domingo, 24 de julho de 2016

Sábios e sabidos

Dinheiro falso. Era esse o assunto no telejornal. Quadrilhas desenvolveram maneiras sofisticadas de falsificar notas de real, e métodos elaborados de distribuí-las, usando a internet. A reportagem mostrava que é possível fazer contato on-line com os falsificadores, encomendar dois mil reais mediante comprovação de depósito de R$ 250 em determinada conta, e receber o produto em casa pelo correio. Delivery express, como pizzarias gostam de anunciar. Não deveria ser espantoso ver uma coisa dessas num país onde grassam as mais diversas formas de larapio, a começar pelos mais altos escalões da nação. Mas mesmo assim surpreende. E sempre é possível alegar que, como no tradicional conto do vigário, a vítima queria ser sabida demais e também passar a perna nos outros, já que alguém alfabetizado e usuário da internet não cairia num golpe desses se não tivesse objetivos inconfessáveis.

Em seguida, outro caso. Este sem mediações digitais. Entrevistam uma aposentada moradora da periferia, que a duras penas conseguiu juntar R$ 900 para uma pequena obra doméstica. Ela conta que foi procurada em casa por um sujeito bem falante e respeitoso, que lhe disse vir em nome do banco para trocar seu dinheiro, pois em breve o que guardava não valeria mais, já que o governo está substituindo todas as notas, para mudar sua numeração. Mostrou-lhe que as cédulas têm números impressos, exibindo-lhe notas novas com números diferentes. Ela entregou suas economias. Quando descobriu o erro, já não tinha como consertar. Perda total.


Quem acredita em qualquer coisa que lhe dizem, a ponto de cair em golpes primários desse tipo, é porque não tem informação. Vai atrás de qualquer conversa. E, na hora das eleições, elege qualquer um — como o país constatou de forma chocante, ao ouvir um por um de seus representantes durante a cobertura ao vivo da votação na Câmara de Deputados sobre a admissibilidade do impeachment. De uma presidente legitimamente eleita pela maioria dos votos válidos. E ainda se descobriu que essa Câmara podia ser presidida por um Waldir Maranhão, legitimamente eleito. Substituto de um Eduardo Cunha, legitimamente eleito.

Mas não temos campanha eleitoral que deveria justamente fazer com que os candidatos ficassem conhecidos? Ajudar os eleitores a saber mais e se preparar para o voto, dar-lhes informação? E uma mídia livre, atenta e atuante, despejando notícias 24 horas por dia? E não estamos reduzindo os índices de analfabetismo?

É claro que parte da responsabilidade está no sistema eleitoral e seus mecanismos, propícios à mentira e ao engodo, com marqueteiros milionários, proteção a partidos de aluguel, coligações esquisitas, campanhas em que nada sério é discutido, e votos proporcionais distorcidos — em que o eleitor vota em um candidato e elege outro, enquanto deixa de eleger quem teve mais votos. Daí a importância da reforma nessa área, pela qual a democracia clama.

Há, sim, os eleitores metidos a sabidos, que querem se dar bem e vendem o voto por uma suposta benesse (como os que compraram dinheiro falso pela internet). E há os crédulos e desinformados, acreditando no que lhes diz o vizinho, o cabo eleitoral, o guru da hora, o miliciano, o “dono” da comunidade, ou o pastor de uma das tantas igrejas que proliferam, isentas de impostos e ligadas a partidos políticos.

Mas há também, e com relevo, o efeito de uma educação deficiente, incapaz de provocar comparações e reflexões, desenvolver o espírito científico e a capacidade de análise crítica baseada na observação da realidade. Seja por insistir em fórmulas prontas a que o aluno deve aderir, seja por deficiências na formação do professor. A imposição do conformismo acaba perpetuando crenças incompatíveis com a racionalidade, ainda mais deletérias quando se somam à certeza absoluta, vinda da ilusão do conhecimento. Exemplos disso estão na tentativa de impor dogmas e interditos religiosos e políticos. E em teorias constrangedoras como a externada recentemente por sábia filósofa, de respeitada universidade, que leva a negação do real ao ponto de afirmar que não houve corrupção sistemática e institucionalizada na Petrobras, mas apenas o juiz Sérgio Moro foi treinado pelo FBI para a Lava-Jato, com o fim de desestabilizar o país e entregar o pré-sal aos EUA. Ou para cumprir os desígnios do Ocidente e ocupar nosso mercado, apoiou outro sábio, doutor pela mesma universidade.

Precisamos de mais abertura para a realidade, mais exame dos fatos. Para aprender. Palmas para a bem-humorada Fernanda Torres, que anuncia um programa chamado “Minha estupidez”, focalizando temas e ângulos em que se sente ignorante. Recente estudo do historiador Yuval Harari, “Sapiens”, sustenta que o reconhecimento da própria ignorância foi que propiciou a revolução científica da modernidade, ao rejeitar dogmas e ideias prontas. Atitude que foge da arrogância e se aproxima da máxima socrática que há séculos ensina: “Só sei que nada sei". Caminho da sabedoria.

Ana Maria Machado 

Eles venceram

Dia desses, não faz muito tempo, me peguei praguejando pelos cotovelos em plena padaria enquanto esperava o frango ser embalado. A fila estava ínfima, nada de especial acontecera, não passava de um domingo como outro qualquer, e no entanto eu desfilava uma carranca de fazer gosto, digna de almanaque.

Se, afinal de contas, existia razão para tanto? Não só existia como persiste mas ainda assim levei um bom tempo flertando com o autoengano. Agora, porém, olhando em perspectiva, entendo perfeitamente o porquê da minha reação. Vamos combinar, quem hesitaria em se esquivar, assim, de supetão, ao constatar o próprio País fadado a viver dividido pelos piores motivos?

E a divisão em si não é um problema. Aliás, neste mesmo espaço já cansei de criticar a demonização do nosso debate político. E continuo afirmando, promove um desserviço irreparável quem dele faz pouco caso, seja tachando-o negativamente de Fla-Flu ou mesmo lamentando sua inegável crueza.

Inaudito, isto sim, para não dizer tolo, seria esperar discernimento e maturidade popular a respeito um tema histórica e sorrateiramente forjado para ser ignorado.


Ora essa, quantos Odoricos não foram eleitos até hoje, e ainda o são, graças ao discurso que celebra a “festa da democracia” mas escamoteia a obrigatoriedade do voto? E a quem interessa o voto obrigatório em um país acostumado a repetir que, além de futebol e religião, precisamente a política não se discute? Por fim, quem se beneficia da eterna tergiversação sobre a cláusula de barreira?

Negativo, o debate em si, por ferrenho que seja, está longe de ser um problema. Muito pelo contrário, deveria ter começado antes, estaríamos mais habituados a ele e capazes de travá-lo em outro nível.

O momento pede que por um momento deixemos de lado os vários bilhões escoados via corrupção, a roubalheira desenfreada e as chicanas morais. São todas inéditas, tanto no volume quanto na desfaçatez, e por este motivo promovem e ainda promoverão máculas indeléveis para o Partido dos Trabalhadores. Quanto à economia, cedo ou tarde, em algum momento, recuperará seu fôlego.

Doloroso mesmo, e como, é constatar que talvez o maior estrago promovido pelo PT, ao longo de todo este tempo, só agora começa a dar as caras: sua tenacidade pelo poder e a falta de escrúpulos conseguiu forjar em nossa sociedade indivíduos dispostos a ludibriar sem dó, a repercutir todo o tipo de mentiras, se preciso for, em nome de uma causa tão abjeta quanto defunta.

