domingo, 12 de abril de 2020

Insensatez versus insensatez

Na Sexta-feira Santa, enquanto o Brasil contava mais de mil mortos pela Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro chocava o país ao dar a mão a uma idosa depois de esfregar o nariz no antebraço, próximo ao pulso. Voltava às ruas não só pela birra de desobedecer às recomendações de seu ministro da Saúde, mas principalmente para acirrar o confronto com o seu desafeto-mor João Doria, que no dia anterior ameaçara prender quem violar a regra de isolamento.

Erros abissais de ambos.

O governador paulista, que em 2018 surfou na popularidade de Bolsonaro para se eleger, viu na incapacidade do presidente de lidar com a pandemia o cavalo arreado que tanto os políticos almejam. Montou. Mas depois de saltar com sucesso alguns obstáculos está prestes a tomar um tombo feio.

Assim como Bolsonaro não pode desfazer unilateralmente as determinações de isolamento tomadas por governadores e prefeitos, tema já analisado pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes, Doria não pode lançar na cadeia quem desrespeitar a quarentena.

Não à toa, Bolsonaro lembrou o direito de ir e vir ao ser criticado pelos passeios matinais em Brasília. A não ser em estado de exceção, ninguém pode cassar esse direito, embora ao exercê-lo contra tudo o que a ciência dita, o presidente coloque pessoas em risco de vida e escancare o descaso que tem por elas.

Ainda que alguns juristas defendam a competência legal do governador de mandar prender, um decreto para tal é polêmico e, na prática, criaria uma situação surreal: lotaria delegacias e ampliaria o contágio que se quer deter com o isolamento.

Doria vinha tendo um comportamento irrepreensível. Um exemplo de liderança centrada versus um presidente obtuso que insistia em tratar a peste como “gripezinha”, “resfriadinho”.

Enquanto Bolsonaro aprofundava-se no negacionismo, perdendo credibilidade e pontos de popularidade, Doria cresceu. Arregimentou um grupo técnico de qualidade indiscutível, montou um modelo de isolamento invejável, implantado gradativamente a partir do dia 16 de março. O anúncio da suspensão das aulas foi feito com uma semana de antecedência para que as famílias se preparassem, e, paralelamente, criou uma rede de amparo social e à saúde. Tudo seguindo os preceitos da Organização Mundial da Saúde e de acordo com o ministro Luiz Henrique Mandetta.

Encarnando a razão contra a incendiária bipolaridade do presidente que nada comanda, a não ser showzinhos para a plateia de fãs no portão do Palácio da Alvorada, Doria não precisava exacerbar. Bastaria continuar na sua correta pregação, diária e didática, sobre a necessidade de as pessoas ficarem em casa. No máximo, acenar com multa para os desrespeitosos. Ultrapassou limites ao falar em prender desobedientes, dando munição para quem já havia se autoabatido.

Talvez o maior erro seja imaginar que as preferências eleitorais se moldam no decorrer da crise. Ninguém em sã consciência tem ideia de como será o próximo mês, quanto mais 2022.

Doria ocupa uma posição confortável. Sua pretensão é a de se firmar como o defensor da vida acima de tudo. Mas governa o Estado epicentro da endemia no país. Mesmo se continuar a fazer tudo certo – e prender gente está longe disso -, São Paulo terá números recordes de doentes e mortos. Se relaxar, amontoará corpos como a Espanha, a Itália e os Estados Unidos. Quadros dantescos, incapazes de gerar dividendos eleitorais.

Bolsonaro, que pressupunha uma reeleição tranquila a partir de bons indicadores econômicos (resultados que não conseguiu começar a entregar antes mesmo do coronavírus), sabe que no final de seu mandato, se chegar até lá, terá nas mãos um país em frangalhos. Quer porque quer pôr o dinheiro para girar ainda que isso acelere a pane no atendimento à saúde e, consequentemente, custe mais vidas

Transgressor por natureza, Bolsonaro tem testado limites. Todos os dias manda seu ministro da Saúde às favas, desrespeita todas as regras.
Irresponsavelmente, incita as pessoas a ir às ruas. Está doidinho para ver Doria fazer a primeira prisão por violação ao isolamento. Ganharia assim um parceiro na insensatez.

Erros e acertos no espelho da história

O que fizemos certo como país e o que não fizemos aparecem agora diante de nós. O coronavírus trouxe um enorme espelho onde vemos com lucidez aguda os acertos e os erros. A democracia criou o SUS, formulou programas de transferência de renda e fez um cadastro dos mais pobres. Isso é a base para o trabalho de proteção dos brasileiros. A desigualdade, a falta de moradia decente, os esgotos não tratados e a má distribuição da água ameaçam transformar essa pandemia numa enorme tragédia social. E são os pobres e os negros os mais ameaçados. Como sempre.

O Brasil tem feito a si mesmo perguntas profundas neste tempo extremo. Uma delas é: onde estão os invisíveis? O país sempre conviveu com um fosso social imenso que divide os incluídos dos excluídos. Os com e os sem. No mercado de trabalho sempre houve os com carteira e os sem carteira. Dentro e fora das leis trabalhistas. Os sem carteira se dividem em vários grupos: trabalhadores informais, os que trabalham por conta própria, os empregadores sem CNPJ, os desempregados, os desalentados, os nem nem, os subutilizados. É uma multidão. São, evitando dupla contagem, 64,8 milhões. É a soma de toda a população da Argentina, de Portugal e da Áustria. Eles de alguma forma iam vivendo e gerando sua própria renda. O choque de realidade que a pandemia provocou trouxe todos eles para a cena principal. Quem são, onde estão, como fazer um caminho para entregar a eles os recursos públicos? Dúvidas do tempo presente.

Tudo o que foi feito nos governos democráticos nesses últimos 35 anos ajuda muito. É o que temos. Não é suficiente. O governo Sarney começou com o programa do leite, evoluiu para cestas básicas. Betinho avisou que a fome de outro brasileiro era inaceitável e nos ensinou a solidariedade. Cidades testaram a transferência de renda vinculada à presença da criança na escola, o Bolsa Escola. Para isso foi necessário fazer a ficha dos beneficiários. Campinas, Distrito Federal, Belo Horizonte passaram a criar cadastros. Outras cidades as seguiram. Depois veio o Bolsa Escola Federal, no governo Fernando Henrique, que fez o primeiro cadastro geral. Em seguida o Bolsa Família, no governo Lula, que unificou programas federais, ampliou a transferência e incluiu mais brasileiros no que se chamou de Cadastro Único. É incompleto, mas é a base que está sendo usada agora no auxílio emergencial.

Para ampliá-lo o governo pede, no meio dessa crise, que estejam todos, até as crianças, com os seus CPFs em dia. Essa exigência coloca os pobres em risco de vida. A mãe ou o pai de família precisam ir até um órgão público, aglomerar-se, para registrar aquele pequeno ser humano como contribuinte. Pronto. Se é um pagador de impostos então ele passou a existir. Essa exigência seria apenas surreal, se não fosse desumana. Na fila eles podem se infectar. A burocracia estatal, um dos nossos defeitos mais velhos, de novo coloca pedras no caminho.

Derrubar a superinflação indexada deixada pelo regime militar, e que virou hiperinflação, foi uma saga que consumiu dez anos de esforços. O real permitiu que mais brasileiros tivessem acesso a bens de consumo. A privatização produziu uma enorme inclusão no mundo da telecomunicação. Hoje é com esses celulares em mãos que os pobres estão tentando inscrever-se no auxílio emergencial. Na venda das teles criou-se um fundo cujo dinheiro deveria ter sido usado para informatizar todas as escolas públicas e universalizar a banda larga. É o Fust, Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicação. Arrecada R$ 1 bi por ano e tem R$ 20 bilhões em caixa. O governo acaba de decretar o seu fim. Se a tarefa tivesse sido executada, seria possível hoje ter todas as crianças na escola, ainda que remotamente.

