de polícia.
Depois, com um pontapé nas costas, bastante violento para quebrar-lhe as omoplatas, joguei por terra o enfraquecido sexagenário e, empunhando um grosso galho de árvore que estava no chão, bati-lhe com a energia dos cozinheiros, quando querem amolecer um bife.
De repente, — oh milagre! Oh satisfação do filósofo que verifica a excelência de sua teoria! — vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com uma energia que eu jamais teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada. E, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o decrépito vagabundo atirou-se sobre mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, me bateu até mais não poder. Com minha enérgica medicação, eu lhe dera o orgulho e a vida.
Esforcei-me, então, por lhe fazer compreender que considerava a discussão acabada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, disse-lhe o seguinte: — Cavalheiro, o sr. é meu igual! Queira dar-me a honra de partilhar comigo a minha bolsa. E, se é realmente filantropo, lembre-se de que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem uma esmola, a teoria que eu tive o pesar de pôr à prova em suas costas.
Ele jurou que tinha compreendido minha teoria e que obedeceria ao meu conselho.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Policarpo Quaresma, patriota arrependido
Um dia após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subir a rampa do Palácio do Planalto, a ala radical dos apoiadores de seu antecessor, Jair Bolsonaro, que pedia intervenção militar para impedir a posse do petista, levantou o acampamento diante do quartel-general em Brasília. Muitos recolheram as armas após o choque de realidade dos últimos dias.
Na “live” de despedida, Bolsonaro jogou um balde de água fria sobre os bolsonaristas inconformados: condenou a “tentativa de ato terrorista” em Brasília, em alusão à bomba plantada para explodir no aeroporto, alertou que o mundo não vai “acabar no dia 1º ” e rechaçou a ideia de partirem para o “tudo ou nada”.
No dia seguinte, foi a vez do então presidente em exercício, Hamilton Mourão, em rede nacional de televisão, criticar as lideranças cujo silêncio contribuiu para o clima de “caos e desagregação”, em recado velado a Bolsonaro. Observou que a “alternância do poder em uma democracia é saudável” e fez um apelo à paz nacional: “tranquilizemo-nos, retornemos à normalidade da vida”.
As mensagens de Bolsonaro e Mourão estimularam os amotinados na frente dos quartéis a se renderem à democracia. É provável que alguns deles retornaram aos seus lares questionando os excessos de um patriotismo superficial, marcado pelo “slogan” “Deus, pátria e família”, que representa apenas uma parcela da sociedade.
A imagem de um grupo de apoiadores do ex-presidente em conflito com um patriotismo notadamente desvirtuado convida a uma viagem no tempo, ao ano de 1915, quando Lima Barreto publicou o romance “Triste fim de Policarpo Quaresma”. A obra foi considerada pelos críticos como a denúncia de um patriotismo “romântico e artificial” alimentado pelas elites e da frágil democracia no começo da República.
É oportuna a menção ao romance quando acabamos de celebrar o centenário de morte de Lima Barreto, ocorrido em novembro de 2022. O escritor vivenciou os anos da primeira República em que as promessas de igualdade e justiça social converteram-se em mais exclusão e rebeliões no país.
O final do século XIX era o cenário da jornada do Major Policarpo Quaresma, avesso a estrangeirismos, e obcecado pela busca da língua e dos costumes verdadeiramente nacionais. Essa obsessão o levava a situações insólitas, tal qual alguns bolsonaristas expostos ao frio e à chuva, em nome de uma causa ilegal e antidemocrática.
Se alguém estendia a mão para cumprimentá-lo, o Major a recolhia, desatava a chorar e a esgoelar. Alegava que o aperto de mãos é fruto de estrangeirismos e que o cumprimento brasileiro deveria ser como o dos tupinambás, que choravam ao rever os amigos.
Contrário ao “petit-pois”, ele substituía as ervilhas pelo “feijão guandu”. Acreditava que a língua portuguesa era um empréstimo dos portugueses. Por isso, enviou ofício suplicando ao Congresso que decretasse o tupi-guarani como língua oficial. Acabou internado em um hospício.
Após uma audiência com o Marechal Floriano Peixoto, alistou-se no Exército para lutar na Revolta da Armada contra os inimigos da República. Ao fim, desapontou-se com a guerra, foi acusado de traição e terminou os seus dias na cadeia, questionando o patriotismo que o inspirou e o guiou por toda a vida.
A historiadora e escritora Lilia Schwarcz, autora de “Lima Barreto - Triste Visionário”, ressaltou em conversa com a coluna que não é possível comparar o patriotismo do Major Policarpo com o lema “Deus, pátria, família” dos seguidores de Bolsonaro.
“Policarpo era um personagem que acreditava num outro Brasil”, explica a professora da USP. “Ele imaginou que a República traria liberdade, igualdade, mais valores brasileiros e encontrou um país estrangeirado, como Lima Barreto costumava dizer. Um país que viveu um estado de sítio”.
Para a historiadora, o patriotismo de Policarpo, que também era o de Lima Barreto, era “muito positivo”. Ela sublinha que não é contra o “patriotismo”, mas se opõe à “patriotada”, ou seja, “quando a pátria vira um slogan, que representa apenas um grupo da sociedade, que é o que aconteceu no Brasil de 2018 a 2022”.
Lima Barreto já nos anos de 1920 defendia um Brasil “mais amplo e mais plural”. Criticou a discriminação racial no período pós-abolição, era titular da coluna “não as matem”, em defesa das mulheres, e era crítico ao “jornalismo de Estado”. Cunhou o termo “patriotada” nos textos que assinou sobre o centenário da Independência em 1922. Afirmava que os brasileiros foram “contaminados pelo vírus da patriotada”, ao tecer críticas contumazes ao autoritarismo, à intolerância e ao fanatismo.
Questionada sobre o que Lima Barreto diria sobre os grupos de patriotas radicais que seguem Bolsonaro - e que não representam a totalidade dos apoiadores do ex-presidente -, a professora da USP afirma que o escritor seria “um crítico do militarismo do governo Bolsonaro”.
Lilia Schwarcz viajou a Brasília para a inauguração da exposição “Brasil Futuro: as Formas da Democracia”, no Museu Nacional da República, da qual é uma das curadoras. Concebida para dialogar com o governo de transição, a exposição reúne 180 obras de mais de uma centena de artistas, como Adriana Varejão e Ailton Krenak. A mostra propõe-se a apresentar os artistas que foram tão prejudicados “pelo desmonte da cultura e que sofreram com a censura” no atual governo.
Um dos símbolos da exposição o óleo sobre tela “Orixás”, da conceituada artista Djanira, que foi retirada do palácio na gestão Bolsonaro. Os curadores da exposição encontraram “um furo na tela”, provavelmente feito com uma caneta. “Isso mostra o desprezo que esse governo teve aos artistas”, criticou.
Os curadores querem, com a exposição, provocar a emoção e a reflexão sobre as várias faces da democracia. “Eu penso como Mário Pedrosa, nos momentos de crise, o melhor a se fazer é ficar perto dos artistas”. Pedrosa sustentava que a arte e a política são as duas formas mais elevadas da expressão humana. Lima Barreto conciliou ambas ao narrar a triste saga do patriota romântico Policarpo Quaresma.
Na “live” de despedida, Bolsonaro jogou um balde de água fria sobre os bolsonaristas inconformados: condenou a “tentativa de ato terrorista” em Brasília, em alusão à bomba plantada para explodir no aeroporto, alertou que o mundo não vai “acabar no dia 1º ” e rechaçou a ideia de partirem para o “tudo ou nada”.
