quarta-feira, 3 de março de 2021

Adeus à razão

A irresponsabilidade do governo federal, secundado por boa parte dos estaduais, beira o absurdo. São mais de 250 mil mortos, nenhuma previsão de melhora e discussões bizantinas sobre alternativas inexistentes, como a da escolha entre vacina ou trabalho, como se fossem excludentes. Enquanto não houver vacinação maciça não haverá volta à normalidade.

Os limites da racionalidade são testados diariamente, como se a destruição fosse inevitável, seja da saúde coletiva, seja dos fundamentos da economia. Há, atuante, o que Freud chamava de pulsão de morte, Tânatos, que age “livremente” sem nenhuma contenção. Ou, em linguagem bíblica, a devastação atingindo pessoas, corroendo a saúde e produzindo a miséria. Será esse o nosso destino? Um ano já se foi, o de 2020, o outro começa a ir-se. E discutem-se as eleições de 2022!

A incompetência – A incompetência é o lado mais visível da devastação. Não há vacinas, não há insumos para a sua produção, não há leitos de UTI suficientes, não há oxigênio em algumas cidades. Boa parte do ano foi gasta com declarações inúteis sobre vacinar ou não, como se a vida do outro pudesse ser objeto de escolha. Todas as opções feitas foram erradas, com a exceção do governador João Doria, que tomou a iniciativa de comprar e produzir vacinas, a dita chinesa, que o presidente, enfim, depois de muita tergiversação, decidiu “nacionalizar”. No momento de tomar iniciativas meses atrás, demitiu ministros que tinham noção da gravidade da situação e os substituiu por um que só obedece, dando tempo para o vírus produzir os seus efeitos. Ode à irracionalidade.

A destruição – O resultado é a destruição. Vidas são perdidas, o medo da morte se generaliza, as pessoas se perguntam pelo amanhã, anseiam pela volta de uma normalidade perdida. E a perda se reflete no emprego, no nível de vida, na miséria hoje vivida por boa parte da população. Se o auxílio emergencial vier – e deveria moralmente vir –, parece que o será por razões eleitorais, e não por compaixão ao próximo. As autoridades responsáveis deveriam mostrar um mínimo de moralidade, de preocupação com o outro, e não se ater a coisas da política mais comezinha, cargos, privilégios e ausência de postura. E não apenas na ordem sanitária a pulsão de morte está presente, mas também no abalo da economia, na irresponsabilidade fiscal, na ausência de alternativas. Quanto mais o País afunda, mais é dito que tudo é fruto de más notícias, da imprensa e da mídia tradicional, como se dizer a verdade, expor o que está realmente acontecendo, fosse o maior dos males. Bem e mal trocaram da posição.

A poção mágica – O País regrediu a rituais mágicos. Enquanto a devastação progride e a morte se alastra, foi-nos oferecido uma poção mágica, coquetel de medicamentos inúteis para o tratamento da covid-19. Deu-se até um nome a isso, “tratamento precoce”. De tratamento não tem nada e de precoce só a enganação. Voltamos a um mundo medieval de drogas milagrosas com mercadores ambulantes que tudo prometem e nada fazem senão vagar para o próximo embuste. Milhões de reais foram gastos com a tal da cloroquina, que foi distribuída a Estados e municípios, como se algo estivesse sendo feito. Para vacina, nada; para a poção mágica, tudo! Guarda-se a aparência de ciência, transgredindo todos os seus critérios e protocolos. O Brasil tornou-se uma ilha de insanidade no mundo!

A emulação – Governantes devem dar o exemplo, que se multiplica no comportamento dos seus cidadãos. Bons exemplos produzem atitudes correspondentes; maus comportamentos criam os seus próprios. Se a ciência é desprezada ostensivamente, ganha curso um vale-tudo na população. Se o presidente não usa máscara, sendo a autoridade máxima, por que o cidadão comum haveria de fazê-lo? Se recomenda a poção mágica, por que as pessoas não deveriam tomá-la? Se não respeita aglomerações, por que as pessoas ficariam reclusas e separadas umas das outras? O bolsonarismo encarna precisamente esse tipo de comportamento, propagando a destruição como se fosse a nova normalidade, o que foi chamado de “nova política”. Essa forma de congraçamento no desprezo do outro, na ausência de solidariedade, tem o seu contrapeso na identificação com o líder e na fraternidade dos companheiros na pulsão de morte.

O juízo final – O espetáculo é aterrador. O vírus avança, sem limites, “contente da vida”, encontrando nos humanos a sua melhor forma de reprodução. Ele encontra uma “solidariedade” do avesso nos governantes que lhe deixam agir livremente, como se a liberdade fosse a devastação generalizada. Tânatos se propaga, enquanto as pessoas festejam nas ruas e praias, em bares e cafés, como se nada mais restasse senão dançar e cantar antes que a destruição encontre o seu ápice. A imagem bíblica que vem à mente é a de uma espécie de juízo final se aproximando, como se nada mais pudesse ser feito, como se nada mais fosse digno de esperar, como se ainda fosse possível uma “imunidade de rebanho”, na verdade um rebanho de humanos tomados pela insanidade.

terça-feira, 2 de março de 2021

Cemitério nacional

Em seu célebre discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, em 1954, Albert Schweitzer achou necessário despertar o mundo das ilusões do pós-guerra. “Todos nós devemos nos dar conta de que somos culpados de desumanidade. Todos nós”, informou à nobilíssima plateia o humanista, médico e teólogo cuja reverência pela vida era absoluta. Alguém, hoje, lhe daria ouvidos ou aceitaria o convite à reflexão? Difícil. Estamos ao mesmo tempo paralisados e ocupados demais em não morrer de Covid-19. Quanto aos que ostentam como honraria seu desdém pela mortandade alheia, uma não menos célebre sacada de Voltaire cabe melhor: “Quem consegue convencê-lo a acreditar em absurdos é capaz de fazê-lo cometer atrocidades”.

A tragédia do Brasil atual extrapola até mesmo a máxima voltairiana: temos na Presidência alguém que não apenas acredita (ou finge acreditar) em absurdos, como ele próprio comete atrocidades em série. Seus áulicos contribuem ao cometer outros tantos, criam terreno fértil para a irresponsabilidade coletiva nacional, e o mundo digital explode num ódio de raiz. “Estão vacinando macaco antes de vacinar gente”, dizia a mensagem recebida pela primeira brasileira a tomar a vacina, Mônica Calazans. Entrevistada no “Globo Repórter” desta semana, a enfermeira negra contou que as mensagens de ódio foram múltiplas.

Impenetrável à razão e à civilização, essa turma acaba afetando os demais. Como resultado, estamos num país-cemitério que não dá conta de seus cidadãos ainda vivos e já enterrou mais de 252 mil contaminados pelo vírus. Talvez a causa mortis devesse ser atestada por inteiro: Covid-19 + falta de vacina + colapso do valente SUS + negacionismo oficial + roubalheira geral + inércia do Congresso + inadimplência moral +... A lista seria por demais extensa, se nominal. Na verdade, a desqualificação do general e titular da Saúde, Eduardo Pazuello, o torna quase inimputável, de tão aberrante. A seu abissal despreparo, soma-se uma deliberada intenção de desinformar e camuflar o pânico — como se fosse possível esconder 1 morto de Covid-19 por minuto, a cada dia. Incapaz de responder às perguntas mais gritantes da imprensa, Pazuello sobrevive à base de pronunciamentos e proclamações à nação, todas sem nexo.


Já o papel de Jair Bolsonaro na devastação humana atingiu um patamar sem volta. Será julgado pela História, o que não lhe importa. Ser condenado pelo Brasil pensante até o alimenta. E ser amaldiçoado por pais, filhos e netos, parentes e dependentes, amigos e colegas dos que não precisariam morrer parece lhe ser indiferente. O presidente é um humano esquisito. Parece feito de um material impermeável à dor alheia. “A verdade é que ninguém chega impunemente a presidente da República”, lascou o Stanislaw Ponte Preta em tempos mais inocentes. Bolsonaro consegue superar a verve de Sérgio Porto: além da sombria bagagem que trouxe para a Presidência, ensandeceu no poder.

Difícil explicar de outra forma sua live semanal da quinta-feira, 25. Naquele dia o Brasil ultrapassara a montanha de 250 mil mortos por Covid-19 em um ano e chegara ao patamar mais alto da contagem diária de óbitos: 1.582. Ouvir o presidente tagarelar sandices contra o uso de máscaras e o isolamento social, naquele seu tom informal salpicado de algo parecido com um ricto/riso, foi horrendo. Foi obsceno.

Dias atrás o crítico de arte do “New York Times” Michael Kimmelman evocou o impacto mundial de uma célebre mostra de fotografia do pós-Segunda Guerra para falar sobre a dificuldade de retratar a atual pandemia. Ele se referia à monumental exposição “The Family of Man”, inaugurada em 1955 no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ela foi vista por 9 milhões de pessoas e circulou pelo mundo ao longo de 7 anos. O curador da mostra — ninguém menos que Edward Steichen — selecionara 503 imagens de 68 países para retratar a universalidade da experiência humana e o papel da fotografia na documentação da nossa história.

