quinta-feira, 16 de junho de 2016
Hiroshima, meu amor
Alguns políticos acreditam que, após as delações de Marcelo Odebrecht, Léo Pinheiro e Sérgio Machado, não restará muita informação a ser revelada pela Operação-Lava Jato. Por quê?
A lógica por trás do raciocínio é a seguinte: no petrolãonão existiria nada financeiramente mais importante do que as operações que envolveram Odebrecht, OAS e o então presidente da Transpetro. Qualquer outro evento no âmbito da Lava-Jato seria menor, pouco expressivo. Não creio.
Os desdobramentos dessa investigação ainda vão gerar muitas reflexões e consequências, destinadas a depurar o sistema político. Assim como o filme Hiroshima, meu amor, clássico de Alain Resnais de 1959 sobre a tragédia de Hiroshima, na Segunda Guerra, mostrou o dilema, anos depois, de personagens prisioneiros de uma vida sem perspectivas.
O certo é que, num primeiro momento, a combinação das três delações mencionadas vai implodir o ex-presidente Lula, a presidente afastada Dilma Rousseff, ex-ministros do PT, caciques do PMDB, entre outros. Será uma imensa devastação que desfigurará a política nacional, tal como aconteceu com Hiroshima há 71 anos. E depois? O que acontecerá?
O passo seguinte será a digestão do escândalo por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo andamento da Lava-Jato, em Curitiba, já condenou mais de 100 pessoas, o STF avança em ritmo prudente. Aqui e ali, por causa do absurdo da situação, ocorre uma decisão mais aguda, a exemplo da prisão do então senador Delcídio do Amaral e do afastamento do deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara.
Está muito claro que o Supremo não quer atravessar o sinal do ponto de inflexão institucional antes que se defina a situação de Dilma Rousseff. Até lá, as emoções serão mais pontuais do que processuais. E talvez deva ser assim mesmo.
No entanto, entre o hoje e o amanhã, teremos as três delações, todas com alto poder de destruição. O que vai acontecer? Primeiro, devemos considerar que os principais partidos políticos do país vão sair estropiados do processo, com desfalque de lideranças. Depois, após a definição do impeachment, um processo de depuração será deflagrado pelas investigações do STF. Qual será o alcance desse processo? Não sabemos.
O certo é que nada será como antes. Política e eleições não serão as mesmas. A elevação dos padrões será decisiva, ainda que nem tudo deva melhorar de uma hora para outra. Mas as decisões do STF permanecerão, por um bom tempo, como radioatividade, corroendo as entranhas do sistema político nacional.
A lógica por trás do raciocínio é a seguinte: no petrolãonão existiria nada financeiramente mais importante do que as operações que envolveram Odebrecht, OAS e o então presidente da Transpetro. Qualquer outro evento no âmbito da Lava-Jato seria menor, pouco expressivo. Não creio.
Os desdobramentos dessa investigação ainda vão gerar muitas reflexões e consequências, destinadas a depurar o sistema político. Assim como o filme Hiroshima, meu amor, clássico de Alain Resnais de 1959 sobre a tragédia de Hiroshima, na Segunda Guerra, mostrou o dilema, anos depois, de personagens prisioneiros de uma vida sem perspectivas.

O passo seguinte será a digestão do escândalo por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo andamento da Lava-Jato, em Curitiba, já condenou mais de 100 pessoas, o STF avança em ritmo prudente. Aqui e ali, por causa do absurdo da situação, ocorre uma decisão mais aguda, a exemplo da prisão do então senador Delcídio do Amaral e do afastamento do deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara.
Está muito claro que o Supremo não quer atravessar o sinal do ponto de inflexão institucional antes que se defina a situação de Dilma Rousseff. Até lá, as emoções serão mais pontuais do que processuais. E talvez deva ser assim mesmo.
No entanto, entre o hoje e o amanhã, teremos as três delações, todas com alto poder de destruição. O que vai acontecer? Primeiro, devemos considerar que os principais partidos políticos do país vão sair estropiados do processo, com desfalque de lideranças. Depois, após a definição do impeachment, um processo de depuração será deflagrado pelas investigações do STF. Qual será o alcance desse processo? Não sabemos.
O certo é que nada será como antes. Política e eleições não serão as mesmas. A elevação dos padrões será decisiva, ainda que nem tudo deva melhorar de uma hora para outra. Mas as decisões do STF permanecerão, por um bom tempo, como radioatividade, corroendo as entranhas do sistema político nacional.
Retratos da nossa ignorância
O Brasil conta com cerca de 50 milhões de analfabetos ou analfabetos funcionais. Isso significa que um em cada três brasileiros adultos não sabe ler ou, quando consegue, não é capaz de compreender o conteúdo de um texto simples. Mesmo entre aqueles considerados alfabetizados impera a ignorância. Pesquisa recente, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, apontou que, na média, lemos 4,9 livros por ano (um número pequeno e ainda assim enganoso, já que, deste total, apenas 2,4 livros são terminados; o restante é lido apenas em parte). Além disso, apenas 7% da população lê jornais diariamente, já levando em consideração o acesso à informação digital.
A falta de tempo aparece como o principal argumento dos entrevistados para não ler (32%). No entanto, uma outra pesquisa, da NOP World Culture Score Index, mostra que os brasileiros dedicam cinco horas e 12 minutos semanais à leitura contra 18 horas e 15 minutos à televisão, 17 horas ao rádio e 10 horas e 30 minutos à internet (no caso, com navegação sem fins profissionais). Antes dos livros, os brasileiros preferem reunir-se com amigos ou família (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%) e usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).
Mas o mais estarrecedor é que, se a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constata, de um lado, a falência completa do nosso sistema educacional, de outro revela o crescimento atordoante do fundamentalismo religioso. A maioria absoluta das justificativas dos entrevistados para não ler estão relacionadas à baixa escolaridade — não gosta (28%), não tem paciência (13%), tem dificuldade (9%) e não sabe ler (20%). Esse quadro desolador ainda é agravado ao acrescentarmos dados de leitura específicos dos professores. Quando indagados sobre o título do último livro lido, metade deles simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.
A Bíblia aparece muito à frente entre as preferências dos entrevistados, em todas as classes sociais, faixas etárias e de escolaridade. Na lista dos mais citados surgem alguns poucos escritores — geralmente leitura obrigatória na escola, como Machado de Assis e Graciliano Ramos —, e autores de autoajuda (como Augusto Cury) e de entretenimento (como Paulo Coelho e John Green), mas a supremacia absoluta é de nomes ligados à divulgação religiosa. Os mais lembrados são João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia utilizada pelos evangélicos), Zíbia Gasparetto, Allan Kardec e Chico Xavier (espíritas), padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo (católicos ligados à corrente carismática), Edir Macedo e sua filha Cristiane Cardoso (Igreja Universal) e Ellen G. White (Igreja Adventista).
A falta de tempo aparece como o principal argumento dos entrevistados para não ler (32%). No entanto, uma outra pesquisa, da NOP World Culture Score Index, mostra que os brasileiros dedicam cinco horas e 12 minutos semanais à leitura contra 18 horas e 15 minutos à televisão, 17 horas ao rádio e 10 horas e 30 minutos à internet (no caso, com navegação sem fins profissionais). Antes dos livros, os brasileiros preferem reunir-se com amigos ou família (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%) e usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).
Mas o mais estarrecedor é que, se a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constata, de um lado, a falência completa do nosso sistema educacional, de outro revela o crescimento atordoante do fundamentalismo religioso. A maioria absoluta das justificativas dos entrevistados para não ler estão relacionadas à baixa escolaridade — não gosta (28%), não tem paciência (13%), tem dificuldade (9%) e não sabe ler (20%). Esse quadro desolador ainda é agravado ao acrescentarmos dados de leitura específicos dos professores. Quando indagados sobre o título do último livro lido, metade deles simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.
A Bíblia aparece muito à frente entre as preferências dos entrevistados, em todas as classes sociais, faixas etárias e de escolaridade. Na lista dos mais citados surgem alguns poucos escritores — geralmente leitura obrigatória na escola, como Machado de Assis e Graciliano Ramos —, e autores de autoajuda (como Augusto Cury) e de entretenimento (como Paulo Coelho e John Green), mas a supremacia absoluta é de nomes ligados à divulgação religiosa. Os mais lembrados são João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia utilizada pelos evangélicos), Zíbia Gasparetto, Allan Kardec e Chico Xavier (espíritas), padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo (católicos ligados à corrente carismática), Edir Macedo e sua filha Cristiane Cardoso (Igreja Universal) e Ellen G. White (Igreja Adventista).
Onde o Estado falha, viceja a ignorância. Nenhum de nossos governantes — chamem-se eles José Sarney, Fernando Henrique Cardoso ou Luiz Inácio Lula da Silva — empenhou-se, de verdade, na melhoria do nosso sistema educacional. No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária. O resultado é esse: cada vez mais exacerbamos nosso egoísmo (traduzido em nossa incapacidade de agirmos no interesse da comunidade), nossos preconceitos (visíveis no machismo, no racismo, na homofobia, na xenofobia), nossa intolerância (perceptível na violência urbana, na passionalidade com que defendemos opiniões).
Pouco a pouco, o Brasil vai se tornando território do pensamento radical. Não só pelo grau nunca antes alcançado de representatividade religiosa no Congresso e, mais particularmente, no Governo do presidente interino Michel Temer (sejam evangélicos, protestantes ou católicos), como também pelas posições assumidas por intelectuais e formadores de opinião, autodenominem-se eles de esquerda ou de direita, que vêm fomentando o ódio e o fanatismo. É preocupante quando descobrimos que 74% da população adulta não adquiriu livros nos últimos três meses e 30% nunca comprou um livro em toda a sua vida. E é assustador quando contatamos que, aqueles poucos que leem, colocam um livro como “A verdade sufocada”, do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, entre os mais vendidos do país... Há algo muito estranho acontecendo por aqui...
Pouco a pouco, o Brasil vai se tornando território do pensamento radical. Não só pelo grau nunca antes alcançado de representatividade religiosa no Congresso e, mais particularmente, no Governo do presidente interino Michel Temer (sejam evangélicos, protestantes ou católicos), como também pelas posições assumidas por intelectuais e formadores de opinião, autodenominem-se eles de esquerda ou de direita, que vêm fomentando o ódio e o fanatismo. É preocupante quando descobrimos que 74% da população adulta não adquiriu livros nos últimos três meses e 30% nunca comprou um livro em toda a sua vida. E é assustador quando contatamos que, aqueles poucos que leem, colocam um livro como “A verdade sufocada”, do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, entre os mais vendidos do país... Há algo muito estranho acontecendo por aqui...
