segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Minha aldeia


Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
-
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desempara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
António Gedeão (1906-1997)



Desaparecido


Muito barulho para esconder a mesma sujeira



O que é bom a gente mostra. O que é ruim a gente esconde
Rubens Ricúpero, ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, em 1994 antes do início de uma entrevista captada por antenas parabólicas  


É com a máxima presteza que Dilma vai de um extremo a outro sem a mínima vergonha, talvez esquecida do que diz antes. Foi capaz de condenar o atentado em Paris - "Barbárie!" - esquecida que ocupou o parlatório da ONU, em Nova Iorque, diante da Assembleia Geral, para defender negociações com o Estado Islâmico, exterminador de gente em chacinas.

Agora, com amplo destaque na mídia, para uso interno, advogou as súplicas ao governo indonésio para a clemência ao brasileiro instrutor de asa delta, que traficou drogas para aquele país, onde o tráfico é condenado com a morte.

A presidente foi ao cúmulo de se dizer "consternada e indignada" com a execução. Deu uma de santinha, sabendo que o caso era perdido, porque Joko Widodo, presidente indonésio, também queria tirar casquinha da execução para dar ibope em casa. Ou seja, um brasileiro que vivo ou morto daria apenas pontos para os governantes, independente do crime que cometeu. Apenas mais um caso usado e abusado pelos governos, que não têm consideração por ninguém fora do grupo.

Aqui houve mais um gesto de cretinice dos "revoltados" com a execução, não admitida felizmente no país. Confundem respeito às leis soberanas de um país, no caso islâmico, apontam-nas como barbárie, mas esquecem que nos Estados Unidos a pena de morte também existe. Seríamos tão clementes com um brasileiro condenado por lá? Achincalharíamos os States? Ou a China?

Num momento de falta de manchete, a execução ganhou a mídia e as redes sociais, exageradamente. Se condenou a Indonésia, por vezes até esculhambada, e se apelou em massa para a liberação do condenado, muito mais do que se falou nas chacinas de Pedrinhas. A cobertura jornalística chegou às raias do apelativo, quando as prisões brasileiras não são diferentes das de lá. O privilégio, o tráfico, o uso indiscriminado de celulares, smartphone, iPad, estão nas cadeias de lá como nas daqui. Portanto não seremos assim tão superiores, nem muito tão civilizados, em relação aos indonésios. A sujeira penitenciária é igual. A diferença é a pena, porque lá se mata e aqui se deixa sair pela porta da frente.

Pedimos a clemência de um condenado no exterior, mas esquecemos de com a mesma força criticar penas de menos de um ano de prisão os políticos corruptos, por terem trabalhado e estudado na prisão; deixamos encarcerados por anos sem estudo e trabalho os pobres ladrões de galinha, até mesmo inocentes. Mas esses não merecem clemência, porque não dão voto nem contribuem para a imagem civilizada da presidente, que abriga em seu ministério gente com prontuário na Justiça ou procura esconder a corrupção generalizada.

A pena de morte não exterminará o tráfico e é mesmo condenável, mas não se pode aproveitar a execução de Marco Archer para se esconder as mazelas brasileiras em relação ao tráfico, que aqui encontrou um paraíso, até propiciado por falta de ações governamentais, às prisões abarrotadas onde tudo se comercializa, à corrupção de baixo a alto escalão.

Se a Indonésia executou um brasileiro, aqui se condenam e executam brasileiros por minuto sem que haja tanto movimento por clemência dessas vítimas. Criticar tanto o rabo dos outros é feio, quando o nosso está emporcalhado, talvez mais do que achamos.

A trincheira

No momento de barbárie, vejo como a ideia da liberdade individual, livre de doutrinas políticas ou religiosas, é uma trincheira a se defender com todos os riscos. Embora os riscos não sejam tão altos aqui nos trópicos
Fernando Gabeira

O mundo vai acabar



O mundo passou dos mil, mas não passa dos 2 mil!

Ouvi isso aos 11 anos.

Não se falava em Antropoceno e aquecimento global. Éramos etnocêntricos e eu temi menos o fim do mundo apocalipse do que a minha idade no apocalipse. Com 62 anos, eu seria mais velho que papai!

Mas o futebol e o amor, fizeram-me esquecer o fim do mundo. Ele retorna novamente com o aquecimento global e a crise do capitalismo consumista. É imperioso descobrir o suficiente e direcionar ambições.

Não há lógica no roubo de bilhões feito nas encruzilhadas entre Estado e sociedade porque quem paga a conta é o Brasil. Afora isso, sei que o mundo vai acabar.

No século passado pensava-se em limites. Hoje, eu prefiro falar do meu passado (o qual, penso, conheço razoavelmente) do que do futuro do País o qual se já não se f..., a Deus pertence, como dizia minha avó.

Entrei no mundo por meio do futebol e no universo da individualidade quando descobri o sexo. Falava do meu time sem nenhuma delação premiada; mas o sexo era tão obscuro como a corrupção que assola o País.

- O que é sutiã?

Para achar a resposta, começamos a ver a empregada tomar banho. Vestir o sutiã sinalizava o fim do espetáculo e tivemos uma resposta. Mas a travessura vazou e a porta foi trocada. Acabaram com o show da empregada, mas começamos a espiar a mulher do vizinho, que mudava de roupa sem fechar a janela.

