terça-feira, 12 de abril de 2022

A 'Cupinização' do Estado

Vive-se, por aqui, um cenário de barbárie, de digestão mal comportada e de degradação da estrutura administrativa do Estado e das políticas públicas, sobretudo aquelas que tratam da fiscalização e do controle do manuseio de recursos. A administração pública no Brasil está cem anos atrasada, e não surge ninguém, em eleição alguma, preocupado em projetar-lhe uma forma e um sentido. Ao contrário, o Estado é que parece ser um grande transgressor.

Ninguém que transitou pelo estrutura gestora do Estado, mesmo transgressivamente, é condenado. Perfil infrator até parece uma pré-condição para o credenciamento a um cargo público. O Tribunal de Contas da União, vez por outra, pune um motorista com a demissão. O da Justiça, um ou outro juiz, com a aposentadoria, mas com direitos e salários da ativa. A Receita Federal tem uma sala exclusiva para os grandes caloteiros. Ex-presidentes da República recebem do Estado para falar contra ele. Nem o que está escrito na Constituição é protegido. Não tem mutirão que consiga hoje organizar o que vem sendo historicamente desarrumado.

Em um longo e bem articulado voto, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia, com ares de grande corregedora, tocou em um ponto crucial do descompromisso dos ocupantes de cargos públicos com a máquina do Estado. Além de cobrar medidas urgentes do IBAMA e da Funai para conter o desmatamento na Amazônia e o avanço sobre as terras indígenas, apelidou de "cupinização" a silenciosa e invisível ação e omissão política que sistematicamente corrói a estrutura e a alma do Estado.

Ela se fundamentou nas tentativas de desqualificar e esvaziar os órgãos de fiscalização ambiental e dos direitos territoriais dos indígenas, ao interpretar uma Arguição de Descumprimento do Preceito Fundamental - ADPF 760, originada de um grupo de partidos políticos, cobrando o esvaziamento do IBAMA, da Funai, do Fundo da Amazônia, do Conama e outros. Mas, dentro da máquina do Estado, a questão não parece ser apenas pontual. A complexidade é bem maior. Quem a corrói são os próprios políticos, e não as empresas, que agem passivamente. As cobranças vem de dentro do próprio Estado.

As aparentes boas intenções dos partidos políticos vão muito além, e até dos candidatos à Presidência da República. Nenhum ministério, empresa, autarquia, órgão público de maneira geral, tem a primazia da proteção institucional. Nem patrimônio da União, que deveria manter o Ministério Público sempre de prontidão.

No seio do Estado, tudo o que é sólido desmancha-se no ar. A consequência vem da estratégia do confundir para dividir e do iludir para dirigir. Foi o caso das conclusões e recomendações contra os Anões do Orçamento, do Mensalão e da Lava Jato. O Estado nunca tem razão. Assaltado, sistematicamente, paga indenizações aos assaltantes, funcionando quase como um prêmio, para a ampliação das operações transgressoras.

Chegam as eleições, os "cupins" estão excitados. Entender o papel do Estado e a sua estrutura não é algo para iniciantes, mas os despreparados, ávidos, se antecipam. No primeiro ano de gestão, os governantes eleitos não produzem nada de significativo. Governam apenas dois anos em cada mandato de quatro anos, porque o primeiro ano é dedicado a apreender o sentido do Estado e aparelhar a sua estrutura, segundo as conveniências particulares e partidárias. O último ano é voltado para uma reeleição ou a eleger um companheiro conivente.

A cupinização do Poder do Estado pelas elites - a concentração do dinheiro e do Poder nas mãos de poucos - concorre para a destruição, por dentro da estrutura e dos objetivos da máquina pública, pela apropriação direta ou indireta das políticas públicas e dos órgãos que as administram. É um amigo aqui, um cabo eleitoral ali. Um com a função de propor uma nova política pública, outro de redirecioná-las para os interesses pessoais ou de grupos, outros com a missão de desmantelá-las mesmo. Ninguém entra para explicar ou com a solucionática. A governabilidade é o espaço privilegiado para confundir ainda mais a administração pública.

Cada projeto de lei aprovado no Congresso, a título de esclarecer, confunde ainda mais. Assim são também as diferentes reformas administrativas porque tem passado o Estado brasileiro. Nenhuma delas consolidou uma política pública ou deu configuração definitiva para a estrutura de Estado. À fórceps, é verdade, mas justiça seja feita, só os militares conseguiram. Nos governos civis, o País chegou a variar de 18 a 36 ministérios.

Assim, fora dos anos de chumbo, ocorreu e ocorre com os ministérios do Planejamento, do Trabalho, da Indústria e Comércio, do Meio Ambiente, da Irrigação, da própria Administração; em órgãos como o DNOCS, Sudene, Sudam, Sudeco, Sudesul, Sudepe, Emater, Sunab, Funai, Ibama, Secretarias da Amazônia, órgãos estratégicos do Estado, que são destruídos e reconstruídos sistematicamente. A apropriação desses espaços tornou-se muito sofisticada com a "cupinização".

Tivemos presidentes que criaram ministérios para explicitamente gerar empregos e poder de barganha político-partidária. Os espaços do Estado tornaram-se balcões de negócios, a pinguela que une o público e o privado debaixo de um mesmo guarda sol: o Estado é paternal. Não, o Estado é sistematicamente assaltado, à luz do dia. Há 100 anos, o presidente argentino Domingos Faustino Sarmiento fez uma reforma geral das estruturas de poder no seu país. Elas ganharam configurações institucionais históricas e respeito da população. Saíram do estado de barbárie em que, por aqui, estivemos sempre mergulhados.

No Brasil, em tempos de rudeza no entendimento do que seja a coisa pública e o papel do Estado - e não está longe - os órgãos de fiscalização eram incendiados para queimar processos comprometedores. Isso aconteceu no Ministério da Fazenda, com a Receita Federal; com o Ministério da Agricultura, na fiscalização sanitária e com os comprometimentos com os incentivos fiscais do reflorestamento; com o fundo de financiamento à educação; até no Tribunal de Contas da União.

A rudeza das soluções envolvendo os direitos do Estado e os privados não melhorou nesses cem anos de história da República, apenas sofisticaram-se os métodos de apossamento da máquina e dos recursos públicos. As estruturas expandem-se, às vezes; em outras, encolhem-se. Não se põe mais fogo em prédios, contamina-se o sistema de fiscalização com um vírus, ou cria-se um aparato legal que gere exceções e contradições insolúveis desviando o sentido original das leis e das instituições.

As áreas da educação, da ciência, da tecnologia e do meio ambiente são vítimas atualmente da inanição, um outro tipo de estratégia que se dá pela redução drástica dos recursos de custeio (manutenção). É uma espécie de "garrote vil", que aperta até que fique demonstrada a inutilidade daquela instituição ou daquela política pública. No Brasil a necessidade de uma reforma do Estado é premente, mas virou um "bordão" para os políticos. Se depender dos "cupins", nunca irá acontecer.

O que nossos políticos farão pelo meio-ambiente?

A grande virtude de uma democracia é poder indicar, por meio do voto, quem nos representará, quem falará por nós, tanto no poder executivo como no poder legislativo. Uma eleição é um raro momento em que todos os cidadãos têm o mesmo poder. Independente da classe social, nível de escolaridade, religião, cor ou qualquer outra coisa, o voto de um tem o mesmo valor que o voto de outro. Todos somos iguais defronte uma urna de eleição. É um momento em que apenas nossa consciência, nossos princípios e valores devem agir.

Para votar em alguém temos que, no mínimo, saber quem é, de onde veio, o que faz, o que fez e o que pretende fazer. Temos que nos perguntar, eu confio nessa pessoa?

Neste momento, os planos de governo estão sendo trabalhados e novas diretrizes estão sendo propostas. Esta é a hora em que os candidatos podem pensar com responsabilidade em quais compromissos irão assumir e em quais projetos irão priorizar suas forças. Por outro lado, é o momento para o eleitor ficar atento a essas propostas e promessas para que possa cobrar no futuro.

Como todos vivemos em um mesmo planeta, bebemos da mesma água, respiramos o mesmo ar e desejamos um futuro equilibrado para nossos filhos, não podemos deixar de observar quais são esses compromissos ambientais que estão sendo propostos e assumidos por quem nos representará.


