domingo, 18 de junho de 2017
Apesar de vocês
A recusa pelo TSE a cassar a chapa Dilma-Temer pode ter sido a gota d’água que transbordou o pote de mágoas dos brasileiros. Nas redes sociais, recorrente, uma indignação sofrida.
Apesar das caras e bocas que com lábios frouxos pronunciam com desprezo a palavra povo; da frieza com que provocam a repulsa da sociedade; da vaidade tragicômica que atinge píncaros do ridículo; apesar de vocês, juízes que comprometem a Justiça, há no país um genuíno desejo de decência.
O novo Brasil que está nascendo falou, no julgamento do TSE, pela voz do ministro Herman Benjamin, que se recusou a ser coveiro da verdade. A verdade ficou ali, gritante, reiterada por dois ministros do STF, Luiz Fux e Rosa Weber.
Apesar de vocês, políticos canastrões no papel de estadistas, com seus peitos estufados, suas gravatas espaventosas, apesar dos seus porões noturnos, seus sussurros e maquinações escabrosas, suas mesadas milionárias, seus empresários tão amigos, apesar da venda do país e de nós todos ao longo de décadas, todos rindo muito, trocando de cúmplices como de sapatos, nessa omertà insultuosa aos brasileiros que lhes sustentam com seu trabalho. Apesar de vocês, contra vocês e mais forte do que vocês, um outro Brasil já existe como querer coletivo.
À decisão do TSE, à profunda revolta que provocou, veio se somar, dias depois, o suicídio político do PSDB. O partido que se demarcara do PMDB em nome da ética, contra todas as evidências de corrupção no governo decide continuar a apoiá-lo e protege seu próprio presidente enredado em gravações espantosas. O que põe a nu uma nova clivagem que não se pode chamar de política, já que os partidos esvaziaram o sentido dessa palavra. Uma clivagem que não é sequer ideológica, é moral.
A verdadeira clivagem é entre corrupção e honestidade. De um lado, a corrupção que contamina todos os grandes partidos em um gigantesco esquema de cumplicidade, entre si e com empresas bandidas; do outro, a população, ofendida, para quem honestidade na vida pública é meio e fim de um Brasil refundado. Que quer ver desaparecer da vida pública esses homens e mulheres que já não representam posição política alguma, apenas os seus próprios interesses de poder ou de dinheiro.
O desprezo é um sentimento quase sempre recíproco. A população despreza quem a despreza, o que em si já é parte do novo Brasil. Os partidos sabem disso. Daí quererem impedir candidaturas independentes, restringindo a escolha do eleitorado ao seu círculo incestuoso, onde jogam o jogo do toma lá dá cá, um abraço de afogados. Fingem não saber que o problema não é mais de política, e sim de polícia. Inútil, mais cedo ou mais tarde as sentenças virão.
A trama criminosa que se instalou no Brasil e que não tem paralelo no mundo continua viva e atuante, tentando a todo custo neutralizar a Lava-Jato e, se possível fosse, destruí-la. Esta persistência no crime fere a democracia e deixa uma cicatriz. E ainda nos expõe ao risco real e iminente de enfunar as velas de uma abominável extrema-direita pronta para aproveitar-se do vazio de poder aberto pela derrocada do sistema político.
Para além da luta contra a corrupção, da afirmação do fato moral, é urgente vertebrar a sociedade que queremos. Novas lideranças conquistarão o seu lugar na medida em que apresentem ideias e propostas para reconstruir o país, refundando a política e a democracia sobre os escombros que herdamos.
Ponto nevrálgico desse legado maldito avulta, entre outras misérias, a violência. A tragédia de jovens pobres e negros que se matam entre si, sem saber quem são nem por que vivem, a quem foi negada mínima chance de uma verdadeira escola, capacidades e valores, jogados no colo dos traficantes. Os que não morrem adolescentes vão agonizar em prisões concentracionárias, as mãos entre as grades em gestos de pedintes ou loucos. Políticos desonestos, que lhes roubaram a possibilidade de outro destino, também são culpados de seus crimes, da guerra nas ruas que está levando tanta gente a abandonar o Brasil. Também roubaram o futuro dessas crianças transformadas em exilados. E continuam dando a todos os jovens o pior dos exemplos, o da insensibilidade moral.
Vocês são hoje fantasmas, sentados em suas nobres cadeiras. Seu tempo acabou. Porque se o poder vem de cima, e se negocias nos porões, a confiança vem de baixo, e essa confiança vocês perderam.
Rosiska Darcy de Oliveira
Apesar das caras e bocas que com lábios frouxos pronunciam com desprezo a palavra povo; da frieza com que provocam a repulsa da sociedade; da vaidade tragicômica que atinge píncaros do ridículo; apesar de vocês, juízes que comprometem a Justiça, há no país um genuíno desejo de decência.
O novo Brasil que está nascendo falou, no julgamento do TSE, pela voz do ministro Herman Benjamin, que se recusou a ser coveiro da verdade. A verdade ficou ali, gritante, reiterada por dois ministros do STF, Luiz Fux e Rosa Weber.

À decisão do TSE, à profunda revolta que provocou, veio se somar, dias depois, o suicídio político do PSDB. O partido que se demarcara do PMDB em nome da ética, contra todas as evidências de corrupção no governo decide continuar a apoiá-lo e protege seu próprio presidente enredado em gravações espantosas. O que põe a nu uma nova clivagem que não se pode chamar de política, já que os partidos esvaziaram o sentido dessa palavra. Uma clivagem que não é sequer ideológica, é moral.
A verdadeira clivagem é entre corrupção e honestidade. De um lado, a corrupção que contamina todos os grandes partidos em um gigantesco esquema de cumplicidade, entre si e com empresas bandidas; do outro, a população, ofendida, para quem honestidade na vida pública é meio e fim de um Brasil refundado. Que quer ver desaparecer da vida pública esses homens e mulheres que já não representam posição política alguma, apenas os seus próprios interesses de poder ou de dinheiro.
O desprezo é um sentimento quase sempre recíproco. A população despreza quem a despreza, o que em si já é parte do novo Brasil. Os partidos sabem disso. Daí quererem impedir candidaturas independentes, restringindo a escolha do eleitorado ao seu círculo incestuoso, onde jogam o jogo do toma lá dá cá, um abraço de afogados. Fingem não saber que o problema não é mais de política, e sim de polícia. Inútil, mais cedo ou mais tarde as sentenças virão.
A trama criminosa que se instalou no Brasil e que não tem paralelo no mundo continua viva e atuante, tentando a todo custo neutralizar a Lava-Jato e, se possível fosse, destruí-la. Esta persistência no crime fere a democracia e deixa uma cicatriz. E ainda nos expõe ao risco real e iminente de enfunar as velas de uma abominável extrema-direita pronta para aproveitar-se do vazio de poder aberto pela derrocada do sistema político.
Para além da luta contra a corrupção, da afirmação do fato moral, é urgente vertebrar a sociedade que queremos. Novas lideranças conquistarão o seu lugar na medida em que apresentem ideias e propostas para reconstruir o país, refundando a política e a democracia sobre os escombros que herdamos.
Ponto nevrálgico desse legado maldito avulta, entre outras misérias, a violência. A tragédia de jovens pobres e negros que se matam entre si, sem saber quem são nem por que vivem, a quem foi negada mínima chance de uma verdadeira escola, capacidades e valores, jogados no colo dos traficantes. Os que não morrem adolescentes vão agonizar em prisões concentracionárias, as mãos entre as grades em gestos de pedintes ou loucos. Políticos desonestos, que lhes roubaram a possibilidade de outro destino, também são culpados de seus crimes, da guerra nas ruas que está levando tanta gente a abandonar o Brasil. Também roubaram o futuro dessas crianças transformadas em exilados. E continuam dando a todos os jovens o pior dos exemplos, o da insensibilidade moral.
Vocês são hoje fantasmas, sentados em suas nobres cadeiras. Seu tempo acabou. Porque se o poder vem de cima, e se negocias nos porões, a confiança vem de baixo, e essa confiança vocês perderam.
Rosiska Darcy de Oliveira
O Brasil é país sem comando
A “Justiça eleitoral” (despropósito de fabricação 100% nacional; deveria dar ao Brasil as eleições mais limpas do planeta, mas jamais conseguiu impedir que a política brasileira seja controlada por essa massa de escroques que está sempre aí) julgou em seu Tribunal Superior Eleitoral, a mais alta de suas instâncias, a seguinte questão: houve irregularidades, especialmente na parte financeira da campanha do PT e de Dilma Rousseff, nas eleições presidenciais de 2014?
Por exemplo: correu tudo direitinho, conforme a lei, com a recepção e o dispêndio dos 300 milhões de reais que a candidata vencedora declarou ter gasto para ser eleita? A dúvida colocada em julgamento jamais teve a mais remota semelhança com uma dúvida. Há quase três anos há certeza praticamente científica de que a campanha eleitoral que levou Dilma à Presidência da República foi um dos mais prodigiosos episódios de roubalheira jamais vistos na história universal da política.
Ainda assim, nossos juristas e demais guardiães da majestade das leis brasileiras passaram esse tempo todo meditando sobre o caso — será que alguém realmente meteu a mão em alguma coisa? — e só agora conseguiram levar o caso a julgamento. A infração era gravíssima: a pena prevista consistia na perda do mandato para a presidente eleita em 2014 caso tivesse acontecido alguma coisa de errado com aquele oceano de dinheiro mencionado acima. Dá para levar a sério? Além do mais, Dilma, deposta pelo impeachment, já perdeu o mandato há mais de um ano; não era possível tirar-lhe a mesma Presidência pela segunda vez. É óbvio, em tais condições, que a esta altura chegamos ao avesso do avesso do avesso em matéria de disparate.
