Estamos na vanguarda da estupidezLuana Araújo
quinta-feira, 3 de junho de 2021
Algo no ar
Há algo no ar além dos aviões de carreira
Barão de Itararé
No dia 2 de julho de 2012, dois caças supersônicos Mirage F-2000 da Força Aérea Brasileira sobrevoaram a Praça dos Três Poderes tão baixo que estilhaçaram todos os vidros do prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). O fato se repetiria, não em forma de acidente, caso o desejo do presidente Bolsonaro se realizasse.
Irritado com uma decisão do Supremo, o presidente revelou a pessoas próximas que gostaria de dar um susto nos ministros, fazendo com que os novos caças Gripen dessem um voo rasante sobre o prédio. O mais próximo disso aconteceu no dia 21 de outubro do ano passado, quando os novos F-39E Gripen foram apresentados em voo sobre a Esplanada dos Ministérios, sendo ouvidos na sala em que o hoje ministro do STF Nunes Marques estava sendo sabatinado pelo Senado.
O desejo do presidente não foi atendido, em mais um episódio do que está sendo conhecido nos meios militares como bullying de Bolsonaro, que quer impor suas vontades às Forças Armadas. Os generais do Alto-Comando do Exército, reunidos ontem para debater a situação da indisciplina do general de divisão da ativa Eduardo Pazuello, decidiram não anunciar a decisão no momento.
Aproveitarão o feriado para amadurecer a tendência de puni-lo, em clima de indignação com a atitude do presidente de proteger seu ex-ministro da Saúde, em claro confronto com a instituição a que pertence. Embora o vice-presidente Hamilton Mourão tenha falado que a nomeação de Pazuello como assessor diretamente ligado ao presidente na secretaria de Assuntos Estratégicos não interferirá na sua punição, que ele defende, ela é um recado do presidente ao Exército.
Evidente que um general da ativa investigado por indisciplina não poderia ser nomeado para nenhum cargo, muito menos um diretamente ligado ao presidente da República, a menos que ele queira protegê-lo e impor sua condição de comandante em chefe das Forças Armadas para pressionar o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira.
Bolsonaro não tem limites e não respeita nada nem ninguém. Ou você o aceita como é, ou será confrontado sempre, não apenas o STF, o Congresso, mas até as instituições militares a que ele é ligado, sempre marcado por indisciplina e insubordinações. A visão dele da Presidência da República é totalitária, acha que pode mandar em todo mundo. Caso Pazuello não seja punido, podem começar a surgir manifestações em escalões inferiores das Forças Armadas, que sempre foram proibidas.
Há um movimento muito claro de insubordinação incipiente, mas preocupante, nas polícias militares, como no caso do guarda de Goiás que queria obrigar um civil a tirar do carro um adesivo de “Bolsonaro genocida” e foi afastado. Em Pernambuco, o comandante da PM caiu, depois da violência excessiva contra manifestantes que estavam nas ruas contra o presidente. Cenas recentes de formatura de turma da Polícia Federal em tons marciais e pronunciamentos de coronéis da PM do Distrito Federal usando o mesmo slogan de Bolsonaro —“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”— reforçam a sensação de que a influência bolsonarista nos quartéis está se alastrando. Se a atividade política for liberada implicitamente, a chance de acontecer uma crise atrás da outra é grande. Até porque Bolsonaro incentiva a participação de militares na política.
Se Pazuello for punido, e se Bolsonaro cancelar a punição, estará desmoralizando o comandante do Exército. Já tivemos graves crises por causa de indisciplina militar, de embates entre presidentes da República e o Exército. A crise de 1955 é a mais clara, quando o general Lott, ministro da Guerra, reagiu contra um coronel que, mesmo à paisana, fez um discurso num velório contra a posse de Juscelino Kubitschek, recém-eleito presidente da República.
O coronel Bizarria Mamede acabou preso, e sua prisão gerou uma crise política que derrubou presidentes, até que Juscelino tomasse posse no tempo correto. Há ainda uma dúvida jurídica se o presidente da República, na condição de comandante em chefe das Forças Armadas, tem capacidade, pela Constituição, de interferir numa questão disciplinar de uma das Forças, que têm suas próprias regras e comandantes. Há quem considere que ele pode apenas indultar o punido, pois, no caso de um general de divisão, nem mesmo anistiar poderia, pois a anistia só pode ser concedida a cidadãos comuns, não a funcionários do Estado. Tomando esse caminho tortuoso, Bolsonaro estaria buscando uma crise institucional.
Bolsonaro semeia a anarquia militar para reeleger-se. Ou então…
De anarquia militar, o presidente Jair Bolsonaro entende. É doutor na matéria. E como dela aproveitou-se no passado para escapar de ser expulso do Exército e ganhar a patente de capitão, quer aproveitar-se dela mais uma vez para reeleger-se no ano que vem. Ou, se perder, para recusar-se a aceitar o resultado.
Presidente da República que nomeia para ocupar cargo de destaque, com direito a gabinete no Palácio do Planalto, general da ativa investigado pelo Exército por violar o código de disciplina da Arma, que recado manda às Forças Armadas? Simples. Anarquia militar a seu favor, pode e será bem-vinda.
O general Eduardo Pazuello, uma figura que se tornou bizarra desde que veio a público, perdeu o Ministério da Saúde para servir a Bolsonaro e ganhou um novo emprego para servir a Bolsonaro. Está-se para ver um general tão vassalo, desfrutável, medíocre e burlesco quanto ele. Burlesco, não, porque nem risos desperta.
A certa altura do avanço da pandemia no ano passado, dado que o governo deixou-a livre para matar quem tivesse de morrer, foi preciso que rolasse alguma cabeça para salvar a do presidente. Então rolou a do general que não metia medo a ninguém. Pegou mal para o Exército, mas e daí? Para Bolsonaro, pegou bem.
Ao pilotar uma moto no Rio, subir num carro de som e discursar para motociclistas em uma manifestação político-partidária, outra vez Pazuello prestou-se ao papel de cumprir a vontade do seu chefe. Afinal, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Ali, o general desertou do Exército e aderiu à força inimiga. Um Calabar!
O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Noronha, encontra-se entre a cruz e a espada. Será crucificado por seus pares se não usar a espada contra Pazuello. Há maioria no Estado Maior do Exército favorável à punição de Pazuello com o rigor que o caso exige. No mínimo, que ele seja duramente censurado por escrito.
Intimidado por Bolsonaro, Noronha protela sua decisão. Cogita limitar-se a advertir Pazuello oralmente, sem que nada venha a constar na sua folha corrida depois que for para a reserva. Seria a punição mais branda prevista nos regulamentos. Equivale à reprimenda que um pai dá num filho travesso. Nem palmada é.
E quando o guarda da esquina, ou o soldado raso, concluir que um fardado armado jamais será punido de vez que o general bolsonarista não foi? Ou ao general é permitido desrespeitar regulamentos, mas ao soldado não? O exemplo de insubordinação de Bolsonaro no seu tempo de quartel começa a dar frutos.
Era 14 de maio último, quando o deputado Major Vítor Hugo (PSL-BA) deu início a mais uma live no Instagram, apareceu Luan Ferreira de Freitas Rocha, 3.º sargento de Material Bélico da ativa, que trabalha na Companhia de Comando da 15.ª Brigada de Infantaria Mecanizada, com sede em Cascavel, no Paraná.
Como conta Marcelo Godoy em O Estado de S. Paulo, Luan dividiu a tela com o deputado para reclamar do aumento de tempo de permanência como terceiro-sargento imposto aos graduados pela chamada reforma da previdência dos militares, que os obrigou a ficar mais cinco anos no posto antes de se aposentar.
O sargento quer a criação da graduação de “sargento-mór”, logo abaixo dos subtenentes. Diz que seus colegas que trabalham em São Paulo não conseguem viver com o que ganham. Se os generais do Planalto podem furar o teto do funcionalismo e ganhar até 69% de aumento, por que os sargentos devem ficar à míngua?
Foi com um discurso parecido com esse que surgiu Bolsonaro. Como seus superiores não lhe deram ouvido, ele planejou atentados a bomba a unidades militares do Rio.
Presidente da República que nomeia para ocupar cargo de destaque, com direito a gabinete no Palácio do Planalto, general da ativa investigado pelo Exército por violar o código de disciplina da Arma, que recado manda às Forças Armadas? Simples. Anarquia militar a seu favor, pode e será bem-vinda.