Entre o cinema e as histórias em quadrinho, vivíamos o sexo indo ao banheiro com uma revista debaixo do braço. Tal como hoje defecamos lendo a notícia malcheirosa de um Brasil que como aquele bloco do carnaval de João Ternura, de Aníbal Machado, dá um passo pra frente e três pra trás.

O banheiro era o único lugar da solidão. Nele surgia o cidadão moderno livre, totalmente inexistente debaixo da supervisão familística porque, "menino não tem vontade"; e Deus - onipresente - nos via em todo lugar, sobretudo no banheiro.

Éramos entidades infra-humanas: "meninos". O mundo tinha "gente grande" e "crianças". Fui muitas vezes expulso da varanda porque "a conversa não era para criança!". Como "meninos", não éramos filhos e netos mas "diabos" e "cornetas". Quando lembravam da travessura de espiar a empregada - virávamos patifes!

O mundo tinha pobres e ricos; brasileiros e estrangeiros (ingleses beberrões que gostavam de clubes). A oposição entre brancos e negros que viviam na casa, mas não eram parte da família, era tabu. Ninguém deveria ser assim chamado numa óbvia sobrevivência de uma escravidão embargada.

Os grandes eram, além de adultos, misteriosamente homens e mulheres. Como soubemos? Todos eram obrigados a comer numa mesma mesa, mas a dormir em camas separadas. Entretanto, pai e mãe e até mesmo vovó e o "velho Raul" dormiam em camas de casal. Por que a comunhão na mesa e nas camas dos casais, as quais correspondiam a quartos separados e com chave enquanto todos nós, "meninos" dormíamos sozinhos?

Pensei muito sobre a cama e a mesa quando morreu uma colega, a professora nos obrigou a ir ao velório e, pela primeira vez, vi a máscara de cera dos mortos no corpo da menina que jazia em cima da mesa, na sala de jantar.

A mesa era uma cama de pés altos onde os mortos não acordavam. A cama, era uma mesa de pés baixos na qual os vivos amavam, dormiam, o sonhavam e experimentavam um arremedo da morte. Estudava-se e comia-se na mesa. Nela eu vi minha mãe fazendo um copo girar, em volta de um alfabeto, formando mensagens enviadas pelo espírito de um tio morto. Mensagens que, logo descobri, eram desejos de minha mãe.

Os "grandes" tinham sexo. Nas casas com animais de estimação, a divisão surgia mais nitidamente. Num lar de amazonenses que queriam falar de tudo, menos de índios, selva e bichos, a identidade de gênero era encoberta pela de idade. E um dia, um de nós quis saber o que era uma mulher.

- Elas sangram mensalmente e usam Modess, disse alguém.

- E os homens usam Midess jurou um outro que "passava a mão" na prima e, como especialista, sabia que elas não tinham nada entre as pernas, exceto um vale ondulado e escorregadio como uma geleia.

Esses eram tempos em não havia limite para quem estava no poder. Hoje, evoluídos e cientes do fim do mundo, temos múltiplas escolhas. A liberdade e os direitos criaram a consciência do palco e dos privilégios e deveres dos papéis. Quando eu era juvenil, a paixão estava na política que dominava até mesmo o nosso erotismo. Do mundo de hoje, eu nada sei. Penso que ainda existe amor e paixão e muita insegurança e confusão. E se isso existe, então há esperança.

Roberto Damatta

domingo, 18 de janeiro de 2015

O soco inoportuno do papa Francisco


Rir de nós e dos nossos deuses é a melhor forma de aceitar que não somos nem patrões nem escravos
Francisco, o papa carismático, é um amante do futebol. Tem até um time do coração. Entretanto, no momento em que a notícia do mundo estava ancorada na tragédia perpetrada contra os jornalistas do semanário humorístico francês Charlie Hebdo, ele acabou marcando um gol contra.

A cena percorreu o mundo. No avião que o conduzia às Filipinas, o terceiro país com maior número de católicos do mundo, ele comentava com os jornalistas a bordo o sangrento atentado contra a liberdade de expressão que gelou a alma de milhões de democratas do mundo, quando deu um escorregão.

É verdade que foi taxativo ao afirmar: “Matar em nome de Deus é uma aberração”. E fez bem em salientar que tanto a liberdade de expressão como a liberdade religiosa “são direitos humanos fundamentais”. Direitos que a Igreja Católica não só às vezes se esqueceu de protagonizar como também condenou a morte os que não pensavam como ela.

Francisco, um dos papas que mais recorrem aos textos do Evangelho para inspirar seu carismático pontificado em favor dos pobres e da paz, teve um lapso de memória ao comentar com um jornalista que se alguém insultar a sua mãe você “pode esperar um soco”. O Evangelho condena o antigo “olho por olho, dente por dente”.

O papa não estava falando ex-catedra, nem numa encíclica. Foi uma confidência em linguagem popular, num clima descontraído, sem maiores pretensões teológicas. Entretanto, aquele “soco” na boca de um papa, e de um papa pacifista como Francisco e naquele momento, chocou os amantes da liberdade.

