Primeiro, ao lembrar que, apesar de nossa crise, o Brasil ainda atrai milhares de pessoas que vivem em países com mais pobreza e menos esperança no futuro. Todos os dias recebemos imigrantes sobretudo da Venezuela e diversos países da África. O congolês Moïse Kabamgabe veio para o Brasil fugindo de guerras e pobreza em seu país, com situação ainda pior do que a brasileira.
Segundo, este assassinato é sinal do tamanho da pobreza brasileira, ao constatarmos que ele cobrava dívida de salário duzentos reais não pagos por dois dias de trabalho.
Terceiro, sinal da violência e da impunidade que levam pessoas jovens a participar do assassinato de um trabalhador, da mesma forma como se fazia nos tempos da escravidão. Em pleno século XXI, Moíse morreu no pelourinho que caracterizou quatro séculos de nossa história, que ainda não se livrou da escravidão, apesar de mais de cem anos depois da Abolição. A violência é um estudo geral da sociedade brasileira, desde seu início. Moïses é uma das milhões de vítimas que todos os dias sucumbem por algum tipo de arma, muitas delas invisíveis, por serem abstratas, sou por serem tão naturais que não são percebíveis.

Não é por acaso que um quarto sinal é a indicação do racismo por trás do assassinato. Dificilmente ele aconteceria se fosse um trabalhador branco. Além disto, é sinal de que o mundo inteiro atravessa um tempo de xenofobia: os brasileiros pobres são maltratados no exterior e o Brasil maltrata os pobres que vieram do exterior.
Um sexto sinal é a característica do trabalho servil, que se mantém quase 150 anos depois da Lei Áurea: milhares de trabalhadores não mais escravos servindo às classes médias e altas, não mais donos dos escravos, mas beneficiados por baixíssima remuneração e trabalho precário.
O assassinato de Moïses é também sinal da insensibilidade das classes médias e altas que se chocam com a notícia e sobretudo com as asquerosas imagens do linchamento, mas toleram a desigualdade, a exclusão, a pobreza que assassina devagar a cada minuto. Não se choca com as milhões de crianças jogadas, todos os dias, ao mar da desescola, apenas porque são pobres.
Moïse é sinal destes tempos, no mundo e no Brasil.
Mas, entre tantos sinais de perversão de nossa sociedade, Moïses trás sum sinal de esperança diante da indignação que sua morte provocou na imprensa, na sociedade e na polícia, que rapidamente identificou e prendeu os suspeitos. Esperemos que a morte de Moïse desperte o Brasil para perceber a maldade que nos caracteriza e nos provoque a buscar a paz social de que tanto carecemos.
Lula voltou a afirmar ao respeitável público que quer regular a imprensa como uma forma de defender a liberdade de expressão e democratizar as mídias. O candidato menciona ser adepto do “modelo inglês”, mas demonstra não ter a menor ideia do que está falando. Seu modelo é para inglês ver.
Não faltam no Brasil, hoje em dia, veículos jornalísticos novos. O gargalo não está no surgimento, mas na dificuldade deles se manterem de pé. E essa dificuldade não decorre das leis sobre a imprensa serem da década de 1960 e estarem ultrapassadas, como sugeriu Lula, mas da ausência de planos sérios para o setor.
A única política pública existente para a imprensa é a de governos distribuírem verba de publicidade estatal a quem lhes for conveniente, algo legal e imoral que passa longe de ser um instrumento democrático e que se fez presente, inclusive, – ou sobretudo – nos governos do ex-presidente.

Se alguma regulação é necessária, decerto não é a da imprensa, mas a das grandes plataformas, as big techs, responsáveis pela distribuição e capitalização do conteúdo dos veículos de imprensa na internet, ou seja, pela audiência e, consequentemente, pela possibilidade de que esses veículos sejam – ou não – financeiramente independentes do governo ou de qualquer outra teta com leite azedo.
Precisamos de leis para essas plataformas. As que temos para a imprensa são suficientes e não estão ultrapassadas. A forma de Lula pensar o tema é que é ultrapassada.
Na última quarta-feira, durante discurso de abertura dos trabalhos legislativos no Congresso, Bolsonaro criticou o desejo regulatório de Lula e disse ser ele o verdadeiro defensor da liberdade de expressão.
Bolsonaro não regula, mas xinga e persegue jornalistas, ataca e descredibiliza veículos. Quando acuado, diz jogar dentro das quatro linhas. Fora das quatro linhas, manda seus dirigentes ameaçarem e constrangerem adversários no vestiário, como era feito no futebol antigo, da época da ditadura de que ele é saudosista.
Nem um nem outro defende liberdade alguma. Ninguém quer democratizar as mídias. Liberdade de expressão é apenas um mote eleitoreiro que soa bem no microfone de piquetes e palanques. Nada mais.
A liberdade de expressão não passa de um inconveniente, uma chateação com que precisam lidar, uma espécie de verruga esquecida enquanto não é notada e sobre a qual o médico recomenda: se incomodar muito, a gente arranca.
A liberdade de expressão é uma verruga constitucional. Vai sobrevivendo enquanto não incomoda muito.
