quarta-feira, 6 de maio de 2015

Rainha de um país que tornou sucata

A fuga de Dilma aos pronunciamentos virou chacota. Mas não foge por medo das vaias, foge por orgulho de quem se acha rainha, mas da sucata em que deixou o país.

A Dilma de 2015, para muitos, pode ser uma outra Dilma, fujona, não mais a "guerreira". É a mesma de sempre. Só que a anterior, debaixo de retoques de marketing, parecia quase uma heroína, para esconder o seu maior defeito: o orgulho.

É por orgulho que não quer se expor. Orgulho da ex-militante que chegou à Presidência, mas para isso teve que se cumpliciar com a mais criminosa das máfias políticas do país. 

Enquanto estava numa boa, com imagem de ministra e presidente desfraldada em bandeiras de lutas pelo povo, era fácil o sorriso, as bombásticas declarações. Dava-se a esse prazer com o empenho dos mistificadores, estava construindo uma biografia para, como quer seu partido, reescrever a história brasileira. E melhor se tivesse que aparecer como numa “Liberdade guiando o povo" (pintura de Eugène Delacroix). 

Mas os tempos mudaram e se nublaram. A imagem que sonhou para si na história é bem mais nebulosa, de cúmplice, de conivente. O orgulho não permite se expor a chacotas, a panelaços, ao humor da verdade dos humoristas.

Se acha acima do bem e do mal, quem não se permite a humildemente pedir desculpas por um desastre como levar ao fundo do poço o país. Prefere o silêncio dos onipotentes dos medíocres. Acomoda melhor seu orgulho continental, para quem, só deve ter aplausos, nunca apupos. É a Dilma de ontem e de hoje se achando melhor e maior do que qualquer outro cidadão. Ou melhor, é a Senhora de brasileiros e brasileiras, impávida.

A parasitagem oficial


Muito pior que a roubalheira, é a incompetência. A questão na Petrobras não é só roubar, é a gestão desastrosa. O que nos alivia é: embora tenham batido os recordes, talvez sejam incompetentes para roubalheira também.
O pior é que o PT reforça a vitória do atraso. Que sociedade é essa que você quer construir em que o sonho das pessoas se limita a, se for da classe média, passar em um concurso público; se for pobre, arranjar Bolsa Família; e, se for rico, conseguir uma "Bolsa BNDES"? Todo mundo passa a querer ser parasita do Estado. Não há país que dê certo assim.
Marcelo Madureira

Ó tempos, ó costumes!

Lava-Jato-STF
Essa exclamação de Cícero, filósofo e um dos maiores oradores romanos, feita na primeira Catilinária, a propósito da corrupção de seus conterrâneos, parece coisa do nosso tempo. Não existe outro assunto no país que não seja a corrupção endêmica que nos assola, e não é de hoje. Parece até que nossa história se confunde com a orgia do Império Romano dos tempos de Nero.

Depois da condecoração do terrorista Stédile, que deveria estar preso por subversão à ordem constituída, depois das pancadarias que acontecem sempre que determinadas classes trabalhadoras reivindicam melhorias em sua remuneração, depois de tantos escândalos no governo federal, que parecem decorrer permanentemente de um problema mundial que o profeta maior entendeu como uma “marolinha”, ouvi de pessoa séria e isenta que, se o terremoto que arrasou o histórico Nepal tivesse acontecido em Brasília, o Brasil teria saído “no lucro”.

Ladrões da operação Lava Jato, que se dizem inocentes com as caras mais lambidas e que já estavam presos, de repente conseguiram ser soltos por habeas corpus num incompreensível entendimento do sempre egrégio e místico Supremo Tribunal Federal. Depois dessa rebordosa, mais que nunca é preciso que haja mudanças em nossa Constituição, mas sem o golpe de Constituinte Especial ou Específica. O Supremo é órgão de controle de constitucionalidade e não pode perder tempo se preocupando com prisão de ladrões de galinhas, ainda que elas sejam de ouro. Talvez por causa disso o Supremo acaba por cometer erros como foi a soltura dos empreiteiros ricos: mandou abrir a porteira para os bandidos sem tomar conhecimento da Lei 12.403, de 4.5.2011, que deu redação ao art. 318 do Código de Processo Penal, nos seguintes termos: “Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente for: I- maior de 80 anos; II- extremamente debilitado por motivo de doença grave; III- imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 anos de idade ou com deficiência; IV- gestante a partir do sétimo mês de gravidez ou sendo esta de alto risco; Parágrafo único: Para substituição, o juiz exigirá prova idônea dos requisitos estabelecidos neste artigo”. Será que algum daqueles barrigudos está é grávido? Sei não, eu devo ser burro, ou não fui avisado... Ah, Joaquim, por que nos abandonaste?

E para terminar, parece que o ex-Luiz voltou a beber, se é que parou, como nos velhos tempos. Agora se diz bom de briga e quer brigar com quem o acusar de lobista das empreiteiras... Acho que ele ficou rico com o suor dos ricos. Depois que ele deixou a Presidência, durante este governo que ainda está aí, ele já fez mais de 120 viagens ao exterior, e quase todas em aviões de empresas homenageadas na operação Lava Jato. Mundo, mundo, vasto mundo... Não entre nisso, Carlos, continue dormindo como os brasileiros de boa-fé, já que todos estarão acordados e aí...

A renúncia ao poder

O único fator material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns dos outros que as potencialidades da ação estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades que, como as cidades-estado, se converteram em paradigmas para toda a organização política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder. 
O que mantém unidas as pessoas depois de ter passado o momento fugaz da ação (aquilo que hoje chamamos "organização") e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permanecerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência renuncia ao poder e torna-se impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões. 
Hannah Arendt (1906 -1975) 
 

A ideologia petista cobra seu preço

Não há ideologia que resista à lógica dos fatos, ou que faça jorrar dinheiro no caixa do governo

Tornou-se rotina. A cada semana algum membro do governo anuncia novo passo atrás em questões adotadas por pura ideologia nas administrações petistas dos últimos 12 anos. A mania de reinventar a roda para se diferenciar do “neoliberalismo” dos tempos de FHC os levou a cometer desatinos: desorganizou modelos que estavam dando certo, levou à perda de credibilidade do país entre os investidores, condenou a infraestrutura ao atraso.


Um por um estão caindo os tabus petistas, símbolos de sua visão intervencionista e ideologizada da economia.

O modelo adotado na área de petróleo e gás, inclusive para o pré-sal, foi vendido como a redenção nacional.

Pois bem, agora o ministro das Minas e Energia anuncia que o governo “estuda flexibilizar as exigências de conteúdo nacional” e dá pistas evidentes de que o modelo de partilha subiu no telhado. Quando indagado se o próximo leilão do pré-sal, a ser realizado nas calendas gregas, se dará com as regras atuais, foi enigmático: “pode ser que sim”.

Podem apostar, vem aí outra flexibilização petista, como já defendeu o atual presidente da Petrobras.

De recuo em recuo, o governo Dilma Rousseff está dando a volta ao mundo, revendo o que fez como ministra das Minas e da Energia, quando comandou a mudança de concessão das usinas elétricas, que passou a ser pela menor tarifa, em vez da outorga onerosa.

Sim, Dilma está se rendendo ao modelo bem sucedido da privatização dos anos 90, que levou o PT a, de forma desqualificada, apelidar os tucanos de privatistas.

Não há ideologia que resista à lógica dos fatos, ou que faça jorrar dinheiro no caixa do governo. O que aconteceu no setor ferroviário é emblemático: estava prevista a privatização de 13 ferrovias através do modelo da menor tarifa. Caso houvesse prejuízo para os novos concessionários, a conta iria para o governo. Ou melhor, para o seu, o nosso bolso.

Mesmo com esta cláusula, sabem quantos quilômetros de estrada de ferro foram privatizados no governo Dilma? Nenhum dormente!

A meia-privatização, o intervencionismo, ou o estatismo disfarçado geraram outras pérolas. No caso dos aeroportos, o modelo dilmista impôs à iniciativa privada um sócio compulsório, a Infraero.

