
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Sinecura sindical
Enquanto o país titubeia diante de inadiáveis reformas econômicas, grupos organizados apressam-se a preservar —ou até ampliar— seu quinhão de benesses estatais.
Exemplo inquietante se acha na comissão especial instituída na Câmara dos Deputados para "estudar e apresentar propostas com relação ao financiamento da atividade sindical", cujo relatório final está prestes a ser aprovado.
Os termos do ato de criação do colegiado mal disfarçam que está em ação um lobby que busca dilatar a tributação destinada ao sustento das entidades de representação dos trabalhadores.
Orientado por parlamentares ligados ao sindicalismo, o projeto da comissão eleva o imposto a ser pago por patrões, autônomos e empregados rurais, enquanto assalariados urbanos permaneceriam onerados no montante equivalente a um dia de trabalho por ano.
Esse não é, contudo, o pior da derrama. Profissionais e empresas terão de arcar, segundo o texto, com outra taxação compulsória, chamada contribuição negocial, correspondente a até 1% da remuneração do funcionário ou a três vezes o tributo patronal.
Se levadas adiante, tais ideias agravarão as distorções e a complexidade da legislação nacional, que já dedica 33 artigos da labiríntica CLT —do art. 578º ao 610º— a regulamentar o imposto sindical.
Sua arrecadação carreia cerca de R$ 3 bilhões anuais às mais de 11 mil organizações laborais existentes no país. A carga, no entanto, é menos nociva que sua obrigatoriedade –da qual nem mesmo os empregados sem filiação a sindicato estão poupados.
A regra esdrúxula torna negócio rentável a abertura de entidades de fachada ou de representatividade duvidosa, em que dirigentes eleitos por minorias desfrutam de receita assegurada.
O estímulo às sinecuras acentua-se com o princípio da unicidade, segundo o qual só pode haver uma associação por categoria e base geográfica. Dito de outra maneira, ao trabalhador não é dado o direito a alternativas.
Conforme noticiou esta Folha, há sinais de que o governo Michel Temer (PMDB) poderia encampar os pleitos sindicais, em troca do apoio a uma reforma trabalhista capaz de facilitar os acordos coletivos para redução de salários e preservação de empregos.
Seria um erro. A desejável negociação entre capital e trabalho demanda, justamente, sindicatos mais legítimos, mantidos por livre escolha de seus representados.
Folha SP - Editorial
Exemplo inquietante se acha na comissão especial instituída na Câmara dos Deputados para "estudar e apresentar propostas com relação ao financiamento da atividade sindical", cujo relatório final está prestes a ser aprovado.
Os termos do ato de criação do colegiado mal disfarçam que está em ação um lobby que busca dilatar a tributação destinada ao sustento das entidades de representação dos trabalhadores.
Orientado por parlamentares ligados ao sindicalismo, o projeto da comissão eleva o imposto a ser pago por patrões, autônomos e empregados rurais, enquanto assalariados urbanos permaneceriam onerados no montante equivalente a um dia de trabalho por ano.

Se levadas adiante, tais ideias agravarão as distorções e a complexidade da legislação nacional, que já dedica 33 artigos da labiríntica CLT —do art. 578º ao 610º— a regulamentar o imposto sindical.
Sua arrecadação carreia cerca de R$ 3 bilhões anuais às mais de 11 mil organizações laborais existentes no país. A carga, no entanto, é menos nociva que sua obrigatoriedade –da qual nem mesmo os empregados sem filiação a sindicato estão poupados.
A regra esdrúxula torna negócio rentável a abertura de entidades de fachada ou de representatividade duvidosa, em que dirigentes eleitos por minorias desfrutam de receita assegurada.
O estímulo às sinecuras acentua-se com o princípio da unicidade, segundo o qual só pode haver uma associação por categoria e base geográfica. Dito de outra maneira, ao trabalhador não é dado o direito a alternativas.
Conforme noticiou esta Folha, há sinais de que o governo Michel Temer (PMDB) poderia encampar os pleitos sindicais, em troca do apoio a uma reforma trabalhista capaz de facilitar os acordos coletivos para redução de salários e preservação de empregos.
Seria um erro. A desejável negociação entre capital e trabalho demanda, justamente, sindicatos mais legítimos, mantidos por livre escolha de seus representados.
Folha SP - Editorial
Lula: de chefão do mundo a técnico de varzeanos pernas-de-pau
Como se dizia antigamente, “parem as máquinas”! Lula teve uma ideia para arrumar o PT: recorrer a metáforas futebolísticas! Nunca antes na história deste partido, não é mesmo?
O ex-poderoso chefão do Brasil e cada vez mais poderoso chefão apenas de suas próprias fantasias resolveu fazer uma reunião em Brasília com dirigentes do partido, deputados e senadores.
Depois de muito refletir, Lula chegou à conclusão de que, para se reconstruir no pós-impeachment de Dilma, os petistas não podem se comportar como atletas individualistas, que buscam jogar sozinhos. Não! É preciso haver união, entenderam? É necessário jogar para o time!
Impressiona que ninguém tenha tido essa ideia antes! Lula é mesmo danado! Quando decide inovar na política, sai de baixo!
Ah, sim! O ex-presidente teve ainda outra ideia de potencial verdadeiramente revolucionário no mundo político-partidário: a necessidade de as várias alas do partido desenvolverem uma “estratégia comum de mobilização”.
Todos concordaram. Só não conseguiram definir que estratégia é essa.
O partido está batendo cabeça. Senadores, por exemplo, ficaram irritados com a forma peremptória como Rui Falcão — que também falou nesta quarta à noite — descartou o plebiscito sobre novas eleições, a genial ideia de jerico que alguns tiveram para enfrentar o aluvião do impeachment.
Não custa notar: Falcão está longe de ser o meu petista predileto — aliás, eu não o tenho. Mas, nesse particular, demonstra um grãozinho a mais de lucidez do que o resto dos malucos. A tese é de tal sorte esdrúxula que não serve nem mesmo como instrumento de resistência.
Por qualquer ângulo que se queira, trata-se de um troço inviável — que, de resto, não mobiliza ninguém. Mais: o pressuposto da proposta seria a volta de Dilma ao poder, o que, como ficou evidente na madrugada de quarta, não vai acontecer.
Com a voz bastante rouca, informa a Folha, Lula, o técnico, falou por longos 40 minutos com os seus pernas-de-pau.
Cada um jogou a bola para um lado. Falcão nem tocou no impeachment e preferiu falar das eleições municipais. O deputado Afonso Florence (BA), líder do partido na Câmara, decidiu falar da agenda de votações na Casa, e Humberto Costa (PE), líder do Senado, ao comentar o resultado da votação do impeachment, afirmou que o resultado foi o esperado — Dilma só obteve 21 votos — e que é preciso trabalhar para ganhar mais sete.
Ah, bom!
Ocorre que qualquer um sabe que o que está mais próximo de acontecer é a presidente afastada perder mais dois e a turma pró-impeachment ganhar mais três.
Que coisa, né? E pensar que esse partido venceu a eleição presidencial há um ano e dez meses e se preparava para meter goela abaixo da sociedade uma reforma política que tinha o objetivo de eternizá-lo no poder.
E pensar que, não faz tempo, os petistas haviam chegado à conclusão que já era hora de investir na destruição do PMDB — seu principal aliado, mas também, entendiam eles, a principal dificuldade para construir a hegemonia sonhada. E pensar que, há dois anos, os petistas já falavam abertamente que seria Lula a suceder Dilma, no quinto mandato presidencial consecutivo…
Hoje, o Babalorixá de Banânia não pode nem entrar num restaurante da Rota do Frango com Polenta, em São Bernardo. A recessão obrigou a maioria dos estabelecimentos a fechar as portas.
O Lula que se preparava para governar o mundo, com o seu partido, inclusive, exportando o modelo de caixa dois para países da América Latina, termina seus dias como técnico de um time de varzeanos pernas de pau.
Que fim merecido!
O ex-poderoso chefão do Brasil e cada vez mais poderoso chefão apenas de suas próprias fantasias resolveu fazer uma reunião em Brasília com dirigentes do partido, deputados e senadores.
Depois de muito refletir, Lula chegou à conclusão de que, para se reconstruir no pós-impeachment de Dilma, os petistas não podem se comportar como atletas individualistas, que buscam jogar sozinhos. Não! É preciso haver união, entenderam? É necessário jogar para o time!
| Fraga/Arte |
Ah, sim! O ex-presidente teve ainda outra ideia de potencial verdadeiramente revolucionário no mundo político-partidário: a necessidade de as várias alas do partido desenvolverem uma “estratégia comum de mobilização”.
Todos concordaram. Só não conseguiram definir que estratégia é essa.
O partido está batendo cabeça. Senadores, por exemplo, ficaram irritados com a forma peremptória como Rui Falcão — que também falou nesta quarta à noite — descartou o plebiscito sobre novas eleições, a genial ideia de jerico que alguns tiveram para enfrentar o aluvião do impeachment.
Não custa notar: Falcão está longe de ser o meu petista predileto — aliás, eu não o tenho. Mas, nesse particular, demonstra um grãozinho a mais de lucidez do que o resto dos malucos. A tese é de tal sorte esdrúxula que não serve nem mesmo como instrumento de resistência.
Por qualquer ângulo que se queira, trata-se de um troço inviável — que, de resto, não mobiliza ninguém. Mais: o pressuposto da proposta seria a volta de Dilma ao poder, o que, como ficou evidente na madrugada de quarta, não vai acontecer.
Com a voz bastante rouca, informa a Folha, Lula, o técnico, falou por longos 40 minutos com os seus pernas-de-pau.
Cada um jogou a bola para um lado. Falcão nem tocou no impeachment e preferiu falar das eleições municipais. O deputado Afonso Florence (BA), líder do partido na Câmara, decidiu falar da agenda de votações na Casa, e Humberto Costa (PE), líder do Senado, ao comentar o resultado da votação do impeachment, afirmou que o resultado foi o esperado — Dilma só obteve 21 votos — e que é preciso trabalhar para ganhar mais sete.
Ah, bom!
Ocorre que qualquer um sabe que o que está mais próximo de acontecer é a presidente afastada perder mais dois e a turma pró-impeachment ganhar mais três.
Que coisa, né? E pensar que esse partido venceu a eleição presidencial há um ano e dez meses e se preparava para meter goela abaixo da sociedade uma reforma política que tinha o objetivo de eternizá-lo no poder.