• Se não há mais Dilma Rousseff, é preciso se contentar com Michel Temer. O processo contra ela, por essa sequência de aberrações, passou a ser o processo contra ele. É sensacional. O autor da ação contra a eleição de Dilma é o PSDB, na época o partido de oposição mais indignado com a ex e com o PT — mas hoje, desgraçadamente, enfiado até o talo no governo de Temer, seu sucessor constitucional.
O PT e o ex-presidente Lula, de seu lado, gritam e mandam gritar todo santo dia “Fora Temer”. Mas seus advogados no processo do TSE, agindo em defesa de Dilma e da perfeita lisura da campanha de 2014, ficaram obrigatoriamente contra a cassação da chapa — e, por via de consequência, como diria o falecido vice-presidente Aureliano Chaves, a favor de Temer e de sua permanência no cargo. Ficamos, então, diante de um xeque-mate que diz tudo sobre como o Brasil é governado hoje: o TSE conseguiu o feito de condenar-se a escolher entre duas decisões erradas.
• A história toda é acompanhada de algum lugar seguro, provavelmente às gargalhadas e com champanhe, pelos irmãos Wesley e Joesley Batista — possivelmente os maiores corruptores confessos que já apareceram no Brasil nos últimos 500 anos. Receberam, em troca de suas confissões, um inédito perdão da Procuradoria-Geral da República e de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Não uma redução de pena ou algum benefício compreensível; foi uma absolvição sem julgamento. Talvez aguardem, agora, a medalha da Ordem do Rio Branco.
• O quadro se completa, até agora, com a constatação de que ninguém governa. Na verdade, desde que a maioria dos eleitores brasileiros tomou a funesta decisão de dar um segundo mandato à ex-presidente Dilma, o país vive sem governo. Dilma não governou de 2014 para cá, e Temer não governa desde seu primeiro dia no Palácio do Planalto, ou governa apenas um bazar de trocas.
Além disso, saiu de uma costela do PT e só chegou aonde está porque serviu em tudo a Lula e aos companheiros. Não poderia ser diferente do que está sendo, pois não apagou seu passado quando subiu de cargo; ninguém consegue. Toma, agora, o mesmo remédio que viu Lula e o PT aplicar em todos os adversários.
Por exemplo: correu tudo direitinho, conforme a lei, com a recepção e o dispêndio dos 300 milhões de reais que a candidata vencedora declarou ter gasto para ser eleita? A dúvida colocada em julgamento jamais teve a mais remota semelhança com uma dúvida. Há quase três anos há certeza praticamente científica de que a campanha eleitoral que levou Dilma à Presidência da República foi um dos mais prodigiosos episódios de roubalheira jamais vistos na história universal da política.
Ainda assim, nossos juristas e demais guardiães da majestade das leis brasileiras passaram esse tempo todo meditando sobre o caso — será que alguém realmente meteu a mão em alguma coisa? — e só agora conseguiram levar o caso a julgamento. A infração era gravíssima: a pena prevista consistia na perda do mandato para a presidente eleita em 2014 caso tivesse acontecido alguma coisa de errado com aquele oceano de dinheiro mencionado acima. Dá para levar a sério? Além do mais, Dilma, deposta pelo impeachment, já perdeu o mandato há mais de um ano; não era possível tirar-lhe a mesma Presidência pela segunda vez. É óbvio, em tais condições, que a esta altura chegamos ao avesso do avesso do avesso em matéria de disparate.
O PT e o ex-presidente Lula, de seu lado, gritam e mandam gritar todo santo dia “Fora Temer”. Mas seus advogados no processo do TSE, agindo em defesa de Dilma e da perfeita lisura da campanha de 2014, ficaram obrigatoriamente contra a cassação da chapa — e, por via de consequência, como diria o falecido vice-presidente Aureliano Chaves, a favor de Temer e de sua permanência no cargo. Ficamos, então, diante de um xeque-mate que diz tudo sobre como o Brasil é governado hoje: o TSE conseguiu o feito de condenar-se a escolher entre duas decisões erradas.
• A história toda é acompanhada de algum lugar seguro, provavelmente às gargalhadas e com champanhe, pelos irmãos Wesley e Joesley Batista — possivelmente os maiores corruptores confessos que já apareceram no Brasil nos últimos 500 anos. Receberam, em troca de suas confissões, um inédito perdão da Procuradoria-Geral da República e de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Não uma redução de pena ou algum benefício compreensível; foi uma absolvição sem julgamento. Talvez aguardem, agora, a medalha da Ordem do Rio Branco.
• O quadro se completa, até agora, com a constatação de que ninguém governa. Na verdade, desde que a maioria dos eleitores brasileiros tomou a funesta decisão de dar um segundo mandato à ex-presidente Dilma, o país vive sem governo. Dilma não governou de 2014 para cá, e Temer não governa desde seu primeiro dia no Palácio do Planalto, ou governa apenas um bazar de trocas.
Além disso, saiu de uma costela do PT e só chegou aonde está porque serviu em tudo a Lula e aos companheiros. Não poderia ser diferente do que está sendo, pois não apagou seu passado quando subiu de cargo; ninguém consegue. Toma, agora, o mesmo remédio que viu Lula e o PT aplicar em todos os adversários.
Joesley soa como virgem de Sodoma e Gomorra
De passagem pelo Brasil, o corruptor confesso Joesley Batista falou à revista Época. Apresentou-se na conversa como uma vítima de políticos achacadores. Nessa versão, se não distribuísse mimos e propinas os interesses do seu grupo empresarial seriam prejudicados. A tese da extorsão é cansativa e ofensiva. Ela cansa porque já foi usada à exaustão pelas empreiteiras pilhadas na Lava Jato. Ofende porque supõe que a plateia é feita de imbecis.
Na definição do dono da JBS, “Temer é o chefe de uma organização criminosa” que inclui Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Eliseu Padilha e Moreira Franco. “Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles.” Por quê? “Para não armarem alguma coisa contra mim.” Há, hã… O problema dessa formulação é que, guiando-se por autocritérios, Joesley participa do enredo da rapinagem no papel de um anjo cercado de demônios.
As asas angelicais do entrevistado abriram-se com maior entusiasmo no instante em que ele explicou por que pagava pelo silêncio de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, que estão atrás das grades. “Virei refém de dois presidiários. Combinei quando já estava claro que eles seriam presos, no ano passado. O Eduardo me pediu R$ 5 milhões. Disse que eu devia a ele. Não devia, mas como ia brigar com ele? Dez dias depois ele foi preso.”
O anjo prosseguiu: “Eu tinha perguntado para ele: ‘Se você for preso, quem é a pessoa que posso considerar seu mensageiro?’. Ele disse: ‘O Altair procura vocês. Qualquer outra pessoa não atenda’. Passou um mês, veio o Altair. Meu Deus, como vou dar esse dinheiro para o cara que está preso? Aí o Altair disse que a família do Eduardo precisava e que ele estaria solto logo, logo. E que o dinheiro duraria até março deste ano. Fui pagando, em dinheiro vivo, ao longo de 2016. E eu sabia que, quando ele não saísse da cadeia, ia mandar recados.”
Que a política virou apenas mais um ramo do crime organizado, ninguém ignora. Nessa matéria, a Lava Jato eliminou até o benefício da dúvida. Mas Joesley só está solto para dar entrevistas porque sua delação foi superpremiada pela Procuradoria-Geral da República. O delator faria um favor aos brasileiros se não exagerasse na pose.
O que há de novo no país que a força-tarefa de Curitiba desencavou é que, pela primeira vez desde as caravelas, a polícia, a Procuradoria e a Justiça invadiram os salões do clube dos corruptores, do qual Joesley Batista é sócio-atleta. O barão da carne ainda não se deu conta da aversão que sua despudorada figura passou a despertar.
Hoje, só há dois tipos de brasileiros: os desinformados e os que torcem para que os lucros que a JBS obteve no mercado financeiro manipulando a própria delação resultem em nova ação judicial. Coisa séria o bastante para levar gente como Joesley à cadeia sem prejuízo da utilização de tudo o que foi delatado para fins criminais.
Até lá, convém a Joesley não diminuir sua importância como corruptor no maior esquema de rapinagem sob investigação no planeta. Do contrário, sua voz soará nos depoimentos e nas entrevistas como ladainha de uma virgem de Sodoma e Gomorra.
Na definição do dono da JBS, “Temer é o chefe de uma organização criminosa” que inclui Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Eliseu Padilha e Moreira Franco. “Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles.” Por quê? “Para não armarem alguma coisa contra mim.” Há, hã… O problema dessa formulação é que, guiando-se por autocritérios, Joesley participa do enredo da rapinagem no papel de um anjo cercado de demônios.
O anjo prosseguiu: “Eu tinha perguntado para ele: ‘Se você for preso, quem é a pessoa que posso considerar seu mensageiro?’. Ele disse: ‘O Altair procura vocês. Qualquer outra pessoa não atenda’. Passou um mês, veio o Altair. Meu Deus, como vou dar esse dinheiro para o cara que está preso? Aí o Altair disse que a família do Eduardo precisava e que ele estaria solto logo, logo. E que o dinheiro duraria até março deste ano. Fui pagando, em dinheiro vivo, ao longo de 2016. E eu sabia que, quando ele não saísse da cadeia, ia mandar recados.”
Que a política virou apenas mais um ramo do crime organizado, ninguém ignora. Nessa matéria, a Lava Jato eliminou até o benefício da dúvida. Mas Joesley só está solto para dar entrevistas porque sua delação foi superpremiada pela Procuradoria-Geral da República. O delator faria um favor aos brasileiros se não exagerasse na pose.