Por razões industriais, o texto de domingo desta coluna é finalizado com dois dias de antecedência. Antes, portanto, de conhecermos a dimensão das passeatas agendadas para este sábado (ontem) em homenagem ao refugiado congolês Moïse Mugenyi Kabagambe. A troco de nada, o jovem negro fora abatido como animal por três indivíduos que também trabalhavam sem registro nas areias idílicas da Barra da Tijuca. As circunstâncias da curta vida de Moïse (24 anos), narradas pela mãe, somadas à agonizante morte a pauladas do filho, cobriram o país de uma vergonha nova: testemunhar, através das imagens captadas em vídeo, a execução do jovem entregue aos cuidados do Estado, como refugiado de guerra. Dói, humilha, desespera, abate. E impulsiona o instinto represado de sair do confinamento cívico, de se fazer ouvir, assinar manifestos, ir às ruas, gritar até perder o fôlego.
Muito bem. E depois? Nada mudará se, de volta à rotina, não percebermos os tantos Moïses, imigrados ou nacionais, com quem convivemos sem interesse, cruzamos na rua, no trânsito, no trabalho e na vida, num simulacro de sociedade. Sociedade violentamente racista. A congolesa Ivone Lay, mãe do filho linchado, descobriu tarde demais o que todo negro brasileiro aprende já no ventre da mãe: que um jovem negro é morto no Brasil a cada 23 minutos, segundo o Atlas da Violência 2021. Talvez seja da educadora Yvonne Bezerra de Mello, em entrevista à jornalista Ruth de Aquino no GLOBO, a constatação mais crua da realidade atual: “A civilização abandonou o Brasil. É um processo de desconstrução do ser humano no coletivo”. Em três semanas deste verão carioca de 2022, houve 12 tentativas de linchamento de suspeitos de assalto nas areias da Zona Sul.
Para refugiados africanos, haitianos e outros desvalidos à deriva, soa atraente a fantasia de um paraíso tropical tolerante e acolhedor chamado Brasil, de língua única, sem massacres étnicos nem guerras religiosas. O guineense Luís Fernandes Junior veio estudar Pedagogia na Bahia em 2018, apesar de alertado sobre a violência brasileira por sua família na Guiné-Bissau que assiste ao programa policialesco “Cidade alerta”, da TV Record. Em dezembro, foi retirado do banheiro de um shopping por um segurança, acusado de ter roubado a mochila que acabara de comprar na loja Zara. “Fui perceber o racismo aqui no Brasil. Nunca havia vivenciado isso... A forma de me abordar foi desumana”, contou à Folha de S.Paulo, em terno depoimento sobre raça e ancestralidade.
Enquanto não for dada visibilidade máxima a casos miúdos ou extremos, sempre perversos e nascidos do mesmo caldo de exclusão social do negro, uma mudança estrutural da sociedade brasileira levará outros 134 anos. Se fizermos as contas das montanhas de páginas de jornal e de noticiário televisivo que as mídias dedicam a picuinhas do chamado Centrão, cabe perguntar se isso é de real interesse da população. E as alianças e mésalliances partidárias, então? Elas são destrinchadas em minúcias, sempre distantes do dia a dia do cidadão cansado. Este mesmo cidadão entende bem melhor o relato-desabafo feito dias atrás pelo tenor lírico Jean William para a jornalista Mônica Bergamo. William fazia a travessia na balsa Santos-Guarujá sentado no banco do motorista do seu super Jeep, quando foi abordado por um PM, que lhe apontava uma arma. Intimado a descer com as mãos para o alto, foi perguntado aos gritos se era o proprietário do veículo de luxo, se tinha ficha na polícia, se portava drogas. Dentre os vários outros motoristas na balsa, só ele foi pinçado e tratado como bandido à vista de todos. William é negro.
A literatura brasileira mais recente parece estar léguas à frente das mídias profissionais no enfrentamento da tragédia brasileira. O Brasil ainda pode ser considerado uma nação, quando ancorado no racismo estrutural e na violência estimulada? O que levou um sargento da Marinha a matar com três tiros disparados do seu automóvel um vizinho de condomínio, quarta-feira, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio? “A localidade aqui é perigosa, costuma ter assaltante”, explicou o atirador. Durval Teófilo Filho voltava do trabalho em Niterói, onde era repositor de estoque. Era negro, estava a pé, e mexera na mochila que trazia no peito para pegar as chaves do portão. Bastou para morrer.
No próximo dia 14 de março completam-se quatro anos do traumático assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Até hoje, as investigações não chegaram à identidade do mandante do crime, nem à motivação da execução da parlamentar. Em compensação, esta semana assumiu um novo titular na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), encarregada da apuração. É o quinto titular desde o ataque no qual também morreu metralhado o motorista de Marielle, Anderson Gomes.
O negro brasileiro não é refugiado nem asilado, como os que chegam de terras estrangeiras em busca de uma nova vida. O negro brasileiro se sabe excluído em seu próprio país, e não há democracia possível num contexto destes. Já passou da hora de o Congresso e o Poder Judiciário assumirem sua responsabilidade na construção de uma sociedade menos vil. Do Executivo atual é inútil esperar algo, só o pior.