A família humana de hoje que sobreviverá à Covid-19 ainda não tem uma imagem-ícone capaz de traduzir o medo, o vazio urbano, o horror do isolamento afetivo, a falência física, a morte por asfixia, o silêncio. Não existe o instantâneo imortal do homem em queda das Torres Gêmeas em chamas, nem a foto do menino Alan Kurdi, inerte em areia estrangeira, como símbolo do drama dos refugiados. Do nosso inimigo comum, o vírus, temos apenas uma versão estilizada em forma de bola de tênis com pregos, como já escreveu Helen Lewis na revista “The Atlantic”. As máscaras e equipamento hospitalar radical das equipes médicas já faziam parte de nosso vocabulário visual como sinônimo de higiene e segurança. Não dão conta do recado. E Lewis insiste ser obrigatório encontrarmos a linguagem certa de retratar esta pandemia, porque precisamos relembrar coletivamente o que vivemos. Aguardemos.

A galeria de cúmplices do vírus, contudo, já tem seus nomes de ponta. Disporá de um farto portfólio do presidente brasileiro espalhando a morte.

Pensamento do Dia

 


Missão de Bolsonaro é revelar que inferno existe

O Brasil sempre foi o mais antigo país do futuro do planeta. Sob Bolsonaro, isso está mudando. Antes, o Brasil era mundialmente conhecido como o país do jeito para tudo. De repente, passou a ser visto como um país que não tem jeito.

O Brasil equilibrou-se por tanto tempo na beirada do vácuo que acreditou que o abismo, a exemplo do inferno da escatologia cristã, era mais uma ficção admonitória do que a realidade de uma crise terminal. A ficção tornou-se real.

Sumiu a ideia de que o Brasil está à beira do abismo. O país experimenta a vivência do abismo. No buraco, contabiliza há 37 dias uma média de mais de mil cadáveres a cada 24 horas. Chora os mais de 250 mil mortos em um ano de pandemia.

Absorvido pela celebração ou execração do bicampeonato do Flamengo, o brasileiro demora a notar que o Brasil morre junto com as vítimas do vírus. E, suprema desgraça, o país ainda não foi para o céu.

Bolsonaro se autoimpôs a missão revolucionária de revelar ao Brasil que o inferno existe. Ele não dispõe de um plano de ação. Tem apenas um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."



A verdade que interessa a Bolsonaro, presidente "imbrochável", é a mais profunda. Mesmo que as profundezas enlouqueçam o Brasil. Na sua busca por uma verdade sem limites, o presidente comanda o governo do não-planejamento.

Bolsonaro é a síntese do erro total. Ele faz o pior o melhor que pode. Nas últimas 48 horas, criticou o uso de máscaras e o isolamento social. Recusa-se a cometer erros novos. É como se quisesse provar que é errando que se aprende... a errar.

Contra as máscaras, Bolsonaro esgrimiu uma enquete mequetrefe como se fosse o estudo de uma universidade alemã. Contra o isolamento, disse que uma nova rodada de auxílio emergencial deveria ser bancada não pela União, mas por governadores e prefeitos malvados que pregam o lema do "fiquem em casa".

Uma morte é uma fatalidade. Meia dúzia, uma tragédia. Mais de 250 mil, para Bolsonaro, é apenas mais uma estatística. Quando havia mil mortos, Bolsonaro falou em "gripezinha". Aos 5 mil, queixou-se da "histeria".

Quando perguntaram a Bolsonaro sobre os 10 mil corpos, disse "não sou coveiro". Na marca de 20 mil, perguntou: "E daí?". Aos 30 mil mortos, declarou que "todo mundo morre um dia".

No recorde de 40 mil, Bolsonaro fez um convite: "Invadam hospitais e filmem leitos vazios". Com 50 mil mortos, continuava assegurando que "a hidroxicloroquina salva". Na ultrapassagem dos 100 mil cadáveres, declarou "vamos tocar a vida".

Agora, às voltas com mais de 250 mil mortos, Bolsonaro continua soando como Bolsonaro. Depois de tantas frases perversas, de Pazuello, de conspiração antivacina... depois de tantas barbaridades, não resta ao brasileiro senão enfrentar a tragédia.

Bolsonaro não é o problema do Brasil. O país é que é o problema dele. É possível enxergar um lado positivo na crise que Bolsonaro potencializa, mesmo que seja necessário procurar um pouco. Devagarinho, o caos transforma o Brasil num lugar perfeito para a construção de algo inteiramente novo.

Geração virótica marca 'Bozo'

Há a perspectiva de que vamos sair da pandemia aguda para entrar na pandemia crônica. Ou seja, vamos ter debates sobre atualização de vacinas, fluxo de novas cepas. E haverá a preocupação do surgimento de novos vírus. E aí entra a questão do meio ambiente. Quanto mais a gente entra nos habitats naturais, onde estão os repositórios naturais destes vírus, mais a humanidade fica exposta, de modo geral, ao contato de novos vírus. As atenções, em relação ao Brasil, vão estar cada vez mais voltadas ao desmatamento na Amazônia. Não se trata apenas de uma questão climática, tem a questão pandêmica. Está cheio de repositório viral na Amazônia. O Brasil será visto não apenas como um país que não conseguiu controlar sua pandemia, atrasou na vacinação, mas como um país que está colocando o resto da Humanidade em risco, se continuar com as atuais políticas ambientais. 
Monica de Bolle,  economista especializada em imunologia genética pela Universidade de Harvard e integrante do Observatório Covid

Quem desconhece o passado é incapaz de enxergar o futuro

Que país é este onde a Independência foi proclamada por um estrangeiro e a República por um general monarquista? Onde um presidente se suicida para não ser deposto, outro renuncia na esperança de voltar nos braços do povo e não volta, e um terceiro baixa ao hospital 24 horas antes de tomar posse e morre?

Que país é este onde militares cancelam a democracia a pretexto de defendê-la, implantam uma ditadura que dura 21 anos, expulsam do Exército um capitão que planejara atentados a bomba a quartéis, e depois de marginalizá-lo por décadas o ajudam a se eleger presidente da República, a governar e a comandá-los?


Que país é este onde a maior parte do povo, ou parte expressiva dele, ameaçada de morte por um vírus há mais de ano, dá ouvidos e poderá em breve dar seus votos para reeleger um presidente que só faz mentir desde que assumiu o cargo, e que prefere sacrificar vidas a reconhecer e corrigir a tempo os erros que comete?

Que país é este onde a assaz louvada maior operação de combate à corrupção jamais vista no mundo desmorona à luz da descoberta de que seus condutores violaram princípios do Direito aprendidos nos bancos escolares e ultrapassaram limites impostos pelas leis que tinham a obrigação de respeitar com o máximo rigor?

Este país é o nosso, que se dizia antigamente o país do futuro, há séculos dividido entre os poucos ricos e os milhões de pobres, entre os brancos que ocupam os postos mais elevados na órbita dos poderes e os pretos contados que conseguem chegar lá, entre os que toleram o intolerável e os que a ele resistem a duras penas.

A decepção com Bolsonaro

O desapontamento com o governo Bolsonaro não é um fato novo. Há quem tenha se desencantado com Jair Bolsonaro em razão, por exemplo, da saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça em abril de 2020. Na ocasião, o ex-juiz da Lava Jato relatou tentativas de interferência por parte do presidente na condução da Polícia Federal. O episódio levou a que muita gente revisse sua ideia sobre a suposta carta branca que Jair Bolsonaro teria dado a Sérgio Moro para o combate à corrupção.

Na semana passada, a interferência de Jair Bolsonaro na presidência da Petrobrás produziu uma nova onda de decepção. Além dos efeitos devastadores sobre a empresa, com prejuízos muito concretos para as centenas de milhares de acionistas minoritários, a ordem para mudar a chefia da empresa consolidou a percepção de que Jair Bolsonaro não tem nenhum compromisso com a agenda liberal proposta na campanha de 2018. Não há mais nem mesmo o cuidado de manter as aparências.

Sempre houve bons motivos para desconfiar da adesão de Jair Bolsonaro a uma pauta de reformas. Basta pensar, por exemplo, que, por mais de duas décadas, a atuação do ex-capitão na Câmara dos Deputados foi oposta a todo o conjunto de reformas anunciado por Paulo Guedes na campanha eleitoral do então candidato do PSL à Presidência da República.


O fato, no entanto, é que muita gente confiou em Jair Bolsonaro: em sua disposição e capacidade de promover uma profunda mudança liberal no Estado brasileiro. A ideia era a de que, sob a batuta de Paulo Guedes, haveria um choque de gestão. O déficit fiscal acabaria, muitas privatizações seriam feitas, o poder público seria mais eficiente e o ambiente de negócios sofreria uma revolução.

“Quando candidato, Bolsonaro falava em privatização, e o ministro Guedes, que é liberal, defendia a tese da redução do tamanho do Estado. Me senti motivado a deixar meus negócios para contribuir com isso”, disse o empresário Salim Mattar ao Estado. De janeiro de 2019 até agosto de 2020, Salim Mattar foi o secretário especial de Desestatização e Privatização do Ministério da Economia.