O que há de novo no país que a força-tarefa de Curitiba desencavou é que, pela primeira vez desde as caravelas, a polícia, a Procuradoria e a Justiça invadiram os salões do clube dos corruptores, do qual Joesley Batista é sócio-atleta. O barão da carne ainda não se deu conta da aversão que sua despudorada figura passou a despertar.
Hoje, só há dois tipos de brasileiros: os desinformados e os que torcem para que os lucros que a JBS obteve no mercado financeiro manipulando a própria delação resultem em nova ação judicial. Coisa séria o bastante para levar gente como Joesley à cadeia sem prejuízo da utilização de tudo o que foi delatado para fins criminais.
Até lá, convém a Joesley não diminuir sua importância como corruptor no maior esquema de rapinagem sob investigação no planeta. Do contrário, sua voz soará nos depoimentos e nas entrevistas como ladainha de uma virgem de Sodoma e Gomorra.
Organização revelada

Em Brasília perderam-se de vista o interesse nacional, o sentimento de respeito e de decência, o compromisso com o desenvolvimento, a necessidade de eliminar a miséria assombrosa. Mais que estadistas e representantes populares, o Brasil parece ter sido dominado por aves de rapina, psicopatas que se arrogam o poder de fazer e desfazer em benefício próprio, completamente dissociados do dever com a nação
O Partido da Boiada Feliz
A semana começou tranquila no Brasil, com os irmãos Freeboys desejando a todos boas compras na 5a Avenida e muita diversão na Broadway. Como se sabe, o Papai Noel antecipado do companheiro Janot deu aos fenomenais donos da JBS o presente de suas vidas (Nova York é linda na primavera) – e olhem que o bom velhinho de São Bernardo já tinha dado uma lembrancinha bilionária aos meninos. Eles ainda tiveram a sorte (que garotos venturosos!) de encontrar pelo caminho o companheiro Edson Fachin, um homem bom, que não economiza seus poderes para ajudar a quem precisa.
Agora segure a emoção para o final feliz: um grupo de artistas resolveu dar apoio político a essa conexão dourada de brasileiros que não desistem nunca (de ficar com o que é seu).
A estratégia é a seguinte: fazer campanha pública – aquelas com camisetinhas, videozinhos, caras e bocas bem ensaiadas – para inventar uma prorrogação do mandato de Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República. Uma coisa natural, democrática, tipo o Sarney quando resolveu dar a si mesmo mais um ano na Presidência, ou seus antecessores de farda, que também resolveram dar uma prorrogada no governo deles, tipo assim, para sempre.
A ideia é muito boa – como todas as que vêm desse grupinho iluminado, que inventou o remake das “Diretas já” (na praia, que ninguém é de ferro) com o cuidado de não convidar para a festa o companheiro Maduro, amigo de fé e irmão camarada dos democratas de Copacabana. Foram esses mesmos visionários que marcharam corajosamente em defesa da quadrilha progressista e revolucionária de Dilma Rousseff. Como se vê, eles sabem o que fazem.
E agora querem Janot forever. Mais um lema matador. Como se sabe, um procurador que era braço direito do procurador-geral assessorou o grupo JBS no acordo providencial que salvou a pele dos irmãos Batista. É uma turma muito bem relacionada, que sabe cultivar as amizades certas. Havia outro procurador contratado pelos maiores contratantes do país para lhes vazar informações da Lava Jato, mas por um infortúnio este foi preso. Deve estar especialmente chateado, sabendo que não estava sozinho nos esforços da vazadoria-geral em prol dos pobres bilionários. A carne é fraca.
Janot é o novo herói desse grupinho de iluminados, e olhando o quadro completo você só pode constatar que a carne é, reiterada e conclusivamente, fraca. Claro que o mote é apoiar o “comandante da Lava Jato”. Temos de admitir que a importância de Rodrigo Janot para as conquistas éticas da Lava Jato só é comparável à de Dilma Rousseff para as conquistas intelectuais da mulher.
Pensando bem, o Brasil deveria se livrar dessa confusa profusão de partidos díspares e desconexos e consolidar o que é bom num partido único – o que tiver as maiores boiadas. Essa consolidação, inclusive, já foi feita pela alma mais honesta dos dois Hemisférios, num trabalho árduo de mais de década com o brilhantismo do BNDES e o suor do seu rosto, caro leitor. Janot, o herói dos artistas, sabe o que é bom para o país – e é por isso que os donos do partido único ganharam a chance de ir para Manhattan refletir sobre os destinos dos brasileiros.
É hora de tirar esse partido único da clandestinidade. Chega de intermediários, basta de amadorismo. Os artistas de passeata têm razão. O Brasil nunca mais vai precisar de reforma da Previdência, reforma trabalhista, orçamento equilibrado, juros, impostos, leis, nada. Basta dar o poder a quem realmente tem dinheiro, e aí não é nem mais o caso de perguntar de onde esse dinheiro veio – porque, como já vimos, ele será distribuído de graça entre aqueles que querem a revolução do bem e facilitam as coisas para os líderes dessa revolução não irem para o xadrez.
Você nem se lembra mais da delação-bomba de João Santana. Talvez se lembre de quem foi João Santana – e isto é bom você não esquecer: foi um dos mentores intelectuais da transformação do Brasil num vasto e pródigo pasto ideológico, onde tudo se resolve mediante um modesto pedágio ao rei. A literatura sobre a formação épica da república do pixuleco está toda na internet, a seu alcance. Releia uma hora destas, se quiser entender o que foi a Revolução de Maio de 2017.
Guilherme Fiuza
Agora segure a emoção para o final feliz: um grupo de artistas resolveu dar apoio político a essa conexão dourada de brasileiros que não desistem nunca (de ficar com o que é seu).

A ideia é muito boa – como todas as que vêm desse grupinho iluminado, que inventou o remake das “Diretas já” (na praia, que ninguém é de ferro) com o cuidado de não convidar para a festa o companheiro Maduro, amigo de fé e irmão camarada dos democratas de Copacabana. Foram esses mesmos visionários que marcharam corajosamente em defesa da quadrilha progressista e revolucionária de Dilma Rousseff. Como se vê, eles sabem o que fazem.
E agora querem Janot forever. Mais um lema matador. Como se sabe, um procurador que era braço direito do procurador-geral assessorou o grupo JBS no acordo providencial que salvou a pele dos irmãos Batista. É uma turma muito bem relacionada, que sabe cultivar as amizades certas. Havia outro procurador contratado pelos maiores contratantes do país para lhes vazar informações da Lava Jato, mas por um infortúnio este foi preso. Deve estar especialmente chateado, sabendo que não estava sozinho nos esforços da vazadoria-geral em prol dos pobres bilionários. A carne é fraca.
Janot é o novo herói desse grupinho de iluminados, e olhando o quadro completo você só pode constatar que a carne é, reiterada e conclusivamente, fraca. Claro que o mote é apoiar o “comandante da Lava Jato”. Temos de admitir que a importância de Rodrigo Janot para as conquistas éticas da Lava Jato só é comparável à de Dilma Rousseff para as conquistas intelectuais da mulher.
Pensando bem, o Brasil deveria se livrar dessa confusa profusão de partidos díspares e desconexos e consolidar o que é bom num partido único – o que tiver as maiores boiadas. Essa consolidação, inclusive, já foi feita pela alma mais honesta dos dois Hemisférios, num trabalho árduo de mais de década com o brilhantismo do BNDES e o suor do seu rosto, caro leitor. Janot, o herói dos artistas, sabe o que é bom para o país – e é por isso que os donos do partido único ganharam a chance de ir para Manhattan refletir sobre os destinos dos brasileiros.
É hora de tirar esse partido único da clandestinidade. Chega de intermediários, basta de amadorismo. Os artistas de passeata têm razão. O Brasil nunca mais vai precisar de reforma da Previdência, reforma trabalhista, orçamento equilibrado, juros, impostos, leis, nada. Basta dar o poder a quem realmente tem dinheiro, e aí não é nem mais o caso de perguntar de onde esse dinheiro veio – porque, como já vimos, ele será distribuído de graça entre aqueles que querem a revolução do bem e facilitam as coisas para os líderes dessa revolução não irem para o xadrez.
Você nem se lembra mais da delação-bomba de João Santana. Talvez se lembre de quem foi João Santana – e isto é bom você não esquecer: foi um dos mentores intelectuais da transformação do Brasil num vasto e pródigo pasto ideológico, onde tudo se resolve mediante um modesto pedágio ao rei. A literatura sobre a formação épica da república do pixuleco está toda na internet, a seu alcance. Releia uma hora destas, se quiser entender o que foi a Revolução de Maio de 2017.
Guilherme Fiuza
Siameses retrô
Começam com T e têm cinco letras, não é charada. São os nomes dos dois únicos presidentes que estão sob investigação no mundo, que apesar de díspares comungam o retrocesso político. Trump e Temer são os siameses de outros tempos.
No discurso para os cubanos radiados em Miami, o presidente americano acenou com o discurso democrata de J.F. Kennedy. A imposição à Cuba de uma democracia à americana de eleições livres, liberdade de partidos, fedeu ao autoritarismo daquele tempo de uma América senhora do mundo. Trump errou de época, achando-se um novo Ted Roosevelt, capaz de impor sanções a torto e à direita em defesa dos famigerados interesses americanos, danando-se a soberania do país que for. Um joguinho de cena para aparecer bem na fita, mas não é nenhum John Wayne, que dirá o velho Ted.

Temer, burocrata de partido, também é de outro mundo. Ganhou a chance única de deixar uma biografia respeitável. Mas com o cacoete de anos convivendo nos corredores políticos, ganhou ares morféticos. Incorporou a fantasia de governante, por necessidade, e saiu anunciando um gabinete de notáveis. Conseguiu apenas reunir notórios pilantras com extensos e e históricos prontuários. Temer e comparsas encarnam o mais sórdido na política brasileira: o coronelismo de colarinho, que reaparece recauchutado.
