terça-feira, 26 de abril de 2016

Os sonhos não cabem nas urnas

De noite, em pé.

Desde 31 de março passado, centenas de franceses, às vezes, milhares, reúnem-se diariamente na Praça da República, no norte de Paris, para conversar e discutir a situação política do país, seus problemas, o que e como fazer para resolvê-los e rumos para o futuro. Como dizem os participantes, trata-se de ocupar o espaço público, transformá-lo num fórum, como se fora uma ágora moderna, onde todos são bem-vindos. A polícia os proibiu de se sentar. Pois seja, ficaram em pé.

E em pé vão atravessando as noites.

As pessoas começam a chegar de tarde, organizam-se em grupos, alguns formam comissões voluntárias. Jovens e velhos, mulheres e homens, militantes e curiosos. Às 18h, a afluência aumenta, e começa a assembleia. A palavra, de quem quiser, é exercida com gosto e desenvoltura. Alguém observa que este “laboratório da palavra livre” é muito mais estimulante do que as passeatas tradicionais, onde as pessoas avançam juntas, com palavras de ordem e cantos, mas raramente conversam entre si. Outro propõe a metáfora do grão de areia: quando se juntam, os grãos podem emperrar a máquina. O momento mais emocionante neste mês de abril foi alcançado pela execução da “Sinfonia nº 9”, dita “Do novo mundo”, de Dvorak, tocada por cerca de 350 músicos, voluntários mobilizados pelas redes sociais, ovacionada pelo público presente.

A faísca que acendeu esta fogueira de cidadania foram as manifestações de março contra a lei proposta pela ministra do Trabalho do governo socialista, Myriam El Khomri. Trata-se de uma ampla reforma da legislação trabalhista, envolvendo, entre outros aspectos, tempo de trabalho, negociações salariais, assistência social. O objetivo logo se tornou evidente: limitar ou guilhotinar direitos sociais em nome da competitividade. É assim que os governos, socialistas ou não, têm enfrentado os efeitos da grande crise iniciada em 2008 e que, até hoje, atormenta as sociedades europeias. Os sindicatos e associações de trabalhadores protestaram. Os estudantes secundaristas disseminaram o #OnVautMieuxqueÇa (a gente vale mais do que isto) e foram às ruas. A polícia desceu o cacete. Bateu em jovens em praça pública, prendendo dezenas. Nas delegacias, segundo denúncias consistentes, houve cenas de intimidação, agressão e tortura moral e física.

Formou-se um caldo grosso de denúncias e críticas. Foi nesta atmosfera que surgiu o movimento da Praça da República.

O que querem estas gentes que se dispõem a ficar em pé de noite? A maioria, por enquanto, quer apenas conversar. Ouvir e ser ouvido. Falar e escutar. O ânimo geral é crítico ao sistema político existente e ao tipo de sociedade que se estrutura na França e na Europa, baseado no vale-tudo do cada um por si e Deus por ninguém. E que se pise no pescoço da própria mãe, desde que se possa alcançar o sucesso pessoal e o consumo ostentatório. Como observa Frédéric Lordon, não é apenas a Lei El Khomri que está em jogo, é a visão de mundo que fundamenta a lei. Um mundo dominado pelos dinheiros, pela atividade frenética, pelo doping dos remédios estimulantes ou calmantes que é preciso tomar, cada vez mais, para segurar o tranco de uma vida angustiante e hostil. Há também uma desconfiança visceral em relação aos partidos e à sua capacidade de representar vontades e anseios reformistas. Como se os processos eleitorais regulares não fossem mais capazes de viabilizar os sonhos de mudança, maiores que as urnas onde se depositam os votos.

De noite, em pé, é um broto a mais numa floração que não cessa: os egípcios da Praça Tahrir; os indignados espanhóis da Puerta del Sol; os turcos em Taksim; os atenienses da Praça Sintagma; Occupy Wall Street nos Estados Unidos e na Austrália. Na tradição remota, e na própria França, os manifestantes invocam a gesta da grande revolução e os Cahiers de Doléances (cadernos de queixas e demandas), de onde surgiu o conceito de cidadania; a Comuna de Paris e o autogoverno popular, em 1871; a greve geral, de 1936, que gerou a Frente Popular e a conquista das férias remuneradas; o movimento de 1968 — embora derrotado, prolongou-se no tempo.

Almamy Kanouté, educador popular, nascido francês de pais africanos, apontou dois problemas que precisam ser encarados: ultrapassar os limites parisienses, integrando os subúrbios e outras cidades, e superar o fascínio pela pura palavra em proveito da ação coletiva em torno de uma plataforma de reivindicações concretas. Desafios que, não enfrentados, podem conduzir o movimento ao declínio.

Tudo ainda é muito frágil, sem dúvida, mas a experiência já marcou os espíritos dos que têm participado. Foi como se houvera uma repolitização das consciências. Além disso, como bem observou Renaud Lambert, “nossos adversários sabem que não ganham quando nós perdemos, mas quando desistimos”. Os que ficam de pé nas noites mostram que nem todos desistiram.

Daniel Aarão Reis

Quando vai ser o futuro?

O Cazuza cantava: “Brasil, mostra tua cara!”. É isso. Durante o show de horrores na votação do impeachment, pudemos ler a história do Brasil na cara dos políticos. Meu Deus, como são feios nossos “homens públicos”, como são inatuais, de mau gosto. Seus rostos e caretas demonstram como será difícil modernizar esta terra.

Charles Darwin tem um livro chamado “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”. Ali estão catalogadas as expressões fisionômicas dos chimpanzés, dos cachorros e dos homens. São baseadas no “princípio da antítese”, nome que Darwin criou, explicando, por exemplo, que um cachorro expressa amor ao dono por uma mutação corporal, facial e “rabeal”, absolutamente negadora de qualquer agressividade, amolecendo as costas, abanando o rabo, babando em nossa mão. Mas Darwin não previu a cara dos políticos brasileiros.

O “princípio de antítese” dos nossos políticos, ao contrário, visa esconder o que sentem, pela negação de seus reais motivos. Assim, o canalha ostenta bondade, o ladrão apregoa honradez, o assassino, delicadeza.


Era assim, mas até isso está mudando. Assistindo ao desfile dos “cobras criadas” na Câmara, concluo que não apenas se perdeu a ideia de vergonha na cara, como ela foi substituída por um certo orgulho, um vago enlevo de ostentar a própria sordidez como um galardão. Antigamente, o canalha se escondia pelos cantos, roído de vergonha; hoje, ele apregoa, com uma tabuleta na testa: “Roubei sim, e daí?!”. A alma do negócio era o segredo. Hoje, espanta-nos a visibilidade dos estelionatos, conjugada à sublime ejaculação das mentiras.

Cada vez mais o feio domina o país tão bonito por natureza. Cada vez mais nos deparamos com o feio nas ruas alagadas, nas paisagens destruídas, na gente desesperada, ignorante, malpaga, com a miséria nos rostos, nas roupas, nos gestos, nos risos boçais.

Essas crises sem fim estão nos deformando física e psiquicamente. Não só por tragédias visíveis, como catástrofes naturais; vivemos a tragédia do nada, a tragédia do retrocesso que vai nos reduzindo a uma mera anomalia.

Durante o governo FHC, conseguimos atrelar um pouco o Brasil a uma política econômica mais contemporânea. Estava tudo pronto para a decolagem. Mas chegou a turma braba dos lixeiros do comunismo e segurou o avião antes de ele ganhar voo. A partir dessa “tomada do poder”, como eles chamam, o Brasil virou um flashback, um filme rebobinado. Tudo voltou ao banho-maria, tudo voltou ao pântano. Passaram a chamar os retrocessos que fizeram de “avanços sociais”. Analfabetos e intelectuais ainda acreditam nisso. O maior crime do PT foi ter se aliado, ou melhor, ter feito um conluio com a pior direita brasileira: Lenin-Sarney.

Os séculos de patrimonialismo que nos legou Portugal, tirando da sociedade a autonomia sobre si mesma, transformou-a em uma massa amorfa, melancólica.

Como uma compensação para a impotência, passamos a valorizar o fracasso como uma qualidade nobre. Os bons fracassam, e os maus vencem. O fracasso passou a ser nosso mantra, puxando lamentos como “a vaca foi para o brejo” ou “estamos à beira do abismo”. Sempre estivemos à beira do abismo. Sempre.

O que estamos vendo aí é o súbito florescimento de colônias de micróbios que já nos afetavam há séculos. Flores podres desabrocharam.

