sábado, 10 de outubro de 2020

Imagem do Brasil

 


Em uma área devastada pelas queimadas no Pantanal, ativistas do Greenpeace Brasil ergueram uma estátua de quatro metros de “Bolsonero” e escreveram a mensagem “Pátria queimada, Brasil”. “Com essas ações queremos não apenas chamar a atenção para a destruição sem precedentes do patrimônio ambiental dos brasileiros, como também apontar as causas e seus responsáveis. O Brasil está, literalmente, em chamas, graças à política incendiária do atual governo que, em vez de apresentar ações coordenadas e efetivas de proteção ao meio ambiente e à vida das pessoas, segue tocando a melodia desvairada do seu projeto de destruição, queimando a biodiversidade brasileira e fragilizando a já combalida economia do país”, diz Tica Minami, diretora de programas do Greenpeace Brasil.

Quem foi o herói de Bolsonaro e o homem honrado de Mourão

Um torturador, por sinal o único militar condenado pelo crime, não pode ser considerado “um herói” por ninguém, muito menos pelo presidente da República, tampouco “um homem de honra”. Foi Bolsonaro, repetidas vezes, que tratou o coronel do Exército Brilhante Ustra como herói. Ustra foi chamado de homem honrado pelo general Hamilton Mourão, vice-presidente.

Foi preciso que um jornalista inglês, a serviço da televisão alemã, entrevistasse Mourão para tirar a máscara que o general vestiu desde que se elegeu. Antes, Mourão era um general da linha dura, punido mais de uma vez por suas declarações antidemocráticas. Durante a campanha de 2018, falou em autogolpe, algo que poderia ocorrer depois da eleição de Bolsonaro, e dele mesmo.


A tortura de adversários da ditadura militar de 64 foi adotada como política de Estado, segundo admitiu Ernesto Geisel, o terceiro general-presidente de um ciclo de 21 anos do regime da farda, do choque elétrico, do pau-de-arara, da unha arrancada a alicate, do rato introduzido em vaginas e da cobra posta em cela para assombrar os seus ocupantes e não deixá-los dormir.

Há prova abundante de tudo isso, inclusive um HD com 43 documentos produzidos pela inteligência americana entre os anos 1967 e 1977 e entregue por Joe Biden, à época vice de Barack Obama, a presidente Dilma Rousseff. Biden, hoje, com 77 anos de idade, está a um passo de derrotar Donald Trump e de ser eleito presidente dos Estados Unidos no próximo dia 3 de novembro.

Geisel provou na pele quanto pode ser incômodo um presidente americano a pressionar para que se respeite os direitos humanos. O presidente Jimmy Carter foi uma pedra no sapato do governo do general. A mulher de Carter, Rosely, veio ao Brasil tomar satisfações em nome do marido. Eu era repórter no Recife quando ela reuniu-se com missionários americanos vítimas de tortura.

A situação mudou. O Brasil não tem mais presos políticos, só presos comuns torturados ante à indiferença da maior parte dos brasileiros. Biden, se eleito, vai incomodar Bolsonaro e Mourão por outro motivo: o desprezo ao meio ambiente. Biden já prometeu sanções econômicas contra o Brasil caso a Amazônia continue a ser destruída. É também o que prometem países europeus.

Boi-bombeiro, como sugeriu a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, não é solução para baixar o fogo no Pantanal, nem na Amazônia. Se fosse, a expansão da pecuária nas duas regiões teria diminuído os focos de incêndios. O Brasil não está ok, como garantiu Mourão ao entrevistador da televisão alemã. Entrevista que foi um primor para quem quiser saber como se faz uma.

O que Mourão disse sobre Ustra foi de envergonhar e de dar nojo aos que ainda são capazes de sentir as duas coisas. “Ele foi meu comandante no final dos anos 70, e foi um homem de honra que respeitava os direitos humanos dos seus subordinados”, testemunhou o general. Jamais esteve em questão se Ustra comportou-se bem ou mal com seus subordinados.

É de supor que militar não tortura nem executa militar, a não ser em guerras. No caso de Ustra, a questão sempre foi o uso da tortura que ele fez pessoalmente contra presos políticos. E que avalizou. Ustra foi um torturador brutal, que se valeu de todos os meios para arrancar confissões ou simplesmente humilhar os prisioneiros aos seus cuidados. Não havia limites para ele.

Certa vez, nos porões do quartel-general do Exército, em São Paulo, ele suspendeu o suplício dos presos na antevéspera do Natal. Autorizou-os a tomar banho, cortar o cabelo, e deu-lhes roupas limpas. O dia 24 de dezembro foi de descanso para os presos e seus algozes. Perto da meia-noite, eles foram levados para um salão onde seria servida uma ceia de Natal.

Puderam comer peru, arroz, farofa com passas e beber refrigerantes. De repente, Ustra irrompeu no salão e foi de mesa em mesa desejar feliz Natal. No dia seguinte, a tortura recomeçou. Essa história me foi contada por uma mulher que participou da ceia. Ustra, o herói de Bolsonaro e o homem honrado de Mourão.

A falta de prevenção e a tragédia do Pantanal

O planeta arde e as matas queimam. Os incêndios florestais se tornaram mais destrutivos com a mudança climática – ambientes mais quentes e mais secos são propícios à propagação do fogo. Colocar a tragédia que assola o Pantanal apenas na conta do aquecimento global, no entanto, seria desonesto. Como explicou o cientista Carlos Nobre no programa Conversa com Bial de segunda-feira, a culpa é nossa: “Trata-se, em grande parte, da prática tradicionalíssima de provocar incêndios para limpar pastos e áreas agrícolas”. Há também, claro, as queimadas criminosas ligadas ao esquema de grilagem de terras.

Fiquemos, no entanto, no âmbito das “práticas tradicionalíssimas”. Existe solução. Com a mudança climática, os protocolos de manejo da terra foram redesenhados. “Práticas comuns no passado não podem mais ser empregadas hoje. Por causa da mudança climática, prevenir incêndios florestais é, atualmente, muito mais importante do que combatê-los”, diz Tiago Oliveira, presidente da Agif, o organismo do governo português responsável por combater incêndios florestais. Ele é o personagem do minipodcast da semana.


O mantra dos novos protocolos, da Austrália à África do Sul, do Canadá às florestas europeias, é precisamente este: prevenção. Portugal, que sofreu com incêndios altamente destrutivos em 2017, responsáveis por dezenas de vítimas, é um caso de estudo. Há três anos, o país investia 143 milhões de euros no combate a incêndios florestais, 20% em prevenção. Hoje são 246 milhões – e metade disso vai para ações anteriores ao período da seca. Entre elas, trabalhos de conscientização de fazendeiros sobre as práticas mais modernas. Com a ênfase na prevenção, os focos de incêndio foram reduzidos à metade.