Hoje, ao falar daquele sonho liberal, Salim Mattar não esconde sua decepção. “O ministro Guedes é resiliente, obstinado e determinado, mas não percebeu que foi vencido. Por exemplo, há quanto tempo a história da Eletrobrás está no Congresso e não consegue autorização?” Como se sabe, a resistência à venda da Eletrobrás não vem apenas do Legislativo. Até a edição da MP 1.031/21, Jair Bolsonaro tinha colocado mais condições do que defendido sua privatização.

Ao avaliar o panorama atual do País, citando, entre outros pontos, o episódio do deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ) e a mudança no comando da Petrobrás, Salim Mattar não é otimista. “Nós perdemos o foco como país, não vai dar certo, não tem jeito de dar certo. O País precisa de foco para aquilo que é importante para o cidadão”, disse.

Paulo Uebel também não esconde sua decepção com os rumos do governo federal. Segundo o ex-secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia, mais do que simplesmente não promover as reformas, o presidente Jair Bolsonaro segue o caminho das administrações petistas. “Isso (a interferência na política de preços da Petrobrás) é uma mudança que vai contra o que foi aprovado nas urnas e aproxima Bolsonaro de práticas que o PT fazia. E isso é o oposto do que o eleitor de Bolsonaro gostaria de ver”, disse Paulo Uebel ao Estado. Em sua avaliação, o resultado da interferência pode ser a “destruição de valor muito grande da empresa, como vimos durante a gestão do PT”.

O abandono de qualquer imagem de governo reformista se dá num momento em que a aprovação de Jair Bolsonaro caiu para 44%, uma queda de oito pontos em quatro meses, de acordo com a pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em parceria com o Instituto MDA. No período, também diminuiu a avaliação positiva do governo (ótimo e bom) de 41% para 33%. Por diferentes motivos – a irresponsável atuação do governo federal na pandemia é apenas um deles –, mesmo os crédulos que confiaram nas promessas liberais e modernizantes de Bolsonaro começam a suspeitar, ora vejam, que foram enganados.

“O povo é carvão para queimar”: o projeto genocida da “gestão” da pandemia no Brasil

“A população precisa acordar para a dimensão da nossa tragédia”, disse o neurocientista Miguel Nicolelis em entrevista publicada pelo jornal O Globo em 26 de fevereiro. Professor catedrático na Universidade de Duke, nos EUA, ele esteve até recentemente à frente do Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a Covid-19 e, como outros cientistas, vem há meses alertando para o risco de colapso no sistema de saúde do Brasil.

Diferentemente do que ocorreu no início da pandemia – e não saem da memória as imagens das valas abertas às pressas em Manaus, em maio do ano passado –, a situação é mais grave agora, porque o colapso pode ser simultâneo, como na metáfora do jogo de dominó em que uma peça vai sucessivamente derrubando as demais. Nicolelis aponta uma sequência de eventos – as eleições municipais em novembro de 2020, as festas de fim de ano, o carnaval, ainda que sem os tradicionais desfiles e bailes oficiais – como “efeitos sincronizadores” que provocaram o caos atual, diante da falta de coordenação para conter a pandemia. “Agora”, diz ele, “tudo está explodindo ao mesmo tempo”. Os hospitais em várias capitais já ultrapassaram o limite de atendimento, há filas de espera para uma vaga nas UTI (Unidades de Tratamento Intensivo).

Como foi possível chegar a esse ponto?

Foi porque, parafraseando o que dizia o antropólogo Darcy Ribeiro a respeito da crise da educação no Brasil, a atual tragédia sanitária não é uma crise, é um projeto. Uma reportagem do El País Brasil em 21 de janeiro mostrou exatamente isso, a partir de um estudo do Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (Cepedisa) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e da Conectas Direitos Humanos, que pode ser consultado aqui.

O estudo apresenta, em ordem cronológica, a série de normas federais relativas à pandemia, as ações de obstrução às iniciativas dos governos estaduais e municipais e o que classifica como “propaganda contra a saúde pública”, que inclui o discurso negacionista e debochado do Presidente da República, a insistência na defesa de medicação preventiva comprovadamente ineficaz e a disseminação de informações falsas a respeito da doença. É um levantamento que expõe “o embate entre a estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática pelo governo federal e as tentativas de resistência dos demais poderes, dos entes federativos, de instituições independentes e da sociedade”.

Exemplo disso foi o veto presidencial, no início de julho do ano passado, a dispositivos da lei que determina medidas de proteção para comunidades indígenas durante a pandemia, entre os quais “o acesso com urgência a seis serviços gratuitos e periódicos (água potável, materiais de higiene e limpeza, leitos hospitalares e de UTIs, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, materiais informativos sobre a covid-19, e internet nas aldeias); a obrigação da União de distribuir alimentos durante a pandemia, na forma de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas; a extensão a quilombolas, pescadores artesanais e demais povos tradicionais das medidas previstas no plano emergencial”. O veto acabou derrubado pelo Congresso Nacional um mês e meio depois.

Foi também o Congresso que se empenhou em aprovar o auxílio emergencial de R$ 600 – correspondente a pouco mais da metade do salário mínimo e equivalente, ao câmbio atual, a cerca de 90 euros –, que Bolsonaro rejeitava mas acabou capitalizando, o que lhe permitiu manter a popularidade apesar do progressivo aumento do número de mortes. Atualmente, o governo está condicionando a renovação desse auxílio, agora reduzido a menos da metade do valor, à aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional que, se não for alterada, degradará ainda mais a saúde e a educação públicas, pois elimina a obrigação ao investimento mínimo estabelecido pela Constituição para esses dois setores. A tragédia sanitária é, assim, usada para aprofundar o programa de destruição de direitos iniciado já no governo Temer, que assumiu em seguida à derrubada de Dilma Rousseff, em 2016.

Ao mesmo tempo em que minimizava a gravidade da pandemia – “gripezinha”, no dizer do presidente –, o governo tentava ocultar os números de doentes e mortos por covid-19, retardando a divulgação dos dados para evitar que fossem noticiados no principal telejornal do país, e passava a anunciar o número de “recuperados”, para investir numa agenda positiva. A imprensa denunciou a manobra e seis dos principais jornais e sites de jornalismo formaram um consórcio para buscar os números da pandemia junto aos governos estaduais.


Desde o início, para evitar tomar medidas que prejudicassem a economia, Bolsonaro investiu firmemente na defesa da cloroquina, tornando-se ele próprio o principal garoto-propaganda do medicamento, que continua a defender, apesar de todos os estudos sérios demonstrarem não só sua ineficácia como o risco de efeitos colaterais graves.

O presidente demitiu sucessivamente dois ministros da Saúde, por contestarem essa orientação, e convocou o general Eduardo Pazuello – mais um entre os vários militares em postos-chave no governo – para assumir a pasta. Foi sob seu comando que, em janeiro deste ano, durante a tragédia de Manaus – onde uma variante do vírus provocou o recrudescimento do índice de infecções e a falta de oxigênio nos hospitais levou a inúmeras mortes por asfixia –, o ministério lançou o aplicativo TrateCOV, que permitiria acelerar o diagnóstico e indicar o tal “tratamento precoce”, e que invariavelmente receitava o “kit Covid” – uma combinação de remédios que incluía a cloroquina – mesmo para quem relatasse uma simples diarreia ou perda de apetite.

O aplicativo não durou nem uma semana e teve de ser retirado do ar, mas o “kit Covid” continua a ser adotado, tanto por médicos quanto por pessoas influenciadas por essa propaganda, convencidas de que estão se protegendo e de que, na dúvida, é melhor fazer alguma coisa do que nada. No dia 23 de fevereiro, oito dos principais jornais do país publicaram um informe publicitário de meia página de um grupo chamado “Médicos pela Vida”, que insistem no tal “tratamento precoce”, usando informações falsas para defender sua tese. É de se indagar por que esses jornais aceitaram abrir espaço para uma publicidade enganosa, se já publicaram tantas notícias em contrário.

Mas a estratégia da aposta no “tratamento precoce” é clara: se para a doença há remédio, se esse remédio pode inclusive prevenir a doença, não há motivo para não se levar uma vida normal. O próprio presidente, ao promover e participar de aglomerações, frequentemente sem máscara, estimula esse comportamento. É preciso “enfrentar o vírus de peito aberto”, “feito homem, pô!”, o Brasil não pode ser “um país de maricas”: o tom é sempre o de um discurso afirmativo, que transmite autoconfiança, baseado na virilidade do macho que não teme o perigo. E depois, como a maioria dos mais jovens não manifesta sintomas, é fácil convencê-los de que não há risco.

Bolsonaro martelou a ideia de que “você não vai desenvolver a doença, então não tem problema”, e esse elogio do individualismo, essa ausência absoluta de preocupação com o outro – porque obviamente uma pessoa assintomática pode transmitir o vírus a quem não terá a mesma resistência – se traduz até hoje em praias, bares e hospitais lotados. Entre os mais pobres, que já vivem aglomerados em moradias exíguas e precárias e se expõem diariamente ao risco de contágio viajando enlatados nos transportes públicos, muitos, sobretudo os mais jovens, não veem motivos para abrir mão de se divertir, nos bailes e festas que costumavam frequentar antes da pandemia.