Tudo que está acontecendo hoje com espalhafato já acontecia silenciosamente, surdamente, nos últimos séculos. Os fatos estavam se gestando, se montando, prontos para irromper. A barragem agora se abriu. O que estamos vendo é um “maktub” caboclo – tudo estava escrito.

Esta crise que vivemos é inédita aqui. Já tivemos golpes militares, renúncias, tiros no peito, porres fugitivos. Eram crises mais agudas, mais óbvias, mais concretas.

Hoje não. Esta crise é uma grande areia movediça que vai afogando instituições, velhos pilares da República, se coagulando como uma pasta, um brejo de não-acontecimentos em que nossa vida afunda. A depressão econômica criou a depressão interna.

Mas, dizem os psicólogos, que sem depressão não há descobertas. Assim, já entendemos que a esperança por um “país do futuro” é uma forma de paralisia.

Esta crise é terrível porque é uma caricatura. É a crise do superficial, do inerte, da anestesia sem cirurgia. Era evitável, se não fossem os atuais micróbios no poder. Esta crise é uma anedota, é um pesadelo humorístico. Esta crise não é só política; é psiquiátrica. O mundo nos contempla como um país de trapalhões; não é catástrofe, guerra – é a esculhambação secular.

E como vamos sair dessa? Vem aí o impeachment, e, com ele, a pergunta angustiada: o que virá depois? Já vemos os sinais de discordância entre os prováveis novos “donos do poder”.

Como vai se tecer uma rede de tantos interesses conflitantes? Como conciliar olhos de rapina, focinhos de raposa, evangélicos de conveniência, coxinhas trêmulos, partidinhos de aluguel, cutistas radicais, militantes de propina, bandidos hipócritas e bandidos assumidos? Como desenhar essa constelação de egoísmos conflitantes? Como criar uma frente de salvação nacional como apregoam?

Como fazer uma coalizão para o bem do país com ideias divergentes e delirantes explodindo em todas as direções? Onde se encontrará o ponto de convergência entre tantos bichos diferentes? Quem vai ser o domador? O Temer? Santo Deus...

Agora, a nota de desespero, caro leitor: talvez nosso destino já esteja traçado – seremos assim no futuro, para sempre.

Em seguida, aqui vai também um postscriptum de otimismo: O Brasil evolui pelo que perde e não pelo que ganha. Sempre houve no país uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Esse é nosso torto processo: com as ilusões perdidas, com a história em marcha a ré, estranhamente, andamos para a frente. O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Mais do que crise, talvez isso tudo seja uma “mutação”.

A bruta desgraça está ficando visível, e talvez a melancolia dê lugar a uma indignação e, depois, a uma nova consciência.

Punindo a vítima pelo próprio crime

O papo furado da ocorrência de um golpe contra o desastrado e atarantado desgoverno Dilma tem sido desmentido à exaustão. É o que mostra o placar folgado pelo qual foi aprovado em votação no plenário da Câmara dos Deputados o difamado relatório do ex-governista Jovair Arantes recomendando a abertura do processo do impeachment dela pelo Senado. Foram 367 votos sim contra 137 não e mais 7 abstenções e 2 ausências, 146 num total de 513: dois terços do quórum qualificado exigido mais 25.


Essa sessão histórica está sendo execrada por conta dos discursos prévios aos votos dos presentes, embora estes em nada tivessem diferido dos proferidos em disputas anteriores em voto aberto. Principalmente no último procedimento similar, em que foi deposto Fernando Collor de Mello. Outra tentativa de desqualificar a votação foi lembrar que apenas 34 votantes tinham obtido nas urnas sufrágios suficientes para se elegerem. O argumento é tão falacioso quanto o que nega legitimidade a Michel Temer sob a alegação de que ele não foi escolhido pelo eleitor. No Estado Democrático de Direito vigente no Brasil até ordem em contrário, o vice é legítimo, pois recebeu os mesmos votos da titular da chapa (mais de 54 milhões). Só votou no plenário da Câmara, da mesma forma, representante qualificado pelo sistema eleitoral vigente, o proporcional. Este pode até ser equivocado – e o tenho combatido desde 1988, quando foi ratificado e, a meu ver, até piorado. Mas é o que vige desde 1946, quando foi adotado, e continuará a valer até ser revogado por alguma reforma constitucional. Ou um coup d’État.

Ainda assim, nenhum brasileiro de posse das faculdades mentais, capaz de raciocinar com clareza e lógica e bem informado tem o direito de reclamar do resultado da sessão histórica daquele domingo. Deputado não é eleito para falar bem nem para agradar a gregos e troianos, mas para representar a sociedade. É a essência da democracia representativa, aqui vigente. O regime é imperfeito, como tudo o que é humano, mas não se conhece outro melhor. Quem votou sim expressou, de forma quase exata aritmeticamente, a posição do cidadão que o elegeu. Mesmo não tendo alcançado na eleição o coeficiente eleitoral, que não é uma meta a ser atingida por nenhum candidato, mas o número pelo qual se habilita uma legenda ou coligação para ocupar as vagas na Casa, como estabelece a lei. Afirmar que só 34 receberam os votos equivalentes a esse coeficiente não é informação útil, mas engodo, que só pode nascer de má-fé ou ignorância: é desinformação.

Na verdade, os discursos que deveriam ser criticados, embora nem por isso desconsiderados, seriam os que manifestaram o legítimo direito de dissentir da maioria, votos vencidos por larga margem. Ao denunciarem um golpe inexistente, esses representantes do povo mentiram, tentaram confundir o eleitorado e inscreveram na História política um ato que negou seus discursos. Seus votos provaram que aquela sessão não correspondeu a uma conspiração golpista, pois avalizaram a decisão da maioria. Se aquilo era um golpe disfarçado, por que cargas d’água eles compareceram para votar não? É claro que o fizeram pela permanência do desgoverno zumbi. Como não conseguiram, legitimaram a decisão da maioria.

Tal legitimidade foi, de novo, confirmada pela principal propagadora da tese que a contesta. A presidente Dilma Rousseff levou 51 (e esta não foi a melhor ideia que teve na vida) convidados para ouvirem seu discurso na assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre clima. Foi uma viagem inócua, contraditória e dispendiosa para o contribuinte, que a pagou nesta situação de crise aguda. Se foi feita para denunciar o golpe no exterior, malogrou completamente. Na ONU, felizmente, Dilma fez um discurso protocolar, em que a imagem do Brasil não foi prejudicada, como o foram os dês dos gerúndios, que, mesmo lendo, madama não pronuncia, submetendo os ouvidos dos lusófonos a “andano”, “pedalano” e outros barbarismos similares.

Mas o súbito surto de lucidez da “chefa” do governo foi interrompido quando, à noite, após ter visitado uma exposição de Degas, deu, de pé, uma entrevista coletiva e repetiu, aos berros, suas ladainhas. É golpe, jurou de pés separados e uma vez mais. Assim, descreveu o Brasil como a sede da primeira interrupção brusca de uma democracia em que o substituto ocupa o posto na sua ausência para, depois, devolver-lho sem nenhuma quebra protocolar. Se tivesse sido golpeada, Dilma não teria mais uma vez transferido ao contribuinte o ônus de pagar US$ 100 mil pela desistência de permanecer em Manhattan, antecipando a volta em um dia.

Enquanto a presidente jurava novamente nunca haver delinquido na vida, em casa o noticiário dava conta de que sua inocência presumida e apregoada é ameaçada por inquéritos policiais que põem em dúvida sua lisura em vários episódios, conforme delações premiadas de ex-aliados de ocasião. Daniele Fontelles, publicitária da Pepper, relatou àIstoÉ histórias cabeludas da contabilidade de sua campanha, protagonizadas por seu “maçaneta”, Giles Azevedo. Segundo outra revista, a Época, a santidade do nome dela deixou de ser unanimidade nacional. Sua honra está sendo enxovalhada em relatos, que não parecem da carochinha, envolvendo o ex-marido Carlos Araújo e a sempre por ela protegida Erenice Guerra.

Ao invocar esses mantras, a presidente fez questão de lembrar que três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que a criticaram por insistir na tese do golpe, são minoria num plenário de 11. Não errou a conta, mas essa manifestação de menosprezo por um Poder autônomo não a ajudará em sua porfia para ficar no trono, contrariando, no mínimo, 61% dos brasileiros ouvidos em pesquisa, 71% dos deputados federais que autorizaram o impeachment e 59% dos senadores. Estes declararam publicamente apoio a sua retirada no placar do Estadão, contribuição histórica da imprensa livre à cidadania soberana, por informar a cada dia ao eleitor qual seria a posição de seus representantes na Câmara. E agora dos representantes dos Estados, na disputa no Senado.