E pensar que, não faz tempo, os petistas haviam chegado à conclusão que já era hora de investir na destruição do PMDB — seu principal aliado, mas também, entendiam eles, a principal dificuldade para construir a hegemonia sonhada. E pensar que, há dois anos, os petistas já falavam abertamente que seria Lula a suceder Dilma, no quinto mandato presidencial consecutivo…
Hoje, o Babalorixá de Banânia não pode nem entrar num restaurante da Rota do Frango com Polenta, em São Bernardo. A recessão obrigou a maioria dos estabelecimentos a fechar as portas.
O Lula que se preparava para governar o mundo, com o seu partido, inclusive, exportando o modelo de caixa dois para países da América Latina, termina seus dias como técnico de um time de varzeanos pernas de pau.
Que fim merecido!
Com o vaivém da carta, Dilma roça o patético
Sem João Santana, Dilma Rousseff não consegue redigir uma carta. Adiou pela terceira vez —ou seria a quarta?— a divulgação do texto idealizado para virar votos no Senado. É como se lhe caísse a ficha do fato consumado.
Alguém deve ter dito no exílio do Alvorada que todas as opiniões de Dilma sobre Dilma são suspeitas. A essa altura, o documento seria inútil ainda que contivesse um gesto de contrição. Um remorso tardio não seria exemplo aproveitável.
Em sua penúltima versão, a carta oculta de Dilma contém cinco páginas. O miolo da alcatra está na proposta de realização de um plebiscito sobre a antecipação das eleições presidenciais.
Desmarquetada e com a corda no pescoço, tudo o que Dilma tem a oferecer caso lhe restituam a poltrona é uma consulta para que o povo informe que prefere escolher outro presidente. Até Rui Falcão já tomou distância da tolice.
No mais, a carta de Dilma é, na definição de um senador que leu a peça, um documento raso. Se fosse uma poça, poderia ser atravessada por uma formiga —com água pelas canelas.
Na falta de João Santana, alguém deveria se habilitar para a função de orientador de Dilma. Há no PT um nome ideal: Lula. É o único que pode dizer para madame, sem levar um passa-fora, que o vaivém da carta está na bica de atravessar a fronteira do patético.
Alguém deve ter dito no exílio do Alvorada que todas as opiniões de Dilma sobre Dilma são suspeitas. A essa altura, o documento seria inútil ainda que contivesse um gesto de contrição. Um remorso tardio não seria exemplo aproveitável.
Desmarquetada e com a corda no pescoço, tudo o que Dilma tem a oferecer caso lhe restituam a poltrona é uma consulta para que o povo informe que prefere escolher outro presidente. Até Rui Falcão já tomou distância da tolice.
No mais, a carta de Dilma é, na definição de um senador que leu a peça, um documento raso. Se fosse uma poça, poderia ser atravessada por uma formiga —com água pelas canelas.
Na falta de João Santana, alguém deveria se habilitar para a função de orientador de Dilma. Há no PT um nome ideal: Lula. É o único que pode dizer para madame, sem levar um passa-fora, que o vaivém da carta está na bica de atravessar a fronteira do patético.
Só pode aumentar o salário do pessoal
Os servidores públicos e seus associados políticos ganharam todas até aqui. Do conjunto de leis já aprovadas ou encaminhadas no Congresso resulta clara a seguinte conclusão: o ajuste nas contas públicas e, especialmente, o limite de gastos valem para todos, incluindo os cidadãos clientes dos serviços prestados pelo governo, menos para o funcionalismo.
A última batalha foi vencida na Câmara dos Deputados. Ali ficou aprovado que, em troca do enorme desconto na dívida que têm com a União, os governos estaduais ficarão submetidos a um teto de gastos pelos próximos dois anos. Assim: a despesa de um ano é igual à do ano anterior mais a inflação. Sem aumento real, portanto. Menos para os salários do funcionalismo, cujas categorias podem ter aumentos reais ilimitados.
O projeto original sobre a dívida estadual, negociado pelo governo Temer, dizia formalmente que os estados cumpririam duas contrapartidas: 1) o teto de gastos; 2) a proibição expressa de reajustes para o funcionalismo, assim como a proibição de novos concursos e contratações.
Contrapartidas “inegociáveis”, alardeava o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fiador do projeto.
O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), da base, mas com o apoio do PT, PDT e do ex-líder do PSDB Carlos Sampaio, articulou para retirar a segunda contrapartida com o seguinte argumento: “o projeto estabelece um teto de gastos (gerais), mas com esse inciso (proibição de aumentos reais) dizia que o corte tem que ser em cima dos servidores”.
Dito pelo avesso: o corte vai em cima de tudo, menos do funcionalismo. Ou seja, pode cortar no custeio e investimentos nos hospitais, nas escolas, no policiamento, menos na folha salarial.
Disse ainda o deputado Rosso que não era preciso formalizar o veto aos aumentos salariais, porque haverá um teto de gastos gerais e porque a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) já limita a despesa com pessoal.
É de uma falsidade deslavada.
Primeiro, se há uma regra limitando os gastos gerais, mas excluindo a despesa com pessoal, o que vai acontecer? Simples: as diversas categorias do funcionalismo vão arrancar reajustes acima da inflação, mas como o governo, no geral, não pode gastar acima da inflação, vai ter que compensar cortando outras despesas.
Segundo: a LRF de fato limita o gasto de pessoal dos governos estaduais a 60% da receita líquida. E acrescenta que, descumprido o limite, tem que haver cortes de salários.
Ocorre que Congresso, assembleias legislativas e o Judiciário, em diversas instâncias, estabeleceram exceções ao longo dos anos. Por exemplo: a folha dos aposentados não entra na conta, nem o gasto com terceirizados. Ora, é óbvio que se trata de despesa de pessoal, mas, se fosse assim definida, praticamente todos os estados ultrapassariam o limite dos 60%.
Aliás, os servidores e seus líderes no Congresso ganharam outra batalha nesse item. O ministro Meirelles queria incluir no projeto de negociação da dívida estadual uma espécie de “esclarecimento”, justamente para formalizar que aposentados e terceirizados estão na categoria de pessoal. Perdeu. Isso foi retirado do projeto antes de chegar à Câmara de Deputados.
E lá chegando, caiu a contrapartida que formalizava a proibição de aumento real. Pessoal do governo Temer argumenta que o teto geral de gastos resolve o problema pelo lado político. Assim: nenhum governador terá coragem de dar aumento real ao funcionalismo no momento em que estiver segurando todos os demais gastos.
Estão brincando com a gente. Pior que isso, estão nos chamando de idiotas. Começa que o próprio governo Temer vem de patrocinar diversos aumentos para servidores federais, agorinha mesmo, quando defende um severo ajuste nas contas.
Além disso, está na cara que, quando as assembleias legislativas concederem aumentos para tal e qual categoria, vão especificar que esses reajustes não entram na conta do teto geral. Interpretação que terá pleno apoio do Congresso e das instâncias do Judiciário, todos interessados diretos.
Foi exatamente o que fizeram ao longo de anos, criando gambiarras e interpretações abusivas da legislação de modo a permitir aumentos de gastos com funcionalismo e elevação do teto salarial individual — incluindo de aposentados — acima de todos os limites legais e éticos.
Muitos governadores, nos bastidores, queriam que fosse formalizada a proibição de aumentos salariais. Com isso, teriam um argumento legal para resistir às pressões dos sindicatos e seus associados.
Mas tiveram medo de lutar por isso publicamente.
Resultado: governos estaduais estouraram suas contas por causa do explosivo aumento do gasto com a folha. É o que dizem, por exemplo, os economistas da equipe de Meirelles. Pois estão querendo nos dizer que vão patrocinar um ajuste que deixa de fora a causa do desajuste.
Temer e Meirelles estão gastando o capital de confiança. Precisam de um ajuste fiscal justo aí.
Carlos Alberto Sardenberg
A última batalha foi vencida na Câmara dos Deputados. Ali ficou aprovado que, em troca do enorme desconto na dívida que têm com a União, os governos estaduais ficarão submetidos a um teto de gastos pelos próximos dois anos. Assim: a despesa de um ano é igual à do ano anterior mais a inflação. Sem aumento real, portanto. Menos para os salários do funcionalismo, cujas categorias podem ter aumentos reais ilimitados.
O projeto original sobre a dívida estadual, negociado pelo governo Temer, dizia formalmente que os estados cumpririam duas contrapartidas: 1) o teto de gastos; 2) a proibição expressa de reajustes para o funcionalismo, assim como a proibição de novos concursos e contratações.
Contrapartidas “inegociáveis”, alardeava o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fiador do projeto.
O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), da base, mas com o apoio do PT, PDT e do ex-líder do PSDB Carlos Sampaio, articulou para retirar a segunda contrapartida com o seguinte argumento: “o projeto estabelece um teto de gastos (gerais), mas com esse inciso (proibição de aumentos reais) dizia que o corte tem que ser em cima dos servidores”.
Dito pelo avesso: o corte vai em cima de tudo, menos do funcionalismo. Ou seja, pode cortar no custeio e investimentos nos hospitais, nas escolas, no policiamento, menos na folha salarial.

É de uma falsidade deslavada.
Primeiro, se há uma regra limitando os gastos gerais, mas excluindo a despesa com pessoal, o que vai acontecer? Simples: as diversas categorias do funcionalismo vão arrancar reajustes acima da inflação, mas como o governo, no geral, não pode gastar acima da inflação, vai ter que compensar cortando outras despesas.
Segundo: a LRF de fato limita o gasto de pessoal dos governos estaduais a 60% da receita líquida. E acrescenta que, descumprido o limite, tem que haver cortes de salários.
Ocorre que Congresso, assembleias legislativas e o Judiciário, em diversas instâncias, estabeleceram exceções ao longo dos anos. Por exemplo: a folha dos aposentados não entra na conta, nem o gasto com terceirizados. Ora, é óbvio que se trata de despesa de pessoal, mas, se fosse assim definida, praticamente todos os estados ultrapassariam o limite dos 60%.
Aliás, os servidores e seus líderes no Congresso ganharam outra batalha nesse item. O ministro Meirelles queria incluir no projeto de negociação da dívida estadual uma espécie de “esclarecimento”, justamente para formalizar que aposentados e terceirizados estão na categoria de pessoal. Perdeu. Isso foi retirado do projeto antes de chegar à Câmara de Deputados.
E lá chegando, caiu a contrapartida que formalizava a proibição de aumento real. Pessoal do governo Temer argumenta que o teto geral de gastos resolve o problema pelo lado político. Assim: nenhum governador terá coragem de dar aumento real ao funcionalismo no momento em que estiver segurando todos os demais gastos.
Estão brincando com a gente. Pior que isso, estão nos chamando de idiotas. Começa que o próprio governo Temer vem de patrocinar diversos aumentos para servidores federais, agorinha mesmo, quando defende um severo ajuste nas contas.