Nós vos pedimos com insistência:
Não digam nunca: isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia,
Numa época em que reina a confusão,
Em que corre sangue,
Em que o arbítrio tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Não digam nunca: isso é natural!
Para que nada passe a ser imutável!Bertolt Brecht
Se o Brasil não ultrapassou as condições em que a violência ainda pode retroceder ao "normal", está entrando nessa aberração sem volta.
Não se vislumbra preocupação coletiva com o problema, nem mesmo para conter o empenho criminoso do governo por mais e maior violência. Como se dá com a própria violência, é a continuidade lógica de um percurso imposto. Explicado pela invocação de suas causas gritantes, mas excluído o fator determinante: o passado indiferente e a indiferença do nosso tempo à liberação da violência. O que situa as responsabilidades silenciadas.
As causas socioeconômicas da violência, legado da escravidão, acumularam-se desde a oportunidade perdida de uma abolição com perspectiva social e inteligente. A indiferença dos possuidores pelo país abaixo dos seus interesses caminhou, pelo tempo afora, com a tranquilidade assegurada por polícias e forças militares em eventuais cobranças de alguma justiça.
As favelas deram, a um só tempo, tanto a estética da segregação urbana —a verdadeira arquitetura moderna brasileira— como um atestado sólido da indiferença. O trabalho depreciado, a escassa oferta de emprego e a concessão precária de escolaridade disponibilizaram população crescente para o desemprego adulto e a marginalidade jovem.
A pobreza e a miséria são violências passíveis de incutir a sobrevivência alheia a leis e princípios. Mas o desenvolvimento de tais práticas nunca levou a um esforço verdadeiro para corrigir, em alguma medida, as suas causas também crescentes.

Os possuidores e a política que a eles serve continuaram indiferentes. E sempre piorados: a cultura ocidental desenvolveu desde a Segunda Guerra, sobretudo com cinema e TV, um sistema de alta eficácia na indução de violência à vida cotidiana das próprias classes dominantes. Nesse nível, as barreiras oferecidas pela educação pessoal, pelo estudo, pelo convívio reduziram-se com rapidez drástica. Estão quase desaparecidas. Deram lugar a mais violência e a mais indiferença à realidade.
Não precisamos de estatísticas para saber: estamos em um país brutalmente violento e estupidamente indiferente à sua realidade. Nas classes que definem a estrutura social e influem nos rumos nacionais, claro. Os rumos da violência inspirada pela pobreza exasperante, e armada pela indiferença, não sabemos.
Casos de repercussão como o linchamento do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe não negam a indiferença, antes a confirmam. Consumados ou quase, assassinatos assim ocorrem no país todo, motivando mínimas notícias ou silêncio —não só por provável insuficiência jornalística, mas pela indiferença generalizada à indiferença mesma.
O clamor eclodiu dias depois do linchamento e da indiferença policial e dos noticiários. Causou-o o lamento comovente da mãe de Moïse, Lotsove Lolo Lavy Ivone.
A política nunca se voltou de fato para as deformações que desenvolvem a violência. Nunca houve um esforço verdadeiro da sociedade e de seus instrumentos para suprir a omissão da política e dos recursos oficiais contra a violência e suas fontes reais. O que é uma violência monstruosa. Diferente na forma, e, apesar disso, comparável aos extermínios históricos. Centenas de milhões ou já bilhões vitimados por efeito da indiferença histórica no Brasil.
Outros milhões
É um livro pequeno: "Invisíveis". Uma palavra na capa, etnografia, pode afastar leitores. Seria pena. O livro da jornalista esplêndida, professora universitária e pesquisadora Fernanda da Escossia é "uma versão modificada" —digamos, simplificada ou traduzida— da tese de doutorado em que nos traz um universo inimaginado: o dos milhões de brasileiros que não têm direitos por não terem certidão de nascimento e, portanto, nenhum outro documento.
Quem não tem documento não existe legalmente: "Eu me sinto um nada", "Sou um zero", "Eu me sinto um cachorro", ouviu Fernanda.
São histórias perturbadoras, lindas ou indignantes, que Fernanda colheu de velhos, mães, filhos ao persistirem na aventura dramática de provar ao Estado que nasceram. Logo, existem. E, com 30 ou com 75 anos, ou sem sequer saber o dia do nascimento, querem o direito de ser vistos no mundo dos vivos —até para o direito de ter uma certidão de óbito, e não a vala comum.
Às vezes comovente, aliviante em outras, é mais um Brasil que "Invisíveis" revela.
Bolsonaro se elegeu presidente em 2018 sem dispor de um programa de governo, governou erraticamente desde então sem dispor de um, e agora, a oito meses das próximas eleições, providencia um programa de governo para chamar de seu.
É fraude para enganar os que ainda creem nele, ou para atrair de volta os que deixaram de crer e migraram para outros candidatos. O mais interessante é que o esboço do programa de governo que ele jamais teve está na contramão do que ele fez até aqui.
Chamar um documento de programa de governo virou coisa antiga. Esse que os técnicos começaram a esboçar está sendo modernamente chamado de “agenda estratégica”. Ela terá a função de orientar a administração pública direta.

