terça-feira, 21 de julho de 2015

Qualquer solução é melhor que preservar o PT no poder

Fica cada vez mais clara a dramática situação que o Brasil atravessa, de forma extremamente madura, em clima de plenitude democrática, sem qualquer ameaça às instituições. As condenações estão saindo, assim como novos indiciamentos dos maiores empreiteiros do país, até o ex-presidente Lula entrou no rol dos investigados, e tudo isso é visto como absoluta normalidade.

Ao contrário do que a presidente Dilma Rousseff costuma apregoar, não existe golpismo. Pelo contrário, as Forças Armadas estão tranquilas nos quartéis, cuidado de suas obrigações, não há Aragarças nem Jacaréacanga no horizonte, nada de novo no front. É até espantoso que não haja golpismo, num país tradicionalmente submetido a esse tipo de retrocesso político.

O que existe de novidade é uma insatisfação absoluta, uma decepção total, um desânimo assustador em relação à política e aos três poderes da República. É claro que não se deve generalizar esse tipo de análise. Estamos nos referindo apenas à faixa do eleitorado que tem instrução e preparo, que raciocina, chega a conclusões e ainda se interessa por política. Entre esses brasileiros, que na verdade formam a tão famosa opinião pública, o desalento é espantoso, porque até ponto tempo atrás a maioria dos eleitores realmente acreditava que o PT era um partido sério, integrado por políticos honestos.

Quando o então deputado federal Lula fez o desabafo na Constituinte e disse que havia 300 picaretas no Congresso, todos sabiam que ele estava falando rigorosamente a verdade. Tanto assim que alguns anos depois o esperto Fernando Henrique Cardoso se encarregaria de comprá-los por 30 dinheiros, equivalentes a R$ 200 mil por cabeça, para aprovar sua reeleição.

Pensava-se que ao chegar ao poder Lula levaria com ele os 300 de Esparta, mas ocorreu exatamente o contrário. Ele resolveu fortalecer os 300 picaretas de FHC, pagando caro e estabelecendo prestações mensais. Para tanto, criou diversas fontes de renda no governo e nas estatais, implantando a corrupção institucionalizada, com exigência de percentual fixo nos contratos do poder público, vejam a que ponto a desfaçatez chegou.

Hoje, já não há fantasia. Embora ainda não tenha realmente encontrado uma opção, pois os partidos existentes ou são verdadeiras quadrilhas ou defendem um sectarismo totalmente ultrapassado, a opinião pública brasileira não aceita mais esse tipo de político.

É por causa desse quadro político anacrônico e venal que alguns importantes jornalistas e intelectuais ainda continuam defendendo a permanência de Dilma Rousseff. São os últimos dos moicanos, como dizia o genial escritor James Fenimore Cooper. Com justa razão, eles têm pavor do PSDB e horror do PMDB, que são as duas possibilidades de sucessão. Mas em breve esses resistentes também jogarão a toalha e desistirão de defender Dilma, Lula e o PT.

Até os moicanos vão entender que qualquer uma das opções que se apresentam será melhor do que a eternização do PT: ou Aécio Neves, se houver cassação dupla por crime eleitoral, ou Michel Temer, se for cassação única, por crime de responsabilidade. Como se dizia antigamente, um pelo outro, eu não quero troca. Mas devemos aceitar qualquer um dos dois, na forma da lei, segundo a solução que for constitucionalmente encontrada.

Mister Gomes

Tenho ouvido, para meu desalento, que brasileiros de todas as idades e setores sociais estão querendo sair do país. São jovens casais planejando estudar no Canadá, artistas querendo morar em Lisboa, empresários pensando nos Estados Unidos.

Embora esta coluna sugira que sou um super-homem, com sentimentos e propósitos muito bem ordenados, no escuro do quarto eu também tiro minha capa e olho para Miami. Mas volto sempre à antológica e profunda frase de Tom Jobim: "Aqui é uma merda, mas é bom; lá fora é bom, mas é uma merda".

A raiz do desencanto em massa é a exaustão com as crises cíclicas do Brasil. Há desencanto com o hoje e falta de esperança no amanhã. O pior é que também estamos perdendo o ontem, aquelas coisas gostosas do país de quando eu era menino.

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Minha cidade, Salvador, tão linda e gostosa, está paralisada por um trânsito insuportável. O bairro onde vivo em São Paulo tem assaltos com frequência. O patrimônio arquitetônico barroco mais importante do mundo, no Pelourinho, onde cresci, cai aos pedaços.

E o que viver lá fora oferece? Luxos impensáveis aqui. Andar a pé a qualquer hora como na Salvador da minha adolescência, deixar os filhos soltos e livres na rua, fazer planejamento de longo prazo.

Não faltam razões comezinhas para ir embora, mas há algo profundo em minha alma que teima em ficar. Não condeno quem esteja querendo sair do Brasil. Mas não saio porque já abandonei a Bahia por motivos profissionais e sei da dor de deixar uma história para trás.

Eu sou brasileiro. Monteiro Lobato e Machado de Assis me fizeram assim. Sou redator, amo a língua e a cultura brasileira, de onde arranco o meu sustento. E o que seria da minha vida sem família e amigos? Precisamos dos amigos e dos inimigos porque eles nos definem.

Sem o Brasil, em Portugal eu seria um fado; em Londres, "London, London"; e, em Nova York, mister Gomes, já que meu nome é Nizan Guanaes Gomes e lá eles me chamam pelo "last name".

Mister Gomes é ninguém. Aqui eu sou alguém. Sou filho da Bahia e do terreiro do Gantois. Sou devoto de santo Antônio, santa Terezinha das Rosas e santa Rita de Cássia, a quem peço coisas impossíveis. Torço pela Mangueira, sou colunista deste jornal, o que me dá tanto orgulho, fiz uma carreira, uma família linda, construí uma vida.

O Brasil agora vive momento de catarse. Como na Revolução Francesa, quando, para se fazer justiça, fizeram injustiças. Mas não há aurora sem noite. E este inverno pode ser longo, como em "Game of Thrones".

Quando fui estudante de intercâmbio e morava numa fazenda em Iowa, minha família americana usava o inverno rigoroso para consertar as coisas e repor o que faltava. Vamos usar esse inverno para consertar nossas empresas, reduzir custos, ganhar produtividade e ver não só crise na crise, mas oportunidades também.

Vamos honrar os homens que aqui ficaram no passado de tantas dificuldades. Honrar os empreendedores que fizeram coisas importantes sob as mais altas taxas de inflação e todo tipo de crise e plano econômico. Vamos honrar homens como Abilio Diniz, ex-sequestrado, Roberto Medina, ex-sequestrado, Washington Olivetto, ex-sequestrado, que seguiram empreendendo aqui quando tinham todos os motivos para ir embora.

O momento pede grandeza, diálogo e discernimento.

Prefiro viver trancado em casa, mas com a alma solta, a andar livremente pelas ruas sendo mister Gomes. Porque lá fora mister Gomes será tudo, mas não será ninguém.

Marina Silva quebra o silêncio

Às vezes o silêncio pode ser fértil e indicar sabedoria. Um exemplo foi dado pela ambientalista Marina Silva, que enquanto soprava a tempestade política e policial que dominou o noticiário brasileiro, ficou muda, à sombra.

A ambientalista, que mesmo sem aparecer mantém, segundo pesquisas, um capital político de mais de 30 milhões de votos, rompeu seu silêncio neste domingo com um texto que é duro e ao mesmo tempo mostra esperança e equilíbrio para exigir algo que para a opinião pública pode parecer óbvio, mas que embute uma revolução.

Segundo Marina, quando as investigações em curso contra políticos “resultarem em provas e denúncias formais ao Supremo Tribunal Federal, devemos exigir o afastamento dos que ocupam cargos cujos poderes possam interferir nas decisões”.

Diz isso com uma expressão gráfica e até guerreira, ela que se mostra sempre mais como um elemento de equilíbrio e pacifismo: “impõe-se evitar mexer mais ainda num equilíbrio institucional que já está precário, não usando poderes públicos como navios de guerra de onde os litigantes disparam contra os outros”.

Marina é clara e determinada na defesa da democracia ameaçada e pede que a sociedade fique alerta “contra a manipulação política de qualquer lado e contra todas as formas de pressão e intimidação sobre a Justiça, o Ministério Público e a Polícia Federal”.

Faz suas as palavras de Ruy Barbosa, que afirmou que “a Justiça tardia nada mais é do que a injustiça institucionalizada”. E sem se deixar levar por pessimismo extremista, pede um sentimento de esperança, recordando sutilmente que “assim como saímos do impeachment de Collor para outro ciclo de evolução, com a estabilização econômica nos governos de Itamar e Fernando Henrique, que possibilitou avanços sociais no Governo Lula, da mesma forma podermos ser capazes de sair da crise atual para outro momento positivo”.