O general Eduardo Pazuello, uma figura que se tornou bizarra desde que veio a público, perdeu o Ministério da Saúde para servir a Bolsonaro e ganhou um novo emprego para servir a Bolsonaro. Está-se para ver um general tão vassalo, desfrutável, medíocre e burlesco quanto ele. Burlesco, não, porque nem risos desperta.
A certa altura do avanço da pandemia no ano passado, dado que o governo deixou-a livre para matar quem tivesse de morrer, foi preciso que rolasse alguma cabeça para salvar a do presidente. Então rolou a do general que não metia medo a ninguém. Pegou mal para o Exército, mas e daí? Para Bolsonaro, pegou bem.
Ao pilotar uma moto no Rio, subir num carro de som e discursar para motociclistas em uma manifestação político-partidária, outra vez Pazuello prestou-se ao papel de cumprir a vontade do seu chefe. Afinal, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Ali, o general desertou do Exército e aderiu à força inimiga. Um Calabar!
O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Noronha, encontra-se entre a cruz e a espada. Será crucificado por seus pares se não usar a espada contra Pazuello. Há maioria no Estado Maior do Exército favorável à punição de Pazuello com o rigor que o caso exige. No mínimo, que ele seja duramente censurado por escrito.
Intimidado por Bolsonaro, Noronha protela sua decisão. Cogita limitar-se a advertir Pazuello oralmente, sem que nada venha a constar na sua folha corrida depois que for para a reserva. Seria a punição mais branda prevista nos regulamentos. Equivale à reprimenda que um pai dá num filho travesso. Nem palmada é.
E quando o guarda da esquina, ou o soldado raso, concluir que um fardado armado jamais será punido de vez que o general bolsonarista não foi? Ou ao general é permitido desrespeitar regulamentos, mas ao soldado não? O exemplo de insubordinação de Bolsonaro no seu tempo de quartel começa a dar frutos.
Era 14 de maio último, quando o deputado Major Vítor Hugo (PSL-BA) deu início a mais uma live no Instagram, apareceu Luan Ferreira de Freitas Rocha, 3.º sargento de Material Bélico da ativa, que trabalha na Companhia de Comando da 15.ª Brigada de Infantaria Mecanizada, com sede em Cascavel, no Paraná.
Como conta Marcelo Godoy em O Estado de S. Paulo, Luan dividiu a tela com o deputado para reclamar do aumento de tempo de permanência como terceiro-sargento imposto aos graduados pela chamada reforma da previdência dos militares, que os obrigou a ficar mais cinco anos no posto antes de se aposentar.
O sargento quer a criação da graduação de “sargento-mór”, logo abaixo dos subtenentes. Diz que seus colegas que trabalham em São Paulo não conseguem viver com o que ganham. Se os generais do Planalto podem furar o teto do funcionalismo e ganhar até 69% de aumento, por que os sargentos devem ficar à míngua?
Foi com um discurso parecido com esse que surgiu Bolsonaro. Como seus superiores não lhe deram ouvido, ele planejou atentados a bomba a unidades militares do Rio.
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Não se trata de genocídio, mas de crime contra a humanidade
Na candente retórica da política não configura crime qualificar o presidente da República de genocida em razão de sua estratégia de amistosa convivência com o coronavírus. Tampouco é crime desejar a sua morte, pois a causa supralegal do “direito à perversão” isenta de punição quem deseja o falecimento de outrem, desde que não faça preparativos para tanto e, por óbvio, muito menos atue para consumar o ato.
Ainda que recorrente como palavra polissêmica nas manifestações populares, a imputação leiga de genocídio estiliza a legítima crítica pública sem encontrar adequação técnica no Direito Internacional, mas é indubitável que, à luz da boa doutrina, tal conduta mais se identificaria com a que vem definida como crime contra a humanidade.
Criados pelo jurista polonês Raphael Lemkin, em 1943, com a união das palavras grega génos (família, tribo, raça) e latina caedere (matar) a partir dos episódios de extermínio de armênios e judeus, os termos genocídio/genocida foram introduzidos no Direito pelo Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional (TPI), em 1998, do qual o Brasil se tornou signatário pelo decreto de número 4.388/2002.
O artigo 6.º define o crime de genocídio como “qualquer um dos atos que a seguir se enumeram, praticado com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal: a) Homicídio de membros do grupo; b) Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo; c) Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a sua destruição física, total ou parcial; d) Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; e) Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo”.
Os crimes contra a humanidade estão conceituados no artigo 7.º, em que se tipificam as iniciativas de ataque sistemático e generalizado a populações civis, sem distinção de características físicas ou culturais, entre eles “atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental”.
Nessa barbárie se enquadraria a performance do presidente brasileiro – suficiente para levá-lo às barras do TPI, a exemplo do general croata Ante Gotovina, do ditador líbio Muamar Kadafi e do ex-ministro queniano William Samoei Ruto.
Os “atos desumanos” do presidente do Brasil estão demonstrados em entrevistas, lives, memes e outras manifestações tão trágicas quanto sarcásticas, para sustentar uma política sanitária na qual especialistas identificam, antes de descaso com a saúde pública, uma campanha pró-vírus.
Não se trata apenas de manifestações pessoais, mas de atos oficiais – como demonstrou um levantamento de 3.049 normas federais para a covid-19, analisadas pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário da Universidade de São Paulo e pela Conectas Direitos Humanos.
O incremento descontrolado do coronavírus se deu por ações e omissões. Como um mecenas da doença, o presidente não equipou o serviço de saúde para o combate à pandemia e boicotou medidas recomendadas pelas organizações internacionais, como o confinamento, o uso de máscara e a restrição a aglomerações, tanto quanto deixou de adquirir vacinas em tempo hábil, e ainda pôs em dúvida a eficácia de imunizantes, ao mesmo tempo que, como um taumaturgo desastrado, tentou sobressair com a receita de remédios ineficazes, a buscar um quiproquó diversionista de “tratamento precoce” – contradição terapêutica e semântica. Que mais poderia fazer, se, como justificou, “não é coveiro?”
A coreografia de abre-alas da pandemia, apregoando laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer, ou deixai fazer, deixai ir, deixai passar, foi incentivo para a população viver e trabalhar como se o perigo fosse uma “gripezinha” que segrega um agente infeccioso só maléfico para os predestinados à morte, aos portadores de comorbidades e, no linguajar chulo, aos “maricas”.
A degenerada epidemiologia do Planalto consistiu em deixar a natureza seguir seu curso, o vírus abater os que, em darwinismo imunológico, não adaptassem o organismo à resistência ao mal, enquanto a maioria ficaria naturalmente refratária, e sobreviesse a chamada imunidade de rebanho – ao custo, quem sabe, de alguns milhões de vidas. De quebra, a economia não sofreria tanto e a reeleição do messias estaria assegurada.
O conjunto da obra aponta para o crime contra a humanidade. Advogados brasileiros já protocolaram pedido de investigação no Tribunal Penal Internacional. Embora lento, pois segue o rito do indispensável devido processo legal, com audiências de instrução e amplo direito de defesa, o inquérito do TPI pode declarar a infâmia de uma administração que elegeu a morte como opção preferencial.
Tudo considerado, porém, não se pode negar que “#genocida” tem força de palavra de ordem e internacionaliza o problema, ao correr o mundo como motivo já invocado para intervenção estrangeira no Brasil.
Ainda que recorrente como palavra polissêmica nas manifestações populares, a imputação leiga de genocídio estiliza a legítima crítica pública sem encontrar adequação técnica no Direito Internacional, mas é indubitável que, à luz da boa doutrina, tal conduta mais se identificaria com a que vem definida como crime contra a humanidade.
Criados pelo jurista polonês Raphael Lemkin, em 1943, com a união das palavras grega génos (família, tribo, raça) e latina caedere (matar) a partir dos episódios de extermínio de armênios e judeus, os termos genocídio/genocida foram introduzidos no Direito pelo Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional (TPI), em 1998, do qual o Brasil se tornou signatário pelo decreto de número 4.388/2002.
O artigo 6.º define o crime de genocídio como “qualquer um dos atos que a seguir se enumeram, praticado com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal: a) Homicídio de membros do grupo; b) Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo; c) Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a sua destruição física, total ou parcial; d) Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; e) Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo”.
Os crimes contra a humanidade estão conceituados no artigo 7.º, em que se tipificam as iniciativas de ataque sistemático e generalizado a populações civis, sem distinção de características físicas ou culturais, entre eles “atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental”.
Nessa barbárie se enquadraria a performance do presidente brasileiro – suficiente para levá-lo às barras do TPI, a exemplo do general croata Ante Gotovina, do ditador líbio Muamar Kadafi e do ex-ministro queniano William Samoei Ruto.