Então, no mundo todo, começa a surgir a famosa luz no fim do túnel, com a produção de vacinas eficazes em tempo recorde. Mesmo Trump, que no começo também desdenhava da gravidade da situação, sugeria tratamentos esdrúxulos e levantava suspeitas sobre o “vírus chinês”, mudou de atitude diante do desenvolvimento dos imunizantes. Bolsonaro, não. Rejeitou sistematicamente todas as possibilidades de acordo com laboratórios farmacêuticos e levantou suspeitas sobre os terríveis efeitos colaterais que as vacinas poderiam provocar: sabe lá o que estão enfiando aí no seu corpo? Já pensou se você vira jacaré? Nada como mexer com os medos arcaicos do povo ignorante. “Vacina, aqui, não!”, repetiam as pessoas, batendo no braço e olhando fixamente para a câmera, no vídeo que as redes bolsonaristas divulgaram, junto com outro que rejeitava o uso da máscara “em nome da liberdade”.

O Brasil conta com um sistema de saúde pública universal que, apesar de precarizado, é o que tem garantido o atendimento da população durante a pandemia, e tem tradição de vacinação em massa, com dois centros de excelência na produção de imunizantes, a Fiocruz (um órgão federal) e o Instituto Butantan (do estado de São Paulo).

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o país tem 162,8 milhões de habitantes com mais de 18 anos. A capacidade de vacinação do sistema, segundo o sanitarista Gonçalo Vecina Neto, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é de 60 milhões de pessoas por mês.

Não fosse a atuação deletéria do governo federal, o Brasil poderia ter assegurado antecipadamente um estoque de vacinas que permitisse iniciar a imunização da população já em fins do ano passado, e a compra de insumos possibilitaria ampliar rapidamente a produção local, hoje ainda restrita ao esforço do Instituto Butantan, que garantiu 10 dos 12 milhões de doses disponíveis até o momento. No período de um mês – desde o dia 17 de janeiro, quando começou a vacinação no país –, apenas 6,5 milhões de pessoas receberam a primeira dose. Em várias cidades, como o Rio de Janeiro, o calendário divulgado no fim do mês passado teve de ser interrompido, por falta de vacinas.

No início da pandemia – que sempre minimizou como “uma pequena crise”, “uma fantasia” que não era “tudo isso que a grande mídia propala pelo mundo todo” –, Bolsonaro gravou um vídeo em que comparava a situação da covid-19 com a da gripe H1N1. Dizia que menos de 800 pessoas morreram por aquela doença no país no ano anterior e que “a previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus”.

Agora já são mais de 250 mil mortos. A média diária tem oscilado entre os mil e 1.300 e, a 25 de fevereiro, chegou ao recorde de 1.582.

O que fez Bolsonaro nesse dia? Em sua habitual “live” das quintas-feiras, citou “uma universidade alemã” – naturalmente, não disse qual – que teria produzido um estudo sobre os “efeitos colaterais” do uso de máscaras.

A população vai acordar para a dimensão da tragédia? A população está ligada nos paredões do Big Brother, está nas ruas comemorando mais um campeonato do Flamengo. Com um governo que jamais promoveu uma campanha nacional de esclarecimento e, pelo contrário, sempre apostou na desinformação e no caos, é possível pensar que a população acorde? A pilha de cadáveres vai crescendo mas o Brasil é grande demais, são 212 milhões de habitantes, o que significam 250 mil mortos diante disso? As pessoas morrem porque foi a vontade de Deus, porque já iam morrer mesmo, porque todo mundo vai morrer um dia.

Como afirmou Nicolelis em sua entrevista, “o Brasil é o maior laboratório a céu aberto para ver o que acontece com o vírus correndo solto”. Necessitaria decretar uma quarentena nacional urgentemente, por pelo menos três semanas, para tentar conter o caos. Governadores e prefeitos começaram a investir nessa medida, mas Bolsonaro os confrontou com a ameaça de que, nesse caso, eles teriam de se responsabilizar pelo pagamento do futuro auxílio emergencial. Continua a promover aglomerações e a jogar o povo contra a adoção do confinamento, em nome do direito de trabalhar.

Darcy Ribeiro dizia que a elite brasileira, descendente do senhor de engenho que enxergava o escravo como “carvão que se queima para a produção”, se comportava de acordo com essa herança. Via o povo como “carvão para queimar”.

Foi esta elite que apoiou para a presidência do país um deputado que exaltou um torturador ao votar pelo impeachment de Dilma e não se cansa de repetir que seu ofício é matar.

Não admira que, nesta pandemia, o carvão não pare de queimar.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Brasil e as 'variantes'

 


Um órfão chamado Brasil

O Brasil está órfão: sem oxigênio, sem responsável para cuidar do tratamento que precisa, nem tem quem lhe assegure vacina. Não teve um responsável que alertasse com autoridade que a doença era grave. Não recebeu as recomendações preventivas, nem os cuidados no período inicial. O Brasil não teve um responsável que lhe alertasse dos riscos. Ao contrário, ouviu “não fique em casa”, “vá para a rua”, “é uma gripezinha”. O oposto do que dizem pai e mãe preocupados com filho.

O Brasil não teve um responsável, um líder, um governante que o protegesse da doença e estivesse atento para obter e aplicar a vacina. Qualquer pai ou mãe ou tio ou padrinho protege o filho, natural ou adotado, cuida para ele ficar em casa, usar máscara, álcool em gel, e o leva para tomar a vacina. O Brasil não tem quem cuide dele neste momento em que está sofrendo os horrores de uma epidemia. A orfandade não decorre apenas da falta de governante que cuide dele com amor e competência neste momento de epidemia. O atual governante não cuida do presente, nem formula rumos para o futuro.

O Brasil está órfão. Mas a orfandade é anterior. Se o Brasil não fosse órfão antes, não teria preferido o atual governante. Foi o órfão que buscou ser adotado por ele, com o voto de milhões de eleitores descontentes. O Brasil sentia-se abandonado: 12 milhões de analfabetos, 100 milhões sem rede de esgoto, 35 milhões sem água, 12 milhões de desempregados, a mesma concentração de renda e persistência da pobreza de que sofre desde sua origem.


Os moradores da periferia das grandes cidades já estavam órfãos há décadas, os jovens sem perspectiva, as crianças sem escolas de qualidade. Desde a escravidão, a população negra é órfã. Os desempregados, as vítimas de violência, os doentes sem dinheiro, todos são partes do órfão chamado Brasil. Seus líderes o deixaram órfão de ética, diante da corrupção. O Brasil é órfão por falta das reformas em suas estruturas arcaicas, que persistem desde a escravidão.

De todos os erros e crimes cometidos pelos políticos, o mais grave foi não perceber e não agir para impedir que o Brasil escolhesse o atual governo. E agora cometem erro ainda maior ao não apresentar aos eleitores uma alternativa que empolgue, que mereça confiança e mais: que impeça a continuação da orfandade atual. Em vez de reconhecerem os erros e pedirem desculpas aos brasileiros, de se apresentarem unidos com uma proposta alternativa, nossos líderes estão se acusando mutuamente. Parecem imaginar que o erro foi dos eleitores em 2018. Como se o órfão fosse culpado da escolha que fez na busca por quem o adotasse.

Todos que ocupamos cargos ao longo dos 130 anos da República, temos parte de responsabilidade, por omissão, por incompetência ou por corrupção nas prioridades ou no comportamento. Sobretudo, responsabilidade pela eleição do atual governo que aprofunda a orfandade por seu comportamento que nega a ciência, desmoraliza o país no exterior, degrada o meio ambiente, descuida das prioridades do povo, defende o armamentismo e consequente violência, regride no respeito aos direitos humanos, ameaça as conquistas democráticas.

O Brasil precisa de líderes que cuidem dele com novas ideias, propostas e comportamento. Não teria sido difícil acabar com a orfandade do Brasil: bastaria adotar uma geração de suas crianças, de todas as raças, em todos os endereços e de todas as rendas. Esta geração adotada adotaria depois o Brasil com competência e ética. A orfandade do Brasil começa na orfandade como suas crianças pobres são tratadas.

Mas o momento é para levarmos à Presidência alguém comprometido com a continuação das conquistas democráticas das últimas décadas. Para isso, é preciso barrar a marcha ao desastre de mais quatro anos desta orfandade desastrosa. Para isso, os que desejam um novo rumo precisam entender que a hora é de coesão. Em tempo de tormenta, a âncora é mais importante que a bússola e a vela.

Precisamos unir os democratas, já no primeiro turno de 2022, com um candidato que transmita ao eleitor a capacidade de unir e manter as conquistas democráticas e presidir o debate dos candidatos que em 2026 apontarão suas propostas para o eleitor escolher o rumo que o Brasil deve seguir em direção ao futuro democrático, eficiente, justo, sustentável.