A estatal ficou detentora de 49% dos aeroportos privatizados, mas isto levou à sua descapitalização. Esse modelo será deixado de lado nas novas privatizações.

Por ingerência ideológica, o país perdeu uma chance de ouro. Poderia ter avançado na modernização da sua infraestrutura se o programa de privatização tivesse avançado quando o céu era de brigadeiro, quando o cenário econômico era extremamente favorável.

O ruim de uma política zigzagueante é que ela semeia desconfianças nos investidores. Quem lhes assegura que amanhã as regras do jogo não serão alteradas novamente?

Mas há outro risco tão ou quão danoso: necessitando de dinheiro desesperadamente, a privatização pode acontecer na bacia das almas.

Aí já não seria um erro. Seria um crime de lesa-pátria.

Reclusa no Palácio,Dilma não conseguiu ouvir o superpanelaço

Na noite desta terça-feira, o programa institucional do PT em cadeia nacional de rádio e TV, mesmo sem a participação da presidente Dilma Rousseff, provocou um superpanelaço no Brasil inteiro, mostrando que aumenta cada vez mais a desaprovação ao governo petista.

As pessoas nem ligaram para a declaração formal do presidente do PT, Rui Falcão, que plagiou Roberto Carlos para mostrar que daqui para a frente, tudo será diferente, com o partido se comprometendo a expulsar de suas fileiras qualquer petista que, ao final de um processo judicial, for julgado culpado.

A verdade é que as pessoas cansaram dessa conversa fiada de políticos que prometem uma coisa e fazem exatamente o contrário. A ainda presidente Dilma Vana Rousseff conseguiu terceirizar o comando da economia nacional e a articulação política, mas não tem como passar adiante a crescente rejeição a seu governo.

Para qualquer nação, é muito triste ter um governante (ou, no caso, governanta) que não pode sair às ruas ou aparecer na TV. Agora há pouco, na luxuosa solidão do Palácio da Alvorada, à beira do Lago Paranóa e distante de qualquer prédio residencial, a presidente Dilma assistiu ao programa do PT, mas não tinha como ouvir o maior panelaço da história mundial. Como nenhum assessor tem coragem de dizer a verdade a ela, que só saberá o que realmente houve se assistir aos noticiários de fim de noite na TV, que vão dar destaque ao superpanelaço.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A ilusão política das grandes manifestações populares

Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações — ia eu dizendo — o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. 
O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos "avançados" englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena.
Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, não o "homenageado", quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação senão com palmas e vivas.

É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprio a ilusão duma confiança que enfraquece.
Fernando Pessoa (1888 - 1935) 

Com toda certeza, hoje é o dia do maior panelaço do mundo

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Mesmo sem contar com a participação da presidente Dilma Rousseff, que pela primeira vez deixa de aparecer no programa do PT na televisão, está prevista para hoje a realização do maior panelaço do mundo, algo digno de ser inscrito no Livro Guinness de Recordes. O fenômeno político brasileiro é impressionante, porque o governo acaba de completar apenas quatro meses, mas seu prazo de validade se mostra mais do que vencido, o consumidor está revoltado e exige a devolução do produto.

A arrogante e presunçosa Dilma Vana Rousseff se transformou numa pálida lembrança daquela mulher que se julgava uma gerentona, capaz de conduzir este país aos rumos do desenvolvimento econômico e da justiça social. Hoje, a suposta doutorada em Economia não significa mais nada, foi obrigada a terceirizar o Ministério da Fazenda para um executivo do grupo Bradesco que nem constava da linha de frente da corporação, pois não integrava o Conselho Administrativo nem a Diretoria, e o nome dele não aparecia nem mesmo entre os executivos principais, estava no quarto escalão.

De fato, Joaquim Levy não é nenhuma sumidade e trabalhava apenas como gestor de um dos fundos de investimento menos procurados do Bradesco. Foi escolhido para o ministério apenas por ser o único que já tivera experiência governamental, como Secretário do Tesouro no início do primeiro governo Lula.

Depois de entregar a Economia ao inimigo do PT, Dilma Rousseff se viu obrigada a abrir mão também da articulação política de seu governo, que ficou a cargo do vice Michel Temer, que ela desprezou solenemente durante seu primeiro mandato de quatro anos. De repente, o veterano político paulista, que nunca foi bom de voto mas é mestre nos bastidores, passou a ser a solução para refazer a base aliada do governo.

Já se preparando para assumir o poder “in totum”, Temer vai embromando enquanto pode, porque sabe ter recebido uma missão impossível, porque ninguém acredita mais em Dilma Rousseff, seu tempo já passou e ela nem percebeu.

Realmente, o governo não tem mais salvação, respira por aparelhos, entrou em estado terminal e não há marqueteiro que dê jeito.

A presidente da República não pode mais sair dos palácios, está refém de si mesma nos quatro quilômetros que separam o Planalto e o Alvorada.

Para a família Rousseff, o final de semana prolongado foi um desespero. A presidente viajou para Porto Alegre, disposta a brincar com o neto e espairecer. Na sexta-feira, estava na casa do ex-marido quando foi surpreendida com um protesto popular do lado de fora. Preferiu ir para o seu apartamento, mas no dia seguinte a cena se repetiu, com outra manifestação. Dilma então pegou o Aerolula e voltou para Brasília, para reassumir o papel da pobre menina rica que vive em palácios, mas não pode sair às ruas.

O pior é que esta decadência é marcada por um repúdio que está se alastrando. No domingo, pela primeira vez nas últimas décadas, a abertura oficial da maior feira pecuária do país, a Expozebu, em Uberaba (MG), não teve a presença de presidente da República nem de governador do Estado. Dilma e Fernando Pimentel desistiram de comparecer. Mesmo assim, houve protesto contra o governo, com buzinas e apitos, cartazes e faixas pelo impeachment, mensagens contrárias ao PT e pedindo o combate à corrupção.

Hoje à noite o PT exibe na televisão o programa institucional do partido. Pela primeira vez, a presidente não participará nem será exibida qualquer imagem dela. O objetivo é evitar o panelaço que ficou acertado de ser feito toda vez que ela aparecer em rede nacional de TV.

Sonhar ainda não é proibido. Os dirigentes petistas podem sonhar o que quiserem. Mas o fato é que logo despertarão, tal o barulho do panelaço, que sempre se mistura com o buzinaço dos automóveis. Para os petistas, será um pesadelo que ficará para sempre marcado, porque nunca antes, na História deste país, se viu nada igual.

Anestesia sem cirurgia


Ando pelas ruas em busca de entendimento. Vejo que as pessoas não massacradas pela miséria estão pensando em alguma saída para o tornado de escândalos que se abateu sobre nossas cabeças. A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações. Cada um leva consigo uma forma de melancolia. É a grande neurose nacional do “que fazer?” E diante de todos se ergue o mistério da solução remota.

Um dos grupos mais comuns é a turma do “precisamos”. Eles estão em botequins, em universidades, em jornalistas e comentaristas de TV, em táxis e passageiros. Eles dizem sem parar: “Precisamos de...”

“Precisamos mudar a realidade do país!” – mas ninguém sabe como. Ficou tão visível nosso entulho histórico de que “precisamos” fazer alguma coisa. Fazer o quê? Diante da muralha de impossibilidades, como destrinchar o sarapatel de crimes que se emaranham em um nó cego? Como dar conta das chicanas do Judiciário, dos cabelos implantados, das cabeças acaju e/ou asa-da-graúna, quem vai dar conta do cafajestismo dos donos do poder, quem punirá os conluios públicos e privados, quem vai dar dentes à população, quem vai destrinchar os aditivos de contratos, os ajustes fiscais negados por interesse pessoal, quem vai impedir os assaltos aos fundos de pensão? Quem fará? Ninguém sabe, mas nos abrigamos nessa esperança vã.