Além disso, está na cara que, quando as assembleias legislativas concederem aumentos para tal e qual categoria, vão especificar que esses reajustes não entram na conta do teto geral. Interpretação que terá pleno apoio do Congresso e das instâncias do Judiciário, todos interessados diretos.
Foi exatamente o que fizeram ao longo de anos, criando gambiarras e interpretações abusivas da legislação de modo a permitir aumentos de gastos com funcionalismo e elevação do teto salarial individual — incluindo de aposentados — acima de todos os limites legais e éticos.
Muitos governadores, nos bastidores, queriam que fosse formalizada a proibição de aumentos salariais. Com isso, teriam um argumento legal para resistir às pressões dos sindicatos e seus associados.
Mas tiveram medo de lutar por isso publicamente.
Resultado: governos estaduais estouraram suas contas por causa do explosivo aumento do gasto com a folha. É o que dizem, por exemplo, os economistas da equipe de Meirelles. Pois estão querendo nos dizer que vão patrocinar um ajuste que deixa de fora a causa do desajuste.
Temer e Meirelles estão gastando o capital de confiança. Precisam de um ajuste fiscal justo aí.
Carlos Alberto Sardenberg
Pauta nossa de cada dia
Estranho país esse nosso, onde a mídia pauta a lista de preocupações de seus cidadãos.

No momento, os olhos encontram-se voltados para as Olimpíadas – em relação a qual, nós, que sofremos coletivamente de transtorno bipolar, passamos do pessimismo profundo à completa euforiaLuiz Ruffato
Faltam livros nas escolas brasileiras
O romance "O menino do pijama listrado", de John Boyne, despertou a paixão de Sidineia Chagas, de 25 anos, pela leitura, quando ela cursava, em 2007, o 1º ano do ensino médio na Escola Estadual Professora Renata Menezes dos Santos. Sidineia mora em Parelheiros, região do extremo sul de São Paulo que lidera rankings de violência e de baixo desenvolvimento humano.
O encontro entre Sidineia e a história de Boyne ocorreu quando cada aluno de sua classe recebeu uma caixa com quatro livros. O mesmo encanto com os títulos não aconteceu com boa parte de seus colegas.“Quando a aula acabou, muita gente rasgou os livros”, diz ela. Sidineia viu páginas virar dobraduras ou munição para guerra de bolinhas de papel.
A atitude dos jovens foi um reflexo do descaso com que a própria escola tratava a leitura. Sidineia afirma que as obras foram apresentadas aos alunos sem o respaldo de qualquer atividade pedagógica que destacasse a relevância delas. Além disso, a biblioteca do colégio nunca atraiu frequentadores. Quase sempre fechado, o espaço funcionava mais como um depósito de livros do que como um ambiente de incentivo ao hábito de ler. O mesmo ocorria nas demais escolas da região de Parelheiros.
Essa realidade precária inspirou Sidineia e outros 30 jovens a criar um espaço de leitura que pudessem frequentar à vontade. Nos fundos do Cemitério do Colônia, uma pequena casa antes abandonada abriga a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, fundada em 2009, em parceria com uma ONG, o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). “O objetivo foi criar um lugar que, além de emprestar livros, fosse um ponto de encontro para a comunidade”, diz Sidineia. Com a ajuda de instituições públicas e privadas, hoje a biblioteca conta com um acervo de 4 mil exemplares.
Iniciativas como a de Parelheiros surgem para tapar buracos deixados pelas políticas educacionais do estado. Uma lei sancionada em 2010 determina que, até 2020, todas as escolas do Brasil tenham uma biblioteca. Os números, porém, mostram que a obrigatoriedade não será cumprida dentro do prazo – se é que ela será cumprida algum dia. O Censo Escolar de 2015 mostra que somente 37% das escolas públicas e privadas de educação básica (entre a educação infantil e o fim do ensino médio) têm biblioteca. Para que a meta seja alcançada, 84 bibliotecas teriam de ser abertas diariamente, a partir desta semana e pelos próximos 1.389 dias.
Esses números mostram apenas um dos aspectos de como o incentivo à leitura é negligenciado na educação brasileira. As poucas bibliotecas existentes na rede pública costumam funcionar de forma muito deficiente. Entre 11 escolas escolhidas aleatoriamente na cidade de São Paulo, apenas duas bibliotecas funcionam em período integral e três ficam abertas eventualmente. Em seis escolas, alunos não têm livre acesso ao espaço onde ficam os livros. “A sala fica fechada. Os estudantes só podem entrar quando acompanhados por um professor”, afirma o funcionário de uma das escolas, que não quis ser identificado. O motivo mais comum ao acesso restrito é a falta de um supervisor no local.
Isso não ocorreria se a lei fosse respeitada. As bibliotecas escolares devem contar com a presença de um bibliotecário preparado para organizar, abastecer e gerenciar o acervo. Na contramão do que diz a lei, a rede estadual de ensino de São Paulo passou a substituir, em 2009, a instalação de bibliotecas por salas de leitura.Diferentemente das bibliotecas, essas salas são espaços informais, com acervo diminuto, sem preocupação com iluminação ou organização apropriada para atividades relacionadas ao estudo e à leitura. Outra diferença fundamental da sala de leitura é que ela dispensa a presença de um profissional preparado para receber os alunos. “Um dos papéis do bibliotecário é sugerir ações pedagógicas que tornem a biblioteca um espaço convidativo para os alunos”, diz Maria Aparecida Lamas, educadora especializada em formação de leitores.
Leia mais
O encontro entre Sidineia e a história de Boyne ocorreu quando cada aluno de sua classe recebeu uma caixa com quatro livros. O mesmo encanto com os títulos não aconteceu com boa parte de seus colegas.“Quando a aula acabou, muita gente rasgou os livros”, diz ela. Sidineia viu páginas virar dobraduras ou munição para guerra de bolinhas de papel.
A atitude dos jovens foi um reflexo do descaso com que a própria escola tratava a leitura. Sidineia afirma que as obras foram apresentadas aos alunos sem o respaldo de qualquer atividade pedagógica que destacasse a relevância delas. Além disso, a biblioteca do colégio nunca atraiu frequentadores. Quase sempre fechado, o espaço funcionava mais como um depósito de livros do que como um ambiente de incentivo ao hábito de ler. O mesmo ocorria nas demais escolas da região de Parelheiros.
Essa realidade precária inspirou Sidineia e outros 30 jovens a criar um espaço de leitura que pudessem frequentar à vontade. Nos fundos do Cemitério do Colônia, uma pequena casa antes abandonada abriga a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, fundada em 2009, em parceria com uma ONG, o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). “O objetivo foi criar um lugar que, além de emprestar livros, fosse um ponto de encontro para a comunidade”, diz Sidineia. Com a ajuda de instituições públicas e privadas, hoje a biblioteca conta com um acervo de 4 mil exemplares.
Esses números mostram apenas um dos aspectos de como o incentivo à leitura é negligenciado na educação brasileira. As poucas bibliotecas existentes na rede pública costumam funcionar de forma muito deficiente. Entre 11 escolas escolhidas aleatoriamente na cidade de São Paulo, apenas duas bibliotecas funcionam em período integral e três ficam abertas eventualmente. Em seis escolas, alunos não têm livre acesso ao espaço onde ficam os livros. “A sala fica fechada. Os estudantes só podem entrar quando acompanhados por um professor”, afirma o funcionário de uma das escolas, que não quis ser identificado. O motivo mais comum ao acesso restrito é a falta de um supervisor no local.
Isso não ocorreria se a lei fosse respeitada. As bibliotecas escolares devem contar com a presença de um bibliotecário preparado para organizar, abastecer e gerenciar o acervo. Na contramão do que diz a lei, a rede estadual de ensino de São Paulo passou a substituir, em 2009, a instalação de bibliotecas por salas de leitura.Diferentemente das bibliotecas, essas salas são espaços informais, com acervo diminuto, sem preocupação com iluminação ou organização apropriada para atividades relacionadas ao estudo e à leitura. Outra diferença fundamental da sala de leitura é que ela dispensa a presença de um profissional preparado para receber os alunos. “Um dos papéis do bibliotecário é sugerir ações pedagógicas que tornem a biblioteca um espaço convidativo para os alunos”, diz Maria Aparecida Lamas, educadora especializada em formação de leitores.
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A longa marcha da crise e o caos
No dia 4 de agosto, uma paralisação dos servidores públicos no Rio Grande do Sul, de onde escrevo, produziu certa alteração nas rotinas. Na véspera, ouviam-se advertências, contestadas pelas autoridades, no sentido de que as pessoas evitassem sair de casa. A situação, porém, não ficou tão anormal assim, exceto para a atividades dos restaurantes, à noite. Contudo, é inegável: o excesso dos gastos públicos frente à receita possível, levando ao fatiamento dos contracheques dos servidores ao longo do mês, nos conduziu ao estágio final da longa marcha da crise contra os bastiões de um Estado visto como inesgotável em sua capacidade de atender demandas. Nada diferente do resto do país, ao que se sabe.
A crise é um exército invasor formado por problemas que não chegam metendo o pé na porta. De longe, bem de longe, ela vem tocando trombeta - "Cuidado! Olha que estou chegando!". Os técnicos responsáveis advertem. Jornalistas zelosos repercutem. Indicadores piscam luzes vermelhas nos painéis. No entanto, para grande parte daqueles a quem está atribuída competência para decidir sobre o gasto público, e para a maioria da população, responsabilidade fiscal é tema tão indigesto quanto conversa sobre cinto apertado na mesa do almoço familiar.
Tenho bem presente as chacotas que a oposição ao governo Yeda Crusius lançava sobre o Déficit Zero que ela pretendeu, com imenso sacrifício político, emplacar como marca de seu governo. O que era meritório foi levado ao purgatório. O que era simplesmente responsabilidade foi retoricamente exorcizado como perversão neoliberal, patologia da consciência social, maldade pura. Quanto é sensível a opinião pública às fanfarronadas dos maus políticos! Quanta credibilidade é atribuída aos garganteios da tal "vontade política", presumível toque de Midas capaz de transformar conversa fiada em recurso público!
Não há como desconhecer: em 2010, o Rio Grande do Sul elegeu Tarso Genro malgrado seu discurso a favor da irresponsabilidade fiscal, que ele levou às últimas consequências, legando a seu sucessor um rombo de R$ 5,4 bilhões. E note-se, o somatório dos aumentos de vencimentos por ele concedidos para viger depois de seu governo, entre 2015 e 2018 representa um impacto adicional de R$ 7,5 bilhões ao gasto público.