Fizemos casas para os pobres e nem de longe foi o suficiente. Nas favelas, o risco é aterrorizante. O serviço de água tratada é irregular. Como lavar as mãos? Nas moradias não há espaço. Como isolar algum eventual infectado? As falhas da política habitacional e do planejamento urbano cobram a conta. O SUS espalhou-se pelo país e com todas as suas falhas é a melhor rede que temos para acolher os brasileiros.

O que fizemos de certo nos 35 anos de democracia nos ajudará nessa emergência humanitária. O que deixamos de fazer cobrará a conta e ela talvez seja alta demais. Que a dor dessa travessia nos ensine.

Brasil convid 17


O cisma de Bolsonaro

O desagregador do Planalto consegue provocar cismas até mesmo entre instituições sólidas como a Igreja Católica. Na quarta-feira, enquanto o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o progressista Dom Walmor Oliveira, criticava Jair Bolsonaro por desinformar o país e “provocar um itinerário para a morte”, católicos da ala conservadora foram para a porta do Alvorada rezar pelo “enviado por Deus para salvar o Brasil do comunismo”.

Verdade que as duas alas da Igreja não se bicam há anos, mas com a chegada de Bolsonaro a separação entre elas voltou a ganhar conotação política. Lembra a guerra de 24 anos entre a CNBB e os religiosos que apoiaram a ditadura de 1964, como se fosse possível homens que acreditam em Deus aceitarem governo que censura, tortura e mata. Esta turma não se envergonhava antes e não se envergonha agora em defender intervenção militar se essa for a forma de evitar a volta da esquerda ao poder.

A ala conservadora da igreja no Brasil vê comunistas em todos os lugares. Até mesmo na Santa Sé, já que muitos chamam o Papa Francisco de comunista e enxergam em alguns de seus atos manobras para sabotar o governo de Bolsonaro. Trata-se de uma bobagem sem tamanho, mas os cristãos da Renovação Carismática Católica que louvaram o presidente na porta do Alvorada disseram que mensagens de Francisco nesse sentido seriam ouvidas durante as pregações da Semana Santa. São tolos, como Bolsonaro.


O grave é que por serem tolos são também perigosos. Defendem as mesmas teses do presidente e concordam com a cruzada pelo fim do isolamento, permitindo que as pessoas “voltem a trabalhar, produzir e salvar vidas”. E, por mais absurdo que pareça, na vigília do Alvorada disseram fazer parte de uma certa “milícia celeste” de apoio ao presidente. Estes fundamentalistas carismáticos brincaram com fogo, fizeram trocadilho com a morte, já que se conhece a proximidade de Bolsonaro com a violenta milícia do Rio.

A CNBB, por sua vez, sempre esteve ao lado da democracia, dos mais fracos, dos excluídos, dos esquecidos. Foi assim durante todo o regime militar, continuou assim ao longo do período democrático inaugurado com a eleição de Tancredo Neves e a posse de José Sarney, em 1985, e segue da mesma forma sob Bolsonaro. Sempre, sob qualquer governo, foi crítica e contundente. Em 2004, atacou o governo Lula por se distanciar dos movimentos sociais. Não é preciso ser muito sabido para dizer quem está com a razão.

Esta divisão alcança também as igrejas evangélicas. Coloca de um lado os que o ex-deputado Chico Alencar (PSOL) chama de “bolsocrentes” e do outro as igrejas evangélicas históricas. Os primeiros acham que o coronavírus é jogada política, acreditam que conseguem exorcizar a praga e vão ao Alvorada pregar ao “escolhido por Deus”. Em 5 de março, um pastor, que tomou meia hora do presidente e o fez ajoelhar no asfalto em frente ao Alvorada, disse a seguinte barbaridade: “Em nome de Jesus declaro que no Brasil não haverá mais mortes pelo coronavírus”.

As igrejas históricas entendem que o presidente precisa ser freado. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil repudiou em nota oficial o pronunciamento em que Bolsonaro disse que se fosse acometido pelo coronavírus teria apenas uma gripezinha em razão de seu passado de atleta. Na internet, alguns grupos afirmaram que Bolsonaro “segue o delírio de poder e vaidade” e defenderam a renúncia.

O cisma religioso de Bolsonaro lembra a metáfora que Frei Betto construiu no seu mais novo livro, “O diabo na corte - Leitura crítica do Brasil atual”. Ele descreve um reino em que o diabo dissemina “a confusão semântica”, onde as palavras perdem os seus significados ou os têm trocados. E cita uma princesa que diz ser uma pessoa “terrivelmente religiosa”. Certamente a palavra “terrível”, que é aquilo que causa ou infunde terror, não deveria combinar com “religiosa”. Mas naquele reino combina, graças ao diabo. E nesse aqui parece que também.

'A batalha política do século será entre humanos e transumanos desumanos'

O filósofo italiano Franco Berardi, o "Bifo", aproveitou a quarentena em Bolonha para escrever um “Diário da psicodeflação”, publicado em inglês no blog da editora britânica Verso.

— Nosso psicológico vem experimentando uma “deflação”, no sentido de uma bola que está soltando ar, caindo no chão, flácida — disse.

Essa “deflação” é consequência da quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus, que obrigou aqueles que podem ficar em casa a desacelerar e esvaziar as ruas para manter a saúde.

Autor de livros como “Depois do futuro” e “Asfixia”, publicados no Brasil pela Ubu, Bifo participou de coletivos operários nos anos 1960 e sustenta que as novas tecnologias roubaram dos homens a possibilidade de sonhar futuros não previstos por algoritmos. Apenas a “reativação poética do corpo social” pode vencer a crise da imaginação, diz ele.

Em troca de e-mails com o GLOBO, Bifo afirmou que a recessão provocada pela epidemia pode inspirar arranjos sociais mais igualitários e sugeriu que a principal batalha política do novo século não será entre direita e esquerda, mas entre humanos e transumanos desumanos. Calma, nenhum ciborgue está vindo nos matar

— “Transumanos desumanos” são os que exploram as novas tecnologias para criar um sistema tecnototalitário.

Quais serão os efeitos desta quarentena prolongada?

O capitalismo como nós o conhecemos vai desmoronar. Os economistas negam os indícios de uma longa estagnação, mas está cada vez mais claro que não existe crescimento infinito. Os recursos do planeta — e os recursos do nosso sistema nervoso — são limitados. Temos uma alternativa: construir um novo paradigma de produção baseado na frugalidade, na reciclagem, na distribuição igualitária dos recursos, na redução da jornada de trabalho, na adoção completa das tecnologias que substituem o trabalho humano e em renda básica para todos. Ou seremos submetidos a um capitalismo tecnototalitário extremamente desigual e violento.

E a política? A epidemia vai reconfigurar a disputa política?

O jogo político do passado, baseado na oposição direita-esquerda, acabou. Donald Trump, Jair Bolsonaro e Matteo Salvini (ex-primeiro-ministro italiano) e outros líderes patéticos não são um retorno da velha direita, mas uma reação à humilhação e à impotência da maioria da população. A pandemia está revelando a inaptidão desses líderes. Alguns tiveram a decência de seguir as instruções da ciência. O primeiro-ministro italiano(Giuseppe Conte), na minha opinião, agiu com responsabilidade, ainda que com certo atraso, e está fazendo o que os especialistas recomendam. Outros líderes, como o presidente do Brasil, falam besteiras, temerosos de que a epidemia os derrube — o que eu suspeito que vai acontecer logo. Repare em Boris Johnson (primeiro-ministro britânico), aquele palhaço arrogante, que estava negando os perigos da epidemia e se recusando a agir, até ele próprio pegar o vírus e precisar de tratamento médico. Creio que o jogo geopolítico do século será a batalha final entre humanos e transumanos desumanos. A não ser que o conoravírus destrua todos os transumanos desumanos, o que é possível.

A que você se refere quando diz “transumanos desumanos”? Ciborgues? Inteligência artificial?