Andando, vejo que mais adiante estão os “lamentosos”, primos da turma dos “precisamos”. Os lamentosos choram pela grandeza imaginada e perdida, choram pelos sonhos que tinham para um país melhor. Sentem-se traídos pela história política, pela vida. E têm nisso um pequeno lucro: consideram-se bons, dignos sofredores, vítimas de uma grande conspiração invencível. Choram por si mesmos.

Na outra esquina encostam-se os “pessimistas de carteirinha”. São consolados por uma sabedoria desencantada, pois acham que as vacas já foram para o brejo, que já pulamos da beira do abismo e que “essa porra não tem mais jeito, não”. E afundam em deliciosa depressão.

Nos restaurantes e em apartamentos com vista para o mundo, gargalham os “profetas felizes”, a turma do “eu não disse?”. “Sempre falei isso, e ninguém ligava; agora esta bosta explodiu mesmo!” A zona geral lhes permite posar de profetinhas. E com desdém, com sorridente desgosto, pedem mais um uísque, felizes, orgulhosos por sua clarividência premonitória.

Nos bancos de praça e nos meios-fios encolhem-se os “fatalistas” com amarga paralisia conformada: “Tinha de ser assim, é assim que é, maktoub”, é a vida, o destino, que fazer? Tudo estava escrito. E eles suspiram, aliviados pela paz da submissão.

Em cantos escuros e becos, em beira de calçadas estão os descabelados, de olhos em pânico, ameaçados pela chuva ácida das notícias. São os que sofrem do “delírio de ruína”, em que tudo que era sólido se desmancha no ar. Caem pedras, caem cometas, caem horrores, caem o PCC, a fome, o Estado Islâmico, as cabeças degoladas, os homens-bomba, as mudanças climáticas – tudo se soma numa massa informe de problemas insolúveis. E ficam desesperados em meio aos escombros: “Estamos perdidos; o mundo acabou logo agora que eu estava melhor de vida. Só falta a terceira guerra mundial!”

E por cima deles, nos colóquios, nos seminários, nas universidades flutuam os discursos de análise política límpidos, a sociologia infalível, a orgulhosa ostentação da verdade. “Nós sabemos a verdade: podemos simplificar tudo em fórmulas quase matemáticas. Está tudo claro em nossas teses de doutorado. O problema é que o Brasil não se curva às nossas teses...”

Temos uma nova raça também: os “neo-antipetistas”, os caras que já sacaram que Dilma virou Judas em Sábado de Aleluia, querem sair fora e faturar uma neo-oposição para ganhar prestígio entre os que, antes, eles chamavam de “neoliberais”. Os pais desse movimento que se espraia são os dois presidentes do Congresso, tranquilos, apesar de acusados pela Justiça. É a maravilhosa tropa de ratos pulando do navio.

E o “pavilhão dos narcisistas”? Acham que a crise é contra eles. “Sabe o que mais? Não quero saber dessa merda toda, vou me fechar em mim mesmo, curtir a vida, graças a Deus tenho uma graninha para ir a Miami. Poluíram meus sonhos de plenitude; o país estaria salvo se fosse igual a mim...”

Temos, principalmente na academia, o bando dos “hegelianos do barulho”, que proclamam que tudo de ruim que acontece não passa de uma “contradição negativa” que nos levará a uma síntese de harmonia. Todos os crimes são o prenúncio de uma era de vitória do “geist”, do fim da história, da qual eles se acham os agentes. Não sabem que tudo que é real é irracional. São felizes – para eles, a desgraça é a véspera da luz.

Temos também os “saudosos de porrada”, que clamam pela volta da ditadura. Anseiam pelo simplismo verde-oliva, a solução na base do “bota para quebrar, tem mais é que fuzilar essa putada corrupta!”

Comum em motoristas de táxis e milionários indiciados pela Justiça.

Temos os corruptos indignados: “Que país é este?”, sem esquecer os “os enojados e os entediados”. Reclamam: “Ai, que horror, não consigo nem ver essa lama escrota, esse chiqueiro”. Ou: “Ai, que saco; não aguento mais denúncias de corrupção… coisa chata... nem leio mais jornais…”

Outra maravilha psíquica são os pelotões dos meio-intelectuais meio de esquerda, meio-artistas que veem toda a catástrofe em volta, mas continuam crendo nos slogans e delírios dos neo bolivarianos. É a multidão do autoengano, que não muda de opinião, a turma do “mesmo assim”: “Sei que está tudo uma bosta, mas, mesmo assim, continuo crendo na ideologia do lulo-socialismo”. É a fé: “Creio porque é absurdo”.

E temos o perigo da “pizza da sociedade”. Por causa do congestionamento dos escândalos, tantos que parecem uma enchente sem foz, a sociedade pode vir a se acostumar com nosso eterno erro histórico e, congregando os biótipos relatados acima, pode formar a intragável pizza da sociedade. Ou seja, como disse uma vez M. H. Simonsen, se essas neuroses permanecerem, seremos para sempre um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
Arnaldo Jabor

Impopularidade, indignação, rejeição e revolta

Por estratégia de sobrevivência, Getúlio Vargas, quando de sua segunda passagem pelo governo, a partir de janeiro de 1951, havia nomeado um ministério conservador, até reacionário. Para compor-se com as forças que não aceitaram sua volta ao poder, nomeou Horácio Lafer para a Fazenda e Ricardo Jafet para o Banco do Brasil. O primeiro dominava a economia paulista e nacional em nome dos ricos. O outro comandava os bancos privados em seu próprio nome e dos banqueiros. Por coincidência, um confronto entre a sinagoga e a mesquita, mas até que não se estranhavam tanto. Na Agricultura estava João Cleofas, usineiro de Pernambuco, inimigo da reforma agrária. Nas Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, mais americanista do que qualquer inquilino da Casa Branca.

Segundo o magnífico livro recém-lançado sobre a vida de Tancredo Neves, do jornalista José Augusto Ribeiro, o então deputado por Minas era com frequência convocado para análises da conjuntura. Não teve receio de escandalizar o presidente dizendo que sua eleição o tinha caracterizado como líder de massas, mas seu ministério privilegiava os tubarões. Surpreso, Vargas reclamou que jamais alguém havia falado assim com ele, mas no fundo, concordou e mais tarde nomeou Tancredo ministro da Justiça.

Por conta das pressões de dentro e de fora, o velho caudilho praticava dois regimes de trabalho. Às tardes recebia os ministros, em escalas semanais que rotineiramente levava todos ao seu gabinete, para despachos. Só que pelas manhãs, em segredo, reunia no palácio do Catete, com gabinete ao lado do seu, uma equipe encarregada de formular grandes projetos nacionalistas e sociais que caracterizariam sua passagem pelo poder.

Romulo de Almeida, Jesus Soares Pereira, Cleantho de Paiva Leite e outros criaram a Petrobras, o Plano Nacional do Carvão, a extensão das leis trabalhistas ao homem do campo, a Reforma Agrária, a Eletrobras e tantas mais propostas imprescindíveis à nossa afirmação . Algumas não saíram do papel, dada a reação nacional e internacional contra nossa independência. Com os setores empenhados em destituí-lo do poder, Getúlio acabou optando por passar da vida para entrar na História como forma de protesto inusitado, sublime e eficaz. Graças a ele fincaram-se as estacas do progresso, muitas já erigidas em seu primeiro governo.

Por que se recordam aqueles idos dramáticos, parte da crônica ainda inconclusa do Brasil? Porque a lição a tirar é de que junto com a acomodação às forças dominadoras das elites, sempre será possível avançar no sentido contrário, em se tratando de governos representativos dos anseios da soberania nacional e da população.

Falta à presidente Dilma, como faltou ao Lula, essa equipe instalada na sombra, capaz de contrabalançar o jogo dos poderosos e conquistar os espaços necessários à plenitude do nosso desenvolvimento econômico e social. Se determinadas medidas favoráveis às elites são inevitáveis à sobrevivência até física dos governos populares, é preciso trabalhar no reverso da medalha, elaborando a verdadeira face do futuro. Coisa esquecida especialmente por Madame. Sem alternativa que não seja o assistencialismo necessário mas inócuo, estamos condenados à recessão e à paralisia como nação, trazendo como resultado a impopularidade, a indignação, a rejeição e a revolta. Porque faltam aos governos do PT iniciativas para contrapor-se ao aumento de impostos, à elevação de taxas e tarifas, ao sacrifício do trabalhador e dos assalariados, à redução de investimentos sociais, ao desemprego e demais maldades urdidas pelos mesmos de sempre.