Os “atos desumanos” do presidente do Brasil estão demonstrados em entrevistas, lives, memes e outras manifestações tão trágicas quanto sarcásticas, para sustentar uma política sanitária na qual especialistas identificam, antes de descaso com a saúde pública, uma campanha pró-vírus.
Não se trata apenas de manifestações pessoais, mas de atos oficiais – como demonstrou um levantamento de 3.049 normas federais para a covid-19, analisadas pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário da Universidade de São Paulo e pela Conectas Direitos Humanos.
O incremento descontrolado do coronavírus se deu por ações e omissões. Como um mecenas da doença, o presidente não equipou o serviço de saúde para o combate à pandemia e boicotou medidas recomendadas pelas organizações internacionais, como o confinamento, o uso de máscara e a restrição a aglomerações, tanto quanto deixou de adquirir vacinas em tempo hábil, e ainda pôs em dúvida a eficácia de imunizantes, ao mesmo tempo que, como um taumaturgo desastrado, tentou sobressair com a receita de remédios ineficazes, a buscar um quiproquó diversionista de “tratamento precoce” – contradição terapêutica e semântica. Que mais poderia fazer, se, como justificou, “não é coveiro?”
A coreografia de abre-alas da pandemia, apregoando laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer, ou deixai fazer, deixai ir, deixai passar, foi incentivo para a população viver e trabalhar como se o perigo fosse uma “gripezinha” que segrega um agente infeccioso só maléfico para os predestinados à morte, aos portadores de comorbidades e, no linguajar chulo, aos “maricas”.
A degenerada epidemiologia do Planalto consistiu em deixar a natureza seguir seu curso, o vírus abater os que, em darwinismo imunológico, não adaptassem o organismo à resistência ao mal, enquanto a maioria ficaria naturalmente refratária, e sobreviesse a chamada imunidade de rebanho – ao custo, quem sabe, de alguns milhões de vidas. De quebra, a economia não sofreria tanto e a reeleição do messias estaria assegurada.
O conjunto da obra aponta para o crime contra a humanidade. Advogados brasileiros já protocolaram pedido de investigação no Tribunal Penal Internacional. Embora lento, pois segue o rito do indispensável devido processo legal, com audiências de instrução e amplo direito de defesa, o inquérito do TPI pode declarar a infâmia de uma administração que elegeu a morte como opção preferencial.
Tudo considerado, porém, não se pode negar que “#genocida” tem força de palavra de ordem e internacionaliza o problema, ao correr o mundo como motivo já invocado para intervenção estrangeira no Brasil.
A catimba de Bolsonaro
Vai ter Copa. Sete anos depois da controvérsia envolvendo a realização da Copa do Mundo no Brasil, e em plena pandemia, nos vemos na situação surrealista de sediar um evento futebolístico que dois vizinhos entenderam ser inoportuno abrigar.
E por quê? É simples: porque é desse tipo de coisa que gosta Jair Bolsonaro, é esse tipo de evento, e de confusão, que move o presidente do Brasil. Decisões administrativas, montagem de gabinetes de crise, planejamento de políticas públicas, definição de diretrizes de Estado, tudo isso aborrece e entedia o capitão.
A discussão a respeito da realização da Copa América no Brasil é um exemplo acabado de como o modo caótico de decisão de Bolsonaro nos trouxe até aqui. Ela desnuda a forma de pensar e decidir do presidente. Mostra que qualquer esforço narrativo para mostrá-lo como alguém que agora se preocupa com vacinas e com razoabilidade é apenas maquiagem.
Bolsonaro levou meses para decidir cobrar de seu ministro da Saúde, o agora premiado Eduardo Pazuello, alguma providência para que o Brasil estivesse bem posicionado na corrida pelas vacinas.
Mas bastou um telefonema de um cartola para que ele mobilizasse todo o governo para aceitar realizar aqui o campeonato futebolístico que Colômbia e Argentina recusaram por razões políticas, sociais e sanitárias. Razões essas presentes no Brasil, que vive o início de uma terceira onda de Covid-19.
Em sua compreensão tosca e maniqueísta do que seja governar e, principalmente, do que sejam trunfos possíveis para sua reeleição, Bolsonaro acha que trazer um evento festivo para o país pode ajudar a mudar o clima a seu favor.
Ele sentiu o calor das ruas no último fim de semana. Percebeu que sua batata está assando junto a um eleitorado cansado de não ver acelerar o ritmo da vacinação, que ainda não enxerga na carteira de trabalho e no prato os ventos de recuperação econômica que começam a soprar nos indicadores macroeconômicos.
Nada melhor, diante desse quadro, do que uma bola rolando, não é mesmo? Aqueles que sempre encontrarão um jeito de defender qualquer nonsense que o presidente faça dizem que não há diferença entre a Copa América e outros torneios que já estão ocorrendo, inclusive a Libertadores.
Mas os cientistas são unânimes em apontar a inconveniência de promover um entra e sai de delegações quando tentamos, sem sucesso, promover uma barreira sanitária que impeça a entrada de novas variantes do vírus, justamente no momento em que a curva de casos volta a subir.
Além disso, transparece desse episódio algo essencial a compreender no momento em que uma CPI avança na discussão de responsabilidades por nosso fracasso na pandemia: ele decorre do pouco-caso com que o presidente da República encara a doença, as vidas daqueles que governa e as mortes que continuam a se suceder aos milhares.
Faltou vacina porque Bolsonaro não quis comprar e não comprou enquanto pôde. E, por ele, a vida segue, e a bola corre, porque não há nada com que ele se importe acontecendo fora das quatro linhas do campo da política, aquele único em que ele sabe jogar.
Que todos — senadores, eleitores, ministros do Supremo, procuradores da República — extraiam desse episódio que é puro suco de bolsonarismo uma lição definitiva, que precisará estar no centro de qualquer estratégia para 2022: Bolsonaro não vai se moderar, não vai se conscientizar, não vai se importar. Seguirá governando impelido pelo objetivo único do poder para si e para os seus.
É essa a compreensão que tem de nortear o relatório da CPI no nevoeiro de mentiras, empulhações e tentativas de dourar a história da pandemia que paira sobre depoimentos cada vez mais dispersos. Ou a investigação não sairá do zero a zero num jogo ruim.
E por quê? É simples: porque é desse tipo de coisa que gosta Jair Bolsonaro, é esse tipo de evento, e de confusão, que move o presidente do Brasil. Decisões administrativas, montagem de gabinetes de crise, planejamento de políticas públicas, definição de diretrizes de Estado, tudo isso aborrece e entedia o capitão.
A discussão a respeito da realização da Copa América no Brasil é um exemplo acabado de como o modo caótico de decisão de Bolsonaro nos trouxe até aqui. Ela desnuda a forma de pensar e decidir do presidente. Mostra que qualquer esforço narrativo para mostrá-lo como alguém que agora se preocupa com vacinas e com razoabilidade é apenas maquiagem.
Bolsonaro levou meses para decidir cobrar de seu ministro da Saúde, o agora premiado Eduardo Pazuello, alguma providência para que o Brasil estivesse bem posicionado na corrida pelas vacinas.
Mas bastou um telefonema de um cartola para que ele mobilizasse todo o governo para aceitar realizar aqui o campeonato futebolístico que Colômbia e Argentina recusaram por razões políticas, sociais e sanitárias. Razões essas presentes no Brasil, que vive o início de uma terceira onda de Covid-19.
Em sua compreensão tosca e maniqueísta do que seja governar e, principalmente, do que sejam trunfos possíveis para sua reeleição, Bolsonaro acha que trazer um evento festivo para o país pode ajudar a mudar o clima a seu favor.
Ele sentiu o calor das ruas no último fim de semana. Percebeu que sua batata está assando junto a um eleitorado cansado de não ver acelerar o ritmo da vacinação, que ainda não enxerga na carteira de trabalho e no prato os ventos de recuperação econômica que começam a soprar nos indicadores macroeconômicos.
Nada melhor, diante desse quadro, do que uma bola rolando, não é mesmo? Aqueles que sempre encontrarão um jeito de defender qualquer nonsense que o presidente faça dizem que não há diferença entre a Copa América e outros torneios que já estão ocorrendo, inclusive a Libertadores.
Mas os cientistas são unânimes em apontar a inconveniência de promover um entra e sai de delegações quando tentamos, sem sucesso, promover uma barreira sanitária que impeça a entrada de novas variantes do vírus, justamente no momento em que a curva de casos volta a subir.