É longo o parto do caos. A crise chega devagar. Vem avisando e leva bom tempo batendo à porta. Até que mete o pé e se exibe com toda a feiúra. Os servidores públicos que padecem o parcelamento de vencimentos pagos em dia à época do Déficit Zero, ali adiante verão as parcelas referentes a um mês se sobrepondo às do mês subsequente. Sim, a vida parece risonha e franca quando um Estado falido eleva seu gasto fixo, mas, parafraseando Marx, o que parecia sólido se desmancha no ar e o sagrado é profanado. O desfazimento e a profanação aconteceram ao longo dos anos, quando foram sendo negligenciados os problemas estruturais do setor público.
Clamam aos céus por justiça os desníveis remuneratórios existentes nos quadros de pessoal do Estado. Necessárias garantias funcionais resguardam desnecessários privilégios. É agressivamente desarmônico o tratamento entre a situação do Executivo e a dos poderes independentes (cujo pessoal ganha muito mais, em dia e recebe aumento). Mas a causa da crise vai muito além disso. Muito além!
Ela enfiou o pé na porta e o caos se instala. Seria desesperador imaginar que isso sirva, mais uma vez, para mobilizar esperanças na direção dos discursos demagógicos, da tal "vontade política", ou de algum pote de ouro no fim do arco íris.
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| Ale Giorgini |
Tenho bem presente as chacotas que a oposição ao governo Yeda Crusius lançava sobre o Déficit Zero que ela pretendeu, com imenso sacrifício político, emplacar como marca de seu governo. O que era meritório foi levado ao purgatório. O que era simplesmente responsabilidade foi retoricamente exorcizado como perversão neoliberal, patologia da consciência social, maldade pura. Quanto é sensível a opinião pública às fanfarronadas dos maus políticos! Quanta credibilidade é atribuída aos garganteios da tal "vontade política", presumível toque de Midas capaz de transformar conversa fiada em recurso público!
Não há como desconhecer: em 2010, o Rio Grande do Sul elegeu Tarso Genro malgrado seu discurso a favor da irresponsabilidade fiscal, que ele levou às últimas consequências, legando a seu sucessor um rombo de R$ 5,4 bilhões. E note-se, o somatório dos aumentos de vencimentos por ele concedidos para viger depois de seu governo, entre 2015 e 2018 representa um impacto adicional de R$ 7,5 bilhões ao gasto público.
É longo o parto do caos. A crise chega devagar. Vem avisando e leva bom tempo batendo à porta. Até que mete o pé e se exibe com toda a feiúra. Os servidores públicos que padecem o parcelamento de vencimentos pagos em dia à época do Déficit Zero, ali adiante verão as parcelas referentes a um mês se sobrepondo às do mês subsequente. Sim, a vida parece risonha e franca quando um Estado falido eleva seu gasto fixo, mas, parafraseando Marx, o que parecia sólido se desmancha no ar e o sagrado é profanado. O desfazimento e a profanação aconteceram ao longo dos anos, quando foram sendo negligenciados os problemas estruturais do setor público.
Clamam aos céus por justiça os desníveis remuneratórios existentes nos quadros de pessoal do Estado. Necessárias garantias funcionais resguardam desnecessários privilégios. É agressivamente desarmônico o tratamento entre a situação do Executivo e a dos poderes independentes (cujo pessoal ganha muito mais, em dia e recebe aumento). Mas a causa da crise vai muito além disso. Muito além!
Ela enfiou o pé na porta e o caos se instala. Seria desesperador imaginar que isso sirva, mais uma vez, para mobilizar esperanças na direção dos discursos demagógicos, da tal "vontade política", ou de algum pote de ouro no fim do arco íris.
Olimpíada 'fantasma'?
Os maiores e melhores do mundo estão competindo no Rio de Janeiro, mas fora das quadras há imagens de arquibancadas com apenas "reles grupos de espectadores".
Assim os jornais estrangeiros descrevem uma situação que tem intrigado também os internautas nas redes sociais, que se perguntam: por que há tantos assentos vazios na Rio 2016?
"A Olimpíada começou, mas tem alguém assistindo?", ironiza o site Mashable.
"Cidade-fantasma: Atletas da mais alta categoria estão competindo em um palco mundial, então por que tantos assentos vazios?", questiona o tabloide britânicoThe Sun, o mais lido do Reino Unido.
"A Olimpíada que ninguém viu", tuitou o usuário americano Mike Sington. "Vôlei de praia e superstar da NBA (a liga americana de basquete) jogando para cadeiras vazias."
Assim os jornais estrangeiros descrevem uma situação que tem intrigado também os internautas nas redes sociais, que se perguntam: por que há tantos assentos vazios na Rio 2016?
"A Olimpíada começou, mas tem alguém assistindo?", ironiza o site Mashable.
"Cidade-fantasma: Atletas da mais alta categoria estão competindo em um palco mundial, então por que tantos assentos vazios?", questiona o tabloide britânicoThe Sun, o mais lido do Reino Unido.
"A Olimpíada que ninguém viu", tuitou o usuário americano Mike Sington. "Vôlei de praia e superstar da NBA (a liga americana de basquete) jogando para cadeiras vazias."
| Espectador solitário em partida de futebol feminino entre Suécia e África do Sul |
Desde o início dos Jogos, apenas a cerimônia de abertura lotou, afirmaram os organizadores do megaevento. O porta-voz do comitê organizador da Rio 2016, Mário Andrada, disse à agência Reuters que foram vendidos 82% dos ingressos disponíveis, ou 5 milhões de entradas.
"Ainda temos 1,1 milhão de ingressos para vender", disse Andrada, notando que os brasileiros são conhecidos por comprar entradas para eventos com pouca antecedência.
História mais complicada
Mas seria essa toda a história? A imprensa estrangeira tem feito esforços para investigar.
Segundo a PA, os 5 milhões de ingressos vendidos até agora no Rio equivalem à metade dos vendidos em Londres 2012.
As histórias assustadores em relação ao vírus da Zika e a criminalidade também podem ter afetado o entusiasmo dos turistras estrangeiros em ver de perto as competições no Brasil, dizem as reportagens.
Patrocinadores ou escolinhas?
Mas não são apenas esses os grandes fatores a afastar o público da ação na Rio 2016, dizem os jornalistas.
"Na verdade, é o desafio enfrentado pelos patrocinadores olímpicos, que recebem toneladas de entradas, muitas das quais - até 43% - não são usadas", previa Ken Hanscom em um artigo escrito em julho para o site HealthZette.
"Ainda temos 1,1 milhão de ingressos para vender", disse Andrada, notando que os brasileiros são conhecidos por comprar entradas para eventos com pouca antecedência.
História mais complicada
Mas seria essa toda a história? A imprensa estrangeira tem feito esforços para investigar.
Internautas lamentam assentos vazios nos Jogos: "sobretudo quando se sabe o que foi feito com os locais para construir as arenas", diz Zoe Davis
O correspondente da BBC no Rio, Wyre Davies, percorreu os locais de competição - muitos dos quais são de difícil acesso, como o Parque Olímpico na Barra.
"A maioria desses espectadores precisaria ter pegado dois ônibus ou trens, caminhado mais um quilômetro e agora estão em uma fila enorme, do lado de fora, para entrar antes de ver sequer qualquer ação olímpica", conta o repórter.
Outro fator é a baixa popularidade de grande parte dos esportes olímpicos no país. Nesse quesito, os organizadores dizem, porém, que as vendas de ingressos melhoraram desde o ouro de Rafaela Silva no judô.
"Não tem nada melhor para as vendas de ingressos que quando o país ganha seu primeiro ouro", disse Andrada à agência Press Association.
O correspondente da BBC no Rio, Wyre Davies, percorreu os locais de competição - muitos dos quais são de difícil acesso, como o Parque Olímpico na Barra.
"A maioria desses espectadores precisaria ter pegado dois ônibus ou trens, caminhado mais um quilômetro e agora estão em uma fila enorme, do lado de fora, para entrar antes de ver sequer qualquer ação olímpica", conta o repórter.
Outro fator é a baixa popularidade de grande parte dos esportes olímpicos no país. Nesse quesito, os organizadores dizem, porém, que as vendas de ingressos melhoraram desde o ouro de Rafaela Silva no judô.
"Não tem nada melhor para as vendas de ingressos que quando o país ganha seu primeiro ouro", disse Andrada à agência Press Association.
Segundo a PA, os 5 milhões de ingressos vendidos até agora no Rio equivalem à metade dos vendidos em Londres 2012.
As histórias assustadores em relação ao vírus da Zika e a criminalidade também podem ter afetado o entusiasmo dos turistras estrangeiros em ver de perto as competições no Brasil, dizem as reportagens.
Patrocinadores ou escolinhas?
Mas não são apenas esses os grandes fatores a afastar o público da ação na Rio 2016, dizem os jornalistas.
"Na verdade, é o desafio enfrentado pelos patrocinadores olímpicos, que recebem toneladas de entradas, muitas das quais - até 43% - não são usadas", previa Ken Hanscom em um artigo escrito em julho para o site HealthZette.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Crimes da terra
Sexta-feira passada, enquanto as atrizes Fernanda Montenegro e Judi Dench davam um tom lírico à festa dos Jogos, fazendo ecoar pelo mundo os belos versos de “A flor e a náusea”, escritos por Carlos Drummond de Andrade, o brasileiro Murilo Ferreira, 64 anos, e o escocês Andrew Mackenzie, 59 anos, completavam nove meses atolados num rio de lama despejado a 400 quilômetros do Maracanã, em Mariana (MG).
Ferreira e Mackenzie comandam as maiores empresas de mineração do mundo, Vale e BHP Billiton, somando vendas anuais de US$ 60 bilhões. São os principais executivos por trás da mineradora Samarco, subsidiária Vale-BHP, responsável pela mutação da paisagem e da vida numa área de 70 mil quilômetros quadrados, entre Minas Gerais e Espírito Santo, com graves sequelas para três milhões de pessoas às margens da bacia do Rio Doce.
Trinta e seis semanas depois da tragédia, Ferreira e Mackenzie permanecem inertes, atolados no rio de 34 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos despejado pela Samarco.
Desde o desastre, em novembro, resguardaram-se sob a camuflagem da responsabilidade jurídica da subsidiária. Ferreira (Vale) foi explícito, por exemplo, em entrevista à repórter Míriam Leitão: “A Samarco tem toda a responsabilidade. A Vale e a BHP, como acionistas da Samarco, são responsáveis em decorrência do que houve com a Samarco. Não diria que são corresponsáveis, elas são responsáveis como acionistas.”
Na sequência, ele e Mackenzie resgataram um encardido manual de procedimentos para contenção de danos à imagem dos grupos controladores — o mesmo que a BHP Billiton usou em Papua Nova Guiné, nos anos 80, quando inundou com rejeitos os rios Ok Tedi e Fly.