Isso porque investir na questão ambiental promove a saúde. Várias doenças ocorrem ou são agravadas devido a ambientes impróprios. A diarreia é a segunda maior causa de mortes em crianças abaixo de 5 anos de idade, segundo a Unicef. Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que 88% das mortes pela doença no mundo são causadas pelo saneamento inadequado. As crianças são as mais afetadas, representando 84% desse universo. A mesma OMS diz que a poluição atmosférica já é responsável por 7 milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo, sendo mais de 300 mil na região das Américas. Nossos representantes precisam saber e fazer algo sobre isso.

Investir na questão ambiental proporciona qualidade de vida a população. Áreas verdes, parques e praças são opções adequadas para se combater inundações, ilhas de calor e a poluição sonora e do ar, pois, a vegetação, além de produzir oxigênio, ajuda a infiltrar a água no solo, regular a temperatura e a umidade. As árvores promovem também a redução da radiação ultravioleta e do ruído gerado pelo tráfego de veículos. Com isso, as áreas verdes são fundamentais, em especial as de baixa renda que não podem frequentar clubes e praias. Nossos representantes também precisam saber e fazer algo sobre isso.

Investir na questão ambiental gera emprego e renda. A organização Internacional do Trabalho (OIT) indica o aumento do interesse das empresas por profissionais que atuam com processos e tecnologias que reduzem os impactos ambientais e contribuem para a sustentabilidade corporativa, estimando que devem ser gerados 15 milhões de empregos na América Latina até 2030, a maior parte no Brasil. A chamada retomada econômica verde pós-pandemia é o grande destaque da pauta econômica dos países mais ricos do mundo. Nossos representantes também precisam saber e fazer algo sobre isso.

Investir na questão ambiental gera economia nos gastos públicos. Ações ambientais implementadas em órgãos públicos evitam o desperdício e reduzem significativamente os custos com água, energia e resíduos. Além disso, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada dólar investido em água e saneamento são economizados 4,3 dólares em custos de saúde no mundo. Nossos representantes precisam saber e fazer algo sobre isso também.

Assim, não faltam motivos para se investir na questão ambiental.

Já passou da hora desse tema sair dos planos de governo e de se transformar em ações. A natureza já deu vários recados de seu esgotamento e todos nós sofreremos a consequência. É chegado o momento que devemos anotar as promessas que ouvimos hoje para podermos cobrar amanhã. É o momento de exercermos nossa cidadania com responsabilidade, e não lamentarmos depois.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Brasil, terra de bandoleiros

 


'Entendedor de Putin' ganha mundo

Se um verbete da Wikipédia pode ser considerado indicador de reconhecimento no mundo atual, então é inevitável registrar a nova entrada em idioma inglês da enciclopédia online, dedicada ao termo alemão "Putinversteher". Traduzido literalmente como "aquela/e que entende Putin", o neologismo combina o nome do presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o substantivo alemão Versteher, "entendedor".

Não é primeira vez que uma criação vocabular alemã de cunho político ganha mundo. Um exemplo é Lügenpresse: traduzível como "imprensa da mentira", é uma invectiva popular na época nazista, usada para desacreditar relatos que não se alinhem com determinada ideologia. Ela retornou em anos recentes com o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e com os apoiadores do presidente Donald Trump nos Estados Unidos.

Quando Versteher é combinado com outro termo, em geral é para denotar uma mistura de ironia e lisonja. Por exemplo: Frauenversteher ("entendedor de mulheres") se refere a um homem que se gaba de sua profunda compreensão da psique feminina.

Da mesma forma, um Putinversteher é alguém que não esconde sua empatia com as motivações do chefe do Kremlin. O termo passou a circular em seguida à anexação da península ucraniana da Crimeia. Se a conotação já era negativa, ela se agravou seriamente desde o início da invasão russa do país vizinho, em 24 de fevereiro de 2022.


Em seguida ao lançamento da "operação militar especial" russa na Ucrânia, diversos Putinversteher – entre os quais destacados políticos e especialistas alemães – ressalvavam, por exemplo, que a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) podia ser percebida pela Rússia como uma ameaça real. Ou comparavam a invasão da Ucrânia a outras "guerras ilegais", como a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, ou demais abusos cometidos pelo Ocidente.

Isso não significa que os "entendedores de Putin" sejam a favor da atual violência: como explica o verbete da Wikipédia, trata-se de uma atitude quanto ao presidente russo e o modo como ele governa a Rússia que tende a resultar em: "Sim, mas é preciso entender a posição de Putin."

De um modo geral, é muito disseminada entre o grupo em questão a estratégia conhecida como "whataboutism": derivada da expressão "What about...?" ("Mas e...?"), esta consiste em desviar uma determinada crítica citando casos supostamente análogos.

Por exemplo: desconversar de uma acusação de corrupção pelo atual governo brasileiro com: "Tá, mas e o Lula? E o PT?" Aliás, também é comum o praticante do "whataboutism" recorrer a falsas equivalências, intencionalmente confundindo alhos com bugalhos.

Encontram-se Putinversteher ao longo de todo o espectro político da Alemanha, porém especialmente entre os partidos populistas. Porém alguns apoiadores declarados recuaram desde a guerra de agressão na Ucrânia, abstendo-se de expressar publicamente seu respaldo.

Diversas legendas de ultradireita da Europa têm mantido laços estreitos com a Rússia, nos últimos anos, do Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen ao Fidesz de Viktor Orbán. O mesmo se aplica à AfD, contudo após a invasão da Ucrânia seus membros têm encontrado dificuldade de defender um posicionamento unificado.

A ex-copresidente do partido alemão A Esquerda Sahra Wagenknecht era também notória por sua disposição de justificar as ações do autocrata no Kremlin: "Talvez devamos levar a Rússia a sério e respeitar que ela tem interesses de segurança", comentou, por exemplo, num programa de televisão dias antes da invasão da Ucrânia.

Antes de merecer seu próprio verbete na Wikipédia, e mesmo da campanha militar russa contra o país vizinho, o termo já fora empregado em diversos artigos jornalísticos em língua inglesa.

Em janeiro de 2021, escrevendo para o website de análise política Riddle, especializado na Rússia, o politólogo e historiador Dmitiri Stratievski analisava Armin Laschet, então líder da União Democrata Cristã (CDU) de Angela Merkel, perguntando-se se ele devia ser considerado um "Putinversteher merkeliano", por seu apoio à dependência alemã do gás natural russo.

E já em abril de 2014, o professor de Economia Paul Gregory, da Universidade de Houston, intitulava um artigo em seu blog no site da revista Forbes "Empatia com o Diabo: como os Putinversteher da Alemanha protegem a Rússia". Seu foco era como alguns políticos de alto escalão haviam se colocado do lado do Kremlin, apesar de um mau histórico de direitos humanos e da anexação da Crimeia.

Entre essas personalidades, Gregory cita Gerhard Schröder, chanceler federal de 1998 a 2005, como "um dos Putinversteher mais descarados". Tendo sido, juntamente com Putin, o mentor do projeto do gasoduto Nord Stream durante seu mandato, ele mais tarde se tornou diretor do conselho de supervisão da estatal russa de energia Rosneft.

Considerado amigo pessoal do chefe do Kremlin, mesmo depois de este ordenar a invasão da Ucrânia, Schröder seguiu evitando qualquer comentário público que incriminasse o regime russo, ao ponto de todos os funcionários de seu escritório se demitirem.

Em meados de março, o ex-chanceler federal chegou a voar para Moscou, onde conversou pessoalmente com Putin. Contudo, à medida que atrocidades da guerra na Ucrânia vêm diariamente a público – como as notícias de execuções a sangue-frio, bombardeios a hospitais e escolas e centenas de civis em valas comuns – crescem na Alemanha os clamores para que o próprio Schröder seja alvo de sanções.

E a cada mentira, manipulação propagandística, excesso autocrático, violação dos direitos humanos e ato de violência injustifícável da personagem inspiradora do termo, os argumentos dos "entendedores de Vladimir Putin" perdem definitivamente qualquer sombra de credibilidade.