Seu ânimo belicoso, que ajudou a levá-la à beira do abismo institucional, onde está no momento, inspirou-a a incluir, na mesma desastrada entrevista, entre os interessados no tal golpe a imprensa, que noticia a morte e prenuncia o sepultamento de seu desgoverno.

Urge ressaltar que ela também inovou, naquela ocasião, convocando Mercosul e Unasul a punirem o Brasil, caso se confirme a prenunciada pule de dez de sua deposição. É, na certa, o primeiro caso na História em que um governante pede sanções contra o país cujas instituições jurou não apenas cumprir e honrar, mas também defender. Ao investir contra a Constituição de 1988, Dilma reassume enfaticamente, aqui ou fora do País, antigas convicções de desapreço pela democracia burguesa, que não quis restaurar quando pegou em armas contra a ditadura militar, ao contrário do que diz. Em vez de respeitá-la, ela só tenta usá-la em defesa do pretenso direito, que se atribui, de violar a lei, o que lhe teria sido conferido pelo voto popular. Assim, age como delinquente que exige que se puna a vítima pelo crime dela.

Lambança igual nunca se viu

Parece muito difícil que o Supremo Tribunal Federal adote a convocação de eleições presidenciais para logo depois do impeachment de Dilma Rousseff, caso Michel Temer também não se livre do constrangimento de não poder assumir, denunciado que está junto à maior corte nacional de justiça. Domina a maior parte dos ministros do STF a tendência de que não devem imiscuir-se nas questões do Legislativo e do Executivo. Prevalece a norma constitucional da harmonia e independência dos poderes da União. Sendo assim, no caso da degola de Madame, seguir-se-á a natureza as coisas, ou seja, a ascensão do vice-presidente, primeiro interinamente num prazo de até 180 dias, depois em definitivo, até o término do mandato em curso.

Tudo dependerá do Senado, onde até agora não foi alcançado o quorum, nas previsões que hoje chegam a 48 ou 49 votos e não aos 51 necessários à defenestração presidencial.

Não é de graça que Temer conversa como nunca na hipotética composição de seu ministério. No domingo, dialogou com Paulo Scaf, José Serra e Henrique Meirelles, como nos dias anteriores com inúmeros líderes partidários.

A sugestão de eleições presidenciais imediatas atropelaria a Constituição e romperia as instituições, aí então caracterizando o golpe. Parte do PT inclina-se por ela, imaginando a possibilidade da candidatura do Lula. Quanto a demais pretendentes, seriam os mesmos de sempre, como Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra e penduricalhos.

Sempre haverá a possibilidade de não acontecer nada, caso os adversários da presidente Dilma não consigam os votos necessários, no Senado, para o seu afastamento.

O triste nessa história é assistir o país parado, com o governo de Madame inerte, insosso e inodoro. Enquanto isso o desemprego se multiplica, o custo de vida sobe, os impostos aumentam e os salários caem. Inexistem planos e programas de recuperação nacional, pois o trabalho a que Michel Temer se dedica carece de embasamento legal, por enquanto.

Fixou-se a data de 12 de maio para o final da primeira fase de decisão dos senadores, quando a presidente poderia ser afastada pelos 180 dias, seguindo-se no seu decorrer a segunda etapa, pelo afastamento definitivo ou sua permanência até o final do mandato.

Lambança igual não se vê faz muito.

Lula incita PT e movimentos sociais a partir para a radicalização

A batalha do impeachment já está perdida. As previsões são de que o processo será aprovado pelos senadores na segunda quinzena de maio, com afastamento provisório da presidente Dilma Rousseff por 180 dias. A partir daí, o vice-presidente Michel Temer estará em exercício, à frente de um ministério de notáveis, liderados por Henrique Meirelles, que vai fazer a diferença em relação ao governo incompetente e titubeante da mulher sapiens, circunstância que fortalecerá ainda mais a aprovação definitiva do impeachment.

Hoje, o placar do Estadão já é de 50 votos a 20, com 11 indecisos. Portanto, a tendência é de Dilma Rousseff ser cassada por 58 votos a 23. Até a decisão final, daqui a alguns meses, é praticamente certo que até aumente o número de senadores contra ela.

Na base da tarja preta, Dilma ainda acredita em milagre, mas Lula, o PT e o governo já estão conscientes da realidade virtual, que não poderá ser revertida. Ou seja, em breve o partido estará fora do poder e dificilmente conseguira recuperá-lo nas próximas eleições. A derrocada é flagrante. Um quinto dos prefeitos que o PT elegeu já se desfiliou. E há notícias de que 26 deputados federais também deverão abandonar a legenda, para se integrar ao novo partido que está sendo criado pelo ex-governador gaúcho Tarso Genro,.

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Aliás, não podemos deixar de mencionar que Tarso Genro é exemplo de enriquecimento ilícito. Em 2015, quando o MST de Stédile invadiu uma das fazendas de sua filha Luciana Genro, para fazer provocação, ela ficou furiosa, mas o pai a tranquilizou, dizendo: “Esqueça esta fazenda, pode deixar que eu compro outra para você”. Esta notícia, publicada com destaque na imprensa gaúcha, infelizmente não teve repercussão nacional. Luciana é uma espécie de “Soninha Toda Pura” do PSOL e Genro está criando seu próprio partido, vejam que família bem sucedida.

Voltando ao fim da Era do PT, além do desemprego que afeta o país, desta vez serão milhares de militantes petistas que perderão os cargos de que desfrutam hoje, incluindo ministérios, secretarias, estatais e afins, como os órgãos do Sistema S (Sesi, Senai, Sesc etc.), os fundos de pensão e tudo o mais.

Pela primeira desde 2003, estes petistas terão de lutar pela sobrevivência na iniciativa privada. Os ainda ministros Ricardo Berzoini, Miguel Rossetto, Edinho Silva, Aldo Rebelo e Aloizio Mercadante, se ainda não enriqueceram como tantos outros correligionários, agora terão de lutar por uma vaga no mercado de trabalho. Entre todos eles, apenas José Eduardo Cardozo tem vaga garantida, pois é procurador do município de São Paulo e pode pedir reintegração.

Cardozo é um felizardo, seu futuro está garantido, mas não se pode dizer o mesmo em relação aos milhares de militantes petistas que ficarão ao léu.

O desemprego petista vai afetar até mesmo o famoso Instituto Lula, que tem elevado custo mensal e faz tempo que as receitas das falsas palestras deixaram de irrigar a contabilidade. Os dirigentes Paulo Okamotto, Luiz Dulci, Ana Ant, Paulo Vanucchi e Celso Marcondes já sentiram o drama e o site do Instituto passou a pedir contribuições aos militantes petistas.

No desespero, Lula tenta resistir no grito, incitando o PT e os movimentos sociais a sair às ruas e lutar contra o impeachment. Nesta segunda-feira, ao participar do Seminário Internacional da Aliança Progressista, em São Paulo, o ex-presidente foi claro. “Nós do PT vamos resistir, vamos lutar, porque com a democracia não se brinca. Se preparem porque, se pensam que vão destruir o PT e a nossa motivação, é só olhar para as ruas e ver a diferença do nosso povo”, disse Lula, prevendo tempos difíceis e de embate no País, com o processo de impeachment de Dilma em andamento.

“Aqui no Brasil vai ter muita luta. Esperem que viveremos momentos de combate democrático”, anunciou.

Lula sabe que a Era do PT está no fim. Tenta revivê-la através de ameaças e de incitação ao confronto. Até agora, não houve enfrentamentos graves, mas tudo pode acontecer quando o Senado for votar o afastamento da presidente Dilma, agora em maio.

Renan Calheiros (PMDB-RJ), na condição de presidente do Senado, está prometendo votar o afastamento no dia 15 de maio, dentro de três semanas, mas não se pode confiar nele, tudo indica que pretende retardar ao máximo a decisão, levando-a ao final de maio ou início de junho.

O resultado é que o clima irá se acirrando cada vez mais. Ninguém sabe o que poderá acontecer quando João Pedro Stédile atender a Lula e colocar seu “exército” nas ruas. É aí que mora o perigo, como se diz hoje em dia.