Se eu fosse petista

Lutaria por uma verdadeira renovação doutrinária, e não por esse arremedo anacrônico constituído pelas “teses” das diferentes tendências partidárias e pela Resolução do partido

Se eu fosse petista, não adotaria uma postura esquizofrênica. De um lado, em seus momentos de responsabilidade, o PT levou a cabo uma prática social-democrata, que se assemelha aos governos social-democratas alemães ou ao trabalhismo inglês. De outro lado, o partido manteve inalterada a sua doutrina socialista, que retoma essencialmente o que era considerado como a concepção socialista/comunista do século XX. Na brecha desta esquizofrenia, foi introduzido o aparelhamento partidário do Estado, como se essa fosse uma espécie de terceira via de sua manutenção “socialista” do poder, da qual o seu fruto mais visível é a corrupção instalada no aparelho estatal. 

Se eu fosse petista, assumiria uma postura social-democrata, abandonando a fraseologia marxista e de conflito de classes. No governo, o PT, com nuances internas nos governos Lula e Dilma, adotou, na prática, uma política de tipo social-democrata, privilegiando programas sociais, dentre os quais o mais visível foi o Bolsa Família. Na mesma esteira, embora com apoio cubano, fez o programa Mais Médicos, visando a fornecer atendimento a populações desatendidas de municípios carentes. O programa Minha Casa, Minha Vida seguiu a mesma orientação, com o objetivo de prover habitação para as mais baixas faixas de renda. Do mesmo modo, fez o programa Minha Casa Melhor, com a finalidade de possibilitar a mobília e eletrodomésticos dessas mesmas moradias. 


Se eu fosse petista, faria o que fez a social-democracia alemã e o trabalhismo inglês. Diga-se de passagem que a direita seguiu o mesmo caminho no caso da democracia cristã na Alemanha e na Itália ou dos governos gaullistas na França. Não é só a esquerda que faz política social! O marxismo e o comunismo não lhe foram, neste sentido, de nenhuma valia, se considerarmos suas medidas sociais, próprias de governos inseridos numa economia capitalista. Ou seja, trata-se de iniciativas que são não só plenamente compatíveis com a economia de mercado, mas somente nesta podem se viabilizar, dada a riqueza proveniente da livre iniciativa e da liberdade de empreender, em relações regradas segundo as normas do Estado Democrático de Direito.

Se eu fosse petista, lutaria por uma verdadeira renovação doutrinária, e não por esse arremedo anacrônico constituído pelas “teses” das diferentes tendências partidárias e pela Resolução do partido. Acontece que o programa partidário está baseado na luta de classes, na tutela estatal, na intervenção da economia, no menosprezo ao lucro, no desrespeito ao direito de propriedade, no desprezo da democracia representativa e sempre colocando como objetivo final a criação de uma “sociedade” socialista no Brasil. Note-se que o PT jamais deixou de prestar solidariedade aos governos comunistas de Chávez, Maduro e dos irmãos Castro. Por mais que esses governos pisoteiem os direitos humanos que o PT diz representar, nenhuma crítica governamental nem partidária é a eles endereçada. Lembre-se que a ditadura cubana vivia das mesadas da União Soviética! Tudo, evidentemente, na visão deles é culpa do “imperialismo”, apesar de o comunismo soviético, em décadas do século XX, ter ocupado mais da metade do planeta. Sucumbiram esses países às suas próprias contradições. Fracassaram simplesmente.

Se eu fosse petista, não endeusaria Lula. Em seus governos, o PT jamais abandonou essas posições doutrinárias. O ex-presidente, por exemplo, teve uma política sistemática de apoio e financiamento de uma organização revolucionária como o MST. Deu sustentação a invasões de propriedades rurais, em um manifesto desrespeito ao direito de propriedade, algo muito próprio da esquerda revolucionária. Sustentou, embora sem sucesso, várias tentativas de controle da imprensa e dos meios de comunicação, por intermédio das Conferências Nacionais. Apoiou iniciativas de Conselhos Populares e Conferências, com o claro intuito de minar as bases da democracia representativa. Apoiou o aparelhamento partidário do Estado, tendo a corrupção do mensalão enquanto símbolo e legado seu. Aliás, foi também em seu governo que foram sentadas as bases do petrolão.

Se eu fosse petista, depuraria o governo Dilma de suas contradições. A presidente Dilma distanciou-se de algumas posições de Lula e do PT, sinalizando para uma renovação. Em seu primeiro mandato, procurou afastar-se da corrupção, tentando uma faxina ética em seu Ministério, não tendo, porém, conseguido sustentar essa posição. No que diz respeito ao MST, relegou essa organização revolucionária a uma posição secundária. Foi, ademais, defensora intransigente da liberdade de imprensa e dos meios de comunicação, não tendo levado adiante o projeto de “controle social dos meios de comunicação”, deixado por seu antecessor. Por outro lado, no que concerne aos conselhos populares tentou, com um decreto, fazer valer essa proposta revolucionária que solaparia as bases mesmas da democracia representativa. Sua recaída esquerdista foi manifesta. Seguindo, ainda, a mesma orientação de esquerda, seguiu as linhas de um capitalismo de compadrio com intervenção estatal crescente, cujo desfecho estamos hoje vivenciando com PIB negativo, inflação que estourou o teto da meta e juros estratosféricos. Agora, neste seu segundo mandato, volta-se para os ditos “movimentos sociais” que desprezara.

Se eu fosse petista, aceitaria as críticas e faria uma autocrítica. No que diz respeito à corrupção, o partido nega contra todas as evidências a sua participação. Afastou o tesoureiro Vaccari só após ele ter sido preso e ainda assim fazendo a sua defesa. No mensalão, considerou os seus artífices “guerreiros do povo brasileiro”, em uma clara afronta às nossas instituições republicanas. Pior ainda, o PT ataca essas mesmas instituições republicanas, como o Ministério Público, o Judiciário e a Polícia Federal, e a imprensa e os meios de comunicação, que são os pilares de uma sociedade livre.

Denis Lerrer Rosenfield

Esse medíocres!

Nesses homens, imunes da paixão da verdade, supremo ideal a que pensadores e filósofos sacrificaram a sua vida, não cabem impulsos de perfeição. Suas inteligências são como as águas mortas: povoam-se de germes nocivos e acabam apodrecendo. Aquele que não cultiva a sua mente, vai direto no sentido da desagregação da sua personalidade. Não desbastar a própria ignorância, é como perecer em vida. As terras férteis tornam-se más, quando não são cultivadas; os espíritos rotineiros povoam-se de opiniões que os escravizam.
José Ingenieros (1877-1925)

O tratamento errado do erro

Quando for capaz de aceitar que a cada um só cabe o que lhe é devido, talvez a política admita inscrever a justiça no catálogo das virtudes

"O Homem Errado”, de Alfred Hitchcock (1956)
Caros militantes de agora, esqueçam a luta de outrora: eis a conclusão, podem começar a refletir. O partido não tem qualquer responsabilidade nessa situação que envolve a política. A direção tudo decidiu baseada em leis e costumes vigentes. Ponto. Todas as discussões sobre essa questão devem ter em mente o imenso crédito político que desperdiçamos quando decidimos sufocar nossas divergências internas e passamos a prestigiar as grandes operações de paraquedismo político. Mas foi isso que nos permitiu ancorar o partido no aparelho de Estado e a seu soldo empolgar o povo soberano. Saibam: a prática desvirtua a teoria. Ponto.

Só a direção é capaz de compreender a imensa complexidade que apresenta o governo e toda necessidade de azeitar a máquina, abandonar objetivos doutrinários, contratar especialistas em propaganda, mudar orientação. Todos devem estar firmemente convencidos de que não havia outro caminho a ser tomado por quem não pretendesse a derrota. Lealdade é evitar buscar explicação própria e de forma independente.