Marina, que é uma leitora e conhece bem a filosofia de Hegel faz sua a teoria da tese e da antítese. Segundo o filósofo alemão, a História somente avança, quando paralisada a situação, se é colocada em crise, para dar vida a uma nova tese, mais avançada.

As águas paradas acabam apodrecendo. Dos dramas se sai somente com a força de uma esperança de superação.

“Que o epílogo desse drama, quando ocorrer”, diz Marina, “seja o prólogo de uma nova história de afirmação da democracia no Brasil”.

Há quem acuse Marina de ser mais poeta que política, apesar de ter dedicado toda sua vida com fervor e rigor ético à República. Enganam-se. Pode-se ou não gostar de seu jeito de fazer política, sua intransigência contra a chamada “velha política”.

Talvez não agrade a algumas pessoas quando alerta em seu artigo que “boa parte dos que saem gritando ‘fora Cunha’ parecem querer apenas aproveitar a oportunidade de apontar um novo inimigo público para desviar a atenção dos gritos de ‘fora Dilma’.

Misturando realismo e esperança, a ambientalista afirma: “ninguém mais espera um comportamento minimamente virtuoso da maioria dos personagens no palco da política brasileira dos dias atuais. Mas se temos que respeitar as instituições que eles, infelizmente, dirigem tão mal, e respeitar a população que lhes confiou seu voto, temos também que manter viva nossa esperança de que a Justiça será feita e os erros serão punidos”.

Marina poderia ter acrescentado o pedido da Presidenta Dilma de que a tal Justiça seja feita “doa em quem doer”.

Ela avisa, com senso de responsabilidade, que o pior que poderia acontecer neste momento é que acabemos “jogando fora a criança junto com a água suja”. Ela não adere, portanto, à caravana dos que acreditam que “quanto pior, melhor”.

Marina, gostem ou não, surge como mulher e política coerente, que fala o que pensa e, quando não, prefere se refugiar no silêncio.

Há quem creia que nesses momentos de silêncio “se sente à beira do rio, ela que nasceu na selva, esperando ver passar o cadáver de seus inimigos”.

Desta vez, talvez, diante da gravidade da situação, tenha preferido sair à planície.

Por quem rosna o Brasil


O que é o Brasil, agora que não pode contar nem com os clichês? Como uma pessoa, que no território de turbulências que é uma vida vai construindo sentidos e ilusões sobre si mesma, um país também se sustenta a partir de imaginários sobre uma identidade nacional. Por aqui acreditamos por gerações que éramos o país do futebol e do samba, e que os brasileiros eram um povo cordial. Clichês, assim como imaginários, não são verdades, mas construções. Impõem-se como resultado de conflitos, hegemonias e apagamentos. E parece que estes, que por tanto tempo alimentaram essa ideia dos brasileiros sobre si mesmos e sobre o Brasil, desmancharam-se. O Brasil hoje é uma criatura que não se reconhece no espelho de sua imagem simbólica.

Essa pode ser uma das explicações possíveis para compreender o esgarçamento das relações, a expressão sem pudor dos tantos ódios e, em especial, o atalho preferido tanto dos fracos quanto dos oportunistas: o autoritarismo. Esvaziado de ilusões e de formas, aquele que precisa construir um rosto tem medo. Em vez de disputar democraticamente, o que dá trabalho e envolve perdas, prefere o caminho preguiçoso da adesão. E adere àquele que grita, saliva, vocifera, confundindo oportunismo com força, berro com verdade.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), relacionado na delação premiada da Operação Lava Jato ao recebimento de 5 milhões de dólares em propina, brada: “Vou explodir o governo”. Tanto ele quanto o apresentador de programa de TV que brada que tem de botar “menor” na cadeia, quando não no paredão, assim como o pastor que brada que homossexualidade é doença são partes do mesmo fenômeno. São muitos brados, mas nenhum deles retumba a não ser como flatulência.


Num momento de esfacelamento da imagem, o que vendem os falsos líderes, estes que, sem autoridade, só podem contar com o autoritarismo? Como os camelôs que aparecem com os guarda-chuvas tão logo cai o primeiro pingo de chuva, eles oferecem, aos gritos, máscaras ordinárias para encobrir o rosto perturbador. Máscaras que não servem a um projeto coletivo, mas ao projeto pessoal, de poder e de enriquecimento, de cada um dos vendilhões. Para quem tem medo, porém, qualquer máscara é melhor do que uma face nua. E hoje, no Brasil, somos todos reis bastante nus, dispostos a linchar o primeiro que nos der a notícia.

Ainda demoraremos a saber o quanto nos custou a perda tanto dos clichês quanto dos imaginários, mas não a lamento. Se os clichês nos sustentaram, também nos assombraram com suas simplificações ou mesmo falsificações. A ideia do brasileiro como um povo cordial nunca resistiu à realidade histórica de uma nação fundada na eliminação do outro, os indígenas e depois os negros, lógica que persiste até hoje. Me refiro não ao “homem cordial”, no sentido dado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu seminal Raízes do Brasil, mas no sentido que adquiriu no senso comum, o do povo afetuoso, informal e hospitaleiro que encantava os visitantes estrangeiros que por aqui aportavam. O Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção na letra dos sambas para perceber que a nossa era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma.

Chega de papo furado


Uma coisa é preciso que se diga a respeito de Lula: o homem se acha! É verdade que nenhum outro político pode se gabar de trajetória tão brilhante. Esse mérito ninguém lhe tira. Mas é verdade, também, que o destino andou conjugando as circunstâncias de modo a facilitar essa jornada. E contou, justiça seja feita, com uma mãozinha do interessado, que aprendeu cedo que a vida é um pouco mais complicada do que o conflito entre o bem e o mal, mas teve a astúcia de manter o mal sempre à vista, para contra ele investir cavalgando o bem de lança em punho, impávido e determinado.

Depois de vencer quatro eleições presidenciais, duas diretamente e duas por controle remoto, é natural que Lula se sinta cheio de si a ponto de acreditar, agora, que tudo o que começou a dar errado só pode ser atribuído a uma imperdoável circunstância: ele não continuar ocupando o trono que deixou provisoriamente aos cuidados de uma sucessora – que falseta do destino! – muito incompetenta.

Não se poderia esperar outra coisa, portanto, senão que Lula tente defender a preservação de seu precioso legado apelando ao recurso mais eficiente de seu repertório de encantador de massas: deitar falação. Para Lula, mais do que qualquer outra coisa, o político tem de falar. Falar muito. Se conseguir pensar também, ajuda. Mas, como a categoria não prima pela conjugação frequente das duas habilidades, que pelo menos fale. O conteúdo ele próprio fornece, se for o caso. Afinal, ele é o cara.

Assim, há meses Lula não faz outra coisa senão martelar a cabeça de sua cada vez mais rebelde pupila – se é que ainda a considera como tal – com o mantra que abre o caminho da luz na senda obscura e tortuosa que ela anda trilhando: Fale ao povo, minha filha, fale ao povo.

Para Lula, que parece continuar achando que o povo acredita em tudo o que ele e sua turma falam, bastará que Dilma Rousseff passe a falar o que precisa: em vez de coisas negativas, como Operação Lava Jato e ajuste fiscal, ela tem de criar uma agenda positiva e passar a falar sobre fim da inflação, crescimento econômico, fim do desemprego, pátria educadora, saúde para todos, transporte bom e barato, segurança nas ruas e dentro de casa, enfim, tudo aquilo que – falemos francamente – dá votos, em vez de volume morto.

Resta saber, porém, se o povo ainda está disposto a dar ouvidos à presidente que se reelegeu prometendo uma coisa e entregando outra. A julgar pelas pesquisas de opinião pública, não está. Apenas 9% dos brasileiros ainda avaliam positivamente o governo e por isso se entusiasmariam com novas promessas. Não é à toa que há um bom tempo Dilma não se expõe em ambientes abertos nos quais estará inevitavelmente sujeita ao constrangimento de vaias e impropérios. E o próprio Lula tem mantido a mesma postura cautelosa: só aparece e fala em círculos restritos, sob rigoroso controle de segurança, e diminuiu sua presença nesses eventos depois que muitos deles tiveram quórum baixo.