Não acho que os ciborgues ou a inteligência artificial sejam os vilões. A tecnologia pode ser uma ferramenta para o progresso e o bem-estar social. Só a ciência pode nos salvar da pandemia. A salvação certamente não virá dos políticos ou do mercado. Quando falo “transumanos desumanos” me refiro aos que exploram as novas tecnologias para criar um sistema tecnototalitário de controle do nosso trabalho e das nossas vidas.

O que é “psicodeflação”?

Nos últimos 30 anos, nós fomos obrigados a acelerar, competir, vencer a guerra diária da precariedade. No livro “24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono”, Jonathan Crary (crítico de arte britânico) estima que dormíamos, em média, 10 horas por dia no começo do século passado, oito horas nos anos 1960 e seis horas e meia em 2000. Em “Sex by numbers” (Os números do sexo), David Spiegelhalter (estatístico britânico) afirma que, em média, fazíamos amor cinco vezes por semana nos anos 1990, quatro nos anos 2000 e 2,5 na década de 2010. A economia neoliberal somada à tecnologia tem nos levado à infelicidade. Assista ao último filme de Ken Loach (cineasta britânico) "Você não estava aqui". O filme descreve a vida precária de quem trabalha com entregas, a ansiedade infernal. Depois da ansiedade, vem a exaustão e as convulsões do corpo coletivo, expressa nos protestos do semestre passado em Hong Kong, Santiago, Barcelona, Paris, Quito, Beirute, etc, etc. Estamos exaustos, nervosos e deprimidos. O coronavírus e a quarentena diminuíram a tensão. Nosso psicológico vem experimentando uma “deflação”, no sentido de uma bola que está soltando ar, caindo no chão, flácida, e também no sentido econômico de diminuição da demanda.

Você diz que, além do coronavírus, há um psicovírus se espalhando. O que é esse psicovírus?

O conceito de vírus foi usado por William Burroughs (escritor americano, 1914-1997) para definir tudo o que induz a uma mutação, seja ela cultural, linguística ou social. Um terço da população mundial está em quarentena, está tudo paralisado, a produção, as interações sociais, o tráfego aéreo, a vida urbana. Para entender o que está acontecendo, temos que levar em conta a mutação psicológica que o vírus produziu e seus efeitos sociais no futuro próximo.

Com a pandemia, ficou mais difícil imaginar o futuro?


Por um lado, o futuro é tão sombrio que nos aterroriza só imaginar o que está por vir. Por outro lado, a pandemia reativou o imprevisível. Ontem, o poder tecnofinanceiro bloqueava toda possibilidade de agir e de imaginar algo diferente do que a repetição algorítmica. Com a pandemia, começou um jogo totalmente diferente. O imprevisível superou o inevitável.

Você prescreve um remédio para a crise da imaginação: a “reativação poética do corpo social”. O que isso quer dizer?

O que é um movimento social? É o agrupamento consciente de corpos no espaço público e o compartilhamento de afeto, solidariedade, prazer e sensibilidade estética. Reativação poética do corpo social é isto: um movimento que vence o medo e torna possível a emergência da esperança, de novos estilos de vida e maneiras de organizar o conhecimento e a tecnologia.
Ruan de Sousa Gabriel

O dilema moral dos sem moral

Se você não entrar em quarentena por causa da pandemia, ela causa mais problemas e mais danos econômicos.
(...) Se você não implementa uma quarentena porque quer economizar dinheiro, está enfrentando uma questão moral e não econômica
Richard Baldwi, professor de Economia Internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e Desenvolvimento em Genebra

Ganância também pode matar

O lucro líquido registrado em 2019 por Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco e Santander foi de R$ 86,6 bilhões . Esses quatro bancos, que dominam o mercado nacional, cresceram 18,4% no ano passado e arrecadaram para seus caixas o maior valor nominal da história.

Com esse resultado, esperava-se um apoio forte deles e de outros agentes do mercado no combate ao avanço do novo coronavírus. Nas últimas semanas, várias instituições financeiras anunciaram doações para combater a pandemia. O valor estimado, de R$ 230 milhões, parece ser expressivo. No entanto, representa apenas 0,4% do lucro líquido registrado em 2019 pelos quatro gigantes da área.

Nesse sentido, a filantropia bancária poderia ter muito mais resultado se revertida em efetiva facilitação na concessão de crédito com juros menos extorsivos, garantias mais flexíveis e simplificação da burocracia. Isso ajudaria muito neste momento de crise.


E quem está sofrendo com o excesso de exigências dos bancos são justamente aqueles que estão na ponta do combate ao tratamento de brasileiros diagnosticados com a Covid-19: as 2.100 Santas Casas de Misericórdia espalhadas por esse Brasil afora. Elas atendem mais de 54% da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda em 2018, aprovamos no Congresso Nacional medida que autorizou a criação de linha de crédito de R$ 5 bilhões com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para socorrer as santas casas e os hospitais filantrópicos que atendem pelo SUS. A proposta foi sancionada no mesmo ano e, em 2019, precisou de regulamentação, feita por meio de uma medida provisória. Para reforçar essa ajuda, ainda aprovamos agora em abril, já no meio da pandemia, a transferência de R$ 2 bilhões da União para as santas casas.

No entanto, como declarou nesta semana o presidente da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB), Mirocles Véras, as linhas de crédito não estão atendendo às santas casas. De acordo com ele, as condições impostas pela Caixa Econômica Federal estão impedindo que os recursos cheguem às instituições, que seguem endividadas e sem capacidade de se financiar.

A Confederação alega que o banco público está propondo juros que ainda são proibitivos para as entidades. Além do mais, o processo é muito burocrático e com exigências de garantias suplementares. Outro problema enfrentado é a falta de informação nas agências. Muitas superintendências regionais sequer conhecem as regras. Na prática, segundo Véras, o empréstimo é inviável na maioria dos casos.

Ou seja, trata-se de um dinheiro que deveria chegar rapidamente na ponta para os que fazem o enfrentamento da pandemia, mas que fica represado no caixa dos bancos.

Enquanto isso, mesmo no meio da crise, os maiores bancos da América Latina voltaram às graças de analistas. O Goldman Sachs está recomendando a compra de papéis do Itaú Unibanco e Banco Bradesco, enquanto o Bank of America adicionou o Itaú ao portfólio recomendado na região.

“Agora é a hora de comprar bancos”, disse para a Bloomberg Tim Love, diretor de ações de mercados emergentes da GAM Investments, de Londres, com cerca de US$ 1 bilhão sob gestão. Segundo ele, os grandes bancos brasileiros “são conhecidos por serem capazes de manter margens e dar lucro em qualquer ambiente”.

Os bancos lucram e o Brasil perde vidas em uma das maiores tragédias de sua história.
Rubens Bueno

O papel de cada um

Uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em caráter liminar, impede que o presidente Jair Bolsonaro suspenda unilateralmente as medidas de isolamento tomadas por Estados e municípios para enfrentar a pandemia de covid-19. No entender do ministro, o presidente da República, caso resolva levar adiante sua ameaça de realizar esse tipo de intervenção nos entes subnacionais, estará violando preceitos constitucionais como a proteção à saúde e o respeito ao federalismo e a suas regras de distribuição de competências.

O ministro enfatizou que é justamente em “momentos de acentuada crise” como este que se faz mais necessário o espírito de cooperação entre os Poderes e os entes federativos, “em defesa do interesse público” e “sempre com absoluto respeito aos mecanismos constitucionais de equilíbrio institucional”, de modo a evitar o “exacerbamento de quaisquer personalismos prejudiciais à condução das políticas públicas essenciais ao combate da pandemia de covid-19” – referência clara às atitudes de Bolsonaro, que vive a se jactar do poder da caneta presidencial.

Em seu despacho, o ministro Alexandre de Moraes observa, no entanto, que “lamentavelmente” é “fato notório a grave divergência de posicionamentos entre autoridades de níveis federativos diversos e, inclusive, entre autoridades federais componentes do mesmo nível de governo”, aludindo ao confronto público entre Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, acerca do melhor modo de conter a pandemia. Na opinião do ministro do STF, isso acarreta “insegurança, intranquilidade e justificado receio em toda a sociedade”.