Em abril viram uma oportunidade no mercado político, onde Vale, BHP e Samarco consolidaram vasta “clientela”, inclusive com doações às campanhas de 166 dos 513 deputados federais e 14 dos 81 senadores. Ferreira e Mackenzie acertaram com a presidente Dilma Rousseff e os governadores Fernando Pimentel (Minas Gerais) e Paulo Hartung (Espírito Santo) o desembolso de U$S 2 bilhões em indenizações. Tropeçaram no Ministério Público, que foi à Justiça lutar pela reparação dos danos em valor 23 vezes maior (US$ 46 bilhões).
O acordo político foi suspenso pela Justiça. Restaram incertezas, destruição e mortes (a última das 19 vítimas foi localizada em março, quatro meses depois, sob a lama). O legado nas 230 cidades atingidas é o aumento da pobreza e do desemprego — alcançou um terço da força de trabalho na área onde a mineração é a principal atividade desde a Colônia.
Sobra ceticismo sobre o futuro da bilionária joint venture da Vale de Ferreira com a BHP de Mackenzie. Múltiplos processos no Brasil e nos EUA lançam “dúvidas substanciais sobre a continuidade operacional da companhia”, ressaltaram auditores da Pricewaterhouse no mais recente balanço.
Os executivos, agora, parecem inclinados apostar na “solução” mais fácil, a via burocrática judicial. Ela prevê um cipoal de recursos legítimos, com potencial protelatório suficiente para não atrapalhar planos e bônus de aposentadoria — eventualmente, embalados no ritmo lírico de obras como “A flor e a náusea”, onde se lê: “Crimes da terra, como perdoá-los?/ Tomei parte em muitos, outros escondi.”
Ferreira e Mackenzie comandam as maiores empresas de mineração do mundo, Vale e BHP Billiton, somando vendas anuais de US$ 60 bilhões. São os principais executivos por trás da mineradora Samarco, subsidiária Vale-BHP, responsável pela mutação da paisagem e da vida numa área de 70 mil quilômetros quadrados, entre Minas Gerais e Espírito Santo, com graves sequelas para três milhões de pessoas às margens da bacia do Rio Doce.
Trinta e seis semanas depois da tragédia, Ferreira e Mackenzie permanecem inertes, atolados no rio de 34 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos despejado pela Samarco.
Desde o desastre, em novembro, resguardaram-se sob a camuflagem da responsabilidade jurídica da subsidiária. Ferreira (Vale) foi explícito, por exemplo, em entrevista à repórter Míriam Leitão: “A Samarco tem toda a responsabilidade. A Vale e a BHP, como acionistas da Samarco, são responsáveis em decorrência do que houve com a Samarco. Não diria que são corresponsáveis, elas são responsáveis como acionistas.”
Na sequência, ele e Mackenzie resgataram um encardido manual de procedimentos para contenção de danos à imagem dos grupos controladores — o mesmo que a BHP Billiton usou em Papua Nova Guiné, nos anos 80, quando inundou com rejeitos os rios Ok Tedi e Fly.
Em abril viram uma oportunidade no mercado político, onde Vale, BHP e Samarco consolidaram vasta “clientela”, inclusive com doações às campanhas de 166 dos 513 deputados federais e 14 dos 81 senadores. Ferreira e Mackenzie acertaram com a presidente Dilma Rousseff e os governadores Fernando Pimentel (Minas Gerais) e Paulo Hartung (Espírito Santo) o desembolso de U$S 2 bilhões em indenizações. Tropeçaram no Ministério Público, que foi à Justiça lutar pela reparação dos danos em valor 23 vezes maior (US$ 46 bilhões).
O acordo político foi suspenso pela Justiça. Restaram incertezas, destruição e mortes (a última das 19 vítimas foi localizada em março, quatro meses depois, sob a lama). O legado nas 230 cidades atingidas é o aumento da pobreza e do desemprego — alcançou um terço da força de trabalho na área onde a mineração é a principal atividade desde a Colônia.
Sobra ceticismo sobre o futuro da bilionária joint venture da Vale de Ferreira com a BHP de Mackenzie. Múltiplos processos no Brasil e nos EUA lançam “dúvidas substanciais sobre a continuidade operacional da companhia”, ressaltaram auditores da Pricewaterhouse no mais recente balanço.
Os executivos, agora, parecem inclinados apostar na “solução” mais fácil, a via burocrática judicial. Ela prevê um cipoal de recursos legítimos, com potencial protelatório suficiente para não atrapalhar planos e bônus de aposentadoria — eventualmente, embalados no ritmo lírico de obras como “A flor e a náusea”, onde se lê: “Crimes da terra, como perdoá-los?/ Tomei parte em muitos, outros escondi.”
Credo esquerdista nasceu dogmático, cresceu totalitário, caducou na idade adulta
Desde que me entendo por gente interessada em política, li pichado nos muros do país o comando “Fora Figueiredo” no Brasil asfixiado pela ditadura; depois, vieram o “Fora Sarney” para o coronel arcaico que foi um péssimo presidente, mas representava a solução constitucional depois da morte do Tancredo; o “Fora Collor” para o coronel repaginado que me fez votar pela única vez em Lula acreditando que separava o joio do joio; o “Fora Itamar” contra o presidente que não fazia mal (ou bem!) nem a uma passista sem calcinha e concretizou o Plano Real, a melhor e maior janela que tivemos para o futuro; o “Fora FHC” lançado pelo PT que ama odiar Fernando Henrique; e agora o “Fora Temer”.
Contudo, o que sempre caiu fora foi a pobre coitada da vírgula requerida entre o verbo e o vocativo. Os Brasis de cada “Fora, Fulano” variaram e todos se encontram na crescente e avassaladora pichação contra a língua portuguesa. Há casos em que a vírgula é poderosa questão de escolha e é preciso compreendê-los para escolher; sei não, mas país que não sabe escolher quando usar a vírgula, talvez não saiba escolher governantes. Ainda que uma coisa, claro, não garanta a outra.
Caetano Veloso sabe usar vírgulas, seus tons e outros tons geniais na própria grande arte; fora dela, ele devota tudo ao credo traduzido na placa com erro gramatical (a vírgula ausente), no rompimento da institucionalidade (o desrespeito à Constituição que exige a posse do vice) e na vigarice intelectual (negando a legitimidade de Temer validada na eleição da chapa com Dilma). O grande artista, feito pensador num país intelectualmente desvitalizado e sucateado, professa o credo que, quase sem devotos na população brasileira, tem devoção quase unânime entre intelectuais, na academia e fora dela, e entre os artistas tornados crentes fanáticos.
O sombrio grupo de intelectuais e de artistas que submete a verdade – não a intangível verdade absoluta, mas aquela verificável na realidade observada – ao credo esquerdista é patética quando situa o PSDB no espectro ideológico de direita. Ora, só mesmo abaixo do Equador a social-democracia do hesitante PSDB não é considerada esquerdista; mas, de fato, o PT e Lula não são de esquerda, nem de direita – são oportunistas, a roupagem populista e carismática de que as “esquerdas puras” precisavam para finalmente chegar ao poder.
Assim, o PT, sem uma teoria política definida, mas com uma práxis política anômala e aberrante, amalgamou os esquerdismos mais rombudos nessa igreja de credo arcaizante – e, por isso e não por ser direitista, o PSDB como um partido democrático e sem tais deformações ficou de fora. Esse amálgama floresce com um protuberante antissemitismo, reforçada pelo antiamericanismo bocó e contemplando bandeiras estranhas à esquerda tradicional, como o feminismo e a igualdade racial, que se valem delas quando ficou claro que o proletariado se unia, sim, mas para comprar a casa própria e viajar nas férias com os pacotes da CVC. Preferindo o credo à liberdade, a academia coagulou o pensamento, imolando-o num altar das imposturas ideológicas que aboliu a especulação intelectual e a investigação sobre a verdade.
Esse credo esquerdista não seria problema se não fosse um credo, mas ele nasceu dogmático, cresceu totalitário, caducou na idade adulta e deu errado somente onde foi tentado. Como credo, está a salvo da realidade, imune à empiria e alheio ao contraditório. Os respectivos devotos submetem as artes, o gosto, a beleza e até mesmo o sexo a ele. Tudo bem, isso é lá com eles, só que também submetem a política/gestão pública à ética interna do credo. Aí não dá. Ora, a moral interna desse credo não só redime os governantes a ele alinhados das imoralidades na gestão pública regida por moral mais ampla e contrária (a legislação, a Constituição, valores consolidados ainda que não escritos, etc.), mas espera deles justamente essa conduta porque cobra ao mundo exterior que se se abra em devoção.
Daí o “Fora Itamar/FHC/Temer”; daí pretenderem que os eventuais crimes de Temer, Serra e Aécio na delação anunciada de Marcelo Odebrecht redimam os crimes provados de Lula, Dilma e do resto da súcia que, sustentando o credo que a sustenta, erigiu-se seita guardiã cujo sacerdote expandiu a catequese autoritária para o que o Brasil tinha de pior numa elite capitalista avessa a um dos fundamentos do capitalismo – a concorrência – e numa elite política marcada pela ideologia do atraso.
As imoralidades dos políticos de oposição, se provadas, fazem-nos iguais perante a lei, mas não os igualam à substância aberrante e anômala do PT, partido que rouba nossa grana por um projeto de poder; saqueia a institucionalidade para se manter acima da lei; castra o debate público atrelando-o àquele credo; aparelha o Estado para dobrá-lo ao credo; demoniza a dissidência; é autoritário; e faz tudo isso e mais impondo-se como tradução do bem.
Na infância, fiz da literatura meu refúgio contra muitas privações; era criança e não questionava causas ou consequências, só queria sonhar com outra realidade. Na adolescência, o questionamento incendiou minha rebeldia e o desejo de compreender; era jovem e, na minha prepotência juvenil, capacitava-me para a minha singela ambição recém adquirida de mudar o mundo, começando pelo Brasil.
A leitura de alguns intelectuais do século 20 os revelava, para mim, como transformadores políticos da realidade no combate a tiranos e, portanto, na defesa da liberdade e de um mundo mais justo. Muitos deles foram marxistas militantes nos diversos perfis da doutrina e, por isso, me afeiçoei a ela. O que durou pouco até eu me dar conta de que se trata de uma tirania brutal e minha desilusão com a intelectualidade só não foi generalizada porque os intelectuais alinhados com a tirania foram denunciados por outros intelectuais. É clássica, por exemplo, a obra do intelectual Julien Benda “A traição dos intelectuais”, de 1927, para quem o intelectual alinhado é traidor da liberdade com que deve se dar a especulação do pensamento.