Das esquinas às redações de jornais e revistas, principalmente nestas últimas, não faltam sujeitos determinados a fazer este papel. Posam como paladinos da moral mesmo desconhecendo por completo o real significado do termo. Mentem, enganam, desconversam com a desenvoltura dos verdadeiros crápulas, e não é por acaso.

Caberia, agora, à parcela da sociedade responsável por desmontar o maior esquema de corrupção institucionalizada na história do Brasil, rechaçar estes indivíduos.

Se torço para quem sejam caçados como bruxas? Que sintam-se asfixiados, constrangidos na hora de exercer suas profissões? Rechaçados como párias, apontados nas ruas como figuras desprezíveis e que portanto devem ser evitadas? Claro que não.

Seria de uma burrice imperdoável transformar em mártires essa gente. Nada seria melhor para o espectro da nossa esquerda corrupta e fanática do que poder lançar a carta da vitimização.

Mas, então, o que fazer? Se repugná-los funcionaria como um tiro saindo pela culatra, e se estão espalhados por todos os grandes veículos, portanto com palco e megafone disponíveis, o que nos resta?

Com toda a sinceridade, não faço a menor ideia.

Nossas terríveis armas

Mãos ao alto! Agora, sim, de vez, chegamos à conclusão que somos, nós mesmos, armas; e que tudo pode mesmo ser ou virar arma. Que de um segundo a outro algo pode vir de qualquer lado e estragar tudo. Só com corações e mentes desarmadas poderemos nos sentir seguros

Andamos todos nós armados até os dentes. Aliás, literalmente, porque uma mordida pode causar uma boa inflamação, há de se lembrar. Marcante como impressão digital, naquele formato meia lua.

Unhas podem ser garras que tiram sangue para se defender, ou uma outra forma de arma – para a conquista, quando suavemente usadas. Nosso corpo é arma poderosa quando luta, quando golpeia, quando fechamos os punhos, chutamos certeiros pontapés. Até dentro dele moram muitas armas, que criam monstros, que matam células, que podem nos suicidar envenenados por emoções ou tristezas, estou convencida. Assim como criamos nossos próprios cabelos brancos.

Um olhar. Quer coisa que pode ser mais arma letal do que um olhar? Dependendo de quem o desfere em sua direção seus efeitos são imediatos, tanto quanto aqueles que os nossos pais nos dirigiam quando éramos crianças e saíamos da linha – fulminantes. E a palavra, então? – essa arma ainda tem sua capacidade multiplicada dependendo do uso do tom da voz, da cadência, do volume, da entonação do aposto. Dependendo do que desfaz, a palavra pode levar à morte por amor. Gestos podem ser mortais.
Mas agora temos mais uma outra dimensão do perigo. Muito além daquela que já representava alguém bêbado ao volante, muito aquém dos irresponsáveis dos rachas. Um caminhão assassino. Já tínhamos visto os aviões assassinos, mas eles pareciam mais distantes, mais complexos, mais difíceis de ocorrer. Esta semana, ainda, lá de cima no céu da Turquia, helicópteros despejaram balas no curso de suas rotas durante o embate da tentativa de golpe – dezenas de mortos a esmo. Mas caminhões? E se os ônibus também começarem a ser usados? As motos, bicicletas, skates? As vans? E se for necessário manter por muito mais tempo e além dos grandes eventos os tanques de guerra pelas ruas como já estamos vendo percorrendo no Rio de Janeiro?

Aterrorizante porque muita coisa pode ser arma, como disse, para atacar ou se defender. Uma garrafa, um cinzeiro atirado. Um trivial estilingue. O canivete que zune no ar movido por mãos ágeis. Uma torneira enrolada com um pano, empunhada como bem tentou um ladrão outro dia, que a tornou muito ameaçadora – e qualquer coisa apontada para a gente não é para ficar perguntando se é verdadeira, falsa ou inventada.

Pode ser elástico de cabelo, bola de gude, isqueiro, spray de desodorante, gás pimenta. Até flor pode ser arma, apontando seus espinhos afiados e pinicantes.
Aí, o cerne da questão e de nossos medos. Pensando, somos armas. Além das líquidas, nucleares, químicas. Delirando, podemos ser invencíveis e corajosos. Sem noção da vida, nada impede de buscar a morte levando muita gente, querendo ser um nome na história, nos sites de busca, mesmo que nas páginas de terror e ódio, de crimes de lesa humanidade, lesa pátria.

Falo em corações e almas desarmadas, mas sei bem que isso é utopia. Pior: não temos arma melhor, algum argumento estrategicamente guardado que faça com que todos acreditem de verdade e se desarmem.

Ao contrário, dia após dia parece que tudo fica muito mais perigoso.
Marli Gonçalves

Jeitinho a favor



A lei é feita por eles e em prol deles. Uma das piores coisas da minirreforma foi mexer na propaganda fora de época 
Procurador regional eleitoral do Rio, Sidney Madruga

Hora do voto facultativo

O voto é um dever cívico ou um direito subjetivo? A instigante questão diz muito a respeito da qualidade de um sistema democrá­tico. No nosso caso, a resposta é dada pela Constituição, que torna o voto compulsório, exceção feita aos jovens entre 16 e 18 anos, eleitores com mais de 70 anos e analfabetos. Quem deixar de votar e não apresentar justificativa plausível estará sujeito a sanções.

Que implicações haveria para a democracia brasileira caso o voto fosse facultativo? O primeiro efeito seria a quebra de cerca de 30% na participação da população nas eleições, conforme projeções feitas por estudiosos do sistema elei­toral. Algo em torno de 102 milhões de eleitores, considerando um eleitorado de 146.470.880.



Esse volume menor não significaria, porém, enfraquecimento da nossa democracia representativa, como alguns querem comprovar sob o argumento de que o País ainda não alcançou grau elevado de institucionalização política. Tal abordagem não resiste a uma análise mais acurada.

Para início de conversa, há um dado irrefutável que precisa ser levado em consideração: com o somatório de abstenções, votos nulos e em branco, ocorre uma quebra de 25% no resultado geral, conforme tem ocorrido em eleições. No pleito de 2012, este número foi de 26% no segundo turno. E dos cerca de 31,7 milhões de eleitores aptos a votar nas 50 cidades que tiveram disputa de segundo turno, 19% não compareceram às urnas. Em São Paulo, capital, 19,99% não foram votar.

Minoria ativa ou maioria passiva?

Em suma, o voto, apesar de obrigatório, queima considerável parcela da votação, sendo razoável projetar para este ano mais de 37 milhões de votos que não entrarão na planilha da apuração. Já o voto facultativo, significando a liberdade de escolha, o direito de ir e vir, de participar ou não do processo eleitoral, abriga a decisão da consciência, calibrada pelo amadurecimento.

Se milhões de eleitores pudessem abster-se de votar, por livre e espontânea vontade, outros milhões compareceriam às urnas com discernimento para sufragar nomes e partidos previamente selecionados. O processo registraria índices bem menores de votos nulos e em branco, eis que a comunidade política, ativa e participativa, afluiria em peso aos locais de votação.

É falaciosa a tese de que a obrigatoriedade do voto fortalece a instituição política. Se assim fosse, os EUA ou os Países europeus, considerados territórios que cultivam com vigor as sementes da democracia, adotariam o voto compulsório.


O fato de se ter, em algumas eleições americanas, participação de menos de 50% do eleitorado não significa que a democracia ali seja mais frágil que a de nações onde a votação alcança dados expressivos.