Segundo especialistas, foi justamente isso que faltou no caso do Pantanal. “O correto seria iniciar a prevenção em abril, com medidas de educação ambiental e queimadas controladas, para evitar o excesso de biomassa”, diz Luciano Evaristo, que entre 2009 e 2018 dirigiu a área de proteção ambiental do Ibama. Ao longo do período, que atravessou os mandatos de Lula, Dilma e Temer, ele coordenou pessoalmente várias ações do Prevfogo, programa do Ibama que conta com reconhecimento internacional. Evaristo avalia: “Neste ano, o governo começou a contratar brigadistas apenas em junho, quando era tarde demais. Não houve um trabalho de prevenção adequado”.

A tragédia do Pantanal é imensa. Ao longo dos nove primeiros meses de 2020, os focos de incêndios se multiplicaram por três em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Em Portugal, o governo estabelece parceria com fazendeiros na contratação de tropas anti-incêndio. No Brasil há organizações ambientais que combatem queimadas de forma heroica, assim como produtores rurais que formam suas próprias brigadas – a coluna voltará a esse assunto. De acordo com Evaristo, tal heroísmo é inócuo se não houver, como em Portugal, algum tipo de coordenação estatal. “Combater incêndios florestais é uma ciência, que tem como base a prevenção. Sem conhecimento e estratégia o esforço se perde.”

O planeta arde, as florestas queimam e, nos dois casos, poderíamos fazer mais e melhor. A tragédia do Pantanal aponta para o desleixo – ou a negligência – dos governantes que os brasileiros escolheram.

Sem mais vergonha na cara

Bolsonaro é um cara que fez uma coisa para o Brasil: dar cidadania à extrema direita brasileira, que tinha vergonha de ser extrema direita. Bolsonaro recuperou essa gente do ralo da política e deu cidadania. E essa gente se autoproclamou cidadão de primeira classe.
Lula

O fim de um sonho

Noites dessas conversei, sobre nosso futuro, com o amigo Fernando Pessoa. Desencantado, comecei dizendo já ter perdido as esperanças num país limpo. Pouco mais limpo, ao menos. Ele pareceu compreender ("Lisbon Revisited, 1926"), “No fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei/ Fogem desmantelados, últimos restos/ Da ilusão final”. Pediu que explicasse. Relatei então que, na última eleição, parte dos brasileiros teve a ilusão de que pudéssemos construir uma nova ordem ética. Para que corruptos e corruptores ao menos hesitassem, antes de tentar enriquecer. Pediu que não desistisse ("Desassossego"), “Matar o sonho é mutilar nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso”.



Ocorre que nada sobreviveu. O projeto Anti-Crime foi abandonado. Ninguém cuidou dele. Nem mesmo, no Congresso, figuras endeusadas pela Grande Mídia. E o país vive, impotente, a vitória daqueles que se apropriaram do patrimônio público – Partidos, parlamentares, bolsos amigos. O Centrão fez parte disso. E, agora, é quem dá cartas. A pá de cal foi a indicação do novo Ministro do Supremo. Coerente com o desmonte da Lavajato que vem sendo feito, a mando, pelo Procurador Geral da República. Trata-se de alguém que deu sucessivas declarações contra essa operação. E que sequer assume compromissos com a prisão em Segunda Instância. Para piorar, vem apoiado por notórios ministros, no Supremo, que se dizem "garantistas" (só mesmo rindo). Pela OAB de Brasilia (pode?), advogados de réus importantes (e ricos), políticos processados (muitos), por aí. O triunfo da impunidade. Não tem como dar certo.

O Presidente, a esse descalabro, responde com uma frase medíocre: “Ou confia em mim ou não confia”. Perdão, Presidente, não dá. A contradição com o discurso anterior, da sua eleição, é cruel. Qual a razão da mudança?, eis a questão. Difícil precisar com certeza. Mas é inevitável considerar que a proteção dos filhotes está no centro dessa decisão lamentável. Pessoa insistiu (poema sem título), ainda, “Por que/ Esperar?/ Tudo é/ Sonhar”. Mas lhe disse que abandonamos, já, todas as ilusões, o último alento, a derradeira esperança. O amigo encerrou a conversa na sua natural ambiguidade. Primeiro, ao dizer ("O Marinheiro") que “Nenhum sonho acaba”. Depois ("Sonho"), resignado, “Se tudo é sonho/ O sonho é nada”. Seja, pois. E este sonho, de um outro Brasil, não existe mais.

Pensamento do Dia

 


Rio é paraíso no marketing e inferno para ambientalistas

Sobrevoei o Rio de Janeiro de helicóptero com o biólogo Mario Moscatelli. O voo nos levou do Recreio ao Lixão de Gramacho. Moscatelli faz este voo todo mês, para documentar a situação ambiental do Rio de Janeiro. O que ele vê o assusta cada vez mais. : a cidade cresce descontroladamente natureza adentro, a poluição das águas aumenta, e os depósitos de lixo vão se espalhando. "Ser biólogo no Rio é um inferno", diz Moscatelli. "Esta cidade poderia ser um paraíso. Mas ela um paraíso só no marketing. Na realidade, está sendo arrasada."

É brutal ver como as margens da Lagoa da Tijuca vão sendo tomadas por construções, na maioria ilegais, como em Muzema. Os afluentes das lagoas transformaram-se em esgotos pretos e cinzentos, por onde escorrem os excrementos de dezenas de milhares de pessoas. Principalmente a Lagoa de Jacarepaguá e a Lagoa da Tijuca são hoje praticamente latrinas.

Devido ao constante influxo de excrementos, elas perderam de um a dois metros de profundidade e em alguns trechos já se formam ilhas de resíduos. Por todo lado é possível ver lixo plástico boiando na superfície, além de sofás, geladeiras, televisores e pneus de carro na água.

Antes, num passeio de barco com Moscatelli pelas lagoas, eu já tinha visto como, por todos os lugares, bolhas de gás fedorento se elevam dos processos de decomposição do esgoto. Especialmente nas margens, a água tem, além disso, uma intensa cor verde. Ela vem da bactéria tóxica Microcystis aeruginosa, que se reproduz rapidamente no calor e ataca o fígado e o sistema nervoso de animais e humanos. O oxigênio e quase inexistente nas lagoas.

Por indicação de Moscatelli, foram instaladas as chamadas ecobarreiras em alguns locais para evitar que o lixo caia no mar. Numa delas, foram coletadas 120 toneladas de resíduos em 60 dias.