Republiqueta do cuspe

O país que se vangloria de ser democrático está dando exemplos de que. aqui, a democracia não aceita divergências, foge à discussão. Como numa boa republiqueta de alpacas, a questão é discutida no berro, definida na palavra de ordem e finalizada na cuspidela.

Por mais deplorável e condenável que seja Jair Bolsonaro (PP) dedicar seu voto democrático a um torturador da ditadura - e merece só por isso a rejeição em massa do país -, nem assim a cusparada de Jean Wyllys (Psol) merece isenção.

Aceitar os contrários, ainda mais no plenário de uma Câmara, é lição de democracia assistida ao vivo no país. Não merece ser emporcalhada pela exaltação em defesa do pensamento nem muito menos servir de modelo para outras atitudes de desrespeito ao contrário. 


A cena mais nojenta do cúmulo da intolerância, no entanto, foi protagonizada no sábado. O ator José de Abreu, ferrenho garoto propaganda petista, resolveu adotar a cusparada como argumento. Numa discussão em um restaurante com um casal, cuspiu nos dois e ainda por cima, contido por segurança da casa, chamou para a briga o marido. A valentia foi também auto-vangloriada em rede social.

Não foi a melhor representação do ator, mas decididamente foi a mais deplorável manifestação política de José de Abreu. Usar cuspe como argumento talvez sirva aos animais como alpacas e lhamas, não é decididamente gesto de um ator ou de qualquer outro profissional. Mas expressa bem o caráter do cuspidor se é que haja caráter aí.

A atitude tem muito a dizer sobre o PT, criador das palavras de ordem e fundador dos "soldados" e dos exércitos mercenários de pobres. Há uma valentia petista que incentiva a porradaria para discutir problemas, Mas agora surgiu uma nova modalidade dos valentes tipo alpaca. Em ambos os casos, os partidários não admitem debate democrático ou livre expressão.

Não é de hoje esse autoritarismo nos gestos petistas. Bem sabem muitos que foram indiciados por calúnia e difamação apenas por expressarem opiniões contrárias ao credo petista, sem contar os que sofreram pressão dos "soldados". Nada tão diferente de regimes totalitários, que recorreram até a alcaguetes para impor seu credo. E para difamar, abusar do anonimato, se esconder nas redes sociais atrás de pseudônimos, o Brasil não é nada santificado. A canalha não tem nacionalidade, mas esbanja canalhice.

Como o ator que correu às redes sociais para vangloriar-se da valentia, os petistas costumam bancar os valentões e correrem para as saias da mamãe, sejam estas a Justiça, a honestidade, ou agora a cusparada. Eles sempre são "inocentes" nos crimes, porque os criminosos, segundo o evangelho petista, são as vítimas. Se vangloriam das benesses que prodigalizam aos pobres como benção de todo crime que praticam. Por isso, cospem.

O país, ainda, não é sério

Precisamos reinventar a vergonha no país. Já se sabia dessa ressaca. Já existem controles precisos para prever as ressacas. Faltou o básico, faltou uma contenção adequada para conter a força das ondas, o que não é nada difícil de ser feito. Faltou cuidado, faltou fiscalização, faltou previsão. Ondas só causam isso quando não há o mínimo de preparo. Estamos diante de uma mancada enorme e completamente lamentável. É preciso, de uma vez por todas, levarmos as coisas mais a sério neste país
Dickran Berberian, professor da UnB especialista em patologia de estruturas e fundações,  sobre a queda da ciclovia Tim Maia, no Rio

Lula agora chama seus ex-aliados de 'quadrilha'

Mal comparando, Lula vive situação análoga à do sujeito que, desabituado de olhar-se no espelho, leva uma eternidade para perceber que a mulher casara-se com ele por dinheiro. Em sua primeira manifestação depois do Waterloo da Câmara, o sábio da tribo do PT declarou que “uma verdadeira quadrilha legislativa”, unida à imprensa e à oposição, “implantou a agenda do caos” no país. O pajé acrescentou que a quadrilha “foi comandada pelo presidente da Câmara dos Deputados, réu em dois processos por corrupção, investigado em quatro inquéritos e apanhado em flagrante ao mentir sobre suas contas escondidas no exterior.”

Lula demorou quase 14 anos para notar que os companheiros do PP, PR, PTB, PMDB e assemelhados coligaram-se com os governos do PT não por amor, mas pelos mensalões e petrolões. Só agora, depois de arrombadas todas as arcas, Lula se deu conta de que seus aliados eram traidores que ainda não tinham reparado na sensualidade do Michel Temer. Mais um pouco e o morubixaba do petismo vai acabar percebendo que o dinheiro da Petrobras só saiu pelo ladrão porque o governo permitiu que o ladrão entrasse no cofre. Sem isso, não haveria Lava Jato nem dinheiro do Eduardo Cunha na Suíça.

Pobre Lula! Sem perceber, tornou-se um típico político brasileiro. Grosso modo falando. Demorou quase 14 anos para reconhecer que “base aliada” era apenas um eufemismo para “quadrilha”. Antes, Lula dizia: “Falem-me de infidelidade que eu puxo logo o talão de cheques.” Agora, com a Lava Jato a aquecer-lhes a nuca, os quadrilheiros exclamam: “Falem-nos de lealdade que puxamos logo o coro do impeachment: 'por minha família…', 'pelos meus filhos…', 'pelo papagaio…'.'' Noutros tempos, Lula exclamava: “falem-me em rebelião que eu puxo logo um bom discurso''. Agora, os aliados exclamam: “Falem-nos em lero-lero que nós puxamos logo um ronco.”

Por uma ética da cuspidela

Tenho enorme paixão por Eça de Queiroz e, em particular, pel’“Os Maias”. As minhas páginas preferidas são aquelas que dizem respeito à retratação de Dâmaso Salcede, um pequeno canalha, lambe-botas, que a certa altura faz publicar um artigo reles contra Carlos da Maia. João da Ega, melhor amigo de Carlos, e um alter ego do próprio Eça, vai à casa de Dâmaso, exigindo que este se retrate, ou se bata em duelo. O pobre Dâmaso recusa ambas as opções. Ega explica-lhe que, nesse caso, Carlos da Maia teria de recorrer a uma medida extrema: “em qualquer parte que o encontrasse, daí por diante, fosse uma rua, fosse um teatro, lhe escarraria na face”.

A histórica cuspidela (acho que já podemos chamá-la histórica) de Jean Wyllys contra Jair Bolsonaro parece-me muitíssimo mais legítima do que a de Carlos da Maia contra Dâmaso Salcede. Nesta última estava em causa a dignidade de uma senhora. Na primeira estava em causa a dignidade de um país inteiro. As declarações de Bolsonaro, que tiveram (e continuam a ter) larga repercussão na imprensa internacional, degradam imensamente a imagem do Brasil. Quem produz uma declaração como aquela não está nem à esquerda, nem à direita: está atrás! Lá muito, muito atrás, num tempo e numa sociedade em que a tortura era vista como um delicado entretenimento de cavalheiros. O ideal seria enviar o senhor Bolsonaro de volta a essa era remota. Não sendo possível isso, por óbvias dificuldades técnicas, então que o mandem para os territórios ainda ocupados pelo Daesh, que é o mais parecido que temos hoje com a Idade Média. Bolsonaro deverá sentir-se bem ali, naqueles ásperos desertos, entre torturadores e violadores, homens que odeiam mulheres livres e apedrejam os homossexuais até a morte.

Imagino que Bolsonaro se veja a si próprio como um legítimo nacionalista brasileiro. Porém, ao menos para os meus ainda um tanto ingênuos olhos estrangeiros, Bolsonaro representa o contrário, representa o anti-Brasil. Bolsonaro tem tanto a ver com o Brasil (que eu amo) quanto um urso polar tem a ver com uma savana. “Bolsonaro brasileiro” soa aos meus ouvidos como um oximoro desagradável. Não obstante o pesado ambiente de crispação que se instalou no Brasil ao longo dos últimos meses, os brasileiros continuam a ser vistos no exterior como um povo carinhoso, festivo, tolerante e generoso. Tenho testemunhado, nas minhas viagens, o valor de um passaporte brasileiro. Basta alguém dizer “sou brasileiro” para que os sorrisos se abram. Eu próprio finjo por vezes que sou brasileiro de forma a ser melhor tratado em países remotos.