Se os tubarões fossem homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Ali Divandari (Irã)

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

Bertolt Brecht

O bezerro de ouro

Poder e Estado são palavras de amplo significado. As ciências sociais delas se ocupam como fenômenos em tempos e formas distintas. Segundo Weber, passam a ter uma relação simbiótica na medida em que o Poder “é toda chance, seja ele qual for, de impor a própria vontade numa relação social, mesmo com a relutância dos outros”. Esta chance é o Estado racional, como espaço de dominação, que “exerce o monopólio da coação física legítima”.

É melhor ficar por aqui. O campo teórico é muito vasto. Neste ano, Poder e Estado são objetos de acirrada disputa eleitoral. E neste procedimento, nossa cultura política mostra rugas e males de um carcomido padrão de comportamento, aferrado às raízes históricas do patrimonialismo.

As campanhas, formalmente disfarçadas de pré-candidaturas, estão nas ruas. Ao arrepio das leis, os postulantes fazem propaganda e pedem votos. Concluído o prazo da “janela de infidelidade”, cada um se agrupa em busca da reeleição. Com uma especial característica: o nosso Parlamento é o mais caro do mundo.


Debate sério e programas partidários, nem pensar. O que está em jogo é o Poder e a consequente captura do Estado como uma fonte inesgotável de privilégios e favores: uma espécie de terra prometida onde jorra mel da fortuna para poucos e fel dos desmandos para muitos. O que vale é “se dar bem”. Às favas o interesse público.

Apurados os votos, o governismo impenitente prevalecerá: o mandato é um valioso ativo no jogo “toma lá dá cá”. No mercado de capitais, se investe em ações; na eleição, em votos.

Resultado: o estado brasileiro é o inferno burocrático para o cidadão comum e o paraíso de delinquentes e associados. Estes associados são os cães farejadores da origem e do destino dos recursos públicos: saúde, educação, obras e emendas/municípios.

Sempre “amigos” e aduladores dos poderosos, são bregas, “simpáticos” ou “paus-mandados”. Lobistas devidamente regulamentados? Jamais, o PL 6232 de Marco Maciel é de 1990. Aperfeiçoaram e organizaram o crime da corrupção na captação e manejo dos valores: do pixuleco às rachadinhas; do dinheiro vivo às criptomoedas.

A cada escândalo sucede outro numa velocidade que anestesia a indignação. O mais recente envolve autoridades e pastores. Transformaram o tesouro num mundano “Bezerro de Ouro” de forma tão literal que exigiram pepitas do melhor quilate. Isso, pagamento em barras de ouro!

PS. Recomendável a releitura bíblica: os fariseus, vendilhões do Templo, esgotaram a santa paciência de Cristo e tiveram a reação merecida.

domingo, 10 de abril de 2022

Pensamento do Dia

 


Viva a Vida!

Está certo. Os caminhoneiros devem estar precisando mais do que os produtores de cultura. O Banco do Brasil reservou 8 bilhões de reais para suas necessidades, enquanto o presidente vetava o projeto, já aprovado no Congresso, que destinava metade desse valor aos produtores de cultura através da Lei Paulo Gustavo. Fausto Ribeiro, presidente do BB, anunciou que o banco e o governo estão “de braços abertos para todos os caminhoneiros”.

Numa democracia de verdade, um líder é sempre escolhido pela população para comandar a nação, atendendo às necessidades de todos os seus filhos, sem discriminação. Uma vez eleito, ele deve se tornar de todos, sem partido ou grupo social. Esse cara, num regime como o nosso, é o presidente da República. Ou seja, o capitão Bolsonaro.

Mas o capitão não gosta da gente, não quer saber de escritores, músicos, poetas, artistas de nenhuma especialidade, tem horror fóbico a quem mexe com essas coisas. Ele talvez tenha até uma certa razão – artistas estão sempre levantando problemas da nação e do povo da nação, como se coubesse a eles vigiar o que anda acontecendo de errado, anunciar o que precisa ser mudado, lutar por essas causas. Já o caminhoneiro pode ser corajoso, discordar e lutar contra o que não acha correto, mas na maioria dos casos está na cabine de seu caminhão, cantarolando com o rádio um trecho qualquer de Marília Mendonça.


Vi, essa semana, o magnífico documentário de Belisário Franca sobre Fernando Henrique Cardoso, sua eleição à presidência e os primeiros anos de governo. No documentário, “O presidente improvável”, FHC diz algo fundamental, um conceito que é a cara dele: “Não é verdade que a política seja a arte do possível; ela é, sim, a arte de tornar possível o que a gente pensa”. FHC estava certo. O que a gente pensa e deseja passa a ser portanto a chave do juízo que faremos, na política e nas atividades sociais, de nós mesmos e dos outros. Mesmo que nosso julgamento não seja tão objetivo.

Como o meu. Não consigo saber exatamente o que acontece com a humanidade neste momento, mas desde a pandemia me ocorre a ideia e tenho a sensação de que vivemos uma decadência moral e política, causa ou consequência da peste recente. De algum modo, devo ter razão.

Desde a Guerra do Peloponeso, a humanidade se enfrenta, quase sempre, entre dois polos radicais, o elogio da vida e o da morte. O que é dionisíaco contra o que é apolíneo. Mas é preciso descobrir onde está um e outro, cada vez que se opõem em luta polarizada. Muitas vezes nos enganamos e acabamos cerrando fileiras no equívoco ou mesmo torcendo pelo inimigo. Nos primeiros dias da guerra na Ucrânia tivemos esse problema, sem saber direito de que lado devíamos estar, embora a simpatia pelos ucranianos, com mais imaginação, mais fracos e mais pobres, fosse crescendo e se espalhando pelo mundo todo.

Não temos que escolher entre os caminhoneiros e os produtores de cultura. No fundo, é isso o que o governo deseja, dividindo a população do país entre trabalhadores e criadores, como se uns estivessem contra os outros, como se uns estivessem explorando os outros. E, o que é talvez mais grave, como se uns atrapalhassem a vida dos outros. Como se a polarização fosse sinal de que não podem conviver numa mesma sociedade.

Durante a Guerra Civil espanhola, os intelectuais e militares que defendiam o invasor comandado por Francisco Franco, responsável pelo golpe de estado de minorias que tomaram o poder e acabaram com os majoritários defensores da República eleitos pela população, esses líderes golpistas inventaram a célebre saudação: “Viva la muerte!”. Eles foram responsáveis pela Espanha de Franco, o regime fascista mais duradouro na história da Europa do século passado.

Marx e Dostoiewski

Tomemos por exemplo, o melhor e mais famoso dos romances de Dostoiewski: Crime e Castigo. Esta obra-prima será por muito tempo uma chave indispensável para se compreender tudo quanto aconteceu na Rússia e na Europa nos últimos cinquenta anos. Quem é Raskolnikov? Um intelectual anterior ao marxismo, indignado com as condições de injustiça social e de miséria abjecta da Rússia czarista, decidido a praticar uma acção demonstrativa, simbólica, contra estas condições . Raskolnikov não havia lido Marx e admirava Napoleão, modelo, para todo o século XIX, do super-homem; mas é sintomático que, ao contrário do stendhaliano Julien Sorel, outro admirador de Napoleão, ele não sonhasse com a grandeza mas sim com a justiça. E que o seu ódio se dirigisse contra um usurária, ou seja contra o caso limite da exploração do homem, segundo a fórmula marxista. Quem é pois a usurária? É a burguesia europeia que guarda na pasta os títulos industriais, fruto do esforço operário, que vive de rendas sobre o proletariado nacional e colonial, e tudo isso sem se dar conta, com consciência tranquila. É um símbolo, em suma, não muito diferente , no fundo da figura convencional do banqueiro da sátira antiburguesa, gordo e de barriga cheia, como chapéu alto e pasta , a pança enorme envolta num colete branco, as mãos cheias de anéis faiscando raios.

Raskolnikov, embora não tendo lido Marx e considerando-se um super-homem para além do bem e do mal , era também já, em embrião, um comissário do povo; e de facto os primeiros comissários do povo surgiram daquela mesma classe da "inteligenzia" à qual pertencia Raskolnikov e possuíam as mesmas ideias , a mesma sede de justiça social, a mesma terrível coerência ideológica , a mesma inflexibilidade na acção. E o dilema de Raskolniov é o mesmo dos comissários do povo e de Estaline: "Para o bem da humanidade é lícito ou não matar a velha usurária ( ler-se: liquidar a burguesia)?" Portanto, porquê tanta aversão por parte dos comunistas contra Dostoiewski?