Mas o que é, exatamente, que Lula quer que Dilma diga ao povo? O que é que ela tem de bom a dizer? Tanto não tem, que Lula e o PT ficam falando que ela precisa criar a tal agenda positiva. A hora, porém, não é de fazer promessas, pelo simples fato de que a presidente não tem nenhuma credibilidade para fazê-las. Estaria Lula sugerindo que ela deve, então, mentir? A última experiência nesse campo, durante a campanha reeleitoral, não foi feliz.

Se é para mentir, ou então, dito de forma mais sutil, dourar a pílula, levar o povo na conversa, Lula deve, ele próprio, sair pelo País soltando o verbo, deitando falação, para o que lhe sobram talento e repertório. Ele até se diz disposto a isso, mas tem alegado que só poderá fazê-lo depois que Dilma lhe apresentar, se não um programa de governo, pelo menos algumas propostas objetivas e bem adornadas para serem exibidas à massa arredia. Trata-se, porém, de um blefe, pois não cometerá a imprudência de se expor para valer diante do povo e sabe que isso não mudará tão cedo.

É claro, argumentará o petista otimista, que Dilma precisa continuar falando a todos que os governos do PT, entre muitas outras conquistas, criaram o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, tiraram milhões de brasileiros da miséria e promoveram outro tanto à classe média. Com boa vontade, é verdade. Mas a insistência na propagação dessas proezas teria exatamente o mesmo nenhum efeito prático que teve em 2002 os tucanos se vangloriarem do Plano Real, que havia acabado com a inflação galopante que sacrificava principalmente os pobres e lançado as bases para a estabilidade e o posterior crescimento econômico. Esses feitos – só para recordar –, apesar de Lula chamá-los de “herança maldita”, alavancaram as conquistas econômicas e sociais que turbinaram sua extraordinária popularidade de então.

Num país livre e democrático, conquistas sociais e econômicas, por mais importantes que sejam, só são úteis como ativos eleitorais até o momento em que, incorporadas ao cotidiano dos cidadãos, são substituídas por novas reivindicações impostas pela dinâmica social. E é aí que Lula, Dilma e o PT se complicam: estão pondo a perder o que construíram lá atrás e não têm mais credibilidade, nem recursos, para sustentar um projeto de poder que micou porque acabou se transformando num fim em si mesmo.

Está na hora, portanto, de Lula parar de achar que ainda é o maioral e também com o papo furado de “falar ao povo”. Pois sabe que só terá condições e tempo útil para fazê-lo, mirando 2018, se Dilma for afastada da Presidência e ele, na oposição, ficar livre para acionar a metralhadora giratória e praticar aquilo que sabe fazer como ninguém: ser contra “tudo isso que está aí”. Se não, vai continuar no movimento pendular peculiar à sua condição de metamorfose ambulante.

Desprezo pelas instituições

Saco farinha do mesmo saco lula e cunha propina investigado

Sempre que se veem acuados pelo avanço da Operação Lava Jato, os petistas recorrem à mesma velha tática empregada por seus adversários para reagir às investigações: atiram contra as instituições que estão no seu encalço.

Quando o empresário Ricardo Pessoa apontou o dedo para o tesoureiro de sua campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff sugeriu que os procuradores da Lava Jato agem como os militares que torturavam presos políticos para que entregassem seus companheiros na ditadura.

Na semana passada, quando um procurador do Distrito Federal decidiu investigar as suspeitas de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou sua influência para favorecer empreiteiras no Brasil e no exterior, Lula foi ao Conselho Nacional do Ministério Público reclamar.

Acusado de receber US$ 5 milhões em propina do petrolão, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) disse que os procuradores o perseguem e coagiram o lobista Julio Camargo a mentir para incriminá-lo. A tese de Cunha é que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, prometeu entregar sua cabeça aos petistas para garantir o aval da presidente à renovação do seu mandato em agosto.


O que une os petistas e seus adversários nesses episódios é o desprezo pelas instituições que conduzem as investigações da Lava Jato. Esse comportamento contribui para tumultuar ainda mais o ambiente político, num momento em que todo mundo acusa o rival de golpista.

Na sexta-feira, enquanto Cunha declarava guerra ao governo em sua barricada na Câmara, o Palácio do Planalto reagia com uma nota elegante em que defendeu a harmonia entre os Poderes e proclamava sua "isenção" diante das investigações.

Para quem outro dia igualou procuradores e torturadores, foi um avanço. Será preciso esperar a próxima revelação da Lava Jato para saber se a mudança de tom foi sincera, ou se o novo discurso será abandonado quando se tornar inconveniente.

Um país em frangalhos


Apareceu coisa mais grave do que a reação de Eduardo Cunha à denúncia que responderá perante o Supremo Tribunal Federal, tendo-se declarado em oposição à presidente Dilma. A Procuradoria da República no Distrito Federal formalizou investigação contra o ex-presidente Lula, por tráfico de influência internacional favorecendo empreiteiras. Ao mesmo tempo presidentes dessas empresas continuarão presos como envolvidos na operação Lava Jato.

Por seu advogado, o primeiro companheiro defende-se, negando haver recebido propina ou comissão para sustentar interesses privados, alegando que suas viagens ao exterior se fizeram para pronunciar palestras sobre o desenvolvimento econômico brasileiro.

Junte-se a essa explosiva equação a possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral concluir que dinheiro sujo surripiado da Petrobras serviu para alavancar a campanha da presidente Dilma à reeleição, mais as contas do governo de Madame virem a ser recusadas no Tribunal de Contas da União, e se terá a receita de um país posto em frangalhos. Para cada lado que se olhe emerge o espectro da corrupção. Encontram-se sob suspeita ministros do atual governo, parlamentares, além dos presidentes da Câmara e do Senado. Sem falar em empresários de alto coturno e dirigentes de partidos grandes e pequenos.

Só que a cereja do bolo parece ser o Lula, se não puder livrar-se das acusações de parcerias malfeitas com empreiteiras. Saiu pelo ralo a versão dele ser inatingível. As últimas pesquisas dão conta de que seria derrotado por Aécio Neves numa eleição presidencial. De seu partido, o PT, não tem recebido senão sussurros de solidariedade, coisa que nem isso Dilma consegue.

Em suma, as instituições nacionais andam de cabeça para baixo, restando a indagação de como se comportará a população, ainda mais diante da crise econômica, do desemprego crescente, da sombra da inflação, da redução de direitos trabalhistas, do aumento de impostos, tarifas e, acima de tudo, do custo de vida em ascensão permanente. Em boa coisa não acabará o esgotamento da paciência nacional.

A Câmara enterrou a ampliação de mandatos que seria natural com o fim da reeleição. Perceberam os deputados que o Senado vetaria a redução para cinco anos dos períodos de seus integrantes e, assim, melhor não mudar nada. Só que o fim da reeleição ficou dependurado num galho que vai apodrecendo. Pode ser que os senadores agora decidam pela permanência de dois mandatos consecutivos para presidentes da República, governadores e prefeitos. Vai para as profundezas a reforma política…

Sobreviver ao jaguncismo exige arte e muita manha

Para especular sobre o que agosto trará na política brasileira, urge recorrer à psicologia do jagunço. Há seis meses, o Brasil vive sob a batuta do sistema jagunço, sem que as forças políticas constituídas pelo voto popular esbocem qualquer coisa que possa ser chamada de resistência.

A impressão é que se quedou ao jaguncismo político até quem não concorda com suas práticas brutas. O jaguncismo mete medo. Vivemos dias de muita tensão. E, pior, não aparece saída no horizonte. Todavia, reli diariamente trechos de “Grande Sertão: Veredas” por acreditar que precisava entender mais da psicologia do jagunço.

Para M. C. Leonel & J. A. Segatto, em “Política e violência no sertão rosiano”: “O universo do grande sertão de Guimarães Rosa expressa um complexo de elementos fundamentais que vigem nas relações humanas e sociais do país e as perpassam historicamente. O ‘sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga’ (Rosa, 1978: 370)”.

No último dia 17, o sistema jagunço de poder sofreu um abalo, com a rendição do seu chefe à oposição ao governo diante da possibilidade de a sua vida ser examinada com rigor em busca de rastros, porque até agora ele tem sido o bom caminhante de Lao-Tsé – célebre filósofo da China antiga, autor do “Tao Te Ching”, a obra basilar da filosofia taoista.