Não surpreende que, das cerca de cem espécies de animais que antes povoavam as lagoas, 80 desapareceram. "Só os animais muito resistentes ainda podem existir aqui. Eles são sobreviventes", diz Moscatelli. Entre eles estão os jacarés, animais extremamente resistentes. A grande sorte deles é que não têm olfato ou paladar, porque literalmente vivem na merda.

"As lagoas poderiam ser paraísos naturais, cheios de peixes e uma grande variedade de espécies de pássaros", diz Moscatelli. "Eles poderiam servir de sustento para os pescadores e atrair dezenas de milhares de turistas todos os anos. Mas não é assim que as elites brasileiras pensam. O que importa é fazer lucro rápido com o crescimento desordenado. Existe uma mentalidade colonial: tire o máximo proveito disso – e não se preocupe com mais nada."

Moscatelli faz questão de enfatizar que os problemas ambientais do Rio não têm nada a ver com falta de dinheiro, mas simplesmente com falta de vontade. Na verdade, só a reforma do Maracanã custou entre 1 bilhão e 2 bilhões de reais. Se só uma parcela desse dinheiro fosse investida na construção de estações de tratamento de esgoto e gestão sensata de resíduos, o valor agregado para o Rio seria imenso. Mas o carioca se acostuma com tudo e fica sentado nos restaurantes na beira das lagoas, enquanto a merda borbulha debaixo dele.

Ao sobrevoar a Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul, Moscatelli aponta para os manguezais às margens. Ele mesmo os plantou há alguns anos, quando as margens da lagoa eram sem vida.

O biólogo também iniciou projetos de recuperação de manguezais na Baía de Guanabara e em Angra dos Reis. "Eu faço mais pelo nosso meio ambiente do que qualquer político", diz o homem de 56 anos. Na verdade, os manguezais, cuja proteção agora foi suspensa pelo Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, armazenam enormes quantidades de gases do efeito estufa e fornecem abrigo para muitas espécies animais.

O constante engajamento de Moscatelli já dura mais de 30 anos. Em uma cidade mais moderna e menos corrupta, ele teria um cargo importante no governo. No Rio, porém, ele recebe intimidações sistemáticas por parte dos setores incomodados com a sua atuação. Ele foi até processado por um shopping center na Barra da Tijuca por suas críticas às violações ambientais do centro comercial. Moscatelli já recebeu até mesmo ameaças de morte por chamar a atenção, tendo que se exilar na Alemanha por algum tempo.

No voo ao longo das margens da Baía de Guanabara, vemos como o esgoto escuro sem tratamento flui para a água em vários lugares – e eu me pergunto o que a Cedae faz com as altas taxas de esgoto. Moscatelli diz que todos os rios ao redor da baía estão praticamente mortos. Pode-se observar aqui o colapso total das políticas públicas.

Em seguida, sobrevoamos a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Alegria, no Caju, que foi inaugurada em 2009 após 15 (!) anos de construção. Deveria tratar vários milhares de litros de esgoto por segundo. Mas hoje, apenas 11 anos depois, metade da ETE não funciona, e de cima observamos canalizações enferrujadas e algumas piscinas cheias de plantas. "A verba prevista para financiar essas estações ao redor da baía é extremamente mal gerenciada. Quase sempre os projetos são abandonados, e o entorno da baía virou um cemitério de obras de saneamento inacabadas", diz Moscatelli.

Olhando para baixo, me lembro das grandes promessas que foram feitas antes dos Jogos Olímpicos: que a Baía de Guanabara e as lagoas sestariam limpas no dia da abertura do evento. Na época, eu ainda acreditava nessas promessas. Mas eu ainda era novo no Rio.

Em seguida, sobrevoamos uma pequena colina. É o lixão de Gramacho, que já foi o maior lixão da América do Sul e foi fechado em 2012. Mas bem próximo a ele, um depósito de lixo irregular consome a paisagem como um tumor cancerígeno. Dele sobe uma fumaça que chega a incomodar nossos narizes mesmo do helicóptero. O depósito de lixo é administrado por uma máfia que cobra taxas das empresas que lá despejam seu lixo, muitas vezes tóxico.
Meio ambiente dá o troco

"Todo o mal que fazemos para o meio ambiente, recebemos de volta de uma forma ou de outra", diz Moscatelli. "Na forma de veneno, inundações, secas extremas, incêndios, doenças, fedor e até acidentes."

Lixões ao redor dos aeroportos são estritamente proibidos, porque atraem pássaros grandes como os abutres, que podem provocar quedas de aviões ao se prenderem às turbinas. O Aeroporto do Galeão fica a cerca de cinco quilômetros do depósito ilegal de lixo no Gramacho. Mas no Rio sempre é preciso acontecer alguma coisa ruim para que alguém reaja. Ou pelo menos diga alguma coisa. E depois, por anos nada acontece.

No final, Moscatelli faz questão de destacar algo: "Não sou um São Francisco, mas tenho uma coisa que por aqui anda faltando: vergonha na cara. Como profissional do ambiente não posso ficar assistindo a tudo se degradando sem fazer nada."
Philipp Lichterbeck

Todas as florestas

Faz 20 anos, O GLOBO publicou o artigo “Um mundo para todos”. Nele, transcrevi a resposta à pergunta de um estudante durante palestra na cidade de Nova York, em setembro de 2000. O jovem perguntou: “O que pensa de internacionalizar a Amazônia?”. Antes que eu começasse a dizer “sou contra”, ele completou: “Quero opinião de humanista, não de brasileiro”.

Respondi que defenderia a internacionalização da Amazônia se antes fossem internacionalizados os museus, as armas, o petróleo, os patrimônios históricos, rios e florestas do mundo inteiro. Depois de uma longa lista do que julgava que deveria ser internacionalizado, concluí: “Quando a humanidade internacionalizar tudo isso, aceito debater a ideia de internacionalizar a Amazônia. Até lá, a Amazônia é nossa. Só nossa!”.

Graças ao artigo, a resposta foi traduzida em diversos idiomas e entrou na coletânea de “Cem discursos históricos brasileiros”, elaborada por Carlos Figueiredo. Anos depois, o fotógrafo Sebastião Salgado me disse que não gostava da última frase.

Ele estava certo. O discurso deveria concluir com uma frase adicional: “Mas, se não soubermos proteger a Amazônia, não merecemos, nem conseguiremos tê-la para sempre”.



A resposta ainda não tinha dimensão humanista, porque tratava a Amazônia como propriedade brasileira, sem perceber que ela é também patrimônio da humanidade, parte do Condomínio Terra. Tal qual os móveis de um apartamento, cujo dono não tem o direito de incendiá-los dentro de casa. O que está acontecendo com nossas florestas é a demonstração de insensatez nacional e irresponsabilidade com a Humanidade. Um patriotismo anti-humanista e suicida.