Foi um gol contra inoportuno porque, ao propor a violência como resposta a uma hipotética ofensa, seja contra a sua mãe ou a sua religião, no momento de tensão e de violência terrorista que atemoriza o planeta, é impossível não interpretar suas palavras como algum tipo de justificativa para a violência perpetrada pelos terroristas islâmicos contra os jornalistas do Charlie Hebdo.

Nenhum homem religioso ou ateu que respeite o valor sagrado que é a liberdade de expressão, tanto quanto o direito à vida, pode admitir que a sátira, por mais dura que seja contra qualquer instituição de poder – e é isso que as religiões são –, seja silenciada com as armas.

Tem razão o papa quando adverte que liberdade de expressão não significa liberdade de insulto ou calúnia. Nesses casos, entretanto, devem atuar os tribunais de justiça. Ninguém tem o direito de tomar a justiça nas próprias mãos. A liberdade de expressão, como bem salientou Antonio Caño, diretor deste jornal, não aceita perguntas nem restrições, que é como dizer que é sagrada.

A única distinção possível é que uma coisa é fazer humor sobre uma religião, qualquer que seja, e outra contra as pessoas concretas. Ninguém aceitaria que se fizesse chacota dos muçulmanos, a grande maioria pacíficos, ou dos cristãos, budistas ou judeus. As pessoas são sagradas como o seu direito de viver. Os símbolos, mitos ou deuses podem ser objeto de sátira. Do contrário, teríamos que admitir que Deus não sabe rir.

Leia mais o artigo de Juan Arias

Terror na rede


A 'despalavra' do ano na Alemanha

Manifestante exibe cartaz com a palavra
 Lügenpresse, conceito já utilizado pelos nazistas 
Lügenpresse – "imprensa da mentira" – foi escolhida a "despalavra do ano" de 2014 na Alemanha, anunciou nesta terça-feira, em Darmstadt, o júri liderado pela linguista Nina Janich.

"Uma condenação generalizada como essa impede a crítica midiática fundamentada e colabora assim para pôr em risco a liberdade de imprensa, tão importante para a democracia", afirmaram os jurados.

Segundo eles, "é impossível não perceber a grave ameaça" à liberdade de imprensa apresentada pelo extremismo, "principalmente nos dias atuais". Eles lembram que esse slogan já era usado pelos nazistas para difamar de forma indiscriminada a imprensa independente.

Nos dias atuais, Lügenpresse é usada principalmente em manifestações do grupo Pegida (sigla em alemão para "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente"). Por trás desse uso há motivações de extrema direita, algo de que nem todos os seguidores do Pegida estão conscientes, disse Janich. É justamente isso que torna o conceito "um meio especialmente pérfido para aqueles que o usam de forma deliberada".

Políticos e profissionais da imprensa elogiaram a escolha. "É a decisão correta, na hora certa", afirmou a deputada Tabea Rössner, do Partido Verde. Para o jornalista Heribert Prantl, do jornal Süddeutsche Zeitung, trata-se de um conceito que "não estimula ao debate nem à crítica, mas lhes dá um golpe mortal".

Leia 

O Brasil dos excessos


O que acontece com um balão de borracha se, depois de enchê-lo, a pessoa continuar soprando e soprando? Vai estourar, é claro... Pois é. Assim estamos vivendo nós, brasileiros. Sabemos que o balão vai estourar, mas continuamos soprando. Ainda assim, vamos nos assustar com o estouro desse balão, principalmente quem não está prestando atenção. Tudo tem uma medida certa – os balões, os sacos, a vida...

É sempre assim: tudo o que existe demais acaba sobrando. E nosso povo está convivendo com muitos excessos: excessos de leis, de deputados, de partidos políticos, de falta de vergonha e de respeito, de senadores, de ministérios, de juízes que não judicam ou que pouco produzem por excesso de recursos processuais, por excesso de preguiça também, leis benevolentes que condenam, mas não prendem ladrões e, principalmente, terroristas... E, continuando assim, chegaremos vivos ao inferno. Por que só agora estamos começando a notar essas coisas? Será por excesso de fé em Deus? Boa saída para os irresponsáveis ou preguiçosos de má-fé... Então: esse balão vai estourar porque o Brasil é assim, desse jeito? Não, nós não somos assim.

Estamos assim por desleixo. Precisamos de líderes do bem. Sim, porque de líderes do mal o mundo está cheio. Por aqui é Sarney, Renan, ex-Luiz, (cadê o homem, gente), Jucá, Barbalho, Vicentinho (quem? Vicentinho, pô), Berzoini, Tarso Genro, Maluf, Dirceu, Palocci. Ia me esquecendo de Genoino... muitos desses não estão presos? Estão nada. Estão mais soltos que o terrorista italiano Battisti, aquele, sabe?

Eu acho que estou ou sou pessimista. Será? Pode até ser, mas penso em achar jeito para pelo menos ajudar, sugerindo. Assim: diminuir o número de deputados federais, uns 150; estaduais, de 15 a 30, conforme o Estado. Vereadores, no máximo 15, assim mesmo só nas capitais. Construir cadeias, muitas cadeias; acabar com essa discriminação da política de cotas. Educação, saúde e segurança como políticas de Estado e de responsabilidade da União, Estados e municípios.