A admiração pelo ato gratuito que está na origem da nossa formação é uma etapa vencida. O sofrimento e a angústia devem ser partilhados por todos em nome da unidade de ação. É importante que nos dediquemos a enfraquecer argumentos contrários, combater premissas, chegar antecipadamente a resultados favoráveis para aprisionar a discussão no círculo do interesse do país e, assim, abrigar a direção, que tudo decidiu, por trás do partido, que tudo sofreu. Ponto final.

Não é a primeira vez na história da esquerda que a origem e o crescimento da crise de seus partidos estão no tratamento errado do erro. Quem não reconhece o erro não vive a dificuldade moral da sua atitude e se condena a repeti-la. Porque erro não se melhora. Erro deve ser abolido. Especialmente em países como o nosso, onde a democracia ainda não exige dos agentes públicos um piso institucional básico impossível de ser ultrapassado.

Talvez por isso, a honestidade entre nós seja própria da índole pessoal de cada um, uma vez que a igualdade perante a lei não impõe nenhuma exigência ao caráter. Quando for capaz de aceitar que a cada um só cabe o que lhe é devido, talvez a política admita inscrever a justiça no catálogo das virtudes.

Enquanto isso, a corrupção continua essa tecnologia aplicada a uma moral mundana e arrogante: coroa, eu ganho; cara, você perde. Necessita de um meio artificial, um encontro não espontâneo, uma dependência espiritual da mentira. A ficção em que prospera, expulsa o impossível da mente do indivíduo e o faz achar que tudo é possível.

Se oferece como atividade extrativista, em ambiente de valores que não se quantificam. É de gestão arcaica e antieconômica: prefere muita vigilância e pouca transparência. Seu sentimento aflora livre da interdição afetiva, um se divide em dois, dispensa a alma de agir pela vergonha ou pela culpa, impõe descompasso com a estima pública.

Já é hora de a política mudar de perspectiva e aceitar a cultura da culpa, para evitar erros, e a da vergonha, para torná-los intoleráveis.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A perigosa aliança entre a ingovernabilidade e o impeachment





A sombra de duas derrotas assusta o governo e despertará, como consequência, o peso da ingovernabilidade. Serão letais tanto a rejeição das medidas provisórias do ajuste fiscal pela Câmara quanto, pelo Senado, do nome indicado para novo ministro do Supremo Tribunal Federal.

No primeiro caso, os deputados começam esta semana a apreciar a redução de direitos trabalhistas, desde o seguro-desemprego ao abono salarial e à extinção das pensões para viúvas com menos de 40 anos. A mobilização nos partidos é grande, encontrando-se todos rachados, inclusive o PT. As centrais sindicais pressionam para os deputados não aceitarem a diminuição de direitos trabalhistas consagrados faz muito. A base parlamentar do governo, desunida, pode não garantir a aprovação.

Quanto à não aprovação do nome do dr. Fachin pelos senadores, defendida pelo presidente do Senado, vai demorar um pouco mais, provavelmente estendendo-se até o final do mês. Será explosiva, se acontecer.

Na hipótese das duas derrotas, ficará claro que a presidente Dilma precisará governar sem o apoio do Congresso, missão impossível em tempos de democracia. A situação, mesmo às avessas, lembra o período final do governo João Goulart. Naqueles idos o presidente enfrentava os setores conservadores, contrários à reforma agrária e demais reformas de base. Optou por estabelecer as mudanças por atos do Executivo, despertando ainda maiores reações no Legislativo. No fundo do confronto conspiravam as elites econômicas e os militares, com forte penetração da classe média.

Madame ainda não se decidiu a bater cabeça com o Congresso, ainda que disponha de mecanismos para impor a recessão acima e além de deputados e senadores. Se o fizer, faltando na equação a presença dos militares, enfrentará a classe média mesclada aos setores sindicais.

A verdade é que o governo caminha célere para deixar de governar, caso não encontre para a crise econômica remédio melhor do que sacrificar a população. Os efeitos já se fazem sentir no aumento de preços, taxas e tarifas, com a redução do poder aquisitivo dos salários.

O fantasma do impeachment ainda não assusta, mas continuando as coisas como vão, logo dará as mãos à ingovernabilidade. Uma aliança perigosa. Quem anda de olho na crise é o Lula, disposto a ajudar a sucessora, mas trabalhando em paralelo para preservar-se como candidato em 2018. Mesmo assim, já não são poucos os companheiros soprando em seus ouvidos que “pode não dar tempo”. A ingovernabilidade e o impeachment funcionariam como antecipação do processo sucessório, em especial se Dilma e o seu vice se dispusessem a renunciar, possibilidade por enquanto inviável, mas, em termos de História do Brasil, factível.

A pergunta que fica é se o retorno do primeiro companheiro adiantaria para desatar o nó em que nos encontramos. Há quem julgue que não, porque ele, afinal, tem muita responsabilidade no que vai acontecendo. Precisaria pedir mais sacrifícios sem a compensação de distribuir benesses. Perderia a característica que o elevou ao poder.

A imprensa e a pauta nacional

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De quanto tempo será o castigo? Quanto teremos de viver sem respirar? Quantos vão morrer? Há controvérsias.

Aquele câmbio de "fazer pobre viajar de avião" que o Lula exibe como prova do seu amor pela humanidade destruiu a indústria nacional. Juntamente com a desmontagem dos três eixos de produção de energia - a elétrica, a de biomassa de cana e a de petróleo - pelo tamponamento de tarifas, para "tirar 50 milhões de brasileiros da miséria" com uma caneta até à véspera da eleição, ele compõe hoje o epicentro do tsunami que empurra para cima, aos trancos e barrancos, todo o sistema nacional de preços relativos. A produção, o trabalho, a vida, enfim, terão de se reacomodar por ensaio e erro apenas para deter a queda.

Mas essa é a parte fácil. Em tempos de mercados globalizados, acertar entre o ministro Levy e os vendedores de "governabilidade" em quem será enfiado cada pedaço da continha doméstica é o de menos. Difícil será desprogramar a subversão conceitual que explica a nossa inesgotável tolerância ao abuso e mantém fora do horizonte qualquer possibilidade de "ajuste internacional", o único capaz de matar a miséria.

Os buracos hoje se fecham ou se alargam em função do acerto entre cada comunidade de produtores e seus governos nacionais. O que decide é a carga que uns põem nas costas dos outros. Todo mundo sabe disso, mas se nós ainda guardamos alguma lucidez como indivíduos, não sobrou nenhum resquício dela enquanto sociedade. O Brasil perdeu a capacidade de discernir a fronteira básica entre a religião e a ciência e a grande pedreira vai ser recolocar a relação de causa e efeito na posição de centralidade que ela deve ter no nosso sistema de intelecção da realidade.

Brasília nem sequer sabe que existe uma crise. É lá o tal "país sem miséria" onde, em pleno desastre nacional, a verba dos partidos triplica, os meritíssimos se outorgam "auxílios" de fazer corar os cínicos, os indemissíveis "educadores" dos filhos do Brasil, enquanto morrem em massa os empregos cá fora, não deixam por menos de retumbantes 75% a sua "exigência" de "reajuste salarial".

E a dívida dessa Petrobrás estuprada, "a maior de todo o mundo corporativo em todos os tempos", quantas gerações de brasileiros que ainda nem nasceram viverão e morrerão pagando essa conta? Nem por isso ela deixa de continuar tida e afirmada como "um orgulho nacional", sob um silêncio quase unânime de anuência. Nem as vísceras à mostra remetem àquela clássica, histórica, translúcida e necessária relação de causa e efeito entre a condição de empresa estatal num país pré-democrático e o aparelhamento do seu staff e dos seus recursos por um projeto de poder bandido, ainda que moremos todos no país onde nem uma única solitária pessoa duvida que, para onde quer que se olhe, "não se coloca um paralelepípedo no chão sem pagar propina".