Bolsonaro e vida, incompatíveis

O vírus derrubou o mito e o muro.
Nenhuma liderança responsável deve ceder a malabarismos retóricos, ter um pé no governo Bolsonaro e outro na defesa da vida. São incompatíveis
João Doria, governador de São Paulo

De reis mortos e águas vivas

Quando o arqueólogo Ezequiel Nicolau chegou à aldeia de Mantiria, encontrou uma pequena multidão que o saudava num terreiro de areia branca, à sombra da grande mafurreira. Apresentou-se o visitante, explicou a sua intenção. Todos entenderam quem ele era. Ninguém percebeu o que vinha fazer. Sabiam que o doutor estudava os antigamentes. Sim, isso era claro. Mas andar a escavar o chão, isso não tinha cabimento. Abrem-se covas para semear morto, erguer casa, deitar semente. E há um outro serviço: antes que uma vida comece, abre-se no chão uma fenda para deitar as sobras do parto. Agora, esgravatar o chão para desenterrar o tempo? Não cabe na cabeça de ninguém. O homem queria encontrar o passado? Procurasse dentro das pessoas. Escutasse conversas entre os vivos e os mortos. E se tudo isso não servisse, usasse o sonho, que, como todos sabem, é uma pá para escavar lembranças.

Ezequiel Nicolau agradeceu a amabilidade dos aldeões e pediu as devidas licenças. Sabia que no caminho para Mantiria tinha sido enterrado um rei que governara aquela região há mais de dois séculos. Os presentes entreolharam-se, intrigados. Que houvesse um rei sepultado, isso não causava espanto. O que não falta por aí são reis cobertos de terra e esquecimento. A dúvida era outra: como é que o doutor sabia o lugar da sepultura? O arqueólogo tirou da mochila um computador e ergueu-o como num tribunal se exibem as provas de acusação. Explicou como aquele aparelho, sem sair do seu lugar, espreitava, media e fotografava o mundo inteiro. Isso já conhecemos, disse uma mulher. O meu filho trabalha na cidade e prometeu que nos ia enviar uma máquina dessas. Diz ele que está cheia de teclas, mas tira boas fotos, acrescentou a mulher.

E como prevalecesse um sentimento de desconfiança, o chefe da aldeia, Damião Nsala, usou da palavra:
– Não é falta de respeito, meus irmãos. O serviço deste doutor é, faz conta, um coveiro ao contrário.
– Cá para mim, ele é um mineiro disfarçado, comentou um outro. Esse doutor vem roubar as nossas riquezas.
– Não temos nada para ser roubado, comentou uma mulher. Nem por baixo nem por cima do chão.

A conversa demorou toda a manhã, até que o chefe da aldeia proclamou aquilo que ele apresentou como sendo “o consenso geral”. O passado tem donos, disse ele, com solenidade. Neste caso, prosseguiu o chefe, os donos estavam muitíssimo ausentes. Podiam ser chamados, mas isso pedia farinha, bebida e uma cabeça de cabrito.

Susa Monteiro

Na manhã seguinte, toda a aldeia se juntou à espera de que o arqueólogo se apresentasse ao trabalho. E como ele demorasse a sair da tenda, houve quem comentasse: para esses da cidade, a madrugada começa a meio da manhã. Até que viram Ezequiel a emergir na estrada, arrastando duas pás e uma picareta. Assim carregado, o visitante parecia a pessoa mais sozinha do universo. As mãos pesavam-lhe no corpo, os pés pisavam cegamente os capins como se tivesse medo do chão. A aldeia inteira seguiu as passadas do intruso, olhos presos em cada um dos seus gestos. E todos pararam quando ele escolheu um lugar para abrir uma cova.

Mangas arregaçadas o doutor elevou a pá para desajeitadamente a deixar cair, num gesto frouxo, a lâmina resvalando na superfície da terra. Esse homem, disse Damião, não se dá bem com o corpo dele. O chefe da aldeia deu um passo em frente e, sem cerimónias, ergueu a picareta para a afundar vigorosamente junto aos pés do visitante. Começa-se com a picareta, segredou ele ao ouvido do visitante. E os golpes sucederam-se com doce firmeza, como quem, sobre o ventre da terra, decepa um antigo cordão umbilical.

Embaraçado, o doutor entregou a pá a um outro camponês que, de imediato, se juntou à escavação. Sincopadamente, pá e picareta percutiam nas escuras entranhas como se nelas morasse um oculto tambor. Quando a cova começou a ganhar fundura, Damião suspendeu o trabalho para anunciar: aqui, já é ontem. E depois de umas pazadas, voltou a parar e anunciou: agora, chegamos ao depois de ontem.

– O doutor não sente medo?, perguntou Damião ao historiador.
– Medo?
– Medo de encontrar o que tanto procura?, insistiu o chefe da aldeia. É que esse rei vai mandar em si durante o resto da sua vida.
– Já não sobrevive nem poeira daquele que aqui reinou, vaticinou Ezequiel. Uns artefactos é o que irei recolher.
– Não sei, doutor, comentou o chefe. Ninguém morre nunca totalmente.

Escurecia quando o trabalho foi suspenso. Todos regressaram a suas casas. À luz de uma lanterna, Ezequiel Nicolau fazia anotações no seu caderno de viagem, quando sentiu que alguém se aproximava. Abriu o zipe da tenda e espreitou no escuro: um homem alto com uma longa túnica branca sacudia-se como se fosse um fantasma. Vinha receber dinheiro. Não era para ele. Era para uma nova cerimónia com os antepassados.

– Já paguei ao Damião, disse o arqueólogo.
– O Damião só é chefe da parte do dia, esclareceu o visitante. À noite, sou eu que mando.
– Meu caro amigo: sou um cientista do Museu Nacional. Não temos dinheiro nem para pagar salários.
– Nós aqui da aldeia não queremos ser o vosso museu, argumentou o chefe noturno. Que tal se fôssemos abrir buracos lá para a sua rua, na cidade?

Foi então que o arqueólogo Nicolau prometeu solenemente: se a pesquisa viesse a dar resultados, o chefe, aliás os chefes, aliás toda a aldeia, seriam devidamente compensados.

No dia seguinte, todos os aldeões, incluindo o chefe noturno, dedicaram-se a afundar a cova. O arqueólogo travava os ímpetos, recomendava mil cuidados: são delicadas as reminiscências dos antigos reis. De repente, como que por milagre, o fundo da cova encheu-se de água. Escutou-se o murmúrio surdo de um subterrâneo rio assaltando o vazio. Alguém murmurou: vai ver que lhe cortamos uma veia. Ezequiel Nicolau era a imagem da desolação. Tanto esforço para nada. E desabou sob o peso da tristeza. E lembrou-se das palavras da sua velha mãe: há momentos em que Deus ensina quanto o joelho precisa do chão. Quando reergueu o rosto, ele viu, espantado, como os aldeões festejavam. Estava ali, no fundo daquele buraco, aquilo que eles buscavam. O rei, o nosso rei!, gritavam. E todos imitaram o gesto do arqueólogo: ajoelharam-se e deram graças a Deus.

– Que rei?, perguntou o doutor, quase sem voz.
– Esta água, doutor, declarou, eufórico, Damião. Esta água é o rei.

As pessoas cantaram e dançaram usando as enxadas para marcar o compasso. Puxaram pelos braços do arqueólogo e fizeram com que ele partilhasse daquela celebração. Aos poucos, o cientista foi-se deixando possuir pela alegria geral. Afinal, pensou o historiador, reinava ali uma outra visão do mundo. Uma visão mais poética, mais pura e mais profunda. Naquele mundo, os mortos permanecem vivos. E nada pode ser mais vivo do que água.

No dia seguinte, o historiador fez as malas, arrumou a tenda na bagageira do carro e já acenava um vasto adeus quando foi interpelado pelos dois chefes.

– Não se esqueça da promessa, meu boss, disse um deles.
– Afinal, estamos todos felizes com o resultado da nossa cova, declarou o outro.

Ezequiel Nicolau colocou chapéu e óculos escuros. Enterrava no rosto uma sombra que nem o mais atento dos arqueólogos seria capaz de detetar. E havia um rei que nascera e morrera dentro dele naquele dia.

Estadistas e políticos de fibra não temem críticas de jornalistas. Só os medíocres e inseguros

Meus longos anos como jornalista me ensinaram que os verdadeiros estadistas e os políticos seguros de si não temem as críticas nem as perguntas mais ásperas dos jornalistas. Só os medíocres e inseguros. Os presidentes dos países importantes e das democracias sólidas sabem que as críticas dos veículos de comunicação fazem parte do jogo democrático. 

Hoje, aqueles que dirigem as grandes democracias jamais se permitirão deixar de responder, em uma entrevista pessoal ou coletiva, a uma pergunta de um jornalista, por mais dura que seja, ou abandonar a entrevista. E muito menos insultar ou ameaçar o jornalista. Só o ex-presidente americano Donald Trump fazia isso, e por isso era considerado como um desequilibrado mental e acabou perdendo as eleições. 