Além disso, transparece desse episódio algo essencial a compreender no momento em que uma CPI avança na discussão de responsabilidades por nosso fracasso na pandemia: ele decorre do pouco-caso com que o presidente da República encara a doença, as vidas daqueles que governa e as mortes que continuam a se suceder aos milhares.
Faltou vacina porque Bolsonaro não quis comprar e não comprou enquanto pôde. E, por ele, a vida segue, e a bola corre, porque não há nada com que ele se importe acontecendo fora das quatro linhas do campo da política, aquele único em que ele sabe jogar.
Que todos — senadores, eleitores, ministros do Supremo, procuradores da República — extraiam desse episódio que é puro suco de bolsonarismo uma lição definitiva, que precisará estar no centro de qualquer estratégia para 2022: Bolsonaro não vai se moderar, não vai se conscientizar, não vai se importar. Seguirá governando impelido pelo objetivo único do poder para si e para os seus.
É essa a compreensão que tem de nortear o relatório da CPI no nevoeiro de mentiras, empulhações e tentativas de dourar a história da pandemia que paira sobre depoimentos cada vez mais dispersos. Ou a investigação não sairá do zero a zero num jogo ruim.
Subversão ao vivo em verde-oliva
A soberba e a subversão da ordem imperam, absolutas, desde que Bolsonaro subiu ao Planalto. Cabe à cidadania lutar contra o arbítrio em todos os níveis, do guarda da esquina ao presidente da RepúblicaRoberto Romano
Os milicos que se cuidem
Foi num dia de semana à tarde, em 1970, auge da ditadura —me contaram. Um garoto de seus 15 anos ganhou uma flautinha de plástico e foi à praia com ela. Sentado na areia, numa Ipanema vazia, tentou tirar o Hino Nacional —afinal, ouvia-o todo dia. Ao extrair algo parecido com a frase inicial, percebeu uma sombra entre ele e o Sol. Olhou para cima e viu um sujeito forte, bronzeado, de cabelo reco. O homem rugiu: "Por que está tocando isso?". O garoto, surpreso, ficou mudo. Não havia resposta. O homem emendou: "Estou ali naquela barraca escutando tudo. Se continuar com gracinha vai se dar mal!". Um vendedor de mate sussurrou para o garoto: "Coronel do Exército".
É típico das ditaduras se apoderarem dos símbolos nacionais. O Brasil de Médici era uma diarreia verde-amarela. Uma geração de escolares foi submetida a anos de bandeira e hino diários, de pé, no pátio do colégio. Talvez por isso, um garoto de cabelo comprido tocando o Hino Nacional na praia pudesse ser um deboche, uma contestação.
O governo Bolsonaro não é uma ditadura — ainda. Mas, em algumas matérias, já se comporta como. Assenhorou-se, por exemplo, das cores nacionais e de conceitos como "povo", "democracia" e "liberdade" e da expressão "homem de bem". São "homens de bem" os que, contra a corrupção do PT, apoiam o extermínio de brasileiros pela Covid, promovido por ele.
Mas, agora, Bolsonaro se superou. Apropriou-se daquele que se considera o detentor do monopólio dos símbolos —o próprio Exército. Do mais tosco soldado ao mais empafiado general, Bolsonaro embolsou-os com benesses, empregos, cargos e uma ideologia intangível, em nome da qual passou a ditar-lhes o regulamento e fazê-los abdicar até de uma de suas cláusulas pétreas: a disciplina.
Os milicos que se cuidem. Um dia, ainda veremos Bolsonaro de dedo no nariz de um deles por tocar o Hino numa flautinha de plástico.
É típico das ditaduras se apoderarem dos símbolos nacionais. O Brasil de Médici era uma diarreia verde-amarela. Uma geração de escolares foi submetida a anos de bandeira e hino diários, de pé, no pátio do colégio. Talvez por isso, um garoto de cabelo comprido tocando o Hino Nacional na praia pudesse ser um deboche, uma contestação.
O governo Bolsonaro não é uma ditadura — ainda. Mas, em algumas matérias, já se comporta como. Assenhorou-se, por exemplo, das cores nacionais e de conceitos como "povo", "democracia" e "liberdade" e da expressão "homem de bem". São "homens de bem" os que, contra a corrupção do PT, apoiam o extermínio de brasileiros pela Covid, promovido por ele.
Mas, agora, Bolsonaro se superou. Apropriou-se daquele que se considera o detentor do monopólio dos símbolos —o próprio Exército. Do mais tosco soldado ao mais empafiado general, Bolsonaro embolsou-os com benesses, empregos, cargos e uma ideologia intangível, em nome da qual passou a ditar-lhes o regulamento e fazê-los abdicar até de uma de suas cláusulas pétreas: a disciplina.
Os milicos que se cuidem. Um dia, ainda veremos Bolsonaro de dedo no nariz de um deles por tocar o Hino numa flautinha de plástico.
Somos todos idiotas
Sendo uma das idiotas que não saem de casa, na gentil descrição do senhor Presidente da República, tenho tido muito tempo para pensar na vida; o que me leva, invariavelmente, a concluir que, num mundo de idiotas, o melhor a fazer é não pensar.
Todos nós, idiotas, estamos cansados. Do isolamento e das restrições da pandemia, da solidão e da monotonia, mas, sobretudo, das notícias que nos chegam a respeito dos outros idiotas, aqueles que se rebelam contra as máscaras, não respeitam distanciamento social e acham que vírus se combate no grito.
Eles não aprenderam que, além dos cientistas que desenvolvem vacinas, ninguém pode fazer nada de concreto contra uma pandemia.
Nós idiotas que ficamos em casa fazemos o possível para evitar que o vírus circule. É pouco, de fato, mas é o que podemos fazer. Ficar em casa quando se pode ficar em casa não é desdouro nem falta de coragem, é consciência social: quanto menos gente houver nas ruas menos o vírus estará em circulação e menos pessoas serão contaminadas.
Não parece difícil de explicar, mas, pelo visto, é impossível de entender. Há alguma mutação genética ou ausência de atividade cerebral que impede que os idiotas, aqueles, compreendam essa verdade basilar. Um dia eles ainda vão ser estudados pela Ciência.
Não parece difícil de explicar, mas, pelo visto, é impossível de entender. Há alguma mutação genética ou ausência de atividade cerebral que impede que os idiotas, aqueles, compreendam essa verdade basilar. Um dia eles ainda vão ser estudados pela Ciência.
A nossa idiotice de isolados é um sentimento tingido pela melancolia, intenso mas inofensivo. Passamos os dias trabalhando, lendo, cozinhando, lavando louça, participando de lives, cuidando de plantas e de bichos, refletindo e torcendo para que haja vacina logo para todo mundo.
Enquanto isso o idiota lá desdenha das máscaras, aglomera, voa de helicóptero, faz churrasco, anda de moto, cavalga pela Esplanada dos Ministérios e oferece ao mundo o espetáculo da sua estupidez relinchante e orgulhosa de si mesma.
Genocida.
______________
Desde os tempos em que trabalhei em Brasília, numa outra encarnação, eu já sabia que educação, caráter e hombridade não são requisitos básicos para assumir cargos importantes na administração pública. Mas eu ainda guardava uma ilusão solitária, e imaginava que era preciso ter um mínimo de inteligência e de sofisticação intelectual para ser Ministro das Relações Exteriores.
_______________
A Mauritânia fica na costa africana, ao Norte, logo abaixo do Marrocos e colada à Argélia, em pleno Saara: sua capital Nouakchott, com cerca de um milhão de habitantes, é a maior cidade do deserto.
Eu não sabia disso, e não foi por falta de interesse na região, porque antes da chegada do Exército Islâmico ao Mali cheguei a fazer planos de viajar para o país, ali ao lado. Eu também não sabia que a Mauritânia só aboliu a escravidão oficialmente em 1981 e que conserva o antigo hábito berbere de engordar as mulheres: meninas com 8 ou 9 anos são obrigadas a beber leite de camelo aos litros e, aos 12, já são obesas de 30 anos.
Eu não sabia disso, e não foi por falta de interesse na região, porque antes da chegada do Exército Islâmico ao Mali cheguei a fazer planos de viajar para o país, ali ao lado. Eu também não sabia que a Mauritânia só aboliu a escravidão oficialmente em 1981 e que conserva o antigo hábito berbere de engordar as mulheres: meninas com 8 ou 9 anos são obrigadas a beber leite de camelo aos litros e, aos 12, já são obesas de 30 anos.