Como o papel aceita tudo e o governante não é obrigado a fazer o que prometeu, entre as diretrizes para a área econômica de um segundo mandato de Bolsonaro está a de “promover uma reforma tributária que favoreça o desenvolvimento econômico”.
Inspirado por Paulo Guedes, ministro da Economia, Bolsonaro, que não entende disso, havia se comprometido em promover uma reforma tributária. Não fez nada parecido. Jogará a culpa na pandemia da Covid-19 e no Congresso. Fácil assim.
Consta da tal “agenda estratégica”limitar a interferência do Estado nas relações privadas, e incentivar os investidores”. Foi com frases feitas de tal natureza que Bolsonaro ganhou o voto do chamado mercado, que mais tarde se decepcionaria com ele.
O presidente que assumiu o cargo garantindo por meio de Guedes que reduziria o endividamento público e que mandou às favas a Lei de Responsabilidade Fiscal, jura que caso vença reduzirá o endividamento público. Como? Por que acreditar que o fará?
Há dias, Bolsonaro autorizou seus aliados no Congresso a apresentarem uma Proposta de Emenda à Constituição para abrir mão de impostos sobre o preço dos combustíveis sem compensação orçamentária, o que pode custar 54 bilhões de reais.
O capítulo mais bizarro da “agenda estratégica” é, de longe, o relativo ao meio ambiente. O desmatamento da Amazônia cresceu 56% em 3 anos se comparado com o período de 2016 a 2018. Bolsonaro assegura que se ficar mais 4 anos fará o inverso.
Em seu discurso de posse, Bolsonaro afirmou que governaria para todos os brasileiros, mas preferencialmente governou para os brasileiros que se identificam com ele. De cada 10 que lhe deram o voto, 4 já desertaram, segundo pesquisa Datafolha.
Mais de 60% dos brasileiros dizem que não confiam na palavra do presidente. É por essas e outras que Bolsonaro é o candidato favorito para ser derrotado.
Nenhuma sociedade , de fato, é tão baixa e desonrosa como a que repele os velhos para as margens da estrada, humilha-os e esquece-os, dizendo-lhes com pobres palavras: Viveram suficientemente, agora fora! Nenhuma sociedade é tão ignóbil como a nossa, quero dizer, onde aos velhos se deixa mais ou menos o lixo e se acha graça e até se conseguiu persuadi-los de que não contam mais nada e tudo o que lhes resta é um algo a mais, bondosamente concedido. E então os vemos pela rua, olhando ao redor, tímidos, pedindo desculpas por ainda estarem aqui.
(...) Oh, se fôssemos mas inteligentes ou astutos, daríamos aos velhos todas s alegrias, as comodidades e os triunfos, mesmo a glória, aos pobres barbudos do subúrbio, músicas, tapetes, tribunas de honra, camareiros. E à noite, nos ajoelharíamos em volta deles, para ouvi-los contar suas clássicas histórias, sempre suas clássicas histórias, sempre as mesmas, é verdade, já a sabemos todas de cor. Digam, porém, não vale a pena reprimir um pequeno bocejo, se isso favorece a felicidade? Dino Buzzati, “Orquídeas para os velhos”
Quem caminha pela região central de São Paulo certamente já notou. Aumentou enormemente a população de rua na cidade. O novo Censo da População em Situação de Rua tenta medir o tamanho do problema: são 32 mil pessoas que o desemprego e a falta de moradia empurraram para as calçadas. O número é o dobro daquele que havia em 2015, no início da crise econômica, e é considerado subestimado por organizações sociais que atendem a esse público.
É vergonhoso que tenhamos tanta gente na rua. E, como não se via há muito tempo, temos agora famílias inteiras, com crianças. Vinte e oito por cento dos moradores de rua de São Paulo estão com a família, e há quase mil crianças e adolescentes na rua.

Setenta e um por cento dessa população são negros ou pardos, quase o dobro do percentual no total da cidade (37%). Vinte e sete por cento deste contingente estão na rua há menos de dois anos, um período difícil, no qual a economia e o emprego sofreram o impacto da pandemia. Outros 29% estão nas ruas entre dois e cinco anos, mais ou menos o período de nossa crise econômica.
Quarenta e três por cento das pessoas em situação de rua não trabalham, e 34% vivem de bico. Entre os que têm algum tipo de trabalho, 79% ganham menos de um salário mínimo. A maioria não consegue um emprego regular, pois, além da competição com outros desempregados, não pode se candidatar a um posto por não ter residência fixa. Falta de moradia e desemprego se retroalimentam, num círculo vicioso.
Sem nenhuma surpresa, a solução, segundo as próprias pessoas em situação de rua, é oferecer moradia e emprego dignos. Quarenta e seis por cento acreditam que a solução é ganhar moradia permanente, e 23% creem que é receber emprego. Enquanto isso não vem, esse enorme contingente só pode contar com abrigos, restaurantes populares e as políticas de transferência de renda.
É muito triste termos mais de 30 mil morando nas ruas de São Paulo. São pessoas que precisam optar entre viver em barracas ou se submeter às severas e inflexíveis regras dos abrigos. São pessoas que precisam enfrentar as filas dos restaurantes populares e torcer para que mudanças bruscas nas políticas sociais não as deixem sem o jantar ou ter o que comer no fim de semana. São pessoas que não têm acesso a um banho regular, nem à água potável.