Como observa Paulo Henrique Soares, em seu estudo sobre a diferença entre os sistemas de voto, na Grã-Bretanha, que adota o sufrágio facultativo, a participação eleitoral pode chegar a 70% nos pleitos para a Câmara dos Comuns, enquanto na França a votação para renovação da Assembleia Nacional alcança cerca de 80% dos eleitores. Portanto, não é o voto por obrigação que melhorará os padrões políticos.

A elevação moral e espiritual de um povo decorre dos níveis de desenvolvimento econômico do País e seus reflexos na estrutura educacional.

Na lista do voto obrigatório estão os territórios da América do Sul, com exceção do Paraguai, enquanto a lista do voto facultativo é integrada por Países do Primeiro Mundo, os de língua inglesa e quase todos os da América Central.

A facultatividade do voto, ao contrário do que se pode imaginar, animaria a comunidade política, engajando os grupos mais participativos e vivificando a democracia nos termos apregoados por John Stuart Mill, numa passagem de Considerações sobre o Governo Representativo, quando divide os cidadãos em ativos e passivos. Diz ele: “Os governantes preferem os segundos – pois é mais fácil dominar súditos dóceis ou indiferentes –, mas a democracia necessita dos primeiros. Se devessem prevalecer os cidadãos passivos, os governantes acabariam por transformar seus súditos num bando de ovelhas dedicadas tão somente a pastar capim uma ao lado da outra.”

Valorizar o voto dos mais interessados e envolvidos na política, pela via do voto consciente, pode evitar que conjuntos amorfos participem do processo sem convicção. Alguns poderão apontar nisso posição elitista. Ao que se contrapõe com a indagação: o que é melhor para a democracia, uma minoria ativa ou a maioria passiva? A liberdade para votar ou não causaria um choque de mobilização, levando lideranças e partidos a conduzir um processo de motivação das bases.

Momento adequado

O voto obrigatório remonta à Grécia dos grandes filósofos, tempos em que o legislador ateniense Sólon fez a lei obrigando os cidadãos a escolher um dos partidos. Era a forma de conter a radicalização de facções que quebravam a unidade em torno da polis. Ao lado da proibição de abstenção, nascia também ali o conceito de distribuição de renda.

Já entre nós, a obrigatoriedade do voto foi imposta nos tempos do Brasil rural. O voto compulsório se alojou no Código Eleitoral de 1932, tornando-se norma constitucional em 1934. O eleitorado abarcava apenas 10% da população adulta. Temia-se que a pequena participação popular tornasse o processo ilegítimo. Hoje a paisagem brasileira é essencialmente urbana e os desafios são bem maiores.

Resumo da história: o governo promete votar até o fim do ano dois instrumentos da reforma política - a implantação da cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais. Sem dúvida, trata-se de duas disposições que enxugarão a planilha partidária, hoje composta por 33 partidos. A sugestão é que o voto facultativo também seja inserido na reforma política. O momento é mais que adequado.

O voto não é um dever, mas um direito. E o cidadão deve ter liberdade de usar esse direito, se for o caso, com o não-voto. Ou com melhor disposição cívica de comparecer às urnas.

O mentiroso em conserva

Nem de longe quero me equiparar ao Feira, “simpático” apelido do Goebbels em compota que ajudou a eleger essa vigarista para nos desgovernar, mas também já fiz campanha política na vida. Não roubei, não enriqueci e não aceitei dinheiro em underwear nenhuma. O que o casal de mercadores alega – que a política é assim mesmo e se eles não aceitarem o produto do roubo outros aceitarão – esconde uma calhorda ideologia que não para em pé.

Já disse aqui — e volto a repetir — que eu estaria rico se a verdade fosse essa. Não é. Conheço coitados que dormiam nas salas onde as campanhas eram concebidas e realizadas, pois não podiam sequer voltar pra casa para tomar um banho. Passavam dois meses presos por uma causa. Nunca enriqueceram. Conheço muita gente que trabalhou em campanha política. Gente honesta, fazendo o seu serviço e ganhando por ele, sem empulhações nem vigarices.

A insistência desses calhordas em afirmar que “isso é aí isso aí mesmo” esconde a real natureza dessa roubalheira impune. Nunca fui ladrão. Exatamente por isso, me recusei a trabalhar com o PT, quando convidado a fazê-lo. Não era campanha política o mote da roubalheira deles. Era sim o “pagamento pela consciência”, uma espécie de “dízimo do avesso” que esses canalhas pagam ao seu eleitorado para queimar a VEJA em cerimônias universitárias, financiarem milícias virtuais escaladas para achincalharem desafetos nas redes sociais e constrangê-los por suas posições.

É o preço que pagam por dentaduras, laqueaduras e milheiros de telhas distribuídos por esses vagabundos em rincões distantes e fora dos radares da Justiça eleitoral; é a grana necessária para calar a “mídia”, financiar shows milionários da nossa “intelectualidade de tanga” e toda uma “costura social” utilizada para dar um verniz de unanimidade a uma causa vagabunda que não para em pé, sem tungar umas carteiras primeiro.

Acorda, brasileiro. Não sou seu algoz, nem seu ladrão. Não sou cúmplice desse vigarista que afirma que está preso pela qualidade do serviço que prestou à quadrilha de turno. É tão asquerosa essa postura que mereceria uma revisão da prisão por mais tempo, pela periculosidade que apresenta. Esse sujeito não é um marqueteiro; é um bandido. Assim como aquela dona não é uma “prizidenta”; é uma estelionatária.

Seu chefe e dono do bando não é um “iluminado”; é um criminoso cujos crimes estão transbordando como barragem de dejetos, por todos os cantos. Que sirvam de exemplo de como não se deve fazer política neste país, meus caros. Eu vejo gente morta. Gente morta que se diz expert em marketing de campanha. Não passam de embusteiros.

Terrorista Zé Buchada

Charge Super Notícia 23.7.2016
A Paraíba é lembrada
Por ser bela e pequenina:
O mestre Humberto Teixeira
A chamou de masculina,
Caetano viu nela a lua
Com sua luz de lamparina.

II
Agora o mundo voltou
Os olhos pra Paraíba,
Pois acharam um terrorista,
Primo de Zé Carnaíba,
Que é bom de perna e de faca,
Na briga fica por riba.

III

Ele mora em Cabedelo,
Tão bonita quanto o Céu,
Costumava andar na orla
Pra comer sarapatel
E ouvia toda tarde
O Bolero de Ravel.

IV
Conheceu pela Internet
Um movimento esquisito,
Que queria mudar o mundo
No coice, tapa e no grito,
E ensinava a fazer bomba
Com buchada de cabrito.

V
Mandava pegar o bucho
E entupir de picado,
Depois com uma linha preta
Deixava bem costurado
E fazia uma bolinha
Interando o cozinhado.

VI
O tempero da buchada,
Misturado com tutano,
Pimenta-do-reino e sebo,
Coentro, cebola e Cinzano,
Botava pra cozinhar
Na panela de um cigano.

VII
É uma bomba poderosa,
Solta nitrato encardido,
Não fica ninguém por perto
E quem não morre enturido
Pode ficar quase mouco
Com o pipoco no ouvido.

VIII
Se soltar dentro de um ônibus,
Gera a maior confusão,
O motorista, enfartando,
Se mete na contramão
E o maquinista do trem
Nem chega na estação.

IX
Num jogo de bacará,
Detonaram uma buchada:
O jogador dava o choro,
Na hora da respirada,
A bomba entrou nas narinas
Que deixou a venta inchada.

X

Na diligência de ontem,
A Federal na cozinha
Encontrou bucho de bode,
Cachaça e pé de galinha,
Uma faca de cortar fumo
E um carretel de linha.

Quanto custa um cadáver?