Curada das doenças da juventude, me engano comigo mesma e ainda consigo me iludir e me desiludir com uma ou outra coisa, mas não com os artistas e intelectuais que preferem defender uma súcia a se libertar de um credo. Nem me espanta registrarem isso numa plaquinha moral e gramaticalmente mutilada.
Contudo, o que sempre caiu fora foi a pobre coitada da vírgula requerida entre o verbo e o vocativo. Os Brasis de cada “Fora, Fulano” variaram e todos se encontram na crescente e avassaladora pichação contra a língua portuguesa. Há casos em que a vírgula é poderosa questão de escolha e é preciso compreendê-los para escolher; sei não, mas país que não sabe escolher quando usar a vírgula, talvez não saiba escolher governantes. Ainda que uma coisa, claro, não garanta a outra.
Caetano Veloso sabe usar vírgulas, seus tons e outros tons geniais na própria grande arte; fora dela, ele devota tudo ao credo traduzido na placa com erro gramatical (a vírgula ausente), no rompimento da institucionalidade (o desrespeito à Constituição que exige a posse do vice) e na vigarice intelectual (negando a legitimidade de Temer validada na eleição da chapa com Dilma). O grande artista, feito pensador num país intelectualmente desvitalizado e sucateado, professa o credo que, quase sem devotos na população brasileira, tem devoção quase unânime entre intelectuais, na academia e fora dela, e entre os artistas tornados crentes fanáticos.

Assim, o PT, sem uma teoria política definida, mas com uma práxis política anômala e aberrante, amalgamou os esquerdismos mais rombudos nessa igreja de credo arcaizante – e, por isso e não por ser direitista, o PSDB como um partido democrático e sem tais deformações ficou de fora. Esse amálgama floresce com um protuberante antissemitismo, reforçada pelo antiamericanismo bocó e contemplando bandeiras estranhas à esquerda tradicional, como o feminismo e a igualdade racial, que se valem delas quando ficou claro que o proletariado se unia, sim, mas para comprar a casa própria e viajar nas férias com os pacotes da CVC. Preferindo o credo à liberdade, a academia coagulou o pensamento, imolando-o num altar das imposturas ideológicas que aboliu a especulação intelectual e a investigação sobre a verdade.
Esse credo esquerdista não seria problema se não fosse um credo, mas ele nasceu dogmático, cresceu totalitário, caducou na idade adulta e deu errado somente onde foi tentado. Como credo, está a salvo da realidade, imune à empiria e alheio ao contraditório. Os respectivos devotos submetem as artes, o gosto, a beleza e até mesmo o sexo a ele. Tudo bem, isso é lá com eles, só que também submetem a política/gestão pública à ética interna do credo. Aí não dá. Ora, a moral interna desse credo não só redime os governantes a ele alinhados das imoralidades na gestão pública regida por moral mais ampla e contrária (a legislação, a Constituição, valores consolidados ainda que não escritos, etc.), mas espera deles justamente essa conduta porque cobra ao mundo exterior que se se abra em devoção.
Daí o “Fora Itamar/FHC/Temer”; daí pretenderem que os eventuais crimes de Temer, Serra e Aécio na delação anunciada de Marcelo Odebrecht redimam os crimes provados de Lula, Dilma e do resto da súcia que, sustentando o credo que a sustenta, erigiu-se seita guardiã cujo sacerdote expandiu a catequese autoritária para o que o Brasil tinha de pior numa elite capitalista avessa a um dos fundamentos do capitalismo – a concorrência – e numa elite política marcada pela ideologia do atraso.
As imoralidades dos políticos de oposição, se provadas, fazem-nos iguais perante a lei, mas não os igualam à substância aberrante e anômala do PT, partido que rouba nossa grana por um projeto de poder; saqueia a institucionalidade para se manter acima da lei; castra o debate público atrelando-o àquele credo; aparelha o Estado para dobrá-lo ao credo; demoniza a dissidência; é autoritário; e faz tudo isso e mais impondo-se como tradução do bem.
Na infância, fiz da literatura meu refúgio contra muitas privações; era criança e não questionava causas ou consequências, só queria sonhar com outra realidade. Na adolescência, o questionamento incendiou minha rebeldia e o desejo de compreender; era jovem e, na minha prepotência juvenil, capacitava-me para a minha singela ambição recém adquirida de mudar o mundo, começando pelo Brasil.
A leitura de alguns intelectuais do século 20 os revelava, para mim, como transformadores políticos da realidade no combate a tiranos e, portanto, na defesa da liberdade e de um mundo mais justo. Muitos deles foram marxistas militantes nos diversos perfis da doutrina e, por isso, me afeiçoei a ela. O que durou pouco até eu me dar conta de que se trata de uma tirania brutal e minha desilusão com a intelectualidade só não foi generalizada porque os intelectuais alinhados com a tirania foram denunciados por outros intelectuais. É clássica, por exemplo, a obra do intelectual Julien Benda “A traição dos intelectuais”, de 1927, para quem o intelectual alinhado é traidor da liberdade com que deve se dar a especulação do pensamento.
Curada das doenças da juventude, me engano comigo mesma e ainda consigo me iludir e me desiludir com uma ou outra coisa, mas não com os artistas e intelectuais que preferem defender uma súcia a se libertar de um credo. Nem me espanta registrarem isso numa plaquinha moral e gramaticalmente mutilada.
The Wall Street Journal reconhece que caiu no golpe do Brasil Maravilha
Em 2009, quando o Comitê Olímpico Internacional anunciou que o Rio seria a sede dos Jogos de 2016, Lula imaginou que durante a festa de abertura seria alvo dos aplausos da multidão e dos olhares de admiração de todos os governantes estrangeiros presentes à cerimônia. Errou feio. Passados sete anos, o alvo da Lava Jato nem deu as caras no Maracanã.
“Como Lula enganou o mundo”, resumiu o título de uma análise do Brasil olímpico publicada há dois dias pelo Wall Street Journal, escrita pela editora Mary Anastasia O’Grady. Depois de exumar algumas das incontáveis tapeações forjadas por Lula e Dilma Rousseff, a autora destaca a chegada do padrinho ao banco dos réus e a iminente consumação do impeachment da afilhada.
“Se a fraude política que leva uma nação à ruína fosse crime, ambos já estariam na cadeia”, conclui o texto. Demorou, mas a imprensa internacional acordou. E descobriu que, no faroeste à brasileira, o bandido se disfarça de mocinho. Depois de ter caído no golpe do Brasil Maravilha, ficou suficientemente esperta para não cair no golpe do golpe.
Augusto Nunes
“Se a fraude política que leva uma nação à ruína fosse crime, ambos já estariam na cadeia”, conclui o texto. Demorou, mas a imprensa internacional acordou. E descobriu que, no faroeste à brasileira, o bandido se disfarça de mocinho. Depois de ter caído no golpe do Brasil Maravilha, ficou suficientemente esperta para não cair no golpe do golpe.
Augusto Nunes
Temer é só o que temos para o jantar
Por que Michel Temer foi vaiado na abertura da Olimpíada Rio 2016? Porque no Maracanã “vaia-se até minuto de silêncio”, como constatou Nelson Rodrigues? Porque ele é o mais poderoso membro da impopular elite dirigente política nacional? Porque está comandando um “golpe branco e manso” contra a presidente reeleita em 2014? Das hipóteses acima é possível apostar apenas na última, não por ser verdadeira, pois não é, mas porque 32% da população brasileira, ou seja, menos de um terço, acredita nessa bazófia. Os fatos conspiram contra as outras: Médici foi aplaudido unanimemente por torcidas antagonistas na época mais brutal e menos democrática da História de nossa insana República. E na noite de 5 de agosto houve aplausos de delírio para Giselle Bündchen, ídolos da Música Popular Brasileira ou para a pira olímpica que virou sol.
Saiba quem ouviu a vaia e calou (consentindo-a?), mesmo sem considerar os aplausos, que os houve, que Temer é só o que “temos para o jantar”. Se Dilma Rousseff, do PT, for mesmo impedida, o vice, do PMDB, eleito juntamente com ela pelos mesmos 54 milhões de eleitores que a preferiram a Aécio Neves, do PSDB, em novembro de 2014, assume seu lugar por ser essa sua obrigação funcional, conferida na Constituição vigente. Apenas se voluntariamente ele se negar a cumprir seu dever se considerará a hipótese de substituição pelo vencedor de uma eventual eleição, direta se for este ano e indireta (ou seja, pelo Congresso) se convocada a partir de 2017. Talvez essa seja uma boa causa para os apupos, se se considerar que ele foi cúmplice da má gestão da titular da chapa, responsabilizada pela maior crise ética, econômica e política da História.
Desobrigada pelo afastamento, Dilma, ela mesma vaiada e xingada na abertura do Mundial da Fifa de 2014, ausentou-se do estádio para evitar esse dissabor. Do qual, aliás, não escaparia nenhum mandatário de nenhum dos Poderes republicanos. Nem mesmo alguns colegas de ofício do popular Sergio Moro seriam poupados.
Salvo a exceção, que inspira imitadores, do citado Moro, o Judiciário também não goza de boa fama, mormente após seu ápice de popularidade, durante a transmissão pelas TVs por assinatura das sessões do julgamento do chamado mensalão. Joaquim Barbosa, então herói, antecipou a aposentadoria, deixou sem justa causa seus fãs órfãos e os dispersou ao assumir a defesa da causa mais impopular da História republicana, “Fica, Dilma”, não defendida sequer pelos militantes contra o “golpismo”, que só usam como cavalo de batalha o “Fora, Temer”. Para complicar, o desacreditado antagonista do relator no mensalão, Ricardo Lewandowski, assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após ser tido pelo público como defensor avançado da causa dos petistas acusados de corrupção, o ministro indicado pelo amigo de longa data em São Bernardo do Campo Luiz Inácio Lula da Silva, sob cuja égide foi eleito e reeleito o poste Dilma e uma organização criminosa perpetrou o saque ao Tesouro, passou a comportar-se como chefão sindical de pares e servidores. Porta-bandeira de reivindicações salariais de funcionários e ministros em plenos quebradeira de empresas e desemprego de operários, ele se permitiu funcionar como supremo árbitro de todas as querelas, deixando a impressão de abusar das próprias prerrogativas de chefe de Poder.
Nesse afã, omitiu sutilezas do passado, ao assumir o comando do processo de impeachment da presidente afastada, que devia ser aberto pela Câmara e julgado no Senado. A inércia dos parlamentares o ajudou: por 66 anos, estes nada fizeram para reformar uma circunstância específica da Constituição de 1946, que transferiu o comando do julgamento do processo político de impedimento do presidente para o chefão do Judiciário, já que o vice era presidente do Senado e, como parte interessada, não poderia comandar a votação.