Aos jovens jornalistas brasileiros e aos estudantes de jornalismo que às vezes me perguntam sobre minhas experiências jornalísticas ao redor do mundo, dedico esta coluna para contar dois episódios emblemáticos de quando fui correspondente na Itália e no pequeno e poderoso Estado do Vaticano. 

Os políticos italianos que eu criticava em meus artigos, em vez de se queixar ao meu jornal, enviavam-me um motorista com um cartão manuscrito me agradecendo. Em meus 18 anos de correspondente, jamais um político importante reclamou comigo sobre as críticas que eu lhe fazia. 

Quando o ministro de Relações Exteriores da Itália era Giulio Andreotti, um dos políticos mais influentes do país, sete vezes primeiro-ministro, uma figura emblemática, a Espanha estava para entrar na então Comunidade Europeia. Para isso, era fundamental o voto da Itália. Certa manhã, o embaixador espanhol na Itália me ligou para dizer que tinha recebido uma queixa da embaixada italiana em Madri por meus artigos duros sobre a máfia siciliana. Disse que um funcionário da embaixada tinha feito um dossiê de seis meses de meus artigos e que estavam muito irritados. E acrescentou com clássico sabor mafioso: “É importante que saibam que a Espanha quer entrar na Comunidade e que precisa do voto da Itália”. 

Avisado, o então diretor do EL PAÍS, Juan Luis Cebrián, que tinha sido também o idealizador do jornal, pediu ao embaixador espanhol em Roma o nome e sobrenome do funcionário da embaixada italiana em Madri que se permitiu fazer um dossiê mafioso sobre um de seus correspondentes. 

Dois dias depois, recebi um telefonema do secretário de Andreotti me informando que no dia seguinte, às nove da manhã, o ministro me daria a entrevista que eu havia solicitado. Na verdade, eu nunca tinha pedido aquela entrevista e entendi que era uma forma elegante e diplomática de o ministro me chamar para falar comigo. 

Andreotti, como ministro de Relações Exteriores, era fundamental para apoiar a entrada da Espanha na Comunidade. Cheguei para a entrevista certo de que se tratava de falar sobre as críticas da embaixada italiana em Madri a respeito de meus artigos. Pelo contrário, ele me recebeu todo cordial e antes que eu lhe fizesse qualquer pergunta, foi ele que me fez uma, desconcertante: “Você sabe onde o Papa [que era então o polonês João Paulo II] escreve seus discursos?”. Respondi que imaginava que era em seu escritório. Ele respondeu que não, que os escrevia de joelhos em uma mesinha de sua capela particular onde celebrava missa. 

Intrigado, perguntei como ele sabia. Respondeu que o Papa o convidava muitas vezes a assistir à sua missa. “Não me importo que seja muito cedo, porque sou madrugador. O pior é quando me convida para jantar, porque costuma acabar muito tarde. Prefiro quando o Papa me convida para passear durante o dia com ele nos jardins do Vaticano.” Eu o escutava atônito, porque estava me dando uma notícia totalmente desconhecida para a imprensa e que, se publicada, seria destaque mundial, já que revelava uma intimidade incomum com o papa Wojtyla, ainda mais se tratando de um político polêmico pelas acusações de fazer parte da máfia. 

Em seguida, olhando para a parede, mostrou-me um quadro e me perguntou se conhecia o autor. Eu disse que não, e ele me respondeu: “É do pintor que em Manila, na viagem de Paulo VI às Filipinas, atentou contra o Papa com um objeto contundente na chegada ao aeroporto, ferindo-o no abdome”. 

Não foi um ferimento grave, mas causou uma comoção mundial. Depois, soube-se que se tratava de um pintor excêntrico que, naquela ocasião, tinha uma exposição de seus quadros no hotel em que se hospedaria toda a comitiva papal e queria se tornar conhecido mundialmente. Lembro muito bem porque eu acompanhava o Papa no avião com um grupo de correspondentes de todo o mundo e fui testemunha do pseudoatentado. 

O que não se entendia era como aquele quadro do homem que atacara o Papa tinha acabado no gabinete do ministro Andreotti. Será que o Papa tinha lhe dado o quadro de presente? Enquanto isso, nenhuma palavra sobre as críticas às minhas crônicas. 

O político importante do qual se chegou a dizer que era filho de Pio XII porque, ainda jovem, ganhou um cargo importante no Vaticano, concluiu nosso encontro com um último gesto emblemático. 

Antes de entrar na política, Andreotti foi jornalista. Tinha em sua mesa tinha um exemplar de um de seus livros, que me deu, e com isso se despediu após ter me dado uma notícia exclusiva. Quando saí, abri o livro e estava escrito: “Ao meu colega jornalista Juan Arias, com o afeto de Andreotti”.

Enviei o artigo sobre aquele encontro ao diretor do jornal, que, incrédulo, publicou-o imediatamente. Quando o embaixador da Itália em Madri abriu o EL PAÍS de manhã, ficou atônito. Entendeu muito bem que era uma mensagem cifrada para ele, para que não tentasse criticar novamente meus artigos. E a Espanha entrou na Comunidade Europeia com o voto da Itália. Assim são os verdadeiros estadistas. 

Até os Papas e o Vaticano sempre respeitaram os jornalistas e aceitaram suas críticas sem fazer ameaças nem insultos. Fui testemunha disso quando o diretor do EL PAÍS em seus primeiros anos sofreu duros ataques da Igreja espanhola da época, que ainda era franquista, porque o novo jornal defendia o direito ao aborto, os direitos humanos, a liberdade de imprensa e o direito às diferenças. Era um jornal liberal, como os novos que estavam nascendo dos escombros da ditadura. 

Um dia, o diretor me chamou a Roma e me pediu algo muito difícil: queria ter uma entrevista pessoal com o então substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, o espanhol Martínez Somalo. Era a terceira autoridade do Vaticano, uma espécie de ministro do Interior, e despachava várias vezes ao dia com o Papa. 

Sem saber como fazer, recorri ao embaixador da Espanha na Santa Sé, que era agnóstico, e perguntei se por acaso ele poderia tentar, mas eu achava impossível porque o substituto do Vaticano nunca havia recebido nenhum diretor de jornal e, além disso, Cebrián tinha acabado de se divorciar. 

Poucos dias depois, quando eu estava em um hotel de Florença fazendo uma reportagem, o telefone do quarto tocou: era o próprio substituto do Vaticano, que me conhecia das viagens com o Papa. “Juan, você me pede algo muito difícil, mas vou receber seu diretor”, disse ele. “Diga-lhe que venha em primeiro de maio, quando o Papa estará muito ocupado e terei mais tempo para ele.” E impôs como condição que eu acompanhasse o diretor. 

Cebrián chegou a Roma na noite anterior e, às nove da manhã, atravessamos os portões do Vaticano e nos dirigimos, depois de entregar vários documentos, ao pequeno escritório do monsenhor Somalo, ao lado do gabinete do Papa. Cebrián lhe explicou durante uma hora as dificuldades do EL PAÍS e dos novos jornais que estavam surgindo depois da morte do ditador Franco devido à sua posição de veículos abertos à defesa das liberdades que haviam sido pisoteadas durante a ditadura. 

Somalo lhe perguntou se quem atacava os jornais eram os militares. “Não, monsenhor, quem nos atrapalha é a Igreja, que sempre esteve do lado da ditadura e de Franco.” Surpreso, Somalo lhe disse: “Aqui no Vaticano respeitamos a liberdade total de expressão e a imprensa livre”. E, referindo-se a mim, explicou por que quis que eu o acompanhasse ao encontro. “Seu correspondente aqui é testemunha de que nunca recebeu do Vaticano um telefonema de protesto por seus artigos”, afirmou. “E não me dirá, diretor, que não escreveu coisas muito duras sobre nós.” 

Eu tinha escrito sobre as dúvidas que existiam de que João Paulo I, que morreu misteriosamente 33 dias depois de sua eleição, pudesse ter sido assassinado. Eu lhe respondi que era verdade que o Vaticano nunca tinha se queixado de meus artigos e sempre me deu um lugar no avião do Papa para acompanhá-lo em suas viagens pelo mundo. E, entre brincadeira e a sério, acrescentei: “Mas também é verdade, e vocês sabem disso, que sei de coisas que nunca publiquei nem publicarei”. 

Rindo, o monsenhor Somalo disse a Cebrián em tom carinhoso: “Como seu correspondente é mau!”. Cebrián voltou para Madri e a verdade é que a Igreja deixou o jornal em paz. Só as figuras políticas inseguras e medíocres, sem personalidade, permitem-se atacar e até insultar e ameaçar os jornais e os jornalistas. 

Tanatocracia

A humanidade alcançou conquistas e realizou avanços no campo da ciência e da tecnologia, em espaço de tempo, capaz de desafiar o mais ousado pensador da ficção cientifica. Em contrapartida, não conseguiu chegar a um modelo ideal de organização política que, estabelecesse normas e padrões de convivência civilizada e submetesse o poder ao controle dos governados.

E haja tempo. Por falar em tempo, não custa, em voo rasante, observar que há milênios, foi legado ao futuro a herança greco-romana em pensamento, palavras e obras. Para não ir longe, basta se situar no campo da filosofia e do direito. Por sua vez, a origem e o significado etimológico das palavras explicam, sinteticamente, a natureza dos governos a partir dos sufixos “Arquia” designa governo; “Kratos”, titã da mitologia grega, que personificava o poder.