Em 2016, o mundo gastará quase um trilhão e oitocentos bilhões de dólares com exércitos e armamentos. Por coincidência, é aproximadamente o valor do PIB brasileiro de 2015. Posto de outra maneira, o que cada brasileiro produziu no ano passado será usado até dezembro para matar seres humanos em algum canto do planeta. Ou para exibir força e poder. O exibicionismo de um indivíduo é proibido, porém o de países é tolerado. Os bem dotados são os mais explícitos. Ou letais.

Dois terços desses gastos acontecem em nações com população majoritariamente cristã, que constituem um terço da população mundial. É um paradoxo, se considerarmos o ensinamento dos Evangelhos. O paradoxo cresce se levarmos em conta que com apenas um décimo do dinheiro investido nas guerras seria eliminada a fome no mundo, segundo especialistas da ONU. Um décimo apenas.

Sofremos muito – com razão – pelos 84 seres humanos barbaramente eliminados em Nice, porém nem tomamos conhecimento dos milhares que sucumbem à subnutrição e às balas todos os dias na África, no Oriente Médio e na Ásia. Viraram meras estatísticas. E já perdemos a conta dos corpos encontrados no Mediterrâneo que pertenciam a pessoas como nós em busca de esperança, fugindo de países devastados pelas lutas ou pela miséria. Se pesquisarmos a fundo, em cada nação falida há o dedinho cruel de uma potência ocidental ou emergente. Ou sua ganância brigando pelas riquezas ou pela posição estratégica desses infelizes.

Num cálculo conservador, os gastos militares chegaram a mais de sessenta trilhões de dólares durante o século 20. No mesmo período, segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, os cadáveres produzidos pelas guerras alcançaram a estratosférica cifra de 200 milhões. Dividindo-se esses números, obtém-se algo aterrador: cada cadáver custou mais de 300.000 dólares. Quantas pessoas na Terra amealham durante a vida um patrimônio de 300.000 dólares, o que as tornaria milionárias no Brasil? É muito mais caro matar que sustentar a vida. No entanto, optamos por matar.

Por falar em milionários, a tendência global conduz a uma projeção nefasta. Mantido o atual nível de gastos militares e supondo que eliminaremos no século 21 o mesmo número de pessoas do século 20, atingiremos a incrível marca de um milhão de dólares por cadáver. Isso mesmo. Os seres humanos gastarão um milhão de dólares para se exterminarem, caso repitam a performance assassina do século 20. Se matarmos menos, o preço macabro será ainda maior.

Criamos coisas belas na arte e na ciência, melhoramos a qualidade de vida para muitos, aprovamos uma carta dos Direitos Humanos. Com cinismo, alguns belicosos afirmam que muito do progresso resulta da guerra. Mentira. A paz rende muito mais. Somos uma espécie com instinto predador tão elevado quanto solidário, com uma ressalva: o primeiro prevalece em casos de disputa ou surtos de cobiça. Com tristeza, muita tristeza, desconfio de que o homem seja mesmo o lobo do homem. Duvida? Confira os noticiários.

Luís Giffoni

sábado, 23 de julho de 2016

Charge do dia 23/07/2016

Os frutos da democracia

O governo liberou quarta-feira os aumentos do Poder Judiciário acima de 41%. Primus inter pares porque é lá que se dizem os “sins’” e os “nãos” que confirmam ou anulam tudo que os outros poderes decidem, os “meritíssimos” recebem antes de todos os demais o seu pedaço do pacote de aumento do funcionalismo que, bem no meio da mais cruel crise já vivida pelo resto do Brasil, tomou mais R$ 60 bilhões da economia moribunda para garantir que as “excelências”, seus nomeados e os nomeados de seus nomeados continuem dormindo em paz no meio do pânico que grassa aqui fora.

No STF, que “dá o teto” para o salário de todo o setor público, o “por dentro” salta de R$ 33,7 mil para 39,2 mil, 16,3% a mais. É claro; todo mundo sabe que não ha um único juiz no Brasil, que dirá os do STF, que realmente vive com essa “mixaria”. Não ha cálculos publicados sobre quanto valem todos os “auxílios” e mordomias que lhes pagamos e são chamados de todos os nomes menos “salário” para que a Receita Federal que nos esfola a partir de pouco mais de dois salários mínimos se sinta juridicamente autorizada a tirar candidamente os olhos de cima deles. Por uma distração do “Sistema” na recente luta para expelir esse Eduardo Cunha que desafiou sua hierarquia interna, o país ficou sabendo, por exemplo, que o presidente da Câmara dos Deputados, computados todos os jatos, automóveis, pilotos, motoristas, combustível, hotéis, o “chef” e os tres auxiliares de cozinha, as empregadas e “valets de chambre”, os “auxílios” moradia, escola de filho, assistência médica, paletó, dentista, barbearia e o que mais se imaginar, ganha na verdade a bagatela de R$ 500 mil por mês.

Somente os R$ 60 bi que vão custar esse ultimo aumento nominal – veja bem, não estamos falando da folha de pagamentos da União mas só de quanto ela vai aumentar enquanto você se afoga – poderiam pagar 33,8 milhões de vezes o salário médio do Brasil que, em 2016, chegou a R$ 1.776, ou 68 milhões de salários mínimos de R$ 880. E no entanto, notícias como essas são dadas pelos eruditos do colunismo social da Côrte em que se transfomaram os jornalistas políticos do Brasil, quase como uma vírgula em meio às elucubrações sobre as minúcias dos passes e transações entre partidos e chefes de partidos de que o país real não sabe sequer os nomes para decidir quem vai ficar com que pedaço da pele dele. Faz-se um mero registro desacompanhado de qualquer cálculo, comparação ou reportagem sobre como é a vida dos habitantes desse mundo inimaginavel para a multidão dos brasileiros das periferias “de bloco” que espera em obsequioso silêncio, imobilizada, que as “excelências” se resolvam.

Nesta ultima safra, registrou-se burocraticamente que o governo provisório que confirmou esses aumentos foi constrangido a faze-lo porque se ousasse sequer discutir o assunto a máfia travava de vez o país e acabava de matá-lo. Feito o parentese, com essa ameaça de quase genocídio apenas sugerida, volta-se ao infindável ti-ti-ti da Corte…

Essa nossa constituição que vive sendo saudada aos quatro ventos como “democrática” é o avesso disso. Não passa de um vasto compêndio das exceções ao império da lei e dos privilégios garantidos a uns e negados a outros que abrange virtualmente todos os aspectos da vida e todas as categorias de brasileiros para garantir que nenhum possa se queixar a partir de uma posição moral não comprometida, mas que estabelece uma rígida hierarquia na privilegiatura que regulamenta até a menor das minúcias. O resultado é, sem tirar nem por, um sistema feudal em que “o rei” nomeia os seus barões e outras “nobrezas menores” que, por sua vez, criam as clientelas que “protegem”, tudo na base da distribuição de dinheiros que não são eles que produzem a quem fica dispensado de fazer por merece-lo.

Igualdade perante a lei; 1 homem, 1 voto; o direito de cada um decidir o que é melhor para si nas relações de trabalho; a proibição da representação que não seja teleguiada pelo Estado (fundo partidário, imposto sindical, etc.), nenhum dos fundamentos que definem “Democracia”, enfim, está presente neste Brasil do “regulamentismo absolutista”.