País entregue a morcegos
A mais absurda tarefa do brasileiro neste tempos é descobrir o Brasil. Onde, afinal, enfiaram o país?
Certo é que o Brasil não está, em nenhum momento, na cabeça de políticos nem mesmo nas instituições à procura de ética. Muito menos estará nas ongs ditas sociais, nos sindicalistas de meia sola, na turma do meu pirão primeiro.
O Brasil ficou para escanteio e parece não haver gandula disposto a colocar a bola novamente em jogo. Culpa do juiz? Bem pode ser, mas é mais provável ser da falta de juízo da canalhada e da vergonha na cara que principalmente as "zelites" quadrilheiras exibem com altivez de medícores.
Dia a dia o noticiário é sempre o mesmo de envolvidos em processos afirmarem inocência de mãos em prece. Ninguém pegou dinheiro, as doações sempre foram legais, não sabe desde criancinha o que é propina, enfim, uma inocência generalizada de escárnio ao sofrimento de milhões.
Em meio a uma crise com milhões de desempregados, empresas e comércio fechando, milhões endividados, fazendo economia até em mercadinho, chovem fortunas de propinas de fulano a sicrano, até "mesadas" milionárias de dinheiro público para bolsos sempre assistidos pelo poder.
A elite política e as "zelites" apadrinhadas a quem nunca faltou a asssistência dos governos em gordos salários e aviltantes auxílios, como a insultante "quarentena" distribuída à companheirada, insistem em chafurdar em negativas de que são inocentes.
Diante de um noticiário de uma depressão, continuam a usufruir das regalias que o dinheiro do contribuinte lhes concedeu. Se banqueteiam como a nobreza dos déspotas, sobre os doentes, os velhos, as crianças, os mortos, e o suor dos trabalhadores. São os vorazes modernos do sangue, do corpo e da alma alheia. A nova classe que suga o país como gado no pasto infestado de morcegos.
Certo é que o Brasil não está, em nenhum momento, na cabeça de políticos nem mesmo nas instituições à procura de ética. Muito menos estará nas ongs ditas sociais, nos sindicalistas de meia sola, na turma do meu pirão primeiro.
O Brasil ficou para escanteio e parece não haver gandula disposto a colocar a bola novamente em jogo. Culpa do juiz? Bem pode ser, mas é mais provável ser da falta de juízo da canalhada e da vergonha na cara que principalmente as "zelites" quadrilheiras exibem com altivez de medícores.
Em meio a uma crise com milhões de desempregados, empresas e comércio fechando, milhões endividados, fazendo economia até em mercadinho, chovem fortunas de propinas de fulano a sicrano, até "mesadas" milionárias de dinheiro público para bolsos sempre assistidos pelo poder.
A elite política e as "zelites" apadrinhadas a quem nunca faltou a asssistência dos governos em gordos salários e aviltantes auxílios, como a insultante "quarentena" distribuída à companheirada, insistem em chafurdar em negativas de que são inocentes.
Diante de um noticiário de uma depressão, continuam a usufruir das regalias que o dinheiro do contribuinte lhes concedeu. Se banqueteiam como a nobreza dos déspotas, sobre os doentes, os velhos, as crianças, os mortos, e o suor dos trabalhadores. São os vorazes modernos do sangue, do corpo e da alma alheia. A nova classe que suga o país como gado no pasto infestado de morcegos.
O que está faltando ao Brasil
A crise econômica e moral que se abateu sobre o País despertou nos brasileiros reservas de ativismo cívico por muito tempo ausentes da nossa vida política. Desde março de 2015 até maio deste ano, multidões saíram às ruas, repetidas vezes, de modo pacífico e espontâneo, em protesto contra a ruína da economia, a predação de nossas melhores empresas públicas e o abandono do interesse público por grande parte do sistema político.
As instituições do Estado de Direito funcionaram apropriadamente e os Poderes Judiciário e Legislativo promoveram uma saída constitucional para a crise, fiéis aos rigores formais da lei, mas sensíveis, também, à vontade majoritária da Nação.
Felizmente, a população brasileira reagiu de modo maduro e sereno ao desfecho da crise política. Provou que a Nação não está dividida e que os inconformados constituem parcela minoritária da sociedade. Só chegamos ao ponto de apoiar e exigir o impedimento da presidente da República porque o estado da economia atingiu um limite insustentável. Ficou claro para todos que o principal responsável por tudo foi o governo, em alguns casos a falta de um governo efetivo.
Os setores produtivos tiveram papel ativo no processo. Coadjuvaram, no tempo próprio, com as iniciativas e manifestações nas cidades, não porque reivindicassem qualquer protagonismo de natureza puramente política – o que não lhes cabia –, mas porque perceberam que a desintegração progressiva do ambiente econômico acabaria por destruir a capacidade de produção do País. Uma vez concluído o processo, industriais, comerciantes e agricultores voltam, agora, ao trabalho, para cumprir o seu papel natural na vida da Nação.
Restam diante de nós os imensos problemas que nos foram legados. O caminho de volta ao equilíbrio fiscal, ao crescimento econômico e à regeneração da vida pública, tudo o que foi perdido, vai demandar remédios amargos, para os quais não sabemos, ainda, se a sociedade está totalmente preparada. Pode haver reações que cheguem ao limiar de conflitos sociais.
A maior parte das medidas necessárias precisará da ação do sistema político e das Casas do Parlamento. O esgotamento da capacidade fiscal do Estado, que é o responsável pela recessão econômica e a alta inflação, só pode ser corrigido por medidas legislativas e emendas constitucionais, que atingem interesses constituídos. A maior ou menor resistência da sociedade a essas mudanças dependerá de como o processo for conduzido pela classe política.
Se deputados e senadores forem capazes de, por um momento, deixar de lado a lógica dos seus interesses particulares, especialmente os de ordem eleitoral, e se dispuserem a discutir e construir um caminho para o futuro, nosso país poderá ter a esperança de reencontrar um destino de progresso e justiça.
O governo em exercício tem mostrado que reconhece e compreende os problemas que tem pela frente. A proposta de estabelecer um teto nominal para as despesas dos exercícios fiscais, limitado apenas à inflação do ano anterior, sem nenhum crescimento real, é um remédio duro, para o qual não há alternativas. O grande teste será a sua apreciação pelo Congresso Nacional. Em breve, os interesses organizados saltarão sobre as bancadas parlamentares, para que sua parte no bolo fiscal seja excluída dos tetos e das restrições.
O orçamento fiscal é, hoje, a grande arena em que se exprimem os conflitos distributivos. Todos têm seus bons motivos, mas nenhum tem razão neste momento. Se não for restaurado um equilíbrio duradouro nas contas públicas, caminharemos para um desastre geral, que arruinará todos.
Não é fácil ser otimista. O sistema político está em muito mau estado. Conseguimos a proeza de ter mais de 30 partidos, quase totalmente indiferenciados e com os quais o Poder Executivo tem de se articular em termos pragmáticos, já que não há questões de princípios em jogo. Construir uma pauta unificadora e negociar em questões exclusivamente de mérito é cada vez mais raro e difícil.
Nossa democracia, apesar de vibrante e autêntica, em virtude dos defeitos do sistema eleitoral, não tem produzido líderes capazes de agregar e formular agendas transformadoras, com amplo apoio popular. O sistema político acaba funcionando por impulsos, respondendo apenas a emergências, sem condições de resistir a pressões corporativistas e de interesses mais bem organizados.
Reconheço, com tristeza, que uma geração inteira já foi sacrificada. Passada mais uma emergência institucional, todos temos razão em temer que a política brasileira volte, mais uma vez, ao seu lugar de sempre e não dê aos brasileiros a oportunidade de sonhar com realizações mais altas, que a nossa riqueza natural e o nosso povo nos permitem desejar.
A sociedade não se recolheu, para sempre, às suas casas e a seus locais de trabalho. Tendo chegado até aqui, ela não vai permitir que tanto esforço e esperança se dissipem no nada. A Nação espera que os seus representantes, malgrado as imperfeições e os vícios dessa representação, aprovem as medidas exigidas para reconduzir o País à normalidade.
Se os interesses políticos esvaziarem o conteúdo das reformas legislativas e patrocinarem falsas reformas, que não resolvem nada, a Nação, os trabalhadores e os empresários, jovens e adultos, brasileiros de hoje e do amanhã, terão o direito de reagir.
Passadas as emergências da crise econômica e social, os políticos devem à Nação uma reforma política que mude a natureza caótica da representação parlamentar e torne os agentes públicos – presidente, governadores, prefeitos e legisladores – mais responsáveis pelos seus erros e pelas suas ações.
Um sistema político mais justo e consequente não teria permitido que tantos agentes públicos tivessem errado tanto, durante tanto tempo. Se tudo isso acontecer, terão valido a pena os riscos e perigos que corremos.
João Martins da Silva Júnior
As instituições do Estado de Direito funcionaram apropriadamente e os Poderes Judiciário e Legislativo promoveram uma saída constitucional para a crise, fiéis aos rigores formais da lei, mas sensíveis, também, à vontade majoritária da Nação.
Felizmente, a população brasileira reagiu de modo maduro e sereno ao desfecho da crise política. Provou que a Nação não está dividida e que os inconformados constituem parcela minoritária da sociedade. Só chegamos ao ponto de apoiar e exigir o impedimento da presidente da República porque o estado da economia atingiu um limite insustentável. Ficou claro para todos que o principal responsável por tudo foi o governo, em alguns casos a falta de um governo efetivo.
Os setores produtivos tiveram papel ativo no processo. Coadjuvaram, no tempo próprio, com as iniciativas e manifestações nas cidades, não porque reivindicassem qualquer protagonismo de natureza puramente política – o que não lhes cabia –, mas porque perceberam que a desintegração progressiva do ambiente econômico acabaria por destruir a capacidade de produção do País. Uma vez concluído o processo, industriais, comerciantes e agricultores voltam, agora, ao trabalho, para cumprir o seu papel natural na vida da Nação.

A maior parte das medidas necessárias precisará da ação do sistema político e das Casas do Parlamento. O esgotamento da capacidade fiscal do Estado, que é o responsável pela recessão econômica e a alta inflação, só pode ser corrigido por medidas legislativas e emendas constitucionais, que atingem interesses constituídos. A maior ou menor resistência da sociedade a essas mudanças dependerá de como o processo for conduzido pela classe política.
Se deputados e senadores forem capazes de, por um momento, deixar de lado a lógica dos seus interesses particulares, especialmente os de ordem eleitoral, e se dispuserem a discutir e construir um caminho para o futuro, nosso país poderá ter a esperança de reencontrar um destino de progresso e justiça.