Marian Kamensky (Áustria)

A razão é muito simples. O ódio de Raskolnikov contra a usurária tem uma origem cristã. Este ódio na realidade é o ódio da Idade Média cristã contra o negócio e o lucro , a inconciliabilidade do Evangelho com a banca e as percentagens do juro. Este ódio, esta inconciliabilidade colocaram durante séculos a banca e o comércio nas mãos dos judeus até ao dia em que os povos cristãos da Europa ( e primeiro de todos, o italiano) se aperceberam de que era possível ser-se banqueiro e comerciante e, ao mesmo tempo, boa gente temerosa de Deus, em paz consigo própria e com a religião. Mas Raskolnikov pertencia , como de resto os comissários do povo e Estaline, a um país ainda medieval no qual a banca e o comércio se encontravam na mão de restritos grupos sociais e raciais , um país atrasado, de camponeses agarrados a um cristianismo ainda primitivo e místico. Assim, para Raskolnikov, a banca e o comércio são a usura, e a burguesia europeia e russa que pratica a usura , a usurária; então, é necessário matar a usurária ou seja, liquidar a burguesia.

Mas neste ponto as duas estradas , até aqui unidas, de Dostoiewski e dos marxistas , bifurcam-se: "Eliminemos a usurária e vamos para a frente. Depois da morte da usurária começará uma nova sociedade sem classes nem usura. A criação dessa sociedade justifica amplamente o assassínio da usurária." Em vez disso, Dostoiewski, que se manteve cristão, depois de nos ter conduzido pela mão através de todas as fases do delito que sem dúvida havia meditado, acarinhado e aprovado mil vezes no seu coração, com um súbito volta-face, desaprova repentinamente Raskolnikov ou seja, os marxistas, isto é , Estaline , e diz: "Não , não é lícito matar, mesmo que seja por bem da humanidade. Cristo disse: não matarás." E de facto Raskolnikov arrepende-se, lê o Evangelho juntamente com Sónia. Dostoiewski envolve o fim do seu romance numa aura mística. : "Aqui começa uma nova história, a história da renovação gradual de um homem, a história da sua gradual regeneração, da sua passagem gradual de um mundo para outro, do seu progresso para uma nova realidade até ali ignorada .» Os marxistas em vez disso, teriam concluído: «Aqui começa a revolução."

O desvio entre Dostoiewski e os marxistas é devido a uma consideração diferente do que é o mal. Para os marxistas o mal é a usurária, ou seja a burguesia; Dostoiewski , tendo primeiramente aceite esta tese, repudia-a e chega à conclusão cristã de que o mal não é tanto a usurária quanto o meio usado, isto é a violência. Este mal de Dostoiewski no romance, não é somente representado pela morte violenta da usurária, mas também e sobretudo pela outra, da inocente e piedosa Lizaveta, irmã da usurária, que Raskolnikov mata, para suprimi uma testemunhado seu crime. Afinal para os marxistas , na realidade omal não existe desde que se trate unicamente de um mal social que pode ser liquidado com a revolução. Em vez disso, para Dostoiewwski o mal existe como facto individual no coração de cada homem e exprime-se exactamente nos meios violentos dos quais se serve a revolução. Os marxistas lavam com a justificação histórica e social mesmo as consciências mais negras , Dostoiewski nega esta lavagem e afirma a existência ineliminável do mal.
Alberto Moravia, "Um mês na URSS"

Os falsos adversários de Bolsonaro

Difícil, mas possível, explicar porque o eleitor poderá reeleger um presidente responsável por parte dos 660.000 mortos pelo covid, que ameaça dar golpe militar, elogia tortura, tem um governo com corrupção nos Ministérios da Saúde e da Educação, promove a destruição de nossas florestas, envergonha o Brasil no exterior, não controla a inflação, tem sido rodeado de milicianos… É possível, e a culpa não está no eleitor, ele apenas tem de escolher em qual votar no segundo turno, ou não votar em qualquer dos dois.

Apesar do lamentável balanço de seu desempenho, Bolsonaro tem dois aliados: o PT ainda hesita em falar para fora dos seus apoiadores tradicionais e os “nem-nem” cujas acusações depredam a imagem do Lula e do PT.


Sem Lula, Bolsonaro não será derrotado, mas sozinho ele não vence a eleição, precisa que os democratas não-petistas subam no seu palanque, para uma vitória no primeiro turno ou para apoiá-lo no segundo. Mas os discursos antipetistas e antilula há meses e os que serão feitos ao longo do primeiro turno tendem a inviabilizar apoio ao Lula. Os discursos “nem-nem” se transformarão em votos nulos, elegendo Bolsonaro.

Para dificultar a situação, os “nem-nens” são empurrados para longe do Lula e do PT, não apenas por preconceitos (ou conceitos) vindos do passado, mas também por falas do ex-presidente que às vezes esquece que é candidato em uma eleição difícil. O Lula assusta eleitores não petistas quando fala em revogar reformas, no lugar de dizer como pode aperfeiçoar a reforma trabalhista, a reforma do ensino médio e a PEC do Teto de Gastos. No lugar do horror a privatização, precisa dizer como fará o Estado servir ao Povo. Assusta também e serve à propaganda de Bolsonaro, quando se assume porta-voz de bandeiras específicas de grupos sindicais, feministas, no lugar de ser porta-voz dos direitos gerais, sem se assumir de um grupo em choque com outros.

Há momentos que o PT e o candidato Lula parecem falar para espelhos dentro de bolhas isoladas, sem levar em conta as mudanças nas últimas décadas: na geopolítica, nas tecnologias, nas percepções dos limites ecológicos ao crescimento, na mudança da pirâmide demográfica, no esgotamento do Estado, na irreversível abertura da economia e da sociedade ao mundo global. E também na importância da educação de base como o vetor do progresso. O PT e Lula precisam entender que o mundo mudou desde meados dos anos 80, quando o PT foi fundado, com o Muro de Berlim em pé, antes da inteligência artificial, da microinformática e da internet. Precisam perceber também que, na política, não há mais bolhas isoladas: a fala de agrado a um grupo, entre paredes fechadas, se espalha para todas as demais bolhas, gerando sorrisos de alegria entre os que estão em frente e ranger de dentes nos que estão ao lado. Diferente de 2002 e 2006, o discurso do Lula em cada grupo não espera para ser divulgado, intermediado por jornalistas: agora ele aparece, simultânea e universalmente.

Se compararmos os dois governos e respectivas personalidades, parece ilógico e impossível Bolsonaro ter mais votos do que Lula. Mas a impossibilidade fica lógica se somarmos os votos do atual presidente aos votos nulos induzidos pelo antipetismo dos “nem-nem” e pelas falas de Lula e PT para dentro de suas bolhas setoriais, corporativas, identitárias, ideológicas.

Não adianta colocar Alckmin na frente do espelho, é preciso romper a bolha e falar para o Brasil e para o futuro, sem nostalgias nem sectarismos. O PT e Lula precisam ler o alerta do Senador Randolfe, neste mesmo jornal Metrópoles, ao dizer que Lula precisa ser plural, como aliás ele tende a ser pessoalmente. E deu provas durante seus dois governos. Caso contrário, pode perder a eleição, inexplicavelmente, para Bolsonaro. Precisam entender que esta derrota será do Braisl, não apenas do Lula e do PT, portanto, a vitória deve ser de todo o Brasil e não apenas dele e do PT. Até porque dificilmente vencerão e certamente não governarão dentro da bolha e falando para o espelho.

Bucha – o despotismo sinistro não pode vencer

Bucha, Irpin, Gostomel, Mariupol, Trostyanets: torna-se cada vez mais longa a lista das localidades da Ucrânia que, aos olhos da comunidade internacional, simbolizam o horror da guerra de agressão russa. Homens de mãos atadas, mortos com um tiro na cabeça; mulheres fuziladas só por terem ousado sair do porão onde se abrigavam; escolas e hospitais bombardeados.