O máximo que se ousa timidamente pedir são menos ministérios. Das outras 37 fundações, 128 autarquias e 140 empresas estatais, somente no âmbito federal, ninguém fala. Da existência delas só fica sabendo, aliás, quem olha com lente o que "vaza" pelos interstícios dos "verdadeiros problemas nacionais" que a imprensa se permite ver. Adicionados Estados e municípios, ninguém sabe a quantas andamos, Estado x Nação. A Petrobrás sozinha tem 446 mil funcionários, algum jornal deixou escapar enquanto falava de coisa "mais importante". Meio milhão, fora aposentados e encostados! É provável que esteja para o resto das petroleiras do mundo, somadas, como as nossas escolas de Direito estão para as do resto do mundo somadas. Nós "ganhamos", temos mais!

Só de "sindicatos" de propriedade una e indivisível de "líderes" sem liderados sustentados pelo imposto sindical, a linha de frente dos "movimentos sociais" que se querem substituir ao sufrágio universal, parece que já temos 28 mil, segundo menção não provocada e acidentalmente publicada de fonte abalizada. "Justiças"? Temos cinco, completas, um plural que elimina, "em termos", a possibilidade de se fazer a única que de fato "é", que é aquela que se define pelo estrito singular. Apenas uma delas sangra nossos produtores em R$ 50 bilhões por ano - quase o ajuste inteiro que se está buscando - só em "processos trabalhistas", indústria à qual se dedica com exclusividade metade daquela multidão de "advogados" que nossas incontáveis fábricas de rábulas "põem" todo ano. É a sementeira do que nos tornamos, a lumpencorrupção: "minta, traia, falsifique que o governo garante".

Quem tem a menor sombra de dúvida de que um país assim não pode dar certo? Que este é o ambiente em que a corrupção e o crime estão como querem? Que não teremos condição de competir com ninguém e quebraremos a cara tantas vezes quantas tentarmos antes de curarmos essas feridas?

E, no entanto, para quebrar o encanto basta insistir obsessivamente numa conta simples: quanto estrago, quanta miséria, quanta violência evitável se torna obrigatória ao Brasil onde vale tudo para que o Brasil intocável possa continuar intocado? O que, a cada passo, estamos trocando pelo quê?

Nossas escolas ensinam que tocar nesse assunto é heresia sujeita a auto de fé. E nossas mentes jesuítico-aplainadas, tudo indica, estão prontas para absorver a lição. Nossos políticos de oposição, nas suas mais ousadas expansões "libertárias", sugerem que enfrentemos tudo isso com revólveres sem balas. "Voto distrital, vá lá, mas sem recall!" E a imprensa, disciplinadamente, há anos não faz esse tipo de conta, ainda que o mínimo que exige a decência de quem se quer o alarme das iniquidades do mundo é que não fale de outra coisa. Como, porém, ela só se permite chamar de política aquilo que os políticos chamarem de política e de reforma o que eles, de livre e espontânea vontade, nos propuserem como reforma, o Brasil que trabalha, com o mundo dos Estados "ultralight" fungando-lhe no cangote, terá de seguir vivendo à espera de um milagre para começar a discutir qualquer coisa que possa concorrer para salvar-lhe a vida.

Quem, me digam: Quem?

Vou dividir minha angústia com vocês. Essa pergunta já te ocorreu também? Quantas vezes só hoje ou nos últimos dias? Quem? Em quem a gente poderia confiar nesse momento, herói ou ser sobrenatural, vindo de outra galáxia e que seja ao menos capaz de unir de novo este país? Levá-lo ao futuro, retomando seu orgulho e soberania, mais contemporâneo e menos jeca, capaz de chamar e ouvir as cabeças pensantes? Quem?

Está chegando a hora de tentarmos propor soluções. E rápidas, eficientes, milagrosas. Aventureiros surgirão aos montes de detrás de qualquer encosta, onde provavelmente se manterão à espreita. Aliás, já estão lá, pode procurar nos buracos que achará um monte deles, tentando tecer a teia, pregando armadilhas, jogando cisco em nossos olhos e cascas de bananas nos caminhos. Precisaremos saber identificá-los. Inventar logo um alarme que toque à sua mera aproximação, e que se acendam todos os holofotes iluminando a escuridão. Não temos mais tempo de errar de novo.

Vejo os olhos estatelados das pessoas diante das gôndolas dos supermercados. Dá para sentir a agonia, o cálculo rápido feito de cabeça sobre trocados para economizar, traindo a marca predileta, agora há a observação mais detalhada, inclusive com leitura de rótulos. Normal ver cabeças balançando em sinal de negativa ao encarar as plaquinhas, e ali mesmo deixar o objeto antes visado. A alta de preços descontrolada, unida à descontrolada falta de dinheiro nos bolsos e habitual loucura do corre-corre para não tomar prejuízo, está levando a uma equação de resultado zero. Sei que tenho leitores bem de vida (a quem espero até não estar aborrecendo contando sobre a real dureza da nossa população de Durangos e Durangas), e que não estão tão apertados assim. Talvez nem façam compras pessoalmente; mas mesmo quem é bem rico, milionário, ah, esse sabe o valor do dinheiro e faz questão de discernir sobre o valor das coisas, o que vale.

Enfim há uma boa dose de irritação, descrença, inconformismo no ar. Mas o que eu quero dizer é que estou achando esse sofrer coletivo muito misterioso, contido, silencioso, crescendo dentro das pessoas como lombrigas, ou aqueles aliens de filmes. Tem gente que já nã critica; baba. Espuma de raiva. Quase ouço o borbulhar desse rancor todo, como se ele pudesse aparecer a qualquer momento. Qualquer faísca. Essa aparência de normalidade institucional me instiga, até por sabê-la periclitantemente perigosa, falsa e por isso, frágil. Falo do que é abstrato. Temo essa energia quando for concreta.

Intolerâncias grudam na poeira dos nossos sapatos, aquelas que tentávamos varrer daqui para sempre. Na falta de uma resposta mais sólida - Quem? - surgem propostas estapafúrdias, como a da senhora aposentada que me disse que queria um general. Apenas isso, para ela o salvador poderia ser um general, e não é que ela quisesse uma ditadura. Pedi a explicação. Para ela, a Dilma é uma pedra muito pesada, que precisa ser tirada do lugar. Removida. Que alguém mande remover, me disse. Pensou em um general como poderia ter pensando num elefante.

Daqui a pouco aparece o Marechal Deodoro em pessoa, despersonificado de sua estátua. Muitas pessoas realmente pensam que estão em livros infantis e escolares de história, creio, aqueles que tinham aquelas ilustrações de cavaleiros exaltados chegando com seus cavalos brancos, empunhando espadas e gritando Independência ou Morte!

Precisaremos começar muitas coisas, e a primeira delas é pedir respeito aos governantes, que parem de mentir tão deslavadamente, tentando nos fazer de otários e querendo que enxerguemos o que sabemos, caramba, que não existe porque estamos lá, vivemos na realidade. Não somos doidos, de reclamar do que está bom. Vivem querendo nos ajustar, a nova palavra usada e tentada de um governo que já nem mais é um governo, mas vários, a ponto de dentro dele ter torcidas pró ou contra isso ou aquilo do próprio governo. Terceirização, ajuste, cortes, pedaladas. Que mais? Até Dona Marta anda esquecida dos temas que nos são mais caros, e que passam longe de um Congresso formado por seres reacionários ou interesseiros, desarticulados, quadros imberbes e insossos num momento tão importante.

Aí começam a aparecer os bravateiros. Um que tudo pode e que tudo prende. Outro que tudo acha que pode e vem com conversa de boteco, de quem brinca de braço de ferro em puteiro com imagem de São Jorge e luz vermelha na porta. O outro reticente que melhor seria fosse mesmo de trabalhar em silêncio, mas nem isso. Aquele que se faz de bobo para morder as bordas. Quem?

Quem pode pegar esse rojão? Desativar essa bomba?