O governo em exercício tem mostrado que reconhece e compreende os problemas que tem pela frente. A proposta de estabelecer um teto nominal para as despesas dos exercícios fiscais, limitado apenas à inflação do ano anterior, sem nenhum crescimento real, é um remédio duro, para o qual não há alternativas. O grande teste será a sua apreciação pelo Congresso Nacional. Em breve, os interesses organizados saltarão sobre as bancadas parlamentares, para que sua parte no bolo fiscal seja excluída dos tetos e das restrições.
O orçamento fiscal é, hoje, a grande arena em que se exprimem os conflitos distributivos. Todos têm seus bons motivos, mas nenhum tem razão neste momento. Se não for restaurado um equilíbrio duradouro nas contas públicas, caminharemos para um desastre geral, que arruinará todos.
Não é fácil ser otimista. O sistema político está em muito mau estado. Conseguimos a proeza de ter mais de 30 partidos, quase totalmente indiferenciados e com os quais o Poder Executivo tem de se articular em termos pragmáticos, já que não há questões de princípios em jogo. Construir uma pauta unificadora e negociar em questões exclusivamente de mérito é cada vez mais raro e difícil.
Nossa democracia, apesar de vibrante e autêntica, em virtude dos defeitos do sistema eleitoral, não tem produzido líderes capazes de agregar e formular agendas transformadoras, com amplo apoio popular. O sistema político acaba funcionando por impulsos, respondendo apenas a emergências, sem condições de resistir a pressões corporativistas e de interesses mais bem organizados.
Reconheço, com tristeza, que uma geração inteira já foi sacrificada. Passada mais uma emergência institucional, todos temos razão em temer que a política brasileira volte, mais uma vez, ao seu lugar de sempre e não dê aos brasileiros a oportunidade de sonhar com realizações mais altas, que a nossa riqueza natural e o nosso povo nos permitem desejar.
A sociedade não se recolheu, para sempre, às suas casas e a seus locais de trabalho. Tendo chegado até aqui, ela não vai permitir que tanto esforço e esperança se dissipem no nada. A Nação espera que os seus representantes, malgrado as imperfeições e os vícios dessa representação, aprovem as medidas exigidas para reconduzir o País à normalidade.
Se os interesses políticos esvaziarem o conteúdo das reformas legislativas e patrocinarem falsas reformas, que não resolvem nada, a Nação, os trabalhadores e os empresários, jovens e adultos, brasileiros de hoje e do amanhã, terão o direito de reagir.
Passadas as emergências da crise econômica e social, os políticos devem à Nação uma reforma política que mude a natureza caótica da representação parlamentar e torne os agentes públicos – presidente, governadores, prefeitos e legisladores – mais responsáveis pelos seus erros e pelas suas ações.
Um sistema político mais justo e consequente não teria permitido que tantos agentes públicos tivessem errado tanto, durante tanto tempo. Se tudo isso acontecer, terão valido a pena os riscos e perigos que corremos.
João Martins da Silva Júnior
As únicas classes
Num estado democrático existem duas classes de políticos: os suspeitos de corrupção e os corruptosDavid Zac
Esquerda e direita querem saquear o Brasil
O fato de os deputados terem desfigurado a nova lei geral das estatais mostra que o Brasil ainda está muito longe de pensar em ser um país civilizado.
O governo queria desaparelhar e limpar as empresas, mas a Câmara manteve a boquinha nas diretorias para apadrinhados de parlamentares, partidos e sindicatos.
A conclusão é simples: os políticos e comparsas querem continuar roubando as estatais, porque as consideram sua propriedade exclusiva.
Esquerda e direita têm o objetivo comum de saquear o Brasil.
O Antagonista
O governo queria desaparelhar e limpar as empresas, mas a Câmara manteve a boquinha nas diretorias para apadrinhados de parlamentares, partidos e sindicatos.
A conclusão é simples: os políticos e comparsas querem continuar roubando as estatais, porque as consideram sua propriedade exclusiva.
Esquerda e direita têm o objetivo comum de saquear o Brasil.
O Antagonista
A Justiça no Brasil, inalcançável como fim
Tem sido assim através dos tempos: Cícero condena, Catilina é condenado. Rodrigo Janot pede a prisão, Teori Zavaski absolve Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney. Do lado de fora, patrícios e plebeus não entendem por que Eduardo Cunha recebeu cinco dias para provar sua inocência, depois de considerado culpado por seus julgadores.
A Justiça oscila entre os fundamentos do crime. A sociedade se divide diante deles tanto quanto os encarregados de julgá-los. Em cada cabeça uma sentença. Inocentes e culpados nivelam-se de acordo com a opinião dos que interpretam suas ações.
Haveria alternativa para substituir a dicotomia? Para aplicar os mesmos princípios em todos os julgamentos?
Enquanto não for encontrada uma solução equânime e uniforme (mas impossível e inviável porque todos os crimes diferem entre si em ações e motivações), haverá que conviver entre Cícero e Catilina, apesar das múltiplas razões de Rodrigo Janot e Teori Zavaski.
Em suma, emerge uma evidência: a Justiça é inalcançável como fim. Mas haverá alternativa?
A Justiça oscila entre os fundamentos do crime. A sociedade se divide diante deles tanto quanto os encarregados de julgá-los. Em cada cabeça uma sentença. Inocentes e culpados nivelam-se de acordo com a opinião dos que interpretam suas ações.
Haveria alternativa para substituir a dicotomia? Para aplicar os mesmos princípios em todos os julgamentos?
Enquanto não for encontrada uma solução equânime e uniforme (mas impossível e inviável porque todos os crimes diferem entre si em ações e motivações), haverá que conviver entre Cícero e Catilina, apesar das múltiplas razões de Rodrigo Janot e Teori Zavaski.
Em suma, emerge uma evidência: a Justiça é inalcançável como fim. Mas haverá alternativa?
O lugar de Dilma na história
Alguns historiadores brasileiros, cujo ofício é o de reconstituir o passado para entender o que somos no presente, estão com pressa de antecipar a história que será escrita no futuro. A aguerrida militância política desses intelectuais pretende transformar em versão oficial a conclusão de que a presidente Dilma Rousseff sofreu um golpe – e qualquer outra consideração será entendida como parte dessa conspiração.
Não haveria nenhum problema se os defensores dessa interpretação dos fatos fossem cidadãos sem qualquer responsabilidade sobre o que se ensina em sala de aula. No entanto, o que se tem hoje no Brasil é a formulação de uma espécie de pensamento único nas escolas e universidades – e a vanguarda desse pensamento é formada por historiadores muito bem posicionados na academia, local de onde pretendem difundir um discurso consensual segundo o qual só é democrático quem defende o mandato de Dilma.
No dia 7 passado, a presidente afastada recebeu um grupo desses profissionais, intitulado “Historiadores pela Democracia”. Ali, na melhor tradição dos intelectuais a serviço de partidos que se dizem revolucionários, eles prestaram homenagem não a Dilma – mera figurante dessa história e certamente detestada por muitos dos convidados –, mas sim ao lulopetismo, que lhes franqueou espaço privilegiado ao longo da última década.
Nesse período, esses intelectuais pretendiam aproveitar o sucesso eleitoral petista para tornar hegemônica a versão segundo a qual o PT e seus satélites transformaram o Brasil no paraíso da “justiça social”. Qualquer sinal da realidade que contrariasse esse discurso seria tratado como evidência do complô das “elites”, supostamente injuriadas com a transformação dos pobres em consumidores. Em troca do serviço prestado aos políticos, os intelectuais bajuladores do poder teriam a glória de ditar os termos da história, pregando o rótulo de “fascistas” nos colegas que ousassem denunciar o engodo do lulopetismo, isolando-os nas universidades como se fossem doentes cujo contato se deveria evitar.
Mas a democracia brasileira provou-se forte o bastante para implodir o edifício fraudulento que o PT de Lula e seus sequazes acadêmicos estavam erguendo. Quando o lulopetismo julgava ter encontrado a fórmula perfeita para se perpetuar no poder, comprando o Congresso e associando-se a empresários corruptos, eis que um punhado de procuradores, policiais federais e magistrados puxou o fio da meada e expôs ao País as entranhas do projeto do PT. Além disso, técnicos do Tribunal de Contas da União mostraram que o milagre econômico anunciado por Lula e Dilma estava assentado em grossa irresponsabilidade fiscal. O afastamento da presidente foi o desfecho lógico – e legítimo – desse empreendimento criminoso e autoritário.
Agora, com a história a lhes escorrer por entre os dedos, os “Historiadores pela Democracia” e seus congêneres, incapazes de aceitar a democracia, representada pelo respeito à Constituição, ainda tentam desesperadamente fazer prevalecer a tese da conspiração. “Sabemos que está em disputa, na sociedade, na mídia e no governo interino, a narrativa desse evento”, diz o manifesto desses historiadores, sem esconder, portanto, a intenção de moldar, desde já, a interpretação desse período no futuro.
Os signatários advertem os “historiadores do futuro” que não se fiem “na grande imprensa”, pois esta faz parte do “golpe”. E o tal “golpe”, dizem, “ameaça a continuidade das políticas que buscam a integração da população negra, pobre, indígena na sociedade brasileira” e “representa a força do passado na sociedade brasileira, com suas bandeiras de privilégio de classe, misoginia, racismo e corrupção”. Isso não é história, é má-fé.
O manifesto afirma, por fim, que “a história fará justiça” ao governo de Dilma. Se os historiadores do futuro seguirem o conselho do grande mestre desse ofício, Marc Bloch, que pedia a seus colegas apenas “honesta submissão à verdade”, esse julgamento já tem um veredicto: a absoluta desmoralização do lulopetismo.
Não haveria nenhum problema se os defensores dessa interpretação dos fatos fossem cidadãos sem qualquer responsabilidade sobre o que se ensina em sala de aula. No entanto, o que se tem hoje no Brasil é a formulação de uma espécie de pensamento único nas escolas e universidades – e a vanguarda desse pensamento é formada por historiadores muito bem posicionados na academia, local de onde pretendem difundir um discurso consensual segundo o qual só é democrático quem defende o mandato de Dilma.
Nesse período, esses intelectuais pretendiam aproveitar o sucesso eleitoral petista para tornar hegemônica a versão segundo a qual o PT e seus satélites transformaram o Brasil no paraíso da “justiça social”. Qualquer sinal da realidade que contrariasse esse discurso seria tratado como evidência do complô das “elites”, supostamente injuriadas com a transformação dos pobres em consumidores. Em troca do serviço prestado aos políticos, os intelectuais bajuladores do poder teriam a glória de ditar os termos da história, pregando o rótulo de “fascistas” nos colegas que ousassem denunciar o engodo do lulopetismo, isolando-os nas universidades como se fossem doentes cujo contato se deveria evitar.