O assassinato indiscriminado de civis é característico do procedimento dos russos nesta guerra, assim como a pilhagem infame: dentro de seus tanques de guerra, os invasores levaram joias, dinheiro, frigideiras e até brinquedos para as crianças na Rússia.

Após a liberação das localidades, as redes sociais foram inundadas com relatos de testemunhas e imagens perturbadoras. Um dos palcos da barbárie russa, bem menos conhecido em nível internacional do que Mariupol ou Bucha, é Peremoha, cerca de 50 quilômetros a leste de Kiev. Após um mês de ocupação russa, o lugarejo também está em grande parte destruído e saqueado. Porém sua história é especial, pois no passado já foi um símbolo dos crimes de tropas invasoras.

Matías Tejeda

Até 1945, a cidadezinha se chamava Yadlivka. Durante a Segunda Guerra Mundial, soldados alemães a incendiaram completamente, numa bestial represália pelas investidas dos combatentes da resistência. Após a guerra, foi reconstruída e rebatizada Peremoha, que em ucraniano significa "vitória".

Seis décadas depois, como estudante, tive a oportunidade de participar de um projeto particular: ao longo de anos, em acampamentos de verão, jovens alemães e ucranianos reformaram juntos a escola de Peremoha. Esse sinal vivo de reconciliação me marcou para toda a vida, assim como a muitos outros de ambos os países.

Fazer coisas boas e processar juntos os crimes de gerações passadas é uma base particular para uma amizade verdadeira, para um olhar conjunto em direção ao futuro. É a melhor garantia de que os horrores do passado nunca mais se repetirão.

Fico feliz que hoje a Alemanha e a Ucrânia estejam unidas por uma amizade fundamentada em valores comuns, como democracia e liberdade. Apesar de toda a justificada crítica ucraniana aos questionáveis negócios alemães com a gás da Rússia, e aos anos de intolerável apaziguamento com o ditador de Moscou – ainda assim, no momento mais difícil a Alemanha está do lado da Ucrânia, seja acolhendo os refugiados ou fornecendo armas para autodefesa.

Oito décadas depois dos alemães, agora a guerra de devastação russa se abate sobre a Ucrânia. Exatamente como os alemães de então, os atuais invasores carecem de qualquer compaixão com a população civil. Para os alemães de então, os ucranianos eram sub-humanos. Para os russos de hoje, são inimigos mortais que cabe eliminar, pois seu anseio de liberdade e autodeterminação é percebido como uma ameaça pessoal, no contexto da imagem pós-imperialista russa.

Nas cabeças da maioria dos russos seu império perdido nunca deixou de existir. E, no âmbito desse raciocínio chocantemente retrógrado, o distanciamento ucraniano em direção ao Ocidente constitui alta traição. Segundo as enquetes mais recentes do independente Centro Levada, 86% da população é a favor da mobilização de seu exército para a Ucrânia.

Numa sociedade stalinista, como a ressuscitada sob o autocrata Vladimir Putin, os "inimigos do povo" sempre mereceram a pena capital. Os ucranianos sabiam disso já antes desta guerra – também em Peremoha.

Apenas 30 quilômetros a leste do lugarejo, num subúrbio de Kiev, pouco antes da Segunda Guerra, milhares de ucranianos foram sistematicamente fuzilados num bosque, sem qualquer acusação, e enterrados no local, só porque o regime de Josef Stalin os declarara como inimigos. Hoje, são traidores e inimigos todos os ucranianos que não aclamarem os invasores.

Na mesma medida em que são chocantes a matança e pilhagem indiscriminadas promovidas pelos invasores, é encorajadora a bem-sucedida defesa de Kiev e de outras cidades. Mesmo que prossiga a escalada de violência de Moscou, os parceiros ocidentais não devem hesitar em apoiar Ucrânia com todos os meios.

Pois a vitória dos ucranianos contra o despotismo russo seria uma chance para toda a Europa, aquela que se reinventa agora enquanto comunidade de valores, do lado dos ucranianos. O que está em jogo é o futuro pacífico do bloco: só com o fiasco dessa vergonhosa agressão, o culto russo à guerra revelará suas rachaduras.

Empregando propaganda em massa, há anos a agressiva ditadura de Moscou provoca uma verdadeira embriaguez bélica entre sua própria população. De maneira pérfida, o regime criminoso extrai sua legitimidade a partir do mito da vitória soviética contra a Alemanha nazista.

Enquanto os russos se imaginarem invencíveis, em seu delírio revisionista, não haverá paz duradoura na Europa. Pois enquanto nós, europeus, aprendemos com a Segunda Guerra Mundial que um horror daqueles não pode se repetir, jamais, na Rússia o dito "Mozhem povtorit!" (A gente pode repetir!) goza de grande popularidade. A alusão é a nada menos do que a tomada de Berlim.

Peremoha significa "vitória". Após a vitória contra o agressor Rússia, a localidade será reerguida. Se, pelo menos gerações mais tarde, os russos vão refletir sobre o destino desse lugarejo, como o fizeram os alemães, depende do que ainda restará do regime criminoso de Putin, sob os destroços desta guerra.

sábado, 9 de abril de 2022

2022 a 1648 – O começo e o fim do Estado nacional

Penso que nem mesmo o Dr. Pangloss, personagem de Voltaire, seria capaz de manter seu proverbial otimismo se lhe fosse dado deitar uma vista d’olhos sobre o mundo atual.

Numa fração de segundo, Pangloss certamente imergiria num sono profundo, durante o qual se lembraria da Paz de Westfalia (tratados celebrados em 1648, pondo fim à Guerra dos Trinta Anos) e da esperança dos reis lá reunidos de estarem lançando as bases de uma paz perpétua. Um mundo de Estados, quero dizer, de carapaças protetoras, que deixariam para trás os antigos castelos medievais. Estes eram bonitos, sem dúvida, mas haviam se tornado incapazes de garantir proteção a seus habitantes a partir do instante em que os exércitos se adestraram para o uso militar da pólvora.

Nesse aspecto, a grande inovação foi o reconhecimento da soberania territorial de cada Estado. Um país, mesmo se fosse dezenas de vezes mais poderoso que outro, só poderia penetrar o território deste violando sua soberania, ou seja, recorrendo à força militar e violando suas fronteiras, e ficaria sujeito à retaliação do país atacado, que certamente daria um jeito de arranjar aliados. Constituía-se, dessa forma, um sistema no qual todas as unidades políticas seriam Estados, uma vez que uma fronteira distante de seu “centro” funcionaria como uma carapaça protetora. Nascia, assim, o sistema europeu de Estados.

Dois segundos mais e Pangloss, despertando de seu sinistro sonho, teria à sua frente os escombros da Ucrânia, milhares e milhares de mortos, escolas e hospitais destroçados, falta de água potável em algumas regiões e o refulgente dourado dos trigais obliterado pelo incessante despejo de bombas. Assestando para mais longe seu binóculo, veria na janela do Kremlin a glacial figura do tirano russo.

Este mundo com que Pangloss hoje se depara nos apresenta quatro desafios que certos obtusos são incapazes de decifrar de imediato, mas que, com algum afinco, acabam compreendendo.


Primeiro, a sobrevivência da democracia. Nas últimas duas décadas, multiplicou-se por todo o mundo o número de indivíduos – muitos até portadores de diplomas universitários – que adorariam ver as democracias do planeta reunidas num féretro universal. Para nossa sorte, só em uns poucos países seu anseio está ganhando contornos de realidade. Não lhes passa pela cabeça como ficaríamos se, no mundo inteiro, a democracia fosse substituída por tiranias. Com um pequeno esforço, poderiam descortinar esse cenário, bastando-lhes para tal recordar-se de um momento em que não estivemos longe disso: se a Alemanha hitlerista, a duras penas derrotada pelos aliados, nos tivesse vencido.