No dia seguinte, foi a vez do então presidente em exercício, Hamilton Mourão, em rede nacional de televisão, criticar as lideranças cujo silêncio contribuiu para o clima de “caos e desagregação”, em recado velado a Bolsonaro. Observou que a “alternância do poder em uma democracia é saudável” e fez um apelo à paz nacional: “tranquilizemo-nos, retornemos à normalidade da vida”.
As mensagens de Bolsonaro e Mourão estimularam os amotinados na frente dos quartéis a se renderem à democracia. É provável que alguns deles retornaram aos seus lares questionando os excessos de um patriotismo superficial, marcado pelo “slogan” “Deus, pátria e família”, que representa apenas uma parcela da sociedade.
É oportuna a menção ao romance quando acabamos de celebrar o centenário de morte de Lima Barreto, ocorrido em novembro de 2022. O escritor vivenciou os anos da primeira República em que as promessas de igualdade e justiça social converteram-se em mais exclusão e rebeliões no país.
O final do século XIX era o cenário da jornada do Major Policarpo Quaresma, avesso a estrangeirismos, e obcecado pela busca da língua e dos costumes verdadeiramente nacionais. Essa obsessão o levava a situações insólitas, tal qual alguns bolsonaristas expostos ao frio e à chuva, em nome de uma causa ilegal e antidemocrática.
Se alguém estendia a mão para cumprimentá-lo, o Major a recolhia, desatava a chorar e a esgoelar. Alegava que o aperto de mãos é fruto de estrangeirismos e que o cumprimento brasileiro deveria ser como o dos tupinambás, que choravam ao rever os amigos.
Contrário ao “petit-pois”, ele substituía as ervilhas pelo “feijão guandu”. Acreditava que a língua portuguesa era um empréstimo dos portugueses. Por isso, enviou ofício suplicando ao Congresso que decretasse o tupi-guarani como língua oficial. Acabou internado em um hospício.
Após uma audiência com o Marechal Floriano Peixoto, alistou-se no Exército para lutar na Revolta da Armada contra os inimigos da República. Ao fim, desapontou-se com a guerra, foi acusado de traição e terminou os seus dias na cadeia, questionando o patriotismo que o inspirou e o guiou por toda a vida.
A historiadora e escritora Lilia Schwarcz, autora de “Lima Barreto - Triste Visionário”, ressaltou em conversa com a coluna que não é possível comparar o patriotismo do Major Policarpo com o lema “Deus, pátria, família” dos seguidores de Bolsonaro.
“Policarpo era um personagem que acreditava num outro Brasil”, explica a professora da USP. “Ele imaginou que a República traria liberdade, igualdade, mais valores brasileiros e encontrou um país estrangeirado, como Lima Barreto costumava dizer. Um país que viveu um estado de sítio”.
Para a historiadora, o patriotismo de Policarpo, que também era o de Lima Barreto, era “muito positivo”. Ela sublinha que não é contra o “patriotismo”, mas se opõe à “patriotada”, ou seja, “quando a pátria vira um slogan, que representa apenas um grupo da sociedade, que é o que aconteceu no Brasil de 2018 a 2022”.
Lima Barreto já nos anos de 1920 defendia um Brasil “mais amplo e mais plural”. Criticou a discriminação racial no período pós-abolição, era titular da coluna “não as matem”, em defesa das mulheres, e era crítico ao “jornalismo de Estado”. Cunhou o termo “patriotada” nos textos que assinou sobre o centenário da Independência em 1922. Afirmava que os brasileiros foram “contaminados pelo vírus da patriotada”, ao tecer críticas contumazes ao autoritarismo, à intolerância e ao fanatismo.
Questionada sobre o que Lima Barreto diria sobre os grupos de patriotas radicais que seguem Bolsonaro - e que não representam a totalidade dos apoiadores do ex-presidente -, a professora da USP afirma que o escritor seria “um crítico do militarismo do governo Bolsonaro”.
Lilia Schwarcz viajou a Brasília para a inauguração da exposição “Brasil Futuro: as Formas da Democracia”, no Museu Nacional da República, da qual é uma das curadoras. Concebida para dialogar com o governo de transição, a exposição reúne 180 obras de mais de uma centena de artistas, como Adriana Varejão e Ailton Krenak. A mostra propõe-se a apresentar os artistas que foram tão prejudicados “pelo desmonte da cultura e que sofreram com a censura” no atual governo.
Um dos símbolos da exposição o óleo sobre tela “Orixás”, da conceituada artista Djanira, que foi retirada do palácio na gestão Bolsonaro. Os curadores da exposição encontraram “um furo na tela”, provavelmente feito com uma caneta. “Isso mostra o desprezo que esse governo teve aos artistas”, criticou.
Os curadores querem, com a exposição, provocar a emoção e a reflexão sobre as várias faces da democracia. “Eu penso como Mário Pedrosa, nos momentos de crise, o melhor a se fazer é ficar perto dos artistas”. Pedrosa sustentava que a arte e a política são as duas formas mais elevadas da expressão humana. Lima Barreto conciliou ambas ao narrar a triste saga do patriota romântico Policarpo Quaresma.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
A direita explosiva quis voltar
As delinquências confessadas por George Washington de Oliveira Sousa, gerente de um posto de gasolina no Pará, militante acampado diante do Quartel General do Exército, em Brasília, mostram que ele pretendia praticar um ato terrorista na capital. Pelo plano, explodiriam um caminhão de combustível nas proximidades do aeroporto. Outra bomba interromperia o fornecimento de energia de Taguatinga. Assim, dariam “início ao caos que levaria à decretação do estado de sítio”.
Bomba num pátio, corte de energia, caos... Mark Twain já ensinou: A História não se repete, mas rima.
Oliveira Sousa está preso e revelou ter articulado o crime com pelo menos três pessoas. Esse atentado, impedido pela ação da polícia civil de Brasília, bem como inúmeras ameaças, injetaram tensão na festa da posse do presidente Lula.
Nos anos 60 e 70 do século passado, o país teve um terrorismo de esquerda, com o sequestro de quatro diplomatas estrangeiros e a morte de dezenas de pessoas. Foram executados um empresário, um delegado, um capitão do exército americano e um major alemão, confundido com um capitão boliviano. A ditadura enfrentou esse surto com desproporcional violência. A tortura tomou-se política de Estado e foi seguida por uma diretriz de extermínio.
Em 1981, extinto o surto terrorista e dois anos depois da anistia, explodiu uma bomba no colo de um sargento do DOI do I Exército (atual Comando Militar do Leste). Ele acompanhava um capitão, seu superior. Era o atentado do Riocentro. Se as coisas corressem como se supõe que havia sido planejado, aquela bomba explodiria no estacionamento enquanto outra, jogada na estação de energia, cortaria a luz do show que se realizava no pavilhão. O episódio do Riocentro provocaria um caos e, quem sabe, levaria à decretação de medidas de emergência.
(A bomba que explodiu no colo do sargento matou-o, ferindo o capitão. A da estação de energia falhou.)
Passaram-se 41 anos, o capitão foi para a reserva como coronel. Na cena da bomba atirada contra a casa de força estava o coronel da reserva Freddie Perdigão Pereira, lotado no Serviço Nacional de Informações. Na tarde de 31 de março de 1964, o então tenente Perdigão foi mandado ao Palácio das Laranjeiras com um tanque, para proteger o presidente João Goulart. Ele morreu em 1996 durante uma cirurgia. Até hoje prevalece a versão de que nenhum militar tinha a ver com as explosões.