O ministro salientou, ademais, que as decisões tomadas por Estados e municípios são “reconhecidamente eficazes” contra a epidemia, em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e da maioria absoluta dos mais respeitados institutos científicos do mundo.

Em resumo, a decisão do ministro Alexandre de Moraes é essencialmente correta nos seus aspectos legais e muito oportuna em suas observações a propósito da necessidade premente de unificar o discurso das autoridades na sustentação do isolamento social como única forma efetiva, no momento, de atrasar o previsível colapso do sistema de saúde.

O presidente Bolsonaro havia dito, há alguns dias, que tinha pronto sobre sua mesa um decreto por meio do qual obrigaria Estados e municípios a suspenderem as medidas restritivas. Na ocasião, ele mesmo reconhecia que o decreto poderia ensejar “sanções” contra ele e que esperava “o povo pedir mais” para assiná-lo. Anteontem, voltou a tocar no assunto, para dizer que estuda transformar o decreto em projeto de lei, “e mandar para o Parlamento decidir”. Ou seja, não desistiu da ideia de atropelar a autonomia de Estados e municípios para estabelecer medidas de isolamento social.

À TV Bandeirantes, na quarta-feira passada, Bolsonaro voltou a dizer que governadores e prefeitos que “tomaram medidas em desacordo com a população têm que refazer seu programa e voltar a abrir o comércio”. Mais tarde, em pronunciamento em rede nacional, Bolsonaro disse que “o governo federal não foi consultado” pelos governadores a respeito das medidas de isolamento social e que, portanto, essas “são de responsabilidade exclusiva dos mesmos”. Aposta assim, mais uma vez, na politização da crise, ao jogar na conta das autoridades estaduais e municipais os terríveis efeitos econômicos do isolamento, como se houvesse alternativa a essas medidas, adotadas em quase todo o mundo ante a escalada da pandemia.

Mas o presidente, já se sabe, só está preocupado em afastar de si qualquer responsabilidade pela crise. Para isso, não se importa em ameaçar o princípio federativo previsto na Constituição nem em estimular, em rede nacional, o consumo de um remédio cuja eficácia ainda não foi comprovada e que, por outro lado, provoca perigosos efeitos colaterais.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro exigiu de seu ministro da Saúde que passe a adotar um discurso otimista. Não será fácil. Se algo inspira algum otimismo neste momento, é a certeza de que as instituições, como o Supremo e o Congresso, são capazes de proteger o País das investidas irresponsáveis do presidente.

sábado, 11 de abril de 2020

O mundo não pode voltar à 'normalidade'

Não são poucos os religiosos que apontam a ressurreição de Cristo como sendo o principal pilar da Igreja. Sem ela, argumentam, a fé cristã simplesmente não existe. Alguns chegam a apontar a Páscoa como um evento mais central na vida do cristianismo que o próprio Natal.

Mas, ao longo dos séculos, o Natal foi reinventado. O historiador Stephen Nissenbaum, em sua obra The Battle for Christmas: A Social and Cultural History of Our Most Cherished Holiday, relata como a festa de final de ano foi secularizada e transformada praticamente em um feriado burguês. A festa ainda passou a se desenvolver de mãos dadas com um “novo” fenômeno: a ascensão de uma classe média a partir do século 19 e a celebração da infância.

Ainda que os tetos de supermercados sejam tomados por ovos de chocolate, a realidade é que a Páscoa e seu sentido de ressurreição não tiveram o mesmo destino do Natal. Em compensação, elas mantiveram o significado teológico preservado.

Neste ano, tal evento religioso ocorre em igrejas vazias, salvo em alguns rincões de radicais que se recusam a acreditar na ciência. O vazio não ocorre pela falta de fé, transferidas para redes sociais e grupos de WhatsApp. Mas por culpa de uma pandemia que levou religiosos e agnósticos a buscar um sentido para o momento de transição no planeta.

Enquanto bilhões de pessoas estão confinadas, governos buscam formas para sair da crise e retomar a normalidade. Descobrimos que existe um enorme vácuo de liderança e que, mesmo na crise definidora de nossa geração, políticos mergulham na busca por poder e influência global.


Lenta e descoordenada, a comunidade internacional eventualmente conseguirá chegar a um plano de ação. Provavelmente tardio. A incapacidade de agir de uma maneira mais eficiente custará muitas vidas. Já são mais de 100.000 mortos.

Mais cedo ou mais tarde, a retomada virá e pacotes avaliados em mais de 5 trilhões de dólares já foram anunciados por governos para resgatar suas economias e, em alguns casos, seus trabalhadores. A meta de todos: voltar à normalidade.

Mas será que convém ao mundo retornar a tal situação pré-pandemia?

A “normalidade" consistia em aceitar que cerca de 4 bilhões de pessoas não estavam cobertas por quaisquer medidas de proteção social.

A “normalidade” significava que 821 milhões de pessoas ―aproximadamente uma em cada nove pessoas no mundo― estavam subnutridas. Depois de anos de queda, a curva da fome voltou a aumentar no mundo desde 2015.

19,9 milhões de crianças não receberam vacinas durante o primeiro ano de vida. Em 40% dos países do mundo, existiam menos de 10 médicos por cada 10.000 pessoas.

Apenas 60% das pessoas em todo o mundo contavam com uma pia, com sabão e água, em casa. Ou seja, 3 bilhões de pessoas viviam sem instalações básicas para simplesmente lavar as mãos em casa.

Um terço de todas as escolas primárias carecia de água potável, saneamento e serviços de higiene. Uma em cada quatro centros de saúde no mundo não tinha água.

Como ousam, portanto, falar em voltar à normalidade?

Pacotes para sair ao resgate de milhões de pessoas serão necessários. Mas não darão conta de transformar às condições de base que deram, justamente, uma avenida para que a pandemia tomasse a dimensão que ganhou.

Abreviando a vida de milhares de pessoas e se transformando num espelho de um modelo de mundo esgotado, a morte anunciada em forma de números revelou a profunda vulneralibilidade do planeta. Ninguém mais pode dizer que tem um sistema de saúde sólido. Ninguém.

O inimigo invisível nos exige fazer perguntas incômodas. Não vamos precisar de pacotes de resgate. Mas um plano de ressurreição, que exigirá a humildade de líderes, planos, dinheiro e novas prioridades. Vai exigir coordenação entre países rivais, partidos rivais, ideologias rivais.

Enfim, um novo pacto social, capaz de conduzir o mundo a um compromisso para reduzir suas desigualdades. Caso contrário, estaremos apenas estabelecendo uma nova base para a próxima pandemia.

“Os seus mortos viverão. Os cadáveres do meu povo se levantarão”, diz um dos versículos do Livro de Isaias. “E a terra deixará que os impotentes na morte voltem a viver”.

Os impotentes na morte são os bilhões de seres humanos que, ainda que vivos, estão num limbo existencial permanente. Uma prisão perpétua, onde a única liberdade que têm é a de morrer.

Não há como aceitar voltar à “normalidade”.
Jamil Chade

Precisamos falar sobre a renda básica permanente

Há poucos dias, foi sancionada a lei que institui a renda básica emergencial (RBE) de R$ 600 por mês, a serem pagos durante 3 meses prorrogáveis. Como eu já havia escrito neste espaço, a RBE tem por objetivo atender pessoas que não poderiam permanecer em casa para se proteger da epidemia caso não houvesse um programa de governo que as sustentasse durante o período de necessário distanciamento social. Embora a RBE em forma atual seja um benefício temporário, há muitos motivos para torná-la permanente.

O Brasil é um país espantoso. Segundo dados do IBGE, cerca de 50% dos trabalhadores com carteira assinada recebem entre um e dois salários mínimos, enquanto 80% recebem menos de dois salários mínimos. Apenas 10% dos trabalhadores formais ganham mais de R$ 3 mil por mês. De acordo com cálculos feitos por Marcelo Medeiros, metade da população brasileira vive com menos de R$ 1.000 por mês. Estamos falando de cerca de 100 milhões de pessoas que recebem tão somente cerca de um salário mínimo mensal per capita.