O segundo desafio é que duas das três superpotências hoje existentes (Rússia e China) são regidas por regimes políticos ferreamente totalitários. A China, aparentemente mais afeita ao trabalho e capaz de interagir prudentemente com povos cujo idioma não compreende, beneficia-se da enorme vantagem de poder investir pesadamente em setores estratégicos de vários países, de comprar e vender em larga escala e de cada vez mais atrair a simpatia de terras como o Oriente Médio e a África, onde sua presença era praticamente nula até pouco tempo atrás.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, as duas mencionadas superpotências encontram-se confortavelmente sentadas em formidáveis arsenais nucleares. Permitam-me aqui os leitores um breve retorno aos tratados de Westfalia. A primeira grande brecha aberta no sistema europeu de Estados foi o surgimento, nos anos 1950, dos Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês). Para ter uma ideia exata desse novo desafio, convém lembrar que as bombas atômicas lançadas ao fim da Segunda Grande Guerra sobre Hiroshima e Nagasaki foram literalmente “jogadas”, quero dizer, atiradas manualmente a partir de aeronaves de médio porte.

Um quarto capítulo nesta sinistra novela ocorreu em 1962, quando Nikita Kruschev, o chefe político da União Soviética, valendo-se do fato de Cuba ter se convertido ao comunismo, cometeu o desatino de instalar um míssil na ilha de Fidel Castro. Consta que o presidente John Kennedy e seus ministros, reunidos às pressas, mostraram-se inicialmente atarantados. O papel decisivo teria cabido a Robert Kennedy, irmão mais jovem do presidente, que teria dado um murro na mesa e tomado a decisão: ou o sr. Nikita tira aquela porcaria de lá imediatamente ou vai arcar com pesadas consequências. Kruschev entendeu o recado.

Para bem aquilatar a fundura do abismo a que chegamos, reparem que aquele rapaz que preside a Coreia do Norte tem condições de atingir com um míssil nuclear qualquer ponto dos Estados Unidos. Posso imaginar que ele não hesitaria em fazê-lo, se não fosse o puxão de orelhas que levaria de seu “grande irmão”, a China.

Eis aí, em breves linhas, a enrascada em que o mundo se meteu. A Terra não é grande coisa, mas, se queremos viver nela, convém providenciarmos presidentes e ministros mais equilibrados que o atual inquilino do Kremlin.

O nosso espírito atormentado

As tipologias são sempre redutoras, mas, como em tudo o que é complicado na vida, têm alguma capacidade de nos ajudar a pensar e, se não a compreender, a ler o que se passa no mundo. É que, por vezes, as coisas são tão difíceis de entender que só o simples facto de as nomearmos já nos faz avançar, como quando nos perdemos numa caminhada e, antes de tudo, precisamos de voltar a encontrar o Norte… A guerra das palavras também existe e os tempos não estão propícios à linguagem metafórica, mas digamos que exércitos de observadores se têm alinhado de um lado e do outro: otimistas versus pessimistas. No reino dos especialistas em relações internacionais, também temos assistido aos humanistas e aos maquiavélicos – os que privilegiam o legado dos valores da liberdade e do primado da lei, os primeiros; os que optam por ver o lado mais sombrio do conflito, os segundos.

Bombardeio na estação de Kramatorsk

Como bom otimista, em 1992, logo a seguir à dissolução da União Soviética, o cientista político americano Francis Fukuyama viu o fim da História nas democracias liberais do Ocidente. Agora, arriscou o pescoço (a expressão é do próprio) e já disse que “a Rússia caminha para a derrota definitiva na Ucrânia”. Pelo contrário, num artigo muito pessimista, publicado em março pela Bloomberg, o historiador britânico Niall Ferguson considera que “a Administração Biden está a cometer um erro colossal ao pensar que pode prolongar a guerra na Ucrânia, derrubar Putin e dizer à China para manter as suas mãos longe de Taiwan”. Em Fukuyama e em Ferguson residem, certamente, duas perspetivas diferentes, mas em nenhum dos lados do Atlântico alguém se atreve a dizer de que lado está a razão.

Na Europa, dois anos (e muitas vacinas administradas) depois, a incerteza sobre o desfecho da guerra faz parecer a incerteza provocada pela pandemia uma brincadeira de crianças. Não é comparável, mas Putin está obcecado com o passado imperial da Rússia enquanto o Ocidente se concentra nas analogias com a História. Já não estamos na Guerra Fria, mas há semelhanças: a ameaça nuclear regressou assim como o confronto entre potências e uma guerra travada por procuração. Desde a invasão, a resposta europeia tem sido unânime no apoio aos refugiados e na ajuda militar à Ucrânia, ainda que o Conselho Europeu não tenha conseguido entender-se sobre o embargo às exportações de gás e petróleo russos (tal como as tipologias, os números também ajudam a ler o mundo: são mil milhões de dólares por dia). Volodymyr Zelensky já dispensou a adesão à NATO e, em entrevista à The Economist, também disse que “a vitória é salvar tantas vidas quanto possível”: “O nosso território é importante, sim, mas em último caso é só território.”

Seis semanas após o início da guerra, quando os nossos espíritos são atormentados com as atrocidades cometidas nos arredores de Kiev, manter a perspetiva otimista é tão difícil quanto responder ao grande dilema: como acabar com a guerra sem entrar na guerra? Os europeus também merecem que os seus líderes adotem a clareza das palavras do Presidente ucraniano: a Europa mudou a 24 de fevereiro de 2022 como os EUA mudaram a 11 de setembro de 2001 – e nunca mais será a mesma.

Este filme, você já viu. No fim, depois do tiroteio, o bandido escapa

Boa parte dos senadores celebra discretamente mais uma chance de extrair vantagens do governo com o anúncio feito por Randolfe Rodrigues (Rede-AP) de que reuniu as assinaturas necessárias para protocolar o pedido de abertura de uma CPI destinada a investigar suspeitas de roubalheira no Ministério da Educação.

CPI é uma ótima oportunidade de fazer negócios, a maioria deles inconfessáveis. Governo algum admite ser alvo de uma CPI mesmo que ela não dê em nada, e quase sempre não dá. Por mais barulho que produza, seus relatórios finais acabam sendo esquecidos. De todo modo, barulho, e mais em ano eleitoral, causa estragos.

Bolsonaro autorizou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), chefe da Casa Civil da presidência, a valer-se de qualquer tipo de arma para impedir a instalação da CPI dos Pastores Dourados. Embora provisório, o nome faz sentido. Bolsonaro deu passe livre a pastores evangélicos dentro do ministério. Glória a Deus!

Dois deles, Gilmar Santos e Arilton Mourão, cobraram propina a prefeitos interessados em obter para seus municípios recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. A propina poderia ser paga em dinheiro vivo, em quilos de ouro ou mediante a compra de exemplares de uma edição especial da Bíblia.


Para que uma CPI seja criada são necessárias 27 assinaturas de senadores. É o número mínimo. Randolfe disse que colheu as 27. O provável é que conte com mais assinaturas, guardadas em segredo. Nogueira não sabe quem assinou ou não. Na dúvida, começou a chamar senadores para conversar em seu gabinete.

O processo de convencimento dos senadores para que não assinem o requerimento de pedido de abertura da CPI, ou para que retirem suas assinaturas, passa, naturalmente, pela oferta de agrados – liberação do pagamento de emendas ao Orçamento, cargos nos diversos escalões do governo e a eterna gratidão de Bolsonaro.

Nogueira tem larga experiência no ramo. Já esteve dos dois lados do balcão. No momento, está do lado de dentro como fonte pagadora. Em 2014, quando estava do lado de fora, recebeu propina do grupo J&F para apoiar a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Quem disse? A Polícia Federal, que o investigou.

Ele está sendo acusado de crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. As conclusões da investigação foram remetidas ao Supremo Tribunal Federal e deverão ser submetidas ao exame de Augusto Aras, Procurador-Geral da República, a quem caberá oferecer ou não a denúncia contra Nogueira.

A levar-se em conta a folha corrida de Aras, aposte que ele não oferecerá. Aras está no cargo para livrar a cara de Bolsonaro, dos filhos dele e de aliados importantes. É o caso de Nogueira. O relatório final da CPI da Covid-19 foi parar nas mãos de Aras. Deu no quê? Deu em nada até aqui. Nem dará.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Imagem da infâmia

 

Vlad Tanyuk, de 6 anos, junto à sepultura
 improvisada da mãe, morta pela fome, em Kiev

Bem-vindos à Estação Utopia

Lembro-me muito bem da tarde em que conheci Ruy Duarte de Carvalho. Tinha 28 anos e acabara de publicar o meu primeiro romance. Ruy Duarte era para mim uma espécie de profeta. A poesia dele, que descobri ainda adolescente, nos meses de fúria e fervor revolucionário que antecederam a independência, arrastou-me não apenas para a literatura, mas, mais do que isso, ajudou-me a descobrir e a sedimentar a minha própria identidade angolana.

