quarta-feira, 25 de julho de 2018

As veias abertas da Nicarágua e a miopia do PT

A morte da estudante brasileira despertou o Itamaraty para a escalada autoritária na Nicarágua. Falta saber quando a ficha vai cair para o PT, que continua a fechar os olhos para os desmandos do governo Daniel Ortega.

Em abril, as forças oficiais começaram uma repressão feroz aos protestos contra o presidente. A onda de violência já deixou ao menos 290 mortos. Há quem confunda a carnificina com uma resistência heroica ao imperialismo.

Na semana passada, a secretária de Relações Internacionais do PT, Monica Valente, saiu em defesa do velho companheiro. Em Havana, ela exaltou como “exemplo de luta” a “resistência às tentativas de desestabilização da Nicarágua”.

Não foi por falta de alerta. Desde o início da crise, vozes que festejaram a Revolução Sandinista levantam-se contra a guinada de Ortega. Elas afirmam que o ex-guerrilheiro, um dos líderes do movimento de 1979, é cada vez mais parecido com o ditador que ajudou a derrubar.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, conhecido pelas críticas ao neoliberalismo, condenou o presidente por sufocar a oposição para se perpetuar no poder. “Por que é que boa parte da esquerda latino-americana e mundial manteve (e continua a manter) o mesmo silêncio cúmplice?”, questionou.

No Uruguai, o ex-presidente Pepe Mujica pediu a renúncia de Ortega. “Sinto que algo que foi um sonho se desvia, cai na autocracia”, disse. “Aqueles que ontem foram revolucionários perderam o sentido da vida. Há momentos em que é preciso dizer: ‘vou embora’”, cobrou.

Por aqui, o teólogo Leonardo Boff manifestou sua decepção com “um governo que está perseguindo, sequestrando e assassinando seus próprios compatriotas”. “A Nicarágua necessita de diálogo, mas, antes de tudo, necessita de que as forças repressivas parem de matar”, escreveu.

Em vez de se render aos fatos, o PT prefere questionar se os nicaraguenses que estão levando tiros da polícia fazem parte de um “fenômeno espontâneo”.

Não é o único exemplo da miopia do partido. No discurso de Havana, Monica Valente também elogiou a “rotunda vitória” de Nicolás Maduro nas eleições da Venezuela, manchadas por denúncias de fraude e pelo boicote da oposição.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Aliança Brasil


Cartórios, uma das jabuticabas nacionais

Em Portugal, nos idos de 1512-1521, nas Ordenações Manuelinas, assim como privilégios, foro privilegiado, direitos adquiridos, entre outras estripulias burocráticas, os cartórios foram minuciosamente regulados. Herdeiros do período colonial, ainda estamos em 2018 discutindo como dar cabo do foro privilegiado e reduzir privilégios. O corporativismo que conquistou tantas vantagens e exceções está longe de ter o seu poder afetado. O valor probante dos escritos dos atos notariais e registrais é a cada dia ampliado com a inclusão de novas áreas e o correspondente aumento da receita dos cartórios.

A simplificação e a redução da burocracia que tanto emperra a vida das pessoas e das empresas devem ser ampliadas dentro de uma visão mais abrangente de reforma do Estado. A revista Interesse Nacional, em sua mais recente edição, publica excelente artigo de Daniel Bogéa em que defende a construção de uma política permanente de desburocratização, que tenha o cidadão como alvo número um e assuma como princípio-guia a confiança nas relações Estado-sociedade. Nesse sentido, resgata o Projeto Cidadão, executado nos idos dos anos 80, por Hélio Beltrão, mas que gradualmente foi sendo esquecido, para prejuízo de todos. O então Ministério da Desburocratização fez um levantamento das questões de natureza burocrática que afetavam – e ainda hoje afetam – o dia a dia do cidadão comum, desde o seu nascimento até a sua morte. Não se levou em conta se esses problemas são do governo federal, estadual ou municipal, do Executivo ou do Judiciário. Essas disfunções muitas vezes acabam tendo de ser resolvidas numa das instituições corporativas que cada dia ganham mais força.

Os atos notariais existem de uma forma ou de outra em todos os países, porém cartórios, com atribuições que só fazem crescer, são mais uma das jabuticabas brasileiras. Em nenhum país do mundo tanto poder de interferir na vida das pessoas e das empresas é exercido por um órgão privado.