Ao negar a realidade visível da destruição de nossas florestas, o governo federal comete uma loucura irresponsável com o país e insensível com a Humanidade, levando a população mundial a tratar o Brasil como país perigoso para o futuro da vida no planeta, um país que pratica ecoterrorismo.

No lugar da mentirosa defensiva do presidente e de seu ministro do Meio Ambiente, deveríamos reconhecer nossos descuidos históricos, apresentar correções no cuidado de nossa biodiversidade e assumir posição ativa, propondo uma Conferência Internacional pela Preservação e Recuperação de Todas as Florestas do Mundo — nossas, africanas, europeias, russas, asiáticas e norte-americanas, cuidadas como propriedade do país e patrimônio da Humanidade.

Em vez de incendiários, poderíamos ser os promotores do respeito às florestas da Terra. É isso o que faríamos se ainda tivéssemos no comando do Itamaraty diplomatas do porte daqueles que articularam a Rio-92 e a Rio+20. No Ministério do Meio Ambiente, pessoas com a competência e o prestígio de José Goldemberg, Marina Silva, Carlos Minc e Izabella Teixeira.

Tudo indica que, em vez de tentar salvar o mundo, vamos continuar perdidos na incompetência e na insensibilidade, e o mundo perdendo a chance de sermos atores decisivos na proteção de todas as florestas do mundo.

O dilema das redes e o futuro de todos nós

Ninguém ousa negar a centralidade das plataformas digitais e das redes sociais na vida contemporânea. Mas, cada vez mais se ascende a polêmica sobre a crescente capacidade de manipulação das gigantes da comunicação digital. Os efeitos positivos das redes sociais são inegáveis. Mas a polêmica que ganha corpo é: a que custo? Quais são os efeitos colaterais? As disfunções estariam superando os benefícios?

Já recomendei aqui dois filmes da NETFLIX, o documentário “Privacidade hackeada” sobre a manipulação de dados do Facebook na eleição de Trump em 2016, e o drama polonês “Rede do Ódio”, sobre consequências dramáticas da manipulação política das plataformas. Agora em setembro foi lançado o documentário de Jeff Orlowsky, “O dilema das redes”, que vem despertando enorme polêmica. Para alguns, exagerado e sensacionalista. Para outros, um grave alerta sobre o futuro que estamos construindo.

O “Dilema das redes” não se atém à perspectiva política. Vai além, denuncia dos aspectos psicossociais da influência nas mudanças dos padrões de comportamento, principalmente nas novas gerações. A partir de depoimentos de ex-executivos do Facebook, Google, Twitter e da teatralização de uma família impactada pela exacerbação do uso da internet, há uma exposição nua e crua das vísceras das redes sociais. Fora os exageros, é assustador. Todos os pais deveriam assistir para interagir melhor com seus filhos sobre o tema.


O documentário revela como a lógica das redes é nos capturar, nos tornar compulsivamente dependentes, viciados mesmo, a partir de uma associação entre psicologia humana e tecnologia da informação. Rolagem automática e sem fim, notificações, curtidas, falsas recompensas, likes, são mecanismos desenvolvidos para nos tornar “prisioneiros das redes”, com graves repercussões na saúde mental e no bem estar de todos nós. “Apenas dois tipos de indústria chamam clientes de usuários: a de drogas ilegais e a de tecnologia da informação” é uma frase forte do filme. Penso nas mesas de bares e restaurantes com todos ligados em seus smartphones e ninguém conversando.

Outra afirmação contundente é: “Se você não paga por algo, saiba que você é o produto”. As grandes redes faturam bilhões de dólares em publicidade e fazem isso pelos dados que têm. O produto certo para a pessoa certa. Senti isso pessoalmente. Foi só fazer três compras por e-comerce numa mesma importadora de vinhos, para meu timeline do Facebook ficar coalhado de ofertas de outras importadoras. Tudo indica que “fui vendido”. Isto aconteceu com produtos relacionados ao Flamengo, a imóveis e até artistas.

Mas há consequências mais graves: o aumento da depressão e dos suicídios infantis e juvenis, a explosão de fakenews que se propagam seis vezes mais que a verdade “que é chata”, o tempo gasto que impede a relação humana direta com a família e amigos ou o deleite com a boa arte, o bullyng virtual opressivo, a alimentação do discurso do ódio e de teorias da conspiração, o estímulo à radicalização da polarização política, a deformação do processo de formação da autoestima e o nascimento de uma cultura rasa, superficial e agressiva.

Precisamos urgentemente conversar sobre isso. Ou teremos um mundo cada vez mais perigoso e desinteressante.

Os mortos que o digam!

Governo Bolsonaro lidou muito bem com a pandemia
Hamilton Mourão, general vice-presidente

País precisa dizer o que quer ser no século XXI

Mal começaram as campanhas municipais de 2020 e os atores políticos já falam em 2022. Especialmente o bolsonarismo e seus aliados estão concentrados na aprovação de seu elixir político, que no momento tem o nome de Renda Cidadã, continuação do auxílio emergencial que catapultou a popularidade presidencial. Obviamente que há outros projetos no Congresso, mas seu sentido mais amplo está deslocado da estratégia política de curto prazo, que é reeleger Bolsonaro e salvar sua família das querelas judiciais. E qual é o projeto dos opositores do presidente? Novamente, há uma miríade de temas, muitos louváveis, mas não uma visão clara e articulada de como o Brasil deve lidar com os desafios do século XXI.

A ideia de projeto para o país, com metas claras, meios definidos e articulando as questões numa visão ampla, está em falta no momento. Geralmente, o comandante do Executivo federal tem a primazia na definição dos rumos nacionais, pois foi votado pela maioria dos brasileiros, além de ter um enorme poder político e administrativo. Mas o governo atual padece de cinco problemas que dificultam liderar um processo mais amplo de mudanças.

O primeiro é a falta de um diagnóstico para as grandes questões do século XXI. Parafraseando o “50 anos em 5” de JK, o que guia Bolsonaro é um projeto de “40 anos em 4”, mas para trás, voltando ao mundo do final do regime militar e da Guerra Fria. O passadismo domina o presidente, que se concentra em temas morais que lutam contra mudanças contemporâneas de valores e é saudosista da época da ditadura. É verdade que ele enviou várias propostas administrativas e econômicas ao Congresso Nacional, que poderiam ser colocadas dentro de um “pacote modernizador”. Porém, a soma dessas medidas geraria qual tipo de Estado? Quais devem ser as principais funções governamentais dentro da ótica bolsonarista? Como deveria ser a articulação do setor público com a sociedade? Qual é o modelo de gestão pública do bolsonarismo?