O brasileiro vive se flagelando achando que é o povo mais corrupto do mundo mas esta é só mais uma das mentiras que lhe intrujam. No mundo inteiro, em tudo que o Estado entra, rouba-se. O problema é que no Brasil o Estado entra em tudo apenas e tão somente porque se quer roubar em tudo e isso continua sendo possível aqui. No resto do mundo, não existe mais essa discussão. Não é de Estado mínimo ou máximo mas de roubalheira mínima ou máxima que se trata. Para o Estado deixa-se apenas o que não se pode evitar de deixar, porque o que for deixado será inevitavelmente roubado e ha que por essa inexorabilidade na balança. Leis anti-corrupção, por melhores que sejam, são pra enxugar gelo e os esquemas organizados para negar isso pelos que vivem do Estado são ululantemente mentirosos. Todo mundo sabe disso. Não ha exceção de Azerbaidjão a Zaire.

No meio do desemprego e da quebradeira geral, um país acostumado a ser cavalgado busca desesperadamente uma esprança em que se agarrar. Mas desanima o fato de discussões encerradas no mundo todo não terem sequer começado por aqui. É deprimente entender, antes da partida para mais uma jornada de recuperação de prejuízos, que mais uma geração de brasileiros terá o seu acesso à modernidade barrada porque insistimos na roda quadrada.

O Brasil fica sonhando com colheitas mas o fim da miséria, a prosperidade, a paz social são frutos da democracia e é preciso antes adotá-la para poder colhê-los. Enquanto não sairmos do colunismo social da Corte para a cobertura intensiva, gráfica e subversiva do custo social da Côrte; enquanto não começarmos, não apenas a dizer, mas a bradar em fúria que não ha salário para nós porque ha salário demais para eles; enquanto não houver uma só lei para todos nós só colheremos mais do que já temos colhido.

Dilma, tão honesta quanto Lula

A presidente Dilma Rousseff empenhou-se em seus cinco anos e poucos meses de governo em se distinguir de Lula em pelo menos uma coisa: ela sempre foi honesta. Nunca disse que Lula fora desonesto. Mas reafirmou sua honestidade todas as vezes que a de Lula foi posta em dúvida.

Pois bem: o depoimento ao juiz Sérgio Moro do marqueteiro da segunda campanha de Lula à presidência da República e das duas campanhas de Dilma, João Santana Filho, mostrou que a honestidade de Dilma em nada fica a dever à honestidade de Lula.

O que disse Lula quando perguntando sobre o mensalão em 2005? Que ele não sabia, não sabia mesmo que uma “sofisticada organização criminosa que tentou se apoderar do aparelho do Estado” pagava a deputados federais para que votassem como mandava o governo.

João Santana Filho, tão logo foi preso pela Lava-Jato, negou que tivesse recebido dinheiro no exterior pela campanha de Dilma em 2010. Atribuiu o que recebera a campanhas que fizera em outros países. Anteontem, finalmente, confessou que mentira. E que recebera dinheiro, sim.




Como Dilma reagiu? Primeiro, calou-se. Obrigada a comentar a comentar a confissão do marqueteiro, afirmou desconhecer que despesas de sua campanha haviam sido pagas no exterior. Não, nunca soubera. Certamente fora tão enganada como Lula no caso do mensalão.

Lula nomeou para Petrobras executivos que depois saquearam a empresa, pagaram propinas a políticos de vários partidos e desviaram dinheiro para o PT. Ele já disse que nada teve a ver com isso, que as nomeações se deveram a indicações feitas por partidos. É inocente, puro.

Se Lula nada teve a ver com isso, muito menos Dilma, como ela sempre fez questão de repetir. Os nomeados por Lula administraram a Petrobras enquanto Dilma foi ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da empresa e depois presidente da República.

Difícil acreditar que tivemos dois presidentes seguidos que ignoravam completamente que se passava ao seu redor. Que jamais ouviram falar em pagamentos ilegais feitos no exterior ao responsável por suas campanhas. Tampouco ouviram falar do assalto à Petrobras.

A ser verdade o que disseram deveriam ser punidos por improbidade administrativa, irresponsabilidade e desleixo. Somente crianças e índios são inimputáveis. Presidente da República não é.

O tempo como adversário

O empenho do PT em protelar o desfecho do impeachment, coadjuvado por manobras ritualísticas patrocinadas pelo STF, está saindo pela culatra. O partido apostou no desgaste de Michel Temer, na impossibilidade de apresentar bons resultados em curto prazo.

De fato, não se reverte instantaneamente um quadro de caos econômico, como o legado pelo PT, nem é possível fazê-lo sem medidas impopulares. O novo presidente estaria, portanto, fadado ao insucesso, o que abriria espaço para o retorno da velha (des)ordem.

Faltou, porém, considerar um detalhe: a Lava Jato. Enquanto o Senado consumia semanas repetindo o rito já aprovado na Câmara – a admissibilidade do processo -, e na sequência ouvindo nada menos que 40 testemunhas, a turma de Curitiba colhia mais e mais delações comprometedoras, que viriam (estão vindo) à tona antes da votação final. O tempo, ao contrário do desejado, trabalha contra.

Estão em curso, entre outras, delações da diretoria da Odebrecht, que confirmam a origem criminosa de recursos eleitorais e não eleitorais, envolvendo Lula e a própria Dilma, pela primeira vez citada diretamente – e pelo próprio dono da empresa. A íntegra dessas delações ainda virá à tona, mas a prévia já é demolidora.

Esta semana, mais uma bomba veio de Curitiba: o depoimento do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura. Eles confirmaram ter recebido 4,5 milhões de dólares, de caixa dois, da campanha de Dilma. A confissão somou-se à do operador Zwi Skornicki, de que se tratava de dinheiro roubado da Petrobras, pago a pedido do então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Pior: estava depositado em conta no exterior. Bastam esses dois fatos, capitulados como crimes pela legislação eleitoral, para que o próprio registro partidário do PT seja cassado.

Dilma, como responsável pela campanha, pode até alegar que não sabia (inclusive, já o fez), mas não adiantará nada. A lei é implacável: o candidato é responsável pela campanha. O ex-senador Eduardo Azeredo, candidato tucano ao governo de Minas em 1998, fez a mesma alegação, diante de fatos análogos, e foi condenado a 20 anos de prisão – aliás, sob os aplausos do PT.

A diferença é que Azeredo foi derrotado e Dilma elegeu-se. O caso dele, portanto, esgotou-se nele. Já o caso Dilma a pega no curso do mandato, interrompido por razões bem mais amenas, e terá repercussão na votação final do impeachment.

O processo no Senado, graças a Eduardo Cunha, atém-se a delitos apenas administrativos, os tais crimes de responsabilidade. Mas o prontuário, como as delações premiadas e a Lava Jato têm mostrado, é bem maior e invade a esfera do Código Penal.

Cunha poupou a presidente do pior – não por amor, é claro, mas por medo de alguma bala perdida o atingir. Afinal, foi parceiro, ainda que menor, na rapina da Petrobras.

Escolheu o pedido de impeachment mais brando, mas é improvável que os senadores deixem de considerar o conjunto da obra na hora de votar. Os ainda indecisos (se é que os há) dificilmente ousarão afrontar os fatos, de pleno conhecimento do público, na hora de definir seu voto, que será aberto e transmitido pela TV. O julgamento será no final de agosto, lá pelo dia 26.

Até lá, novas delações virão à tona, novas prisões devem ocorrer, não se excluindo a hipótese da do próprio Lula.

Outro efeito colateral adverso do adiamento do impeachment são as eleições de outubro, que este ano terão praticamente um mês apenas de campanha. A dura exposição da administração petista, sobretudo a ilegalidade de algumas de suas práticas, irão repercutir fortemente no eleitorado.