Com efeito, a palavra formada não emite juízo de valor para além do que conceitua. No conjunto, limita-se a demonstrar a complexidade que envolve as múltiplas facetas da realidade política. Parte delas, foi extraída do clássico de Bobbio, “Teoria das Formas de Governo”, tendo como origem a célebre discussão entre Otanes, Megabises e Dario sobre a forma de governo mais adequada para Pérsia, hoje Irã, na sucessão de Cambises, século V a.C. Outra parte não chega a ser formas de governo, mas se desvia da rota do que poderia ser “o bom Governo”.

Monarquia: governo de um; Aristocracia: governo dos melhores; Democracia: governo do povo; Oligarquia: governo de poucos, da mesma família, partido ou corporação; Oclocracia: governo da multidão, da turba; Autocracia: governo de único detentor do poder (líder, ditador, déspota, comitê, partido); Plutocracia: governo dos mais ricos; Cleptocracia: “governo de ladrões”, corrupção política institucionalizada; Timocracia: “governo da honra”, forma de governo em que a honra é o princípio dominante; Teocracia: governo fundamentado pela encarnação da divindade no governante; Androcracia: governo que se baseia na suposta superioridade masculina; Pedantocracia: sequela da Tecnocracia, governo de especialistas e senhores da razão; Ineptocracia: governo de incapazes; Idiocracia: governo de idiotas; Gerontocracia: governo de velhos, de preferência, oligarcas; Pornocracia: período (Século X) de obscurantismo moral no Vaticano; Hierocracia: governo dos sacerdotes; Pulhocracia: governo indecoroso que se transforma na Canalhocracia; Tanatocracia: governo da morte.

Inacreditável, mas a humanidade viveu experiências dramáticas em matéria de desgoverno e desvalor da vida que começa a ser extinta quando lhe falta a atmosfera do respeito e diálogo. E aí estará condenada à pena de morte por falta de ar.

Bolsonaro e a construção do caos

Enquanto sonhamos com a imunização do povo contra a Covid-19, quem recebe vacinas é Flávio Bolsonaro, filho do presidente, e os congressistas do Brasil. Flávio ganhou uma vacina contra a punição no caso das rachadinhas. Os congressistas foram mais longe e produziram um projeto que os vacina contra a prisão em flagrante.

Impressionante ver como o populismo de direita se associa aos políticos tradicionais para criar uma intransponível blindagem para toda sorte de crimes.

E logo eles , os populistas de direita, que afirmam a decadência de um mundo materialista, distante dos valores espirituais que pretendem restaurar.


Acabo de ler “Guerra pela eternidade”, um livro de Benjamin Teitelbaum. O livro fala do retorno do tradicionalismo e da ascensão da direita populista. Infelizmente, não posso fazer uma resenha aqui, senão meu espaço iria para o espaço, se me perdoam o jogo de palavras.

Teitelbaum é etnógrafo, e seu método de pesquisa consiste em observar e interagir com as pessoas que estuda. Dois personagens, entre outros, se destacam em seu livro: Steve Bannon e Olavo de Carvalho. A leitura do livro me ensinou alguma coisa sobre o pensamento da direita, embora a tese central não tenha me parecido muito sólida. Ele tenta enquadrar Steve Bannon e Olavo de Carvalho no figurino do tradicionalismo, mas algumas partes do corpo ficam do lado de fora, não cabem exatamente.

O tradicionalismo tem uma visão circular do tempo. As épocas se sucedem da Idade do Ouro, o tempo dos sacerdotes, passando pelos guerreiros e comerciantes, até o dos escravos, a decadência que se vive hoje no mundo material, globalizado, dominado por uma aliança entre o liberalismo e a China.

Steve Bannon e Olavo de Carvalho sonham com um novo mundo, em que os moradores das áreas rurais americanas e o povo religioso do Brasil (no caso de Olavo) aparecem como as forças novas que vão restaurá-lo.

É um pouco parecido, num outro plano, com a visão romântica dos comunistas, que viam a redenção na classe operária. O mais importante, no entanto, é que, assim como a velha extrema esquerda, Bannon quer implodir as instituições existentes.

Isso explica, no governo Trump, a escolha de uma secretária de Educação que distribuía vouchers para usarem em escolas particulares, anulando o ensino público. Ou mesmo a escolha de um diretor da agência ambiental cujo grande objetivo era acabar com seu ativismo.

Há correspondência dessas escolhas no Brasil. Ricardo Salles foi apontado para destruir o trabalho legal pelo meio ambiente. Ernesto Araújo, para realizar uma diplomacia que rompe com as práticas tradicionais.

Araújo não se importa que o Brasil se transforme num pária. Num mundo decadente, isso é um elogio: significa que há um papel na nova idade do ouro, em que os símbolos superam a razão.

Não tenho espaço para as contradições. Lembro apenas que Bannon se diz espiritualista, mas recebia um salário de US$ 1 milhão de um bilionário chinês e foi acusado de desviar dinheiro destinado a construir o muro na fronteira com o México.

O ponto central é que essas ideias influenciam o governo Bolsonaro. Ele mesmo é uma espécie de antipresidente, alguém destinado a explodir a instituição. O caos é algo promissor para quem julga antever a aurora de uma nova era.

É assim que entendo sua intervenção na Petrobrás e os decretos para armar o povo. Na verdade, foi assim que li as principais declaracões dos quadros da alt-right, a direita alternativa.A tática parece muito com as velhas teorias revolucionárias , só que com o sinal trocado.
Fernando Gabeira

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Pensamento do Dia

 


Estapafúrdio produzido por Bolsonaro e apoiado por generais tem a ver com intenções definidas

A incógnita mais expressiva, dentre as muitas atuais, é simples como formulação e inalcançável na resposta. Dado que estão explicitados os indícios de golpismo e a incompetência espetaculosa dos militares no governo, o que fará o Exército na possível transformação da pandemia em tragédia de massa, um país sufocado pela peste, carente de tudo menos de morte?

A marca de um ano exato do primeiro caso de Covid-19 no Brasil encontrou os estados em desespero com o recorde de casos e a ausência de leitos, vacinas, pessoal e outros recursos. Uma antevisão das previsões e alertas que as vozes mais competentes estão fazendo, inclusive a Organização Mundial da Saúde, caso persista o incentivo de Bolsonaro e do seu governo à calamidade.

O já célebre depoimento do general Eduardo Villas Bôas sobre a ameaça que fez ao Supremo, em nome do Exército, é claro na desmistificação da conversão desses militares ao Estado constitucional de Direito e à democracia.

Ressalva a fazer-se é a ausência até de mera informação aos comandos da Marinha e da FAB sobre a ameaça, como dito pelo entrevistado. Risco de discordância, é claro. E isso, não sendo certeza, pode ser indício de promissora evolução na Marinha e na FAB, oficialidades muito mais dotadas de preparo geral, para civilizar-se, do que no Exército.

Já é bem difundida a impressão, ou a convicção, de que todo o estapafúrdio produzido por Bolsonaro e apoiado pelos generais tem a ver com intenções definidas. Há bastante coerência nos atos amalucados, que são bem aceitos pelos generais também por uma comunhão não declarada nem gratuita.

A propaganda do falso tratamento com cloroquina cedo se mostrou como objetivo. Não só para desacreditar as recomendações científicas. Também para ações de governo que custaram milhões ao dinheiro público — e aí estava o Exército a fabricar quantidades montanhosas da droga enganadora.

O próprio Ministério da Saúde, o mais militarizado setor civil da administração pública, foi posto como indutor da droga ineficaz. Bolsonaro continua condenando as máscaras e estimulando aglomerações. E, sobre tudo o mais, a sabotagem a vacinas excedeu a incompetência. É muito mais e muito pior.

Por trás disso houve e há algo. Esse desatino não resistiria, para chegar à dimensão que alcançou, sem um propósito a sustentá-lo.

Não faz sentido o envolvimento, sem motivações especiais, de um governante em propaganda de remédio e em combate ao conhecimento científico provado e comprovado. Com esse meio de disseminar a morte, porém, combina-se um outro de fim idêntico.

No seu primeiro ato pela difusão da posse de arma, Bolsonaro alegou direito da cidadania de se defender. Sucessivos agravamentos dessa facilitação à criminalidade chegaram, agora, ao desmentido definitivo do propósito apresentado por Bolsonaro: novos decretos permitem até 15 armas para o cidadão comum, 30 armas para quem se apresente como caçador, 60 armas para quem se registre como atirador, munição a granel. Arsenais sem relação alguma com defesa pessoal. Mas não sem objetivo de quem os libera e dos militares, em especial do Exército, que dão o apoio.

As intenções inconfessas que enlaçam as atitudes de Bolsonaro, em temas como a pandemia e o armamento de civis, têm corrido sem dificuldade. Mas alguma coisa mudou nas últimas semanas. O Supremo mudou. Por quanto tempo e se para ser supremo sem temor e sem prazo, no momento, importa menos. Aproveite-se enquanto dure, que a necessidade do país é extrema.