Disse Lao-Tsé: “Um bom caminhante não deixa rastros”. A hora do vamos ver é quando agosto chegar. O futuro político do Brasil está em suspenso até lá. Temos tempo para apreender o que quis dizer Guimarães Rosa ao escrever que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Elizabeth Hazin, professora da UnB, autora da tese de doutorado “No Nada, o Infinito” (da gênese de “Grande Sertão: Veredas”, 1991), diz que “Guimarães Rosa preocupava-se com o fato de serem os jagunços invariavelmente vistos apenas como seres sanguinários, vingativos, sem estofo algum de natureza mais nobre. Era preciso revelar – e só a literatura seria capaz disso – o drama existencial daqueles homens: seus anseios, angústias e inquietações” (“O aproveitamento de resíduos literários no Grande Sertão”, 2008).

Daí porque o velho Rosa é o melhor celeiro para apreendermos a psicologia do jagunço e aquele olhar obsedado que chamou a minha atenção na última eleição da presidência da Câmara dos Deputados, sobre a qual escrevi: “Se Severino Cavalcanti tinha aquele olhar de paspalhão, o de Cunha é puro Hermógenes, um chefe jagunço de ‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa, que sequer respeitava as normas/leis da jagunçagem, como disse Riobaldo Tatarana: ‘O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado’” (“Uma República democrática e laica sob o sistema ‘jagunço’”, O TEMPO, 17.2.2015).

Para Riobaldo, o “sistema jagunço” é: “Ah, a vida vera é outra, do cidadão do sertão. Política! Tudo política, e potentes chefias”. E, para quem não leu “Grande Sertão: Veredas”, ou não lembra, Renata de Albuquerque, em “Diadorim e Hermógenes: Jogo de duplos e espelhamento em ‘Grande Sertão: Veredas’”, relembra: ‘‘Hermógenes é ‘fel dormido’. Até porque Hermógenes não precisa ‘impor-se mau’, pois ele assim o é por si mesmo (e por resultado do pacto que fez). Assim, Hermógenes aparece-nos como a excrescência do ambiente do sertão, pois estão nele concentradas, justamente, todas as características que aparecem, por vezes isoladamente, em cada homem da jagunçagem”.

Notícias do Brasil

O Brasil está em crise. Há inflação novamente e a corrupção de sempre, propinas; há delações, algumas premiadas e outras sugeridas por quase todos os cidadãos. O povo está desesperado, chateado e temeroso de crises maiores.


Políticos de vários tamanhos e feitios articulam cavilosamente a derrubada do regime mas ninguém sabe exatamente o que vão decidir. Contudo a maioria conspira contra o regime pelo simples fato de conspirar.

Felizmente ninguém no Brasil liga muito para as crises, sejam políticas, econômicas ou cardíacas. Mesmo assim, o país acredita que vai em frente até que os generais depois de muito conspirarem, articulem botar as tropas nas ruas, que já estão cheias de gente que reclama quando pode ou não pode quebrar vidraças e ameaça assaltar bancos e os shoppings, queimar ônibus e mercados de hortigranjeiros.

Aliás, botar a tropa na rua é uma expressão às vezes figurada, às vezes não. É possível que a tropa saia à rua a favor de um ou de todos os lados ou contra todos os lados. A rigor, como os militares estão desmoralizados por golpes anteriores, quem costuma ir para a rua são a presidente da República, os ministros, os lobistas e os traficantes das muitas coisas que são proibidas no país.

O que torna emocionante as crises é justamente isso: contra quem ou a favor de quem as tropas sairão. A rigor a tropa não chega a sair, mas isso é coisa salutar. A nação prontamente se recupera da crise a fim de articular a próxima crise. As tropas têm de voltar correndo para os quartéis, do contrário podem ser apanhadas de surpresa por nova crise e aí ninguém entenderá mais nada e é possível que estoure uma revolução ou um golpe. Isso faz a nação atraente.

O grande perigo da situação é o fato de todos estarem do mesmo lado ou de nenhum.

Crise? Que crise?

Reza a lenda que benditos os que preferem chamar problema de desafio. Pode parecer pouca coisa, mas a palavra “problema” costuma nos remeter a algo perturbador, de difícil resolução, com jeitão de negatividade. Ao contrário, o desafio nos impele a buscar solução, nos estimula a batalhar rumo à vitória, dá uma sensação de recompensa à vista. O certo é que o mundo sempre será dos que vencem desafios, e não dos que só veem problemas em todo canto. Épocas como a atual distinguem os competentes dos medianos, os sábios dos imaturos e os líderes dos comandados.

Mas, antes de tudo, é preciso identificar os comportamentos inerentes ao ser humano diante do problema que o ameaça. Se pudéssemos classificar por formas de agir, seria algo assim:

1) Amplificador de problemas: Em geral, exagerados, apavorados, preocupados, essas pessoas sempre dão uma dimensão exagerada, uma visão distorcida à realidade. Algo do tipo “seu filho está com uma febre aqui na escola”, e a comadre quase morre do outro lado da linha. “Meu Deus, deve ser a gripe aviária, levem pro hospital”.

2) Multiplicador de problema: Negativistas, angustiados e dramáticos têm o dom de complicar o simples, ou “ver chifre em cabeça de cavalo”. Conseguem, por exemplo, fazer de uma simples festa de aniversário uma tragédia grega. “E se chover, e se faltar comida, e se não vier ninguém?” No final é capaz até de faltar a luz! Como disse, adoram a expressão “e se...”.

3) Sonegador de problemas: Usam a estratégia de se iludir, enganar e desconsiderar o que está à frente. Comum em imaturos, os que só enxergam defeitos nos outros, que adoram justificar, dar desculpas, culpar os outros para não se defrontar com uma realidade desfavorável. “Não sei de que problema você está falando...”.

4) Evitador de problemas: Fogem, evitam e desaparecem diante de situações problemáticas. Têm horror a conflitos, não gostam de se posicionar, terceirizam desafios. Em geral são inseguros, tímidos ou medrosos, do tipo “maria vai com as outras”, de opinião neutra ou até covarde. Do tipo “vocês é que se virem”.

5) Fabricador de problemas: E não é que tem gente que tem o talento de tumultuar, de pesar o ambiente, de adorar ver o “circo pegar fogo”? Onde estão geram confusão, desavença e conflito. Complicam o simples, fazem tempestade em copo d’água. Típico de pessoas agressivas, com transtorno de personalidade, pueris, vaidosas, fofoqueiras, ciumentas ou competitivas.

6) Resolvedor de problemas: Aleluia! Eis o nosso líder, maduro, assertivo, compreensivo, agregador, capacitado a assumir o comando quando a situação está preta, difícil ou caótica. Carrega o dom de enxergar soluções, o talento de ser criativo, equilibrado e faz do estresse um elemento positivo. Cresce com as crises e é empreendedor por natureza. Ter um desses por perto é uma dádiva.

Seja como for, somos de distintas tribos num mundo em transformação. É nítido que muitas coisas estão falindo: política, economia, esquemas financeiros e falsos profetas. O novo se avizinha, e após a tempestade haverá um novo tempo. Ah! Já ia me esquecendo: bem-aventurados os que entendem que viver é resolver desafios reais, e adoecer é ruminar problemas imaginários e sofrimentos antecipatórios. Para tudo há um jeito nesta vida!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

As meninas entram em cena


Você poderia chamá-las de petroputas ou prostipetro, mas não seria preciso. As meninas aparecem em quase todo grande escândalo em Brasília. Não são especializadas. Finalmente, deram as caras no escândalo do Petrolão. Documentos da PF indicam que houve gastos com garotas de programa, mencionadas em rubricas como Jô 132 e 3 Monik nas planilhas de Alberto Youssef, um dos grandes nomes do caso.

Lembro-me de que uma das grandes cafetinas de Brasília uma vez me perguntou no aeroporto o que pensava das garotas de programa nesses escândalos. Disse que não as incriminava. Os políticos e empresários gostam de Rolex, compram sapatos Labutin para suas mulheres. Não se podem culpar as marcas, muito menos os vendedores que não costumam perguntar sobre a origem do dinheiro.
Mas a presença das meninas dá um tom global ao escândalo. O ex-dirigente do FMI Dominique Strauss-Kahn foi preso em Nova York por assédio. Mas na França, onde a prostituição é criminalizada, teve de responder a processo. O mesmo se passa com Silvio Berlusconi, com suas famosas bunga-bungas. Também foi processado.

Num contexto de prostituição legalizada, as coisas seriam mais fáceis. Aos documentos da Lava-Jato seriam incorporados recibos de prestação de serviços. Papai e mamãe, blow jobs e o caríssimo beijo na boca seriam especificados.
A Lava-Jato já tem inúmeros componentes cinematográficos. Mas a entrada das meninas nas festas dos poderosos assaltantes da Petrobras era uma espécie de elo que faltava. Gurus, políticos e empresários costumam revelar nesses episódios o desejo de uma satisfação sexual ilimitada. É uma espécie de calcanhar de Aquiles.