Proibir emancipação de distritos municipais por pelo menos dez anos. Proibir gastos com propagandas oficiais, permitidos publicação apenas de editais e avisos, justificada a necessidade. Considerar sempre o tempo de serviço do funcionalismo efetivo para efeito de remuneração.

Efetivar todos os funcionários contratados com mais de 20 anos de serviço. Proibir novas contratações. Novas nomeações só para cargos comissionados que não poderão passar do prazo do mandato do presidente da República, que deverá ser de cinco ou seis anos, sem reeleição, fonte inesgotável de corrupção. Nada mais que dois ou três mandatos no Legislativo. Reformar o Código Tributário. Transformar os Tribunais de Contas em Câmaras de Contas dos Tribunais de Justiça, providas por desembargadores. Como está é brincar de fazer de conta... E tudo isso rápido, já que o tempo urge e também ruge...

Je suis 'demagogô'


Marqueteiro do Papa deve ter feito o cálculo certeiro: nada mais progressista do que um líder católico defendendo o Islamismo
Depois que Dilma Rousseff tomou posse defendendo a Petrobras, qualquer piada está liberada — inclusive as que envolvem Maomé. Os facínoras do Estado Islâmico e da al-Qaeda não têm ideia do nível de escárnio a que os brasileiros estão submetidos cotidianamente. O PT monta o maior sistema de pilhagem já visto na República e a presidente conclama o país a um pacto contra a corrupção. Entenderam o que é achincalhe, queridos sanguinários de Alá?

A sorte dos picaretas do Ocidente e do Oriente é que a opinião pública continua dormindo seu sono das mil e uma noites. Para se ter uma ideia, o mundo culto está discutindo há mais de uma semana a legitimidade de um massacre. Isto é em si uma piada — mas não ria, porque vão te acusar de sacrilégio. O pensamento morreu. Você não vale mais o quanto pensa, vale a bandeira que levanta. Então, não perca tempo: repita também, como um brado no Ipiranga, que o Islã é legal e matar os outros não é legal. Pronto, você está no altar do jardim de infância global.

Daqui para frente, o mundo terá que ser legendado, para facilitar a compreensão. Chico Caruso já deu a senha no GLOBO: uma charge de Maomé com as inscrições “este não é Maomé” e “isto é um desenho de humor”. Perde um pouco a graça, porque os heroicos defensores de Charlie, do Islamismo, do humanismo e do bom-mocismo ficam sem bateria para esgrimir seu óbvio fulgurante. Mas reduz a ameaça — dos terroristas e, principalmente, dos pernósticos.

Talvez uma das figuras mais representativas deste momento esquisito seja o Papa Francisco. Sua Santidade tem provavelmente uma espécie de João Santana ao pé do ouvido, para soprar-lhe as últimas tendências do mercado. Foi assim que o líder máximo da Igreja Católica mergulhou na causa gay. Vamos tentar legendar. A defesa dos direitos dos gays não é só importante, é urgente. Trata-se de derrubar um muro de hipocrisia que faz muita gente sofrer à toa. Mas e o Papa com isso?

Bem, Francisco também pode achar que é uma causa urgente. Só que ele lidera uma Igreja cuja doutrina não aceita o homossexualismo. Não aceita nem a camisinha! No Catolicismo, o sexo tem que ter fins reprodutivos. Quando a Igreja Católica aceitará uma família gay, com dois pais ou duas mães? Talvez semana que vem — desde que ela destrua alguns de seus pilares e erga outros em seus lugares, ou seja, que refunde a si mesma. Só que, em geral, isso não é uma questão de dias, mas de séculos. Ou seja, o Papa bonzinho está jogando para a arquibancada.

Mas a plateia ama. Lembra até um pouco Lula, o Papa brasileiro, quando assumiu o governo mantendo as diretrizes econômicas do antecessor (porque não é bobo) e gritando contra os juros altos. Inaugurou o primeiro governo de oposição da História, e não saiu mais de lá.

Depois do atentado em Paris, a reunião no departamento de marketing do Vaticano deve ter fervido. Francisco tinha ali várias causas bondosas para escolher. Demorou um pouco, mas saiu a decisão: o Papa defendeu o Islã contra as ofensas dos chargistas franceses — uma posição candidamente desastrosa. O marqueteiro de Francisco deve ter feito o cálculo certeiro: nada mais surpreendente, exótico e progressista do que um líder católico defendendo o Islamismo. E ainda soltou a pérola: “Liberdade de expressão tem limite”.

Não, Francisco. Não tem. Seria como declarar que democracia tem limite. O que deve ser limitado — e já é, pela lei — é a expressão criminosa ou lesiva, não a liberdade. Está vendo como é dura a vida do populista? Esse negócio de ficar levantando bandeiras não é fácil, a gente acaba se atrapalhando mesmo.

Nesse aspecto, o PT é muito mais profissional. Eles não inventam. São os heróis da resistência contra a ditadura e a direita, e fim de papo. Essa tecla única já lhes rendeu 12 anos de paraíso parasitário. Depois de avançar no Banco do Brasil e compor a obra-prima do mensalão (que, incrivelmente, não os tirou do poder), depenaram a Petrobras sem perder o rebolado: a culpa é da oposição neoliberal que quer privatizar o que é nosso. Contando, ninguém acredita. Nem com legenda.