Grupos de controle político agem como grupo de controle bandido. Da mesma forma que o PCC passa seus "Salve Geral" e ordens para meter o cano, impondo toques de recolher nas grandes cidades, o PT paga comandados para batucar pretinhas e abastecer perfis fantasmas; tucanos bicam e batem suas asas espalhando penas que jogam de cima dos seus muros. Surgem os messiânicos, os cara-brava, os da bala, da bola, da bela, da bula, da bílis.

Desculpem, mas eu tinha de tocar nesse assunto, porque quase virou mania: saio por aí perguntando e ainda não encontrei essa resposta, pelo menos não uma que me seja realmente convincente. Talvez eu seja exigente demais, mas já recorri até ao binóculo e não consigo ver quem.

É difícil demais ficar esperando por uma pessoa, em quem possamos depositar todas nossas fichas. E rodar a roleta. Só, por favor, nunca mais joguem Vermelho 13.

Marli Gonçalves

Governo inventa uma classe média que não saiu da pobreza


Excelente e útil pesquisa será feita pelo sociólogo Jessé Souza, novo presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), órgão subordinado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Seu objetivo é estabelecer a verdadeira dimensão da classe média no Brasil.

Para tentar resolver um problema, a primeira premissa é conhecer a realidade dos fatos.

Aqui na Tribuna da Internet, o grande jornalista Pedro do Coutto chama atenção para a disparidade dos dados da propaganda do governo (PT-base aliada) sobre o surgimento de nova classe média. Com toda razão, Coutto diz que é preciso levar em conta a real capacidade de consumo da população.

É inegável que nos últimos 12 anos houve no Brasil alguma ascensão social, ou seja, mais famílias saíram da linha da miséria e da pobreza, para ascender à classe média baixa. Se isso não tivesse ocorrido, o PT não teria ganhado as eleições. Porém, em sua propaganda, o governo usa números muito baixos não só para definir a linha que separa a miséria e a pobreza, como também para definir a linha que separa a pobreza e a classe média.

O Brasil usa uma sistemática que define a família padrão como tendo quatro membros (pai, mãe e dois filhos). A linha de pobreza é definida quando a família tem renda equivalente a três cestas básicas por mês, o equivalente a R$ 1.136,58. Ou seja, a família padrão, ganhando menos que R$ 1.136,58 por mês, está na miséria, e recebendo mais, está na pobreza.

Já a linha de classe média é definida pelo governo em duas vezes o limite da miséria/pobreza, com renda mensal de R$ 2.273,16. Portanto, a família padrão, ganhando menos que R$ 2.273,16 por mês, estaria na pobreza, e ganhando mais, chegaria à classe média.

Vemos que são números tipo mínimo minimorum, que mascaram uma realidade perversa. Para haver justiça social e distribuição de renda, é preciso que haja pouca diferença entre os menores salários e os maiores.

Neste ponto, temos de concordar com o comentarista José Gulherme Schossland, quando afirma que o ideal seria haver uma remuneração máxima igual ou menor que 10 vezes a remuneração mínima. Aí, sim, teríamos uma verdadeira sociedade de classe média.

Pré-sal: a transformação que não ocorreu

Em meados da década passada uma euforia tomou conta do governo, a partir da confirmação da existência de grandes reservas de petróleo no chamado pré-sal. Este foi um grande feito técnico da Petrobrás, que se firmou como líder da exploração em águas profundas e fonte de legítimo orgulho por parte da engenharia da empresa e de todos nós.

É preciso lembrar que este evento foi contemporâneo ao auge do super ciclo de commodities, puxado pela China, que implicou ganho extraordinário de renda para o País, recriando nas autoridades o sonho do Brasil grande. A megalomania tomou conta do pedaço e tornou-se fatal, como sabemos bem nos dias de hoje. O pré-sal acabou sendo caso clássico de um bônus que se transformou em grande dor de cabeça para o País, especialmente porque virou também o elemento mais importante para o sonho de perpetuação do partido no poder, hoje totalmente revelado pela Operação Lava Jato.

Na verdade, o programa de exploração do pré-sal já nasceu comprometido pela excessiva ambição. Ele buscava, ao mesmo tempo:

- Produzir muito óleo e gás, muito rapidamente, com a melhor tecnologia disponível, numa geologia difícil e pouco conhecida e a um custo razoável, tudo ao mesmo tempo.

-Usar a exploração da nova área para dar um salto na produção industrial, por meio da utilização da obrigatoriedade do conteúdo nacional. O caso da construção naval é o auge do exemplo da ousadia: quando as primeiras encomendas foram feitas, as empresas tinham apenas terrenos e nenhuma experiência na área. A probabilidade de baixa produtividade e má qualidade na construção, além de elevados custos, era muito alta.

- Garantir a predominância da Petrobrás e de um alto "take" governamental, obrigando a companhia a deter pelo menos 30% de cada campo e de ser a principal operadora.

Como se tudo isso não fosse suficiente, o governo ainda usou a Petrobrás para (tentar) controlar os preços. Isso custou a bagatela de mais de R$ 60 bilhões de geração de caixa da companhia, reduzindo sua capacidade de investimento. Este excesso de objetivos, vários deles evidentemente conflitantes entre si, tornou impossível um resultado bem sucedido, como de fato foi o caso.

Mas isto ainda não foi tudo. Vários fatores adicionais estiveram em jogo, a saber:

- A companhia não tinha recursos de gestão para tocar tudo a que se propunha. Lembremo-nos que, além do pré-sal, a Petrobrás está em todas as áreas: da distribuição de gás encanado à produção de fertilizantes, passando por etanol, biodiesel, gasodutos etc. Simplesmente não havia capital humano para todo esse esforço. Um exemplo relevante ocorreu durante a gestão Gabrielli: a qualidade da manutenção das plataformas na Bacia de Campos despencou, o que obrigou Graça Foster a montar, no início de sua gestão, um programa de recuperação da produtividade dos campos. A queda na produtividade foi o que impediu a elevação da produção nacional de petróleo por algum tempo, pois a nova produção do pré-sal não conseguiu compensar a queda nos campos antigos.

- O populismo do ex-presidente Lula na definição das novas refinarias foi outro quesito relevante. As refinarias Premium 1 e 2, do Ceará e do Maranhão, custaram apenas em estudos quase R$ 3 bilhões, que foram baixados do patrimônio da empresa. As peripécias protagonizadas pelo senhor Chávez na refinaria Abreu e Lima resultaram num ativo com uma concepção de engenharia esdrúxula de refino (pensado para processar óleo venezuelano e da Bacia de Campos), em constantes alterações de projeto e num custo enorme. Em média, as refinarias construídas em meados da década passada custavam U$ 30 mil por barril de capacidade de refino. Abreu e Lima está perto de U$ 90 mil por barril e ainda não está pronta. É claro que a corrupção sistêmica também explica parte deste resultado. O complexo petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) é a quarta perna do desastre das refinarias. Um dia valerá a pena contar como um criativo projeto petroquímico a partir do refino do óleo pesado da Bacia de Campos, proposto por Paulo Cunha, do Grupo Ultra, com custo de algumas centenas de milhões de dólares, transformou-se no elefante branco de hoje - que teve R$ 21,8 bilhões baixados do balanço de 2014.

- A corrupção sistêmica na empresa, como sabemos hoje, custou muito dinheiro e já é o maior caso mundial dos tempos contemporâneos, um verdadeiro recorde. Afora o custo financeiro, a corrupção sistêmica destrói a eficiência de qualquer companhia.

Finalmente, a ambição do programa de investimentos e o controle de preços de combustíveis obrigaram a Petrobrás a se endividar pesadamente. Como a empresa continuou distribuindo dividendos, sua dívida (quase toda em dólares) é hoje a maior do mundo. Há muitos anos Adriano Pires escreve que essa rota era claramente insustentável.

A queda no preço do petróleo para a faixa de U$ 50 e a Lava Jato foram o golpe de morte no sonho do Brasil grande. A crise dos dias de hoje tem nos eventos da queda da Petrobrás e a derrocada de sua cadeia produtiva no seu centro.