Em 1998, Ruy Duarte habitava o último andar de um edifício muito degradado, na Maianga, em Luanda. Havia um salão, com estantes dobradas ao peso dos livros, que se abria sobre uma larga varanda debruçada sobre o metódico caos da capital. Quando cheguei, a varanda já estava cheia de jovens, uns sentados no chão, outros em cadeiras trôpegas, fumando, bebendo e conversando. Lembro-me do ar que se colava à pele, denso e quente, e da voz grave de Ruy Duarte, expondo as suas teses sobre a vida. Defendia essas teses recorrendo à mais pura intuição poética. Uma dessas teses me parece agora muito mais atual do que naquela época — e também muito mais assustadora.


Dizia Ruy Duarte que na chamada estação das chuvas, quando ao calor crescente se soma a umidade atmosférica, o ambiente se enche de um excesso de energia, que contamina tudo e transtorna os espíritos. A estação das chuvas desencadearia todo o tipo de grandes gestos e grandes dramas. Seria a época das mais intensas histórias de amor, das revoluções e decisões radicais, mas também das rupturas trágicas, das guerras e dos motins. A própria natureza parece, por vezes, enlouquecer, voltando-se contra a Humanidade e a vida.

Dados recentes confirmam que em períodos de temperaturas elevadas os crimes violentos tendem a aumentar. Fico pensando no aquecimento global, no derretimento de geleiras e calotas polares, e no consequente aumento exponencial de água em circulação; enfim, na brutal quantidade de energia que estamos acumulando ao nosso redor. É como se a estação das chuvas estivesse alastrando por todas as geografias e por todos os meses do ano. A estação das chuvas é agora, cada vez mais, a estação total.

Levando a sério a hipótese de Ruy Duarte de Carvalho, podemos esperar que os próximos anos sejam, para o pior e para o melhor, particularmente intensos. O pior já sabemos o que é: a multiplicação de desastres naturais, pandemias, surtos de ódio coletivo, de barbárie e de primitivismo, que podem manifestar-se de formas diversas, em alguns casos, como no Brasil ou nos EUA, ameaçando as instituições democráticas e a civilização.

O melhor talvez seja a oportunidade de recomeço que todas as grandes rupturas trazem. Sabemos onde falhamos e por que falhamos. Precisamos reunir toda essa energia bruta e caótica, toda essa inquietação primordial, e transformá-la em ideias, em ideais, em alternativas práticas aos atuais modelos de exploração de recursos.

Viveremos dias intensos. Viveremos milagres e prodígios que os nossos avós não foram capazes de prever.

Bem-vindos à Estação Utopia.

Pais de mentirinha

O Brasil vive a naturalização da mentira. Há uma nova atividade no país: a de traficante de notícias falsas. Vivemos uma decadência ética profunda
Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal

Os homens que se transformavam em barbantes

Havia uma cidade, grande, desenvolvida. As pessoas que moravam lá eram saudáveis, simpáticas e alegres. Não me lembro o nome da cidade, eu tinha quinze anos quando passei por ela, levado por meu pai. Nessa época, não me preocupava com o nome, e sim com os lugares propriamente.

Acontece que, certo dia, um habitante desta cidade saiu de casa, pela manhã, dirigindo-se ao emprego. Fez todas as coisas de praxe. Cumprimentou os vizinhos, o barbeiro da esquina, o vendeiro, os colegas no ponto do ônibus, agradeceu ao motorista, ao ascensorista, sentou-se em sua mesa.

Nesse dia, no fim do expediente, o homem notou que seu pulso esquerdo parecia mais fino. “Bobagem. Impressão. Acho que estou cansado demais.” Foi para casa, jantou, viu telenovela, dormiu. Na manhã seguinte, o pulso tinha se afinado mais. E suas canelas pareciam de criança. Chamou a mulher. Ela ficou tão impressionada, que o homem se arrependeu de ter mostrado. Não havia dor, apenas fraqueza.

Partiu para o emprego. Contente, cumprimentando as pessoas e agradecendo ao motorista e ao ascensorista. No meio da tarde, porém, não conseguiu trabalhar. O pulso estava fino e dobrava-se. Maleável, sem consistência. O homem, envergonhado, puxou a manga da camisa. O mais que pôde, para que os colegas não vissem.


Mas viram. O homem tinha o corpo transformado. A cabeça, única coisa normal, caiu sobre a mesa. O torso não era mais grosso que um lápis, suas pernas e braços, finos como cordéis. Mas ele estava lúcido, coerente, o cérebro não tinha sido perturbado. Além do impacto, e da surpresa ante o estranho, o homem continuava o mesmo. Levado para casa, chamaram o médico. E o médico chamou outro médico. Porque:

– Não é o primeiro. É o terceiro, nesta semana.

Os jornais noticiaram, as notícias trouxeram à luz novos casos. Pela cidade inteira acontecia aquilo: as pessoas se adelgaçavam, tornavam-se frágeis. Em pouco tempo, outro fato surgiu, ao lado dos homens que se transformavam em barbantes. Eram os que se transformavam em vidro. Tinham que ter muito cuidado, ao andar pela rua, ao trabalhar, porque podiam se quebrar com qualquer batida. Vez ou outra, os homens de vidro se desfaziam. Em plena rua, à vista de todos. Como o vidro blindex que se estilhaça por inteiro.

Aquela população alegre, saudável, descontraída, começou a viver apavorada. Sem saber se, a qualquer momento, o vírus (seria vírus?) podia atacar. Mudando a pessoa em vidro ou barbante. Muitos começaram a se mudar, indo para cidades distantes. A Secretaria de Saúde analisou o ar, a água, tudo, em busca das causas. O ar era bom, não poluído. E as águas vinham de nascentes puras ou de poços artesianos límpidos. Pensou-se que algumas pessoas podiam estar colocando elementos venenosos na comida ou em caixas-d’água. Investigações nada concluíram.

Até hoje, nada se sabe. A cidade parece estar se habituando com a possibilidade de eventualmente alguém se transmutar. Não causa mais surpresa quando um barbante é levado pelo vento ou, em dias de chuva, é tragado pela enxurrada. Ou quando os vidros se liquefazem, no momento em que uma pessoa vira a esquina e dá um esbarrão noutra. A população se acostumou. O homem se adapta às piores condições, conformando-se com os acontecimentos. Naquela cidade, tudo é frágil, a vida humana tem a espessura de um fio. Ou é delgada como um vidro. Mas isto vai se constituindo na normalidade.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras proibidas"

Por que nada muda na política brasileira

Algo que sempre me espantou na política brasileira é a quantidade de partidos. Atualmente, 32 legendas estão representadas no Congresso, uma pura sopa de letrinhas. Para um recém-chegado ao Brasil, é natural se perguntar qual é a diferença entre Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Partido Social Democrático (PSD). Hoje, é claro que sei qual é – o que, por sua vez, gera a pergunta: qual das duas siglas realmente representa a social-democracia, que não é apenas um nome, mas um movimento com mais de 160 anos de história? O fato de duas legendas bem diferentes reivindicarem para si essa história mostra toda a arbitrariedade do cenário partidário brasileiro.

Definitivamente não é possível haver um número tão grande de ideias diferentes sobre a direção e o futuro do Brasil quanto o de partidos no país.

Por que, então, há 32 partidos no Congresso? E por que surgem sempre legendas novas? Por que no Brasil é impossível criar um sistema partidário compreensível e evitar a superlotação do Legislativo com uma cláusula de barreira?

O que está claro é que muitos partidos no Brasil não representam ideologia alguma. Eles não têm programas nos quais apresentam propostas concretas para o combate à pobreza, desigualdade social, desemprego e criminalidade e sobre como pretendem aumentar o acesso à educação e a qualidade de vida. Na melhor das hipóteses, encontram-se promessas e anúncios vagos nas suas declarações.