Mas a democracia brasileira provou-se forte o bastante para implodir o edifício fraudulento que o PT de Lula e seus sequazes acadêmicos estavam erguendo. Quando o lulopetismo julgava ter encontrado a fórmula perfeita para se perpetuar no poder, comprando o Congresso e associando-se a empresários corruptos, eis que um punhado de procuradores, policiais federais e magistrados puxou o fio da meada e expôs ao País as entranhas do projeto do PT. Além disso, técnicos do Tribunal de Contas da União mostraram que o milagre econômico anunciado por Lula e Dilma estava assentado em grossa irresponsabilidade fiscal. O afastamento da presidente foi o desfecho lógico – e legítimo – desse empreendimento criminoso e autoritário.
Agora, com a história a lhes escorrer por entre os dedos, os “Historiadores pela Democracia” e seus congêneres, incapazes de aceitar a democracia, representada pelo respeito à Constituição, ainda tentam desesperadamente fazer prevalecer a tese da conspiração. “Sabemos que está em disputa, na sociedade, na mídia e no governo interino, a narrativa desse evento”, diz o manifesto desses historiadores, sem esconder, portanto, a intenção de moldar, desde já, a interpretação desse período no futuro.
Os signatários advertem os “historiadores do futuro” que não se fiem “na grande imprensa”, pois esta faz parte do “golpe”. E o tal “golpe”, dizem, “ameaça a continuidade das políticas que buscam a integração da população negra, pobre, indígena na sociedade brasileira” e “representa a força do passado na sociedade brasileira, com suas bandeiras de privilégio de classe, misoginia, racismo e corrupção”. Isso não é história, é má-fé.
O manifesto afirma, por fim, que “a história fará justiça” ao governo de Dilma. Se os historiadores do futuro seguirem o conselho do grande mestre desse ofício, Marc Bloch, que pedia a seus colegas apenas “honesta submissão à verdade”, esse julgamento já tem um veredicto: a absoluta desmoralização do lulopetismo.
Escrava dos poderes
O Brasil fica melhor sem Cunha, sem Lula e sem a esquerda acadêmica
Eu fico com a tal sensação da vergonha alheia a cada vez que o deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também presidente afastado da Câmara, nega a existência de provas de que tenha conta no exterior, ponto em que sua defesa também insiste.
Tenho paixão pelo direito, como sabem os que me leem. Muitos dos meus amigos são advogados — em número, talvez só percam para os médicos: o preço da hipocondria é a eterna vigilância, rsss… As novas gerações da minha família e das respectivas famílias de amigos caminham para o espírito das leis. Tendo a ser legalista e, como posso dizer?, literalista: se o texto legal é explícito, aplique-se; só vamos especular sobre as intenções do legislador se houver vazios nessa explicitação
Mas isso não significa, obviamente, um compromisso com a hipocrisia.
Quando o senhor Eduardo Cunha negou que tivesse conta no exterior, não estava se apegando a uma formalidade. Não se tratava de afastar de si a suspeita de que mantivesse em país estrangeiro uma conta corrente. O que ele estava dizendo aos brasileiros e aos eleitores é que não mantinha dinheiro no exterior. Se esse dinheiro — aquela coisa que compra feijão e com que se paga o açougue — estava na forma de conta corrente ou de um trust, a diferença é de uma irrelevância, também ela, escandalosa. O deputado mentiu.
Cunha não deixa de prestar um serviço ao Brasil. Nem ele se dá conta disso. De fato, e isto precisa ser reconhecido, ele teve um papel importante no desmonte do PT. E por quê? Roberto Jefferson, que não é um santo, interpretou o enigma: porque era preciso que houvesse alguém que jogasse tão bem o jogo que joga o partido. Cunha é o triunfo da falta de escrúpulos, da ausência de limites, do pragmatismo mais cego.
“E que serviço ele presta, Reinaldo?” Ele expõe de tal sorte o amoralismo da política que nos deixa enfarados, enfastiados, com o saco cheio. Cunha leva ao limite do insuportável as franjas da ética. De tal sorte ele relativiza o bem que, depois de algumas jornadas, o capeta fica parecendo um cara bacana porque, afinal, tem alguns princípios.
Não, senhores! Não é mero acaso que Cunha esteja caindo em desgraça junto com Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos sabem muito bem o nome do que praticam.
Há apenas uma diferença relevante entre eles: Cunha está indo para o buraco sem gerar fortuna crítica; sem um séquito de intelectuais uspianos a lhe lamber as botas. Lula vai para o lixo levando consigo boa parte da esquerda acadêmica.
Que bom! O Brasil fica melhor sem Cunha, sem Lula e sem a esquerda acadêmica!
'A madame mais honesta dos cabarés do Brasil'
O delator Sérgio Machado prestou 13 depoimentos à força-tarefa brasiliense da Lava Jato. Transcritas, suas revelações encheram 400 páginas. Cobrem de Temer a Aécio. Certos trechos só deveriam ser exibidos na tevê depois da meia noite. E vendidos em jornais envoltos em sacos plásticos. A política, como se sabe, é a segunda profissão mais antiga do mundo. Mas o ex-presidente da Transpetro demonstrou que, no Brasil, ela se parece muito com a primeira.
A certa altura, Machado referiu-se à Petrobras como “a madame mais honesta dos cabarés do Brasil''. Os inquiridores estranharam. E o depoente: “Era um organismo estatal bastante regulamentado e disciplinado''. A perver$ão é maior noutros órgãos, onde vigoram “práticas menos ortodoxas''. Machado empilhou exemplos: Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Docas, Banco do Nordeste, Fundação Nacional de Saúde, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas…
Lendo-se os depoimentos de Machado, percebe-se que a suruba estatal dos dias atuais é muito parecida com a de antigamente. A diferença é que o PT, ao deixar a história para cair na vida, esforçou-se demais para demonstrar que não estava imune às tentações alheias. Entregou-se com tal volúpia aos prazeres do poder despudorado, que expandiu demais a orgia e esqueceu de fechar a janela. Adorou as alianças esdrúxulas. E percebeu que a volta às origens, além de indesejada, era impossível. Castidade, como a virgindade, não dá segunda safra.
Noves fora a diferença de escala, o ex-tucano Sérgio Machado disse que desde 1946 havia um padrão segundo o qual os empresários incorporavam em seus orçamentos um certo “custo político” —eufemismo para o ‘por fora’, o ‘quanto eu levo nisso?’. Variava conforme o ente da federação: 3% do valor dos contratos firmados com o governo federal, 5% a 10% nos negócios fechados com governos estaduais e 30% nas transações municipais.
Nos bordeis do Estado, pratica-se a suruba às avessas. A Viúva paga para ser violada. Se a Petrobras é “a madame mais honesta”, imagine-se o que sucede nos outros cabarés. Machado disse ter repassado propinas a 23 políticos de seis partidos. Apenas para os pajés do PMDB, sua tribo, entregou mais de R$ 100 milhões durante os 12 anos em que presidiu o balcão da Transpetro.
Sob Machado, “madame” era especialmente dadivosa com seus padrinhos do PMDB do Senado: Renan (R$ 32 milhões), Lobão (R$ 24 milhões), Jucá (R$ 21 milhões), Sarney (R$ 18 milhões), Jáder (R$ 4,2 milhões)… No cabaré gerido por Machado, Renan tinha tratamento diferenciado. Chegou a morder uma mesada de R$ 300 mil. Em anos eleitorais, a cifra engordava.
Dilma não respeita delatores. Lula adomina vazamentos. Mas o petismo adorou a veiculação dos depoimentos de Sérgio Machado. Gostou especialmente do trecho em que ele contou que Michel Temer lhe pediu R$ 1,5 milhão em verbas de má origem, para a campanha paulistana de Gabriel Chalita, em 2012. “É a reversão do impeachment”, celebrou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), como se nada tivesse sido descoberto sobre o partido dele.
Se a Lava Jato ensinou alguma coisa foi o seguinte: quem tem telhado de vidro não deve criticar a permissividade do cabaré do lado. Vem daí o silêncio da banda muda do Congresso, que convive com Cunhas, Renans, Jucás, Jáderes e dezenas de etcéteras que privaram do prazer grupal propiciado pela “madame mais honesta dos cabarés do Brasil.” A política brasileira sobrevive porque não presta atenção às suas impossibilidades. Nesse meio, a desonestidade deixou de ser exceção. Tornou-se um estilo de vida.
A certa altura, Machado referiu-se à Petrobras como “a madame mais honesta dos cabarés do Brasil''. Os inquiridores estranharam. E o depoente: “Era um organismo estatal bastante regulamentado e disciplinado''. A perver$ão é maior noutros órgãos, onde vigoram “práticas menos ortodoxas''. Machado empilhou exemplos: Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Docas, Banco do Nordeste, Fundação Nacional de Saúde, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas…
Lendo-se os depoimentos de Machado, percebe-se que a suruba estatal dos dias atuais é muito parecida com a de antigamente. A diferença é que o PT, ao deixar a história para cair na vida, esforçou-se demais para demonstrar que não estava imune às tentações alheias. Entregou-se com tal volúpia aos prazeres do poder despudorado, que expandiu demais a orgia e esqueceu de fechar a janela. Adorou as alianças esdrúxulas. E percebeu que a volta às origens, além de indesejada, era impossível. Castidade, como a virgindade, não dá segunda safra.
Noves fora a diferença de escala, o ex-tucano Sérgio Machado disse que desde 1946 havia um padrão segundo o qual os empresários incorporavam em seus orçamentos um certo “custo político” —eufemismo para o ‘por fora’, o ‘quanto eu levo nisso?’. Variava conforme o ente da federação: 3% do valor dos contratos firmados com o governo federal, 5% a 10% nos negócios fechados com governos estaduais e 30% nas transações municipais.
| Miran Cartum |
Sob Machado, “madame” era especialmente dadivosa com seus padrinhos do PMDB do Senado: Renan (R$ 32 milhões), Lobão (R$ 24 milhões), Jucá (R$ 21 milhões), Sarney (R$ 18 milhões), Jáder (R$ 4,2 milhões)… No cabaré gerido por Machado, Renan tinha tratamento diferenciado. Chegou a morder uma mesada de R$ 300 mil. Em anos eleitorais, a cifra engordava.
Dilma não respeita delatores. Lula adomina vazamentos. Mas o petismo adorou a veiculação dos depoimentos de Sérgio Machado. Gostou especialmente do trecho em que ele contou que Michel Temer lhe pediu R$ 1,5 milhão em verbas de má origem, para a campanha paulistana de Gabriel Chalita, em 2012. “É a reversão do impeachment”, celebrou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), como se nada tivesse sido descoberto sobre o partido dele.