Em outras palavras, o governo Bolsonaro não apresentou até agora, com clareza, um diagnóstico de quais são os principais obstáculos para o desenvolvimento brasileiro do século XXI. Na verdade, o bolsonarismo é muito frágil no diagnóstico e no prognóstico na grande maioria das políticas públicas. Está aqui o segundo obstáculo para se construir um projeto mais amplo para o Brasil. Quem são os principais formuladores do governo? Quais países inspiram as políticas públicas ou, então, quais são as evidências que alimentam as decisões do primeiro escalão da área social?


Haveria vários exemplos dessa falta de perspectiva das políticas públicas. Para citar um deles: todos os economistas apontam o grande problema da produtividade da economia brasileira e como a questão educacional tem um peso decisivo neste tema. Pois bem, o que o MEC está fazendo ou pretende para melhorar efetivamente a Educação do país? Ninguém sabe. Falar contra Paulo Freire é lutar contra o passado – e uma luta equivocada – e não aponta um rumo para o futuro. Quais são as medidas inovadoras que estão pensadas para que o país melhore sua posição no PISA nos próximos dez anos? O que está sendo pensado para reduzir as desigualdades educacionais do país? As perguntas são muitas, e o silêncio das respostas é ensurdecedor.

Outro exemplo: é impossível imaginar o futuro do Brasil sem propor políticas consistentes sobre a questão ambiental. Aparentemente, o que governo tem conseguido é apenas piorar neste setor, com o esvaziamento dos órgãos públicos, a desregulação selvagem da legislação e, para coroar o retrocesso, os resultados têm sido apenas mais desmatamento, queimadas e desprestigio internacional. Aquilo que deveria ser um ativo para o desenvolvimento do país tornou-se um empecilho. O problema é que, em vez de apontar mudanças na postura atual, adota-se um comportamento meramente defensivo ou então se aposta na radicalização da destruição de tudo que foi feito ao longo da redemocratização. Alguém imagina que o Brasil melhorará no século XXI com o modelo bolsonarista de política ambiental?

Claro que podem ser citadas, aqui e acolá, medidas modernizadoras vindas do Executivo federal, como as ações do Banco Central para modernização do sistema de pagamentos do país. E aqui entra o terceiro obstáculo presente no governo Bolsonaro: há muitas forças políticas, muitos desiguais entre si e descoordenadas, convivendo no mesmo espaço, sem que uma liderança clara dê um sentido sistêmico às propostas.

O maior exemplo disso é a inflação de propostas que o Executivo federal mandou ao Congresso Nacional sem que haja prioridades entre elas. Cada mês uma delas é alçada ao topo das preocupações. O pior de tudo é que não há comprometimento presidencial nem com todos os pontos presentes nestes projetos. É muito estranho um presidente que manda algumas propostas de emenda constitucional bastante complexas, que mudam aspectos profundos do Estado, ter como principal preocupação a aprovação do novo Código de Trânsito Brasileiro! Que pontos estratégicos dessa legislação vão melhorar o futuro dos nossos filhos e netos?

No fundo, Bolsonaro se importa mais com aquilo que não tem evidências sobre seu impacto positivo de longo prazo, como a legislação das armas, do que com as grandes questões estruturais brasileiras, num caminho inverso aos dos países que estão efetivamente se preparando para o século XXI. Se voltarmos ao seu programa de governo apresentado na eleição, na maioria das vezes eram temas menos relevantes que ganharam destaque – e nos pontos efetivamente importantes, geralmente Bolsonaro apresentou propostas populistas ou que ele abandonou no meio do caminho, como o seu lavajatismo.

A falta de uma coalizão bem organizada no Legislativo, em termos de apoio e ideias, tem sido um quarto empecilho para a construção de uma visão clara de futuro. Isso gerou uma postura de desresponsabilização do Executivo, que muitas vezes torce para que os parlamentares resolvam sozinhos os problemas da agenda pública do país. Assim foi na reforma da Previdência, e alguns apostam que esse processo poderá ser repetido nas reformas administrativa e tributária. O problema é que quando o Executivo se ausenta, também podem ser aprovadas coisas que atrapalham o funcionamento governamental, seja em termos fiscais, seja na capacidade de execução.

Desde a prisão de Queiroz, no dia 18 de junho, Bolsonaro mudou de posição e começou a construir uma base parlamentar. Essa decisão, em boa medida, serve a ambos os lados como um mecanismo de autoproteção e sobrevivência de deputados e do próprio presidente. No entanto, vislumbra-se agora que se pode e se deve buscar algo mais dessa aliança, como revela a discussão sobre o Renda Cidadã. Só que exatamente quando essa parceria aponta para uma mudança legislativa importante, descobre-se o quinto e último aspecto que limita o reformismo bolsonarista: a dificuldade de pensar além das eleições de 2022.

É inegável que programas de transferência de renda constituem uma condição necessária para se combater a desigualdade brasileira. Mas é preciso juntá-las como outras políticas sociais. A desigualdade é múltipla e exige remédios vindos de vários setores. Qual é a política bolsonarista, por exemplo, para se reduzir a desigualdade racial? Afinal, são os negros que mais morrem com a violência na periferia, inclusive da vinda da polícia, bem como há um grande abismo educacional entre as crianças brancas e as negras. Obviamente que a renda é um ponto de partida desse processo, mas sozinha não muda este triste quadro, que já nem deveria existir em pleno século XXI.

Até agora os governistas só pensam em distribuir dinheiro para receber fidelidade na hora do voto. É esse mesmo sentido pragmático que move hoje o presidente, que no passado fora contra o Bolsa Família e todas as ações de redistribuição mais direta de renda aos pobres brasileiros. Todos podem mudar e fazer autocrítica, mas o que deve ser exigido de Bolsonaro envolve uma pergunta maior: qual será o desenho dessa política de transferência de renda para os próximos dez anos?

Do lado da oposição ao governo Bolsonaro, no seu sentido mais amplo, muitas propostas e temáticas relevantes têm sido levantadas nos últimos meses. Elas vêm de partidos ou de grupos da sociedade civil que têm apresentado bons debates e ideias sobre meio ambiente, educação, questão racial, saúde e outras questões verdadeiramente estruturais para o país. Não obstante, a fragmentação dessas visões de mundo e a falta de um modelo mais sistêmico que aponte soluções para frente, em vez de se concentrar nos sucessos e erros do passado, constituem uma fragilidade daqueles que querem se opor ao atual governo.

Muito se fala da necessidade de construir uma frente ampla, da centro-direita à esquerda, contra o bolsonarismo. Pode ser que isso seja necessário para a eleição de 2022 – e esse é um tema para um outro artigo -, mas é preciso dizer qual será o projeto mais amplo que vai orientar essa aliança, de modo que ela não seja apenas defensiva.