A prisão de Oliveira e Sousa e sua confissão recomendam que se revisite o terrorismo de direita. Ele foi beneficiado pela impunidade, mas foi revelado, à fartura, por alguns de seus personagens. Nada melhor que a leitura de “A Direita Explosiva no Brasil”, de José Argolo, Kátia Ribeiro e Luiz Alberto Fortunato. Publicado em 1996, contém uma coleção de depoimentos, com o coronel Alberto Fortunato como um de seus principais personagens.
Fortunato esteve em inúmeros episódios da anarquia militar da segunda metade do século XX. Na década de 1960 ele participou de cerca de 30 atentados. Articulava-se com colegas, empresários e políticos.
Em 1962, Fortunato preparou uma bomba com dez bananas de dinamite, deixadas no pavilhão de São Cristóvão, onde havia uma exposição de produtos da União Soviética. Militares que souberam do plano temeram que morresse gente e avisaram ao governo do Rio. Seis anos depois, o coronel atirou uma bomba na porta do Teatro Glaucio Gil, em Copacabana. Nele realizavam-se assembleias de artistas.
A essa altura Fortunato ligara-se a oficiais que serviam no Centro de Informações do Exército, o CIE, e a Hilário Corrales, um comerciante de madeira do Estácio, que se tornaria um bom amigo do major Freddie Perdigão, então lotado no CIE.
Durante o ano de 1968, antes da decretação do Ato Institucional nº 5, o grupo em que estavam oficiais do CIE explodiu 20 bombas no Rio.
O coronel Luiz Helvécio da Silveira Leite, do CIE, recordou o atentado contra o teatro Opinião:
“Foi tentado deixar uma bomba de retardo dentro do teatro, para explodir após a sessão. Eles estavam com uma vigilância muito aguçada sobre nossos agentes, que nem podiam se mexer. Optou-se então pela destruição total. Numa madrugada de chuva, com algumas cargas ocas e coquetéis molotovs, destruímos o teatro.”
Em 1970, o núcleo terrorista onde estava Fortunato pôs duas bombas na casa onde funcionava a redação do semanário O Pasquim e depois disso adormeceu.
Acordaram em 1976. Sequestraram um bispo, explodiram bancas de jornais, puseram uma bomba na porta da CNBB e outra na casa do jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo.
Em 1980, uma carta-bomba matou a secretária do presidente da OAB e, no DOI, alguém teve a ideia de explodir a casa de força do Riocentro. O oficial que chefiava a seção de operações do destacamento vetou o projeto.
Em abril de 1981, a ideia renasceu e, segundo o coronel Fortunato, Hilário Corrales fez a bomba que explodiria no colo do sargento.
Corrales fugiu para São Paulo, voltou ao Rio e morreu em julho do ano seguinte. Seu caixão foi levado por dois generais reformados e um oficial fez um inflamado discurso à beira do túmulo. No fim da vida, Corrales foi assistido pelo coronel Freddie Perdigão
O livro “A Direita Explosiva no Brasil” lista 32 atentados praticados entre 1968 e 1980 pelos grupos do coronel Fortunato e dos oficiais do CIE. Com o do Riocentro, são 33.
Nenhum desses atentados teve a autoria desvendada, mas tratava-se de um segredo de Polichinelo. Em três meses, o detetive particular Bechara Jalkh identificou a origem do explosivo e os autores do atentado à casa de Roberto Marinho. Comandantes militares da época e generais do Palácio do Planalto sabiam quem fazia o que. Uns achavam que lhes convinha, outros acreditavam que aquilo passaria, pois era coisa de “radicais sinceros”. (Uma carta identificando o automóvel do qual saiu o cidadão que explodiu uma banca de jornais foi engavetada.)
As bombas do Riocentro abalaram o regime e a disciplina das Forças Armadas. Foram necessárias décadas para recolocar a imagem dos militares no devido lugar.
Se o primeiro atentado da “Direita Explosiva” tivesse sido investigado e seus autores punidos na letra da lei e dos regulamentos, o Brasil, a Justiça e as Forças Armadas teriam lucrado.
Depois de quatro anos de tensões inúteis e administração errática, o Brasil vive hoje a festa da democracia com a posse do presidente eleito.
A qualidade de um governo só se avalia quando ele começa a funcionar. Como ensina o professor Delfim Netto:
“Hoje começa a lua de mel do novo presidente com o poder. Amanhã, segunda-feira, ele terá que abrir a quitanda às nove da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco na caixa para atender a freguesia.
Pelos próximos quatro anos a rotina essencial será a mesma: abrir a quitanda, com berinjelas e troco.
Todos os desastres da economia brasileira deram-se quando deixou-se de prestar atenção na economia da loja.”
Bomba num pátio, corte de energia, caos... Mark Twain já ensinou: A História não se repete, mas rima.
Oliveira Sousa está preso e revelou ter articulado o crime com pelo menos três pessoas. Esse atentado, impedido pela ação da polícia civil de Brasília, bem como inúmeras ameaças, injetaram tensão na festa da posse do presidente Lula.
Nos anos 60 e 70 do século passado, o país teve um terrorismo de esquerda, com o sequestro de quatro diplomatas estrangeiros e a morte de dezenas de pessoas. Foram executados um empresário, um delegado, um capitão do exército americano e um major alemão, confundido com um capitão boliviano. A ditadura enfrentou esse surto com desproporcional violência. A tortura tomou-se política de Estado e foi seguida por uma diretriz de extermínio.
Em 1981, extinto o surto terrorista e dois anos depois da anistia, explodiu uma bomba no colo de um sargento do DOI do I Exército (atual Comando Militar do Leste). Ele acompanhava um capitão, seu superior. Era o atentado do Riocentro. Se as coisas corressem como se supõe que havia sido planejado, aquela bomba explodiria no estacionamento enquanto outra, jogada na estação de energia, cortaria a luz do show que se realizava no pavilhão. O episódio do Riocentro provocaria um caos e, quem sabe, levaria à decretação de medidas de emergência.
(A bomba que explodiu no colo do sargento matou-o, ferindo o capitão. A da estação de energia falhou.)
Passaram-se 41 anos, o capitão foi para a reserva como coronel. Na cena da bomba atirada contra a casa de força estava o coronel da reserva Freddie Perdigão Pereira, lotado no Serviço Nacional de Informações. Na tarde de 31 de março de 1964, o então tenente Perdigão foi mandado ao Palácio das Laranjeiras com um tanque, para proteger o presidente João Goulart. Ele morreu em 1996 durante uma cirurgia. Até hoje prevalece a versão de que nenhum militar tinha a ver com as explosões.
A “Explosiva” detonou a direita
A prisão de Oliveira e Sousa e sua confissão recomendam que se revisite o terrorismo de direita. Ele foi beneficiado pela impunidade, mas foi revelado, à fartura, por alguns de seus personagens. Nada melhor que a leitura de “A Direita Explosiva no Brasil”, de José Argolo, Kátia Ribeiro e Luiz Alberto Fortunato. Publicado em 1996, contém uma coleção de depoimentos, com o coronel Alberto Fortunato como um de seus principais personagens.
Fortunato esteve em inúmeros episódios da anarquia militar da segunda metade do século XX. Na década de 1960 ele participou de cerca de 30 atentados. Articulava-se com colegas, empresários e políticos.
Em 1962, Fortunato preparou uma bomba com dez bananas de dinamite, deixadas no pavilhão de São Cristóvão, onde havia uma exposição de produtos da União Soviética. Militares que souberam do plano temeram que morresse gente e avisaram ao governo do Rio. Seis anos depois, o coronel atirou uma bomba na porta do Teatro Glaucio Gil, em Copacabana. Nele realizavam-se assembleias de artistas.