Agora, considerem: de acordo com o IBGE, 70% dos redimentos das famíllias de baixíssima renda são destinados a alimentação, transporte e moradia. Ou seja, a maior parte do fluxo mensal dessas pessoas é usada para a subsistência mais básica. Não estão incluídos gastos com vestuário, medicamentos ou itens de necessidade básica para cuidados pessoais. Essas pessoas vivem sem qualquer colchão de segurança, o que significa que, se o chefe de família adoece ou se há algum gasto extraordinário no mês, não há espaço no orçamento mensal para absorver o ocorrido.

Reflitam por um momento sobre isso. Em nosso país há cerca de 100 milhões de indivíduos que vivem na mais precária condição econômica, algo que muitos de nós não têm a capacidade de contemplar. Imaginem a diferença que faria na vida dessas pessoas receber uma transferência de renda sem qualquer condicionante todo mês. A renda básica permanente, pensada desse modo, é mais do que uma ajuda econômica, um assistencialismo. Ela confere dignidade.

Há quem se oponha à renda básica permanente argumentando que ela seria um desestímulo ao trabalho. Entendo o argumento se estamos tratando de pessoas com renda mais elevada do que o montante módico que mencionei anteriormente. Contudo, nem mesmo esse argumento encontra respaldo na literatura acadêmica existente. De acordo com vários estudos, o efeito de programas de transferência de renda sobre os incentivos ao trabalho são, na melhor das hipóteses, ambíguos. No caso brasileiro, quem em sã consciência realmente acredita que alguém que já vive com tão pouco vai deixar de trabalhar porque passou a receber um complemento do governo? A ideia é quase estapafúrdia.

Portanto, vamos ao outro lado da questão: quanto custaria esse benefício incondicional para os cofres públicos? Se 100 milhões de pessoas recebessem uma renda básica de R$ 600 mensais, o montante total no ano alcançaria cerca de 10 pontos percentuais do PIB, valor bastante alto. Com R$ 500 mensais, ou metade do salário mínimo, o custo cai para 8 pontos percentuais do PIB. Com R$ 350 mensais, ou um terço do salário mínimo, o custo seria de pouco mais de 5,5 pontos percentuais do PIB. Evidentemente, parte do gasto com a renda básica é revertido para os cofres públicos na forma de receitas mais altas provenientes de um impulso ao consumo. Afinal, são as pessoas de renda mais baixa que consomem mais como proporção da renda — o que os economistas chamam de propensão marginal a consumir.

Essa população não apenas sofrerá os efeitos mais diretos da epidemia e da crise econômica, mas tais efeitos serão prolongados dadas as curvas epidemiológicas e o curso da doença cujos dados estamos a observar. Mas a defesa da renda básica permanente transcende a crise humanitária que atravessamos.

De uma ótica mais pragmática, a renda básica permanente contribui para a estabilidade da economia e a cidadania na democracia. Já da perspectiva dos valores que compartilhamos, é uma questão de justiça, inclusão e liberdade nesse país tão profundamente desigual que é o Brasil. Chegou o momento de tratar desse tema com a importância e o senso de urgência que ele sempre mereceu.
Monica de Bolle

11.04.01 d.c.

Falar do quê?, eis a questão. De coisas sérias, consequentes, duras, quiçá úteis e até edificantes ou adoçar a boca do leitor com o mel de fait divers escapistas? Remoer a deprimente arenga sanitária martelada ininterruptamente pela TV ou buscar um ponto de fuga lenitivo e psicologicamente profilático?

Sintetizando a questão em dois filmes sobre enfrentamento ao nazismo: vamos de Kanal ou de A Noviça Rebelde?

(Kanal, informo a leigos e desmemoriados, é um filme tenebroso do polonês Andrzej Wajda, sobre a resistência de seus patrícios à invasão nazista. É quase todo ambientado nos esgotos de Varsóvia. Já a fuga da família Trapp, como até as vacas do Tirol sabem, deu-se através das verdejantes colinas de Salzburgo.)

Como as colinas pós-pandêmicas tão cedo não irão revivescer ao som da música, kanalizemos nossa pauta. Ao esgoto, moçada.

Quem chegar vivo ao final da pestilência em curso poderá testemunhar algo que até recentemente parecia ainda um tanto longínquo, embora visível no horizonte: a morte da agenda de austeridade econômica, a vítima mais alvissareira do novo coronavírus.

Mas não se empolguem. A dívida pública de todos os países deverá atingir níveis assustadores, as economias mais frágeis, esse eterno grupo de risco, verão suas desigualdades aumentarem.


Pelos depoimentos que tenho lido, já é quase consenso que aquele mundo que até algumas semanas atrás desfrutávamos, com menos e mais dificuldades, algumas superáveis, deixou de existir. Desapareceu. E não mais voltará.

A nostalgia encurtou seus prazos; saudade não tem mais idade. Neste primeiro ano da Era Coronavírus, Ano 1 d.c., até crianças já suspiram pelo carnaval de 2020. Ou pelo Natal de 2019.

Sinto-me como se tivesse mudado para outro planeta, cujos habitantes não se interagem, não se confraternizam, não se tocam, onde todos desconfiam e se repelem mutuamente. Até quando seremos (ou nos sentiremos) todos leprosos?

Vejo fotos e filmes em que as pessoas conversam, cumprimentam-se, abraçam-se e dividem a mesma mesa ou o mesmo sofá, e, do alto (no meu caso, nove andares) da minha também pobre experiência quarentenal, me pergunto: qual mundo nos é mais estranho, este que estamos vivenciando ou aquele que, para o nosso bem, teremos de esquecer?

Nunca pensei que um dia fosse experimentar na vida real o que tão marcadamente me intrigou ao ver, em criança, O Dia em que a Terra Parou, a versão original, dirigida por Robert Wise. Como seria se nosso planeta fosse, como no filme, inteiramente paralisado por uma força superior, no caso, a mente de um ET benigno, chamado Klaatu? Todos os aparelhos elétricos são súbita e misteriosamente desligados, exceto os de hospitais e aviões em voo, resultando num breve mas incisivo apagão global, para que os terráqueos aprendam a viver em harmonia, em paz permanente. Não aprendemos.

A espaçonave que até nós trazia Klaatu e seu fiel robô Gort aterrissava em Washington, e como em 1951 a Guerra Fria já estava amornando, tomaram-na por um disco voador soviético, despachado do Kremlin para destruir a América e o resto do Ocidente. As xenófobas imputações feitas à China, nas últimas semanas, por conta do novo coronavírus, aqui e lá fora, seguiram portanto um padrão de idiotia paranoica e anticomunismo fuleiro coberto de mofo.

A covid-19 é um Klaatu em forma de microrganismo; quem sabe não iremos tirar proveitosas lições de sua disseminação. Já aprendemos a revalorizar a solidariedade, o papel da imprensa e o heroico SUS; pouca coisa não foi. Mas ainda é pouco.

Das mil e uma ideias implementadas para amenizar o claustro pandêmico e desentediar a mídia impressa, uma das mais fagueiras foi a série Janelas Para o Mundo que um consórcio de jornais europeus, encabeçado pelo alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung e o italiano Corriere della Sera, bolou com a participação de escritores e filósofos europeus. Cada convidado conta o que tem visto de sua janela ou nela tem corvejado sobre a vida, os últimos acontecimentos e o que mais lhe aprouver.

Residente em Milão, Antonio Scurati, o festejado autor da mais recente biografia de Mussolini, M, o Filho do Século, testemunha de sua finestra o que ele define como o fim de uma era, “a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da humanidade”. É com tristeza e uma pitada de ironia que ele acompanha e narra a transformação da cidade mais rica, privilegiada e evoluída da Itália, polo mundial da moda e do design, em capital mundial da contaminação virótica.