Leio que as garotas de programa já apareceram em revistas e talvez por isso cobrem mais caro. São contratadas como os ricos compram quadros, não pelas formas, mas pela fama do pintor.

Outro dia, um grupo de São Paulo me convidou para contribuir com o roteiro de um filme sobre Brasília. Respondi com uma ideia tão maluca que nunca mais voltaram ao assunto.

Era uma nave de outra galáxia que se aproximava de Brasília com a missão de ocupar alguns prédios habitados por duas tribos de cabelos pintados: os Acaju e os Graúna. Na medida em que eles se aproximavam, acompanhavam pela tela da nave o comportamento da sociedade que ainda não conheciam em detalhes.

Agora vejo que caberia nesse argumento cinematográfico uma garota de programa infiltrada que mandaria mensagens constantes para o big data; crescimento dos implantes de pênis, baixa da tesão nos dias em que o Banco Central anuncia a taxa de juros.

Sempre me interessei pela economia libidinal de Brasília. No passado, escrevi sobre as prostitutas que faziam um cordão em torno do setor de hotéis. Cheguei a propor uma cartilha para os prefeitos do interior distinguirem uma travesti de uma garota de programa.

Um equívoco. Creio hoje que para todos é melhor uma dose de ambiguidade. Uma travesti que conheço, talentosa técnica administrativa, me contou que ao descobrirem o que se trata, alguns políticos fingem que não viram.

Talvez no futuro vejamos um livro do tipo “Memórias de uma cafetina em Brasília”. Espero também que não tenha nomes. Apenas elementos que nos ajudem a descortinar o universo libidinal do poder. Se não servir para a história, no sentido mais amplo, servirá para os roteiristas que buscam histórias de gente de carne e osso.

As meninas custaram a aparecer no Petrolão. Parecia um escândalo baseado em fortunas, compra de apartamentos, obras de arte. Elas apelam não só para um sentido universal, o sexo, mas também para o fugaz reencontro com o doce pássaro da juventude.

Com a entrada da Polícia Federal na casa de Fernando Collor, constatei que, além de seu carro oficial, ele tem três carros de luxo na garagem que devem valer juntos R$ 6 milhões. São apenas três de sua coleção de 14.

Qual o sentido disso, exceto garantir a Collor que ele tem carros de luxo na garagem, que é o bambambã?

Com a grana da corrupção, compram um sopro de juventude, transando com as meninas: com a coleção carros compra-se uma infância de brinquedos de luxo.

A nave se aproxima horrorizada.

Questão de sobrevivência

Brasília está desconectada do Brasil. A vida segue na Praça dos Três Poderes como se o país vivesse no melhor dos mundos. A presidente diz que não vai cair com a maior naturalidade. Porém, dificilmente vai comer o peru de Natal no Palácio do Planalto. A gravidade da crise é tão grande que até seu criador está procurando uma forma de se livrar da criatura. O caudilho, que destruiu as instituições de Estado, tem plena consciência do significado negativo da permanência de Dilma para seu projeto pessoal. A tarefa para os brasileiros é se safar — política e democraticamente — tanto do criador, como da criatura. É uma questão de sobrevivência.
Marco Antonio Villa

Caridade, pobreza e desenvolvimento social


Se formos buscar nos Evangelhos algumas réguas para aferir os valores segundo os quais nos devemos conduzir, veremos que a régua da caridade, do zelo pelos mais necessitados, serve como medida do amor a Deus. Nenhum cristão negará essa realidade ao mesmo tempo material e espiritual. No entanto, o pobre dos Evangelhos é, principalmente, o carente de Deus. E é também, entre muitos outros aspectos, o materialmente pobre, o necessitado de afeto, de justiça, de liberdade, de oportunidade. Desconhecer isto é uma primeira e muito comum perversão do sentido evangélico da palavra "pobre" e da situação da pessoa humana a ela correspondente.

Infelizmente, muitos alegam encontrar, nos Evangelhos, inspiração para uma visão sociopolítica do pobre. O pobre das Escrituras, nessa hipótese, não seria uma pessoa concreta, mas uma classe social. Mais um passo, e ele muda de nome, tornando-se o "excluído" da teologia da libertação. É fácil perceber onde se quer chegar com a substituição do vocábulo por um suposto sinônimo. Dizer-se "excluído" implica a ideia simétrica do "incluído", ou seja, de alguém que ocupou determinado espaço e rejeita a presença do outro. É o que sugere Lula, por exemplo, cada vez que coloca um suposto pobre num suposto avião e diz que os demais passageiros, supostamente, não o querem ali. Não há limite para a demagogia do multimilionário Lula. E não há limite para a malícia sociopolítica, supostamente religiosa, da teologia da libertação. Esta é uma segunda perversão envolvendo o mesmo conceito.

Uma terceira corresponde ao culto à pobreza material como um bem em si. Nessa perspectiva, muito comum, tudo se passa como se o empenho individual ou coletivo para sair de uma situação de carência material em direção a uma vida com maior dignidade e bem-estar fosse desvio de finalidade da existência humana e não um bem a ser buscado. Afirmo, aqui, o oposto: o ser humano não foi criado com tantos dons físicos, espirituais e intelectuais para se nutrir num pomar e se vestir com folhas de parreira.

Uma quarta perversão - e talvez a socialmente mais maléfica - é a que procura enfrentar a pobreza mediante políticas e sistemas econômicos que a conservam, reproduzem e aprofundam. Refiro-me ao igualitarismo percebido como ideal de vida social, cujos péssimos resultados se tornam nítidos nas experiências comunistas. Em nome da igualdade, mata-se a riqueza na sua fonte. Solapa-se a iniciativa dos indivíduos e das comunidades. Cerceia-se a liberdade de criação, condena-se o mérito e planeja-se a mediocridade. Se a igualdade é o objetivo, a pobreza de todos não perturba os adeptos dessa estranha ideologia que se diz protetora e defensora dos pobres.

A sociedade contemporânea já demonstrou, com excesso de evidências, que o modo mais eficiente de promover o desenvolvimento social, sem prejuízo da caridade, da solidariedade e do amor cristão ao próximo, exige: zelosa formação de recursos humanos, através da educação; inserção dos indivíduos de modo eficiente na vida social, política e econômica; segurança jurídica e atividades produtivas desempenhadas em economia livre, de empresa. Só são contra isso os que têm mais ódio ao materialmente rico do que amor ao materialmente pobre. Cegos pela ideologia, semeiam o que dizem combater: pobreza material e crescentes desníveis sociais.

Percival Puggina

O ataque dos zumbis

Eles respiram, movem-se – até na escuridão – e falam. Falam muito. Dão entrevistas. Tuítam. Fazem pronunciamentos. Da cadeia (de rádio e TV) ou de veículos oficiais que comandam, eles bravateiam e intimidam. Assim, parecem saudáveis e fortes. Desviam a atenção da iminente ameaça à sua sobrevivência no poder que vem do Ministério Público. Fazem do ataque a sua defesa. Alimentam-se de rivais. São os mortos-vivos da política.

Nesses dias, são mais frequentemente encontrados em Brasília do que em seriados televisivos sobre o fim do mundo tipo The Walking Dead. Deslocam-se em carros oficiais, usam terno, gravata e disfarçam a decadência da cabeleira com penteados elaborados. Manter a aparência similar aos do entorno é vital à sua camuflagem. “Se acontecer comigo, pode acontecer com você” é seu mantra. Quantos mais puderem contaminar com o medo, melhor.

O vírus que os deixou nesse estado é tão comum quanto o da gripe. Transmite-se principalmente – mas não só – durante o período eleitoral. Como vetor, usa doações legais (e nem tanto) para candidatos a todos os cargos. É incerto quantos ele infectou, mas estima-se que, no Congresso, a epidemia chegue às dezenas. Talvez às centenas. Há segurança nos números, pois um protege o outro. Maior o cardume, melhor a chance de escapar.

Por isso, organizam-se em bandos de denominações diversas. Uns referem-se ao coletivo de zumbis como “nosso grupo”, outros preferem chamar de “nosso partido”. Os mais ousados, de “nosso Poder”. A generalização exagerada faz parte da tática de parecer maior, mais poderoso, feroz e onisciente do que realmente é.


Quem olha a repetição, o volume e a riqueza de detalhes das denúncias que delatam o real estado de seu ser deve perguntar-se como é possível aos mortos-vivos políticos continuar dando as cartas para tantos deputados e senadores. Para solucionar o mistério, é preciso entender de onde vem o seu poder.