Leia mais o artigo de Guilherme Fiuza

sábado, 17 de janeiro de 2015

O melhor é duvidar sempre, mas não se surpreender com nada

Depois de três semanas de ausência, tento compor estas linhas com o firme propósito de continuar a ser sincero e, agora, com o firmíssimo propósito de não permitir que nelas transpareça, neste início de 2015, a superdose de amargura que me coube (e coube a você também, leitor), em razão, sobretudo, do que de desastroso acontece em nosso país hoje. A tarefa, sei bem, não será fácil, mas há compensação: não somos exceção no planeta, incluímo-nos na regra geral. Só que essa constatação não nos vale para nada… Reinventemo-nos, pois!

Você merece, antes de tudo, os votos (atrasados) de muita paz no Ano-Novo. Mesmo assim, e ciente de que a esperança está em franca queda livre, convido-o a integrar o grupo dos guerreiros que vivem e morrem em nome dessa miragem sempre à mão: “Sem ela, não vivemos, murchamos”, disse Lia Luft, em sua primeira crônica deste ano. A tarefa é desumana, mas a esperança nunca morre, não é mesmo?

Sugiro-lhe, porém, acondicionar, em seu novo alforje, não só durante a difícil viagem que se iniciou há poucos dias, mas “ad aeternum”, o dever do exercício diário da dúvida. Repitamos, então, à exaustão, este mantra: “Duvido de tudo, mas nada me surpreende”. Com certeza, com essa precaução, daqui pra frente, como diz a canção, tudo será diferente, embora sejamos, nesse grande circo, o triste palhaço.

Por outro lado, não insistamos, por favor, no equívoco de achar, como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé, que “crer na evolução moral do homem é ignorância ou simples vaidade”; nem alimentemos a ilusão de considerar, como dizem os santos e espiritualistas, que o homem, por ser criatura de Deus, só pode ser bom. Sejamos prudentes.

Ou será que Pondé está mesmo certo ao afirmar que, “em termos morais e políticos, podemos voltar a qualquer instante à Idade da Pedra, ou pior? Dentro de cada um de nós – conclui ele – vive um neandertal (sem querer ofender seus descendentes, claro)”.

Nossa conversa pode se prolongar até o fim deste ano ou, talvez, até o fim de mais outro, de mais outro, de mais outro… Se isso o angustia, a mim angustia muito mais. Comecemos o ano, então, com esta simples pergunta: será que a presidente Dilma se sente tão apreensiva quanto nós? Ou o poder lhe ofuscou a visão de tal sorte que já não é mais capaz de enxergar um milímetro além do seu umbigo?

Não era intento meu falar sobre nossa presidente, mas sua figura, tanto no primeiro quanto agora, no segundo mandato, ainda que vista de longe, é a mesma: desperta não só em mim, mas em milhões de brasileiros, muitas dúvidas e aflições. Como, pois, distanciar-me de um assunto do qual depende, para o bem ou para o mal, o destino de mais de 200 milhões de humanos? Você conseguiria?

A Petrobras, de cujo Conselho Dilma foi presidente (após ter sido ministra de Minas e Energia), criou empresas de papel, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União, para construir um gasoduto na Bahia. Lula e Dilma, em 2010, inauguraram a obra às vésperas da eleição que a elegeu. Mas não é só isso: a auditoria do TCU identificou, na execução da obra, um superfaturamento de 1.800%!

Nada melhor, para definir o momento por que passa o país, do que relembrar alguns versos de um poema de Pablo Neruda, em seu “Canto Geral”: “Por fim, levaram ao Congresso a Lei suprema, a famosa, a respeitada, a intocável Lei da Trapaça. Foi aprovada”.

É disso que se trata: da política que virou trapaça.

Acílio Lara Resende

As adversativas



Não vejo equivalência possível entre uma piada, ainda que ruim, e uma bala na cabeça
Tenho uma fantasia que se manifesta como se fosse um esquete do Porta dos Fundos. Estádio lotado, jogo decisivo, minutos finais. O camisa 10 mata no peito na entrada da área. Dá um chapéu no primeiro beque. Mete por baixo das pernas do beque na cobertura. Toca no contrapé do goleiro, que cai sentado, pateticamente. Golaço.

Então, o camisa 10 parte para a comemoração. Aponta para baixo, bota a língua para fora, faz o sinal do demo com os indicadores e os mindinhos. Por fim, sacode o escudo com o pentagrama antes de ser soterrado pelos colegas. O técnico beija a cruz invertida que oculta sob o agasalho. Os reservas encapuzados brincam de ciranda em torno do mascote do time, um sujeito vestido de bode preto com olhos vermelhos.

Talvez mais alguém ache graça nisso, lembrando dos jogadores que intercalam “toda glória a Deus” a cada declaração banal. Talvez alguém ache de mau gosto. Talvez alguém queira meter uma bala na minha cabeça. Talvez ninguém estranhe nada. Afinal, quando as pessoas perguntam se acredito em Deus, e respondo que sou ateu, sinto que se dissesse “eu acredito em Satã, Senhor de Todos os Infernos” elas ficariam menos decepcionadas. Nesse caso, como a maioria, eu ao menos acreditaria num outro mundo.