Se a Lava Jato ensinou alguma coisa foi o seguinte: quem tem telhado de vidro não deve criticar a permissividade do cabaré do lado. Vem daí o silêncio da banda muda do Congresso, que convive com Cunhas, Renans, Jucás, Jáderes e dezenas de etcéteras que privaram do prazer grupal propiciado pela “madame mais honesta dos cabarés do Brasil.” A política brasileira sobrevive porque não presta atenção às suas impossibilidades. Nesse meio, a desonestidade deixou de ser exceção. Tornou-se um estilo de vida.
Destruir ou mudar?
“Que diabo, eles precisam comer como todo mundo!”Harry Hopkins, assessor de Franklin Roosevelt na década de 1930
O que Orson Welles, Saul Bellow, Jackson Pollock e Sidney Lumet têm em comum? Além de seu papel na história da cultura dos Estados Unidos, eles receberam salário do governo federal. Sem passar por teste ideológico. De fato, entre os milhares de escritores e artistas que recolheram um salário modesto para criar, havia notórios simpatizantes comunistas.
Falo dos programas sob o guarda-chuva da WPA, a Works Progress Administration, criada em 1933 por Franklin Delano Roosevelt para dar trabalho a 15 milhões de norte-americanos ou um quarto da mão de obra do país desempregada pela Grande Depressão.
Durante oito anos, a WPA foi a maior agência federal do período do New Deal, investindo maciçamente em infraestrutura pública, como a construção de 800 aeroportos que foi o grande impulso à aviação comercial doméstica e programas de educação. Mas os trabalhos públicos incluíram também dois grandes projetos, um para escritores e outro para artistas, os tais que, segundo o tinhoso assessor de Roosevelt, precisavam comer também.
A ideia de um governo federal, no epicentro do capitalismo, distribuindo dinheiro para cultura não escapou de chacotas. Até o New York Times ajudou a cunhar, em 1935, a expressão boondoggle, feita sob medida para o Brasil da última década. Boondoggle, então usada para fazer troça de artesanato remunerado pela WPA, hoje define um projeto que é um desperdício de dinheiro e tempo, algo que vai em frente para atender um interesse político. Pasadena é boondoggle elevado a crime.
Com milhões de pessoas passando fome, perdendo suas casas e recebendo assistência emergencial, Roosevelt viu na WPA não só um investimento, mas também uma forma de aplacar a desmoralização de tantos por viver de favor. Está aí uma aflição contra a qual boa parte da nossa classe política parece ter sido inoculada.
| Voodoo MacBeth |
Além de contribuir para o transporte, educação e saúde até o começo da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, a WPA deixou sua marca indelével na cultura do país. Pelo menos 10 mil artistas foram empregados para pintar, fotografar, encenar, filmar e até fazer acrobacias circenses – estas, por exemplo, patrocinaram um certo Burt Lancaster. Apenas em fotografia, a WPA patrocinou, gente como Walker Evans, Berenice Abbot e Dorothea Lange. Em pintura, Jackson Pollock, Willem de Kooning e Mark Rothko, mais tarde gigantes do primeiro movimento não desembarcado da Europa, o Expressionismo Abstrato.
O país foi remapeado, fotografado e cada estado da federação foi objeto de um guia. Na literatura, que tal, além de Saul Bellow, John Cheever, James Baldwin e Richard Wright? E Orson Welles, aos 21 anos, encenando, pela primeira vez, Shakespeare com um elenco negro no eletrizante Voodoo MacBeth?
Mas o que deu na colunista, um ataque de saudosismo? Não, cansaço com a polarização política que arrasta boa parte da elite cultural e da mídia do Brasil. Ninguém precisa fazer lavagem cerebral e achar que só Marx salva para ouvir tal compositor ou assistir tal ator. Entendo que o PT no poder desfigurou o apoio às artes criando pequenas Odebrechts de favorecidos. Gente que não está na fila da sopa, como estavam tantos da WPA, e que não deve, de modo algum, ser financiada com o dinheiro de quem não tem o que comer. É obsceno permitir renúncia fiscal – eufemismo para tirar dinheiro do Tesouro – para financiar a turnê de uma estrela pop rica ou o livro de uma celebridade mal alfabetizada. Ontem mesmo, joguei fora uma meia dúzia de livros caros patrocinados por uma sopa de letrinhas de organismos federais. E eu não sou de jogar livro fora.
É inevitável que a reação ao híper-aparelhamento petista seja um darwinismo em que só vai sobrar o lixo cultural fácil de vender? A retração do jornalismo representa um desafio à democracia. Se os Estados Unidos, um país continental, perderam boa parte da cobertura de notícias locais, imaginem o Brasil, cujo território contínuo é maior. A EBC deve ser desmontada porque faz propaganda petista? Ou deve ser equipada e gerida com talento independente e não apparatchiks? Se a EBC é um serviço público, não é para concorrer em igualdade com redes comerciais. Mas, se continua dando traço, é por incompetência. Se tem um rombo no orçamento é pela esculhambação da coisa pública. O monólogo de Dilma Rousseff disfarçado de entrevista é um exemplo cintilante da mentalidade que vê o Brasil como um imenso diretório da UNE. Existe uma estrutura com equipamentos e 2600 empregados. É preciso jogar tudo fora? Ou é possível usar a imaginação?
quarta-feira, 15 de junho de 2016
Dilma e Marina: dois símbolos quebrados?
Dilma Rousseff e Marina Silva são duas mulheres-símbolo da política brasileira que se veem atualmente arrastadas pelo turbilhão das suspeitas de corrupção.
Rousseff foi a primeira mulher a alcançar a Presidência da República, depois de ter dirigido nos governos Lula dois ministérios de prestígio, o de Minas e Energia e o da Casa Civil.
Durante seu primeiro mandato, as revistas internacionais a colocaram entre as mulheres “mais poderosas do mundo”.
Silva, a ecologista, foi a primeira mulher ministra de Meio Ambiente no Brasil. Lula a escolheu em seu primeiro Governo como símbolo da defesa da Terra. Mais tarde, deixou o Governo alegando que seus projetos eram boicotados e se lançou sozinha à conquista da Presidência. É a política que mais prêmios internacionais acumula por seu empenho em prol do meio ambiente.
Ambas as políticas, Dilma e Marina, se enfrentaram duas vezes na corrida pela Presidência. Nas duas ocasiões, Dilma venceu a disputa.
Em 2014, o duelo entre as duas políticas-símbolo foi feroz. Dilma, aconselhada por seu marqueteiro João Santana, hoje preso por corrupção, acusou a rival de querer acabar com as conquistas sociais, arrancando a comida do prato dos pobres, caso chegasse à Presidência.
Dilma ganhou essa eleição que acabou sendo um sinal de discórdia e que a levou a um julgamento político sob a acusação de crime fiscal.
É provável que Dilma não recupere o mandato do qual foi afastada por até seis meses. E é possível que Marina, que hoje aparece nas pesquisas empatada com o carismático Lula, volte a tentar ganhar o Planalto.
Isso até ontem, já que a notícia, publicada nos principais jornais do país, de que a ecologista teria recebido dinheiro ilegalmente do empresário Leo Pinheiro, da construtora OAS, para a sua campanha eleitoral de 2010 começa a quebrar seu mito de política acima de qualquer suspeita, a única que rejeitava os métodos da velha forma de governar o país.
As duas mulheres-símbolo, Dilma e Marina, sempre alegaram que são limpas, que nunca enriqueceram pessoalmente, como outros políticos: “Não tenho contas na Suíça”, proclama Dilma, enquanto Marina foi o símbolo da política que não admite compromissos e que sempre viveu com austeridade.
É provável que sejam duas mulheres que nunca enriqueceram ilegalmente. Entretanto, na política, isso não basta.
Usar, por exemplo, dinheiro ilegal, proveniente da corrupção, para financiar uma reeleição mancha igualmente sua biografia.
Dilma jura de pés juntos que suas campanhas foram feitas com dinheiro legalmente declarado à Justiça Eleitoral, embora, segundo várias acusações de implicados na trama, seus colaboradores mais próximos tenham pedido e até exigido dinheiro de vários empresários hoje detidos por corrupção.
Dilma se defende dizendo que nunca autorizou ninguém a receber dinheiro ilegalmente. Os tribunais terão a última palavra.
Enquanto isso, o mito de Dilma, a mulher poderosa – de quem Lula dizia a um amigo ministro: “É mais homem que nós dois juntos” –, rompeu-se.
O problema de Marina é mais grave, se é que isso é possível, já que ela se apresentou como o emblema da limpeza política e da alternativa ética.
Segundo as informações, que Marina desmente, ela teria aceitado ajuda financeira da empreiteira OAS, mas sem que figurasse oficialmente, já que ela e seu grupo político se posicionavam naquele momento contra o financiamento empresarial das campanhas.
Se for verdade, será ainda pior, por se tratar de uma dissimulação para manter uma aparência ética que não existia.
É importante e urgente que ambas, Dilma e Marina, que eram um símbolo da novidade e da ética da presença feminina na política, sejam capazes de dissipar todas as nuvens de possíveis desvios éticos em suas condutas não só pessoais, mas também políticas.
Temer, o presidente da República interino, foi acusado de ter se esquecido de incluir mulheres entre seus ministros. É urgente, portanto, que as duas mulheres de maior peso na política deste país demonstrem que a presença feminina acrescenta um plus à envelhecida política masculina.
Rousseff foi a primeira mulher a alcançar a Presidência da República, depois de ter dirigido nos governos Lula dois ministérios de prestígio, o de Minas e Energia e o da Casa Civil.
Durante seu primeiro mandato, as revistas internacionais a colocaram entre as mulheres “mais poderosas do mundo”.
Silva, a ecologista, foi a primeira mulher ministra de Meio Ambiente no Brasil. Lula a escolheu em seu primeiro Governo como símbolo da defesa da Terra. Mais tarde, deixou o Governo alegando que seus projetos eram boicotados e se lançou sozinha à conquista da Presidência. É a política que mais prêmios internacionais acumula por seu empenho em prol do meio ambiente.
Ambas as políticas, Dilma e Marina, se enfrentaram duas vezes na corrida pela Presidência. Nas duas ocasiões, Dilma venceu a disputa.
Em 2014, o duelo entre as duas políticas-símbolo foi feroz. Dilma, aconselhada por seu marqueteiro João Santana, hoje preso por corrupção, acusou a rival de querer acabar com as conquistas sociais, arrancando a comida do prato dos pobres, caso chegasse à Presidência.
Dilma ganhou essa eleição que acabou sendo um sinal de discórdia e que a levou a um julgamento político sob a acusação de crime fiscal.
É provável que Dilma não recupere o mandato do qual foi afastada por até seis meses. E é possível que Marina, que hoje aparece nas pesquisas empatada com o carismático Lula, volte a tentar ganhar o Planalto.