Como idiota que sou, tenho fugido da vida real mergulhando em documentários, e foi no canal Tracks, no YouTube, que encontrei uma série holandesa sobre os países do Saara. Ela é apresentada por Bram Vermeulen, e está em inglês; há opção de legendas automáticas. O Tracks é um aglutinador de conteúdo que reúne documentários sobre o mundo todo realizados por emissoras de diversos países, e tem uma coleção extraordinária de vídeos.
Cora Rónai
Cora Rónai
Governo minúsculo
Um presidente de verdade, unificaria o país, pacificando-o. Visitaria não os palanques, mas os hospitais. Renderia homenagens a médicos e enfermeiros. Confortaria as famílias dos mortos. Pregaria a vacinação. O "despresidente" Bolsonaro faz tudo ao contrário. Muitos imaginam que o inquilino do Planalto sofre de insanidade. Engano. Ele aproveita cada segundo dela.
O guarda da esquina está de volta
O Ato Institucional número 5, que em dezembro de 1968 fez a ditadura ainda branda tirar a máscara e revelar sua face mais cruel, causou assombro ao então vice-presidente Pedro Aleixo (PSD-MG).
Ele foi o único que votou contra a adoção do ato na reunião comandada pelo presidente Arthur da Costa e Silva, um general bonachão, que só lia palavras cruzadas e se dizia democrata.
Aleixo alegou na ocasião: “O problema de uma lei assim não é o senhor [Costa e Silva], nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.
Acertou na mosca, como se viu a partir dali e até que a ditadura se esgotasse em janeiro de 1985. A anarquia agitou os quartéis. Os mais pavorosos crimes foram cometidos por soldados e generais.
Com uma democracia ainda plena, embora ameaçada por um ex-capitão afastado do Exército por indisciplina e órfão assumido da ditadura de 64, o guarda da esquina reapareceu.
Foi visto, ontem, em Goiânia, ao prender o professor da rede pública estadual e secretário estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) de Goiás, Arquidones Bites Leão.
Com a farda da Polícia Militar, o guarda exigiu que o professor retirasse do capô do seu carro uma faixa onde estava escrito: “Fora Bolsonaro Genocida”.
Como o professor não o fez, o guarda leu para ele um trecho da Lei de Segurança Nacional que proíbe ofensas ao presidente da República e a um grupo limitado de autoridades.
Em seguida, deu-lhe voz de prisão e levou-o preso para a sede da Polícia Federal, onde o professor foi interrogado e libertado mais tarde. O guarda de Goiânia tem fotos com Bolsonaro.
O que tanto Aleixo temeu à sua época começa a repetir-se 53 anos depois aqui e acolá.
Ele foi o único que votou contra a adoção do ato na reunião comandada pelo presidente Arthur da Costa e Silva, um general bonachão, que só lia palavras cruzadas e se dizia democrata.
Aleixo alegou na ocasião: “O problema de uma lei assim não é o senhor [Costa e Silva], nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.
Acertou na mosca, como se viu a partir dali e até que a ditadura se esgotasse em janeiro de 1985. A anarquia agitou os quartéis. Os mais pavorosos crimes foram cometidos por soldados e generais.
Com uma democracia ainda plena, embora ameaçada por um ex-capitão afastado do Exército por indisciplina e órfão assumido da ditadura de 64, o guarda da esquina reapareceu.
Foi visto, ontem, em Goiânia, ao prender o professor da rede pública estadual e secretário estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) de Goiás, Arquidones Bites Leão.
Com a farda da Polícia Militar, o guarda exigiu que o professor retirasse do capô do seu carro uma faixa onde estava escrito: “Fora Bolsonaro Genocida”.
Como o professor não o fez, o guarda leu para ele um trecho da Lei de Segurança Nacional que proíbe ofensas ao presidente da República e a um grupo limitado de autoridades.
Em seguida, deu-lhe voz de prisão e levou-o preso para a sede da Polícia Federal, onde o professor foi interrogado e libertado mais tarde. O guarda de Goiânia tem fotos com Bolsonaro.
O que tanto Aleixo temeu à sua época começa a repetir-se 53 anos depois aqui e acolá.
A anarquia militar de Bolsonaro
O vice-presidente Hamilton Mourão defendeu a necessidade de punição do general Eduardo Pazuello dizendo que é preciso “evitar que a anarquia se instaure dentro das Forças”.
Não passava pela cabeça dos generais do século passado conviver com a ideia de PMs amotinados. Em 1961, quando policiais militares de São Paulo rebelaram-se, o comandante da tropa de São Paulo, general Arthur da Costa e Silva, acabou com o levante no grito e prendeu os indisciplinados.
Santas palavras. A partir da Proclamação da República, em 1889, a anarquia militar empesteou a política brasileira do século XX com pelo menos 14 levantes e seis golpes. Pode-se dizer que alguns foram de direita, outros de esquerda, mas todos tinham uma essência política. Os tenentes dos anos 20 queriam uma nova República. Até mesmo os generais que, em 1969, empossaram a junta militar dos Três Patetas (expressão usada por Ernesto Geisel em conversas privadas e Ulysses Guimarães em declaração pública) agiram em nome de uma suposta defesa da ordem.
A má notícia é que hoje a anarquia militar tem um pé na delinquência civil, para dizer o mínimo. Gregório Fortunato, o “Anjo Negro” e chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, era paisano. Fabrício Queiroz, o chevalier servant dos Bolsonaros, é um ex-policial militar. Nenhuma crise militar do século passado teve PMs, muito menos conexões com milicianos. Em 1964, o general Humberto Castello Branco disse que “não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos, destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência”. À época, a palavra “milícia” tinha outro significado.
Não passava pela cabeça dos generais do século passado conviver com a ideia de PMs amotinados. Em 1961, quando policiais militares de São Paulo rebelaram-se, o comandante da tropa de São Paulo, general Arthur da Costa e Silva, acabou com o levante no grito e prendeu os indisciplinados.
A essência política da anarquia militar do século XX cumpria um relativo ritual hierárquico. Em 1955, o general Odylio Denys foi decisivo para que seu colega, o ministro Henrique Lott, depusesse dois presidentes numa só noite. Seis anos depois, como ministro, prendeu-o por ter defendido a posse de João Goulart.
Nessa anarquia, prevaleciam os generais silenciosos, aqueles de que ninguém lembra o nome.
Bolsonaro gosta de falar em “minhas Forças Armadas”. As tropas de chefes militares que comiam abelhas, como Floriano Peixoto, não tinham dono. Também não existiam PMs amotinadas, milicianos, nem generais da ativa em manifestações de motoqueiros paramentados. Cenas como as da ação da PM no Recife no último domingo são um aviso de que a anarquia pode vir de baixo. Os disparos de balas de borracha contra manifestantes foram uma clara provocação anárquica, porém deliberada.
Hoje esses personagens existem e são um fator relevante na desordem política e administrativa do país. A anarquia militar de Bolsonaro é nova — e pior.
O risco de “que a anarquia se instaure dentro das Forças” tornou-se visível com o general Pazuello subindo no carro de som de Bolsonaro, mas ele está aí desde 2018, quando o comandante do Exército sugeriu com seu famoso tuíte que o Supremo Tribunal Federal negasse o habeas corpus que impediria a prisão de Lula. Ele ecoava uma manifestação do comandante das tropas do Sul, general Jair Dantas Ribeiro, em 1962, forçando a realização de um plebiscito para enterrar o regime parlamentarista. João Goulart apostava na anarquia militar.
Elio Gaspari
O risco de “que a anarquia se instaure dentro das Forças” tornou-se visível com o general Pazuello subindo no carro de som de Bolsonaro, mas ele está aí desde 2018, quando o comandante do Exército sugeriu com seu famoso tuíte que o Supremo Tribunal Federal negasse o habeas corpus que impediria a prisão de Lula. Ele ecoava uma manifestação do comandante das tropas do Sul, general Jair Dantas Ribeiro, em 1962, forçando a realização de um plebiscito para enterrar o regime parlamentarista. João Goulart apostava na anarquia militar.
Elio Gaspari
O quadrúpede que grunhe
Os disparates de Jair Bolsonaro costumavam atrair os leitores. Sempre que reproduzíamos uma de suas barbaridades, o ponteiro do Google Analytics subia vertiginosamente.
Isso mudou. Ele pode até insultar os velhos campeões de audiência do nosso site, dizendo que Lula “grunhe” e que Dilma é uma “quadrúpede”, mas ninguém mais se importa. O efeito se dissipou. Não cola. A sua estupidez, que provocava estupor, agora só provoca repulsa. Ou, pior ainda, desalento.