Não acredito. Não vejo equivalência possível entre uma piada, ainda que ruim, e uma bala na cabeça. Se os jornalistas foram quase unânimes na condenação do atentado ao “Charlie Hebdo”, e nas implicações dele para a liberdade de expressão, base de todas as outras, inclusive a religiosa, também choveram adversativas relativistas. Sinal de que, pensando nos próprios credos, muitos estão dispostos a perdoar os terroristas.

“Atentados como os de Paris são condenáveis, mas uma coisa é a liberdade de expressão, outra é a mera provocação, e não se pode ridicularizar a fé alheia.” Esta frase é um pequeno frankenstein, que costurei a partir das coisas que li. Claro que também li observações argutas, como a de uma leitora deste jornal, chocada justo pela presença de “conjunções adversativas — mas, porém, contudo, entretanto, todavia etc. — antes de (...) ‘argumentos’ que, invariavelmente, pedem limites à liberdade de expressão.”

Pergunto-me se a turma do “mas” seria tão compreensiva se a redação de um jornal esportivo fosse massacrada por membros de uma torcida organizada furiosa com as gozações feitas ao seu time, algo simples assim, chão, terreno. Acho que não. Porque as adversativas indicam que, na cabeça dessa gente, é o discurso religioso que está a salvo de reparo, crítica ou sátira. Ele e o discurso do culto à personalidade. Porque, como escreveu George Orwell, “um Estado totalitário é na realidade uma teocracia”.

Leia mais o artigo de Arthur Dapieve 

Somos Atlas


Até tu, papa?

PODE
Francisco pisou na bola como qualquer perna de pau do San Lorenzo de Almagro. Preparou uma jogada de placa, mas deu um chutão para a galera.

Chico foi de uma santa infelicidade quando sugeriu que liberdade de expressão tivesse limites. Não foi capaz de lembrar a lição cristã de oferecer a outra face. Mas não que a ofensa, que é também uma forma de liberdade de expressão, tenha como resposta uma agressão física como o soco, ou uma AK-47.

Para agradar gregos e troianos, ou judeus e islâmicos, condenou o que seria um excesso dos chargistas ou humoristas, que deveriam ter medidas de até onde ir, respeitando a liberdade religiosa, que nada mais é o que outra liberdade de expressão.

O papa, nas entrelinhas, estaria censurando o riso, a brincadeira, a crítica, quiçá condenando o que é próprio do homem, portanto, vinda de Deus. Ou não somos imagem e semelhança como asseguram as Escrituras? Deus não sorriria de nossas brincadeiras? Ou seria um Carrancudo, com maiúscula? (Esqueceram da alegria e da brincadeira que tanto espalhou São Francisco de Assis, o menino alegre da Igreja dizendo verdades?)

Chico lembrou que tem que se respeitar a religião como se essa criação humana fosse sagrada acima mesmo da criação. Não são sagrados os vermes, as bactérias, os vírus, os animais, a natureza, o homem? São bem mais do que qualquer religião, expressões máximas de Deus, e, no entanto, não merecem o tratamento digno nem são condenadas com tanta veemência as agressões a elas.

O ataque ao Charlie Hebdo deixou mesmo muita cabeça tonta, porque a liberdade realmente tonteia. Tem que se condenar com rigor o terrorismo, a bandidagem, ainda mais feita em nome da religião, não se pode é ter a mesma medida condenatória à liberdade seja ela qual for, quando aí sim estaremos dando grande passo para satisfazer os falsos sérios, os falsos religiosos, os falsos de qualquer tipo.
NÃO PODE

Nossa dívida


Depois de tudo que logramos fazer, estamos deixando uma civilização do medo para nossos jovens, nossas crianças e aqueles que ainda não nasceram: o medo do aquecimento global e de todas as consequências de um clima enlouquecido; o medo do desemprego em uma economia capaz de usar tecnologias milagrosas que descartam trabalhadores, em vez de criar tempo livre para ser usado livremente; o medo da droga que corrói o cotidiano de cada dependente e sua família; o medo da crescente desigualdade mundial, revelada pelo fato de que as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm patrimônio superior a US$ 1,7 trilhões (US$ 20 bilhões per capita) equivalente à riqueza da metade da população mais pobre (3,5 bilhões de pessoas, resultando em US$ 685 per capita); a desigualdade que atinge a mais imoral de suas manifestações ao desigualar a esperança de vida conforme a renda de que a pessoa dispõe para pagar por serviços médicos; uma civilização que superou as desigualdades nobiliárquicas e construiu a desigualdade no direito de viver mais ou menos conforme a renda; sobretudo o mais visível medo, o da violência urbana crescente e do terrorismo impossível de ser controlado se não barrarmos as causas que o fabricam.
Cristovam Buarque em "Nós somos Charlie, nós estamos indignados, nós temos esperança"

Nível do mar subiu mais do que se esperava

Intervenção do Greenpeace na cúpula do clima de Cancún, em 2010

Em seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore alertava que o aquecimento global provocaria uma elevação do nível do mar de mais de 6 metros num futuro próximo, sepultando cidades à beira-mar. Foi um dos exageros mais criticados do filme do Prêmio Nobel da Paz de 2007.