Uma parte desses mais de 30 mil é de cidadãos, como você e eu, que perderam o emprego e foram despejados das suas casas. Outra parte é de pessoas que brigaram com a família e terminaram na rua ou que têm algum problema mental ou dificuldade com álcool ou drogas —como muitos nas nossas famílias.
Somos um país de renda média e, se quisermos, temos condições para tirar essas pessoas das ruas. Gente vivendo na rua pode ser um problema pequeno e difícil de resolver, como mostra a experiência de países com boas políticas sociais. Mas, nesta escala, de dezenas de milhares, nós sabemos bem como enfrentar: precisamos oferecer moradia e emprego — e, na impossibilidade de emprego, dar algum tipo de renda. Política habitacional e política de transferência de renda já compõem o nosso repertório de políticas públicas. É preciso empenho.
Seu nome era Moise Mugenyi Kabagambe, o congolês de 24 anos que foi linchado na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em frente ao quiosque Tropicália em 24 de janeiro. Apesar de os brasileiros estarem tristemente acostumados a conviver com uma das maiores taxas de homicídios do mundo, desta vez, a severidade do crime comoveu o país inteiro. O grito do jovem antes de morrer, “Não me mate!”, continua a ressoar nas redes sociais e na consciência de quem, apesar de tudo, aposta e trabalha todos os dias a favor da paz e da harmonia.
De acordo com o promotor que analisa o caso, que foi gravado pelas câmeras de segurança do quiosque, “constata-se uma ação do mais alto grau de crueldade, perversidade, desprezo pela vida”. O jovem que trabalhava como garçom no quiosque é descrito pelos clientes como “alegre e educado”. Ele perdeu a vida apenas por ter pedido ao dono do bar da praia que lhe pagasse 200 reais (33 euros ou pouco menos de 38 dólares) que lhe devia.
O jovem que gritava para não ser morto foi linchado por cinco homens com chutes, socos e golpes de madeira. De acordo com exames médicos, Moise entrou em agonia 10 minutos antes de morrer e foi encontrado com as mãos e os pés amarrados, com os olhos ainda abertos.
Talvez a execução brutal realizada na areia da bela praia do Rio, a inveja do mundo, esteja causando dupla indignação na sociedade e tenha explodido nas redes sociais porque o país vive politicamente em um clima onde o governo do fascista Jair Bolsonaro tem como lema que o “melhor bandido é o bandido morto”. Se for executado, melhor ainda.

O presidente é defensor da tortura e da pena de morte. Sua política, seus gostos, seus esportes estão todos relacionados às armas, cujo mercado facilitou porque seu sonho é que todo o país esteja armado. Seu gesto favorito é simular com as mãos o ato de disparar um revólver. Durante a campanha eleitoral, uma cena em que o candidato a presidente do país pega uma menina de cinco anos nos braços e a ensina a imitar, rindo alegremente, o ato de disparar uma arma com a mão inocente, foi ultrajante.
Toda essa paixão pelas armas do chefe de Estado vem criando um clima no país em que a violência e as execuções sumárias se tornaram normal. Eu diria desportivo, se o adjetivo não me machucasse na boca.
Alguns teorizam que o Brasil sempre foi um país violento. É apenas parcialmente verdade. É que hoje essa violência é institucional, alimentada pelos instintos de morte de um presidente que zomba, por exemplo, daqueles que se protegem da pandemia, considerando-os “covardes”.
Estou neste país há 20 anos e sou testemunha de que a violência de hoje mudou de cara porque é alimentada por quem está no poder com o desprezo pela vida e a exaltação da ditadura militar. Hoje, talvez como reação a esse clima de morte que se instalou, cresce um movimento de solidariedade sem precedentes em todo o país, com o aumento de moradores de rua que vivem e morrem na rua.
Talvez o excesso de falta de humanidade do presidente esteja despertando na sociedade um movimento de defesa da vida, de acolher os deixados à própria sorte pela grave crise econômica. Aquele Brasil que reage à violência com sentimentos de compaixão e ajuda os que ficaram para trás na vida lembra-me a cena que presenciei quando cheguei aqui. Foi na praia de Copacabana, no Rio, quando uma idosa caiu inconsciente. Em poucos segundos, uma dezena de pessoas se reuniu com seus celulares na mão chamando uma ambulância. No Consulado me disseram então que os espanhóis que vieram para o Brasil queriam ficar. Eles comentaram que aqui “as pessoas são gentis, alegres e solidárias”.
Hoje, essa alegria e esse espírito acolhedor se perdem em meio à fumaça dos sentimentos de hostilidade, desconfiança e violência instigados por quem está no poder. Como disse o ex-presidente Lula da Silva, que aparece nas pesquisas como o candidato mais forte para derrotar Bolsonaro, “o Brasil precisa recuperar a alegria perdida”.
O grito do jovem trabalhador congolês de “Não me mate!” que continua ressoando na areia branca das praias do Rio onde foi executado vilmente e morreu de olhos abertos, talvez sirva, um triste paradoxo, para que quando chegar a hora de ir às urnas, os brasileiros decidam desta vez devolver ao país a felicidade perdida depois de ter se libertado do pesadelo do que já é considerado o pior e mais violento dos governos democráticos deste país.