O país está num momento de ausência de uma proposta consistente de futuro. Para superar essa fase, além dos votos, será necessário propor ideias e soluções que vislumbrem algo além do curto prazo e do personalismo presidencial.
Fernando Abrucio

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Pensamento do Dia

 


Políticos e seus currículos de araque

Kassio Marques, escalado por Jair Bolsonaro para o STF a fim de votar com imparcialidade a favor de sua família, gabou-se em seu currículo de uma pós-graduação na Universidade de La Coruña, na Espanha. Faltou combinar com a universidade. Consultada, ela informou que Marques fez apenas um curso de quatro dias sem relação com qualquer pós, e, mesmo assim, como ouvinte. Para Marques, o encarregado de compor seu currículo "errou" ao traduzir o quesito. Seria mais honesto se dissesse "Desculpem, não colou".

É um "erro" frequente na biografia dos homens de Bolsonaro. Vide seus notáveis indicados para o MEC, Ricardo Vélez Rodrigues, Abraham Weintraub e Carlos Alberto Decotelli. Todos tinham em seus currículos cursos fictícios no exterior, plágios descarados ou autoria de livros alheios. Belo exemplo para os estudantes.



Ricardo Salles, destruidor do Meio Ambiente, disse-se aluno de mestrado em Yale, embora nunca tenha sido sequer matriculado. E Damares Alves, sinistra ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, intitulou-se "mestra em educação e em direito constitucional". Não por uma universidade, mas por leituras da Bíblia. "Mestre é quem se dedica ao ensino bíblico", decretou, do alto de sua goiabeira ardente.

Os espertos vêm de longe. A primeira a ter sua erudição desmentida foi Dilma Rousseff, pré-candidata à Presidência, em 2009. Seu currículo Lattes incluía imaginários mestrado e doutorado em ciências econômicas pela Unicamp. Não corou ao ser apanhada.

Em 1967, aos 19 anos, ganhei um curso de língua e literatura portuguesa na Universidade de Coimbra. Era um curso de verão, sem valor acadêmico. Tentei cumpri-lo, mas, uma semana depois, achando-o chato, despedi-me dos colegas e fui saracotear em Paris. Mesmo assim, recebi depois um simpático certificado de inscrição. Vou procurá-lo — está em algum lugar — e juntá-lo ao currículo.

Pureza da vestal

Vejo aqui na minha página de Facebook: ‘Bolsonaro nunca mais, você é corrupto’. Posso falar palavrão aqui? Puta que o pariu, não fode, porra! Desculpa a linguagem aí. Fala merda o tempo todo, não sabe o que acontece
Jair Bolsonaro

O sincericídio do paraquedista

No dia em que Jair Bolsonaro disse ter acabado com a corrupção no governo, outra declaração causou espanto em Brasília. Esta, pela sinceridade.

No lançamento da campanha Outubro Rosa, o ministro Eduardo Pazuello admitiu seu completo despreparo ao assumir a pasta da Saúde. “Eu não sabia nem o que era o SUS”, confessou.

O Brasil pagou caro pela ignorância do general paraquedista. Quando ele pousou na Esplanada como ministro interino, em maio, o país contava 13 mil mortos pela Covid. Entre hoje e amanhã, deve ultrapassar a marca de 150 mil vidas perdidas.

A tragédia seria menor se o governo tivesse agido com o mínimo de seriedade, confiando a gestão da pandemia a gente qualificada. Bolsonaro preferiu entregar a tarefa a um militar inapto, que não sabia nem o que era o Sistema Único de Saúde.

Pazuello admitiu seu desconhecimento na quarta-feira, dia em que o Brasil ultrapassou os cinco milhões de casos confirmados da Covid. Especialistas alertam que o número está subestimado. Como nunca fez testes em massa, o país não sabe ao certo quantas pessoas já pegaram o coronavírus.

Em abril, Paulo Guedes anunciou que “um amigo na Inglaterra” forneceria 40 milhões de testes por mês. As promessas do ministro da Economia já viraram folclore, mas essa foi especialmente infeliz. Segundo o IBGE, 17,9 milhões de brasileiros fizeram algum tipo de exame até o fim de agosto. Isso significa que os testes não haviam chegado a 91,5% da população.

O sincericídio não foi o único vexame de Pazuello na solenidade de quarta. Sem saber o que dizer, o general se referiu ao câncer como “uma doença muito complicada”. “Então o câncer tá aí. Ele é... ele está aí. E isso precisa ser compreendido”, enrolou-se.

O militar foi a única autoridade a entrar no auditório sem máscara. Sentou-se entre a primeira-dama Michelle Bolsonaro e a ministra Damares Alves, a quem definiu como uma “parceira de todos os dias”. A pastora e o paraquedista têm mais em comum que a obediência cega ao chefe.

A harmonia é o limite

Harmonia, civilidade e cortesia são atributos imprescindíveis às boas relações entre os humanos, sobretudo quando nas mãos deles está o destino da nação e na figura de cada um a representação dos poderes da República. Portanto, há de ser bem recebida a decisão do presidente Jair Bolsonaro de arquivar (ou abandonar, numa perspectiva otimista) a hostilidade que vinha exibindo em relação ao Supremo Tribunal Federal.

Há de se ressalvar, porém, que do “oito” da agressividade não é aceitável uma transição para o “oitenta” do excesso de informalidade, terreno pantanoso em que se corre o risco de resvalar para a promiscuidade. Esse é um cuidado a ser observado e preservado na fase inaugurada pelo presidente da República no âmbito da indicação do novo ministro do Supremo. Vale para o chefe do Executivo e vale também para integrantes do Legislativo e do Judiciário.

Não soa adequado um senador usar o pronome “nosso” para se referir ao desembargador Kassio Nunes Marques, ainda mais quando o referido congressista (Ciro Nogueira) é alvo de processo no STF. Assim como não parece apropriado o presidente ressaltar entre as qualidades de seu escolhido para compor a Corte Suprema o fato de ser seu parceiro no consumo de “tubaína”.



Sem dúvida alguma é muito melhor ver o presidente levar seu indicado ao encontro de dois ministros do STF em sinal de amabilidade do que vê-lo e ouvi-lo incentivar manifestações em prol do fechamento do tribunal guardião da Carta Maior. A despeito da intenção contida no gesto, talvez tivesse sido mais apropriado fazer a cortesia em ambiente profissional e não em jantar amigo na casa de Gilmar Mendes ou em tarde de pizza e futebol na residência de Dias Toffoli.

A ideia era transmitir ao país uma mensagem de harmonia entre os poderes, mas, para espíritos menos tolerantes ao hábito corrente em Brasília de confundir convivência civilizada com relações perigosamente inadequadas, pode parecer uma ultrapassagem dos limites da necessária harmonia e uma agressão ao indispensável preceito constitucional da impessoalidade.