Na realidade, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, que compartilhou o Nobel com Gore, calcula que o nível do mar se elevou a um ritmo de 1,7 milímetro por ano durante o século XX. Durante o século XXI, estimam, o oceano subirá, em média, entre 0,22 e 0,44 metro em relação aos níveis de 1990.

Um novo estudo argumenta agora que as cifras do IPCC para o século XX também estão “superestimadas” e é necessário “revisar” as projeções para o futuro. Seus autores, da Universidade Harvard (EUA), reajustaram os modelos matemáticos com as últimas técnicas disponíveis e calculam que o nível do mar subiu apenas 1,2 milímetro ao ano entre 1901 e 1990.

O trabalho, publicado nesta quarta-feira na revista Nature, está longe de minimizar o problema. Os pesquisadores, liderados pela física Carling Hay, alertam que a aceleração da subida do nível do mar nas últimas duas décadas é maior do que se pensava, alcançando 3 milímetros ao ano entre 1993 e 2010.

O nível do mar sobe porque a água se expande à medida que se aquece e pelo derretimento do gelo terrestre. No entanto, a elevação não é uniforme, mas depende de uma multiplicidade de padrões geográficos analisados agora em detalhe pela equipe de Harvard, que também leva em conta os registros históricos das marés e os dados de satélite. Para o climatologista Jonathan Gregory, coautor dos informes do IPCC, a nova pesquisa é “um passo útil adiante”.

Carling Hay lembra que algumas projeções para o futuro “se embasam nas reconstituições do nível do mar no passado, por isso será importante ajustar esses modelos com os novos dados”.

O IPCC calcula que o nível do mar subiu 120 metros depois do último período glaciar vivido pela Terra, há uns 21.000 anos, até estabilizar-se há uns dois milênios. Depois disso, o mar ficou calmo, até que a Revolução Industrial fez dispararem as emissões de CO2, e o nível do mar voltou a subir. Um estudo recente financiado pelo Governo espanhol concluiu que o nível do oceano no litoral espanhol aumentará entre 0,6 e 0,8 metro ao longo do século XXI se nada for feito para reduzir as emissões.

Transcrito de El Pais

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O povo não é bobo



Os que estão no governo querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia

“Sim, eu sei o que fazem os editores, eles separam o joio do trigo e publicam o joio". A frase clássica de Adlai Stevenson, político americano do Pós-Guerra, pode ser utilizada com variadas intenções. Trata-se, claro, de uma divertida crítica à qualidade da imprensa. Por aí, as verdadeiras notícias estariam na lata de lixo das redações e, lógico, a sociedade ficaria sempre mal informada.

Mesmo quando não admitem, políticos de todas as tendências concordam com Stevenson. Os que estão no governo, então, acham que a frase é perfeita e justifica medidas corretivas. Não é censura, dizem, apenas encontrar meios para melhorar a qualidade da imprensa.

Conversa. O que querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia.

Jornalistas estão o tempo todo decidindo, primeiro, o que se vai apurar, segundo, o que se vai publicar e, terceiro, como se vai apresentar a notícia.

Tudo considerado, caímos na mais antiga questão da profissão: o que é notícia? Há várias respostas clássicas produzidas por jornalistas:

— Se o cachorro morde o homem, não é notícia, se o homem morde o cachorro, é;

— Notícia é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado, o resto é propaganda;

— Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados (Millôr Fernandes);

Examinamos essas teses em coluna aqui publicada em 22/12/2011, com o título “O povo não é bobo". Também pode ser encontrada no arquivo de www.sardenberg.com.br.

A questão hoje é anterior: quem decide o que é notícia? Os patrões, os donos dos jornais, rádios, TVs e sites — diz o pessoal que quer introduzir a censura prévia, perdão, o controle social.

Sim, há veículos nos quais as redações são instruídas a publicar apenas o que os patrões consideram a notícia correta. Exemplo? Todos os veículos cujo patrão é o governo — a conhecida imprensa chapa-branca.

Somos contra a censura prévia e/ou “controle social" — o leitor já terá notado — mas se a regra for introduzida, a aplicação tem que começar pelos veículos do governo. Estes publicam um enorme joio, as versões oficiais: ninguém rouba nada, não há mensalões nem petrolão, tudo funciona e, se não funciona, é por causa da seca, do azar, do mundo, da oposição ou da imprensa do contra.

Ainda tem aí uma baita farsa. O verdadeiro patrão é o povo, que paga os impostos e assim financia a chapa-branca. Mas os políticos, governantes de plantão, usurpam o papel de patrões e controlam essa mídia no interesse dos respectivos partidos. Sim, foram eleitos, e por isso representam a população. Mas, numa democracia, não podem esquecer que tiveram o voto de parte dos eleitores, havendo, pois, uma outra parte que merece respeito — e informação não partidária.

A saída — segundo uma velha tese — é colocar os veículos do governo sob controle de um comitê com representantes dos diversos partidos, em número proporcional aos votos por eles conseguidos.