Em ano eleitoral, os candidatos esperam que o eleitor se comporte como se estivesse diante da televisão na hora da novela; no teatro esperando abrirem-se as cortinas; no cinema, serem apagadas as luzes —e então se dê o milagre da suspensão voluntária da descrença.
Poderiam avisar, como Orson Welles em “Verdades e mentiras”, que o que vem a seguir é sobre trapaça, fraude e mentiras, mas que o filme, em si, é baseado em fatos sólidos. Seria pelo menos meia verdade.
Suspendemos a descrença para mergulhar, sem amarras, na arte. Para nos iludir com a perspectiva e aceitar a terceira dimensão numa tela plana. Ver o personagem por trás da máscara do ator, admitir que o tempo passe noutro ritmo, que uma sugestão no palco se torne um cenário completo. Para deixar que palavras escritas se transfigurem em personagens não só de carne e osso, mas com mais alma que a maioria de nós.
É preciso descrer das evidências para transcender e penetrar no mundo superiormente interessante da arte.

Isso quando o gatilho é um Fassbinder, a nos mentir a 24 quadros por segundo. Uma Hilda Hilst, nos arrastando em seu vórtice; um Sérgio Ferro, um José Miguel Wisnik, um Antunes Filho, um Sebastião Salgado. Em ano eleitoral quem entra em cena é o marqueteiro.
A essa figura compete nos convencer da troca da realidade por um simulacro, uma versão unidimensional — e infinitamente inferior — de si mesma.
O artista nos catapulta; o marqueteiro quer porque quer nos achatar. Não é culpa dele, coitado, que está só tentando ganhar a vida honestamente nos empurrando uma fraudezinha disfarçada de boas intenções, uma mentira sincera aqui e uma semiverdade marota acolá.
Tanto quanto o artista, ele atua na chave do ilusionismo. Mas se ilusão da arte tem a ver com o lúdico (a origem etimológica é a mesma); a do marqueteiro se ancora na percepção distorcida.
Ele vai tentar nos convencer de que o candidato X defende valores cristãos, mesmo tendo sido desonesto, desleal, intolerante, insensível ao sofrimento alheio. Que é um paladino da família, em luta contra a degeneração dos costumes — enquanto tratou foi de salvar a pele da própria prole, tendo feito do seu lar um antro de falcatruas. Exibirá como resultado de seu governo uma imunização em massa que salvou milhões de vidas — escamoteando sua luta incessante contra as vacinas.
Vai suar a camisa para demonstrar o apreço democrático do candidato Y, que defende regimes de força e não esconde o desdém pela imprensa livre, pelo livre mercado, pela liberdade de pensamento. Que insistirá em repetir o que já deu errado, e que não tem como dar certo, nem nunca terá. Vai, num jogo de espelhos, fazer desaparecer o governo mais desastroso que este país já teve. (Nota mental: lembrar onde foi que li que Dilma é a pior presidente do Brasil; Bolsonaro é apenas o pior presidente da galáxia).
E ainda há o encarregado de provar que uma penca de candidatos Z quer a união em torno de uma terceira via.
A suspensão da descrença nos permite a arte, a marquetagem política e a religião. Que saibamos quando usá-la com discernimento — ou sem moderação.
Em janeiro passado, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, um grupo de mais de 100 milionários, autodesignado Milionários Patriotas, divulgou carta em que reconheciam que suas fortunas cresceram com a pandemia e que os sistemas tributários eram injustos. Piedosamente, pediam para ser mais tributados.
Logo me veio à lembrança a frase atribuída ao pensador francês La Rochefoucauld (1613-1680): “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.

É certo que os ricos, especialmente os milionários, pagam desproporcionalmente menos impostos que os demais contribuintes. Porém é igualmente certo que as leis tributárias, que lhes permitem pagar menos impostos, não decorrem, por óbvio, de pressão política dos pobres. Ao contrário, como se constata na forte oposição, no Congresso norte-americano, às propostas tributárias do Presidente Biden.
Para evitar o pagamento de impostos, grandes multinacionais e milionários não praticam a vulgar sonegação. Recorrem a talentosos e bem remunerados especialistas que produzem requintados planejamentos tributários, invulneráveis a alíquotas nominais elevadas ou a pretensões de tributação das fortunas. Essa arma, não tão secreta, ainda que desconhecida para os leigos, é um agente formidável na geração de desigualdades entre pessoas e países.
Compungidamente, os que se valem do planejamento abusivo alegam que tão somente lançam mão de brechas na legislação tributária, como se elas nascessem por geração espontânea.
Dia após dia, são divulgadas informações que atestam o que vem a ser, no meu entender, o maior escândalo da história da tributação.
Em 2021, Chuck Collins, professor do Institute for Policy Studies, em Washington, publicou um livro (The Wealth Hoarders) em que mostra como os bilionários pagam milhões para esconder trilhões e assim acumular riquezas, por meio de astuciosos planejamentos.