A essa altura Fortunato ligara-se a oficiais que serviam no Centro de Informações do Exército, o CIE, e a Hilário Corrales, um comerciante de madeira do Estácio, que se tornaria um bom amigo do major Freddie Perdigão, então lotado no CIE.
Durante o ano de 1968, antes da decretação do Ato Institucional nº 5, o grupo em que estavam oficiais do CIE explodiu 20 bombas no Rio.
O coronel Luiz Helvécio da Silveira Leite, do CIE, recordou o atentado contra o teatro Opinião:
“Foi tentado deixar uma bomba de retardo dentro do teatro, para explodir após a sessão. Eles estavam com uma vigilância muito aguçada sobre nossos agentes, que nem podiam se mexer. Optou-se então pela destruição total. Numa madrugada de chuva, com algumas cargas ocas e coquetéis molotovs, destruímos o teatro.”
Em 1970, o núcleo terrorista onde estava Fortunato pôs duas bombas na casa onde funcionava a redação do semanário O Pasquim e depois disso adormeceu.
Acordaram em 1976. Sequestraram um bispo, explodiram bancas de jornais, puseram uma bomba na porta da CNBB e outra na casa do jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo.
Em 1980, uma carta-bomba matou a secretária do presidente da OAB e, no DOI, alguém teve a ideia de explodir a casa de força do Riocentro. O oficial que chefiava a seção de operações do destacamento vetou o projeto.
Em abril de 1981, a ideia renasceu e, segundo o coronel Fortunato, Hilário Corrales fez a bomba que explodiria no colo do sargento.
Corrales fugiu para São Paulo, voltou ao Rio e morreu em julho do ano seguinte. Seu caixão foi levado por dois generais reformados e um oficial fez um inflamado discurso à beira do túmulo. No fim da vida, Corrales foi assistido pelo coronel Freddie Perdigão
O livro “A Direita Explosiva no Brasil” lista 32 atentados praticados entre 1968 e 1980 pelos grupos do coronel Fortunato e dos oficiais do CIE. Com o do Riocentro, são 33.
Nenhum desses atentados teve a autoria desvendada, mas tratava-se de um segredo de Polichinelo. Em três meses, o detetive particular Bechara Jalkh identificou a origem do explosivo e os autores do atentado à casa de Roberto Marinho. Comandantes militares da época e generais do Palácio do Planalto sabiam quem fazia o que. Uns achavam que lhes convinha, outros acreditavam que aquilo passaria, pois era coisa de “radicais sinceros”. (Uma carta identificando o automóvel do qual saiu o cidadão que explodiu uma banca de jornais foi engavetada.)
As bombas do Riocentro abalaram o regime e a disciplina das Forças Armadas. Foram necessárias décadas para recolocar a imagem dos militares no devido lugar.
Se o primeiro atentado da “Direita Explosiva” tivesse sido investigado e seus autores punidos na letra da lei e dos regulamentos, o Brasil, a Justiça e as Forças Armadas teriam lucrado.
2023
Depois de quatro anos de tensões inúteis e administração errática, o Brasil vive hoje a festa da democracia com a posse do presidente eleito.
A qualidade de um governo só se avalia quando ele começa a funcionar. Como ensina o professor Delfim Netto:
“Hoje começa a lua de mel do novo presidente com o poder. Amanhã, segunda-feira, ele terá que abrir a quitanda às nove da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco na caixa para atender a freguesia.
Pelos próximos quatro anos a rotina essencial será a mesma: abrir a quitanda, com berinjelas e troco.
Todos os desastres da economia brasileira deram-se quando deixou-se de prestar atenção na economia da loja.”
De que serve a bondade
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht
A despedida inglória do capitão fracassado
Uma fascinante obra-prima renascentista pintada há mais de 500 anos pelo holandês Hieronymus Bosch mora no segundo andar da ala Richelieu do Museu do Louvre, em Paris. Batizado de “Nau dos insensatos”, o quadro a óleo sobre madeira é parte original de um tríptico que acabou separado ao longo dos séculos. Dizem os estudiosos que a “Nau” de Bosch foi inspirada na pena satírica de um humanista alemão do mesmo período, Sebastian Brant, que escrevera em verso uma paródia da Arca de Noé. Na alegoria de Brant, o mundo era a nau, e seus habitantes/viajantes não se importavam para onde eram levados. Agiam desprovidos de razão, inclusive o capitão — se é que havia um a bordo.
Na tela de Bosch há dez passageiros amontoados numa embarcação à deriva, além de dois outros já náufragos. Ninguém parece fazer coisa com coisa: uma freira toca alaúde, um beberrão vomita, outro rema com uma concha de cozinha, uma mulher golpeia um quase afogado com uma jarra. Pendurada na vela mestra, vê-se uma suculenta ave assada, e o mastro em forma de árvore abriga uma coruja, símbolo de maus augúrios na Idade Média. O desenho de uma lua crescente na bandeira da embarcação parece remeter à raiz latina da palavra lunático. Como um todo, a tela exprime o comentário social de Bosch sobre o viver de sua época. Ao retratar um grupo de loucos de esgar atormentado, perdidos no mar da vida, sem freios morais nem rumo, o quadro também poderia ilustrar os bolsões de brasileiros agarrados a pneus e mitos. Como não comparar a “Nau dos insensatos” aos últimos suspiros do governo Jair Bolsonaro?
A última live do presidente, poucas horas antes de sua fuga oficial rumo a Orlando em avião da Força Aérea Brasileira, foi patética. Mas bem ensaiada. Em 52 minutos, ele mentiu quanto quis e omitiu o que pôde. Voltou a questionar o sistema eleitoral e falou em “derrota parcial”. Acovardado pelo cerco judicial que se estreita contra ele e sua família, procurou desvencilhar-se de atos terroristas praticados em seu nome. Justificou o sumiço e a falta de apoio público à nau disposta a abraçar qualquer sinal de golpe militar; e qualificou os apoiadores radicalizados de “pacíficos” e “ordeiros”.
O procurador-geral da República, Augusto Aras, talvez definisse o teor da derradeira live do presidente em fuga como “momento de cognição incompleta”. Os seguidores mais extremistas do “mito” o tacharam de frouxo, enquanto outros tantos simplesmente inventaram nova teoria conspiratória: na ausência do capitão, o cavernoso general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, assumiria o golpe. Numa outra nau de insanidade bolsonarista, o hasteamento a meio pau da bandeira nacional, decretado como parte do luto nacional pela morte de Pelé, chegou a ser festejado como sinal de que o ansiado golpe militar estava finalmente em marcha. Tristes trópicos.
Para quem, em 1974, assistiu à humilhante partida da Casa Branca do presidente americano, Richard Nixon, obrigado a renunciar para evitar o impeachment, a saída à francesa de Bolsonaro entrará para a História como mais degradante ainda, por comezinha. Nixon teve a hombridade de encarar presencialmente a imprensa que o derrubou e permitiu que a História registrasse seu amargo embarque rumo ao exílio do poder. Bolsonaro, sendo quem é, manda dizer a seus 58 milhões de eleitores que vai dar um tempo — gozará um período sabático no estado trumpista da Flórida. “Sabático” é termo de uso frequente no mundo acadêmico para designar uma pausa no trabalho. É comum aproveitar essa suspensão da rotina para ampliar o conhecimento, engatar novos projetos ou simplesmente pensar melhor. Difícil imaginar que algo de produtivo ao bem comum brote na mente de Jair, agora cidadão comum, durante esse “sabático”. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, em 1.460 dias de mandato presidencial, Bolsonaro trabalhou 73 apenas meio período, participou de 63 motociatas e deu-se o direito de 15 períodos de férias ou feriadões fora de Brasília. Sem falar no abandono das funções por dois meses a partir da derrota eleitoral mal digerida.