Até o ano passado existiam 11.946 cartórios extrajudiciais (crescimento de 11,7% em relação a 2016), com faturamento de R$ 15,76 bilhões. Se fosse uma empresa, seria a 29.ª maior empresa do País. 73% dos cartórios de protestos de títulos faturaram mais de R$ 110 milhões em 2017. E o maior deles, localizado na Paraíba, faturou R$ 256 milhões no segundo semestre do ano passado.

Muitas atribuições do Judiciário passaram a ser executadas pelos cartórios, como na área de registro civil: fazer correção de nome, correção de erros de grafia, reconhecimento de paternidade, registros de nascimento por técnicas de reprodução assistida, barriga de aluguel, maternidade e paternidade socioafetiva.

Reconhecimento de assinaturas, autenticação de cópias, reconhecimento de filhos, testamento e divórcio e registro de imóveis implicam perda de tempo e custo para os cidadãos. A situação é tão absurda que, em certos casos, se requer a certificação de um cartório por outro.

Nos últimos anos, nossos cartórios ganharam competências. A partir de 2007, inventários, partilha, separação consensual e divórcio consensual foram entrando no menu. A cobrança extrajudicial e o protesto de certidões de dívida ativa da União, dos Estados e do Distrito Federal, dos municípios, de autarquias e fundações públicas começaram a ser feitos a partir de 2012. A regularização de imóveis por usucapião entrou em 2015. E desde 2016 o apostilamento que legaliza documentos e o reconhecimento de documentos brasileiros no exterior passaram a engrossar a renda de seus donos. E, para somar, em janeiro de 2018 os cartórios de registro civil foram autorizados a fazer solicitação e entrega de documentos como passaporte, RG, documento nacional de identificação, CNHs, carteira de trabalho e título de eleitor.

Por pressão dos cartórios, que recebem R$ 4 bilhões por esses serviços, a iniciativa do governo de criar um registro nacional de duplicatas não avançou. O registro eletrônico previsto na lei mudaria a maneira de cobrar dívidas e poderia reduzir o custo para os tomadores de empréstimos. Segundo dados do Banco Central, em março o desconto de duplicatas movimentava R$ 60 bilhões em operações de crédito no País. O projeto de lei criaria a obrigatoriedade de esses títulos serem registrados em certificadoras autorizadas pelo Banco Central.

O projeto de lei que cria o cadastro positivo, por meio do qual o Brasil passará a ter uma legislação de compartilhamento de informações que contribuirá para o aumento da concorrência na concessão de crédito para pessoas físicas e pequenas empresas, também enfrenta restrições dos cartórios.

O senador Ricardo Ferraço apresentou projeto de emenda constitucional transferindo as prerrogativas dos cartórios para o poder público local. A força e a influência dos cartórios, demonstradas no eficiente lobby no governo e no Congresso Nacional, não deveriam ser obstáculo para o exame do Projeto Cidadão e sua aplicação pelo próximo governo. A pessoa física e as empresas não podem continuar à mercê de uma máquina burocrática que representa custo e perda de produtividade.

É urgente uma política efetiva de desburocratização no Brasil, levando-se em conta suas dificuldades culturais, suas dimensões continentais e sua história político-social. Deveria ser definido como meta principal o interesse do cidadão, do contribuinte e usuário de serviços públicos, e não apenas o interesse da própria administração. É necessário que seja reconhecido o caráter político do empreendimento, o que demanda vontade e ação da cúpula dos Três Poderes.

Chegou a hora de ser executada, de maneira vigorosa, uma política para reduzir a crescente burocracia que afeta a vida de todos.

O Jesus da Bíblia e a menina que aprendeu com Bolsonaro o gesto de disparar um revólver

Entre os símbolos da liturgia da morte adotada pelo militar de extrema direita brasileiro, Jair Bolsonaro, candidato à presidência da República, figura agora também a imagem de uma menina de cerca de quatro anos imitando com os dedos polegar e indicador de sua mão direita o gesto de disparar um revólver. Foi ele quem lhe ensinou enquanto a segurava nos braços, rindo entretido.

Questionados sobre a cena que horrorizou não poucos, os assessores de Bolsonaro explicaram que podia ser interpretada como um “gesto cristão” de bravura. Que eu saiba, e estudei os evangelhos durante anos, o único símbolo de violência no cristianismo é o de Cristo na cruz, um inocente condenado à morte. O restante da simbologia dos seguidores do Nazareno é impregnado de paz e perdão, não de violência ou vingança.