Muitos partidos, portanto, não estão muito preocupados com a prosperidade do Brasil. Com frequência, trata-se apenas de ocupar assentos no Legislativo, receber salários altos e aproveitar os mais diversos privilégios, que no Brasil são um tanto antiquados. Os parlamentares brasileiros trabalham menos, mas proporcionalmente ganham muito mais do que os alemães (em relação à renda média do seu país). E ainda podem acomodar e garantir o sustento de amigos e parentes em seus gabinetes.

Dessa maneira, muitos partidos brasileiros são meros veículos para assegurar uma vida relativamente confortável e privilegiada a determinados indivíduos. São sempre as mesmas famílias, clãs, predominantemente homens e brancos, que se beneficiam desse modelo. Por isso, nada de fundamental muda na política brasileira e novas ideias não são colocadas em pauta.


Entre os rituais desse sistema político disfuncional está a janela partidária. Para mim, nada expressa melhor o vazio programático e o oportunismo. Nas últimas duas décadas, a Câmara dos Deputados teve, em média, uma troca partidária a cada sete dias. Um dos que mais trocou de camisa partidária é justamente o presidente Jair Bolsonaro – foram ao todo nove vezes.

Essas mudanças ocorrem raramente por convicções políticas, mas muito mais pela busca de posições mais promissoras de modo a ampliar a participação no poder e o acesso a verbas. Neste ano, o período para troca de legenda chegou a ser prorrogado devido a interesses locais de parlamentares. E veja só, o inevitável Centrão, esse boa vida da política brasileira, ampliou suas bancadas e saiu fortalecido para as eleições deste ano. Ao todo, 132 parlamentares trocaram de partido. Assim, o sistema que deveria servir a todos os brasileiros se curvou mais uma vez aos interesses pessoais dos privilegiados. Não há melhor maneira de resumir a ordem social, quase feudal, do Brasil, que encontra sua continuidade na política.

Uma figura me chamou especialmente a atenção: Eduardo Cunha. Ele se filiou ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – mais uma legenda com nome enganoso, que tem apoiado, sem exceção, todos os presidentes desde Fernando Collor, passado por Lula e Bolsonaro – para se candidatar a deputado federal. Para mim, não está claro como isso será possível, pois ele continua inelegível por conta da Lei da Ficha Limpa, desde que teve o mandato de deputado cassado, em 2016. Mas ele deverá encontrar alguma maneira de entrar no Congresso com o bilhete do bolsonarismo (alguém ainda se lembra de que Bolsonaro foi eleito para combater a corrupção?) e, assim, desfrutar novamente das vantagens do foro privilegiado.

A filha de Cunha também é pré-candidata a deputada federal por algum desses partidos comutáveis. Assim como vários filhos, filhas, netos, sobrinhos e sobrinhas de políticos. Não por ideais, mas para entrar na lucrativa política. E ainda há aqueles que se perguntam por que nada muda.
Philipp Lichterbeck

A nova ordem

Ainda não sabe como e quando terminará a guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, mas já há uma certeza: o conflito representa o fim de uma era e o marco de uma nova ordem mundial. A queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética geraram um mundo unipolar com forte hegemonia dos Estados Unidos. Foram tempos de intensa globalização da economia, com o advento das grandes cadeias produtivas globais e o fortalecimento dos valores liberais.

A guerra da Ucrânia reduziu a pó a premonição do cientista político Francis Fukuyama do fim da história e de uma ordem que seria eterna. O conflito instalou um momento disruptivo, com o restabelecimento da bipolaridade e sua consequente divisão do mundo em dois blocos geopolíticos. De um lado, a aliança norte-atlântica constituída pelos EUA e a Europa Ocidental e, de outro, o bloco eurasiano, a partir do eixo Pequim-Moscou, com tendências de se expandir para a Índia, Turquia e Irã.

O conflito bélico na Ucrânia, o primeiro envolvendo dois países europeus pós segunda guerra mundial, é a parte quente de uma nova guerra-fria. Mas há aqui uma diferença fundamental em relação à bipolaridade do século passado.

Esta se dava entre dois sistemas antagônicos – capitalismo versus comunismo – e o alinhamento geopolítico se dava por princípios comuns e afinidades ideológicas. A guerra-fria contemporânea se apoia fundamentalmente no terreno econômico. A corrida principal não é nuclear ou bélica, é econômica e tecnológica. Pode até haver valores em jogo, uma vez que a maioria dos países da aliança atlântica tem regimes liberais, enquanto os da eurásia são iliberais, quando não ditatoriais.

Mas a China não tem a pretensão de exportar seu modelo totalitário para outros países, ao contrário dos tempos da antiga União Soviética, e sua economia é tão capitalista quanto a dos Estados Unidos, ainda que sob a forma de capitalismo de Estado.


O fato da principal batalha ser em torno da hegemonia econômica e tecnológica traz dúvidas sobre a natureza da aliança entre a Rússia e a China, reafirmada nos jogos olímpicos de inverno de Pequim. Ainda não está claro se ela é estratégica e inabalável, como a definiu Xi Jinping ou uma aliança tática, conforme considera Ronaldo Carmona, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Isso explica nuances entre os dois países mesmo em relação à guerra na Ucrânia.

A China não condenou a invasão russa, mas defende a solução pacífica para o conflito. O pano de fundo é que a China é inteiramente integrada à economia mundial, responsável por um quinto do PIB do mundo, e beneficiou-se do processo de globalização.

O segundo grande fenômeno da nova ordem econômica mundial é a desglobalização, que antecede a guerra. Vide o Brexit e a eleição de Donald Trump. A pandemia evidenciou que a dependência das cadeias produtivas globais de insumos médicos se torna crítica em momentos de grave crise sanitária, afetando a soberania dos países.

A guerra da Ucrânia expôs a olhos nus a dramaticidade da ultra dependência dessas cadeias globais. A alta do preço do petróleo e a dependência da Rússia colocou na pauta a necessidade dos países da Europa Ocidental encontrar e investir em fontes energéticas alternativas. Mesmo no terreno militar, o conflito está levando a uma redefinição da “divisão de trabalho” vigente desde a guerra-fria passada.

Os países dessa parte do continente pouco investiam em termos bélico-militar porque o poderio dos Estados Unidos servia de “elemento de contenção”, conceito formulado em 1947 pelo diplomata americano George Kennan. Donald Trump, como presidente, reclamava do fato de seu país arcar com os custos da OTAN, exigindo que os países europeus investissem na área militar. Com a guerra da Ucrânia, a Alemanha, a França e outros países pretendem aumentar seu orçamento militar, por uma questão de segurança nacional.

Como observou Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, “as punições econômicas à Rússia levarão ao desmoronamento da globalização” e vão acelerar o processo de desmontagem das cadeias produtivas globais. A China, por exemplo, já está investindo pesado para desenvolver seus próprios chips para não depender de outros países.

A desglobalização consiste exatamente em os países diminuírem a interdependência e terem mais autonomia em áreas estratégicas ou que são vulneráveis. No caso brasileiro, essa demanda ficou evidenciada em relação aos fertilizantes, face nossa dependência da Rússia. O fator custo de produção foi determinante para a formação das cadeias globais. Agora, ele não será o único. Países tendem a aceitar custos de produção maior, desde que os assegurem por meio da produção interna.

Na Nova Ordem Mundial em gestação faz todo sentido a afirmação do diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero: “Pode-se chegar a um mundo em que haja dois sistemas de pagamento, dois sistemas bancários e mesmo dois sistemas de internet separados, o que atingiria a globalização no seu âmago”.

Com a economia se transformando em arma geopolítica não estamos muito distantes do quadro descortinado por Ricúpero. O Irã já criou seu sistema de Internet. Mesmo o dólar como moeda única do sistema econômico mundial pode perder esse status. Países como a China, a Rússia, a Índia e até mesmo a Arábia Saudita – aliada histórica dos Estados Unidos – já utilizam outra moeda que não a americana nas relações comerciais interpaíses da eurásia.

A bipolaridade e a desglobalização trazem novos desafios para o Brasil. Se de um lado nos identificamos com os valores do mundo ocidental, a China é o nosso principal parceiro comercial. O pragmatismo responsável – pilar fundamental da nossa cultura diplomática – aconselha a não se alinhar com nenhum dos dois blocos e a entender que é de nosso interesse um mundo multipolar em um ambiente de paz.