Até o ano passado, muita gente, inclusive na imprensa, acreditava que a estupidez de Jair Bolsonaro fosse premeditada, e que escondesse alguma forma de esperteza. Agora todos sabem que ele é só isso mesmo. Ele parece raso porque é raso, parece primário porque é primário.
Ontem à noite, enquanto lamentava as 460 mil mortes de Covid, ele riu. Uma de suas macacas de auditório perguntou-lhe o motivo de tanto contentamento, e ele explicou:
“Alguns acham, tem gente filmando aqui, vai sair eu rindo. ‘Não pode, não sei o quê, o problema’. Isso acontece. Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê? Eu pergunto: essa pandemia vai acabar quando? Alguém sabe? Vai até as eleições do ano que vem?”
Só há isso na cabecinha obtusa de Jair Bolsonaro: 2022. Ele não é capaz de ver nada além disso. Não é esperteza, não é estratégia, não é xadrez: ele é apenas mais um quadrúpede que grunhe.
Isso mudou. Ele pode até insultar os velhos campeões de audiência do nosso site, dizendo que Lula “grunhe” e que Dilma é uma “quadrúpede”, mas ninguém mais se importa. O efeito se dissipou. Não cola. A sua estupidez, que provocava estupor, agora só provoca repulsa. Ou, pior ainda, desalento.
Até o ano passado, muita gente, inclusive na imprensa, acreditava que a estupidez de Jair Bolsonaro fosse premeditada, e que escondesse alguma forma de esperteza. Agora todos sabem que ele é só isso mesmo. Ele parece raso porque é raso, parece primário porque é primário.
Ontem à noite, enquanto lamentava as 460 mil mortes de Covid, ele riu. Uma de suas macacas de auditório perguntou-lhe o motivo de tanto contentamento, e ele explicou:
“Alguns acham, tem gente filmando aqui, vai sair eu rindo. ‘Não pode, não sei o quê, o problema’. Isso acontece. Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê? Eu pergunto: essa pandemia vai acabar quando? Alguém sabe? Vai até as eleições do ano que vem?”
Só há isso na cabecinha obtusa de Jair Bolsonaro: 2022. Ele não é capaz de ver nada além disso. Não é esperteza, não é estratégia, não é xadrez: ele é apenas mais um quadrúpede que grunhe.
terça-feira, 1 de junho de 2021
Outono e Antares
Mais um. O sol vai se afastando do Hemisfério Sul e iluminando mais o Hemisfério Norte. Outono aqui, primavera lá. Como sempre. Neste ano, aqui como lá, somamos medos, contamos mortos. Outono 2 de tempos da pandemia.
Marcela contou no Face que, ontem, perdeu um ex-companheiro, grande amor da sua vida, amigo para sempre. 31 de maio foi o dia do para sempre ficar na lembrança.
Não faz muito tempo, Vanda também ficou sem o marido, parceiro de uma vida inteira, deixou filha, deixou netos e dor impar. Mais um a morrer de descaso – com o vírus, com a vida.
Perto ou longe da gente, toda hora, vão se amores de alguém. Chegamos até aos 2.000 por dia. Neste outono, o Brasil bordeia 500 mil mortos. Números de guerra.
Passamos Benito Mussolini, o fascista italiano, que teve em sua conta 440 mil mortes. Além dos 410 mil italianos mortos na 2ª Guerra, matou outros 30 mil na Etiópia e na Espanha.
Estamos prestes a empatar com Idi Amin Dada, de Ruanda. Em 8 anos de ditadura – de 1971 a 79 – matou 500 mil pessoas, vitimas de perseguições étnicas, políticas e religiosas.
Sábado, 29, milhares de brasileiros, em todos os estados e no DF, enfrentaram o medo da contaminação e foram às ruas – de máscaras, álcool em gel na bolsa, coração aos saltos.
Não foi desafio ao vírus. Não foi política partidária. Foi chega – deu! – para um governo que fala e atende apenas a uma facção de brasileiros – os negacionistas, os preconceituosos, os violentos, apaixonados defensores das armas, dos agrotóxicos, dos desmatamentos.
Uma gente de caráter e objetivos duvidosos. Gente com ganas de matar e arrebentar adversários – “cambada de comunistas, defensores de direitos humanos pra bandidos”.
Em mais uma das tensas semanas, que temos vivido nos derradeiros cinco anos, alguém nas redes sociais relembrou texto de Érico Veríssimo, no romance Incidente em Antares. “Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplesmente todo o sujeito que clama e luta por justiça social”.
O livro é de 1971. Ficção. Relata greve geral na cidade que alcança até os coveiros e faz fantasmas atuantes seis mortos – insepultos por falta de mão de obra.
Na história, os tais mortos perambulam por ruas e casas, descobrindo e apontando vilanias, maldades e desgraças de impolutos moradores. O mau cheiro exalado pelos corpos mortos é alegoria da podridão moral da cidade.
Erico Veríssimo fez sátira política contundente. Tragicomédia corajosa que, mesmo lançada em plena ditadura militar, abordou temas como tortura, corrupção, clientelismo e coronelismo. Coisas tão a gosto de parte da gente brasileira.
Cinquenta anos depois, qualquer semelhança é só retrato de um Brasil que não muda. Mexe e remexe para cair no mesmo lugar.
Tão repetitivo que, no final de semana, fez veículos de imprensa brasileira retomarem comportamento de 1983/84, quando ignoraram a campanha das Diretas Já. Movimento apartidário, levou multidões às ruas em favor de eleições diretas para presidente da República e pelo fim da ditadura militar, que agonizava, mas não largava o osso.
Agora, ignoraram as grandes manifestações nas ruas contra o governo do inominável genocida mais famoso da história brasileira, e por vacinas já.
O povo esteve nas ruas. Apesar da pandemia. Apanhou muito da PM em Recife. Mais uma vez, jornais e TVs não contaram que viram. No futuro farão mea culpa. Como costumam fazer. São repetitivos contumazes.
No outono, os dias são mais curtos, as noites longas o suficiente para a conspiração da vez – empurrar goela abaixo do combalido Brasil a Copa América, trazendo atletas e vírus com suas novas cepas para o triste picadeiro nacional.
Seis meses para decidir a compra de vacinas. Uma madrugada para dar sim a Conmebol. Cartolagem.
Venham. São bem vindos. Estamos fazendo o possível e o impossível para matar mais do que Idi Amin Dada – e em tempo bem mais curto.
Marcela contou no Face que, ontem, perdeu um ex-companheiro, grande amor da sua vida, amigo para sempre. 31 de maio foi o dia do para sempre ficar na lembrança.
Não faz muito tempo, Vanda também ficou sem o marido, parceiro de uma vida inteira, deixou filha, deixou netos e dor impar. Mais um a morrer de descaso – com o vírus, com a vida.
Perto ou longe da gente, toda hora, vão se amores de alguém. Chegamos até aos 2.000 por dia. Neste outono, o Brasil bordeia 500 mil mortos. Números de guerra.
Passamos Benito Mussolini, o fascista italiano, que teve em sua conta 440 mil mortes. Além dos 410 mil italianos mortos na 2ª Guerra, matou outros 30 mil na Etiópia e na Espanha.
Estamos prestes a empatar com Idi Amin Dada, de Ruanda. Em 8 anos de ditadura – de 1971 a 79 – matou 500 mil pessoas, vitimas de perseguições étnicas, políticas e religiosas.
Sábado, 29, milhares de brasileiros, em todos os estados e no DF, enfrentaram o medo da contaminação e foram às ruas – de máscaras, álcool em gel na bolsa, coração aos saltos.
Não foi desafio ao vírus. Não foi política partidária. Foi chega – deu! – para um governo que fala e atende apenas a uma facção de brasileiros – os negacionistas, os preconceituosos, os violentos, apaixonados defensores das armas, dos agrotóxicos, dos desmatamentos.
Uma gente de caráter e objetivos duvidosos. Gente com ganas de matar e arrebentar adversários – “cambada de comunistas, defensores de direitos humanos pra bandidos”.
Em mais uma das tensas semanas, que temos vivido nos derradeiros cinco anos, alguém nas redes sociais relembrou texto de Érico Veríssimo, no romance Incidente em Antares. “Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplesmente todo o sujeito que clama e luta por justiça social”.
O livro é de 1971. Ficção. Relata greve geral na cidade que alcança até os coveiros e faz fantasmas atuantes seis mortos – insepultos por falta de mão de obra.