É provável que, pelos cânones da necropolítica aplicada por Bolsonaro no Brasil democrático, a perda de poder seja por ele sentida quase como uma condenação à morte. Isso porque o presidente em fuga jamais compreendeu que a política não é uma profissão — ela deveria ser, no mundo ideal, a dedicação temporária de alguém a sua comunidade. Em missas fúnebres celebradas por igrejas cristãs, réquiem é sempre a primeira palavra do ritual dedicado ao repouso da alma de quem partiu. Não houve e não deverá haver réquiem na despedida inglória desse capitão fracassado. Ele deverá, primeiro, acertar suas dívidas com a nação que desmantelou para que o Brasil readquira, a partir deste domingo 1º de janeiro de 2023, o direito de trazer para o presente o futuro a que tem direito.
Na tela de Bosch há dez passageiros amontoados numa embarcação à deriva, além de dois outros já náufragos. Ninguém parece fazer coisa com coisa: uma freira toca alaúde, um beberrão vomita, outro rema com uma concha de cozinha, uma mulher golpeia um quase afogado com uma jarra. Pendurada na vela mestra, vê-se uma suculenta ave assada, e o mastro em forma de árvore abriga uma coruja, símbolo de maus augúrios na Idade Média. O desenho de uma lua crescente na bandeira da embarcação parece remeter à raiz latina da palavra lunático. Como um todo, a tela exprime o comentário social de Bosch sobre o viver de sua época. Ao retratar um grupo de loucos de esgar atormentado, perdidos no mar da vida, sem freios morais nem rumo, o quadro também poderia ilustrar os bolsões de brasileiros agarrados a pneus e mitos. Como não comparar a “Nau dos insensatos” aos últimos suspiros do governo Jair Bolsonaro?
A última live do presidente, poucas horas antes de sua fuga oficial rumo a Orlando em avião da Força Aérea Brasileira, foi patética. Mas bem ensaiada. Em 52 minutos, ele mentiu quanto quis e omitiu o que pôde. Voltou a questionar o sistema eleitoral e falou em “derrota parcial”. Acovardado pelo cerco judicial que se estreita contra ele e sua família, procurou desvencilhar-se de atos terroristas praticados em seu nome. Justificou o sumiço e a falta de apoio público à nau disposta a abraçar qualquer sinal de golpe militar; e qualificou os apoiadores radicalizados de “pacíficos” e “ordeiros”.
O procurador-geral da República, Augusto Aras, talvez definisse o teor da derradeira live do presidente em fuga como “momento de cognição incompleta”. Os seguidores mais extremistas do “mito” o tacharam de frouxo, enquanto outros tantos simplesmente inventaram nova teoria conspiratória: na ausência do capitão, o cavernoso general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, assumiria o golpe. Numa outra nau de insanidade bolsonarista, o hasteamento a meio pau da bandeira nacional, decretado como parte do luto nacional pela morte de Pelé, chegou a ser festejado como sinal de que o ansiado golpe militar estava finalmente em marcha. Tristes trópicos.
Para quem, em 1974, assistiu à humilhante partida da Casa Branca do presidente americano, Richard Nixon, obrigado a renunciar para evitar o impeachment, a saída à francesa de Bolsonaro entrará para a História como mais degradante ainda, por comezinha. Nixon teve a hombridade de encarar presencialmente a imprensa que o derrubou e permitiu que a História registrasse seu amargo embarque rumo ao exílio do poder. Bolsonaro, sendo quem é, manda dizer a seus 58 milhões de eleitores que vai dar um tempo — gozará um período sabático no estado trumpista da Flórida. “Sabático” é termo de uso frequente no mundo acadêmico para designar uma pausa no trabalho. É comum aproveitar essa suspensão da rotina para ampliar o conhecimento, engatar novos projetos ou simplesmente pensar melhor. Difícil imaginar que algo de produtivo ao bem comum brote na mente de Jair, agora cidadão comum, durante esse “sabático”. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, em 1.460 dias de mandato presidencial, Bolsonaro trabalhou 73 apenas meio período, participou de 63 motociatas e deu-se o direito de 15 períodos de férias ou feriadões fora de Brasília. Sem falar no abandono das funções por dois meses a partir da derrota eleitoral mal digerida.
É provável que, pelos cânones da necropolítica aplicada por Bolsonaro no Brasil democrático, a perda de poder seja por ele sentida quase como uma condenação à morte. Isso porque o presidente em fuga jamais compreendeu que a política não é uma profissão — ela deveria ser, no mundo ideal, a dedicação temporária de alguém a sua comunidade. Em missas fúnebres celebradas por igrejas cristãs, réquiem é sempre a primeira palavra do ritual dedicado ao repouso da alma de quem partiu. Não houve e não deverá haver réquiem na despedida inglória desse capitão fracassado. Ele deverá, primeiro, acertar suas dívidas com a nação que desmantelou para que o Brasil readquira, a partir deste domingo 1º de janeiro de 2023, o direito de trazer para o presente o futuro a que tem direito.
Posse de Lula simbolizou o resgate do poder civil
A cerimônia de posse de um presidente da República é um rito de passagem, que simboliza na democracia a ideia de um governo do povo para o povo. O papel das percepções sociais e das expectativas tem importância muito grande, porque o poder não deriva apenas da posse e do uso dos recursos do Estado, assegurados no plano institucional. A imagem social do governo exerce influência sobre o poder real. Há muitas leituras possíveis sobre a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem. Podemos enumerar as principais, sem grandes dificuldades.
Nesse aspecto, subliminarmente, caracterizou-se uma ruptura entre o governo Bolsonaro, que projetava a tutela das Forças Armadas sobre as instituições da democracia, e o restabelecimento pleno da ordem democrática, com a reencarnação do poder civil pela Presidência. Foram muitas as simbologias. O fato de ter desfilado em carro aberto ao lado da primeira-dama Janja e do vice Geraldo Alckmin, acompanhado da mulher Lu Alckmin, contrariou os que defendiam que fizesse o trajeto da Catedral de Brasília ao Congresso num carro blindado, Lula não renunciou ao calor humano da grande massa de militantes petistas que ocupou a Esplanada.
Venceu o medo de que houvesse um atentado, disseminado pelos bolsonaristas radicais, desde o frustrado atentado a bomba num caminhão tanque cheio de gasolina de aviação, nas imediações do Aeroporto de Brasília. Confiou no planejamento de segurança adotado em sua posse, na qual o Comando Militar do Planalto teve um papel fundamental. Entretanto, a escolta de Lula não foi feita por agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), mas pela Polícia Federal. Os batedores que abriram o cortejo presidencial eram motociclistas da Polícia Militar do Distrito Federal, e não do Batalhão de Guarda Presidencial ou do Corpo de Fuzileiros Navais.
No Plenário da Câmara, Lula reafirmou o compromisso com o combate às desigualdades e foi muito claro em demarcar terreno entre o seu governo, que simboliza o resgate do poder civil e a plenitude da democracia, e o projeto autoritário de Bolsonaro, que tinha a simpatia dos seus comandantes militares. Significativa foi ausência dos canhões da histórica Bateria Caiena, na cerimônia de passagem em vista dos destacamentos da Marinha, Exército e Aeronáutica. Os tradicionais tiros de canhão, que abrilhantavam a posse, supostamente não ocorreram para não assustar a cadela Resistência, adotada por Janja durante a vigília feita pelos petistas em Curitiba, em solidariedade a Lula quando estava preso.