Pouco importa que Nova York já a tenha ultrapassado nesse ranking sinistro. Scurati não mora em Manhattan, é milanês adotivo. A Milão que ele descreve – com seus ricaços fazendo fila para comprar um pão ordinário na mercearia de imigrantes que antes olhavam com desprezo, mas hoje é a única em funcionamento nas vizinhanças – me pareceu a que vimos em A Noite, de Antonioni, metamorfoseando-se na proletária periferia que De Sica retratou em Milagre em Milão.

A um metro de distância um dos outros, “ao mesmo tempo ameaçadores e ameaçados”, os ricaços na fila do pão formam uma felliniana farândola de mascarados. Suas improvisadas máscaras em nada lembram as dos carnavais venezianos. São precárias gazes meio desfiadas, que pendem de rostos transtornados pela “melancolia mole dos restos de uma era acabada”, arremata Scurati.

Da minha janela eu ainda vejo o Corcovado e o Redentor, que lindo. É um consolo. Boa sorte a todos.

Pensamento do Dia


Jim Jones tupiniquim

O presidente Jair Bolsonaro está cavando um abismo a seus pés lutando contra a realidade trágica da Covid-19. Não há saída honrosa para ele diante da perspectiva de recessão econômica - o ministro da Economia Paulo Guedes já teme um PIB negativo de 4%, há bancos prevendo até 6% - e de um dramático número de mortes, que já está na casa do milhar antes de um mês de quarentena. 

As demonstrações diárias de irresponsabilidade acintosa vão ganhando perigosos ares de desequilíbrio comportamental que, em vez de aumentar suas chances de concorrer à reeleição, vão lhe retirando essa possibilidade, reduzindo seu apoio a um grupo de fanáticos. 

A mais recente pesquisa DataFolha mostra que 17% dos eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno estão arrependidos, o que quer dizer que cerca de 10 milhões de pessoas o abandonaram, fazendo com que tivesse hoje, teoricamente, menos votos do que obteve no primeiro turno. 

Não quer dizer, porém, que todos os que não se declararam arrependidos estejam contentes com o governo Bolsonaro. Muitos, certamente, não se arrependeram porque consideram que o principal papel de seu voto foi derrotar o PT. 



Pesquisas de opinião pública mostram que Bolsonaro mantém um apoio em torno de 30% da população, o mesmo índice que o PT costumava ter antes de chegar ao poder, igual ao percentual de votos que o candidato petista Fernando Haddad obteve no primeiro turno. 

Não há indicações de que o PT tenha mantido seu nível de apoio de lá para cá, e o desgaste de Bolsonaro é nítido. Por isso a polarização contra o PT é bom, teoricamente, para os dois, mas especialmente para Bolsonaro se ele já não tivesse provado que não é apenas um antipetista, mas um desequilibrado, técnica e emocionalmente incapaz de enfrentar crises como a que atravessamos, e moralmente corrupto. 

Não acredito que o PT tenha, nesses anos recentes, recuperado a imagem de honestidade e credibilidade que conseguiu introjetar no eleitorado, e acho, portanto, que uma repetição da polarização dificilmente acontecerá. Os extremos já se mostraram incapazes de dar uma solução para o país.

O desgaste de Bolsonaro só se acentuará nos próximos anos, já que ele é incapaz de ser outra pessoa. Já era assim antes da campanha, mas era o que tinham os que queriam alijar o PT. O centro político foi incapaz de apresentar uma alternativa ao eleitor de centro-direita que demonstrasse viabilidade eleitoral, diante da radicalização que tomou conta da eleição. 

Abre-se um caminho largo até 2022 para candidatos de centro se firmarem no cenário político nacional, e os governadores, que são protagonistas dessa guerra contra a Covid-19, podem colher resultados positivos, como já demonstram as pesquisas de opinião e as redes sociais. Por isso, a cada vez que surge um político que se destaque, passa a ser potencial candidato a presidente: é assim com Mandetta, é assim com Moro. 

O comportamento do presidente Bolsonaro, ao sair às ruas em Brasília, é acintoso, atitude que não pode ser vista como normal. Por causa desse comportamento, nossa política de isolamento social está começando a afrouxar, a ser rompida por grupos incentivados pelo presidente. 

Não é assim que a economia vai melhorar, e esse afrouxamento provocará mais mortes, mais sofrimento. Não é à toa que a embaixada alemã está recomendando a seus cidadãos que regressem ao seu país. 

Bolsonaro será responsabilizado pessoalmente pelo aumento das mortes. Não é possível ter um presidente que estimula a população a se arriscar numa pandemia, como um líder místico levando seus seguidores para o suicídio coletivo. Bolsonaro, nosso Jim Jones tupiniquim, será o PT da próxima eleição, aquele a quem será preciso afastar do poder.

Medicina BBB

Estamos na época da medicina BBB, feita por votação. Medicina e pesquisa de rede social. Você não consegue mais não dar cloroquina para um paciente meio grave. A família pressiona e, se você não der, no dia seguinte você não é mais o médico
Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein

Os bolsonaros da China

Na França de 1860, um médico vai sair para fazer um parto. Limpa a caspa das lapelas com as mãos, pega os instrumentos e, ao jogá-los na maleta, um deles cai ao chão. O médico o recolhe e o atira na maleta. Sua paciente morrerá ao dar à luz, vítima não da "febre do parto", como se dizia, mas dos germes provocados pela falta de higiene no procedimento. Os médicos da época sequer lavavam as mãos para trabalhar.

Assim começa o filme "A História de Louis Pasteur", de 1936, do subestimado William Dieterle, que rendeu a Paul Muni o Oscar pela interpretação de Pasteur. Embora fosse um filme da Warner, especializada em gângsteres, as armas em cena eram os microscópios, não as metralhadoras. A história mostra Pasteur sofrendo dura oposição dos médicos, para quem sua teoria dos micróbios como causa das doenças era um delírio. Eles fazem o governo proibi-lo de pesquisar e só vão lhe dar razão 20 anos depois, quando a França já estava quase dizimada.


Na vida real, Pasteur não foi assim tão perseguido, nem descobriu sozinho a cura para as infecções. Mas essa história antecipa a vivida 160 anos depois por um médico chinês: o dr. Li Wenliang, o primeiro a alertar, a 30 de dezembro último, sobre a iminência de uma epidemia. Wenliang descobrira sete pacientes com sintomas de um novo coronavírus no hospital onde trabalhava, em Wuhan.

As autoridades policiais e médicas da China o acusaram de "propagar boatos" e "perturbar a ordem social" e o obrigaram a se desmentir. Mas, a 12 de janeiro, o próprio Wenliang caiu infectado. Internou-se e morreu três semanas depois. Se seu alerta tivesse sido ouvido no começo, talvez milhares de vidas ainda pudessem ser poupadas.

Hoje, o dr. Li Wenliang é um herói na China. Já os bolsonaros locais --e eles são os mesmos em toda parte--, que negaram a gravidade da denúncia, serão esquecidos, para lástima dos tribunais da humanidade.

Ruy Castro

Bolsonaro, o exterminador do futuro de muita gente

Em que parte do mundo já se viu um chefe de Estado sair a passear em plena pandemia de um vírus desconhecido que mata a roldo? Em que parte se viu um abraçar pessoas podendo ser contaminado por elas ou então contaminá-las?

Onde já se viu um chefe de Estado desacreditar medidas de restrição social baixadas por governadores e prefeitos e endossadas pelo Ministério da Saúde do seu próprio governo? Os poucos que tentaram recuaram logo em seguida.

Pois é o que tem feito o presidente Jair Bolsonaro desde que voltou dos Estados Unidos há pouco mais de um mês trazendo uma dezena de acompanhantes infectados pelo coronovírus e que, uma vez no Brasil, infectaram uma dezena ou mais de pessoas.

Em um país onde o presidente da República manda muito, embora nem tanto quanto desejaria, ele é a primeira referência dos governados. Natural que seja. O que diz é ouvido e repetido, e o que faz libera a população para que faça também.