Esqueçam. Não funciona. Um veículo público assim dirigido vai noticiar não uma, mas várias versões oficiais, o joio do governo e o da oposição. Duplo desperdício de dinheiro do povo.

Há quem recomende a proibição legal: governos, federal, estaduais ou municipais, não poderiam editar veículos de informação geral — de suposta informação geral, no caso. A TV pública, por exemplo, divulgaria apenas programas educativos, cursos e informação efetivamente pública, como campanhas para combater a dengue, chamada para vacinação, previsão do tempo, instruções para agricultores e assim por diante.

Seria mais barata e mais útil.

Outros sugerem que os veículos do governo sejam, afinal, dirigidos como os da imprensa privada de qualidade — aquela cujos jornalistas são guiados por um código formal ou informal, com o objetivo de apurar e publicar o que é notícia ou opinião relevante.

Na prática, é difícil conseguir tal isenção no setor público. Além disso, se a TV pública vai fazer a mesma coisa que a TV privada faz, por que gastar dinheiro do contribuinte com a primeira?

O que retorna a questão: como garantir que os jornalistas escolham o trigo? Ou como a lei pode garantir a qualidade da imprensa?

Não pode. A lei tem que garantir a liberdade da imprensa e, sim, dos jornalistas. A qualidade — ou, a notícia de interesse, publicada de forma correta, isenta e independente —, isso depende do público, do leitor, ouvinte, telespectador e internauta.

O povo não é bobo, sabe onde buscar a informação. Olhem as audiências. É eloquente a audiência zero dos noticiários das TVs púbicas. É evidente a baixa credibilidade dos veículos que só divulgam a voz do dono, seja o governo ou a empresa privada.

O tema seguinte é: como distinguir e quem pode distinguir entre ofensa e crítica? Na próxima.

Bicas continuam a jorrar


Blasfêmia


Tem gente dizendo que cartunistas foram longe demais, o que equivale a afirmar que mereceram. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada estava pedindo

Vamos combinar que não existe nada mais ofensivo do que um tiro na cabeça. Não posso imaginar uma blasfêmia maior do que espalhar os miolos de alguém com um AK-47. Porque tem gente dizendo que os cartunistas do “Charlie Hebdo" foram longe demais, o que equivale a dizer que mereceram o que lhes aconteceu. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada geralmente estava pedindo.

“Blasfêmia” quer dizer uma afronta ao sagrado. Assim, a verdadeira discussão não é sobre o que as pessoas consideram blasfêmia, mas sobre o que consideram sagrado. A descrença em qualquer divindade é uma blasfêmia perene — ou, visto de outra forma, quem não crê em nenhum deus não pode, por definição, ser um blasfemo.

Muitas vezes o que se faz em nome de uma crença ou de uma divindade é que é blasfêmia: uma ofensa a quem acha que sagrado deve ser a vida humana, o direito de pensar livremente e o direito de descrer. Não se está falando só do islamismo radical. Já houve tempo em que não acreditar no Deus da Igreja Romana era razão suficiente para ser queimado vivo. Levava mais tempo do que um tiro de AK-47. 

Leia mais o artigo de Luis Fernando Verissimo

O limite da liberdade de expressão



Qualquer limite à liberdade de expressão é o limite da lei. O que passar disso, tenha certeza, é vigarice
Quando alguém começa a colocar aspas antes e depois de liberdade de expressão é porque alguma coisa está errada.

É alguma coisa parecida com a “democracia relativa”, engenhosa criação da mente castrense do general Ernesto Geisel - que equivale mais ou menos a uma quase gravidez, alguma coisa produzida por um descuido, uma coisa que deveria ter sido evitada, mas como não foi, acabou produzindo resultados que desmoronam os nossos edifícios de certezas e atrapalham a pureza do discurso.

Nada mais reacionário do que alguma coisa que pode ser feita, mas só pela metade, por exigência da moral, dos bons costumas e da hipocrisia politicamente correta, a grande praga comportamental desta primeira metade de século.

O caso do massacre do Charlie Hebdo conseguiu produzir uma verdadeira teratologia de opiniões, mais chocante do que o traço irreverente que algumas das piadas pecaminosas dos gênios metralhados pelo fundamentalismo islâmico.

Mas eles abusaram…É sempre assim que começa a relativização dos neo-iluministas que acham as piadas uma grosseria inominável e uma ofensa “às crenças do outro”, mesmo desconsiderando que na cultura do “outro" as mulheres, os homossexuais e os infiéis não têm direito sequer à existência. Decapitar infiéis, por exemplo, deve ser uma característica respeitável de sua cultura.

A suposta “islamofobia” (não importa que o Charlie Hebdo seja também catolicofóbico, militarofóbico, politicofóbico, ladrofóbico, autoritáriofóbico e tudo mais que termina em fóbico) do pasquim humorístico francês é um pecado tão terrível que chega a justificar os 12 assassinatos.

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris escreveu em sua coluna semanal na Folha que na verdade o semanário humorístico atacado pelos fundamentalistas é culpado de “cretinofobia”:

“Charlie Hebdo” é uma publicação cretinofóbica, porque acha cretino qualquer um que adira a uma crença sem a capacidade de rir dela e de si mesmo enquanto crente”.
Leia mais  o artigo de Sandro Vaia