Assinala o autor, entre muitos exemplos, que quase a metade das empresas norte-americanas têm inscrição fiscal em Delaware, conhecido paraíso fiscal. Acrescenta que um único endereço em Wilmington, mais populosa cidade daquele Estado, é o domicílio fiscal de 285 mil empresas.
Em maio do ano passado, com base em dados oficiais, os jornalistas investigativos do site ProPublica demonstraram que os 25 maiores bilionários norte-americanos, entre 2014 e 2018, pagaram imposto de renda à alíquota efetiva média de 3,4%, bem inferior à média dos demais contribuintes. Os Milionários Patriotas, timidamente, não reagiram.
Dia desses mataram alegria, grávida de quatorze semanas, bala perdida, digo, bala encontrada. O bom senso, que já andava capenga, foi morto a pauladas atrás de um quiosque no Rio de Janeiro ao cobrar o seu sustento. A empatia também foi estrangulada no estacionamento de um supermercado. O afeto saiu pra trabalhar e não voltou mais, não encontraram o corpo até hoje. Ajuntamento na esquina da Assis Brasil com a Sertório, cena forte, compaixão destroçada no asfalto quente, pernas e braços amputados, foi atingida por um carro na contramão, o motorista fugiu sem prestar socorro. Alguém serviu pra boa fé, moradora de rua, um prato de comida misturada com pó de vidro. Gratidão morreu de sede. Coragem suicidou-se. Autoestima pulou do terraço de salto alto, do prédio mais alto, da Avenida Paulista. A generosidade foi vista a última vez, doente, todos os dentes podres, pedindo esmola na Cracolândia. Com a tolerância foi cirrose, nem transplante de fígado a salvou. O carinho adoeceu de repente, foi definhando, definhando, amarelou, perdeu os cabelos, já não se alimentava mais, até que não resistiu. No atestado de óbito do encantamento dizia: morte por causas naturais. Doação afogou-se na última enchente. Compreensão pegou fogo, incêndio criminoso. Esfaquearam a dignidade em plena luz do dia, ninguém fez nada. O respeito perdeu-se por completo, não foi mais visto nem é lembrado. Com o perdão foi latrocínio. Felicidades morreu de saudade. A liberdade está sendo caçada, dois olhos arregalados, esconde-se como pode. Perdão pegou perpétua, tuberculoso, agachado no canto de uma cela fedorenta. A fé teve morte cerebral. A humanidade não encontrou vaga na UTI, não há previsão de melhora. Esperança, entubada, ainda resiste ligada em aparelhos.
Fui ouvir a entrevista que Lula (foto) concedeu hoje a rádios do Paraná e, lá pelos 11 minutos da conversa, senti aquilo que minha tia Albertina chamava de “arrepio nos dentes”. O presidenciável petista estava dizendo que deu atenção especial aos pobres em seus dois mandatos. Então, ele usou uma metáfora.
“Nós fizemos o que faz uma mãe”, disse Lula. “Ou seja, ela cuida de todos os filhos em igualdade de condições, mas aquele que está mais fragilizado é aquele que ela vai fazer um cafuné a mais, que ela vai cuidar melhor, que ela vai dar um pedaço de carne a mais, um copo de leite a mais.”

Foi como voltar ao início dos anos 2000, quando as metáforas de Lula atingiam você em rajadas, dia sim e outro também, todas elas sobre família e futebol. Lembrei mais uma das razões por que não quero que o PT retorne ao governo.
Essa não é, obviamente, a principal razão. Há coisas muito mais graves. Não acredito nas soluções estatizantes do partido para a economia. Além disso, ouço Gleisi Hoffmann dizer que o PT nunca fez nada de errado na Petrobras, e sinto que eles não hesitarão em corromper o sistema político mais uma vez, como no mensalão e no petrolão, quando sentirem aquela tentaçãozinha de permanecer no poder pelos próximos sete mil anos.
Não acho, porém, que as escolhas retóricas de um político sejam totalmente irrelevantes.
Essa ideia do governante paizão ou mãezona, que zela pelo bem estar da meninada, é especialmente perniciosa. Ela eleva o político e diminui os cidadãos.
Lula não é minha mãe. O estado não é nosso pai. E o Código Eleitoral não é o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Não vou discorrer sobre a retórica de Bolsonaro. Digo apenas que não desejo ao Brasil outros quatro anos de vulgaridade ululante e metáforas matrimoniais. Por isso, continuo torcendo pela Terceira Via e pela eleição de alguém que não seja nem pai, nem mãe, nem herói, nem vingador, nem salvador da pátria. Basta que seja um bom presidente.
Jair Bolsonaro acaba de nomear mais um aliado para um cargo-chave na administração. Desta vez, trata-se de um indivíduo com autoridade para bloquear, ignorar ou mesmo apagar as investigações contra um de seus filhos pela extorsão de funcionários chamada "rachadinha". Qual é a novidade? Todo dia, Bolsonaro infiltra em cargos-chave elementos de sua confiança. É sua prerrogativa, mas nunca um presidente amarrou tão bem o sistema visando a proteger-se, assegurar impunidade ou eternizar-se no cargo.