Cuspir na face de outro é um gesto universal de desprezo. Para alguns antropólogos seria uma regurgitação simbólica, do tipo “já te comi e agora cuspo-te, porque tu és completamente intragável”; para outros representaria uma ameaça de contaminação.

Ilustres cuspidores do nosso tempo incluem nomes como Brad Pitt, Naomi Campbell ou Justin Bieber (cuspiu no rosto de um DJ; cuspiu em fãs, a partir da sacada de um hotel; cuspiu numa mulher dentro de uma academia, e por aí fora). Jogadores de futebol, conhecidos por cuspir no gramado, vez por outra projetam também os seus atléticos fluídos no rosto dos adversários ou dos árbitros (Falcão, Diego Costa, Neto). No xadrez, talvez porque os jogadores não tenham por hábito cuspir no tabuleiro, é mais difícil imaginar situações semelhantes. Até mesmo Bobby Fischer, famoso pelo temperamento explosivo, nunca usou o seu cuspe em público senão para atingir, diante das câmaras de televisão, um documento das autoridades americanas que o proibia de entrar na Iugoslávia.

Todas as cuspidelas listadas acima constituem, é claro, casos de pura má-criação. Nada a ver com as cuspidelas aristocráticas e de grandes causas de um Carlos da Maia. Jean Wyllys, pelo contrário, talvez tenha conseguido reabilitar a cuspidela enquanto gesto de honra. Pode questionar-se a elegância de tal gesto e a respectiva higiene, mas não, creio, a justeza da mesma. Seria preferível Wyllys ficar-se pela cuspidela metafórica (“Cuspo na sua alma!”), até porque se o deputado baiano sair por aí cuspindo em todos os canalhas vai terminar morrendo de desidratação.

Por outro lado, às vezes a vileza é tamanha, e tão desavergonhada, que seria de pensar até na contratação de cuspideiras profissionais. À semelhança das carpideiras, ou choradeiras, contratadas para chorar em funerais, esses profissionais da cuspidela percorreriam as cerimônias oficiais, cuspindo na cara assustada dos corruptos e dos canalhas explícitos. Talvez resultasse. 

José Eduardo Agualusa

A mentira do golpe

A presidente Dilma teve o bom senso de não atacar nossas instituições em sua fala na ONU. Pois a falsa narrativa de que estaria sofrendo um golpe pelo processo de impeachment é na verdade o maior de todos os golpes que poderiam ser desferidos contra o regime democrático. A mentira do golpe é pior do que “um gravíssimo equívoco” e “uma ofensa às nossas instituições”, como condenaram os ministros do Supremo Celso de Mello e Dias Toffoli.

É uma perversa convocação à militância na tentativa de manter o poder, apesar das evidências de desrespeito à lei orçamentária e de omissão ou cumplicidade com a roubalheira. É também uma desonesta desculpa para o colapso político e econômico de um país exaurido pela incompetência e pela corrupção.

Compromete nosso futuro porque tenta ocultar o aperfeiçoamento institucional que experimentamos. O despertar de instituições republicanas revela disfunções de um capitalismo de quadrilha, em que se associam a falta de transparência e a corrupção no aparelho de Estado à compra de sustentação parlamentar, cimentando degenerada aliança de piratas privados e criaturas do pântano político.


O impeachment de Collor foi golpe contra presidente que não era de “esquerda” e não dividiu o butim? Ou foi avanço institucional pela declaração de independência do Legislativo? Poder que exerce agora atribuições constitucionais avaliando a admissibilidade do impeachment de Dilma. Como um Judiciário independente celebrará no futuro as atuações históricas de Joaquim Barbosa e Sergio Moro.

É o fim da administração centralizada gerencialmente caótica (excesso de ministérios) e politicamente desarticulada (sem sintonia com Estados e municípios). Prioridades da democracia emergente (saúde, educação, saneamento) exigem políticas públicas de execução descentralizada.

A lipoaspiração do governo federal (reforma administrativa) e a descentralização de recursos para Estados e municípios (reforma fiscal) aumentam a eficiência e melhoram a governabilidade. Impostos disfuncionais (reforma tributária), relações de trabalho obsoletas, encargos sociais proibitivos (reformas trabalhista e previdenciária) e marcos regulatórios deficientes impedem investimentos. As reformas na política e na economia são urgentes e indissociáveis.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Charge do dia 25/04/2016

Feio, mas necessário

Se fosse catapultado a essa longa sessão da Câmara, sem saber o que estava sendo votado, eu diria com tristeza: eles estão vencendo, os velhos adversários. E se o cansaço da longa sessão me valesse um cochilo, acordar com o voto de Jair Bolsonaro me faria sentir num templo satânico. Sabia muito bem onde estava. Quatro mandatos e 16 anos naquele mundo subterrâneo me fizeram prever na semana anterior, no programa da CBN, a enxurrada de votos pela família, por filhos, netos, a avó que está doente.

Não era o primeiro impeachment que via. Foi assim na queda de Collor. Na verdade, o nível naquela época era um pouco mais alto. Enrolados em bandeiras, detonando bombas de papel picado, os deputados de hoje estão mais inseridos no espetáculo. Falam com imagens. É como se colocassem uma letra retrógrada na canção do impeachment, vitória da sociedade, de algumas instituições e da própria transparência.


A cabeça dos deputados passou por um raio X diante de 100 milhões de espectadores. Cerca de 90 deles são investigados no Supremo. Agora que todos sabem o que temos, certamente vão compreender a urgência de mudanças.

Com tanta coisa acontecendo, naquelas longas horas, procurei não me esquecer das tarefas principais: a reconstrução econômica e ampla transparência sobre o gigantesco processo de corrupção que devastou nosso país.

Os generais da esquerda levaram suas tropas para um combate que sabiam perdido. Refugiaram-se na tese do golpe, para mascarar as graves acusações que pesam contra eles. O que para os líderes era apenas uma boia no oceano, para muitos foi uma ilusão de que havia um golpe em marcha, e ele seria detido.

A insensatez se prolonga com a viagem de Dilma Rousseff ao exterior onde foi se dizer, para a mídia, vítima de um golpe aplicado pelo Congresso e pelo Supremo. Minha senhora, no seu país não há Constituição? Quem dá a palavra final quando ela não está sendo cumprida?

Os jornalistas internacionais não são tão ingênuos. Sabem que, quando se apela para eles, é porque já se perdeu a batalha no seu próprio território. Só uma presidente enlouquecida poderia sonhar em transferir a guarda da Constituição brasileira do Supremo Federal para a ONU. Ainda bem que não o fez.

Esse espetáculo decadente me entristece, apenas isso. Um jovem senador do PT disse que não dará sossego ao novo governo. O país terá de trabalhar muito para sair da crise e deve se concentrar nisso. Mesmo porque a própria Lava-Jato vai se encarregar de não dar sossego aos petistas, inclusive ao jovem senador.

Dilma foi cassada por crime de responsabilidade fiscal, decretos secretos para financiar um rombo de milhões, criar uma ilusão de prosperidade e vencer as eleições. Repetiu o erro em 2015. Se não fosse cassada por isso, seria pelos fatos de Curitiba: campanha com dinheiro do Petrolão, tentativa de obstruir a Justiça. O que vem de Curitiba não resulta apenas em impeachment, mas possivelmente em anos de cadeia. E cadeia, jovem senador, é um lugar que sintetizo numa frase que vi em várias celas onde estive preso e dezenas que visitei: “aqui, o filho chora, e mãe não ouve”.

Se olhamos para o futuro, pela ótica da transparência, a derrota de domingo será difícil de explicar para milhares de pessoas que acreditaram mesmo que havia um golpe em curso. Elas vão perceber que foram usadas como um álibi porque seus líderes tratavam mesmo de escapar da polícia, como aliás já ficou provado no áudio Lula-Dilma.

Essa tática do PT serve apenas para deixar mais arrasado o lado esquerdo do espectro político. As forças conservadoras que já eram fortes tornaram-se mais articuladas, milhares de jovens foram confrontados com a ideia de uma esquerda cínica, corrupta, autoritária.

De uma certa maneira, os discursos contra o PT foram um bálsamo para o partido. Olhem quem está nos derrubando. Mas todos sabemos que não foram derrubados pela Câmara, e sim pela sociedade. Nas ruas, era o discurso de Brasil moderno, contra a corrupção, pela transparência, por serviços públicos decentes, a rejeição do populismo bolivariano. Na rua, havia famílias sonhando com um projeto mais amplo; na Câmara, os deputados reduziram os destinos do país às suas próprias famílias. Isso marca uma distância, mas no essencial cumpriu-se o desejo da maioria.