Espera-se que o mundo esteja mudado o suficiente para mandar às favas esses ventríloquos do passado. Não são lá tão assustadores como parecem, porque como fantasmas vão desaparecer em fumaça. São os zumbis de um passado para dar o que falar no mundo e com isso muita instabilidade.
No discurso para os cubanos radiados em Miami, o presidente americano acenou com o discurso democrata de J.F. Kennedy. A imposição à Cuba de uma democracia à americana de eleições livres, liberdade de partidos, fedeu ao autoritarismo daquele tempo de uma América senhora do mundo. Trump errou de época, achando-se um novo Ted Roosevelt, capaz de impor sanções a torto e à direita em defesa dos famigerados interesses americanos, danando-se a soberania do país que for. Um joguinho de cena para aparecer bem na fita, mas não é nenhum John Wayne, que dirá o velho Ted.

Espera-se que o mundo esteja mudado o suficiente para mandar às favas esses ventríloquos do passado. Não são lá tão assustadores como parecem, porque como fantasmas vão desaparecer em fumaça. São os zumbis de um passado para dar o que falar no mundo e com isso muita instabilidade.
Luiz Gadelha
Governo recolhe 98 mil exemplares de livro infantil considerado 'impróprio'
O ministro da Educação, Mendonça Filho, ordenou no último dia 8 que o livro de contos infantis Enquanto o Sono Não Vem, do escritor e ator teatral José Mauro Brant, fosse recolhido de todas as escolas do Brasil, apesar de ter sido aprovado pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) do Centro de Alfabetização de Minas Gerais e distribuído pelo Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania (PNAC) há três anos. Por que agora?
O motivo alegado pelo Governo é que professores e pais de alunos protestaram pelo fato de um dos contos, A Triste História da Eredegalda, recolhido por Brant da literatura oral popular brasileira, tratar da questão do incesto. A fábula conta a história de um rei que deseja se casar com uma das suas três filhas, a qual, por se negar, é castigada e morre de sede.
Um novo estudo do livro, solicitado pelo Ministério da Educação do Governo Temer, decidiu que as crianças do ensino primário “não têm maturidade e senso crítico para problematizar certos temas com alta densidade”.
Brant, que há mais de 30 anos pesquisa a literatura infantil, afirma que “o Brasil vive uma crise de inteligência” e que as autoridades do ministério não entenderam que é “muito melhor que as crianças entrem em contato com os temas difíceis através da literatura do que na rua”. Ele acrescenta que “a leitura nunca pode ser uma ameaça”.
No caso concreto do conto dele sobre o rei e sua filha, fica claro, segundo o autor, que as crianças se identificam com a menina castigada e desprezam o pai. E os alunos têm a oportunidade de escrever outros finais para a história.
Perguntado sobre o que sentiu ao ver 98.000 exemplares do seu livro serem retirados das escolas, Brant afirma: “Toda essa polêmica me surpreendeu. Primeiro recebi mensagens de professores incrédulos, e de repente um rio de mensagens de ódio. Por um lado os pentecostais me desejando o fogo dos infernos, e por outro ameaças de morte de grupos de extrema direita”.
Segundo o autor do livro retirado, os responsáveis pela decisão “não sabem que os contos de tradição oral em todos os tempos são palco de assuntos delicados. Existem justamente para alertar sobre os perigos do mundo”.
E, para Brant, que vive em Rio e já trabalhou com alunos de escolas de alto risco, esses perigos não foram inventados pela literatura, e sim pela vida. “Já trabalhei em escolas que, dia sim, dia não, são fechadas pelo narcotráfico. Agora mesmo, enquanto escrevo a você, ouço um tiroteio numa comunidade próxima. A vida expõe essas crianças aos terrores do mundo diariamente. Que espaço pode ser mais seguro para abordar com elas certos temas delicados do que o regaço seguro e afetuoso de um professor inteligente ou de um contador de histórias?” E acrescenta: “O segredo é a mediação, e cada vez nossas políticas de leitura no Brasil se preocupam mais com a compra e venda de livros do que com a capacitação de mediadores de leitura e com a formação de leitores”.
Na opinião dele, “a crise política está mergulhando o país em uma crise moral que deixa cada vez mais à margem a inteligência e o bom senso. Estamos voltando à Idade Média, aos tempos da Inquisição. Mas hoje se queimam livros sem tacar fogo”.
Mas o autor censurado não está só. Tem recebido uma onda de solidariedade, como ele mesmo indica, por parte de muita gente que defende uma educação laica e aberta nas escolas, capaz de abrir a mente e a alma das crianças.
A escritora infanto-juvenil Roseana Murray, autora de quase 100 livros publicados e premiada pela Academia Brasileira de Letras, escreveu no seu Facebook, comentando a polêmica censura do livro de contos de Brant: “Perigosa não é a literatura, e sim a vida. Perigoso é mesclar religião com educação, intolerância com literatura”. Ela acrescenta que “contos populares e de fadas existem desde tempos imemoriais e atravessam fronteiras de boca em boca. Às vezes são tristes, às vezes terríveis, mas ajudam as crianças a resolverem conflitos e abordarem temas difíceis, através da fantasia”.
É verdade, como afirma Brant, que na nova Inquisição de hoje no Brasil “queimam-se livros sem tacar fogo”. O dele acaba de ser queimado assim. Isso me fez lembrar uma frase célebre de um dos maiores poetas russos, o Nobel de Literatura, Joseph Brodsky: “O maior crime não é queimar livros, e sim não lê-los”.
O maior crime que o Ministério da Educação acaba de cometer não foi o de “queimar” o livro de contos de Brant, e sim o de privar as crianças de lerem boa literatura.
Não muito tempo atrás, dizia-se que o Brasil já havia tocado o futuro com as mãos. Hoje, percebemos que, infelizmente, no campo da cultura, da tolerância e da defesa das liberdades o Brasil está despertando novamente num passado que se esperava ter sido esquecido para sempre.
O motivo alegado pelo Governo é que professores e pais de alunos protestaram pelo fato de um dos contos, A Triste História da Eredegalda, recolhido por Brant da literatura oral popular brasileira, tratar da questão do incesto. A fábula conta a história de um rei que deseja se casar com uma das suas três filhas, a qual, por se negar, é castigada e morre de sede.
Um novo estudo do livro, solicitado pelo Ministério da Educação do Governo Temer, decidiu que as crianças do ensino primário “não têm maturidade e senso crítico para problematizar certos temas com alta densidade”.
Brant, que há mais de 30 anos pesquisa a literatura infantil, afirma que “o Brasil vive uma crise de inteligência” e que as autoridades do ministério não entenderam que é “muito melhor que as crianças entrem em contato com os temas difíceis através da literatura do que na rua”. Ele acrescenta que “a leitura nunca pode ser uma ameaça”.
No caso concreto do conto dele sobre o rei e sua filha, fica claro, segundo o autor, que as crianças se identificam com a menina castigada e desprezam o pai. E os alunos têm a oportunidade de escrever outros finais para a história.
Perguntado sobre o que sentiu ao ver 98.000 exemplares do seu livro serem retirados das escolas, Brant afirma: “Toda essa polêmica me surpreendeu. Primeiro recebi mensagens de professores incrédulos, e de repente um rio de mensagens de ódio. Por um lado os pentecostais me desejando o fogo dos infernos, e por outro ameaças de morte de grupos de extrema direita”.
Segundo o autor do livro retirado, os responsáveis pela decisão “não sabem que os contos de tradição oral em todos os tempos são palco de assuntos delicados. Existem justamente para alertar sobre os perigos do mundo”.
E, para Brant, que vive em Rio e já trabalhou com alunos de escolas de alto risco, esses perigos não foram inventados pela literatura, e sim pela vida. “Já trabalhei em escolas que, dia sim, dia não, são fechadas pelo narcotráfico. Agora mesmo, enquanto escrevo a você, ouço um tiroteio numa comunidade próxima. A vida expõe essas crianças aos terrores do mundo diariamente. Que espaço pode ser mais seguro para abordar com elas certos temas delicados do que o regaço seguro e afetuoso de um professor inteligente ou de um contador de histórias?” E acrescenta: “O segredo é a mediação, e cada vez nossas políticas de leitura no Brasil se preocupam mais com a compra e venda de livros do que com a capacitação de mediadores de leitura e com a formação de leitores”.
Na opinião dele, “a crise política está mergulhando o país em uma crise moral que deixa cada vez mais à margem a inteligência e o bom senso. Estamos voltando à Idade Média, aos tempos da Inquisição. Mas hoje se queimam livros sem tacar fogo”.
Mas o autor censurado não está só. Tem recebido uma onda de solidariedade, como ele mesmo indica, por parte de muita gente que defende uma educação laica e aberta nas escolas, capaz de abrir a mente e a alma das crianças.
A escritora infanto-juvenil Roseana Murray, autora de quase 100 livros publicados e premiada pela Academia Brasileira de Letras, escreveu no seu Facebook, comentando a polêmica censura do livro de contos de Brant: “Perigosa não é a literatura, e sim a vida. Perigoso é mesclar religião com educação, intolerância com literatura”. Ela acrescenta que “contos populares e de fadas existem desde tempos imemoriais e atravessam fronteiras de boca em boca. Às vezes são tristes, às vezes terríveis, mas ajudam as crianças a resolverem conflitos e abordarem temas difíceis, através da fantasia”.
É verdade, como afirma Brant, que na nova Inquisição de hoje no Brasil “queimam-se livros sem tacar fogo”. O dele acaba de ser queimado assim. Isso me fez lembrar uma frase célebre de um dos maiores poetas russos, o Nobel de Literatura, Joseph Brodsky: “O maior crime não é queimar livros, e sim não lê-los”.