Bolsonaro já se garantiu na rede de procuradorias, corregedorias, controladorias, delegacias, órgãos públicos de busca e informação e até no STF, no qual implantou dois pinos. Tem pelo menos um cúmplice em cada tribunal. Foi fazendo isso aos poucos, em silêncio, enquanto nos distraía com a chusma de militares, nem tão decisivos, que transplantou para o governo. O resultado desse enraizamento está na tranquilidade com que afronta diariamente a lei e sai assobiando, como se se soubesse fora do alcance dela.
A literatura e o cinema criaram dois personagens igualmente sinistros: o professor Moriarty, arqui-inimigo de Sherlock Holmes, e o Dr. Mabuse, imortalizado em três filmes de Fritz Lang. O primeiro controlava Londres; o segundo, a partir de Berlim, fitava o mundo. O alcance de ambos compreendia desde uma carteira furtada no metrô até a manipulação de leis, passando pelo hipnotismo de gente influente, espionagem eletrônica e controle de organismos essenciais.
Quando, ao fim de uma história, achava-se que Moriarty e Mabuse estavam mortos ou derrotados, crimes como os deles continuavam acontecendo. Eram de seus auxiliares deixados impunes ou de estudiosos de seus métodos e que conseguiam replicá-los. O terror não tinha fim.
Bolsonaro, um dia, descerá da cadeira e responderá por seus crimes. Resta ver até que ponto os homens que impregnou no sistema impedirão que pague por eles.
Volto a um tema presente em muitos dos meus artigos, mas cuja discussão é cada vez mais urgente: a qualidade da nossa vida democrática. O Brasil é um enigma difícil de ser decifrado. Temos os recursos e as condições para ser uma das nações mais ricas do mundo.
Temos uma grande agricultura, toda a energia de que precisamos – água em abundância, energia, petróleo e minerais, tudo o que é escasso em quase toda a parte. Mas permanecemos um país pobre que cresce menos que a maioria das nações. Uma das causas só pode ser a impotência do Estado devido à má qualidade da nossa vida democrática.
Nossa população deveria estar sempre indignada e numa busca incessante por algo realmente novo para transformar o país. Mas se as pesquisas de intenção de voto para as próximas eleições estiverem corretas, parece que os brasileiros estão em sua grande maioria dispostos, sem muita reflexão, a voltar ao passado, tal o horror que sentem do presente.
O sentimento dominante tornou-se a procura do mal menor, um dos disfarces preferidos do conformismo e da apatia social.
A impressão é que as novas gerações de brasileiros são gerações sem esperança. É a explicação que me ocorre para a passividade e até para o cinismo político das nossas maiorias eleitorais. Creio que o pensamento dominante está contido numa passagem de Shakespeare: o que ficou irremediável, se tornou indiferente.

Há alguma razão para isso, pois nosso sistema político é um ambiente à parte da vida do país. O debate político não contém praticamente nada de interesse público como políticas de crescimento e de proteção social, por exemplo, tudo que diz respeito à vida das pessoas numa sociedade tão privada de tudo e tão dependente do Estado.
Nada disso separa os partidos que, na verdade, não têm ideologia, nem ideias, nem posições. Seu único propósito é participar dos condomínios do poder e o fazem sem nenhum pudor e com grande competência.
A conclusão é que a classe política na sua maioria, pois há exceções à regra nos dois lados do espectro político, embora bastante minoritárias, apropriou-se do Estado, seus recursos e seus instrumentos, apenas em benefício próprio, passando ao largo do interesse comum.
Em alguma medida isto sempre ocorreu, mas numa escala infinitamente menor. Hoje, a dominação do Estado pela corte política assumiu proporções sem precedentes, mesmo para a história de nossa velha cultura patrimonialista.
Deputados e senadores sempre tiveram um pequeno limite no orçamento para beneficiar as suas bases. Agora, além destes recursos, o Parlamento criou uma rubrica de grande valor para ser distribuída aos parlamentares de forma secreta, como se fossem recursos privados.
A soma das emendas, secretas e públicas, em 2022, está próxima de 40 bilhões de reais, enquanto o total dos investimentos públicos não chega a 45 bilhões. De um lado o país, com seus 200 milhões de habitantes, de outro, nossos 500 parlamentares, em pé de igualdade no orçamento da República. Não é mais uma República.
Como é sabido, o apoio parlamentar ao governo tem como contrapartida a indicação, por deputados e senadores, de nomes para preencher os melhores cargos da administração federal. Por que pessoas eleitas para fazer as leis tem interesse nestas nomeações? É uma pergunta que fica no ar.
Nesta semana, o Ministro da Economia solicitou à Controladoria Geral da União a criação de um sistema que revele os nomes dos “padrinhos” de cada indicação, para conhecimento de todos. A Controladoria não respondeu e as lideranças políticas se indignaram com a ingenuidade ou a falta de tato do Ministro. Quem prefere as sombras para agir, certamente tem motivos muito fortes.
São apenas dois exemplos. Há muitos outros, sempre a demonstrar que a democracia brasileira tem donos e estes donos são poucos. Que a devolução do Estado à população não esteja na pauta de nenhum dos candidatos é um sinal de que muito pouca coisa vai mudar nas eleições de outubro.