A observância de rituais de formalidade não significa dizer que as relações entre altas autoridades da República devam se dar em ambientes hostis, muito menos sob a égide da descortesia. Tomemos os exemplos do presidente do Supremo, Luiz Fux, e outros colegas de tribunal que não têm como prática frequentar confraternizações onde juízes se misturam a advogados, investigadores a investigados, lobistas a congressistas. Nem por isso podem ser vistos como republicanamente desrespeitosos. Ao contrário.

Com toda a boa vontade com que se possa receber a adesão do presidente Bolsonaro aos bons modos no convívio com os outros poderes, convém não perder de vista determinadas fronteiras, a fim de não se transmitir aos brasileiros uma sinalização errônea a respeito do funcionamento das instituições, necessitadas que estão do galho forte do acolhimento, da admiração e da proteção social.

Brasil de mentirinha

 


Política da miséria

Vamos simplificar a política brasileira. Ela cabe hoje em poucos números, que não são bonitos. Um deles: em 1,5 mil municípios brasileiros a ajuda emergencial de R$ 600 por conta da pandemia DOBROU a massa de salários do setor formal. É um retrato cruel da miséria brasileira.

Essas localidades se espalham pelo País inteiro com notável concentração no Norte e Nordeste. Mesmo no Sul e Sudeste, porém, em mais de 1 mil municípios a massa de salários do setor formal aumentou pela metade com o auxílio emergencial. Ocorre que esse efeito tem data para acabar: dezembro, com o fim do coronavoucher.

A essência do debate político pós-pandemia concentrou-se apenas nesse aspecto: como financiar um programa social que faça a transição da “emergência” para uma “renda básica”. Foi um dos raros elogios que a revista Economist dedicou ao governo brasileiro nos últimos tempos. A melhor conduta em países pobres como o nosso, assinalou a publicação, é mesmo dar dinheiro direto nas mãos das pessoas.


Depois de esperar em vão pela fórmula mágica de onde tirar esse dinheiro – fórmula que, se presumia, existisse no Ministério da Economia –, o presidente Jair Bolsonaro trouxe a bordo de sua coordenação política mãos experientes como as do senador Renan Calheiros. De quem ganhou fortes elogios por estar desmontando o “Estado policialesco” da Lava Jato e por ter passado a praticar não a “velha” ou a “nova” política mas, sim, a “boa” política.

Ela consiste há décadas em acomodar os mais variados interesses (como subsídios, renúncias fiscais, penduricalhos de salários, supersalários, entre muitos outros componentes de gastos públicos que sempre crescem) aumentando a carga tributária. De jantar em jantar de confraternização – Brasília parece de novo tão “normal” –, a pergunta é apenas qual será a fórmula de um novo imposto – dirigido contra o “andar de cima” ou não, mas novo imposto.

Quando o noticiário político produz todas as noites a confusão entre qual reforma, qual PEC, qual pacto, qual PL ou qual voz está valendo para definir os rumos, ele está apenas refletindo a falta de plano, foco e estratégia de um governo interessado só em reeleição. Soa contundente, e é: há pouco crédito quando o ministro da Economia reitera que tem um “road map” para a recuperação da economia. O que há é uma infindável manipulação de prazos regimentais em função de calendários eleitorais, como se dependesse da eleição de prefeitos a arrumação do País e a passagem do tempo resolvesse os problemas.

É verdade que são discretos ainda, mas já não dá para se ignorar os murmúrios em setores da economia preocupados com a subida dos juros a longo prazo, a deterioração do câmbio, a velocidade e a sustentação da recuperação pós-pandemia. Que se assume que será mais lenta do que a recuperação lá fora e nem um pouco homogênea (os exemplos mais fortes estão no contraste entre construção civil, no lado que volta a sorrir, e o de serviços como turismo e gastronomia, entre outros).

Nota-se clara convergência entre os relatórios de grandes bancos, o próprio Banco Central e o FMI quando se trata da crescente preocupação que essas várias instituições manifestam frente à dívida pública e à situação fiscal. No fundo, elas se voltam de olhos cada vez mais arregalados para a política brasileira diante de seu dilema: como proteger as camadas mais vulneráveis, que ficaram ainda mais vulneráveis, sem arrebentar a credibilidade do trato das contas públicas.

O problema é, simplesmente, miséria.

A benevolência do establishment com Bolsonaro

O que mais impressiona, na era Bolsonaro, não é exatamente o fato de o presidente da República escancarar comportamentos que, em outros governantes, teriam motivados saraivadas de críticas e reações. O que surpreende, acima de tudo, é o processo de naturalização que parece envolver esses atos, aceitos cordatamente por políticos, instituições e setores da sociedade.

Tome-se como exemplo o Supremo Tribunal Federal, nossa Corte maior. Dez de seus integrantes estão se despedindo esta semana, às lágrimas, de seu decano. Ao mesmo tempo, assistem sem reação aos trâmites da nomeação de um substituto que “toma tubaína” com Jair Bolsonaro e foi escolhido com a ajuda do filho Flávio Bolsonaro, alvo de processos no STF, e do enroladíssimo advogado Fred Wasseff. Não houve, por parte de ministros do Supremo, reparos ao fato de Bolsonaro, em clara falta de educação, nomear o novo titular antes da aposentadoria do antecessor Celso de Mello, num procedimento inédito.

Ao contrário, dois deles, Dias Tofolli e Gilmar Mendes – que verteu lágrimas na última sessão do decano na Segunda Turma – foram brindados com visita do presidente com o indicado, Kassio Nunes, a tiracolo e com ele confraternizaram. Não lembraram nem de dar um protocolar telefonema ao presidente da Corte, Luiz Fux, que ficou sabendo pela imprensa no dia seguinte – do convescote e da indicação.


No Senado, apesar da oposição de alguns, há poucas dúvidas de que o novo ministro do STF será aprovado com celeridade e até aplausos. Mesmo depois do mal-entendido em que cursos de extensão feitos no exterior foram confundidos com pós-doutorados em seu currículo, exposto no site do TRF-1. Afinal, quem liga para currículo hoje em dia? Tomar tubaína com o presidente, ou ser terrivelmente evangélico, de preferência pastor – quesito anunciado por Bolsonaro para a próxima escolha – pesa muito mais.

Tudo indica que o Supremo, "que já se deu por muito satisfeito porque Kassio Nunes, afinal, é um jurista e as outras opções cogitadas eram muito piores", vai esperar caladinho a nomeação de seu pastor no ano que vem. E que a maioria do Senado também irá engoli-lo, assim como está, aliás, engolindo a reeleição de seu presidente, o aliado do Planalto Davi Alcolumbre, apesar de ser expressamente proibida no texto constitucional. Mas que importância terá a Constituição a essa altura?