Do carisma pessoal certamente é que não é. Podem acusar os zumbis de muitas coisas, menos de carismáticos. Virá então da simpatia que despertam em quem está ao seu redor? Piada. Se há algum sentimento que acordam nos pares é o temor, não a empatia. Será então a eloquência, a facilidade para discursar e convencer? A leitura do teleprompter em pronunciamentos oficiais revela um estilo mais rousseffiano do que lacerdista.

Dilma Rousseff tampouco é carismática, nem desperta empatia entre políticos ou é craque na oratória, mas ela tem a caneta que faz nomeações e libera verbas – algo que falta aos zumbis. Pelo menos por enquanto.

O mistério permanece. A esta altura, só o Ministério Público será capaz de desvendar, com a ajuda do Supremo Tribunal Federal, a origem do poder que mantém os mortos vivos. Talvez.

Calendário da crise. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, é o responsável pela investigação dos mortos-vivos da política. Ele poderá ou não apresentar denúncia contra eles ao STF. Mas há um problema de timing. Seu mandato no cargo acaba em setembro. Para ser reconduzido, depende de três coisas: ser o mais votado na eleição por seus colegas procuradores no dia 5 de agosto, ser indicado por Dilma e ser referendado pelo Senado.

Ele é o favorito na eleição, e a presidente tem dado sinais de que pretende chancelar seu nome. O problema de Janot está no Senado. Não há prazo para que os senadores confirmem sua indicação. Não precisam nem rejeitá-la, basta que não a coloquem em votação. Se protelarem até depois de 17 de setembro, Janot sairá do cargo de procurador-geral. E daí?

Quem assume, interinamente, é o primeiro vice-presidente do Conselho Superior do Ministério Público, cujo mandato terá expirado em agosto. O novo terá que ser eleito pelos dez conselheiros. Nos votos deles pode estar o nome do procurador-geral que vai ou não definir o destino dos zumbis da política.

Reflexão na flexão

Escracho, teu nome agora é Brasil

Digam-me: há palavra melhor para definir o que está acontecendo nesse país para tudo quanto é lado que se olha? Temo que não. Escracho, em todos os seus mais variados sentidos. Um escracho. Um escracha o outro. Nós escrachamos todos. O juiz escracha uns. Os políticos se escracham entre si. O ex escracha a atual. Eu escracho certas pessoas, de um lado, junto de vocês, que também escracham outros e outros; quando não os mesmos, que todos estão se esculachando felizes da vida. Virou Babel
Na boa, isso aqui virou uma esculhambação total. Que até teria um lado divertido se nós também não estivéssemos sendo grandes vítimas desse processo todo. Volto a pensar se não é alguma coisa que estão pondo na água, tão desmedida e pouco produtiva está essa já muito vergonhosa esculhambação geral que assola o Brasil, e que ultrapassa em muito o antigo Febeapá - o festival de besteiras.

Desde muito criança tinha na Dercy Gonçalves, a Rainha do Escracho com faixa e tudo, e a quem se associa imediatamente a palavra, uma ídola. Imaginava até na minha cacholinha que ela bem que podia ser minha parente. Adorava vê-la fazendo aquelas caras de esgares, a boca de caçapa, da qual vertiam impropérios e impropérios. Adorava, não. Adoro ainda, porque a cada dia que passa ela está mais atual, embora tenha morrido há exatos 7 anos, completados agora neste 19 de julho. Na época, assistia a ela onde aparecia, na tevê; enchi e bati pé para que me levassem ao teatro para vê-la e, já jornalista, sempre que podia tentava ouvi-la sobre algum acontecimento. 


Imaginam o que ela diria se estivesse acompanhando o atual momento político nacional? Bippi, xxx, bi,bi,biiii, asteriscos - certamente tudo seria impublicável, tantos falsos moralistas estamos criando sobre este chão e que ela apontaria satisfeita. O engraçado é que sei que ela era até meio reacionária depois de tudo o que passou para se firmar na vida artística, mas imagino o que diria agora ouvindo os discursos da presidente, a falação (ah, aqui ela trocaria uma letra, certamente) das CPIs que a cada dia mais parecem espetáculos burlescos de um cabaré viciado, vendo os cabelos asas de graúna tentando se explicar se roubaram mas não sabiam. Depois de tanta luta pelo respeito à mulher artista, queria saber o que ela pensaria da glamorização absurda da prostituição. Dos pitacos religiosos de plantão. Da gargalhada que soltaria acompanhando os passos da oposição. Ou o topete do prefeito modernudo que se acha o coco da cocada (aqui, ela poria um acento, ah, poria sim).

Imagino-a falando a palavra impeachment de todas as formas, menos a normal, e terminando com um sonoro palavrão e gargalhada sempre. Achei um relato, achei sim, de um centro espírita, onde ela teria "baixado" e os médiuns a repreenderam por todos esses palavrões ditos durante toda a sua vida, e até sobre os oito abortos que sempre admitiu ter feito. Não acreditei que esse espírito era ela mesmo, não xingou ninguém nesta sessão! Acho que a gente quando morre leva pro espírito o que temos de melhor.

Pena que Dercy não tenha vivido esses 108 anos completos; só 101. Embora antes de morrer já tenha visto o país começar a virar uma curva esquisita, não imaginaria como tanta coisa se degringolaria e tornaria difícil até diferenciar o ético, o saudável, o progresso quase forçado dos costumes. Veria sendo mantidos os destratos, o racismo, a homofobia, a violência contra a mulher, esse gênero que sempre tem alguém controlando o que faz com a vagina, seus buracos, diria Dercy. "A perereca da vizinha tá presa na gaiola! Xô, perereca! Xô, perereca!"

"Represento exatamente o escracho do Brasil", disse certa vez, completando: "Eu posso ser escrachada, mas não sou bandalha". Não era mesmo, Dercy. Bandalha é essa gente que está comandando cadeiras importantes de vários poderes. 


E escracho é o que estão fazendo primeiro para perguntar depois - polícia escracha; imprensa escracha. A gente escracha, mostra o quão desmoralizados são, não usamos mais nem meias palavras para nos referir até às pessoas às quais deveríamos guardar certo pudor, certo respeito. Mas elas próprias também se escracham, e acabam desmascaradas em seus atos. Provocam nosso escrachamento.

Escracho aqui é tão escracho e tem tanto que perde até um de seus sentidos, o político, aquele de ser o protesto que se faz diante da casa de quem desrespeita os direitos humanos.

Afinal, é ou não é um escracho esse mundo estar dividido em partes? PT e os outros. O PT também estar em polvorosa, o PT puro e o sujo? As debandadas sem ideologia para viver. A oposição apoiar o Eduardo Cunha que é uma síntese do atraso? Cada um correndo para um lado? O país à deriva? O ordenamento jurídico sendo estilhaçado numa primeira instância; juiz endeusado e promovido a herói?

Em cima desse palco tem muita gente, e o assoalho não está firme. Tem ator querendo matar outro para pegar o papel. Nem tudo se pode falar. Nas coxias tem gente sabotando até a comida do camarim. E isso não é uma comédia. Está mais para ópera bufa.

Falta uma Dercy para falar umas poucas e boas - definitivas - ela sim, escracharia de verdade tudo isso, com seu palavrório picante.

Falta novidade na notícia

Vamos combinar que faltam novidades. Não que seja época de pouca noticia. Pelo contrario. Tem mais noticia de sobra. Mas, a noticia não é novidade. Talvez não sejam nem mesmo novas. Tem gosto de pão dormindo. Parece filme repetido. Ou mesmo disco arranhado.


Faz tempo que a gente não acompanha historia com enredo original, trama inteligente, ou pelo mesmo interessante. É tudo a mesma coisa. Os mesmos temas. Os mesmos problemas. E, mais preocupante de tudo, os mesmos personagens.

Duas décadas e meia após conquistarmos o direito de eleger o presidente da republica, a gente nossa historia continua as voltas com os mesmos personagens. O enredo, simples farsa que nem mesmo se traveste de tragédia, não se renova. Os mesmos personagens praticando atos previsíveis em cenas lamentáveis agridem os ouvidos, ferem o olfato, e saltam aos olhos.

Por preguiça ou pura falta de criatividade, até mesmo os argumentos são os mesmos. E na mesma ordem. Começam com a negação dos fatos. Transformam-se em ignorância. Passam pela ausência autoproclamada de responsabilidade. E, atropelados pela realidade gritante, degeneram em acusações e ameaças.

Tudo usando as mesmas palavras. Vem com uma historia de golpismo. Ameaçam com a falta de governabilidade. E, aparentemente a ameaça preferida, levantam o fantasma ou fantoche da crise institucional. É muita falta de inspiração. Ou de criatividade. Ou de tudo junto.