Isso até ontem, já que a notícia, publicada nos principais jornais do país, de que a ecologista teria recebido dinheiro ilegalmente do empresário Leo Pinheiro, da construtora OAS, para a sua campanha eleitoral de 2010 começa a quebrar seu mito de política acima de qualquer suspeita, a única que rejeitava os métodos da velha forma de governar o país.
As duas mulheres-símbolo, Dilma e Marina, sempre alegaram que são limpas, que nunca enriqueceram pessoalmente, como outros políticos: “Não tenho contas na Suíça”, proclama Dilma, enquanto Marina foi o símbolo da política que não admite compromissos e que sempre viveu com austeridade.
É provável que sejam duas mulheres que nunca enriqueceram ilegalmente. Entretanto, na política, isso não basta.
Usar, por exemplo, dinheiro ilegal, proveniente da corrupção, para financiar uma reeleição mancha igualmente sua biografia.
Dilma jura de pés juntos que suas campanhas foram feitas com dinheiro legalmente declarado à Justiça Eleitoral, embora, segundo várias acusações de implicados na trama, seus colaboradores mais próximos tenham pedido e até exigido dinheiro de vários empresários hoje detidos por corrupção.
Dilma se defende dizendo que nunca autorizou ninguém a receber dinheiro ilegalmente. Os tribunais terão a última palavra.
Enquanto isso, o mito de Dilma, a mulher poderosa – de quem Lula dizia a um amigo ministro: “É mais homem que nós dois juntos” –, rompeu-se.
O problema de Marina é mais grave, se é que isso é possível, já que ela se apresentou como o emblema da limpeza política e da alternativa ética.
Segundo as informações, que Marina desmente, ela teria aceitado ajuda financeira da empreiteira OAS, mas sem que figurasse oficialmente, já que ela e seu grupo político se posicionavam naquele momento contra o financiamento empresarial das campanhas.
Se for verdade, será ainda pior, por se tratar de uma dissimulação para manter uma aparência ética que não existia.
É importante e urgente que ambas, Dilma e Marina, que eram um símbolo da novidade e da ética da presença feminina na política, sejam capazes de dissipar todas as nuvens de possíveis desvios éticos em suas condutas não só pessoais, mas também políticas.
Temer, o presidente da República interino, foi acusado de ter se esquecido de incluir mulheres entre seus ministros. É urgente, portanto, que as duas mulheres de maior peso na política deste país demonstrem que a presença feminina acrescenta um plus à envelhecida política masculina.
Seppuku
*
Foi conduzido para o umbral entre a vida e a morte, entre a vergonha e a culpa, entre a admissão da mentira e o falso “fiz tudo dentro da lei”. Mal se inteirou de sua condição, quando foi capturado por um programa de televisão no qual era obrigado a responder a perguntas sobre sua vida. Era curioso vê-lo dizendo verdades na televisão, mas mentindo perante a lei. Neste estado interrogativo, tão a gosto de uma sociedade na qual a mentira vencia o bom senso, permaneceu por 300 anos espirituais até que uma entidade do Ministério do Esquecimento, fez com que atuasse como personagem de uma novela de 130 mil capítulos. Ficou feliz porque o programa o colocava em cotejo consigo mesmo, mas a novela era um modo de escapar desse abominável confronto.
*
E por que não se até o famoso “japonês da federal” é também criminoso, mas está trabalhando na própria polícia que o prendeu? Quando o policial é preso, mas tem suas prerrogativas policiais, cabe a pergunta: por que não anistiar todo mundo e dissolver de uma vez o Brasil?
*
* Não há sistema que não tenha um elo com uma dada época, de modo que a (i)moralidade que levou o nosso herói ao suicídio é apenas mais transparente do que as outras.
* A busca de um código externo não seria a nossa maior carência, precisamente por que não há nenhum norte magnético humano, mas apenas receitas as quais exigem, além de internalização e cumplicidade, a consciência de que devemos preservá-las?
** Se a liberdade abre todos os caminhos, o radicalismo surge como uma âncora. Não seria a crença que torna o sofrimento do mundo mais aceitável? As crenças não seriam os polos nos quais os tênues fios que eventualmente nos suspendem estão ligados?
*
*** Mas como seguir normas e regras sabendo que elas são relativas? Aqui, verdade e virtude; debaixo do Equador, quem sabe?
*
* Como tornar-se humano sem esse diálogo com as coisas que existiam antes de nós, que vivem mais do que nós e que, como a morte, não verga diante do vento, derrete com o calor, congela com o frio ou desaparece diante das nossas lágrimas? A presença da finitude não é a marca da consciência humana? Essa máquina de comparação que nos faz sofrer (e fruir) justamente porque sabe que tudo passa e, mais que isso, é esquecido?
*
** Antigamente, havia a vergonha. O refrão do Boris Casoy, “é uma vergonha!” fazia efeito. O individualismo fez nascer a culpa que, eventualmente, pede perdão. Mas se nós suspendermos a responsabilidade individual e situarmos todos os sujeitos no lado certo da história, suprime-se tanto a vergonha quanto a culpa. Se eu sou um instrumento do progresso do povo, eu posso tirar o meu – como virou banalidade neste nosso triste Brasil –, mantendo viva a crença de que a minha receita está certa. Se eu sei como a lógica da história opera e apenas enxergo o lado satânico do mercado, então não é mais preciso ter vergonha ou culpa. Fico ofendido apenas quando sou acusado. Afinal, eu sou maior do que o sistema.
*
*** No silêncio da tenebrosa noite, descobri que só o nada é fixo.
* Mas não é justamente por isso que, em todos os tempos e lugares, nos debatemos pelo governo da lei? Obediência, honra, vergonha, culpa, crença e filiação são simultaneamente hábitos relativamente aprendidos e decisões tomadas em relativa liberdade. Sem isso, não há história.
** Quanto mais conscientes nos tornamos, mais dramáticas são essas escolhas que se transformam em identidades. As escolhas nos diferenciam. Eu roubo milhões e, tendo o dom da negação, durmo o sono justo dos trapaceiros; você ralhou com o filhinho e não dorme...
*
* As regras são como os fios dos equilibristas: finos, oscilantes e perigosos.
*** E por que não despencamos?
* Porque outros fios nos prendem a outras pessoas que, como nós, ousam caminhar no alto. Pois mesmo sendo da planície, somos atraídos pelos fios que nos ligam às montanhas. Aquelas montanhas cuja magia obriga a ver os dois lados.
– E a subir e... descer!
A Lava Jato é ameaçada, sim!
Apesar de ter apoio maciço da sociedade brasileira, que tem plena consciência de sua indiscutível importância no combate à impunidade generalizada e na recuperação da decência num ambiente em que a imoralidade é exceção, mas se impõe como regra, a Operação Lava Jato de fato corre o risco de vir a ser extinta. Ou, na melhor das hipóteses, paralisada pelo efeito “pistom de gafieira”, no qual “quem está fora não entra e quem está dentro não sai”.
O aviso, feito pelo coordenador do Ministério Público Federal (MPF) na força-tarefa que assombra 12 entre 10 chefões partidários no País, Deltan Dallagnol, em entrevista a Ricardo Brandt e Fausto Macedo, do Estadão, faz todo o sentido. E não deve ser interpretado como uma mera tentativa de vender o próprio peixe ou de garantir a continuidade de um trabalho do qual, com toda justiça do mundo, ele e a equipe têm todos os motivos para sentir grande orgulho. Ou de ganhar mais tempo para investigar. É, sim, a constatação de um risco que realmente existe, e sua preocupação deve ser a de todos nós que respeitamos a honra da Nação e não temos bandidos de estimação. Convém ficarmos atentos para não vermos cair no vazio a tentativa de extirpar o tumor maligno da corrupção que leva os órgãos de nosso Estado Democrático de Direito a uma eventual falência terminal.
Segundo ele, “é possível e até provável” um governo ou o Congresso pôr fim à Lava Jato, “pois quem conspira contra ela são pessoas que estão dentre as mais poderosas e influentes da República”. As gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com Renan Calheiros, Romero Jucá, José Sarney e Eduardo Cunha, figurões influentes do PMDB – sigla do vice-presidente no exercício da Presidência, Michel Temer –, não podem mesmo ser confundidas com meros palpites em bate-papos de café. Pois Renan preside o Senado, Jucá foi ministro do Planejamento, Cunha é presidente afastado da Câmara e Sarney presidiu a República e o Senado.
Se as gravações justificam, ou não, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, recomendar ao Supremo Tribunal Federal (STF) prender Renan, Jucá e Cunha e pôr tornozeleiras em Sarney é discutível. Mas seu teor explicita tentativa de obstruir o trabalho da polícia e da Justiça para livrar o alto comando político nacional do pavor da perda da liberdade.
Mais grave é que o PT e aliados tomam providências práticas para, se não paralisarem, ao menos prejudicarem a devassa policial e judicial, reduzindo-lhe a independência ou alterando as leis que tornam possível seu êxito. Na Câmara, projeto do deputado Wadih Damous (PT-RJ) tenta reduzir o alcance da colaboração com a Justiça, a “delação premiada”.
Não deve ser esquecida também a conspiração revelada nas gravações que, mui oportunamente, o juiz Sérgio Moro tornou públicas expondo armações do PT, do ex-presidente Lula e da presidente afastada para anular efeitos nocivos da investigação em suas vidas. A decisão do relator da operação no STF anulando seus efeitos jurídicos não lhe altera o teor. Antes de sua divulgação, o ex-presidente tinha instruído sindicalistas a assediarem o juiz, responsabilizando-o pela tragédia de uma crise econômica que destrói negócios e desemprega milhões de trabalhadores. A chefona afastada do comando do desgoverno, Dilma Rousseff, execrou publicamente, e sem razão, informações colhidas em confissões de “desprezíveis” delatores.
O terrorismo corporativista contra a devassa do maior escândalo de corrupção de todos os tempos no planeta inteiro também está anunciado. Caso Renan seja afastado da presidência do Senado, assumirá o posto o petista acriano Jorge Viana. Nos telefonemas ouvidos País afora, Sua Excelência instruiu o advogado de Lula, Roberto Teixeira, a convencer o cliente a desacatar Moro para, como “preso político”, “virar o País de cabeça pra baixo”.
O delirium tremens da bravata colide com a vida real. A convocação de greve geral pelo presidente do PT, Rui Falcão, para sexta-feira passada, reduzida a pífias manifestações (a da Paulista foi anabolizada para fictícios 100 mil militantes), mostra isso. Mesmo irrealista, contudo, a bazófia do vice-presidente do Senado dá uma ideia de como seria sua atuação no julgamento definitivo da “presidenta” dele e na liderança do sujo pacto contra a Lava Jato.