Foi Jesus que, em diversas ocasiões, propôs uma criança como símbolo do Reino de Deus. Ele considerava tão grave qualquer tipo de violência contra a infância que chegou a pedir pena de morte para quem ofendesse uma criança: “melhor fora que lhe atassem ao pescoço a pedra de um moinho e o lançassem no fundo do mar” (Mt.18,5ss). A dura condenação do Mestre a quem ofendesse uma criança deve ter impressionado tanto aos seus discípulos que essa passagem aparece nos três evangelhos sinóticos considerados os mais antigos e próximos da sua morte.

Jesus, o manso, o compassivo, o que pedia perdão para todos os pecados, diz que não merece viver quem exerce violência com uma criança. Os evangelhos não dizem a que violência se referia. Há quem pense em uma violência sexual, mas existem muitas formas de ofender um pequeno. Uma delas é usar suas mãos ainda inocentes, que estão aprendendo a acariciar e a brincar, a escrever e a alimentar-se, para imitar o gesto de uma arma que evoca ecos de morte.

Escrevi nesta mesma coluna por que a candidatura do extremista e violento ex-paraquedista Bolsonaro “me dava arrepios”. Hoje, àquele medo tenho que acrescentar o de que o gesto ensinado à menina vire moda, já que durante a liturgia da consagração de Bolsonaro como candidato à presidência corriam pela sala outras crianças imitando o gesto de imitar um revólver com as mãos.

Seria triste se o Brasil, que conquistou o mundo com sua festividade e com a riqueza da sua miscigenação, sua música e sua alegria, se tornasse hoje exportador de uma nova maneira de se divertir na infância: brincar de matar. As crianças devem ser cercadas, desde que nascem, frágeis e indefesas, de gestos de amor e respeito pelos demais, de símbolos que evoquem a vida e não a morte. Terão tempo de sobra para aprender que o mundo está infestado pelos ventos da violência e da intolerância, do desprezo pelas diferenças, do medo das liberdades. Deixemos, agora, que usem as mãos para brincar com a vida. Jesus as usava não para matar, mas para ressuscitar os mortos, devolver a visão aos cegos e fazer os paralíticos voltarem a andar.

O Jesus que sempre cantou a vida e não a morte não gostava de armas. Quando os soldados foram prendê-lo no Horto das Oliveiras, um dos apóstolos desembainhou a espada em sua defesa. Jesus o repreendeu: “Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mt 26,31ss).

Na mesma manhã em que os jornais me horrorizaram com a foto de Bolsonaro rindo com a menina nos braços aprendendo a disparar uma pistola, veio me visitar a pequena Maria Luisa, uma neta por afinidade que deve ter a mesma idade da menina da foto. Brincando no jardim, a pequena me perguntou se podia colher uma flor para dar a sua mãe. Colheu-a e, quando a deu para a mãe, esta a abraçou e beijou suas mãos.

Que nossos pequenos possam povoar seus sonhos não com gestos de morte, nem com símbolos de guerra, mas de arco-íris de paz, de luz de girassóis. Que sonhem tendo nas mãos não o sabor da pólvora, mas o dos beijos daqueles que as amam.

O bom combate


É difícil combater o pacto oligárquico entre políticos, empresários e burocratas
Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal

À sombra do passado

Três partidos foram ao Supremo Tribunal Federal pedir música na campanha eleitoral. “Não é apenas entretenimento” — argumentam PT, PSOL e PSB na ação (ADI 5970) —, “mas um legítimo e importante instrumento para manifestações de teor político”.

Desejam voltar à era dos showmícios, quando candidatos atraíam o público às praças com a magia musical e, nos intervalos, vendiam alegres utopias, logo desmentidas pela realidade. Quem mais abusou do artifício foi Fernando Collor, na campanha em que derrotou Lula 29 anos atrás.

Na essência, esse bloco partidário que se autodenomina de esquerda protocolou no Supremo uma confissão de impotência para renovar seu projeto, lideranças, meios de se comunicar e a própria mensagem.


O refúgio no túnel do tempo ajuda a dissimular a incapacidade de entender as ansiedades do eleitorado, que não vê uma cisão entre “trabalhadores” e “burguesia”, mas enxerga com nitidez um confronto entre Estado e cidadãos, entre a sociedade e seus governantes — como demonstram pesquisas do PT na periferia de São Paulo.