A publicação do balanço de 2014 da empresa é um passo muito importante para o início do resgate da companhia e do segmento de óleo e gás. Construir uma versão segundo a qual a corrupção foi um evento provocado por meia dúzia de pessoas e que uma página foi virada é um engano que vai custar muito caro. O que vem adiante é necessariamente um ajuste defensivo para a Petrobrás, uma vez que, com o novo balanço, o grau de alavancagem da empresa ficará elevadíssimo e terá de ser reduzido nos próximos anos.

Serão necessários a redução no programa de investimentos, a venda de vários ativos, cortes variados de despesas e uma política de preços de combustíveis que não traga mais qualquer tipo de congelamento. Ao mesmo tempo, é preciso que o fluxo de pagamentos para os fornecedores seja minimamente retomado, já que há meses muitos projetos não têm suas despesas pagas pela companhia. Além disso, o número de fornecedores que já pediram ou irão pedir recuperação judicial é significativo.

O setor de petróleo seguirá sendo muito importante para o País. Ficará longe, entretanto, de ser o puxador de crescimento que se imaginou. Não deixa de ser uma boa notícia para o Brasil.

O dia da liberdade

Como alguém que vende um bom sapato acaba por se estabelecer, o editor que vende uma boa notícia avança na preferência dos leitores.
Embora os recursos digitais permitam a qualquer um se comunicar com o mundo, e isso é espetacularmente fantástico, as versões fraudadas se inflacionaram, se sofisticaram, passaram a ser “negócio”, pressionadas pelo interesse econômico e político. Os partidos se renderam. Ao mesmo tempo em que denunciam as mazelas dos outros, aumentam a dose caseira.
No meio desse clima, a imprensa independente é vista como uma ameaça. Incomoda a quem governa e abusa. O poder político que tenta desqualificar a boa mídia é uma praga. Desloca verbas que deveria aplicar impessoalmente para quem faz seus interesses. Tenta-se, assim, asfixiar a informação correta.
Há muita coisa que os arqueólogos encontrarão nos episódios atuais e que imporão reescrever a história desta época.
Aparecerá entre os entulhos como a liberdade de imprensa custou caro. E como nossos jornais sobreviveram pelo apoio de seus leitores num pacto de confiabilidade, seu maior patrimônio.
Vittorio Medioli

Desvendar a trama

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Eu preferiria não voltar ao tema arquibatido das crises que nos alcançaram. Mas é difícil. Vira e mexe, elas atingem o bolso e a alma das pessoas. Na última semana o início de recessão repercutiu fortemente sobre a taxa de desemprego. Considerando apenas as seis principais metrópoles, ela atingiu 6,2%, a maior taxa desde 2001. A Petrobras, ao tentar virar uma página de sua história recente, pôs em evidência que o “propinoduto”, enorme (R$ 6 bilhões), é incomparavelmente menor do que o “asnoduto”, dos projetos megalômanos e malfeitos: R$ 40 bilhões. São cifras casadas, pois quanto piores ou mais incompletos os projetos de obras, mais fácil se torna aumentar seu custo e desviar o dinheiro para fins pessoais ou partidários.

O setor elétrico foi vítima de males semelhantes (só à Petrobras as “pedaladas” da Eletrobrás custaram R$ 4,5 bilhões) e não é o único no qual os desmandos vêm se tornando públicos. Se algum dia se abrirem as contas da Caixa Econômica, vai-se ver que o FGTS dos trabalhadores deu funding para uma instituição bancária pública fazer empréstimos de salvamento a empreendimentos privados quebrados. No caso do BNDES, a despeito da competência de seus funcionários, emprestou-se muito dinheiro a empresas de solvabilidade discutível, também com recursos do FAT, ou seja, dos trabalhadores (ou dos contribuintes), oriundos do Tesouro.

No afã de “acelerar o crescimento” usando o governo como principal incentivo, as contas públicas passaram a sofrer déficits crescentes. Pior, dada a conjuntura internacional negativa e o pouco avanço da produtividade nacional, também as contas externas apresentam índices negativos preocupantes quando comparados com o PIB brasileiro (cerca de 4%, com viés de alta). Pressionado pelas circunstâncias, o governo atual teve que entregar o comando econômico a quem pensa diferente dos festejados (pelos círculos petistas e adjacentes) autores da “nova matriz econômica”. Esta teria descoberto a fórmula mágica da prosperidade: mais crédito e mais consumo. O investimento, ora, é consequência do consumo... Sem que se precisasse prestar atenção às condições de credibilidade das políticas econômicas.

As consequências estão à vista: chegou a hora de apertar os cintos. Como qualquer governo responsável — antes se diria, erroneamente, neoliberal —, o atual começou a cortar despesas e restringir o crédito. Há menos recursos para empréstimos, mais obras paradas, maior desemprego, e assim vamos numa espiral de agruras, fruto da correção dos desacertos do passado recente. Para datar: esta espiral de enganos começou a partir dos dois últimos anos do governo Lula. Agora, na hora de a onça beber água, embora sem reconhecer os desatinos, volta-se ao bom senso. Mas, cuidado, é preciso que haja senso.

Ajuste fiscal, às secas, sem confiança no governo, sem horizontes de crescimento e, pois, com baixo investimento, é como operação sem anestesia. Pior: política econômica requer dosagem, e nem sempre os bons técnicos avaliam bem a saúde geral do país. Também o cavalo do inglês aprendeu a não comer; só que morreu.

Não quero ser pessimista. Mas o que mais falta faz neste momento é liderança. Gente em quem a gente creia, que não só aponte os caminhos de saída, mas comece a percorrê-los. Não estou insinuando que sem impeachment não há solução. Nem dizendo o contrário, que impeachment é golpe. Estou apenas alertando que as lideranças brasileiras (e escrevo assim no plural) precisam se dar conta de que desta vez os desarranjos (não só no plano econômico, mas no político também) foram longe demais.

Reerguer o país requer primeiro passar a limpo os erros. Não haverá milagre econômico sem transformação política. Esta começa pelo aprofundamento da operação Lava-Jato, para deixar claro por que o país chegou onde chegou. Não dispensa, contudo, profundas reformas políticas.

Não foram os funcionários da Petrobras os responsáveis pela roubalheira (embora alguns nela estivessem implicados). Nenhuma diretoria se mantém sem o beneplácito dos governos, nem muito menos o dinheirão todo que escapou pelo ralo foi apropriado apenas por indivíduos. Houve mais do que apadrinhamento político, construiu-se uma rede de corrupção para sustentar o poder e seus agentes (pessoas e partidos).

Não adianta a presidente dizer que tudo agora está no lugar certo na Petrobras. É preciso avançar nas investigações, mostrar a trama política corrupta e incompetente. Não foi só a Petrobras que foi roubada, o país foi iludido com sonhos de grandeza nacional enquanto a roubalheira corria solta na principal companhia estatal do país.

Quase tudo o que foi feito nos últimos quatro mandatos foi anunciado como o “nunca antes feito neste país”. É verdade, nunca mesmo se errou tanto em nome do desenvolvimento nacional nem jamais se roubou tanto sob a proteção desse manto encantado. Embora os diretores da Petrobras diretamente envolvidos na roubalheira devam ser penalizados, não foram eles os responsáveis maiores.

Quem enganou o Brasil foi o lulopetismo. Lula mesmo encharcou as mãos de petróleo como arauto da falsa autossuficiência. E agora, José? Não há culpabilidade política? Vai-se apelar aos “exércitos do MST” para encobrir a verdade?

É por isso que tenho dito que impeachment é uma medida prevista pela Constituição, pela qual não há que torcer, nem distorcer: havendo culpabilidade, que se puna. Mas a raiz dos desmandos foi plantada antes da eleição da atual presidente. Vem do governo de seu antecessor e padrinho político. O que já se sabe sobre o petrolão é suficientemente grave para que a sociedade repudie as forças e lideranças políticas que teceram a trama da qual o escândalo faz parte. Mas é preciso que a Justiça não se detenha antes que tudo seja posto às claras. Só assim será possível resgatar os nossos mais genuínos sentimentos de confiança no Brasil e no seu futuro.