Aliás, essa sabotagem subversiva ao combate à corrupção é traduzida ainda em ação administrativa efetiva da afastada. Neste espaço o advogado Modesto Carvalhosa denunciou várias vezes a edição de medidas provisórias pela sra. Rousseff para atenuar e até anular a Lei Anticorrupção, que ela própria assinara. Resulta de uma desfaçatez nefanda a leniência de empresas flagradas em corrupção explícita, adotada a pretexto do emprego do trabalhador que a corrupção está desempregando (extrema canalhice!), sem obedecer ao princípio básico de que só uma tem direito a gozá-la, mas estendendo-a a todas. E perpetua-se na posição análoga do ministro da Transparência e Controle (denominação marqueteira imprópria para a Controladoria-Geral da União – CGU), Torquato Jardim, que a defende sem corar.
Essa tentativa de trocar pena por dó e justificar delinquência explícita por compaixão atinge os píncaros do paroxismo com a proposta de estender o pacto cínico a partidos políticos, feita, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, pelos campeões de condenações da Lava Jato Dirceu e Vaccari. A notícia dá mais razão a Dallagnol. E também ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, que tem motivos para acreditar que o PT terá bilhões para gastar até a campanha de 2038, ainda que a polícia e a Justiça interrompam o saque feito pela organização criminosa que depauperou o País nos últimos 13 anos, 4 meses e 12 dias. E, além disso, explica a defesa do fim do financiamento privado... para os outros partidos, é claro.
José Nêumanne

Segundo ele, “é possível e até provável” um governo ou o Congresso pôr fim à Lava Jato, “pois quem conspira contra ela são pessoas que estão dentre as mais poderosas e influentes da República”. As gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com Renan Calheiros, Romero Jucá, José Sarney e Eduardo Cunha, figurões influentes do PMDB – sigla do vice-presidente no exercício da Presidência, Michel Temer –, não podem mesmo ser confundidas com meros palpites em bate-papos de café. Pois Renan preside o Senado, Jucá foi ministro do Planejamento, Cunha é presidente afastado da Câmara e Sarney presidiu a República e o Senado.
Se as gravações justificam, ou não, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, recomendar ao Supremo Tribunal Federal (STF) prender Renan, Jucá e Cunha e pôr tornozeleiras em Sarney é discutível. Mas seu teor explicita tentativa de obstruir o trabalho da polícia e da Justiça para livrar o alto comando político nacional do pavor da perda da liberdade.
Mais grave é que o PT e aliados tomam providências práticas para, se não paralisarem, ao menos prejudicarem a devassa policial e judicial, reduzindo-lhe a independência ou alterando as leis que tornam possível seu êxito. Na Câmara, projeto do deputado Wadih Damous (PT-RJ) tenta reduzir o alcance da colaboração com a Justiça, a “delação premiada”.
Não deve ser esquecida também a conspiração revelada nas gravações que, mui oportunamente, o juiz Sérgio Moro tornou públicas expondo armações do PT, do ex-presidente Lula e da presidente afastada para anular efeitos nocivos da investigação em suas vidas. A decisão do relator da operação no STF anulando seus efeitos jurídicos não lhe altera o teor. Antes de sua divulgação, o ex-presidente tinha instruído sindicalistas a assediarem o juiz, responsabilizando-o pela tragédia de uma crise econômica que destrói negócios e desemprega milhões de trabalhadores. A chefona afastada do comando do desgoverno, Dilma Rousseff, execrou publicamente, e sem razão, informações colhidas em confissões de “desprezíveis” delatores.
O terrorismo corporativista contra a devassa do maior escândalo de corrupção de todos os tempos no planeta inteiro também está anunciado. Caso Renan seja afastado da presidência do Senado, assumirá o posto o petista acriano Jorge Viana. Nos telefonemas ouvidos País afora, Sua Excelência instruiu o advogado de Lula, Roberto Teixeira, a convencer o cliente a desacatar Moro para, como “preso político”, “virar o País de cabeça pra baixo”.
O delirium tremens da bravata colide com a vida real. A convocação de greve geral pelo presidente do PT, Rui Falcão, para sexta-feira passada, reduzida a pífias manifestações (a da Paulista foi anabolizada para fictícios 100 mil militantes), mostra isso. Mesmo irrealista, contudo, a bazófia do vice-presidente do Senado dá uma ideia de como seria sua atuação no julgamento definitivo da “presidenta” dele e na liderança do sujo pacto contra a Lava Jato.
Aliás, essa sabotagem subversiva ao combate à corrupção é traduzida ainda em ação administrativa efetiva da afastada. Neste espaço o advogado Modesto Carvalhosa denunciou várias vezes a edição de medidas provisórias pela sra. Rousseff para atenuar e até anular a Lei Anticorrupção, que ela própria assinara. Resulta de uma desfaçatez nefanda a leniência de empresas flagradas em corrupção explícita, adotada a pretexto do emprego do trabalhador que a corrupção está desempregando (extrema canalhice!), sem obedecer ao princípio básico de que só uma tem direito a gozá-la, mas estendendo-a a todas. E perpetua-se na posição análoga do ministro da Transparência e Controle (denominação marqueteira imprópria para a Controladoria-Geral da União – CGU), Torquato Jardim, que a defende sem corar.
Essa tentativa de trocar pena por dó e justificar delinquência explícita por compaixão atinge os píncaros do paroxismo com a proposta de estender o pacto cínico a partidos políticos, feita, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, pelos campeões de condenações da Lava Jato Dirceu e Vaccari. A notícia dá mais razão a Dallagnol. E também ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, que tem motivos para acreditar que o PT terá bilhões para gastar até a campanha de 2038, ainda que a polícia e a Justiça interrompam o saque feito pela organização criminosa que depauperou o País nos últimos 13 anos, 4 meses e 12 dias. E, além disso, explica a defesa do fim do financiamento privado... para os outros partidos, é claro.
José Nêumanne
É ruim, mas é bom
Na barafunda dos escândalos de corrupção, as eleições municipais a serem realizadas dentro de quatro meses são hoje assunto secundário. Natural, dado que muitos dos principais protagonistas da política brasileira estão ameaçados de prisão (talvez iminente).
Concretizada a hipótese, tais excelências estarão impedidas de dar as cartas no jogo eleitoral conforme o hábito. Este é o fato inédito. Portanto, notícia relevante e prioridade na informação ao leitor, espectador, ouvinte e eleitor. Até como elemento condutor do voto mais qualificado.
Trata-se de um novo cenário, cujo ineditismo não se esgota nisso. Minucioso levantamento feito pelo Estado e publicado na edição deste domingo exibe um dado novo: a fonte de financiamento para campanhas milionárias secou. Seja por obra da crise econômica, pela nova regra de proibição de doações de pessoas jurídicas e/ou por inibição à prática do caixa dois provocada pela Operação Lava Jato.
Nesse ambiente adverso, os partidos estariam restritos ao dinheiro do Fundo Partidário (R$ 819 milhões de dinheiro público), às doações espontâneas dos simpatizantes e ao autofinanciamento dos candidatos mais ricos. O primeiro está submetido a regras de divisão de despesas, pois parte dos recursos precisa se aplicada nos pagamentos cotidianos das respectivas legendas – aluguéis, funcionários, viagens etc.
O segundo item, doações espontâneas, esbarra no obstáculo da falta de confiabilidade em relação aos políticos. Decorrente disso, a sensação de ausência de representatividade. É difícil, para não dizer impossível, alguém dar dinheiro a quem não é digno de sua confiança.
Prova é que, de acordo com o levantamento, menos de 20% das campanhas nos últimos quatro anos foram financiadas por pessoas físicas, já incluídas aí as que (raras) aplicavam recursos próprios nas respectivas empreitadas. De onde o terceiro item – autofinanciamento – explica sua insignificância no universo de que tratamos.
De acordo com que pesquisou o Estado, nas eleições de 2012 quase 80% dos gastos foram financiados por pessoas jurídicas, o que passou a ser proibido desde o ano passado por determinação do Supremo Tribunal Federal, corroborada pelo Congresso. Em 2016, portanto, serão realizadas as primeiras campanhas sob a égide da nova regra, das mais novas ainda circunstâncias de estreita vigilância aos ilícitos e da finalmente muito bem-vinda condenação – teórica e prática – do caixa dois.
Sem sombra de dúvida, inclusive porque um dos motivos é a crise da economia, a situação é ruim para partidos e candidatos. Poderá, contudo, vir a se mostrar muito boa para os eleitores. No lugar de campanhas cinematográficas milionárias que afastam desse “mercado” profissionais construtores de fábulas, terão diante de si pretendentes forçados a tentar ganhar por empenho, convencimento e biografia.
É nesse espaço que pode prevalecer a didática prática da política com P maiúsculo.
A ficha cairá. A realização da Olimpíada, em agosto, vai coincidir com a votação do processo de impeachment, senão no plenário, ao menos na comissão especial do Senado.
A imprensa internacional estará aqui para acompanhar os jogos e terá a oportunidade de constatar de perto que a tese do golpe se constitui numa fábula. Os colegas estrangeiros terão oportunidade de constatar com quantos artigos constitucionais se faz a democracia brasileira.
Concretizada a hipótese, tais excelências estarão impedidas de dar as cartas no jogo eleitoral conforme o hábito. Este é o fato inédito. Portanto, notícia relevante e prioridade na informação ao leitor, espectador, ouvinte e eleitor. Até como elemento condutor do voto mais qualificado.
Trata-se de um novo cenário, cujo ineditismo não se esgota nisso. Minucioso levantamento feito pelo Estado e publicado na edição deste domingo exibe um dado novo: a fonte de financiamento para campanhas milionárias secou. Seja por obra da crise econômica, pela nova regra de proibição de doações de pessoas jurídicas e/ou por inibição à prática do caixa dois provocada pela Operação Lava Jato.
O segundo item, doações espontâneas, esbarra no obstáculo da falta de confiabilidade em relação aos políticos. Decorrente disso, a sensação de ausência de representatividade. É difícil, para não dizer impossível, alguém dar dinheiro a quem não é digno de sua confiança.
Prova é que, de acordo com o levantamento, menos de 20% das campanhas nos últimos quatro anos foram financiadas por pessoas físicas, já incluídas aí as que (raras) aplicavam recursos próprios nas respectivas empreitadas. De onde o terceiro item – autofinanciamento – explica sua insignificância no universo de que tratamos.
De acordo com que pesquisou o Estado, nas eleições de 2012 quase 80% dos gastos foram financiados por pessoas jurídicas, o que passou a ser proibido desde o ano passado por determinação do Supremo Tribunal Federal, corroborada pelo Congresso. Em 2016, portanto, serão realizadas as primeiras campanhas sob a égide da nova regra, das mais novas ainda circunstâncias de estreita vigilância aos ilícitos e da finalmente muito bem-vinda condenação – teórica e prática – do caixa dois.