Mas, diante da normalidade e da obviedade dos fatos, a única coisa que salta aos olhos mesmo é a falta de novidades. As instituições, em perfeito funcionamento, jogam luz na triste realidade de que a grande crise é a falta de renovação.

Os personagens deste enredo lamentável estão envelhecidos, fora do seu tempo, obsoletos. Sem que, no entanto, existam novos rostos que inspirem um mínimo de confiança, carisma ou fé em sua competência.

A crise é a completa ausência de cabeças capazes de produzirem ideias viáveis. É deserto de homens e ideias que a gente, cedendo de esperança, não consegue atravessar. Em aridez que mata tudo. Sem oferecer nem mesmo o alivio enganoso da miragem.

Cinco pontes até o Rubicão

Dilma Rousseff atravessará o seu Rubicão? Há fortes razões para apostar no “Não”, até por se saber que ela não contaria com tropas poderosas como dispunha Júlio César em 11 de janeiro de 49 a. C, quando transgrediu a ordem de Roma, lançando uma declaração de guerra contra Pompéia com a célebre tirada: “a sorte está lançada”.

Seu arsenal no Congresso se esvazia e escasseia a munição das ruas. Mas em política contorna-se frequentemente o que parece impossível, por meio de fatores que integram o escopo de viabilidade, a começar pela própria índole da presidente.  Entre as duas estratégias do jogo político – cooperação e confronto – a que mais combina com o ethos presidencial é esta última, conforme se pode constatar na entrevista que ela concedeu à FSP (“eu não vou cair”). Sabendo que Lula também é de briga, como ele mesmo propaga,  a engenharia política  conveniente  ao projeto do PT é a do embate.



Em seu livro “Estratégias Políticas”, o cientista social Carlos Matus, que trabalhou no governo Allende, no Chile, distingue três estilos de governantes: o modo Chimpanzé, centrado nas relações de dominação/submissão, que se ampara em alianças táticas e transitórias e rivalidade permanente; o modo Maquiavel, centrado no projeto de um grupo, um partido, que permite o uso de quaisquer meios para viabilizá-lo.

O chefe (por exemplo, Lula/Dilma) não é o projeto, mas o projeto será inexequível sem ele(s). O terceiro é a maneira Gandhi, inspirada no respeito às posições de todos, na busca de cooperação. O líder é a personificação da honestidade. Nesse tipo, não existem inimigos, mas adversários. Nas três décadas de vida do PT, o estilo Maquiavel predominou. A confrontação está no DNA petista.

Sob o lume maquiavélico, o Partido dos Trabalhadores tentará prolongar o ciclo de poder que detém há 12 anos e meio. O primeiro grande entrave é a salvação do governo Dilma. Não há como dissociar PT, Lula e Dilma, como alas petistas tentam. O desafio que se apresenta ao lulopetismo é fazer com que a presidente atravesse cinco pontes até chegar ao famoso cruzamento do Rubicão. Elas estão interligadas, a indicar que os obstáculos existentes numa influenciarão a passagem na seguinte.  

A primeira é a ponte pessoal, a do jeito de ser. Dilma não é uma pessoa cordata. É de briga, de desafios, como ilustra com seu passado guerrilheiro. Assim, a estratégia de cooperação ficará em segundo plano, o que sugere continuação das querelas entre a base governista e o Executivo e entre alas do próprio PT. O confronto  é a pior alternativa para ela nesse momento. Brigar com Eduardo Cunha, por exemplo, seria um ponto fora de curva.  


A segunda é a ponte econômica, para cuja travessia a presidente usa a competência técnica do timoneiro Joaquim Levy e a articulação do vice Michel Temer. Aprovado o pacote fiscal, mesmo com ajustes, a presidente terá de correr para apressar o fim do ciclo da economia recessiva, sob altos juros, inflação renitente e desemprego crescente. A redução da meta fiscal de 1,1% do PIB este ano para 0,5%, conforme se prevê, abre horizontes sombrios.

A insatisfação grassará em todos os estratos, a partir das margens e da classe C, a emergente, que esvazia o bolso, sob ameaça de regredir à base da pirâmide. As massas voltarão às ruas, os movimentos sociais agitarão bandeiras e a esfera política, sob os índices negativos de avaliação do governo, aproveitará para deitar conveniências. O congestionamento da via econômica provocará danos nas pontes seguintes – social e política – dificultando a travessia presidencial. Se o rigor fiscal der resultados ainda este ano, um raio de luz pode aparecer. Pouco provável.

Para diminuir os acessos, a Operação Lava Jato, com alta estridência, tem potencial para criar abalos nas conchas côncava e convexa do Congresso  e provocar fissuras nas imagens de suas lideranças. Mas a questão vai longe. Ante o foro privilegiado que abriga a representação política e com a tramitação de processos na Alta Corte sob embargos de todos os tipos, os casos deverão durar bons dois anos.

As pontes de passagem da presidente Dilma encontrarão ainda outros obstáculos, como a decisão do TCU, em agosto, sobre a responsabilidade da mandatária no caso das “pedaladas” fiscais e a votação do TSE sobre eventuais irregularidades nas contas de campanhas de Lula e Dilma.

É quando entra em cena a quinta ponte, a da gestão, pela qual a presidente deverá caminhar nos próximos meses. Pode ser atropelada pelos questionamentos que advirão. E, na sequencia, tentar se escudar na base governista. Se a administração ganhar ritmo, vislumbra-se uma réstia de esperança. Esse pacto pela governabilidade firmado por partidos da base resistirá aos tempos de vacas magras?

Diz-se que e política é a arte de fazer possível o impossível. Eis o desafio que se impõe à Sua Excelência antes de chegar ao Rubicão.

domingo, 19 de julho de 2015

Manual de uso de esquerdas e direitas


Levantamos com boa sorte se for “com o pé direito”. Ao contrário, o dia começa mal se levantamos com “o pé esquerdo”. Na Bíblia a bênção é dada e a herança é transmitida com a mão direita. Os justos estarão à direita de Deus, e os condenados, à esquerda. No entanto, nascemos com o coração à esquerda. E o coração é considerado popularmente o motor dos afetos e da vida.

É curioso que, desde a mais remota Antiguidade, tudo o que é melhor se atribui ao lado direito, e o pior, ao esquerdo. No sistema dos hieróglifos egípcios, entrar é ir para a direita, e sair é para a esquerda. Na Grécia antiga, Pitágoras obrigava a entrar nos templos pagãos com o pé direito. Para Píndaro, a direita significava a sabedoria e a astúcia.

Em nosso mundo pós-moderno discute-se o significado dos termos esquerda e direita sobretudo depois do recrudescimento do capitalismo financeiro de rapina, da queda do comunismo e do desastre dos populismos socialista que acabam resvalando no fascismo de Estado.

Ao mesmo tempo, psicólogos, antropólogos, sociólogos e linguistas continuam sem saber decifrar por que, como afirma o poeta simbolista catalão Juan Eduardo Cirlot, desde sempre os humanos identificam o lado direito com o futuro, o legítimo e a vida e o esquerdo com o passado, o reprimido e a própria morte.

A Bíblia, e com ela toda a cultura do judaísmo, também elogia e privilegia a direita. Aos sacerdotes era oferecida a perna direita da vítima sacrificada, segundo o livro do Levítico (7).

Moisés, no Êxodo (15) dirige-se assim a Deus: “Em sua direita, gloriosa está a força.” E no Eclesiastes (10) se lê: “O coração do sábio o guia para a direita, e o do néscio, para a esquerda.”

Em toda a tradição rabínica, a escuridão foi criada pela mão esquerda de Deus, e a luz por sua direita. Na língua hebraica se lê da direita para a esquerda.

No Novo Testamento, o Messias se sentará “à direita de Deus” (Mt16) e, depois do juízo final, os justos se colocarão à direita do Altíssimo e os condenados à sua esquerda.

Os evangelistas recordam que, na cruz, o bom ladrão estava à direita de Cristo e o mau à sua esquerda. E na maior parte da iconografia cristã, a cabeça de Cristo morto se inclina para o lado direito, raramente para o esquerdo.

Quando os apóstolos se queixam ao Mestre que não conseguiam pescar, Jesus lhes diz que é porque estavam jogando a rede para a esquerda. “Jogue-as à direita” (Jn.21), recomenda-lhes, e as redes voltaram carregadas de peixes. A sorte e a eficácia eram prerrogativas da direita.

Mais tarde, Dante Alighieri, na Divina Comédia, coloca o Paraíso à direita e o inferno à esquerda.