Era o instrumento legal que a sociedade tinha para se defender, por mais repugnantes que sejam algumas ideias que circulam ali. Tenho repetido isso, como um privilégio da idade. Os impeachments ocorrem num período de cerca de 20 anos. Se a frequência for mantida, este foi o último a que assisti na Câmara. Reste o do Senado, onde se toma muito chá, e espero uma elevação do nível. Se vierem com essa história de Deus, família, filhos e netos, saco da arma que uso sempre que me entediam: um bom livro.

Shakespeare e o impeachment

Por todo o mundo, registram-se comemorações pelos 400 anos da morte de William Shakespeare, completados ontem, 23 de abril, e não pode haver outro tema nesses eventos que a atualidade dessa obra, uma espécie de “escritura secular”, particularmente completa quando se trata de intrigas, maquinações, virtudes e desatinos dos homens públicos.

Nessa empolgação, diz-se que os enredos políticos do noticiário não passam de variações empobrecidas sobre um vernáculo catalogado há séculos. Será mesmo? Vamos, então, a um teste bem difícil: o que há sobre impeachment nas 38 peças de Shakespeare?

Pois bem, há uma peça que Antonio Cândido designou como a “tragédia do destronamento”, e que parece feita para nós. Ricardo II, escrita em 1595, oferece um retrato inacreditavelmente fiel da nossa crise e da ruína da presidência Dilma Rousseff, acredite se quiser.

Ricardo II foi a primeira de uma série de quatro peças históricas em sequência que cobriam o reinado do verdadeiro Ricardo II até o de Henrique V (1377 até 1422). Shakespeare escrevia dois séculos depois, numa época difícil, face às tensões em torno da rainha Elisabeth I, sempre muito questionada, e às voltas com conspirações.

O regime era absolutista e seu fundamento era o Direito Divino, sob o qual não cabia nenhum questionamento sobre as ações do rei, ainda que manifestamente idiota ou mesmo quando violavam a lei. Quem haveria de julgar um rei ungido por Deus?

A tragédia de Ricardo II começa com um escândalo, não em uma empresa de petróleo, mas um assassinato, e uma controvérsia sobre os culpados. Logo ficamos sabendo que o próprio rei foi o mandante, e a discussão se dava entre dois nobres: o assassino de fato e o primo do rei, de nome Henrique de Bolinbroke, um sucessor natural do rei.

A gestão política dessa crise foi uma coleção de erros e vacilações, quase um almanaque sobre o que não deve fazer um rei nessas situações, conforme o figurino de Maquiavel, cuja obra Shakespeare havia acabado de conhecer e abraçar.

O rei primeiro determinou que a controvérsia se resolvesse num duelo, mas depois mudou de ideia e determinou o banimento dos dois, sendo que Bolinbroke apenas por seis anos. O mundo político ficou sobressaltado com a solução. Instaurou-se a incerteza. Sabia-se que o rei havia violado a lei, e ordenado o assassinato.

Tudo é muito fácil, do ponto de vista dramático, quando o rei é acintosamente maligno, como Macbeth, Ricardo III, Claudio e tanto outros extraordinários vilões da galeria shakespeariana. O problema aqui era que Ricardo II era “um homem honrado”, no exato sentido em que essa linguagem foi utilizada por Marco Antonio, para se referir a Brutus, em seu elogio fúnebre a Julio Cesar, do que resultou atiçar o povo contra os conspiradores. Foi com essas mesmas palavras que FHC se referiu a Dilma Rousseff, no exterior, quando perguntado sobre ela.

Como se dá o destronamento de um “homem honrado” como Ricardo, culpado de assassinato, mas que apenas se expressa em poesia?

Os críticos identificam três eixos para o fenômeno que se designa como “perda de realeza” pelo qual, no universo de Shakespeare, e nessa peça em particular, o homem se separa da função e o rei se autodestrói.

Em primeiro lugar, o rei era um esbanjador irresponsável e havia levado a Inglaterra à bancarrota com guerras caras e tolas, e com impostos excessivos. Em uma cena que se tornou clássica, os jardineiros do palácio são os que melhor definem as “pedaladas” reais, comparando a Inglaterra a um jardim malcuidado, repleto de excessos e ervas daninhas.

Em segundo lugar, há uma impressionante sucessão de pequenos ridículos, imaturidades e hesitações do rei, todas revelando um temperamento muito difícil, não explosivo e com dificuldades com o idioma, como Dilma, mas evasivo, ausente, lírico, excessivamente autorreferenciado. O rei só ouve bajuladores, vive isento das exigências da realidade, aprisionado em sua própria poesia, “incapaz de distinguir a manipulação de coisas e palavras”, como explica Harold Bloom.

E, para culminar, o rei perpetra um outro desrespeito à lei, considerado mais petulante e inaceitável que o escândalo que inicia o drama: o rei determina o confisco das terras e bens da família de Bolinbroke. A interpretação do mundo político foi a de que o rei estava subvertendo a ordem, pois estava atacando as mesmas leis que estabeleciam o seu direito ao trono.

O drama se sucede de forma linear a partir desses três eixos, e Ricardo parece sucumbir sozinho à realidade de sua inadequação à posição de rei, mas estranhamente seduzido pela ideia que seu Direito Divino estava sendo golpeado e que um exército de anjos ia descer dos céus para salvar sua coroa.

Barbara Heliodora o descreve como “um egocêntrico incapaz de se concentrar objetivamente nos problemas que lhe são apresentados” e enxerga uma “alta dose de prazer masoquista” no “gozo que o personagem sente em se ver no papel de vítima”.

Enquanto o rei ia murchando, Bolinbroke apenas insiste que lhe sejam devolvidas as terras confiscadas, o que Ricardo interpreta como “golpe”. Os nobres reconhecem a legitimidade do pleito de Bolinbroke, pois queriam evitar a insegurança jurídica e, habilmente, Bolinbroke não revela a sua pretensão ao trono. Emerge muito clara a tensão da época entre o governante ungido e flagrantemente inepto e o pretendente bem preparado, porém, tecnicamente, usurpador.

Bolinbroke não avança sobre o trono, ou se o faz é com imenso comedimento, apenas comparável ao estranho conforto que o rei encontra em dramatizar o seu próprio fracasso. Barbara Heliodora observa que Henrique de Bolinbroke “chega ao trono sem que Shakespeare lhe dê um só monólogo”. Esse personagem é apenas ação, embora tudo lhe venha por gravidade.

O destronamento se torna praticamente uma renúncia, e o rei nem mesmo se opõe a uma cerimônia de abdicação que fazia a transição um ato voluntário. O rei cresce como personagem, e como poeta, embora de forma inútil e centrada unicamente nas indignidades que diz sofrer. Quanto mais lírico, mais clara sua inaptidão para o cargo, ainda mais diante de seu sucessor, um político profissional. Bolinbroke se torna Henrique IV, manda matar Ricardo, e promete uma Cruzada na Terra Santa para expiar o delito, promessa jamais cumprida.

Qual a lição?

Ricardo morreu afirmando que foi golpe, estranhamente confortado com essa versão de seu fracasso. No conceito absolutista, não há dúvida que Bolinbroke era usurpador, mesmo contando com apoio de todos. O poder não emanava do povo nesses tempos.

Hoje, não temos mais um rei, mas três poderes, tudo diferente, exceto pelo fato de que Dilma Rousseff reedita Ricardo II de tantas maneiras que sua agonia parece ainda mais falsificada e infinitamente mais tosca.

Gustavo Franco

Yes, nós temos banana!

São dias estranhos. Ou melhor, época estranha. A lama parece estar por toda parte. Notícias boas, desaparecendo. Provavelmente sumiram soterradas nos escombros de desabamentos, corrupção, noticiário policial e outras coisas ruins, novas ou antigas. Por todo lado, sobra confusão. Falta horizonte.

Otimismo extremo poderia sugerir que, com tanta crise, talvez existam oportunidades. Pessimismo não tão extremo indicaria que as coisas não têm mesmo jeito. A verdade parece estar em algum ponto entre estes opostos. O difícil tem sido chegar a conclusões razoáveis neste barulho todo.

Parte do problema parece ser que a razão parece ter desaparecido junto com as boas noticias. Encontra-se soterrada por argumentos falaciosos, baseados em paradoxos falsos e dilemas inexistentes. Soterrado por discursos complicados, sem sentido, travestidos de argumentos jurídicos opacos, mas sem sentido.