Para tanto contou com cumplicidade generalizada. Como ninguém atentou para o detalhe, ele não se fez de rogado em rebaixar a encarregada apenas de dirimir dúvidas de técnica processual a árbitra intrometida de questiúnculas regimentais. Sob sua presidência, os colegas do STF massacraram o direito democrático elementar da candidatura avulsa de parlamentares, tão eleitos pelo povo quanto a chefe do Executivo, para atender aos interesses dela na composição da comissão da Câmara que decidiu sobre a abertura do processo.
E não precisou de cumplicidade dos outros dez colegas para se intrometer em questões internas da comissão do Senado, ao decretar o sugestivo total de 40 testemunhas de defesa, decretando uma paródia de “abre-te, Sésamo”, que acaba de repetir ao ampliar de cinco para seis o novo número de testemunhos em prol da acusada, depois da aprovação de sua pronúncia pela maioria simples dos senadores.
Em nome do precedente Collor, que adotou a lei sem nexo à falta de outra, atua como mordomo diligente, a conferir a despensa do palácio, cuidando de cada minúcia, sem repetir o exemplo discreto de Sydney Sanches, presidente do STF em 1992. A comissão da Câmara, composta no figurino de Dilma-Cardozo, derrotou essa dupla por 38 a 27. As 40 testemunhas não evitaram o 14 a 5 da comissão do Senado a favor do voto do relator, Antonio Anastasia. Mas o causídico da “presidenta” conta com novas intervenções do STF para desautorizar a maioria de dois terços no julgamento final, apesar de Lewandowski presidi-lo, a pretexto de evitar nova enxurrada de recursos. Por essa razão, o julgamento de Dilma só será realizado após decorrer o triplo dos 90 dias usados para depor o Carcará Sanguinolento.
Os caprichos de Lewandowski ainda podem alongar esse prazo para setembro. Para alívio de pelo menos dois terços de Câmara, Senado e cidadãos, ele não poderá postergá-lo para depois de 10 de setembro, quando já terá empossado Cármen Lúcia em seu lugar.
José Nêumanne
Saiba quem ouviu a vaia e calou (consentindo-a?), mesmo sem considerar os aplausos, que os houve, que Temer é só o que “temos para o jantar”. Se Dilma Rousseff, do PT, for mesmo impedida, o vice, do PMDB, eleito juntamente com ela pelos mesmos 54 milhões de eleitores que a preferiram a Aécio Neves, do PSDB, em novembro de 2014, assume seu lugar por ser essa sua obrigação funcional, conferida na Constituição vigente. Apenas se voluntariamente ele se negar a cumprir seu dever se considerará a hipótese de substituição pelo vencedor de uma eventual eleição, direta se for este ano e indireta (ou seja, pelo Congresso) se convocada a partir de 2017. Talvez essa seja uma boa causa para os apupos, se se considerar que ele foi cúmplice da má gestão da titular da chapa, responsabilizada pela maior crise ética, econômica e política da História.

Salvo a exceção, que inspira imitadores, do citado Moro, o Judiciário também não goza de boa fama, mormente após seu ápice de popularidade, durante a transmissão pelas TVs por assinatura das sessões do julgamento do chamado mensalão. Joaquim Barbosa, então herói, antecipou a aposentadoria, deixou sem justa causa seus fãs órfãos e os dispersou ao assumir a defesa da causa mais impopular da História republicana, “Fica, Dilma”, não defendida sequer pelos militantes contra o “golpismo”, que só usam como cavalo de batalha o “Fora, Temer”. Para complicar, o desacreditado antagonista do relator no mensalão, Ricardo Lewandowski, assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após ser tido pelo público como defensor avançado da causa dos petistas acusados de corrupção, o ministro indicado pelo amigo de longa data em São Bernardo do Campo Luiz Inácio Lula da Silva, sob cuja égide foi eleito e reeleito o poste Dilma e uma organização criminosa perpetrou o saque ao Tesouro, passou a comportar-se como chefão sindical de pares e servidores. Porta-bandeira de reivindicações salariais de funcionários e ministros em plenos quebradeira de empresas e desemprego de operários, ele se permitiu funcionar como supremo árbitro de todas as querelas, deixando a impressão de abusar das próprias prerrogativas de chefe de Poder.
Nesse afã, omitiu sutilezas do passado, ao assumir o comando do processo de impeachment da presidente afastada, que devia ser aberto pela Câmara e julgado no Senado. A inércia dos parlamentares o ajudou: por 66 anos, estes nada fizeram para reformar uma circunstância específica da Constituição de 1946, que transferiu o comando do julgamento do processo político de impedimento do presidente para o chefão do Judiciário, já que o vice era presidente do Senado e, como parte interessada, não poderia comandar a votação.
Para tanto contou com cumplicidade generalizada. Como ninguém atentou para o detalhe, ele não se fez de rogado em rebaixar a encarregada apenas de dirimir dúvidas de técnica processual a árbitra intrometida de questiúnculas regimentais. Sob sua presidência, os colegas do STF massacraram o direito democrático elementar da candidatura avulsa de parlamentares, tão eleitos pelo povo quanto a chefe do Executivo, para atender aos interesses dela na composição da comissão da Câmara que decidiu sobre a abertura do processo.
E não precisou de cumplicidade dos outros dez colegas para se intrometer em questões internas da comissão do Senado, ao decretar o sugestivo total de 40 testemunhas de defesa, decretando uma paródia de “abre-te, Sésamo”, que acaba de repetir ao ampliar de cinco para seis o novo número de testemunhos em prol da acusada, depois da aprovação de sua pronúncia pela maioria simples dos senadores.
Em nome do precedente Collor, que adotou a lei sem nexo à falta de outra, atua como mordomo diligente, a conferir a despensa do palácio, cuidando de cada minúcia, sem repetir o exemplo discreto de Sydney Sanches, presidente do STF em 1992. A comissão da Câmara, composta no figurino de Dilma-Cardozo, derrotou essa dupla por 38 a 27. As 40 testemunhas não evitaram o 14 a 5 da comissão do Senado a favor do voto do relator, Antonio Anastasia. Mas o causídico da “presidenta” conta com novas intervenções do STF para desautorizar a maioria de dois terços no julgamento final, apesar de Lewandowski presidi-lo, a pretexto de evitar nova enxurrada de recursos. Por essa razão, o julgamento de Dilma só será realizado após decorrer o triplo dos 90 dias usados para depor o Carcará Sanguinolento.
Os caprichos de Lewandowski ainda podem alongar esse prazo para setembro. Para alívio de pelo menos dois terços de Câmara, Senado e cidadãos, ele não poderá postergá-lo para depois de 10 de setembro, quando já terá empossado Cármen Lúcia em seu lugar.
José Nêumanne
Um partido à deriva
Ganha o PT a medalha de ouro na disputa pelas aspirações frustradas e os objetivos invertidos. Dilma Rousseff sobe as escadas do cadafalso e em poucos dias estará decapitada. O Lula procura salvar-se do precipício e Rui Falcão obrigou-se a vender a mansão que possuía. José Dirceu conforma-se em envelhecer na prisão, Jacques Wagner sumiu. Os ex-tesoureiros do partido lamentam as condenações que os privaram da liberdade e antigos dirigentes buscam o anonimato. Até as convenções municipais para a escolha de candidatos a prefeito não se realizaram, ou transcorreram em segredo. Suas bancadas no Congresso desistiram de tentar salvar o mandato de Madame, mas nem cogitam da reconstrução, lançando tênues esperanças apenas na sucessão de 2018, caso o Lula decida disputar o retorno.
A campanha pelas eleições municipais não começou, o melhor que os companheiros pretendem é ser esquecidos. Se elegerem um único prefeito de capital, no caso de Rio Branco, no Acre, dar-se-ão por satisfeitos.
O partido que um dia aspirou mudar o Brasil agora recolheu-se e nem planos faz para sua renovação. Omite-se a juventude, indiferente à necessidade de deitar ao mar a carga que sobrou da tempestade.
Dirão os companheiros otimistas que a mesma pasmaceira tomou conta dos outros partidos. Mas acontece que o percentual de desânimo do PT supera os demais. Também, bem feito…
O partido que um dia aspirou mudar o Brasil agora recolheu-se e nem planos faz para sua renovação. Omite-se a juventude, indiferente à necessidade de deitar ao mar a carga que sobrou da tempestade.
Dirão os companheiros otimistas que a mesma pasmaceira tomou conta dos outros partidos. Mas acontece que o percentual de desânimo do PT supera os demais. Também, bem feito…
Mais depressa se pega um mentiroso do que um coxo
Numa manhã fria e de céu azul, sem uma nesga de nuvem branca, a caminho do clube, indagou o neto de 10 anos ao avô: “Vovô, como a gente faz para não mentir?”.
Antes de responder à pergunta, filosofou o avô: “A mentira é sempre ruim. Ela não constrói nada, mas destrói, sobretudo, o caráter, que é o que distingue uma pessoa de outra. Destrói reputações e pode levar alguém a perder a vida. Mas me diga, antes de mais nada, qual seria essa mentira que hoje o preocupa tanto”.
“Tipo assim, vovô, por exemplo: dizer à minha mãe, no fim de semana, que eu não tinha dever de casa, mas tinha. Entendeu?”
“Sim. Essa não é uma mentira grave, mas é mentira”, afirmou o avô. “Na realidade, é pouco ou nada inteligente, burra mesmo. Acontece, às vezes, com meninos da sua idade, que sempre têm dever de casa para fazer. Só prejudica a quem a comete. Na segunda-feira, de volta da escola, sua mãe será avisada pela professora de sua falta… Já a mentira grave é aquela que prejudica terceiros inocentes. Entendeu?”
“Sim, entendi, vovô, e já sei, vou ser ferrado”.
“Agora”, continuou o avô, “e antes de começar a sofrer com a bronca que você receberá em casa, trato de sua pergunta: para não mentir, a gente tem que falar a verdade, em qualquer circunstância. O mal só será evitado pela prática do bem. E fazer o bem é mais difícil que fazer o mal. Ninguém será correto pela vida toda sem se esforçar. Há uma exceção: dizer a verdade quando se sabe que ela poderá provocar, na pessoa que deveria tomar ciência dela, algum problema de saúde, por exemplo, nem sempre é o melhor caminho. Nesse caso, e só nesse caso, pode-se aguardar um pouco mais, pedir auxílio aos mais velhos, ou proceder assim: nem se diz a verdade, nem se diz mentira, entendeu? Preste atenção: só se deve fazer assim se não houver, da parte de quem deveria falar a verdade, um dever de consciência”.