Em Pernambuco tem-se outro exemplo dessa fuga nostálgica. Partidos e candidatos se transformaram em reféns de dois personagens — um mito e um encarcerado.

Morto há 13 anos, o ex-governador Miguel Arraes paira sobre a cena estadual em que se tornou mítico, depois de dominá-la por mais de cinco décadas. Dois dos três candidatos ao governo estadual disputam sua memória nessa eleição.

De um lado está Paulo Câmara, governador em busca da reeleição pelo PSB. Burocrata do Tribunal de Contas, foi ungido por Eduardo Campos, neto de Arraes, quando deixou o governo em 2014 para se candidatar à Presidência da República (Campos morreu num acidente aéreo).

Na oposição está Marília, 34 anos, neta de Arraes. Vereadora no Recife, rompeu com os primos do PSB e migrou com o sobrenome para o PT. É candidata ao governo contra a vontade da burocracia petista, que deseja sua renúncia. Motivo: uma aliança com o PSB aumentaria em 51% o tempo de propaganda eleitoral do PT (de 171 para 258 minutos).

Paulo e Marília também cultuam Lula, pernambucano do agreste, há mais de cem dias cumprindo pena em Curitiba por corrupção e lavagem de dinheiro. Ao ritual juntou-se um terceiro candidato a governador, Armando Monteiro (PTB), cuja origem remonta às usinas de açúcar e ao sistema financeiro.

À sombra do mito e do cárcere criou-se um impasse entre o PSB dos Arraes e o PT de Lula. Derivou na imobilização de quatro partidos (PCdoB, PDT, Pros e Rede). No fim de semana, o PT adiou suas convenções no Amazonas, Amapá, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Tocantins e Rondônia.

Outros candidatos também preferem o gueto da ilusão e da saudade. Jair Bolsonaro (PSL) transformou sua campanha presidencial em homenagem à tortura e à matança dos adversários, na efusão de sangue patrocinada pela ditadura militar. É o mesmo regime que o julgou por traição à farda, acusando-o como autor de um plano para explodir quartéis no Rio dos anos 80.

Embriagados de nostalgia, eles se abstraem do debate de alternativas reais às agruras do presente compartilhado por 175 milhões de dependentes da combalida rede pública de saúde, e por 13,5 milhões de desempregados que perambulam no inverno das maiores cidades.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Imagem do Dia

Ponte em Dunkeld (Escócia)

Loucura com método

Se o PT sempre foi uma máquina produtora de versões, a prisão de seu líder máximo apenas confirma este fato. Sempre atento à formação da opinião pública, é-lhe capital manter o seu protagonismo político. Sair de cena significaria uma batida em retirada de difícil retorno.

Ocorre que Lula e vários de seus dirigentes foram condenados e alguns estão cumprindo pena em prisões. O comprometimento do partido com o crime tornou-se uma outra marca sua, com o mensalão e o petrolão sendo suas expressões mais visíveis. O partido da ética na política tornou-se o da criminalização da política, numa equação em que salta aos olhos a contradição.

Imagens contraditórias atormentam o partido. Como conviver com elas veio a ser uma questão maior. Várias alternativas se fizeram presentes. Uma delas, a de uma verdadeira autocrítica e uma mudança de rumos propriamente social-democrata, foi das primeiras a ser descartada. Seu lugar foi ocupado por uma denegação de todos os crimes cometidos, acompanhada por um discurso de tipo revolucionário em que abundam as radicalizações, com seus dirigentes abertamente defendendo o Foro de São Paulo em Cuba e a sanguinária ditadura de Maduro na Venezuela.

O discurso do “golpe”, da “perseguição política” e contra a “direita e os conservadores” faz parte da estruturação dessa narrativa. Lula preso tornou-se um ativo de preservação do próprio partido, em sua busca desenfreada por manter uma imagem pública palatável aos seus crentes e simpatizantes.

Neste quadro, a prisão do ex-presidente é um fato propriamente político da maior importância. O aparente quebra-cabeças de seus advogados faz parte do jogo, visando a manter o apenado em cena. Não se trata de uma defesa jurídica, mas propriamente política. Os argumentos, digamos, “jurídicos” são apenas uma aparência que faz parte de uma lógica mais geral. Não se bate em juízes e promotores um dia sim e outro também se há verdadeira intenção de libertar o condenado. A estratégia seria outra.