Resistência subiu a rampa do Palácio do Planalto com Lula, ao lado de representantes dos movimentos identitários e populares. Mas quem roubou a cena foi o velho cacique kayapó Raoni Metuktire, desafeto de Bolsonaro e reverenciado internacionalmente. A imagem do presidente ao lado do maior líder indígena do país deve correr mundo, destacada pelos jornais e telejornais internacionais. Depois da nomeação de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente, nada é mais simbólico do compromisso de Lula com a questão ambiental do que a aliança com Raoni.
Além do cacique, mais sete representantes de movimentos sociais subiram a rampa, como a catadora Aline Sousa, que pôs a faixa presidencial em Lula, e o menino negro Francisco, de 10 anos. Aline trabalha recolhendo resíduos para reciclagem desde os 14 anos e é da terceira geração de catadores da família. Foi o momento mais emocionante da posse.
Um capítulo à parte foi o longo discurso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Confrontado com o discurso de Lula, ambos foram convergentes, mas estabeleceu uma agenda para o Congresso que servirá de balizamento para as relações do novo governo com o Parlamento. Sem dúvida, a principal linha de resistência do presidente à oposição é a base do governo no Senado.
Enquanto Pacheco assume a posição de aliado principal, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é um adversário à espreita, que pode inviabilizar o governo se Lula errar a mão na relação com o Centrão. Lira não conseguiu emplacar o deputado Elmar Nascimento (União-BA) no Ministério da Integração Nacional e tentou emparedar Lula na votação da PEC da Transição, mas acabou enfraquecido pela decisão do Supremo Tribunal Federal, que acabou com o chamado orçamento secreto. A presidente do STF, Rosa Weber, esbanjou sorrisos na posse, ao contrário do procurador-geral da República, Augusto Aras, aliado de Bolsonaro.
Ontem mesmo, Lula começou a usar a caneta cheia de tinta que ganhou de um petista do Piauí, na campanha eleitoral de 1989. Logo após tomar posse, revogou o decreto que permitia o garimpo em áreas indígenas e de proteção ambiental; suspendeu os sigilos sobre informações e documentos da administração pública na gestão Bolsonaro; e determinou a retirada do processo de privatização de estatais empresas — Empresa Brasil de Comunicação, Correios e Petrobras.
Também adotou medidas de caráter administrativo, como a nova organização da Presidência da República e dos ministérios; a ampliação do pagamento de R$ 600 do Auxílio Brasil (que volta a se chamar Bolsa Família) para as famílias mais pobres; a prorrogação da desoneração sobre os combustíveis; o restabelecimento do Fundo Amazônia e o combate ao desmatamento; e a garantia de inclusão à educação.
Nesse aspecto, subliminarmente, caracterizou-se uma ruptura entre o governo Bolsonaro, que projetava a tutela das Forças Armadas sobre as instituições da democracia, e o restabelecimento pleno da ordem democrática, com a reencarnação do poder civil pela Presidência. Foram muitas as simbologias. O fato de ter desfilado em carro aberto ao lado da primeira-dama Janja e do vice Geraldo Alckmin, acompanhado da mulher Lu Alckmin, contrariou os que defendiam que fizesse o trajeto da Catedral de Brasília ao Congresso num carro blindado, Lula não renunciou ao calor humano da grande massa de militantes petistas que ocupou a Esplanada.
Venceu o medo de que houvesse um atentado, disseminado pelos bolsonaristas radicais, desde o frustrado atentado a bomba num caminhão tanque cheio de gasolina de aviação, nas imediações do Aeroporto de Brasília. Confiou no planejamento de segurança adotado em sua posse, na qual o Comando Militar do Planalto teve um papel fundamental. Entretanto, a escolta de Lula não foi feita por agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), mas pela Polícia Federal. Os batedores que abriram o cortejo presidencial eram motociclistas da Polícia Militar do Distrito Federal, e não do Batalhão de Guarda Presidencial ou do Corpo de Fuzileiros Navais.
No Plenário da Câmara, Lula reafirmou o compromisso com o combate às desigualdades e foi muito claro em demarcar terreno entre o seu governo, que simboliza o resgate do poder civil e a plenitude da democracia, e o projeto autoritário de Bolsonaro, que tinha a simpatia dos seus comandantes militares. Significativa foi ausência dos canhões da histórica Bateria Caiena, na cerimônia de passagem em vista dos destacamentos da Marinha, Exército e Aeronáutica. Os tradicionais tiros de canhão, que abrilhantavam a posse, supostamente não ocorreram para não assustar a cadela Resistência, adotada por Janja durante a vigília feita pelos petistas em Curitiba, em solidariedade a Lula quando estava preso.
Resistência subiu a rampa do Palácio do Planalto com Lula, ao lado de representantes dos movimentos identitários e populares. Mas quem roubou a cena foi o velho cacique kayapó Raoni Metuktire, desafeto de Bolsonaro e reverenciado internacionalmente. A imagem do presidente ao lado do maior líder indígena do país deve correr mundo, destacada pelos jornais e telejornais internacionais. Depois da nomeação de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente, nada é mais simbólico do compromisso de Lula com a questão ambiental do que a aliança com Raoni.
Além do cacique, mais sete representantes de movimentos sociais subiram a rampa, como a catadora Aline Sousa, que pôs a faixa presidencial em Lula, e o menino negro Francisco, de 10 anos. Aline trabalha recolhendo resíduos para reciclagem desde os 14 anos e é da terceira geração de catadores da família. Foi o momento mais emocionante da posse.
Um capítulo à parte foi o longo discurso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Confrontado com o discurso de Lula, ambos foram convergentes, mas estabeleceu uma agenda para o Congresso que servirá de balizamento para as relações do novo governo com o Parlamento. Sem dúvida, a principal linha de resistência do presidente à oposição é a base do governo no Senado.
Enquanto Pacheco assume a posição de aliado principal, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é um adversário à espreita, que pode inviabilizar o governo se Lula errar a mão na relação com o Centrão. Lira não conseguiu emplacar o deputado Elmar Nascimento (União-BA) no Ministério da Integração Nacional e tentou emparedar Lula na votação da PEC da Transição, mas acabou enfraquecido pela decisão do Supremo Tribunal Federal, que acabou com o chamado orçamento secreto. A presidente do STF, Rosa Weber, esbanjou sorrisos na posse, ao contrário do procurador-geral da República, Augusto Aras, aliado de Bolsonaro.
Ontem mesmo, Lula começou a usar a caneta cheia de tinta que ganhou de um petista do Piauí, na campanha eleitoral de 1989. Logo após tomar posse, revogou o decreto que permitia o garimpo em áreas indígenas e de proteção ambiental; suspendeu os sigilos sobre informações e documentos da administração pública na gestão Bolsonaro; e determinou a retirada do processo de privatização de estatais empresas — Empresa Brasil de Comunicação, Correios e Petrobras.
Também adotou medidas de caráter administrativo, como a nova organização da Presidência da República e dos ministérios; a ampliação do pagamento de R$ 600 do Auxílio Brasil (que volta a se chamar Bolsa Família) para as famílias mais pobres; a prorrogação da desoneração sobre os combustíveis; o restabelecimento do Fundo Amazônia e o combate ao desmatamento; e a garantia de inclusão à educação.
sábado, 31 de dezembro de 2022
Regressando ao século XXI
Hoje, o mundo despede-se de 2022. O Brasil despede-se também de Jair Bolsonaro, algo que a maioria dos habitantes do planeta Terra aplaude forte e alegremente.