Sem sombra de dúvida, inclusive porque um dos motivos é a crise da economia, a situação é ruim para partidos e candidatos. Poderá, contudo, vir a se mostrar muito boa para os eleitores. No lugar de campanhas cinematográficas milionárias que afastam desse “mercado” profissionais construtores de fábulas, terão diante de si pretendentes forçados a tentar ganhar por empenho, convencimento e biografia.
É nesse espaço que pode prevalecer a didática prática da política com P maiúsculo.
A ficha cairá. A realização da Olimpíada, em agosto, vai coincidir com a votação do processo de impeachment, senão no plenário, ao menos na comissão especial do Senado.
A imprensa internacional estará aqui para acompanhar os jogos e terá a oportunidade de constatar de perto que a tese do golpe se constitui numa fábula. Os colegas estrangeiros terão oportunidade de constatar com quantos artigos constitucionais se faz a democracia brasileira.
Será que existe saída?
Por que será que tudo no Brasil parece ser mais difícil do que realmente é? Tudo nosso tem particularidades que não encontramos em nenhum outro lugar do mundo. Quer coisa mais complexa e difícil que formar um governo aqui? E por que isso? Nós somos uma sociedade caracterizada principalmente pela mistura de raças, seus costumes e seus atrasos, por cultos e religiões originárias de todas as partes do mundo, sem contar nossa criatividade. Enfim, somos uma mixórdia... Será isso mesmo? E mais os invejosos e desocupados.
Sem reformas, não sobreviveremos como nação, seremos sempre uns párias do mundo civilizado. O Chile, com terremotos e tudo, está anos-luz a nossa frente. Por quê? Talvez, e além de ser um povo com outra formação, não esteja preocupado com tantos partidos políticos e outras negaças características de nosso atraso. Sim, Minas Gerais ficou sem ministros... E daí? Sim, ficou sem negros, ficou sem mulheres... Pior é criar ministérios para colocar um negro, uma mulher, para satisfazer tendências e gêneros de nossa sociedade. É preciso criar uma mentalidade de nação, esquecer a vida nababesca das republiquetas que vivem com renda de praianos de ocasião.
Nesses últimos dias, não ando aguentando mais ver televisão. Ninguém sabe de nada, ninguém roubou nada, aquela conversa “eu não roubei, eu não desviei nada, eu não sei de nada, eu quero viajar...”, que nojo. Parece disco emperrado. Tudo é preconceito, a vida do brasileiro está como um pisar em ovos, tudo é motivo de discriminação, tudo é motivo de discussão e brigas, tá um saco...
A mulher que não sabe de nada dá um rombo nas contas públicas e diz que não fez nada... Seria o caso de repetir a história de um professor – por sinal, que professor... Tenho saudades dele: Guilherme Azevedo Lage, do Instituto Padre Machado e diretor por muitos anos do Colégio Municipal: “Professor, mas eu não fiz nada, por que a nota baixa?” “Porque o senhor mesmo diz: não fez nada, aqui tem que fazer, seu pai paga para o senhor fazer, não fez, não reclame...” Assim é essa guerrilheira insuportável que fez demais, antes como assaltante de bancos e agora como “pedalante” da vida...
Sem reformas, não sobreviveremos como nação, seremos sempre uns párias do mundo civilizado. O Chile, com terremotos e tudo, está anos-luz a nossa frente. Por quê? Talvez, e além de ser um povo com outra formação, não esteja preocupado com tantos partidos políticos e outras negaças características de nosso atraso. Sim, Minas Gerais ficou sem ministros... E daí? Sim, ficou sem negros, ficou sem mulheres... Pior é criar ministérios para colocar um negro, uma mulher, para satisfazer tendências e gêneros de nossa sociedade. É preciso criar uma mentalidade de nação, esquecer a vida nababesca das republiquetas que vivem com renda de praianos de ocasião.
Nesses últimos dias, não ando aguentando mais ver televisão. Ninguém sabe de nada, ninguém roubou nada, aquela conversa “eu não roubei, eu não desviei nada, eu não sei de nada, eu quero viajar...”, que nojo. Parece disco emperrado. Tudo é preconceito, a vida do brasileiro está como um pisar em ovos, tudo é motivo de discriminação, tudo é motivo de discussão e brigas, tá um saco...
A mulher que não sabe de nada dá um rombo nas contas públicas e diz que não fez nada... Seria o caso de repetir a história de um professor – por sinal, que professor... Tenho saudades dele: Guilherme Azevedo Lage, do Instituto Padre Machado e diretor por muitos anos do Colégio Municipal: “Professor, mas eu não fiz nada, por que a nota baixa?” “Porque o senhor mesmo diz: não fez nada, aqui tem que fazer, seu pai paga para o senhor fazer, não fez, não reclame...” Assim é essa guerrilheira insuportável que fez demais, antes como assaltante de bancos e agora como “pedalante” da vida...
Aos amigos e leitores: Hoje estou me despedindo por uns tempos de vocês, depois de quase nove anos de convívio aqui às quartas-feiras. De repente fiquei “meio idoso”, e os “enguiços” apareceram. “Enguicei” e preciso de uma recauchutagem. Agradeço ao sempre amigo Vittorio (Medioli) pela coragem de ter me entregado este espaço para eu escrever o que quisesse para seus milhares de leitores. Foram mais de 400 crônicas nesee período em que nosso país atravessa seu pior momento como pátria e nação, oportunidade em que eu pude demonstrar minha repulsa à esquerda festiva e a essa “inconha” que tem nome de PT. Nosso país não merecia isso... Obrigado aos leitores e ao pessoal do jornal, ao Victor de Almeida, em especial, pela paciência com minha impaciência. Até mais ver... (S.C.)
Só Marcelo Odebrecht fez mais pelo PT do que Eduardo Cunha
Marcelo Odebrecht foi insuperável no financiamento e nas cortesias dispensadas ao partido que governou o Brasil de janeiro de 2003 a maio de 2016. Consolidou longa e sólida parceria irrigando contas, tapando buracos, emprestando aeronaves, arrumando negócios, fazendo corretagem de palestras para Lula e pavimentando com pedrinhas de brilhantes o caminho para seu PT passar. Durante mais de dez anos, uma mão lavou a outra.
Mas as impressões digitais ficaram. O homem cuja prisão, nas palavras do próprio pai, acabaria com a República num fim de semana, cravou o facão no toco e resistiu, como poucos, um ano inteiro na humilhante rotina do xilindró. Só então, começou a cantar o verso e o reverso.
Ele é o número 1 entre os benfeitores do PT. O número dois vai para Eduardo Cunha. Sim, leitor, o proclamado inimigo número 1 é, na verdade, o amigo número 2. O PT jura que não, mas é falso. Acompanhe o raciocínio. Ele foi eleito para comandar a Câmara em fevereiro do ano passado e, logo no mês seguinte, desabaram sobre sua mesa cerca de três dezenas de pedidos de impeachment da presidente Dilma. Que fez então, desatento à maledicência que o acusava das piores intenções em relação a esses requerimentos? Nada. O PT falava mal dele e ele cuidava do PT. A nação ia para a rua, pedia impeachment e o Cunha se mantinha impassível. Era como se não fosse com ele. Tanta demora, ao longo dos meses, foi esfriando a motivação nacional, silenciando as redes sociais e, claro, reduzindo o público das manifestações.
A mídia amiga do governo e os militantes assalariados deitavam e rolavam ante a debandada dos coxinhas. Lembram? Obra exclusiva do Cunha, leitores! E assim terminou o verão de 2015. E assim passaram, também, o outono, o inverno e quase toda a primavera. Quanto mais requerimentos pedindo impeachment chegavam, mais Cunha permanecia imperturbável, dando inutilmente ao PT o ano inteiro para livrar a pele, escusar-se ante Nação, adotar medidas para superar a crise, reconstruir credibilidade e o que mais a astúcia e a malícia pudessem conceber.
Quando se sentiu perdido, abandonado pelo oposição que lhe negou apoio na Comissão de Ética e, por fim, pelo próprio PT, Cunha mergulhou na pilha dos pedidos de impeachment para escolher um. Esse mergulho ainda precisa ser bem contado. Havia dezenas de processos fundamentados, listando os crimes praticados pela presidente e pelo governo sob seu comando. Havia a penca de denúncias da Lava Jato, a negociata da refinaria de Pasadena, as irregularidades na arrecadação de recursos de campanha, a falsidade ideológica na ocultação da realidade nacional durante a disputa eleitoral de 2014. Dentre tantos, qual o requerimento escolhido por Cunha? Pois é. Cunha escolheu o das pedaladas fiscais, crime real, grave, mas politicamente estéril, ruim de explicar, incompreensível ao povão. Por fim, pego com a boca na botija, apresentou a si mesmo para o papel de inimigo, sem o qual o PT não sabe fazer política. Amigo é para essas coisas.
Percival Puggina
Mas as impressões digitais ficaram. O homem cuja prisão, nas palavras do próprio pai, acabaria com a República num fim de semana, cravou o facão no toco e resistiu, como poucos, um ano inteiro na humilhante rotina do xilindró. Só então, começou a cantar o verso e o reverso.
A mídia amiga do governo e os militantes assalariados deitavam e rolavam ante a debandada dos coxinhas. Lembram? Obra exclusiva do Cunha, leitores! E assim terminou o verão de 2015. E assim passaram, também, o outono, o inverno e quase toda a primavera. Quanto mais requerimentos pedindo impeachment chegavam, mais Cunha permanecia imperturbável, dando inutilmente ao PT o ano inteiro para livrar a pele, escusar-se ante Nação, adotar medidas para superar a crise, reconstruir credibilidade e o que mais a astúcia e a malícia pudessem conceber.
Quando se sentiu perdido, abandonado pelo oposição que lhe negou apoio na Comissão de Ética e, por fim, pelo próprio PT, Cunha mergulhou na pilha dos pedidos de impeachment para escolher um. Esse mergulho ainda precisa ser bem contado. Havia dezenas de processos fundamentados, listando os crimes praticados pela presidente e pelo governo sob seu comando. Havia a penca de denúncias da Lava Jato, a negociata da refinaria de Pasadena, as irregularidades na arrecadação de recursos de campanha, a falsidade ideológica na ocultação da realidade nacional durante a disputa eleitoral de 2014. Dentre tantos, qual o requerimento escolhido por Cunha? Pois é. Cunha escolheu o das pedaladas fiscais, crime real, grave, mas politicamente estéril, ruim de explicar, incompreensível ao povão. Por fim, pego com a boca na botija, apresentou a si mesmo para o papel de inimigo, sem o qual o PT não sabe fazer política. Amigo é para essas coisas.
Percival Puggina
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