“Não entendi direito, vovô”, retrucou o neto. “Essa coisa de dever de consciência... Nunca tinha pensado nisso que você falou”.
“Nisso o quê?”, perguntou o avô, “na consciência?”
“Não. É que a mentira, sobre o dever de casa, é burra mesmo. Nunca tinha pensado nisso. Por isso é que outro dia você me disse que meu bisavô dizia a seus filhos que ‘mais depressa se pega um mentiroso do que um coxo’. Agora entendi direito o que meu bisavô – era seu pai, não era? – gostava de ensinar aos filhos e netos”.
O episódio aqui relatado é muito comum entre avôs e netos de 10 anos. Referi-lo é oportuno. Nosso país vive sob as consequências terríveis desse grande pecado da humanidade. A Lava Jato é produto dele. E, na política, a mentira comanda o espetáculo. Não podemos tratá-la como se fosse algo banal e corriqueiro, embora o seja.
O presidente interino Michel Temer precisa dizer rápido ao país a verdade sobre a possibilidade de ser candidato à reeleição em 2018. Fala-se isso sem sequer saber se, em setembro, será, enfim, empossado na Presidência da República.
A nota que publicou, em resposta à entrevista do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a “O Estado de S. Paulo”, é puro escapismo, além de perigoso jogo de cena.
Conduzir o país até 2018 poderá ser sua única missão. E ainda terá que provar que tem condições de governá-lo até lá.
Esse é seu (último) dever de casa.
Antes de responder à pergunta, filosofou o avô: “A mentira é sempre ruim. Ela não constrói nada, mas destrói, sobretudo, o caráter, que é o que distingue uma pessoa de outra. Destrói reputações e pode levar alguém a perder a vida. Mas me diga, antes de mais nada, qual seria essa mentira que hoje o preocupa tanto”.
“Tipo assim, vovô, por exemplo: dizer à minha mãe, no fim de semana, que eu não tinha dever de casa, mas tinha. Entendeu?”
“Sim. Essa não é uma mentira grave, mas é mentira”, afirmou o avô. “Na realidade, é pouco ou nada inteligente, burra mesmo. Acontece, às vezes, com meninos da sua idade, que sempre têm dever de casa para fazer. Só prejudica a quem a comete. Na segunda-feira, de volta da escola, sua mãe será avisada pela professora de sua falta… Já a mentira grave é aquela que prejudica terceiros inocentes. Entendeu?”
“Sim, entendi, vovô, e já sei, vou ser ferrado”.
“Agora”, continuou o avô, “e antes de começar a sofrer com a bronca que você receberá em casa, trato de sua pergunta: para não mentir, a gente tem que falar a verdade, em qualquer circunstância. O mal só será evitado pela prática do bem. E fazer o bem é mais difícil que fazer o mal. Ninguém será correto pela vida toda sem se esforçar. Há uma exceção: dizer a verdade quando se sabe que ela poderá provocar, na pessoa que deveria tomar ciência dela, algum problema de saúde, por exemplo, nem sempre é o melhor caminho. Nesse caso, e só nesse caso, pode-se aguardar um pouco mais, pedir auxílio aos mais velhos, ou proceder assim: nem se diz a verdade, nem se diz mentira, entendeu? Preste atenção: só se deve fazer assim se não houver, da parte de quem deveria falar a verdade, um dever de consciência”.
“Não entendi direito, vovô”, retrucou o neto. “Essa coisa de dever de consciência... Nunca tinha pensado nisso que você falou”.
“Nisso o quê?”, perguntou o avô, “na consciência?”
“Não. É que a mentira, sobre o dever de casa, é burra mesmo. Nunca tinha pensado nisso. Por isso é que outro dia você me disse que meu bisavô dizia a seus filhos que ‘mais depressa se pega um mentiroso do que um coxo’. Agora entendi direito o que meu bisavô – era seu pai, não era? – gostava de ensinar aos filhos e netos”.
O episódio aqui relatado é muito comum entre avôs e netos de 10 anos. Referi-lo é oportuno. Nosso país vive sob as consequências terríveis desse grande pecado da humanidade. A Lava Jato é produto dele. E, na política, a mentira comanda o espetáculo. Não podemos tratá-la como se fosse algo banal e corriqueiro, embora o seja.
O presidente interino Michel Temer precisa dizer rápido ao país a verdade sobre a possibilidade de ser candidato à reeleição em 2018. Fala-se isso sem sequer saber se, em setembro, será, enfim, empossado na Presidência da República.
A nota que publicou, em resposta à entrevista do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a “O Estado de S. Paulo”, é puro escapismo, além de perigoso jogo de cena.
Conduzir o país até 2018 poderá ser sua única missão. E ainda terá que provar que tem condições de governá-lo até lá.
Esse é seu (último) dever de casa.
A guinada à direita da internet no Brasil
Durante uma visita recente ao Brasil, o ativista espanhol Javier Toret Medina provocou: “os movimentos de esquerda daqui são inúteis na Internet”. Essa “inutilidade” teria ficado clara pela tímida presença de organizações como o Movimento Passe Livre na Internet durante os protestos de 2013.
Ao fazer a crítica, o ativista espanhol exagera, claro. Mas, ao mesmo tempo, toca em um ponto que tem chamado muito a atenção dos estudiosos do ativismo nas mídias sociais no Brasil: a crescente presença de indivíduos e organizações auto-intitulados de direita. São várias organizações que chegam à casa do milhão (milhões!) de seguidores nas suas fan pages do Facebook, deixando para trás organizações com muito mais tempo de ativismo e com maior enraizamento na sociedade civil.
Se olharmos para partidos e, principalmente, para legisladores, a diferença também é gritante. Entre os deputados federais e senadores com maior presença na Internet, a grande maioria está filiada a partidos à direita do espectro político. São super usuários da Internet que utilizam as mídias sociais como plataformas para criar agenda, difundir informações, lançar campanhas e recrutar simpatizantes.
E a esquerda?
O que explica essa aparente indiferença de setores progressistas frente à Internet no Brasil? Ainda não temos boas pesquisas sobre o assunto, mas arrisco dizer que são várias as razões dessa diferença de comportamento com relação ao caso espanhol. Para começar, na Espanha a forte presença da esquerda na Internet era fruto de uma forte presença nas ruas e nas praças. No caso brasileiro, desde 2013 as ruas têm sido dominadas por setores mais conservadores.
Outra coisa importante, que separa o caso brasileiro do espanhol como um abismo, é que metade da população brasileira ainda não está conectada à Internet. Sem falar das limitações de acesso e uso daqueles que estão conectados. Portanto, qualquer comparação tem que ser feita com cuidado.
Exageros e diferenças à parte, o ativista espanhol tem razão na sua crítica, porque parte da ausência (ou melhor, da presença tímida) na Internet não tem a ver com a exclusão digital e nem com a crise da esquerda. Tem a ver com decisões tomadas por ativistas e por organizações, que refletem uma visão equivocada dos impactos da Internet. Por exemplo, é comum escutarmos um certo desprezo nas análises sobre os impactos das mídias sociais. O ativismo “de verdade” seria o velho ativismo das assembleias, das reuniões presenciais, do corpo-a-corpo das campanhas. O ativismo na Internet seria limitado ao “ativismo do sofá”, aquele que não passa do clique no teclado. E pior: o ativismo no Internet contribuiria para esvaziar as organizações e os espaços de debate presenciais.
Como já discutimos nesta coluna, a Internet não é a panacéia. Está longe de ser a solução para todos os problemas de ação coletiva. E nem dá para generalizar os seus impactos: as plataformas digitais são usadas de maneiras diferentes, e esse uso muda com uma rapidez que só as gerações mais jovens conseguem acompanhar, enquanto os mais velhos correm atrás do prejuízo.
No entanto, dar as costas para os novos tipos de ativismo que estão surgindo via Internet é tapar o sol com a peneira. É ignorar que a tecnologia pode, sim, ser instrumento de mudança social. É deixar de ocupar um campo de disputa, no qual o ativismo político está se reinventando.
Ao fazer a crítica, o ativista espanhol exagera, claro. Mas, ao mesmo tempo, toca em um ponto que tem chamado muito a atenção dos estudiosos do ativismo nas mídias sociais no Brasil: a crescente presença de indivíduos e organizações auto-intitulados de direita. São várias organizações que chegam à casa do milhão (milhões!) de seguidores nas suas fan pages do Facebook, deixando para trás organizações com muito mais tempo de ativismo e com maior enraizamento na sociedade civil.
| Pawel Kuczynski |
E a esquerda?
O que explica essa aparente indiferença de setores progressistas frente à Internet no Brasil? Ainda não temos boas pesquisas sobre o assunto, mas arrisco dizer que são várias as razões dessa diferença de comportamento com relação ao caso espanhol. Para começar, na Espanha a forte presença da esquerda na Internet era fruto de uma forte presença nas ruas e nas praças. No caso brasileiro, desde 2013 as ruas têm sido dominadas por setores mais conservadores.
Outra coisa importante, que separa o caso brasileiro do espanhol como um abismo, é que metade da população brasileira ainda não está conectada à Internet. Sem falar das limitações de acesso e uso daqueles que estão conectados. Portanto, qualquer comparação tem que ser feita com cuidado.
Exageros e diferenças à parte, o ativista espanhol tem razão na sua crítica, porque parte da ausência (ou melhor, da presença tímida) na Internet não tem a ver com a exclusão digital e nem com a crise da esquerda. Tem a ver com decisões tomadas por ativistas e por organizações, que refletem uma visão equivocada dos impactos da Internet. Por exemplo, é comum escutarmos um certo desprezo nas análises sobre os impactos das mídias sociais. O ativismo “de verdade” seria o velho ativismo das assembleias, das reuniões presenciais, do corpo-a-corpo das campanhas. O ativismo na Internet seria limitado ao “ativismo do sofá”, aquele que não passa do clique no teclado. E pior: o ativismo no Internet contribuiria para esvaziar as organizações e os espaços de debate presenciais.
Como já discutimos nesta coluna, a Internet não é a panacéia. Está longe de ser a solução para todos os problemas de ação coletiva. E nem dá para generalizar os seus impactos: as plataformas digitais são usadas de maneiras diferentes, e esse uso muda com uma rapidez que só as gerações mais jovens conseguem acompanhar, enquanto os mais velhos correm atrás do prejuízo.
No entanto, dar as costas para os novos tipos de ativismo que estão surgindo via Internet é tapar o sol com a peneira. É ignorar que a tecnologia pode, sim, ser instrumento de mudança social. É deixar de ocupar um campo de disputa, no qual o ativismo político está se reinventando.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
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