O maior crime que o Ministério da Educação acaba de cometer não foi o de “queimar” o livro de contos de Brant, e sim o de privar as crianças de lerem boa literatura.
Não muito tempo atrás, dizia-se que o Brasil já havia tocado o futuro com as mãos. Hoje, percebemos que, infelizmente, no campo da cultura, da tolerância e da defesa das liberdades o Brasil está despertando novamente num passado que se esperava ter sido esquecido para sempre.
Perdão indigesto
Chave-mestra para as investigações da Lava-Jato, o instituto da delação premiada pode ganhar nova interpretação nesta semana, fragilizar a operação e adicionar mais uma guerra às já deflagradas entre os poderes.
Desta vez opondo a Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, caso o plenário da Corte decida rever os termos das colaborações dos irmãos Batista, beneficiados com imunidade absoluta.
A questão será analisada na quarta-feira. A hipótese de a tese de revisão ser aprovada reduz o poder de negociação da PGR – uma arapuca para a Lava-Jato, que os investigados pela operação tentam com afinco, mas que acabou armada pela própria Procuradoria.
A PGR pode até espernear, mas se algo mudar será única e exclusivamente pela frouxidão do acordo firmado com os donos da JBS.
Por mais que o Procurador-Geral Rodrigo Janot afirme e reafirme que o teor da delação compensava todas as benesses, nem especialistas, quanto mais o cidadão comum, conseguem compreender como a instituição que comanda o combate à corrupção acabou por fazer valer o dito de que o crime compensa.
Ainda que tenham gravado um diálogo nada republicano com o presidente Michel Temer e outros com Aécio Neves, e combinado ações com a Polícia Federal para efetuar flagrantes que complicam Temer e o senador tucano afastado, os Batista ditaram e obtiveram regalias inexplicáveis. Sem parâmetros no mundo.
Causaram escárnio as imagens do apartamento de luxo de Joesley em Nova York, de seu jato particular e do embarque de seu iate de US$ 10 milhões para os Estados Unidos; a confissão de que corrompera 1.893 políticos. Todos os crimes perdoados – enfiados goela abaixo dos brasileiros pela PGR.
Criada no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999, no bojo da Lei 9.807 sobre Proteção a Testemunhas e Colaboradores, a delação premiada reaparece na Lei 12.850, que define organização criminosa, assinada pela então presidente Dilma Rousseff, em 2013. Uma lei não anulou a outra. E entre uma e outra as mudanças mais significativas se referem ao detalhamento das delegações dadas ao Ministério Público e à Polícia Federal para formalizá-las.
Mas o que chama atenção é o pouco caso que se faz da legislação. O parágrafo 1o da Seção I da lei de 2013 -- “a concessão do benefício levará em conta a personalidade do colaborador, a natureza, as circunstâncias, a gravidade e a repercussão social do fato criminoso e a eficácia da colaboração”— fornece, por exemplo, elementos de sobra para que a PGR negasse os termos exigidos pelos irmãos Batista no pacto. Mais adiante, o parágrafo 3o do Artigo 6º fixa a manutenção do sigilo do acordo até o recebimento da denúncia, preceito inútil para quase a totalidade das delações no âmbito da Lava-Jato.
No Supremo, a tendência é de revisão do acordo dos Batista. Mas em alguns termos, algo bem pontual. Difícil será fazê-lo sem colocar em risco acordos já firmados e outros que estão em negociação. É nesse ponto que a defesa da PGR deve se ater: a segurança jurídica.
O STF avaliará também se a homologação de delações pode ou não ser feita pelo juiz relator do processo ou se é sujeita, obrigatoriamente, a deliberação colegiada. E se o inquérito para investigar Temer e o ex-deputado Rodrigo Loures (PMDB-PA) continuará ou não com o ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato. Na contramão do desejo de Temer, têm-se como favas contadas a vitória de Fachin.
Seja qual for a decisão do STF na quarta-feira, uma coisa é certa: o país não suporta mais a corrupção, mas também não tem estômago para delações que premiam excessivamente criminosos confessos. Cabe à Justiça evitar essa indigestão.
Desta vez opondo a Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, caso o plenário da Corte decida rever os termos das colaborações dos irmãos Batista, beneficiados com imunidade absoluta.
A PGR pode até espernear, mas se algo mudar será única e exclusivamente pela frouxidão do acordo firmado com os donos da JBS.
Por mais que o Procurador-Geral Rodrigo Janot afirme e reafirme que o teor da delação compensava todas as benesses, nem especialistas, quanto mais o cidadão comum, conseguem compreender como a instituição que comanda o combate à corrupção acabou por fazer valer o dito de que o crime compensa.
Ainda que tenham gravado um diálogo nada republicano com o presidente Michel Temer e outros com Aécio Neves, e combinado ações com a Polícia Federal para efetuar flagrantes que complicam Temer e o senador tucano afastado, os Batista ditaram e obtiveram regalias inexplicáveis. Sem parâmetros no mundo.
Causaram escárnio as imagens do apartamento de luxo de Joesley em Nova York, de seu jato particular e do embarque de seu iate de US$ 10 milhões para os Estados Unidos; a confissão de que corrompera 1.893 políticos. Todos os crimes perdoados – enfiados goela abaixo dos brasileiros pela PGR.
Criada no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999, no bojo da Lei 9.807 sobre Proteção a Testemunhas e Colaboradores, a delação premiada reaparece na Lei 12.850, que define organização criminosa, assinada pela então presidente Dilma Rousseff, em 2013. Uma lei não anulou a outra. E entre uma e outra as mudanças mais significativas se referem ao detalhamento das delegações dadas ao Ministério Público e à Polícia Federal para formalizá-las.
Mas o que chama atenção é o pouco caso que se faz da legislação. O parágrafo 1o da Seção I da lei de 2013 -- “a concessão do benefício levará em conta a personalidade do colaborador, a natureza, as circunstâncias, a gravidade e a repercussão social do fato criminoso e a eficácia da colaboração”— fornece, por exemplo, elementos de sobra para que a PGR negasse os termos exigidos pelos irmãos Batista no pacto. Mais adiante, o parágrafo 3o do Artigo 6º fixa a manutenção do sigilo do acordo até o recebimento da denúncia, preceito inútil para quase a totalidade das delações no âmbito da Lava-Jato.
No Supremo, a tendência é de revisão do acordo dos Batista. Mas em alguns termos, algo bem pontual. Difícil será fazê-lo sem colocar em risco acordos já firmados e outros que estão em negociação. É nesse ponto que a defesa da PGR deve se ater: a segurança jurídica.
O STF avaliará também se a homologação de delações pode ou não ser feita pelo juiz relator do processo ou se é sujeita, obrigatoriamente, a deliberação colegiada. E se o inquérito para investigar Temer e o ex-deputado Rodrigo Loures (PMDB-PA) continuará ou não com o ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato. Na contramão do desejo de Temer, têm-se como favas contadas a vitória de Fachin.
Seja qual for a decisão do STF na quarta-feira, uma coisa é certa: o país não suporta mais a corrupção, mas também não tem estômago para delações que premiam excessivamente criminosos confessos. Cabe à Justiça evitar essa indigestão.
Loucos oficiais
Dia desses, cumprindo minha rotina diária de leitura de alguns jornais do planeta, subitamente atentei para a imensa quantidade de notícias retratando episódios de insensibilidade que somente a loucura mais refinada poderia explicar. O pior: praticamente todos eles envolvendo autoridades de alto nível. Decidi, então, ensejando uma compreensão mais ampla, listá-las, resumidamente. Transcrevo, a seguir, o que encontrei.
Na Malaysia, um dado deputado, comentando uma nova lei que penaliza abusos sexuais de menores, declarou que violadores e vítimas deveriam casar-se e "virar a página". Acrescentou, em seguida, que muitas "raparigas" já estão preparadas física e espiritualmente para o casamento a partir dos 9 anos de idade.
Enquanto isso, na Europa, o presidente da Repúlica Checa foi gravado ao dizer, em recente conferência internacional, que "há demasiados jornalistas, deveríamos liquidá-los". Por falar em "liquidar" pessoas, na África um outro presidente, o da Guiné Equatorial, assim expressou-se: "quando alguém agarra um delinquente, mesmo que o mate, nós não vamos permitir que a justiça detenha essa pessoa, porque o delinquente tem que saber que, quando vai roubar, pode ser morto".
Mas retornemos à Europa, em cujo parlamento um Eurodeputado sustentou, "ao vivo e a cores", que "as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque são mais frágeis, mais pequenas e menos inteligentes". Deve ser por isso que, na Itália, absolveu-se um estuprador sob o argumento de que sua vítima "não gritara"!
Na Índia o cenário para as mulheres é outro: um ministro, comandando uma campanha de distribuição de objetos de madeira parecidos com porretes, assim aconselhou-as: "se o seu marido estiver embriagado e ameaçar abusá-la, bata nele".
Nos EUA um congressista, debatendo em plenário a gravíssima questão da saúde, saiu-se com esta "pérola": "ninguém morre por não ter acesso a cuidados de saúde".
Encerro com a Austrália, país no qual parlamentares federais defenderam que traficantes de pessoas fossem pagos para devolverem suas vítimas à Ásia.
Diante destes episódios, todos, repito, protagonizados por autoridades do mais elevado nível - seja lá o que for isso - fiquei a recordar as palavras de William Shakespeare: "é uma infelicidade da época que os doidos guiem os cegos".