Bolsonaro sabe disso, mas quando é conveniente finge não saber e banca o inocente. Se estimula os brasileiros a abandonarem o confinamento e a retornarem às ruas, parte deles o segue. Não é possível que ignore os efeitos perversos de sua atitude.


Há mais de um mês que o ministro Luiz Henrique Mandetta rendeu-se à orientação da Organização Mundial da Saúde acolhida por todos os países assolados pelo vírus: fique em casa. Circule o mínimo possível. Deixe para depois tudo o que possa.

O chefe de Mandetta faz o contrário. No último dia 15, recepcionou em frente ao Palácio do Planalto manifestantes ali reunidos para pedir o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Tocou com as mãos em mais de 250 deles.

Anteontem, foi a uma padaria de Brasília tomar um refrigerante e comer um doce. Bem recebido por uns, hostilizado por outros, provocou aglomerações, apertou a mão de admiradores e foi embora assim que bateram as primeiras panelas.

Fez pior ontem. Depois de uma escala no Hospital das Forças Armadas, saiu direto para uma farmácia, atraindo gente. Visitou um dos filhos que aniversariava. E ao sair do prédio com o nariz escorrendo, limpou-o com o braço e apertou mãos.

O que pretende com isso? É uma pergunta que ele não responde, e quando o faz tergiversa. O que ele consegue com isso? Que as pessoas, e não só as que o cumprimentam, se exponham ao risco de se contaminar e de morrer.

Age como uma espécie de exterminador do futuro de milhões de brasileiros. Não é muito diferente do pastor americano James Warren “Jim Jones”, fundador e líder da seita Templo dos Povos, que em novembro de 1978 promoveu um suicídio em massa.

No início dos anos 60 do século passado, Jim Jones esteve no Brasil porque julgava Belo Horizonte um dos lugares mais seguros do mundo se houvesse uma guerra nuclear. Mudou-se mais tarde para o Rio onde trabalhou durante alguns anos com favelados.

Mas foi em Jonestown, capital da Guiana, que se sentindo ameaçado, convenceu seus devotos a se matarem. Primeiro os pais mataram os filhos, envenenando-os com cianureto. Depois beberam o veneno. Ao todo, morreram 918 pessoas.

Bolsonaro ainda não mandou que ninguém tomasse veneno. Manda que não levem a sério um vírus que já matou até ontem mais de mil brasileiros e infectou quase 20 mil. No mundo, em 100 dias, matou 100 mil pessoas. E, por aqui, o estrago mal começou.

Merkel e rainha Elizabeth mostram como se faz

1. Falar sem rodeios

Há não muito tempo, eu recebi uma mensagem invejosa de um amigo em Washington: "O discurso de Angela Merkel, de que 60% de nós vamos pegar o vírus, a transformou automaticamente numa heroína para mim."

No início da crise, a chanceler federal alemã se dirigiu diretamente aos alemães – como ela nunca havia feito, com exceção das saudações de Ano Novo – para explicar como o governo iria protegê-los diante daquilo que ela descreveu como o maior desafio que o país enfrentava desde a Segunda Guerra Mundial.

De forma simples e objetiva, e não só naquele discurso, mas também em podcasts e entrevistas à imprensa, ela relatou os fatos como eles eram, explicou conceitos como "achatar a curva" e discorreu detalhadamente sobre temas tão banais como lavar as mãos e fornecimento de papel higiênico.

No seu discurso aos britânicos, no domingo passado, a rainha Elizabeth 2ª começou reconhecendo o estado de perturbação e preocupação e as dificuldades financeiras que a nação enfrenta.

Assim como a chanceler federal alemã, e em forte contraste com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ela não deu garantias falsas nem alegações tranquilizantes sobre potenciais remédios ou estratégias de saída.

Quando os cidadãos dispõem de fatos, eles podem tomar decisões sobre como reduzir os erros, tanto de forma individual como coletiva. Quando líderes confundem, negam e iludem, eles transformam um risco potencialmente controlável num perigo incalculável, semeando o medo e a passividade.


2. Empatia e exemplo

Nem a chanceler federal alemã nem a rainha britânica são conhecidas por sua afetuosidade e conexão com as pessoas. Porém, seus discursos foram tanto mais convincentes por causa do tom de comedimento e sobriedade.

A rainha relembrou sua primeira transmissão aos jovens evacuados, no auge dos ataques nazistas a Londres, em 1940, ao falar sobre o doloroso sentimento de separação dos entes queridos – um sentimento conhecido de muitos britânicos no momento.

A chanceler assegurou aos seus ouvintes que, na condição de alemã-oriental, para quem a liberdade de ir e vir é um direito duramente conquistado, ela está plenamente consciente de que a suspensão da vida em público é uma forte agressão.

Ambas expressaram agradecimento em termos claros e profundos a todos aqueles que colocam em risco a própria saúde e a da sua família para manter serviços essenciais.

As duas também deram exemplo.

A rainha e o príncipe Philip iniciaram seu autoisolamento em 19 de março.

No início do isolamento social, quando pessoas em pânico começaram a estocar, Merkel visitou um supermercado e foi fotografada com uma sacola com alguns poucos produtos, incluindo apenas um pacote de papel higiênico (e várias garrafas de vinho). Em seguida, ela entrou em quarentena após receber uma vacina de um médico que, logo depois, testou positivo.

Depois de três testes negativos de covid-19, ela retornou na semana passada à chancelaria federal e falou abertamente sobre como as duas semanas de isolamento foram difíceis.

Trump dedica elogios e gratidão principalmente a si mesmo e – de vez em quando – aos titãs corporativos de que ele se cerca em seus relatos diários. Ele desdenha de assessores médicos na cara deles, transforma críticos em bodes expiatórios e flagrantemente desobedece práticas de higiene como usar uma máscara respiratória. Mesmo quando declarou uma emergência nacional, ele distribuiu tapinhas nas costas e estendeu a mão para outras pessoas.

Apenas uma diferença de estilo? Os americanos se tranquilizam com gestos exagerados de autoadulação, enquanto os europeus preferem sobriedade? Não acho.

Transparência, empatia para com os atingidos e não apontar o dedo para outros são práticas padrões de comunicação em tempos de crise e visam transmitir credibilidade e confiança. Quando cidadãos recebem pedidos para se submeter a fortes agressões à sua liberdade, a confiança é talvez o mais forte impulsionador da observância.

3. Dignidade

O que a chanceler federal alemã e a rainha britânica possuem e transmitem e que o presidente dos EUA não tem é dignidade. Por que dignidade é importante? Pelo mesmo motivo que os fatos são importantes e a empatia e o exemplo impulsionam: a dignidade é contagiosa, ela catalisa uma resposta.

Se os líderes se comportam com disciplina e comunicam com respeito, eles impulsionam os cidadãos a agir. Isso tem benefícios subjetivos para aqueles que estão inseguros e temerosos, assim como consequências objetivas para a gestão da crise. Seja achatar a curva agora, seja reconstruir nossa economia depois, superar a pandemia requer que todos nós ajamos pelo interesse da sociedade.

Se as pessoas seguirem apenas seus próprios interesses, elas vão retardar ou até mesmo reverter a recuperação. O bem comum não é sempre claro e evidente. É necessário uma liderança convicta para explicar o objetivo e os meios.

Felizes são as sociedades que têm líderes assim em tempos como estes.

Pra frente, Brasil!


O ministro, o chefe do ministro e a pandemia de ‘fake news’

Na terça-feira o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu mais uma de suas coletivas diárias. Mostrou-se olímpico, seguro de seu papel e de seu cargo. Mandetta tem hoje mais estabilidade do que Jair Bolsonaro. O presidente pode demiti-lo – os generais não deixam.