O recurso terrorista ao fim do Bolsa Família, na hipótese de vitória do adversário, já não terá a eficácia de antes. Ele mudou de mãos – e Temer, não obstante os conselhos de sua equipe econômica, acaba de conceder-lhe aumento de 12,5%.

O único risco que Temer corre deriva dele próprio, se insistir em nomear para sua equipe gente carimbada por atos praticados na gestão de sua antecessora.

Ação da Abin contra terrorismo é arriscadíssima e pode provocar retaliações

A espalhafatosa operação do Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para evitar atos de terrorismo na Olimpíada é altamente polêmica e controversa. Os dez suspeitos presos nesta quinta-feira são claramente amadores, com baixa capacidade de organização e execução. Lembrando o genial filósofo Aristóteles, que há 2,3 mil anos já ensinava que “o bom senso é elemento central da conduta ética, uma capacidade virtuosa de achar o meio-termo e distinguir a ação correta”, pode-se dizer que, no caso do terrorismo tropical, o bom senso indicava que a estratégia mais apropriada seria simplesmente monitorar os suspeitos 24 horas por dia.

Com esse cuidado, seria evitada a concretização de atentados e seus frustrados autores poderiam ser presos em flagrante, tudo isso sem causar pânico nem marcar presença na escandalosa mídia internacional, que está esvaziando o grande evento.

Na verdade, o que a mídia tem passado para o resto do mundo é que a Olimpíada no Rio de Janeiro representa um risco crescente em termos de saúde, organização e segurança, esta é a indesmentível realidade.

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Primeiro, surgiram as ameças de zika, dengue, chicungunha e gripe H1N1. Depois, o atraso nas obras, a queda da ciclovia. Para agravar a crise, o incompetente governador em exercício Francisco Dornelles baixou o decreto da “calamidade pública”, provocando a devolução de 50 mil ingressos já comprados para os jogos. E para culminar, o prefeito Eduardo Paes passou a dar seguidas entrevistas dizendo que não há segurança na cidade e a Olimpíada é uma “oportunidade perdida”.

Em tradução simultânea, pode-se dizer que o Rio de Janeiro nem precisa de inimigos, porque seus próprios governantes se encarregam de destruir a imagem da cidade. E o fazem com um impressionante empenho.
Na chamada undécima hora, enfim apareceu um político de gabarito para defender a cidade, embora seja tarde demais, o mal já está feito. Em discurso a militares que irão compor as forças de segurança durante a Olimpíada no Rio de Janeiro, na sexta-feira, o ministro da Defesa Raul Jungmann criticou a “paranóia exacerbada pré-Olimpíada”. Voltou a afirmar que não há qualquer “ameaça consistente” de ação durante os Jogos, destacando que as Forças Armadas terão 22 mil militares no Rio durante evento, além dos efetivos da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Guarda Municipal.

Ressalve-se que Jungmann é um homem honrado, que está há décadas na política, já foi ministro duas vezes e não enriqueceu ilicitamente. Pelo contrário, sua declaração de renda revela que não tem casa própria, paga aluguel e seu único bem é um automóvel. Justamente por isso, merece ser ouvido com especial atenção.

Ao lançar essa operação escalafobética, as forças de segurança, sob o comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) , partiram do princípio de que essa iniciativa desestimulará quaisquer outros atos de terrorismo. Pode ser até que isso ocorra, mas é preciso raciocinar que se trata de fanáticos religiosos que não ligam para a vida. Pelo contrário, os islamistas têm prazer em morrer pela guerra santa, para encontrar a felicidade eterna. E se multiplicam como coelhos, quando se prende um deles, logo aparecem outros para substituí-lo.

Nesse quadro real, promover operações hollywoodianas para prendê-los com base na lei antiterrorismo, mas sem flagrante delito da tentativa de atentado (ou seja, por mero crime de opinião), não somente dificulta a acusação pelo Ministério Público, como também pode despertar, ainda mais, a ira dos mais fanáticos. É aí que mora o perigo.

'Não queria destruir a presidente Dilma'

O publicitário João Santana queria proteger Dilma Rousseff. Compreensível. Afinal, sua cliente já tinha pago US$ 4,5 milhões por fora a ele, o mago das campanhas enganosas do PT. Seu roteiro na TV havia pintado o Brasil de rosa, azul e o escambau. “Eu que ajudei, de certa forma, a eleição dela, não seria a pessoa que iria destruir a presidente”, disse enfim João Santana em depoimento ao juiz Sergio Moro.

Por que sua delação a destruiria? Porque apenas começava o processo de impeachment quando o publicitário e sua mulher, Mônica Moura, foram detidos. E porque esses milhões de dólares não eram apenas caixa dois. Tinham sido pagos por um lobista, em conta não declarada na Suíça, e sua origem era criminosa. Os milhões de dólares vinham de propinas em contratos da Petrobras.

Marqueteiro joao santana admitiu o uso de caixa 2 na campanha de dilma terror tv sergio moro susto medo panico

Segundo a Lava Jato, esse pagamento à propaganda política de Dilma foi desviado de um contrato fechado por um estaleiro para construir uma plataforma. Nem vou listar aqui todos os coadjuvantes porque ninguém mais consegue acompanhar o novelo de nomes e números, dignos de uma saga de Gabriel García Márquez. O que importa é: o mago caiu, a mulher do mago também, e ambos mentiram para proteger Dilma e a própria pele. Agora, caíram na real e tentam passar a imagem de bonzinhos e leais.

Antes de mentir para proteger Dilma, João Santana usou seu talento de publicitário para pintar a presidente como alguém que ela nunca foi, pintar a realidade brasileira de cores que escondessem a cor de burro quando foge e, assim, mentir ao eleitorado. Publicidade sem compromisso com a realidade deveria ser crime. Mas é, não é? Na televisão, o país editado por efeitos especiais é escandaloso. Num Brasil que lê pouco, por falta de instrução e de hábito, e onde o voto é compulsório, a tal propaganda política “gratuita” deveria ser sujeita a um crivo rigoroso para ir ao ar.

Não se trata de uma caça macarthista aos publicitários. Os clientes mandam, eles fazem. É só isso? Não. No caso de políticos, eles recriam os personagens, os cenários. Eles inventam. Eles convencem. Eles mostram como manipular o voto. Não consigo achar nada disso ético. E, ainda por cima, ganham uma fortuna, em dólares, que escondem fora do país. João Santana se arrepende.

Embora não tenha admitido conivência com “uma trapaça”, como perguntou Moro, o publicitário agora se penitencia. Receber pagamento no caixa dois ou “por fora” é sim, segundo João Santana após refletir na prisão, um “constrangimento profundo”, “um risco”, “um ato ilegal”. Um crime, não é mesmo? Chamando as coisas pelo nome. Só que era difícil para o PT de Dilma anunciar publicamente quanto estava pagando a seu “construtor de imagem” para vencer a eleição.

No início, João Santana e a mulher, aquela mesma que sorriu mascando chiclete ao ser presa, em atitude debochada, combinaram dizer aos investigadores que esses milhões de dólares eram de campanhas eleitorais feitas no exterior. Queriam evitar o que chamaram de “um grave problema” para Dilma, a honesta como nunca antes na história. Aquela por quem os militantes cegos botam a mão no fogo, a que não cometeu nenhum crime, a mãe dos deserdados, dos sem-­teto, dos famintos – alguém ainda alardeia isso por convicção, sem ganhar milhões de patrocínio em troca?