Enquanto isso, na Europa, o presidente da Repúlica Checa foi gravado ao dizer, em recente conferência internacional, que "há demasiados jornalistas, deveríamos liquidá-los". Por falar em "liquidar" pessoas, na África um outro presidente, o da Guiné Equatorial, assim expressou-se: "quando alguém agarra um delinquente, mesmo que o mate, nós não vamos permitir que a justiça detenha essa pessoa, porque o delinquente tem que saber que, quando vai roubar, pode ser morto".
Mas retornemos à Europa, em cujo parlamento um Eurodeputado sustentou, "ao vivo e a cores", que "as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque são mais frágeis, mais pequenas e menos inteligentes". Deve ser por isso que, na Itália, absolveu-se um estuprador sob o argumento de que sua vítima "não gritara"!
Na Índia o cenário para as mulheres é outro: um ministro, comandando uma campanha de distribuição de objetos de madeira parecidos com porretes, assim aconselhou-as: "se o seu marido estiver embriagado e ameaçar abusá-la, bata nele".
Nos EUA um congressista, debatendo em plenário a gravíssima questão da saúde, saiu-se com esta "pérola": "ninguém morre por não ter acesso a cuidados de saúde".
Encerro com a Austrália, país no qual parlamentares federais defenderam que traficantes de pessoas fossem pagos para devolverem suas vítimas à Ásia.
Diante destes episódios, todos, repito, protagonizados por autoridades do mais elevado nível - seja lá o que for isso - fiquei a recordar as palavras de William Shakespeare: "é uma infelicidade da época que os doidos guiem os cegos".
sábado, 17 de junho de 2017
Quanto tempo a democracia suportará?
O destino do PSDB não tem mais importância; a legenda demonstrou que está sincronizada com a média do sistema político nacional. Nem promessas de voltar atrás no apoio ao governo Temer são relevantes. Risíveis são as declarações de que se pautaram pela ''ética da responsabilidade'', pesando meios e fins em relação ao país. Triste fim de Max Weber, acabar como sofisma em bico de tucano.
Pedantismos sociológicos à parte, o maior problema é mesmo o Brasil, hoje um vazio de ideias e lideranças; deixado à sorte da crise, sem referências que possam contornar a situação. Tão cedo, não se constituirá um centro capaz de reestruturar seu sistema político, reformando e modernizando-o. A lacuna ao centro favorecerá a polarização e o populismo, o que traz riscos evidentes.
De imediato, o que se vê é que a crise não cessará: o governo Temer é um trem descarrilhado; admite todo o tipo de concessões para se salvar e se fortalecer de modo a atropelar o que resta de instituições. Seus desmentidos não escondem intenções de que o objetivo é desqualificar os principais agentes da Lava Jato: o ministro Edson Fachin e o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. ''Estancar a sangria'', como disse Romero Jucá.
No quadro presente, será improvável fazer reformas estruturais e conduzir ajustes fiscais relevantes. A reforma Trabalhista, por adiantada tramitação, ainda vai; mas a da Previdência tende a ficar para as calendas — dificilmente será aprovado mais que um símbolo. Ao mesmo tempo, renegociações com estados e todo tipo de interesses que possam significar proteção política agravarão a situação das contas públicas.
À existência de um teto de gastos, é justo imaginar cortes de investimentos e na área social ou aumentos de impostos. Também a economia será incapaz de um salto significativo; a aceleração, se houver, será lenta. Para investidores estrangeiros, o país ainda é melhor caminho para ganhos elevados do que os demais BRICS; mais cautelosos, nativos olham com apreensão, colocam o pé no freio. Dificilmente, o padrão de crescimento do primeiro trimestre se repetirá.
Ao mesmo tempo, no front político não há perspectiva de paz: as denúncias contra o presidente, sua equipe e aliados não cessarão; há, sem dúvida, muito potencial de desgastes. Enterrar a Lava Jato é sonho de dez em cada dez dos mais de trezentos picaretas que, em quase todos os partidos, estão envolvidos com ela. Mas, não há força para isso: bem ou mal, a sociedade reage. No mínimo, há um empate estabelecido. Para desespero de Jucá, o sistema continuará a sangrar.
O sistema de pesos e contrapesos da democracia foi afetado: o Tribunal Superior Eleitoral deu mostras de uma Justiça incapaz de arbitrar o conflito político; houve aí o desgaste de personagens e instituições, que, pela omissão ou ação parcial, perderam credibilidade. A possibilidade de algum avanço nesse campo ficará por conta do Supremo Tribunal Federal — a última cidadela, também cercada de controvérsia.
Logo, o país não sai da sinuca tão já. As eleições do ano que vem devem ocorrer envoltas nesse ambiente — e é plausível que o país continue encalacrado mesmo depois delas. Numa atmosfera de muita incerteza, a disputa eleitoral pode ferver ao mesmo ritmo das tensões sociais, com retroalimentação de ambos. PT, Ciro Gomes, Marina Silva, Jair Bolsonaro, João Doria; nomes colocados, qual seria capaz de abrir diálogos, propor pactos e estabelecer limites às contendas? De onde menos se espera é mesmo de onde nada vem.
A pergunta que não pode ser negligenciada é: quanto tempo a democracia brasileira suportará? Nossas tradições não nos garantem. Ademais, democracia não prescinde de lideranças. O diabo é enxergar onde elas estão. A ''ética da responsabilidade'' exigirá coragem para mudar, posturas morais, propostas reformistas no campo político; comunicação, diálogo e firmeza. Não há espaço para sofismar.
Carlos Melo
Pedantismos sociológicos à parte, o maior problema é mesmo o Brasil, hoje um vazio de ideias e lideranças; deixado à sorte da crise, sem referências que possam contornar a situação. Tão cedo, não se constituirá um centro capaz de reestruturar seu sistema político, reformando e modernizando-o. A lacuna ao centro favorecerá a polarização e o populismo, o que traz riscos evidentes.
De imediato, o que se vê é que a crise não cessará: o governo Temer é um trem descarrilhado; admite todo o tipo de concessões para se salvar e se fortalecer de modo a atropelar o que resta de instituições. Seus desmentidos não escondem intenções de que o objetivo é desqualificar os principais agentes da Lava Jato: o ministro Edson Fachin e o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. ''Estancar a sangria'', como disse Romero Jucá.
À existência de um teto de gastos, é justo imaginar cortes de investimentos e na área social ou aumentos de impostos. Também a economia será incapaz de um salto significativo; a aceleração, se houver, será lenta. Para investidores estrangeiros, o país ainda é melhor caminho para ganhos elevados do que os demais BRICS; mais cautelosos, nativos olham com apreensão, colocam o pé no freio. Dificilmente, o padrão de crescimento do primeiro trimestre se repetirá.
Ao mesmo tempo, no front político não há perspectiva de paz: as denúncias contra o presidente, sua equipe e aliados não cessarão; há, sem dúvida, muito potencial de desgastes. Enterrar a Lava Jato é sonho de dez em cada dez dos mais de trezentos picaretas que, em quase todos os partidos, estão envolvidos com ela. Mas, não há força para isso: bem ou mal, a sociedade reage. No mínimo, há um empate estabelecido. Para desespero de Jucá, o sistema continuará a sangrar.
O sistema de pesos e contrapesos da democracia foi afetado: o Tribunal Superior Eleitoral deu mostras de uma Justiça incapaz de arbitrar o conflito político; houve aí o desgaste de personagens e instituições, que, pela omissão ou ação parcial, perderam credibilidade. A possibilidade de algum avanço nesse campo ficará por conta do Supremo Tribunal Federal — a última cidadela, também cercada de controvérsia.
Logo, o país não sai da sinuca tão já. As eleições do ano que vem devem ocorrer envoltas nesse ambiente — e é plausível que o país continue encalacrado mesmo depois delas. Numa atmosfera de muita incerteza, a disputa eleitoral pode ferver ao mesmo ritmo das tensões sociais, com retroalimentação de ambos. PT, Ciro Gomes, Marina Silva, Jair Bolsonaro, João Doria; nomes colocados, qual seria capaz de abrir diálogos, propor pactos e estabelecer limites às contendas? De onde menos se espera é mesmo de onde nada vem.
A pergunta que não pode ser negligenciada é: quanto tempo a democracia brasileira suportará? Nossas tradições não nos garantem. Ademais, democracia não prescinde de lideranças. O diabo é enxergar onde elas estão. A ''ética da responsabilidade'' exigirá coragem para mudar, posturas morais, propostas reformistas no campo político; comunicação, diálogo e firmeza. Não há espaço para sofismar.
Carlos Melo
Tanta pressa pode parecer confissão de culpa
A suspensão do recesso parlamentar de julho, sugerida pelo deputado Rodrigo Maia para apressar a votação no Legislativo da denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer, conduz a duas constatações. A primeira é animadora para Temer: o presidente da Câmara não apresentaria a ideia se, na contabilidade do Planalto, a bancada governista não tivesse votos de sobra para sepultar a denúncia ─ que só será julgada pelo Supremo Tribunal Federal se aprovada por dois terços dos deputados federais.
A segunda constatação não permite que Temer durma em sossego. Tanta afobação comprova que, também aos olhos do presidente e seus aliados íntimos, a base de apoio no Congresso é perturbadoramente volátil ─ e pode derreter se a temperatura política for elevada por descobertas da Lava Jato, ou revelações decorrentes de delações premiadas, que transformem o chefe de governo em protagonista de mais histórias muito mal contadas. Vêm aí confissões de grosso calibre. E os alvos principais continuam a ser Lula, Dilma e Temer.
A pressa do presidente reforça a suspeita de que nem todos os pecados que cometeu foram desvendados. Nessa hipótese, o agravamento da crise política terá sido apenas adiado com a rejeição da denúncia. Um escândalo de bom tamanho pode levar o sempre dubitativo PSDB a redescobrir a relevância do respeito à lei, a normas éticas, à moral e aos bons costumes. Temer precisa preservar a aliança para chegar ao fim do verão perigoso. “Em setembro, a melhora dos indicadores econômicos vai inibir os que sonham com a queda do governo”, ouviu de Temer nesta quinta-feira um ministro tucano.