A impotência presidencial tem um quê de conto de bruxas. O presidente vai fazer a barba de manhã e pergunta ao reflexo de si mesmo: “Espelho, espelho meu, existe algum ministro mais querido do que eu?”. O espelho responde, dá o nome e o endereço, mas Bolsonaro, corroído de ciúme, não tem poder para expulsá-lo da pasta. Está reduzido ao papel de presidente-café-com-leite-muito-embora-bravateiro. Sai enfezado do Palácio da Alvorada e se põe a berrar sobre a crueldade ministricida de sua caneta, uma senhora canetona, que é maior do que a caneta dos outros (ele e sua obsessão com símbolos fálicos).

Palavras ao vento. Contra Mandetta a caneta do narcisista que desconhece a beleza vale menos do que uma aspirina. O sereno ministro da Saúde sabe disso e, por saber, tripudia. Na terça-feira, em sua coletiva, disparou recados ácidos – ainda que elegantes – contra o chefe que não o chefia. Entre outros venenos, amaldiçoou as fake news (gênero narrativo adorado pelo café-com-leite) e as redes sociais (o ambiente predileto do estadista avesso à máquina estatal).


“As fake news, esse final de semana, fizeram um gráfico igual àqueles gráficos da epidemia”, diagnosticou o ministro. “Fake news foi o que mais subiu, subiu bem mais que o número de casos (de covid-19).”

Mandetta aproveitou para denunciar que circulam perfis falsos como se fossem dele e avisou com total explicitude: “Não sou de mídia social, não gosto; gosto do mundo real. Vou trabalhar essa epidemia no mundo real. O que eu tiver que falar, não acreditem em nada que não seja falado aqui (nas coletivas diárias, diante das câmeras de TV). (...) Eu não posto nada, eu não comento nada, eu não faço nada nesse mundo virtual”.

O que ele está dizendo, em suma, é que adota o estilo oposto ao do chefe que não é chefe. Este, abduzido pelas fantasmagorias imaginárias do seu conto de bruxas, acha que governa pelo Twitter, pelas lives e pelo histrionismo de suas milícias virtuais. Em sua fantasia de filme de terror, alimenta-se da bajulação dos seus fiéis fascistinhas de WhatsApp, que sabotam o isolamento e insultam os chineses com ofensas racistas. Bolsonaro substitui a burocracia governamental pelos urros virtuais dos seguidores e acredita que assim deixa para trás a “velha política”.

O resultado prático de seu delírio é muito simples e palpável: em cada um de seus atos acentua a dissolução dos regramentos da administração pública em favor da dinâmica dos “engajamentos”, das “curtidas” e do irracionalismo das redes. Para ele, os algoritmos opacos dos conglomerados globais que monopolizaram as comunicações na era digital são a mais perfeita tradução da vontade do povo. Sim, é uma sandice, mas é nessa sandice que ele acredita. O triunfo de sua crença acarretará a derrocada do Estado, da República, da política e da democracia. Bolsonaro gosta de fake news porque vê o Estado, o governo, a República, a política e a democracia como um embuste a ser destruído. Ele e as fake news nasceram um para o outro. Nasceram um do outro.

Razoável, o ministro da Saúde rejeita as doideiras do presidente e veste o colete do SUS para apostar no caminho inverso. Com razão, parece entender que as fake news concentram uma ameaça tão ou mais grave do que a pandemia. O poder público fica anulado se não puder contar com informações baseadas na ciência e se essas informações não servirem de base para o debate público e para a orientação das pessoas e da sociedade. Sem fontes confiáveis e um sistema organizado de comunicação, não há governança para a crise.

A indústria das fake news – que hoje no Brasil está a serviço do bolsonarismo – opera para minar a confiança do público nas autoridades, na política, na universidade, na ciência e na imprensa. No longo prazo, essa indústria fabrica fanatismo e clamor por uma tirania de extrema direita no Brasil. No curtíssimo prazo, amplifica o número das mortes que virão com o coronavírus e agrava a recessão econômica que virá depois. Isso mesmo. Em sua narrativa perversa, as fake news do bolsonarismo dizem defender a economia e os empregos, mas, ao patrocinarem a explosão do número de casos e o colapso do sistema de saúde, produzirão a desagregação social, com violência e criminalidade ainda mais generalizadas, e isso tornará mais improvável qualquer recuperação econômica.

Será difícil enfrentar essa indústria, que conta com o apoio esgoelado do presidente-café-com-leite. Ele tem pouco poder (não consegue nem falar grosso com o ministro da Saúde), mas a indústria em que ele joga suas fichas tem uma capacidade gigantesca de produzir estragos. E, por enquanto, não há vacina contra a usina de fraudes desinformativas com que o presidente e suas falanges robóticas vêm infestando a sociedade brasileira.

Água, sabão, álcool em gel e muita fé em Deus

O que será que leva Jair Messias Bolsonaro a se comportar como um moleque ignorante e rebelde? Quem será que o convenceu a agir desse modo e quais as razões apresentadas que fizeram com que ele seguisse essas pífias orientações?
Há quem acredite que são seus filhos, os três zeros. Não acredito nisso. BolsoNero é raso e muito pouco informado, mas não é completamente burro e com toda certeza já percebeu que seus filhos só lhe armam problemas, e problemas cada vez mais graves.

A crise com a China, que por pouco não se transformou num caso diplomático que poderia arrasar com o Brasil, foi criada por um dos zeros, aquele que só tem um foco: a embaixada brasileira em Washington DC. Os outros dois zeros vivem ou se esquivando da força da Lei ou exercendo a mais agradável das atividades: um emprego público, com um bom salário, mas sem presença e sem o suor de seu rosto... Se nós, público, já percebemos que seus filhos são seu enguiço, não acredito que o BolsoNero ainda não tenha sentido o tranco.

A foto do BolsoNero numa padaria na Asa Norte de Brasília, abraçado a um freguês do estabelecimento, é de arrepiar! Será que ele não teme chegar em casa e infectar sua mulher, sua filha e sua enteada? Ou o motorista de seu carro? Será que os brasileiros puseram no Palácio do Planalto um cara sem alma?


Não acreditar que o isolamento social é a única forma que o mundo tem de vencer essa pandemia é a mais inacreditável estupidez. Será que ele, ou algum dos zeros, não lê jornais estrangeiros? Não souberam que os países que não exerceram a quarentena, logo depois dessa péssima ideia, arrependeram-se amargamente? Não leram ou ouviram, por exemplo, o angustiado pedido de desculpas do prefeito de Milão? Não sofreram ao saber do número de mortos na Itália? Não doeu ver um dos mais belos países do mundo destroçado por tantas mortes, a ponto de serem proibidas as cerimônias de adeus tão caras ao espírito italiano?

Vou dar ao BolsoNero o benefício da dúvida. Vai ver só dói nele o que vem das terras de Trump. Pode ser. Afinal, são almas gêmeas. Cada um de nós tem seus afetos, não é? Chorei ao ver o papa Francisco rezando uma missa sozinho, absolutamente só, na imensidão da Praça de São Pedro. Vai ver BolsoNero chorou ao ver o Times Square vazio. Pode ser. É triste mesmo ver aquele grande e rico espaço vazio. Mas a comparação com Trump parou aí: Trump sentiu o murro que a pandemia lhe deu e vem pedindo ao povo americano que não desrespeite a quarentena.

É evidente que a economia mundial vai sofrer com essa doença maligna. Mas nós sabemos como o Homem é capaz de se reerguer. Em 1960, quinze anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, fui à Europa pela primeira vez Vi países com economias pujantes, um comércio riquíssimo e cidades absolutamente deslumbrantes.

A Europa teve a ajuda do Plano Marshall, é verdade. E nós, se os zeros pararem de brigar com o mundo todo e ignorarem o indigitado Olavo de Carvalho, também saberemos recuperar nossas forças e recriar nosso Brasil. Talvez mais forte e mais organizado. Se formos pacientes e só abandonarmos a quarentena quando o vírus já estiver dominado. Temos que ser pacientes, controlados e principalmente, saber votar nas próximas eleições. Com a mão bem lavada e desinfetada com álcool gel. Sem esquecer de pedir ajuda a Deus!