Caladinhos também estão representantes do mercado e do empresariado que ouvem auxiliares do presidente dizerem com naturalidade que ele não vai anunciar o programa Renda Cidadã antes do fim de novembro porque acha que as medidas fiscais impopulares que tem que tomar para financiá-lo podem dificultar seus planos de “varrer o PT” nas eleições. Depois do pleito, ele anunciará, seja lá o que for: tunga na classe média com o fim das deduções do IR, limitação do abono salarial, congelamento de aposentadorias ...

Deixar de tomar decisões de governo, e adiar seu anúncio para depois da eleição tem um nome: estelionato eleitoral, comportamento muito condenado. Fernando Henrique, por exemplo, jamais se recuperou da desvalorização cambial que esperou para fazer em janeiro de 1999, depois de reeleito, em vez de intervir na hora certa, antes da eleição. Dilma Rousseff perdeu apoio das bases petistas quando, reeleita, nomeou Joaquim Levy para fazer uma política econômica diversa da que levou aos palanques da reeleição. Paga-se um preço.

Será que, com o presidente que vem conseguindo banalizar tantos comportamentos incorretos e inadequados sob as vistas benevolentes do establishment, vai ser assim? Pensando bem, o governo Bolsonaro está operando tantas mudanças no estado de espírito das instituições, dos políticos e das elites que é bem capaz de todo mundo continuar caladinho.
Helena Chagas 

Livros em chamas

Circularam no Twitter no dia 29 imagens de um casal que arranca páginas de livros de Paulo Coelho para atirá-las numa churrasqueira comum, dessas domésticas, dessas bem feias. As folhas, aos maços, caem sobre as brasas e se transformam em pequeninas labaredas. O casal exulta. Enquanto cuida de seus afazeres flamejantes, desfere insultos contra o escritor, que é chamado de “lesa-pátria” por ter criticado o governo. Entre um desaforo e outro, dizem que ele precisa ir morar em Cuba, na Venezuela ou na Argentina. Alguém ri ao fundo. A treva fumega.

A Academia Brasileira de Letras (ABL), que tem Paulo Coelho entre seus imortais, repudiou a cerimônia comburente. Em nota, a ABL argumentou, com razão, que a agressão nos traz memórias tenebrosas, como “a destruição das bibliotecas de Alexandria e Sarajevo, os crimes de Savonarola e as práticas do nacional-socialismo”. É isso mesmo. Talvez sem saber, os que agora fazem romances virar cinzas reeditam os pelotões nazistas que em 1933, na Alemanha, em fogueiras rituais no meio da rua, torraram exemplares de clássicos da literatura. Brincando com fogo, brincam com a História.



As mentalidades autoritárias são assim. Não desistem. A combustão não cessa. No dia 15 de dezembro de 1977 o Times-Union, jornal da cidade americana de Warsaw, Indiana, estampou uma foto de um grupo de senhores e senhoras da cidade inspecionando um ritual em que livros ardiam num grande cesto de lixo feito de tela aramada. Eram obras que, segundo o grupo, agrediam os valores da família. No ano passado, manifestantes na Etiópia queimaram cópias de um livro do primeiro-ministro (vencedor do Prêmio Nobel da Paz) Abiy Ahmed, para, com isso, dar apoio ao oposicionista Jawar Mohammed.

São fatos históricos notórios. Além deles, porém, há os episódios menos visíveis em que pessoas comuns se metamorfoseiam em incendiárias fanáticas. Isto é o mais terrível nas imagens do Twitter: quem está ali atentando contra livros não são bandos organizados de extrema direita, mas gente como a gente que, num ato instantâneo, se escancara horrorosamente desumana. Não, não é gente como a gente. A intolerância mais odiosa já se alojou na intimidade dos lares brasileiros.

Muitos dizem que o pior do fascismo é a brutalidade que ele autoriza no guarda da esquina. Estão certos. Na mesma perspectiva, podemos acrescentar que o pior do fascismo é a potência inflamável que ele acende entre os anônimos. Na impossibilidade prática de queimar as pessoas, como se fazia nos tribunais da Inquisição e no Holocausto, os novos incineradores queimam os nomes próprios dos que julgam “traidores”. Queimam biografias. Acreditam no fogo para linchar a honra alheia mais ou menos como acreditam no inferno.

É preciso olhar para essas imagens com atenção, por mais que elas nos rebaixem. É preciso escutar. Nas crepitações obscurantistas do cotidiano ouvimos o discurso em que a Pátria vira sinônimo de governo. Logo, quem ama o brasão nacional tem de baixar a cabeça para a autoridade, quem discorda é “impatriótico” e será condenado à fogueira e ao exílio e vai ter de morar na Venezuela.

É como estar dentro de uma distopia. O Brasil vira cenário da ficção científica Fahrenheit 451, de Ray Bradburry, em que o corpo de bombeiros usa lança-chamas para consumir as bibliotecas. Aqui e ali pipocam cenas distópicas na vida real e nas redes sociais. Em que tipo de monstruosidade nos estamos convertendo? Será que seremos isso, uma sociedade que queima florestas e depois queima a reputação dos que apontam as queimadas nas florestas? Enquanto demoramos a responder, a terra arde, a celulose vira fumaça e palavras são calcinadas.

A falência generalizada de livrarias faz soar o alarme, mas não percebemos nada. O desprestígio das bibliotecas nos alerta, em vão. Bibliotecas servem para as pessoas estudarem, em silêncio, concentradas nas páginas onde encontram sabedoria. Abrigam quem queira recolher-se e pensar. Bibliotecas não são acervos de livros, mas templos dedicados à postura essencial de ler, pensar e, mais ainda, de encontrar pessoas para o diálogo. Sim, bibliotecas são lugares de encontros. Como lugares de estudo, reservam salas para reuniões, onde os frequentadores podem conversar em torno de ideias.

Hoje essas duas potencialidades humanas, o recolhimento meditativo e o encontro dialógico, estão amaldiçoadas. Nada parece ser mais ameaçador para o fanatismo que aí está do que uma pessoa em silêncio com um livro diante dos olhos. Alguém que pense por sua própria conta é alguém que, uma hora ou outra, vai inventar de não obedecer. Onde é que já se viu? Mas além do pensamento, os piromaníacos violentos têm medo do encontro. Temem o diálogo, que só se realiza quando os pontos de vista não são coincidentes (só há diálogo porque há diferenças). Nada os assusta mais que o encontro entre diferentes.

Pensar é respeitar. Encontrar é desejar. Os brutos olham para isso e riscam o fósforo. “Livros, livros, à mão cheia” – para avivar a churrasqueira.

Eugênio Bucci