No Brasil com 14 milhões de desempregados, talvez o item mais perverso do legado maldito de Lula e Dilma, o governo só sobreviverá até dezembro de 2018 se a economia sair da UTI nos próximos dois meses. Tudo somado, resta a Temer convocar uma reunião do Ministério para resumir numa frase o que devem fazer tanto o presidente quanto os integrantes do primeiro escalão até a tempestade amainar:
─ Senhores ministros: oremos.
A segunda constatação não permite que Temer durma em sossego. Tanta afobação comprova que, também aos olhos do presidente e seus aliados íntimos, a base de apoio no Congresso é perturbadoramente volátil ─ e pode derreter se a temperatura política for elevada por descobertas da Lava Jato, ou revelações decorrentes de delações premiadas, que transformem o chefe de governo em protagonista de mais histórias muito mal contadas. Vêm aí confissões de grosso calibre. E os alvos principais continuam a ser Lula, Dilma e Temer.

No Brasil com 14 milhões de desempregados, talvez o item mais perverso do legado maldito de Lula e Dilma, o governo só sobreviverá até dezembro de 2018 se a economia sair da UTI nos próximos dois meses. Tudo somado, resta a Temer convocar uma reunião do Ministério para resumir numa frase o que devem fazer tanto o presidente quanto os integrantes do primeiro escalão até a tempestade amainar:
─ Senhores ministros: oremos.
Para o bem da humanidade, marxismo e capitalismo precisam se relacionar
Nos dias de hoje, poucas pessoas se identificam como adeptos do marxismo ou do socialismo científico, que seria a denominação mais correta. A maioria dos simpatizantes se posiciona como esquerdista ou progressista. No meu caso pessoal, continuo me considerando marxista, por acreditar que este é o caminho do futuro longínquo da humanidade – se a vida, é claro, conseguir ser preservada da insanidade dos governantes, que insistem em permitir a acelerada devastação do planeta para consumo descontrolado das riquezas naturais.
É evidente que o capitalismo, nos moldes atuais, não poderá continuar a prevalecer até o final dos tempos, porque seria grave ameaça à humanidade. Da mesma forma, não se pode conceber que se implante nos dias de hoje o comunismo idealizado em 1848 por Karl Marx e Fiedrich Engels. Se alguém defende qualquer uma das duas hipóteses, com certeza é caso de internação. Tanto o marxismo quanto o capitalismo necessitam de uma equalização, que começa a ser esboçada nos países nórdicos.
É evidente que o capitalismo, nos moldes atuais, não poderá continuar a prevalecer até o final dos tempos, porque seria grave ameaça à humanidade. Da mesma forma, não se pode conceber que se implante nos dias de hoje o comunismo idealizado em 1848 por Karl Marx e Fiedrich Engels. Se alguém defende qualquer uma das duas hipóteses, com certeza é caso de internação. Tanto o marxismo quanto o capitalismo necessitam de uma equalização, que começa a ser esboçada nos países nórdicos.
Há mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, das quais cerca de 30% (2,2 bilhões) vivem em estado de pobreza, 850 milhões tem dificuldades para se alimentar e 120 milhões estão morrendo de fome. O continente mais desigual é a América Latina, onde o Brasil exibe a estranha experiência de conviver a miséria absoluta e a riqueza total, tendo como resultado o recorde mundial de homicídios.
Isso significa que o modelo brasileiro de capitalismo não está dando certo. É preciso aprimorá-lo, e o equilíbrio sempre está no meio, até as paralelas se encontram no infinito, como lembrava Belchior.
Para colocar ordem na discussão, pode-se dizer que foi o comunismo (socialismo científico) que provocou a humanização do capitalismo primitivo, em que predominava a exploração do homem pelo homem, quando praticamente não havia direitos trabalhistas e sociais. O capitalismo se aperfeiçoou, não há dúvida, mas ainda é um regime altamente negativo.
Isso significa que o modelo brasileiro de capitalismo não está dando certo. É preciso aprimorá-lo, e o equilíbrio sempre está no meio, até as paralelas se encontram no infinito, como lembrava Belchior.
Para colocar ordem na discussão, pode-se dizer que foi o comunismo (socialismo científico) que provocou a humanização do capitalismo primitivo, em que predominava a exploração do homem pelo homem, quando praticamente não havia direitos trabalhistas e sociais. O capitalismo se aperfeiçoou, não há dúvida, mas ainda é um regime altamente negativo.
Marx e Engels foram importantes pensadores, mas suas teses estão desatualizadas, claro. Não podem mais ser tomadas ao pé da letra. No entanto, ainda é preciso segui-los no que se refere à necessidade de superação das desigualdades sociais e da defesa da vida.
Os países nórdicos fizeram uma adaptação muito positiva do capitalismo, lá o Estado é forte e procura ser mais justo em relação ao interesse público. Mas esses países ainda têm de evoluir, especialmente no que se refere à questão da assistência médica à população. Lá também existe a ditadura dos planos de saúde, vejam que paradoxo.
No socialismo científico de Marx e Engels, o direito à vida seria garantido através de um sistema de saúde que contemplasse todos os cidadãos. Até hoje continua a ser uma das mais importantes metas sociais a serem alcançadas pela humanidade, há países que caminham nesse sentido, como o Reino Unido, mas há riscos de retrocesso.
Os países nórdicos fizeram uma adaptação muito positiva do capitalismo, lá o Estado é forte e procura ser mais justo em relação ao interesse público. Mas esses países ainda têm de evoluir, especialmente no que se refere à questão da assistência médica à população. Lá também existe a ditadura dos planos de saúde, vejam que paradoxo.
No socialismo científico de Marx e Engels, o direito à vida seria garantido através de um sistema de saúde que contemplasse todos os cidadãos. Até hoje continua a ser uma das mais importantes metas sociais a serem alcançadas pela humanidade, há países que caminham nesse sentido, como o Reino Unido, mas há riscos de retrocesso.
Os marxistas modernos não mais defendem estatização das fontes de produção, planejamento central nem luta de classes. Mas têm certeza de que o mundo do futuro será mais marxista, em termos de proteção aos carentes, igualdade de oportunidades, sistema universal de saúde, garantia de educação de qualidade para todas as crianças, restrições ao consumismo, proteção do meio ambiente etc., metas que ainda não despertam interesse no capitalismo praticado nos dias de hoje na grande maioria dos países, sejamos francos, e nesse particular China e Estados Unidos são imbatíveis.
Se revivessem nos dias de hoje, Marx e Engels estariam revoltados com a desigualdade social que persiste no mundo. Repita-se que 30% dos habitantes do planeta (2,2 bilhões de pessoas) passam necessidades, dos quais 850 milhões têm carência alimentar e 120 milhões estão literalmente morrendo de fome. Mas quem se interessa? Marx e Engels, com toda certeza, se interessariam.
Se revivessem nos dias de hoje, Marx e Engels estariam revoltados com a desigualdade social que persiste no mundo. Repita-se que 30% dos habitantes do planeta (2,2 bilhões de pessoas) passam necessidades, dos quais 850 milhões têm carência alimentar e 120 milhões estão literalmente morrendo de fome. Mas quem se interessa? Marx e Engels, com toda certeza, se interessariam.
Os crimes da mala e o cadáver do Brasil
Em 1928, em São Paulo, um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, estrangulou sua mulher Maria Mercedes, que o denunciara como trambiqueiro. O que fazer com o cadáver? Pistone serrou-o pelas pernas, espremeu-o numa mala e despachou-o para um destinatário inexistente em Bordeaux, França. Ao ser içada a bordo do navio Massilia, em Santos, a mala abriu acidentalmente e revelou-se o seu conteúdo. Pistone foi preso e condenado a 31 anos. Cumpriu 13, saiu e até se casou de novo.
O caso passou à história como “o crime da mala”, embora não fosse o primeiro nem o último com esse nome. Há cinco anos, também em São Paulo, uma mulher matou a tiros o marido, executivo de uma grande empresa fabricante de pipoca. Experiente em enfermagem, ela o esquartejou e o distribuiu por três malas com rodinha, que enfiou no carro e levou até Cotia para se desfazer. Foi apanhada e presa. E este também não será o último caso do gênero.
Um novo tipo de crime da mala está em curso no Brasil. Consiste em esquartejar os escrúpulos e rechear malas, não com o que restou deles, mas com dinheiro ilícito. O caso mais flagrante é o do ex-deputado Rodrigo Loures, destacado pelo presidente Temer como seu “homem de confiança” para se entender com os amigos da JBS — e, dali a dias, filmado ao receber uma mala numa pizzaria e, assustado, tomar um táxi com ela no colo. A mala continha R$ 500 mil em espécie e soube-se depois que ele a escondeu na casa da mãe.
Na sequência, Fred Pacheco de Medeiros, operador e primo do senador Aécio Neves, também foi filmado acomodando em malas R$ 500 mil da mesma e generosa JBS. E, antes deles, o notório ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto era tão useiro em rechear mochilas com dinheiro que seu apelido era “Mocha”.
Em todas essas malas e mochilas, vai, aos pedaços, o cadáver do Brasil.
Ruy Castro
Sobre aquilo que muda para permanecer exatamente como está
Os partidos políticos brasileiros não figuram, nem de longe, entre as instituições mais prestigiadas e benquistas pela população e frequentemente estão entre aquelas menos confiáveis na percepção dos brasileiros. As razões são várias: acusações de fisiologismo, de incapacidade de canalizar as vontades e demandas da sociedade e traduzi-las em políticas públicas, de distância existente entre seus modos de organização e operação num mundo cada vez mais rápido e digital, de falta de identidade, de ausência de transparência e de falta de democracia interna.