Na história, os tais mortos perambulam por ruas e casas, descobrindo e apontando vilanias, maldades e desgraças de impolutos moradores. O mau cheiro exalado pelos corpos mortos é alegoria da podridão moral da cidade.
Erico Veríssimo fez sátira política contundente. Tragicomédia corajosa que, mesmo lançada em plena ditadura militar, abordou temas como tortura, corrupção, clientelismo e coronelismo. Coisas tão a gosto de parte da gente brasileira.
Cinquenta anos depois, qualquer semelhança é só retrato de um Brasil que não muda. Mexe e remexe para cair no mesmo lugar.
Tão repetitivo que, no final de semana, fez veículos de imprensa brasileira retomarem comportamento de 1983/84, quando ignoraram a campanha das Diretas Já. Movimento apartidário, levou multidões às ruas em favor de eleições diretas para presidente da República e pelo fim da ditadura militar, que agonizava, mas não largava o osso.
Agora, ignoraram as grandes manifestações nas ruas contra o governo do inominável genocida mais famoso da história brasileira, e por vacinas já.
O povo esteve nas ruas. Apesar da pandemia. Apanhou muito da PM em Recife. Mais uma vez, jornais e TVs não contaram que viram. No futuro farão mea culpa. Como costumam fazer. São repetitivos contumazes.
No outono, os dias são mais curtos, as noites longas o suficiente para a conspiração da vez – empurrar goela abaixo do combalido Brasil a Copa América, trazendo atletas e vírus com suas novas cepas para o triste picadeiro nacional.
Seis meses para decidir a compra de vacinas. Uma madrugada para dar sim a Conmebol. Cartolagem.
Venham. São bem vindos. Estamos fazendo o possível e o impossível para matar mais do que Idi Amin Dada – e em tempo bem mais curto.
segunda-feira, 31 de maio de 2021
#Fora Bolsonaro
Mais de uma centena de pedidos de impeachment, dois processos já em fase de análise no Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia, uma queixa-crime e representações diversas enviadas à Procuradoria-Geral da República. A quantidade de procedimentos contra o presidente Jair Bolsonaro – a maioria relativa à pandemia – bate todos os recordes. De um lado demonstra que, embora as limitações impostas pelo vírus tenham inibido manifestações de ruas, há mobilização real contra o mandatário. De outro, aponta o perigo da descrença nas instituições diante da lentidão ou simples engavetamento dos processos.
Esse talvez seja o papel mais importante da CPI da Pandemia. Assegurar ao cidadão, atropelado cotidianamente pelos impropérios de Bolsonaro, que há saídas legais para punir aqueles que mentem, enganam e atentam contra a vida. De pouca valia terá a exibição de testemunhos, das incongruências e mentiras deslavadas, se a Comissão se limitar à culpabilidade já sabida sem indicar punição.
Desde a redemocratização, todos os presidentes sofreram pedidos de impeachment. Fernando Collor renunciou antes de o Senado concluir a votação de sua cassação. Fernando Henrique Cardoso teve 24 representações contra ele; Lula, 37; Dilma Rousseff, 68, sendo afastada por crime de responsabilidade; e Michel Temer, 31. Em dois anos e meio, Bolsonaro já colhe 118 na Câmara, protocoladas por mais de 500 organizações da sociedade civil, com milhares de assinaturas de endosso.
Esse talvez seja o papel mais importante da CPI da Pandemia. Assegurar ao cidadão, atropelado cotidianamente pelos impropérios de Bolsonaro, que há saídas legais para punir aqueles que mentem, enganam e atentam contra a vida. De pouca valia terá a exibição de testemunhos, das incongruências e mentiras deslavadas, se a Comissão se limitar à culpabilidade já sabida sem indicar punição.
Desde a redemocratização, todos os presidentes sofreram pedidos de impeachment. Fernando Collor renunciou antes de o Senado concluir a votação de sua cassação. Fernando Henrique Cardoso teve 24 representações contra ele; Lula, 37; Dilma Rousseff, 68, sendo afastada por crime de responsabilidade; e Michel Temer, 31. Em dois anos e meio, Bolsonaro já colhe 118 na Câmara, protocoladas por mais de 500 organizações da sociedade civil, com milhares de assinaturas de endosso.
O real adversário de Lula não é Bolsonaro
As bandeiras vermelhas das manifestações de esquerda no sábado passado podem ter feito Jair Bolsonaro sorrir, mas é preciso entender que a polarização de 2022 não será a mesma de 2018. Se na última eleição presidencial boa parte dos eleitores de Jair Bolsonaro tapou o nariz e votou nele, para evitar a volta do PT ao poder, na próxima esses mesmos eleitores devem tapar o nariz e votar em Lula, para impedir que Jair Bolsonaro permaneça no Palácio do Planalto. Ou dividir-se votando massivamente em branco ou nulo, o que deverá ajudar o petista. Há ainda um primeiro turno no meio do caminho do atual presidente, e ele pode até mesmo não passar ao segundo tempo no qual Lula já está garantido, visto que muita gente que votou em Jair Bolsonaro em 2018 poderá votar num terceiro nome que não significará necessariamente uma terceira via.
Não serão petistas ou bolsonaristas que definirão o resultado no ano que vem. Será o eleitorado que, na falta de um candidato com ar de novidade que se mostre viável até o início do ano que vem, acostumou-se a oscilar entre o que fede mais e o que fede menos. E Jair Bolsonaro fede muito mais, porque fede a mortes, enquanto o cheiro da corrupção e lavagem de dinheiro de Lula está se tornando cada vez mais rarefeito. Trata-se de constatação.
O chefão petista é muito mais esperto do que o oponente. Por trás das bandeiras vermelhas, há articulação intensa com políticos de todos os matizes e grandes empresários — entre eles, os mesmos que tentam segurar Paulo Guedes, elogiando algumas ações suas em público, não para agradar a Jair Bolsonaro, mas por entender que, sem o ex-super ministro da Economia na Esplanada, a situação poderia degringolar de vez. É preciso entregar um país não completamente arruinado ao ex-condenado. A divulgação do encontro dele com Fernando Henrique Cardoso é só a ponta do iceberg.
Enquanto Jair Bolsonaro aposta no antilulismo, com discurso extremado como se a polarização fosse a mesma de 2018, Lula aposta no antibolsonarismo, com discurso afável, pouco ideologizado, de “união nacional”, porque sabe que a polarização em 2022 será outra, a do extremismo versus “polo democrático”, e que o seu cheiro de ralo já não incomodará tanto, visto que o cheiro de morte do oponente já é bem mais acentuado. De qualquer forma, Jair Bolsonaro não saberia e não poderia fazer diferente: é um sujeito de inteligência limitada e enveredou pelo caminho sem volta da sociopatia. O atual presidente não é o real adversário de Lula, apesar da retórica do chefão petista. O real adversário de Lula é um nome forte que represente uma alternativa honesta e racional a ele. Mas esse nome ainda não existe e não se sabe se existirá a tempo.
Não serão petistas ou bolsonaristas que definirão o resultado no ano que vem. Será o eleitorado que, na falta de um candidato com ar de novidade que se mostre viável até o início do ano que vem, acostumou-se a oscilar entre o que fede mais e o que fede menos. E Jair Bolsonaro fede muito mais, porque fede a mortes, enquanto o cheiro da corrupção e lavagem de dinheiro de Lula está se tornando cada vez mais rarefeito. Trata-se de constatação.
O chefão petista é muito mais esperto do que o oponente. Por trás das bandeiras vermelhas, há articulação intensa com políticos de todos os matizes e grandes empresários — entre eles, os mesmos que tentam segurar Paulo Guedes, elogiando algumas ações suas em público, não para agradar a Jair Bolsonaro, mas por entender que, sem o ex-super ministro da Economia na Esplanada, a situação poderia degringolar de vez. É preciso entregar um país não completamente arruinado ao ex-condenado. A divulgação do encontro dele com Fernando Henrique Cardoso é só a ponta do iceberg.
Enquanto Jair Bolsonaro aposta no antilulismo, com discurso extremado como se a polarização fosse a mesma de 2018, Lula aposta no antibolsonarismo, com discurso afável, pouco ideologizado, de “união nacional”, porque sabe que a polarização em 2022 será outra, a do extremismo versus “polo democrático”, e que o seu cheiro de ralo já não incomodará tanto, visto que o cheiro de morte do oponente já é bem mais acentuado. De qualquer forma, Jair Bolsonaro não saberia e não poderia fazer diferente: é um sujeito de inteligência limitada e enveredou pelo caminho sem volta da sociopatia. O atual presidente não é o real adversário de Lula, apesar da retórica do chefão petista. O real adversário de Lula é um nome forte que represente uma alternativa honesta e racional a ele. Mas esse nome ainda não existe e não se sabe se existirá a tempo.