João Santana acha que foi apanhado como bode expiatório. Denuncia a hipocrisia que crucifica a ele e a mulher, num país em que, segundo o publicitário, 98% das campanhas políticas no Brasil usam caixa dois. Por que só o casal está preso por isso? “Eu tinha consciência de uma prática ilegal. Dinheiro sujo, jamais. Caixa dois não é necessariamente caso de corrupção”, disse Santana ao juiz Moro. Na hora de eleição, sem vigilância apropriada, “ou faz a campanha dessa forma ou não se faz”.

Caixa dois é prática disseminada não só entre políticos, mas em “todas as camadas sociais e dezenas de profissões que recebem por fora”, disse João Santana. Aí sim. É a pura verdade. O publicitário bota o dedo numa ferida gigantesca. “A fila poderia ser fotografada de satélite”, afirmou o ex-mago do PT. “Iria de Brasília a Manaus.” Em campanhas políticas eleitorais, porém, é difícil o caixa dois ser imaculado. João Santana não é iniciante nem ingênuo. Deveria saber desse detalhe ou nem se importar com a origem.

Oficialmente, o PT pagou R$ 170 milhões em campanhas entre 2006 e 2014. Se pagou milhões de dólares por fora, é porque não podia declarar. Se não podia declarar, é porque era sujo. O desvio do desvio do desvio. Mas Dilma não cometeu nenhum crime. Não sabia de nada. Tampouco sabia Lula, aliás líder, segundo as pesquisas do Datafolha, nas intenções de voto no primeiro turno da eleição presidencial de 2018. Quem será o mago do PT nessa disputa? Foram todos presos. Viraram delatores e traidores.

Revista turbinada em aeroportos tem efeitos duvidosos

Um de meus vieses humanos favoritos é a ilusão de controle —a tendência de superestimar nossa capacidade de comandar o curso dos acontecimentos. É uma característica particularmente interessante de nossa espécie porque, apesar de nos impelir a uma avaliação objetivamente errada da realidade, em muitas situações produz consequências positivas, ao fazer com que perseveremos em vez de desistir à primeira dificuldade.

A fiscalização reforçada nos aeroportos, que o Brasil resolveu expandir para voos domésticos às vésperas da Rio-2016, me parece uma resposta mais em linha com nossa vontade de estar no controle do que com os ditames de eficácia. A maioria de nós não pensa duas vezes antes de apoiar esse tipo de medida, que, afinal, visa a nos manter vivos e em um único pedaço, como é conveniente. O problema é que não dá para pensar esse tipo de questão em termos absolutos. Tudo em sociedade é uma solução de compromisso entre o ideal e as necessidades práticas. Quantas horas-passageiro a mais na fila estamos dispostos a aguentar para evitar um ataque? E será que a revista rigorosa frustra mesmo atentados?

Iotti: muito perigoso Iotti/Agencia RBS

Para alguns especialistas, seu efeito mais notável é deslocar o local do ataque. Em vez de ocorrer a bordo do avião, ele acontece no saguão, como vimos em Istambul e Bruxelas. E por que limitar-se ao setor aéreo? Se as coisas ficam difíceis nos aeroportos, é possível mudar para alvos mais fáceis, como transportes de massa (Madrid, Londres), lugares de diversão pública (Orlando, Paris) ou mesmo aglomerações (Nice). Obviamente, não dá para revistar cada indivíduo que entra no metrô ou vai para a rua.

A melhor estratégia para evitar ataques ainda é o monitoramento de suspeitos por serviços de inteligência, que está longe de infalível. A verdade, por mais depressivo que seja reconhecê-lo, é que, fora da esfera do marketing, nosso controle é mais limitado do que imaginamos.

A nação precisa de um tempo para se refazer do legado lulopetista

Aos poucos, vão sendo recolhidos os escombros deixados pelo lulopetismo, que pode retornar. Um dos males está na reeleição, tal como implantada no Brasil. Ao menos, que se adotasse o critério norte-americano: quem, por dois mandatos, recebeu a maior honraria nacional deve afastar-se para sempre da luta política para servir de reserva do país, numa espécie de conselho informal da nação, nos momentos mais difíceis de sua caminhada histórica.

Aliás, nem mesmo o regime militar cogitou da reeleição, no interesse próprio de não provocar uma ruptura, no âmbito das ambições presidenciais, e, afinal, cair no cisma e na própria derrubada. Logo, do ponto de vista do proveito da aliança militar-tecnocrática-empresarial, que abominava a democracia representativa e o Estado de direito, havia coerência no repúdio à reeleição. Naquele esquema, essa peça, conquanto ameaçasse o pacto, costumava aflorar, sob o argumento de endurecer ainda mais o regime estabelecido.

Ademais, sabiamente os norte-americanos mostraram-se prudentes em analisar as distorções suscitadas pelo instituto da reeleição, sem limite no tempo, mesmo para um povo amadurecido pela dinâmica de uma democracia política já praticada há muito tempo. Quando o grande presidente Roosevelt recebeu o quarto mandato, as lideranças congressuais, assustadas com o fato, embora justificado pelos duros tempos de guerra enfrentados, cuidaram logo de revogar o permissivo constitucional que tolerava reeleições sucessivas e ilimitadas para, por meio de emenda à Constituição, restringi-las apenas ao segundo mandato.

Aliás, a história sempre ensina. Entre nós, e imprudentemente, a emenda constitucional ao texto promulgado em 1988, aprovada na ânsia ilusória de manter o PSDB pelo menos 20 anos no poder, silencia sobre a questão, o que significa consentir reeleições teoricamente sem limites, quando, entre estas, se cumpra pelo menos um mandato de outro concorrente.

Em outras palavras, reeleito uma vez, o ex-presidente não pode retornar ao cargo. Não sendo assim, os sábios do PSDB poderão ter de competir com o ex-presidente Lula em 2018. Enfatizo o comentário porque considero o sr. Lula e seu partido o maior mal que ameaça o Brasil em futuro próximo.

No quadro de absoluta ausência de lideranças políticas, até o deputado Eduardo Cunha pode renascer e quiçá voltar a presidir a Câmara dos Deputados. Está na rota das obviedades, considerando o sistema eleitoral e partidário que temos e o fácil esquecimento do corpo eleitoral dos profundos danos causados por mandatários infiéis; portanto, não surpreenderá os mais experimentados que o populismo, a incompetência e a mentira dos deslocados do poder retomem o espaço central de que se julgaram donos.

Sou realista: o campo poderá estar aberto para o narcisista Lula. Sua intensa movimentação coincide com o desejo perverso de voltar. Não creio que dele venha qualquer gesto de trégua. Nossa cambiante história é testemunha da persistência desse político cujo verdadeiro compromisso é com a satisfação de seu apetite pela manipulação do poder. Daí, não admitirá qualquer indenização pelos estragos feitos por si e por sua despreparada e incompetente sucessora. Arrasaram o país, que só ressuscitará das cinzas com um “risorgimento”. Enquanto isso, Lula, com os defeitos psíquicos, despreza os adversários. Se aparecerem, serão esmagados. É a lógica da ideologia: o primado é deles (o líder incontestável e seu partido); ao resto, a zurrapa.

Impõe-se evitar a tragédia.

Márcio Garcia Vilela

'Terrir', resposta brasileira ao terrorismo

Terrorismo, óbvio, é coisa séria. Bote sério nisso. As autoridades brasileiras, porém, que levam um olé diário dos PCC's bandeirantes e dos comandos cariocas, fazem lembrar, sob os holofotes bajuladores dos telejornais, o genial subgênero do cinema tupiniquim: o terrir, a mistura de terror com humor. O mestre da parada, o cineasta Ivan Cardoso, que perdoe este pusilânime fã e cronista diante de tão irresponsável comparação. Foi mal, amigo.