Consta que Jair buscará exílio na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago. Não consigo imaginar pior castigo para Donald — nem pior castigo para Jair.
O melhor show a que assisti durante o ano que hoje termina, e um dos momentos mais emocionantes de toda a minha vida, aconteceu no passado dia 30 de outubro, em Lisboa, na Fábrica do Braço de Prata, espaço enorme, preparado para acolher todo o tipo de festivais. Naquele fim de tarde estava atulhado de imigrantes brasileiros, que acompanhavam, entre o medo e a esperança, o avanço dos resultados eleitorais, projetados numa enorme tela. No instante em que a contagem virou, Lisboa inteira estremeceu com o grito eufórico da multidão.
Já passava da meia-noite quando, ainda com o coração aos saltos e lágrimas nos olhos, saí da Fábrica do Braço de Prata, na companhia do escritor moçambicano Mia Couto. O taxista que nos foi buscar também era brasileiro, e não estava feliz com o resultado das eleições:
— Os comunistas ganharam. — comentou, mal-humorado. — Vai ser uma desgraça.
— Não discutas. — segredou-me Mia, que, como a maioria dos moçambicanos, abomina brigas. Tentei fazer a vontade ao meu amigo.
— Tem toda a razão. — disse ao taxista, com o tom de voz mais doce e amigável que consegui. — O lado bom é que você não terá de se exilar para fugir do comunismo. Afinal, você já vive num país governado pela esquerdalha, onde o aborto é legal, o consumo de drogas também, e as pessoas de bem nem sequer podem andar armadas pelas ruas, atrás dos negros e dos comunistas. Duvido que o Lula chegue tão longe…
Duvido mesmo. Já ficaria muito feliz se nos próximos quatro anos o novo governo brasileiro conseguisse controlar a venda de armas e a mortandade dos jovens negros às mãos das forças policiais.
O desafio imediato do presidente Lula passa por devolver o Brasil ao território da racionalidade e do mais elementar bom senso. Um ministro pode nem ser muito eficaz, mas convém que acredite na importância da pasta que assumiu. Por exemplo, o ministro responsável pelo meio ambiente deve acreditar na preservação da floresta amazônica, ao invés de estar empenhado na sua destruição; o ministro da Cultura deve gostar de música, literatura e artes em geral, e lutar pelo seu fortalecimento — e assim por diante.
O presidente Lula tem pela frente outro enorme desafio: o da reconciliação nacional. Não me parece tarefa fácil. Exige, primeiro, uma completa desbolsonarização dos espíritos — ou seja: um verdadeiro exorcismo.
Espero que na próxima ceia de Natal as famílias brasileiras já consigam reunir-se, e conversar sobre qualquer assunto, sem pavor de que uma palavra errada dê origem a uma tentativa de assassinato.
Quando visitei o Brasil pela primeira vez, há uns bons 30 anos, fiquei completamente encantado com a simpatia e a hospitalidade dos brasileiros. Durante anos acreditei na excepcionalidade do Brasil — um país vocacionado para a arte do encontro (“embora haja tanto desencontro pela vida”, como escreveu Vinicius). Essa arte do encontro precisa ser recuperada.
Consta que Jair buscará exílio na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago. Não consigo imaginar pior castigo para Donald — nem pior castigo para Jair.
O melhor show a que assisti durante o ano que hoje termina, e um dos momentos mais emocionantes de toda a minha vida, aconteceu no passado dia 30 de outubro, em Lisboa, na Fábrica do Braço de Prata, espaço enorme, preparado para acolher todo o tipo de festivais. Naquele fim de tarde estava atulhado de imigrantes brasileiros, que acompanhavam, entre o medo e a esperança, o avanço dos resultados eleitorais, projetados numa enorme tela. No instante em que a contagem virou, Lisboa inteira estremeceu com o grito eufórico da multidão.
Já passava da meia-noite quando, ainda com o coração aos saltos e lágrimas nos olhos, saí da Fábrica do Braço de Prata, na companhia do escritor moçambicano Mia Couto. O taxista que nos foi buscar também era brasileiro, e não estava feliz com o resultado das eleições:
— Os comunistas ganharam. — comentou, mal-humorado. — Vai ser uma desgraça.
— Não discutas. — segredou-me Mia, que, como a maioria dos moçambicanos, abomina brigas. Tentei fazer a vontade ao meu amigo.
— Tem toda a razão. — disse ao taxista, com o tom de voz mais doce e amigável que consegui. — O lado bom é que você não terá de se exilar para fugir do comunismo. Afinal, você já vive num país governado pela esquerdalha, onde o aborto é legal, o consumo de drogas também, e as pessoas de bem nem sequer podem andar armadas pelas ruas, atrás dos negros e dos comunistas. Duvido que o Lula chegue tão longe…
Duvido mesmo. Já ficaria muito feliz se nos próximos quatro anos o novo governo brasileiro conseguisse controlar a venda de armas e a mortandade dos jovens negros às mãos das forças policiais.
O desafio imediato do presidente Lula passa por devolver o Brasil ao território da racionalidade e do mais elementar bom senso. Um ministro pode nem ser muito eficaz, mas convém que acredite na importância da pasta que assumiu. Por exemplo, o ministro responsável pelo meio ambiente deve acreditar na preservação da floresta amazônica, ao invés de estar empenhado na sua destruição; o ministro da Cultura deve gostar de música, literatura e artes em geral, e lutar pelo seu fortalecimento — e assim por diante.
O presidente Lula tem pela frente outro enorme desafio: o da reconciliação nacional. Não me parece tarefa fácil. Exige, primeiro, uma completa desbolsonarização dos espíritos — ou seja: um verdadeiro exorcismo.
Espero que na próxima ceia de Natal as famílias brasileiras já consigam reunir-se, e conversar sobre qualquer assunto, sem pavor de que uma palavra errada dê origem a uma tentativa de assassinato.
Quando visitei o Brasil pela primeira vez, há uns bons 30 anos, fiquei completamente encantado com a simpatia e a hospitalidade dos brasileiros. Durante anos acreditei na excepcionalidade do Brasil — um país vocacionado para a arte do encontro (“embora haja tanto desencontro pela vida”, como escreveu Vinicius). Essa arte do encontro precisa ser recuperada.
Um belíssimo Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Cor de arco-íris, ou da cor da sua paz
Ano Novo sem comparação
Como todo o tempo já vivido
(Mal vivido ou talvez sem sentido)
Não precisa fazer lista
De boas intenções
Para arquivá-las na gaveta
Não precisa chorar de arrependimento
Pelas besteiras consumadas
Para ganhar um Ano-Novo
Que mereça esse nome
Você, meu caro, tem de merecê-lo
Tem de fazê-lo de novo
Eu sei que não é fácil
Mas tente, experimente, consciente
É dentro de você que o ano novo
Cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Cor de arco-íris, ou da cor da sua paz
Ano Novo sem comparação
Como todo o tempo já vivido
(Mal vivido ou talvez sem sentido)
Não precisa fazer lista
De boas intenções
Para arquivá-las na gaveta
Não precisa chorar de arrependimento
Pelas besteiras consumadas
Para ganhar um Ano-Novo
Que mereça esse nome
Você, meu caro, tem de merecê-lo
Tem de fazê-lo de novo
Eu sei que não é fácil
Mas tente, experimente, consciente
É dentro de você que o ano novo
Cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Final melancólico
Depois de dois meses de silêncio, no último dia útil do seu governo, Bolsonaro falou. Foi elíptico e evasivo sobre os temas importantes e fugiu logo em seguida para os Estados Unidos. Foi um final melancólico para uma aventura perigosa. A democracia brasileira sobreviveu, mas saiu chamuscada. Ganhamos um respiro, mas o risco não foi de todo afastado.