Quando quatro ministros do STF decidiram trabalhar nas férias de dezembro e janeiro, a boa novidade foi noticiada como precaução contra propensões do recém-eleito presidente Luiz Fux. Revelou-se muito mais do que isso.

De Ricardo Lewandowski vieram, e continuam vindo, decisões que enfrentam desvios na política antivacinas do governo, o mesmo quanto às mais recentes revelações de ordinarices judiciais, políticas e policiais na Lava Jato, e outras de mesmo peso.

Alexandre de Moraes encarou, e não tem cedido nem milímetros, as ameaças ao Supremo, as patifarias nas redes, os indícios que recaem na Presidência da República.

Rosa Weber deu ao governo cinco dias, expirados ontem, para justificar o pacote das armas. Edson Fachin tomou a defesa verbal do Estado de Direito. E vai o Supremo por aí, ou parte dele, mudado, posto de pé e cabeça erguida.

Os negociantes do Congresso continuam negociando. O poder econômico, idem. Se a defesa da democracia não vier do Supremo, talvez só tenhamos resposta para a incógnita de Bolsonaro sob a forma de fato consumado. E a pandemia, como se agrava aqui, facilita.

A tragédia do negacionismo

O presidente Jair Bolsonaro bateu no teto do negacionismo quando atacou governadores e prefeitos que adotaram medidas de lockdown. Em Fortaleza, durante evento que causou aglomeração e ao qual compareceu sem máscara, na sexta-feira, disse: “Agora, o que o povo mais pede, e eu tenho visto, em especial no Ceará, é trabalhar. Essa politicalha do ‘fique em casa, a economia a gente vê depois’, não deu certo e não vai dar certo”. Aproveitou para ameaçar os governadores que não seguirem a sua cartilha: “O auxílio emergencial vem por mais alguns meses e, daqui para a frente, o governador que fechar seu estado, o governador que destrói emprego, ele é quem deve bancar o auxílio emergencial”.

Mirou, sobretudo, o governador cearense Camilo Santana (PT), que havia endurecido as medidas de distanciamento social. Fortaleza está com uma taxa de ocupação de leitos de UTI de 94%, sendo uma das capitais em risco de colapso do Sistema Único de Saúde (SUS). As demais são: Porto Velho (RO), 100%; Florianópolis (SC), 96,2%; Manaus (AM), 94,6%; Goiânia (GO), 94,4%; Teresina (PI), 93%; e Curitiba (PR), 90,0%. O país já contabilizou 10,4 milhões de casos e 252 mil óbitos por covid-19 desde o início da pandemia. Na véspera das declarações, Bolsonaro havia questionado o uso de máscaras, enquanto o país batia o recorde de mortos num único dia: 1.582.


Psicologicamente, negacionismo é uma forma de escapar de uma verdade desconfortável. Na ciência, o negacionismo é definido como a rejeição dos conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico a favor de ideias radicais e controversas. Costuma se fortalecer quando a sociedade se depara com situações de instabilidade, como essa crise sanitária, ou diante de algo nunca presenciado, um vírus novo e letal, como é o caso. O negacionismo apela para teorias e discursos conspiratórios, que acabam favorecendo disputas ideológicas, interesses políticos e religiosos. Bolsonaro é paranoico, vê conspiração em tudo. Acredita que os defensores do lockdown (medida para conter a velocidade de propagação do vírus e evitar o colapso do sistema de saúde) querem desestabilizar seu governo e aprovar o seu impeachment.

No governo, além de Bolsonaro, os ministros de Relações Exteriores, Ernesto Araujo; do Meio Ambiente, Ricardo Salles; e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, em suas respectivas pastas, estão na linha de frente do negacionismo. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, também fez parte desse time. Sua responsabilidade no colapso do SUS em Manaus, por falta de oxigênio, está sendo investigada, assim como no atraso da compra de vacinas, inclusive, as que estão sendo produzidas no Brasil, como a CoronaVac (Instituto Butantan); a Oxford (Fiocruz) e a Sputnik V (União Química, privada). Agora, corre atrás das vacinas da Pfizer, que negocia desde agosto e refugou em setembro passado.

O negacionismo é insidioso e perigoso, pois atua no campo ideológico para influenciar a opinião pública e legitimar governantes com posições anticientíficas. Com isso, pode resultar em tragédias humanitárias. É o caso da epidemia de Aids na África do Sul, que chegou a registrar 5,4 milhões infectados, para uma população de 48 milhões de pessoas. O ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki (1999-2008) ficou para a história como o principal negacionista do HIV/Sida, que mandou tratar com erva, o que custou a vida de mais de 300 mil pessoas. Há quem exija que seja julgado por crimes contra a humanidade.

A negligência no combate à pandemia, a negação das vacinas e a insistência na promoção de tratamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19, pelo presidente Jair Bolsonaro, porém, provocou ampla mobilização de médicos, pesquisadores e entidades científicas, que atuam nos meios de comunicação e nas redes sociais para combater a fake news e explicar à população o que realmente está acontecendo. O negacionismo irresponsável é tanto que até hoje o governo não fez uma campanha oficial de esclarecimento e incentivo à vacinação, que é a última fronteira do combate ao negacionismo em relação à pandemia da covid-19.

Tragédia do desequilibrado

O desequilíbrio de Bolsonaro é proporcional à tragédia humana que o negacionismo provocou no Brasil
João Doria, governador de São Paulo

Pandemia mata os pobres e a classe média, mas poupa as elites

A pandemia da covid-19 parece ser um flagelo de Deus eivado de extrema injustiça, porque atinge preferencialmente os pobres e a classe média baixa. Pode-se alegar que sempre foi assim, as elites sempre estiveram mais protegidas. Realmente é verdade, porque quem tem mais recursos pode se isolar e fazer uma melhor quarentena. Mas desta vez, no caso da covid-19, a desigualdade social ficou ainda mais patente, porque os governantes e as elites podem usar recursos que estão inacessíveis aos pobres e à classe média.

Por volta do ano 541 d.C., a humanidade enfrentou a peste bubônica, que foi perdendo a intensidade, porém durou mais de 200 anos. Depois, ressurgiu em 1343, sob o codinome de Peste Negra, durou dez anos até perder a intensidade, matou um terço da população da Europa e resistiu até o começo do século XIX. Pode ter matado até 200 milhões de pessoas. Foi a pior pandemia de todos os tempos.

Em 1580, surgiu a primeira pandemia de gripe, que se espalhou por Ásia, Europa, África e pela recém- colonizada América.

Séculos depois, em 1889, a Gripe Russa foi a primeira a ser documentada com detalhes, com proliferação inicial de duas semanas sobre o Império Russo e chegando até o Rio de Janeiro. Ao todo, um milhão de pessoas morreram por conta desse subtipo da Influenza A. Na mesma época, houve na Europa as epidemias de cólera, mas com menos mortes, por serem controladas com melhoria no abastecimento de água.

Em 1918, a Gripe Espanhola causou a morte de até 50 milhões de pessoas, afetando não só idosos e pacientes com sistema imunológico debilitado, como também jovens e adultos. Com possível origem nos Estados Unidos, essa enfermidade quase dizimou as populações indígenas americanas e levou a óbito cerca de 35 mil brasileiros.


A grande diferença para a covid-19 é que desta vez a Humanidade tem recursos para enfrentar a pandemia. E não espanta o fato de as mortes ocorram basicamente entre os pobres e a classe média. Mas qual é o verdadeiro motivo dessa situação, além da facilidade de as elites fazerem quarentena?

Na verdade, no Brasil e no mundo a situação é semelhante, porque toda doença é mais facilmente combatida quando descoberta no início. Eureka! Bingo! Bestial! É por isso que em nosso injusto país, a contaminação de alguma autoridade ou figura de elite sempe é divulgada assim pela imprensa: “Fulano testou positivo para coronavirus”.

Foi assim com o presidente Jair Bolsonaro, com o vice Hamilton Mourão, com muitos outros ministros, integrantes das Forças Armadas e demais membros das classes dominantes, como se dizia antigamente. A diferença entre eles e o resto da população é que sempre estão fazendo testes, que identificam a doença no início, por isso o índice de mortalidade das elites chega a ser ridículo.

É por isso que Bolsonaro impediu com tanto empenho a divulgação de seu prontuário médico ou sua cartilha de vacinas, porque neles estão registrados os testes frequentes que fazia.

Assim é fácil tirar tanta onda, dizer que é resistente por ter sido atleta na juventude, já que tem se queixado apenas das hemorroidas e do problema no abdômen (descolamento da tela implantada). É por isso que a covid-19 tem poupado os membros das Forças Armadas. A coisa mais difícil é ver um militar contaminado.

Enquanto o caricato presidente se diz “imbrochável”, os brasileiros e brasileiras estão morrendo em escala industrial, mas nossas autoridades estão protegidas. Lembrem que durante a primeira onda, em 2020, foi um escândalo quando encontraram quase 7 milhões de testes que o Ministério da Saúde estocava no aeroporto de Guarulhos.