Recentemente, as investigações da Lava Jato colocaram luz sobre a promiscuidade das relações público-privadas no Brasil e o atacado de algumas: dos 35 partidos políticos hoje constituídos, 28 deles possuem representação na Câmara dos Deputados e 23 deles receberam doações financeiras de empresas investigadas, sobretudo Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e Odebrecht. Isso não significa – de modo algum – afirmar que o repasse de recursos dessas empresas tenha se dado necessariamente de maneira irregular, mas demonstra o nível de influência do poder econômico e sua capilaridade entre aqueles que detém o monopólio da representação no país.
Num cenário em que não são sucesso nem de público e nem de crítica, temos assistido a esforços de alguns partidos políticos brasileiros para mudar a própria imagem. O primeiro exemplo recente, na esteira do que o PFL fizera em meados da década passada, vem do “antigo” PTN (Partido Trabalhista Nacional). Desde dezembro de 2016 mudou de nome e atende por “Podemos” (PODE), numa tentativa de se distanciar da rubrica “partido” e se aproximar da rubrica “movimento”.
O segundo exemplo vem do PSL (Partido Social Liberal), que conta em seu interior com o Livres, movimento de renovação que busca dar nova cara ao partido e o caracteriza como o “primeiro partido startup do Brasil”. Defende maior liberdade individual, na economia e nos costumes, e desburocratização das relações econômicas.
Em comum, os dois partidos ganharam novos sites, cores novas e adotaram linguagem mais jovem, na tentativa de atrair e despertar interesse de um público com o qual não gozam de confiança e cansado do “mais do mesmo”. São ações legítimas e que buscam novos canais de diálogo num mundo também novo.
Se a mudança na embalagem por si só já é um fenômeno interessante de ser observar, seria uma grande contribuição à sociedade brasileira se os discursos viessem acompanhados também de mudanças nas respectivas práticas.
Façamos um exercício simples: suponhamos que você, leitor e cidadão brasileiro, queira saber quanto esses dois ou qualquer outro partido brasileiro tenha recebido em doações até hoje. O primeiro passo é uma visita ao portal eletrônico do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre 2007 e 2009 não é possível saber quantas, quais e em que volume foram as doações de recursos para os nossos partidos, já que os dados não estão disponíveis. É somente em 2010 que tem início a preocupação em separar e deixar um pouco mais claro os recursos recebidos via doação de pessoas e empresas.
Pois bem, escolha então um ano a partir de 2010. Qualquer um. Imagine que você queira saber quais foram e em que valores aconteceram as doações de pessoas comuns (físicas), como eu e você, nesse ano. Tem paciência? Primeiramente, você vai notar que a prestação de contas dos partidos políticos não segue padrão algum. Sabe o formulário que você anualmente precisa preencher para declarar imposto de renda e que não permite que se avance para a próxima tela se tudo não estiver preenchido em detalhes e no formato exigido? Pois é, existe para você, mas não para o partido que recebe seu dinheiro.
Com exceção do período de campanha eleitoral, inexiste um sistema único e comum de prestação de contas para partidos políticos, que colete e organize esses dados de maneira inteligível. Na maioria dos casos, a prestação se resume a um documento escaneado, em formato pdf, com rasuras e de leitura quase impossível. Em muitos, não há sequer um campo destinado ao “total” dos valores e cabe ao interessado somar e calcular manualmente se quiser. Do mesmo modo, não é possível filtrar, visualizar graficamente ou sequer exportar os dados para fazer outros tipos de cruzamentos. Tudo isso precisa ser feito à mão, no melhor estilo euclidiano: “o pesquisador no Brasil é, antes de tudo, um forte”.
Convencido de que o site do TSE talvez não seja lá o melhor caminho para obtenção dessas informações, vá direito à fonte. Experimente visitar o site de um desses dois partidos, ou de qualquer outro dos nossos 33, para checar esses e outros quesitos simples relacionados à transparência. Relatórios que tragam receitas e despesas; salários daqueles que ocupam cargos de direção em qualquer uma das esferas; agenda dos dirigentes partidários ao menos na esfera nacional…
Se ainda restar um pouco de paciência, tente então descobrir, ainda no próprio site, se qualquer um dos nossos partidos aplica corretamente os recursos do Fundo Partidário a que têm direito – ao menos 20% dos recursos no Instituto ou Fundação responsável pela formação de seus quadros; 5% em atividades relacionadas à promoção da participação feminina na política e, no máximo, 50% com despesas de pessoal. E não vale um recibinho em pdf só dizendo que fez, sem detalhe algum de como e quando. Achou? Nem ao menos o recibinho em pdf? É, nem eu.
Fica a sensação, para qualquer pessoa que queira mais que cores bonitas em sites com linguagem jovem, de que a desorganização nesses casos é, no mínimo, estratégica. Enquanto boa parte dos partidos se debate com questões sobre como se aproximar da sociedade e como ganhar sua confiança, fica aqui a sugestão singela dessa que vos escreve: aproximar, primeiramente, o discurso e a prática. A vantagem do lado de cá dos trópicos é que o básico tem caráter revolucionário.
Recentemente, as investigações da Lava Jato colocaram luz sobre a promiscuidade das relações público-privadas no Brasil e o atacado de algumas: dos 35 partidos políticos hoje constituídos, 28 deles possuem representação na Câmara dos Deputados e 23 deles receberam doações financeiras de empresas investigadas, sobretudo Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e Odebrecht. Isso não significa – de modo algum – afirmar que o repasse de recursos dessas empresas tenha se dado necessariamente de maneira irregular, mas demonstra o nível de influência do poder econômico e sua capilaridade entre aqueles que detém o monopólio da representação no país.
O segundo exemplo vem do PSL (Partido Social Liberal), que conta em seu interior com o Livres, movimento de renovação que busca dar nova cara ao partido e o caracteriza como o “primeiro partido startup do Brasil”. Defende maior liberdade individual, na economia e nos costumes, e desburocratização das relações econômicas.
Em comum, os dois partidos ganharam novos sites, cores novas e adotaram linguagem mais jovem, na tentativa de atrair e despertar interesse de um público com o qual não gozam de confiança e cansado do “mais do mesmo”. São ações legítimas e que buscam novos canais de diálogo num mundo também novo.
Se a mudança na embalagem por si só já é um fenômeno interessante de ser observar, seria uma grande contribuição à sociedade brasileira se os discursos viessem acompanhados também de mudanças nas respectivas práticas.
Façamos um exercício simples: suponhamos que você, leitor e cidadão brasileiro, queira saber quanto esses dois ou qualquer outro partido brasileiro tenha recebido em doações até hoje. O primeiro passo é uma visita ao portal eletrônico do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre 2007 e 2009 não é possível saber quantas, quais e em que volume foram as doações de recursos para os nossos partidos, já que os dados não estão disponíveis. É somente em 2010 que tem início a preocupação em separar e deixar um pouco mais claro os recursos recebidos via doação de pessoas e empresas.
Pois bem, escolha então um ano a partir de 2010. Qualquer um. Imagine que você queira saber quais foram e em que valores aconteceram as doações de pessoas comuns (físicas), como eu e você, nesse ano. Tem paciência? Primeiramente, você vai notar que a prestação de contas dos partidos políticos não segue padrão algum. Sabe o formulário que você anualmente precisa preencher para declarar imposto de renda e que não permite que se avance para a próxima tela se tudo não estiver preenchido em detalhes e no formato exigido? Pois é, existe para você, mas não para o partido que recebe seu dinheiro.
Com exceção do período de campanha eleitoral, inexiste um sistema único e comum de prestação de contas para partidos políticos, que colete e organize esses dados de maneira inteligível. Na maioria dos casos, a prestação se resume a um documento escaneado, em formato pdf, com rasuras e de leitura quase impossível. Em muitos, não há sequer um campo destinado ao “total” dos valores e cabe ao interessado somar e calcular manualmente se quiser. Do mesmo modo, não é possível filtrar, visualizar graficamente ou sequer exportar os dados para fazer outros tipos de cruzamentos. Tudo isso precisa ser feito à mão, no melhor estilo euclidiano: “o pesquisador no Brasil é, antes de tudo, um forte”.
Convencido de que o site do TSE talvez não seja lá o melhor caminho para obtenção dessas informações, vá direito à fonte. Experimente visitar o site de um desses dois partidos, ou de qualquer outro dos nossos 33, para checar esses e outros quesitos simples relacionados à transparência. Relatórios que tragam receitas e despesas; salários daqueles que ocupam cargos de direção em qualquer uma das esferas; agenda dos dirigentes partidários ao menos na esfera nacional…
Se ainda restar um pouco de paciência, tente então descobrir, ainda no próprio site, se qualquer um dos nossos partidos aplica corretamente os recursos do Fundo Partidário a que têm direito – ao menos 20% dos recursos no Instituto ou Fundação responsável pela formação de seus quadros; 5% em atividades relacionadas à promoção da participação feminina na política e, no máximo, 50% com despesas de pessoal. E não vale um recibinho em pdf só dizendo que fez, sem detalhe algum de como e quando. Achou? Nem ao menos o recibinho em pdf? É, nem eu.
Fica a sensação, para qualquer pessoa que queira mais que cores bonitas em sites com linguagem jovem, de que a desorganização nesses casos é, no mínimo, estratégica. Enquanto boa parte dos partidos se debate com questões sobre como se aproximar da sociedade e como ganhar sua confiança, fica aqui a sugestão singela dessa que vos escreve: aproximar, primeiramente, o discurso e a prática. A vantagem do lado de cá dos trópicos é que o básico tem caráter revolucionário.
Assinar:
Postagens (Atom)