Um lobisomem cobiça o ouro olímpico?, indagaria o monstruoso Ivan, diretor deO Segredo da Múmia (1982), entre outras obras-primas. Suspense. Desculpa aí, Brasil Oficial q ue se leva a sério. Só rindo, mas o circo governista, policial, jurídico e midiático montado para caçar esses meninos do WhatsApp, precisa ser mais explicadinho, trocado em miúdos de pedagógicos sarapatéis paulofreirianos. Não convence uma pá de gente, mesmo uns cidadãos assustados que conheço em ambientes familiares. Em matéria de assombração, só o chupa-cabra explica a pátria mameluca!


O mais louco é que, depois da manchete à cabidela —tipo da notícia que vende o sangue de véspera igual ao cacarejo das galinhas que minha mãe matava no Cariri— os argumentos das autoritárias e argutas autoridades pareciam desmentir o perigo: são amadores, não têm conexão real com o Estado Islâmico, não dá para mencionar o grau de risco etc etc etc. Sem se falar na contradição entre o juiz que autorizou o cárcere e os nossos carecas da lei —evidentemente sem o charme do velho Kojak do seriado americano, of course.

E essa história de levar a molecada supostamente terrorista para lugar não-dito e não-sabido? Isso me lembra, caríssimo Ivan Cardoso, não o terrir, pois não tem graça, me lembra o terror —nada virtual ou cinematográfico— dos porões militares. No mínimo um resquício no inconsciente do governo em exercício ou do golpe em andamento, como preferir o generoso leitor deste panfletário colunista.
Pedagogia da esquina

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis, disse, me disse certamente, ontem à noite, o amanuense Belmiro. Pobre Belmiro, um desses escravos da burocracia de um escritório do centro. Conheci o sábio Belmiro, graças ao velhíssimo camarada Cyro dos Anjos, outro que bebe conosco aqui na esquina do Príncipe de Mônaco, ai de mim Copacabana.

No que, além do terrorismo diário do Rio de Janeiro, falamos também da chatice olímpica. As tropas, daqui a pouco, nos proíbem de mirar as bundas, Copacabana é farta em bundas de todos os gêneros. A escola do "terrir" sabiamente inclui o sexo, como terceiro elemento —error, humor e sacanagem, por supuesto.

Que triste tem ficado o Rio eternamente sequestrado pelos grandes eventos. Seja a Jornada da Juventude do papa Francisco, o fofo da eucaristia (pense numa cidade cara desde essa época!), seja a Copa do Mundo, ave, seja qualquer onda. E agora só faltava essa ameaça de terrorismo para uma gente que sabe o que é isso desde a Guerra Fria, no mínimo.

Na buena, esse povo cordial brasileiro, incluindo a nossa polícia exterminadora na periferia, já mata mais gente comum todo dia do que quaisquer célula islâmica. Vocês têm certeza que vêm ao nosso país, caros terroristas de verdade?

Xico Sá

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Exagero do bem

Funcionários estavam roubando comida dos estoques e do restaurante estudantil da Universidade Federal de Viçosa. Isso mesmo: pacotes de arroz, sacos de batatas, latas de suco etc. E já que estavam com a mão na massa, levavam também para suas casas rolos de papel higiênico e produtos de limpeza. Mixaria, entretanto. Tudo somado, a Polícia Federal calcula que o roubo era de R$ 2 milhões ao ano, desde 2008 — logo, um assalto de R$ 16 milhões. Comparado com os números do petrolão, é dinheiro de troco. Mesmo assim, a Polícia Federal fez uma operação pesada. Às 6 da manhã de ontem, 70 agentes federais, com aquelas camionetes pretas, entraram no campus para cumprir mandados de prisão e outros de condução coercitiva. Já traziam funcionários apanhados em suas casas.

A operação, também ao estilo clássico da PF, ganhou um nome, “Recanto das Cigarras” — um aprazível lugar do campus, onde provavelmente os ladrões de comida descansavam à sombra, chupando um picolé do estoque.

Dirão: exagero da PF. Afinal, são delinquentes do baixo escalão, levando coisa pouca, não tinham como fugir, para que todo aquele espalhafato?

Mas reparem: os caras roubavam a comida subsidiada dos estudantes de uma universidade pública. Levavam dinheiro do contribuinte de duas formas, no salário e no assalto. Pagos para prestar serviço público, levavam arroz do povo para suas casas, nos porta-malas de seus carros, estacionados de graça ao lado dos depósitos.

O que pode ser mais exagerado?

Políticos sob suspeita, políticos com medo, não estão preocupados com roubo de comida. Mas estão dizendo que a força-tarefa da Lava-Jato exagera nas suas operações e vai além dos limites nos seus métodos.

E ficaram horrorizados com as Dez Medidas Contra a Corrupção, um conjunto de leis proposto pelo Ministério Público Federal e encaminhado ao Congresso Nacional com 2,5 milhões de assinaturas. O pacote tem um objetivo determinado: endurecer o combate à corrupção.

Em vez disso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou a disposição de colocar em votação o quanto antes um outro projeto, que define e pune diversas modalidades de abuso de autoridade.

Define como abuso, por exemplo, “ofender a intimidade, a vida privada, a honra ou a imagem da pessoa indiciada em inquérito policial”.

Parece fazer sentido, mas esses tipos de ofensa já estão previstos na lei. Ninguém pode fazer aquelas coisas, muito menos sendo uma autoridade.

Ou seja, considerado o momento, aquela definição vem a calhar para criminalizar as espalhafatosas operações da PF. Setenta agentes da PF para prender dois ladrões de comida em suas casas, na frente de seus familiares? Ou para prender um ex-ministro na frente de seus filhos? Ou um pacato empresário? Ou um eleito pelo povo?

Sim, há abuso de autoridade no Brasil. Por exemplo: em greve, auditores fiscais da Receita Federal retêm mercadorias importadas e, com isso, impõem prejuízos a pessoas e empresas. Outro: deputados e senadores que usam a autoridade de seus cargos para afastar a ação da polícia e da Justiça. Se não fosse senador, Renan Calheiros conseguiria adiar por anos o desfecho dos seus vários inquéritos e processos? Até conseguiria, se tivesse dinheiro para bons advogados.

Charge O Tempo 20/07/2016

Pesquisas mostram que o criminoso, tirante os casos passionais, claro, sempre calcula a relação custo/benefício. Quanto menor a chance de o cara ser apanhado, maior a criminalidade.

O Brasil é prova disso. A corrupção vai dos bilhões da Petrobras ao roubo de comida na universidade de Viçosa. E a impunidade não é só para os casos de assalto aos cofres públicos. Leis e práticas processuais favorecem amplamente qualquer acusado ou réu que possa pagar por uma boa defesa.

Na ditadura militar, a autoridade oprimia a sociedade civil de maneira ampla e irrestrita. A polícia prendia sem mandado. O governo censurava a imprensa, fechava o Congresso, editava leis. Reclamar de qualquer agente público era uma temeridade.

Na virada para a democracia, tratou-se de garantir a liberdade e os direitos do indivíduo. O que tinha mesmo que ser feito.

Mas algo deu errado. De um lado, há flagrantes abusos de autoridade, especialmente contra os mais pobres e os desprovidos de poder. De outro, criminosos de alto escalão têm infinitos meios de escapar da Justiça.

Os exageros da Lava-Jato permitiram apanhar alguns desses criminosos e, sobretudo, expuseram as falhas do sistema.

O momento é de endurecer o combate à corrupção.

Carlos Alberto Sardenberg 
Pokemon go chega ao brasil congresso corrupton go celular B