Monólogo para um depredador ambiental
Depois de mim,
o aquecimento global,
o derretimento das geleiras,
as inundações,
os furacões,
os tufões,
as chuvas ácidas,
o desflorestamento,
a savanização,
mais extinção de espécies,
mais doenças transmitidas por
insetos,
mais epidemias,
mais pandemias,
mais câncer,
mais fome,
mais crianças esqueléticas
vagando nos lixões.
o aquecimento global,
o derretimento das geleiras,
as inundações,
os furacões,
os tufões,
as chuvas ácidas,
o desflorestamento,
a savanização,
mais extinção de espécies,
mais doenças transmitidas por
insetos,
mais epidemias,
mais pandemias,
mais câncer,
mais fome,
mais crianças esqueléticas
vagando nos lixões.
Alcides Ribeiro Soares
A inconstitucionalidade como tática
Não há nada de anormal em que, vez por outra, haja alguma tensão nas relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário. A autonomia de cada Poder não é absoluta, cabendo aos outros promover ou restabelecer o equilíbrio. Fundamento da separação dos Poderes, essa dinâmica de freios e contrapesos é o cerne do sistema proposto por Montesquieu.
O presidente Jair Bolsonaro tem, no entanto, se valido desse sistema de controle para uma nefasta manobra. O objetivo tem sido fustigar o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de atos acintosamente inconstitucionais.
A manobra se dá da seguinte forma. O governo Bolsonaro propõe ações judiciais ou edita atos que, desde o início, já se sabe que o Supremo rejeitará, em razão de manifesta inconstitucionalidade. O objetivo, no entanto, não é obter o que foi pedido. O que se quer é a decisão negativa do Judiciário.
Depois, esse conjunto de decisões judiciais contrárias ao governo Bolsonaro – afinal, não se trata apenas de uma ação manifestamente inconstitucional, mas de uma série de medidas contrárias à Constituição – é usado como desculpa para a incompetência do próprio governo. A mensagem de irresponsabilidade é simples: o presidente Jair Bolsonaro tenta fazer o bem para o País, mas o Supremo não deixa.
Exemplo dessa tática é a mais nova manobra do presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia. A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou o Supremo para questionar as medidas de restrição dos governadores de Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Norte.
O tema é pacífico. A Constituição prevê a competência compartilhada da União, Estados e municípios em relação à saúde pública.
Além disso, o Supremo, no primeiro semestre de 2020, já reconheceu que governadores e prefeitos podem decretar restrições para conter a pandemia. Ou seja, não há nenhuma dúvida sobre qual será a decisão do STF em relação à nova ação da AGU, mas mesmo assim – ou melhor, precisamente por isso – o governo Bolsonaro acionou o Supremo.
Outro ato para fustigar o Supremo diz respeito ao decreto, anunciado pelo Executivo federal, sobre as redes sociais. Sob o pretexto de regulamentar o Marco Civil da Internet, o presidente Jair Bolsonaro deseja proibir que as redes sociais excluam publicações ou suspendam perfis que contrariem as normas dessas plataformas.
As redes sociais não podem ser passivas no combate à desinformação. É crescente a percepção de que – para a saúde pública, para o livre debate de ideias e para a própria democracia – as redes sociais não podem ser um espaço sem lei.
O presidente Jair Bolsonaro promete, no entanto, fazer o exato oposto, impedindo que as redes sociais zelem pelos respectivos ambientes virtuais e pela validade de suas regras. É óbvio que um decreto com tal conteúdo não tem como prosperar no Supremo, por manifesta ilegalidade e inconstitucionalidade. Mas isto é o que Jair Bolsonaro deseja: mais um pretexto para dizer a seus apoiadores que ele defendeu – e o Supremo negou – a liberdade de expressão.
Uma terceira medida sem a menor viabilidade, mas que por isso mesmo Jair Bolsonaro vem dedicando cada vez mais energia, é o voto impresso. O STF já declarou que é inconstitucional, pelos riscos de manipulação e pela desproporção do custo econômico, a obrigatoriedade da impressão de registros de votos depositados de forma eletrônica na urna. Na decisão, o Supremo lembrou que não há nenhum indício de fraude nas urnas eletrônicas. A fraude existia antes, quando se utilizava cédula de papel nas eleições.
A inviabilidade do voto impresso pouco importa, no entanto, a Jair Bolsonaro. Seu objetivo é disseminar a desconfiança no sistema eleitoral, para que possa apresentar sua eventual derrota eleitoral como resultado de um complô contra ele – um complô com a participação do Supremo.
O uso do aparato público – em última análise do dinheiro público – para produzir continuamente inconstitucionalidades não é apenas uma afronta ao Supremo. É um deboche com a Constituição e um vil insulto à Nação.
O presidente Jair Bolsonaro tem, no entanto, se valido desse sistema de controle para uma nefasta manobra. O objetivo tem sido fustigar o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de atos acintosamente inconstitucionais.
A manobra se dá da seguinte forma. O governo Bolsonaro propõe ações judiciais ou edita atos que, desde o início, já se sabe que o Supremo rejeitará, em razão de manifesta inconstitucionalidade. O objetivo, no entanto, não é obter o que foi pedido. O que se quer é a decisão negativa do Judiciário.
Depois, esse conjunto de decisões judiciais contrárias ao governo Bolsonaro – afinal, não se trata apenas de uma ação manifestamente inconstitucional, mas de uma série de medidas contrárias à Constituição – é usado como desculpa para a incompetência do próprio governo. A mensagem de irresponsabilidade é simples: o presidente Jair Bolsonaro tenta fazer o bem para o País, mas o Supremo não deixa.
Exemplo dessa tática é a mais nova manobra do presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia. A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou o Supremo para questionar as medidas de restrição dos governadores de Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Norte.
O tema é pacífico. A Constituição prevê a competência compartilhada da União, Estados e municípios em relação à saúde pública.
Além disso, o Supremo, no primeiro semestre de 2020, já reconheceu que governadores e prefeitos podem decretar restrições para conter a pandemia. Ou seja, não há nenhuma dúvida sobre qual será a decisão do STF em relação à nova ação da AGU, mas mesmo assim – ou melhor, precisamente por isso – o governo Bolsonaro acionou o Supremo.
Outro ato para fustigar o Supremo diz respeito ao decreto, anunciado pelo Executivo federal, sobre as redes sociais. Sob o pretexto de regulamentar o Marco Civil da Internet, o presidente Jair Bolsonaro deseja proibir que as redes sociais excluam publicações ou suspendam perfis que contrariem as normas dessas plataformas.
As redes sociais não podem ser passivas no combate à desinformação. É crescente a percepção de que – para a saúde pública, para o livre debate de ideias e para a própria democracia – as redes sociais não podem ser um espaço sem lei.
O presidente Jair Bolsonaro promete, no entanto, fazer o exato oposto, impedindo que as redes sociais zelem pelos respectivos ambientes virtuais e pela validade de suas regras. É óbvio que um decreto com tal conteúdo não tem como prosperar no Supremo, por manifesta ilegalidade e inconstitucionalidade. Mas isto é o que Jair Bolsonaro deseja: mais um pretexto para dizer a seus apoiadores que ele defendeu – e o Supremo negou – a liberdade de expressão.
Uma terceira medida sem a menor viabilidade, mas que por isso mesmo Jair Bolsonaro vem dedicando cada vez mais energia, é o voto impresso. O STF já declarou que é inconstitucional, pelos riscos de manipulação e pela desproporção do custo econômico, a obrigatoriedade da impressão de registros de votos depositados de forma eletrônica na urna. Na decisão, o Supremo lembrou que não há nenhum indício de fraude nas urnas eletrônicas. A fraude existia antes, quando se utilizava cédula de papel nas eleições.
A inviabilidade do voto impresso pouco importa, no entanto, a Jair Bolsonaro. Seu objetivo é disseminar a desconfiança no sistema eleitoral, para que possa apresentar sua eventual derrota eleitoral como resultado de um complô contra ele – um complô com a participação do Supremo.
O uso do aparato público – em última análise do dinheiro público – para produzir continuamente inconstitucionalidades não é apenas uma afronta ao Supremo. É um deboche com a Constituição e um vil insulto à Nação.
Assinar:
Postagens (Atom)



