A única explicação plausível, segundo antropólogos e historiadores, para essa preferência dos antigos pela direita é que se acreditava que o sol nascia à direita, trazendo a luz e a vida, e se punha à esquerda, causando a escuridão e a morte.

A preferência dos antigos pela direita é que se acreditava que o sol nascia à direita, trazendo a luz e a vida, e se punha à esquerda, causando a escuridão e a morte

Na era moderna, os termos esquerda e direita adquirem na política significados diferentes dos meramente históricos. Tudo começa com a Revolução Francesa. Os nobres se sentavam à direita do monarca e os radicais, à esquerda.

Ainda hoje, nos banquetes e cerimônias oficiais, o comensal mais importante é colocado à direita do anfitrião. Curiosamente, até nos rituais marxistas, levanta-se com punho cerrado a mão direita, não a esquerda.

Depois das revoluções socialistas, a esquerda se vinga de seu atávico papel de inferioridade espacial. Os comunistas e socialistas começam a identificar-se com as causas da justiça e da liberdade, colocam-se ao lado dos mais fracos e marginais e lutam contra o capitalismo para dar o poder à classe trabalhadora.

É a reivindicação da esquerda social em defesa dos trabalhadores contra a injustiça de uma direita egoísta e excludente.

Hoje essa esquerda aparece em crise ou desiludida, e o jogo das políticas é no centro.

O que ocorreu é que uma certa esquerda, cuja bandeira era empunhada pelas massas deserdadas e órfãs de identidade, acabou aburguesando-se, contagiando-se com os pecados da direita até perder sua virgindade ética. Ocorreu na Itália, onde floresceu um dos partidos comunistas mais fortes da Europa. E está acontecendo no Brasil, onde até Lula admite que seu partido, que já foi o maior e com maior prestígio da América Latina, está em crise e não entusiasma os jovens.

A esquerda se deixou seduzir pelas seduções da riqueza fácil, e seus dirigentes começaram a viver como os ricos capitalistas.

No Brasil, como em boa parte da América Latina, a esquerda continua, no entanto, mantendo para muitos a fascinação e a memória das reivindicações sociais contra a avareza capitalista.


Mesmo assim, depois da queda do comunismo e do Muro de Berlim, os países procuraram novos rumos de política social-democrata sem dicotomias radicais, fazendo política distanciada da esquerda e da direita.

A defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores já não é prerrogativa única das esquerdas. Foi um imperativo para criar sociedades mais igualitárias.

Hoje o mundo vive momentos de areia movediça. Voltam, alimentados pelas crises econômicas mundiais, os extremismos de ambas as cores e as novas classes médias, chegadas do mundo do trabalho, movem-se com parâmetros diferentes das antigas reivindicações radicais da luta do proletariado contra a burguesia.

É um momento de passagem da ciência política e econômica, que exige soluções novas e criativas para fugir de velhos esquemas do passado.

Quando minha filha Maya tinha 5 anos e começava a aprender os conceitos básicos de tempo e espaço, perguntava-me onde ficavam a direita e a esquerda. Lembro que lhe dizia, com clara cumplicidade, que a esquerda estava sempre do lado do “coração” e que era com ele que ela “me amava”.

Muitos anos depois, um pedreiro que fez reformas na casa onde moro tornou-se alcoólatra. Teve que deixar de trabalhar. De vez em quando o encontro, cambaleando em sua velha bicicleta. Ainda se lembra de mim. Para, tira o gorro e me dá a mão, mas não a direita. Faz isso com a esquerda. “É a mão do coração”, explica.

Quando a esquerda se esquece, no entanto, de usar o coração na hora de defender os direitos dos mais desafortunados e prefere o compadrio e a fascinação pelos privilégios e luxos burgueses da direita, há o perigo de que se sinta tentada, como na Antiguidade, a crer que o bom está sempre à direita e a traição, à esquerda.

Dilma não sabe a diferença entre democracia e ditadura

Se alguém tivesse de cumprir a desagradável missão de escolher o discurso mais infeliz de Dilma Rousseff, estaria certamente diante de uma difícil tarefa. A competição da presidente consigo mesma, nesse quesito, é feroz. A fala desta sexta-feira, ao receber presidentes do Mercosul, no Palácio do Itamaraty, chega a ser nauseante. E por vários fatores que se combinam.

Para uma audiência que reunia truculentos notáveis como Nicolás Maduro (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina) e Evo Morales (Bolívia), a presidente brasileira teve a coragem de afirmar: “Somos uma região que sofreu muito com as ditaduras. Somos uma região onde a democracia floresce e amadurece. No ano passado, houve eleições gerais no Uruguai e no Brasil. Este ano, é a vez da Argentina e da Venezuela. A realização periódica e regular desses pleitos dá capacidade de lidar com as diferenças políticas. Temos de persistir nesse caminho, evitando que as disputas incitem a violência. Não há espaço para aventuras antidemocráticas na América do Sul.”

É bem provável que Dilma estivesse querendo dizer que uma eventual ação em favor do seu impeachment ou que a cassação do seu mandato pelo TSE se encaixariam na classificação de “aventuras antidemocráticas”. É claro que ela sabe ser uma mentira escandalosa.

Dilma pode não ser o melhor exemplo a que pode chegar a inteligência política brasileira, mas ela sabe que a simples realização de eleições não garante um regime democrático. Fazer tal afirmação diante de um ditador asqueroso como Nicolás Maduro e de um protoditador como Evo Morales chega a ser uma provocação grotesca ao bom senso. No ano passado, 40 pessoas foram assassinadas nas ruas da Venezuela por milícias a serviço do regime. Há presos políticos no país, e a imprensa está sob severa censura.

E coube justamente a Maduro descer ao esgoto moral. Afirmou: “Temos um presidente indígena (Morales), há um movimento bolivariano, que somos nós, de pé. E ninguém vai nos apagar do mapa. Nenhuma pressão política vai nos apagar. Há 40 anos, houve o Plano Condor, e não desaparecemos. Somos um projeto democrático, inclusivo”.

O “Plano Condor” é o nome pelo qual é conhecida a colaboração entre as várias ditaduras militares havidas na América do Sul nas décadas de 60 e 70. Hoje, regimes violentos e populistas também se amparam mutuamente, todos eles endossados pelos governos do PT, partido que sonhou emplacar por aqui algo semelhante. Trata-se de um “Plano Condor de esquerda”. Aliás, quando Dilma insiste em associar o cumprimento da lei à quebra da ordem democrática, ela o faz sob a inspiração desse pensamento delinquente.

E, claro, a pantomima não estaria completa sem a homenagem de Dilma a Cristina Kirchner, que voltou a levar a Argentina à beira do abismo: “Nesses oito anos em que lhe coube presidir a nação Argentina, você imprimiu posição firme e democrática a seu país. Do ponto de vista pessoal e político, quero dizer que você terá no Brasil uma amiga sempre pronta para compartilhar sistematicamente sonhos e esperanças”.

A brasileira, acreditem, tinha lágrimas nos olhos. No poder, Cristina Kirchner estimulou, ela também, a formação de verdadeiras milícias e tentou censurar a imprensa livre. O cadáver do promotor Alberto Nisman se revirou no túmulo. Dilma, no entanto, chorou de emoção. E aí falou a louca de Buenos Aires: “Qualquer estado integrante do Mercosul, ou da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), em que o governo seja removido por outro que não seja produto de eleições livres, populares e democraticamente eleito perde o caráter de estado membro.”

Também é de revirar o estômago. Cristina e Dilma, juntas, suspenderam o democrático Paraguai do Mercosul — por ter deposto legal e legitimamente um presidente — e aproveitaram o momento para abrigar a Venezuela do ainda vivo Hugo Chávez. Até então, o Senado paraguaio se negava a aprovar o ingresso do novo membro justamente porque reconhecia o país por aquilo que é: uma ditadura.

Ah, sim: a cerimônia marcou o ingresso da… Bolívia no Mercosul! O bloco já é hoje um atraso de vida para o Brasil. Entre outras razões, porque as decisões têm de ser tomadas por consenso. O bloco impede o Brasil de celebrar acordos bilaterais substantivos porque tem de se vergar às restrições de seus parceiros. Agora, teremos de nos submeter também às exigências bolivianas.

Enquanto isso, livres para voar, Chile, Peru, Colômbia e México celebram a Aliança do Pacífico, de costas, literalmente, para os bocós do Mercosul. O mal que o PT faz ao Brasil vai deixar marcas por muitas décadas. Já estamos começando a viver a herança maldita. E ela está apenas no começo.

Reinaldo Azevedo