A maior parte do pronunciamento de mais de 50 minutos foi dedicada a celebrar as realizações do governo. Mas, entre louvores ao preço baixo dos combustíveis e à criação do Auxílio Emergencial, surgiram alertas sobre a volta do PT e justificativas para ele não ter atendido aos radicais acampados nos quartéis. Tudo sob uma chuva de comentários de espectadores no YouTube pedindo intervenção militar.
Bolsonaro disse que, nestes dois meses de silêncio estratégico, não ficou parado: “Como foi difícil ficar dois meses calado trabalhando para buscar alternativas!”. As alternativas, sabemos pelas movimentações noticiadas pelos jornais, foram a busca do apoio das Forças Armadas e do Parlamento para uma ruptura autoritária.
Reunindo as menções elípticas, espalhadas pelos discurso, dá para ter uma ideia do que ele quis dizer: “Tem gente chateada comigo, [dizendo] que deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Mas, para você conseguir fazer alguma coisa, mesmo nas quatro linhas, você tem que ter apoio”. E se defendeu: “Entendo que fiz a minha parte, estou fazendo a minha parte. Agora, certas medidas têm que ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos e instituições”.
Bolsonaro quis atender aos golpistas acampados nos quartéis, mas simplesmente não conseguiu apoio. “Não posso fazer algo que não seja bem feito e que, assim, os efeitos colaterais sejam danosos demais”, concluiu. Bolsonaro não teve ou não conseguiu criar as condições para cumprir seus propósitos autoritários. Mas tentou. Enfrentou, porém, a resistência firme da sociedade civil e da imprensa séria.
Enfrentou também a resistência do Parlamento, principalmente quando esteve sob a liderança política de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Em nenhum momento o Parlamento sinalizou que daria apoio a um movimento de ruptura, por meio da decretação de Estado de Sítio. O Congresso conteve a ofensiva legislativa na arena dos costumes e moderou os ataques de Paulo Guedes contra os direitos dos trabalhadores. Foi o Parlamento, também, que elevou os programas de transferência de renda a um patamar mais digno, aumentando o valor e ampliando a cobertura. O Parlamento, por meio da CPI da Covid, também desvelou a irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro com relação à compra das vacinas.
Bolsonaro enfrentou também a resistência da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou alguns dos ataques mais danosos ao sistema de proteção ambiental e deu autonomia aos governadores para que pudessem proteger a população no momento mais crítico da pandemia. Quando as mobilizações golpistas se disseminaram, foi a ação firme do ministro Alexandre de Moraes que as conteve. Sem a mão dura dele, é bem possível que não tivéssemos chegado até aqui.
Servidores públicos no ICMBio, na Polícia Federal e no Ministério Público também desafiaram as orientações políticas dos chefes e batalharam para fazer as instituições cumprir suas funções legais.
Sem os limites impostos pela sociedade civil, pela imprensa, pelo Parlamento, pela Justiça e por corajosos servidores públicos, não teríamos atravessado o deserto. Devemos a cada um desses atores um caloroso “obrigado”.
Durante quatro anos, Bolsonaro repetiu que a “liberdade” deveria valer mais que a própria vida. Mas, agora, quando teria de colocar seus ideais à prova, preferiu fugir para os Estados Unidos, temeroso de que, com a volta do domínio da lei, seus crimes sejam investigados e ele termine devidamente preso. É inevitável comparar a ignomínia de Bolsonaro com a altivez de Lula, que, podendo fugir, se submeteu com dignidade a mais de dois anos de prisão. Bolsonaro não é pequeno, é minúsculo.
A fuga no avião presidencial, deixando seus apoiadores tomando chuva e passando vergonha na porta dos quartéis, é o desfecho patético de um governo medíocre, covarde e autoritário.
A maior parte do pronunciamento de mais de 50 minutos foi dedicada a celebrar as realizações do governo. Mas, entre louvores ao preço baixo dos combustíveis e à criação do Auxílio Emergencial, surgiram alertas sobre a volta do PT e justificativas para ele não ter atendido aos radicais acampados nos quartéis. Tudo sob uma chuva de comentários de espectadores no YouTube pedindo intervenção militar.
Bolsonaro disse que, nestes dois meses de silêncio estratégico, não ficou parado: “Como foi difícil ficar dois meses calado trabalhando para buscar alternativas!”. As alternativas, sabemos pelas movimentações noticiadas pelos jornais, foram a busca do apoio das Forças Armadas e do Parlamento para uma ruptura autoritária.
Reunindo as menções elípticas, espalhadas pelos discurso, dá para ter uma ideia do que ele quis dizer: “Tem gente chateada comigo, [dizendo] que deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Mas, para você conseguir fazer alguma coisa, mesmo nas quatro linhas, você tem que ter apoio”. E se defendeu: “Entendo que fiz a minha parte, estou fazendo a minha parte. Agora, certas medidas têm que ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos e instituições”.
Bolsonaro quis atender aos golpistas acampados nos quartéis, mas simplesmente não conseguiu apoio. “Não posso fazer algo que não seja bem feito e que, assim, os efeitos colaterais sejam danosos demais”, concluiu. Bolsonaro não teve ou não conseguiu criar as condições para cumprir seus propósitos autoritários. Mas tentou. Enfrentou, porém, a resistência firme da sociedade civil e da imprensa séria.
Enfrentou também a resistência do Parlamento, principalmente quando esteve sob a liderança política de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Em nenhum momento o Parlamento sinalizou que daria apoio a um movimento de ruptura, por meio da decretação de Estado de Sítio. O Congresso conteve a ofensiva legislativa na arena dos costumes e moderou os ataques de Paulo Guedes contra os direitos dos trabalhadores. Foi o Parlamento, também, que elevou os programas de transferência de renda a um patamar mais digno, aumentando o valor e ampliando a cobertura. O Parlamento, por meio da CPI da Covid, também desvelou a irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro com relação à compra das vacinas.
Bolsonaro enfrentou também a resistência da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou alguns dos ataques mais danosos ao sistema de proteção ambiental e deu autonomia aos governadores para que pudessem proteger a população no momento mais crítico da pandemia. Quando as mobilizações golpistas se disseminaram, foi a ação firme do ministro Alexandre de Moraes que as conteve. Sem a mão dura dele, é bem possível que não tivéssemos chegado até aqui.
Servidores públicos no ICMBio, na Polícia Federal e no Ministério Público também desafiaram as orientações políticas dos chefes e batalharam para fazer as instituições cumprir suas funções legais.
Sem os limites impostos pela sociedade civil, pela imprensa, pelo Parlamento, pela Justiça e por corajosos servidores públicos, não teríamos atravessado o deserto. Devemos a cada um desses atores um caloroso “obrigado”.
Durante quatro anos, Bolsonaro repetiu que a “liberdade” deveria valer mais que a própria vida. Mas, agora, quando teria de colocar seus ideais à prova, preferiu fugir para os Estados Unidos, temeroso de que, com a volta do domínio da lei, seus crimes sejam investigados e ele termine devidamente preso. É inevitável comparar a ignomínia de Bolsonaro com a altivez de Lula, que, podendo fugir, se submeteu com dignidade a mais de dois anos de prisão. Bolsonaro não é pequeno, é minúsculo.
A fuga no avião presidencial, deixando seus apoiadores tomando chuva e passando vergonha na porta dos quartéis, é o desfecho patético de um governo medíocre, covarde e autoritário.
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