O interessante é que não existe muita duvida sobre os fatos ou a culpa. Ninguém nega mais nada. Ninguém contexto os fatos. Ninguém nem mesmo pede desculpas. Ou se arrepende de qualquer coisa. Tudo o que se lê, se ouve e se fala diz respeito exclusivamente a conveniência e a oportunidade de punição de pessoas que, já sabemos, são, de fato, culpadas.

Não deixa de fascinar a simplicidade dos argumentos. Todos dizem que, embora não haja duvida em relação aos atos praticados e a responsabilidade por eles, punir não é justificado porque sempre foi assim no passado. A punição seria, portanto, não somente inconveniente, mas desnecessária e inútil. Tudo sempre foi e será assim.

Estranha logica. Assume que estamos condenados a reproduzir, sempre em escala e prejuízos crescente, os erros do passado. Não teríamos, portanto, o direito e muito menos a capacidade de melhorar. Nosso caminho natural seria simplesmente projetar no futuro um passado do qual não nos orgulharmos. Ignora a nossa sede de mudança e o desejo por um futuro melhor. O distinto público discorda. Quer melhorias.

A resistência da população em aceitar a repetição do passado como destino inevitável, combinada com a vontade de evitar a punição a qualquer custo preocupa os pecadores. Por isso, recorrem a falsos dilemas. Impossibilitados de melhorar a estatura de suas ações, tentam rebaixar o teto das ideias. Argumentam que a punição não é adequada porque todo mundo faz.

Talvez seja até verdade que as praticas ilegais sejam generalizadas. O problema é que a frequência dos delitos não torna menor a culpa. Más companhias não melhoram o caráter e muito menos reduzem a gravidade das ações. Apenas provam que o país tem muito que fazer.

Em triste espetáculo, querem que o distinto público abrace como destino a reprodução de erros passados perdoando pecadores atuais com o simples argumentos que o numero de pecadores é muito grande. Pedem que aceitemos viver em uma republica de bananas.

Só existe uma resposta possível. Banana para eles!

Vamos partir para a ignorância/?

Ah, é? Ah, é isso, é assim? É para partir para a ignorância? Vamos todos agora virarmos uns trogloditas, nos socando nas ruas, uns cuspindo em outros? Joga pedra na Geni? Vamos partir para o tacape? Para o tudo ou nada? Que coisa feia, dando exemplo para as crianças, para os meninos e meninas que se divertem sem saber por quê, muito menos do quê em rolezinhos-protestos.

Inacreditável. Estamos mesmo conseguindo andar para trás a passos largos – passos não, saltos, e saltos ornamentais provando que precisamos mais do que muito urgentemente fazer nada mais nada menos do que superar. Parar com isso, com essa animosidade toda. Não, não estamos divididos, pelo menos não em apenas dois pedaços como querem fazer parecer. Há uma infinidade de opções.

Não vamos partir para a ignorância.

De repente o ator conhecido, ultimamente mais por ser petista, burro e destemperado, do que como ator, cospe – sim, cospe no casal que o afrontou em um restaurante de São Paulo. Cospe no homem. Cospe na mulher. (Ele agora vai sentir com quantos cuspes se desfaz uma carreira)

O casal sem noção afrontou o ator petista, burro e destemperado, falando um monte de asneiras e bobagens, acusando o zézinho de ladrão, já que dali discussão civilizada sobre política não sairia mesmo. Vomitaram clichês, mas ainda bem que apenas em gritos, por insuportável sua quantidade.

Aí, o zezinho, o ator petista burro e destemperado, vai para casa e corre para o computador para escrever e contar para seus amiguinhos o quanto estava orgulhoso de ter cuspido no casal. Um grupo bate palminhas. O outro quer queimá-lo em praça pública, esquecendo apenas que ele é apenas um ator petista burro e destemperado. Sem qualquer importância.

Nem muita personalidade teve o ato, já que o projétil salivar já havia sido emitido por um outro “bravo combatente” há poucos dias na cara do imbecilnaro. Imbecilnaro esse que ousou evocar e pronunciar o nome do cão dos infernos em seus segundos de votação.

Quequiéisso?


Acho preocupante e considero um comportamento inadmissível ver amigos, inclusive jornalistas, rosnando e babando contra veículos de comunicação grandes, os poucos que estão sobrando, e propondo que no lugar se busque a informação para beber só nos poços alternativos – maioria, água que se diz pura, mas na verdade já vem contaminada com enormes equívocos históricos. Ou de origem e financiamento.

É desonestidade intelectual e uma inusitada sordidez de ataque. Sabem que não é o que dizem, que não tem golpe nenhum, que erraram, que o país está parado, que a maioria os quer ver pelas costas seja por causa de pedaladas, dos pontapés, fora só uma, fora uma e o outro, os dois, desde que saiam da frente, nos deixem superar. Transformam-se em chacotas, fantasmas dos líderes que já foram. E eles não têm altivez para ao menos tentar solução, não semear a discórdia, parar de incentivar o confronto, e muito menos patrocinar os escrachos que vêm sendo feitos pela molecada, tão naturais e espontâneos que até assessoria de imprensa têm.

Uma coisinha, um cisco, vira uma tese sociológica e acadêmica chaaata, muito chata, de como forças conservadoras através de uma matéria com o perfil de uma sortuda estão operando para que as mulheres brasileiras todas regridam em suas conquistas e voltem a ser apenas belas, recatadas, e do lar. Coitada da mulher sortuda que parece saída de uma cândida fotonovela – se bem que com essa ela já toma o primeiro tranco para perceber o que vai vir daí por diante, o rojão grosso que terá de segurar.

Precisaria de uma mágica, um milagre para mudar os nossos políticos tentando fazê-los lordes – difícil. Penso nisso quando lembro que vi o espancador Pedro Paulo jogado na fogueira da ciclovia de pluma levada por Netuno. Atento ao marketing de quem ainda pensa(va) em ser candidato ousou, mexendo na aliancinha no dedo – balbuciar que “talvez” houvesse algum problema com a obra, e chamando de “incidente” aquela tragédia. Tragédia cuja imagem que restou – os dois corpos das vítimas jogados na areia da praia, e ao lado uma normal partida de futebol – essa sim, levada ao mundo essa imagem informou mais sobre como estamos do que as mais vigorosas teses intelectuais.

Nós já partimos para a ignorância. Quando a humanidade se acostuma com trevas, ficamos nos abalroando no escuro. Pisando uns nos calos dos outros. Chutando bem abaixo da linha do Equador.

A grande mentirosa

Quando vi imagens de uma manifestação contra o “golpe” em Nova York, não resisti e comentei com meus botões: deve ser o pessoal que faz compras na 25 de março... brasileirinhos bem alimentados em defesa da senhora Rousseff, corajosa-e-honesta representante de nossa “elite branca”, para falar nos termos da antropologia lulista.

Não entendo, aliás, a razão dos petistas insistirem tanto nesse elogio: corajosa-e-honesta. Estas palavras não querem dizer nada politicamente, quando usadas fora de contexto. Afinal, Hitler era corajoso e honesto. Quanto à senhora Rousseff, especialista em tentar tapar o sol com a peneira, melhor pôr em dúvida pelo menos um dos adjetivos. Honesta, mas... faz vista grossa à corrupção, acoberta malfeitores e se beneficia pessoalmente da situação, canalizando propinas para permanecer no poder, segundo delações marqueteiras que não surpreenderam ninguém com algum conhecimento do assunto.

Um adjetivo, no entanto, qualifica sem ressalvas a senhora Rousseff. Ela é mentirosa. Vimos isso na campanha eleitoral de 2010, quando ela definiu, entre suas quatro prioridades, a realização de uma grande reforma urbana nacional – e, depois de eleita, fez de conta que não tinha nada a ver com o assunto. A verdade é que Dilma entrou em cena mentindo – e vai sair do mesmo modo. Todos se lembram de que ela enfiou em seu currículo um doutorado na Unicamp, que nunca chegou a concretizar. E, sempre que se vê em algum perigo político, a dama indigna acusa os adversários de estarem se preparando para extinguir seus “programas sociais”.

A campanha presidencial de 2014, espetacularmente mentirosa, foi pura delinquência. Dilma promoveu ataques criminosos a Marina, personalidade realmente digna da recente história política do Brasil. E dizia que, se um de seus adversários fosse eleito, baixaria medidas “contra o povo brasileiro” – exatamente as medidas que ela começou a colocar em prática, assim que tomou posse.

Mas sua mentira mais duradoura é dizer que, durante a ditadura militar, lutou pela democracia. Ela nunca fez isso. Foi militante de uma organização clandestina – a Polop – que, em sua pregação “marxista-leninista”, considerava a democracia uma coisa burguesa. Dilma defendia, então, que era preciso substituir a “ditadura dos patrões” (como os polopianos discursavam nas passeatas da década de 1960) pela ditadura do proletariado. Democracia, nem pensar. Mas ela finge que foi democrata. E prosseguirá mentindo por toda a eternidade.

Dilma e seu desamor ao Brasil

A Constituição determina que, para que o impeachment aconteça, é preciso ter crime de responsabilidade. E não tem, contra mim, nenhuma acusação de corrupção
Dilma Rousseff, em Nova Iorque, 22 de abril

Não sei se resta algum degrau na escada da dignidade do cargo presidencial para Dilma descer e macular ainda mais a própria imagem e a imagem do Brasil. A presidente afirma que não é corrupta, como se a distância entre isso e a santidade fosse vencida numa pedalada de cinco minutos.

Nossa dirigente máxima já cometeu crimes gravíssimos, que hoje habitam, apenas, a zona sombria de sua consciência. Foram anistiados. Ela os cometeu quando pegou em armas para implantar uma ditadura comunista no Brasil. Cometeu-os sabendo que a nação nada queria com sua organização, métodos e ideias. O desrespeito de Dilma ao Brasil e seu povo é, portanto, uma história antiga, só superada mediante robustas mistificações e maquilagem publicitária. O modelo que seguiu na juventude foi proporcionado, patrocinado e orientado pelas tiranias soviética e cubana. Era o que ela pretendia e nunca deixou de pretender, como fica patente cada vez que vai a Havana beijar as mãos sanguinárias dos Castro. Dela nunca se ouviu palavra de arrependimento.

Hoje, ao afirmar que não é corrupta, a presidente objetiva, de um lado, transmitir a falsa ideia de que apenas a corrupção pessoal pode motivar um processo como o que enfrenta. Ora, ainda que não tenha auferido recursos da corrupção, esses crimes, praticados dentro do seu governo, pela equipe sob seu comando e supervisão, ao longo de mais de uma década, proporcionaram a ela e a seu partido a manutenção do poder. Mas Dilma, a exemplo de Lula, nada soube e nada viu. Tudo lhe caiu do céu. Se a corrupção é o crime por excelência no teatro da política, por que tanto desmazelo? Por que tantos corruptos notórios no seu entorno? Por que agasalhar Lula com o cobertor de um ministério, para "usar em caso de necessidade"?

Por outro lado, quanto ao impeachment, Dilma e os seus parecem considerar irrelevante o controle parlamentar sobre a despesa pública. Tal desprezo é próprio de pessoas acostumadas a usarem nosso dinheiro para proveito pessoal ou político! Ignorância pura e simples é que não há de ser. Refresquemos a memória: não foi para estabelecer esse controle que nasceram os parlamentos deliberativos? Não foi principalmente por ele que, em 1215, se revoltaram os barões ingleses redigindo a Magna Carta Libertatum e exigindo do rei João que a assinasse? Estamos falando de um princípio constitucional com oito séculos de vigência! Sua ruptura é grave ofensa ao parlamento e à nação.

Nossa presidente mentiu desbragadamente aos eleitores em 2014; afundou as contas públicas, a economia privada e grandes estatais; fez disparar o desemprego; furou os tetos a respeitar e os pisos a não transpor. Transformou o Palácio em pavilhão de comício e comitê central de seu partido. Vive encapsulada para escapar de vaias e panelaços. Esfarelou seu apoio parlamentar e, em desmedida soberba, quer permanecer assim até 2018.

Acontece que o amor próprio de Dilma contrasta com seu desamor ao Brasil. Ele estava presente nos tempos da clandestinidade, no internacionalismo inerente ao comunismo, no desapreço às nossas raízes e à nossa história, na sempre ardilosa construção da luta de classes e no conceito da Pátria Grande, falsamente bolivariana e verdadeiramente comunista, urdida nos conluios do FSP e da Unasul.

Dia 22, em Nova Iorque, esse desvario chegou ao cúmulo de sugerir sanções do Mercosul e da Unasul ao Brasil caso seu impeachment avance. Nossa presidente repete Luís XV: "Depois de mim, o dilúvio!". Afoguemo-nos todos. As recentes manifestações de Dilma no palco internacional correspondem ao item 7 do art. 9º da Lei dos Crimes de Responsabilidade: "Proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo". Ou não?

Percival Puggina

A esquerda deixou de ser esquerda

A direita nunca deixou de ser direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. A explicação pode parecer simplista, mas é a única que contempla todos os aspectos da questão. Para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita política e econômica já instalada que não tinha necessidade de se camuflar de centro. Entrou-se, então, na farsa carnavalesca de denominações caricaturais com as de centro-esquerda ou centro-direita
José Saramago
 

O impeachment que não houve

Quanto mais nosso Gollum presidencial insiste em sua marcha fúnebre de carnaval – “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”, em ritmo Tristesse, de Chopin –, mais permite ao país tomar consciência do quão fundo é o buraco em que estamos. Uma diferença crucial entre o processo de impeachment contra Collor e o atual é a existência, a favor de Dilma, do que chamam de uma “base social” a defendê-la.

Collor, de fato, quando suplicou ajuda à sociedade, não teve apoio de ninguém. Também, quem defenderia um governo corrupto? Depende: se ele for do PT, tem quem o faça. Basta ver fotos e vídeos das manifestações em defesa da presidente para se constatar que o público é bem definido, sendo quase na sua integralidade oriundo de sindicatos ou pago por eles, conforme fartamente noticiado. Só o que se vê são balões, camisetas, bonés e bandeiras de entidades sindicais, a quem se somam vários dos chamados “movimentos sociais”, cuja organização e modo de atuação é muito semelhante (se não espelhada) ao modelo sindical.

Ninguém parece ver nisso nada de mais, mas, pela lei, todo e qualquer sindicato tem por fim o estudo, defesa e coordenação dos seus interesses econômicos ou profissionais. Alguém poderia me explicar como a defesa de governos corruptos se enquadra nesses fins? Juristas dirão haver “desvio de finalidade”, pois eu ouso dizer: não, não, eles estão revelando sua finalidade real. Para entender, precisamos retornar a 1954.

O primeiro processo de impeachment na história brasileira aconteceu naquele ano, contra Getúlio Vargas. Uma das razões para tanto foi o fato de Getúlio estar a criar uma “República Sindicalista” no país. Como o pedido não foi aceito, a tal república não só nasceu como cresceu, consolidou-se, pariu Luiz Inácio Lulla da Silva (com “l” dobrado mesmo – ele fez por merecê-lo), tomando o poder em 2003 e nele ficando nos últimos 13 anos. Agora, está nas ruas a defender suas “conquistas”.

Há pouquíssima pesquisa e estudo sobre isso, mas o pouco que existe já ajuda a entender melhor. A doutora em Ciências Políticas Maria Celina D’Araújo, professora da PUC-RJ, realizou uma pesquisa inédita publicada no livro A elite dirigente do governo Lula, lançado em 2009 pela CPDOC/FGV. Nele, chegou a algumas conclusões que falam por si:

“Em nossa pesquisa chamaram a atenção os altos níveis de filiação a sindicatos e ao PT. Temos fortes razões para supor que essa participação tende a ser alta em outros governos, posto que a interface do PT e da CUT com o funcionalismo público é histórica, e que essa é uma categoria com níveis muito altos de sindicalização. Teríamos assim grande probabilidade de, independentemente da filiação partidária do presidente, sempre encontrar entre esses dirigentes provenientes do setor público uma grande massa de sindicalizados e de petistas. Dito de outra forma, os integrantes das carreiras públicas estão majoritariamente filiados a sindicatos e têm preferencialmente adotado o PT, de forma que mesmo que o governo seja de outro partido, a máquina pública irá refletir essa tendência.”

Ou seja, tanto faz quem esteja no governo, lá estará a “República Sindicalista” entranhada. O impeachment de Dilma Rousseff mudará quase nada desse quadro, mas sua teimosia em não largar o osso já teve seu lado bom: obrigou a tal república a revelar sua finalidade real. Dá para entender por que sua criação foi motivo para se pedir o impeachment de Getúlio Vargas, não?