Alguns chegam a enxergar nessas atitudes aparentemente paradoxais uma espécie de “suicídio” do PT, vitimado que seria por suas contradições. Contudo, se adotarmos uma outra perspectiva, poderíamos ver a lógica do que surge como ilógico. E se o objetivo maior do partido fosse precisamente a sua própria conservação sob a ótica do longo prazo?

Uma abordagem possível consistiria em considerar um posicionamento partidário voltado para o período pós-eleitoral, cujo relógio começaria a contar a partir do dia 1.º de janeiro de 2019. Eis o cenário para o qual o PT está se preparando.

O partido já sabe que Lula não poderá ser candidato em 2018 por razões legais evidentes. A Lei da Ficha Limpa é clara a respeito. Até um estudante de primeiro ano de Direito sabe disso. Não é necessária a contratação de nenhum grande advogado. Contudo, o discurso da “perseguição política” e de cerceamento de seus direitos eleitorais faz parte de um processo mais amplo de deslegitimação das próximas eleições. O partido está amealhando capital político.

As chances de um poste escolhido no último momento são exíguas, apesar de alguns acreditarem ainda sinceramente nessa possibilidade. Em todo caso, tal crença contribui para que o partido continue coeso, algo que é da máxima relevância neste momento. Aparentemente, o PT está preocupado em ganhar esta eleição, quando na verdade visa a se posicionar enquanto oposição ao novo governo, dentro de um cenário institucional degradado – cenário este que lhe é de valia também em função do discurso revolucionário que está adotando. Regressa às suas origens.

Neste cenário, não lhe interessa qualquer aliança que lhe dê substância eleitoral para outubro. Por exemplo, compor com o ex-governador Ciro Gomes não lhe convém, pela simples razão de que este, eleito, seria por demais igual ao PT, vindo a aniquilar o próprio partido. O programa do candidato apresenta semelhanças profundas com o que foi defendido pelos governos Dilma e Lula II. Seria lógico apoiá-lo. Eleitoralmente, faria sentido; partidariamente, não. O fundamental para o partido reside em manter a sua hegemonia.

Para o PT, faz muito mais sentido a eleição de Jair Bolsonaro. Isso porque sempre poderia dizer que o processo eleitoral não tem nenhuma legitimidade, na medida em que Lula não teria podido participar da eleição. Teria sido impedido graças a uma “perseguição política”, a um ato de “arbítrio” perpetrado por juízes e promotores apoiados pela “grande mídia”.

Teria, ainda, do ponto de vista de sua narrativa, no interior de um quadro apresentado como institucionalmente degradado, o “benefício” de colocar-se como de oposição a um governo “militar”. Caso eleito, Bolsonaro não seria considerado como resultado de um processo constitucional, mas como produto de um conjunto de arbitrariedades da toga e dos meios de comunicação que teriam propiciado a volta dos militares ao poder.

O comprometimento do partido com a verdade é nulo. Importa-lhe exclusivamente a sua versão, contanto que essa lhe seja útil na perspectiva da conquista do poder. Não há nada ilógico no que o partido vem fazendo. A aparente desordem nas orientações partidárias segue também um método próprio de ordenação, tendo como eixo a estrutura partidária e a coesão de sua ideologia, por mais falsa e dissociada que seja da realidade.

O PT nunca prezou tampouco a democracia. Esta lhe foi útil, sobretudo no período pós-regime militar, apresentando-se como uma nova alternativa de participação política. Discursos de uma suposta “democracia direta” abundaram naquele período. Entretanto, o que importava para o partido era o uso que poderia fazer das instituições democráticas para apropriar-se do poder. Tratava-se do mero uso instrumental da democracia. Agora, o seu aviltamento veio a ser o seu complemento.

Sequestro nacional

Estamos com uma democracia sequestrada por uma aristocracia bandida
Rodrigo Janot, ex-procurador-geral

Por que as pessoas gritam quando estão com raiva?

No Tibete, conta-se que um velho sábio perguntou a seus seguidores o seguinte: Por que as pessoas gritam quando estão com raiva?

Os homens pensaram por alguns instantes:

“Porque perdemos a calma”, respondeu o primeiro, “é por isso que gritamos.

-Mas porque gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?

-O sábio perguntou- Não é possível falar com ele em voz baixa?

Por que você grita com uma pessoa quando está com raiva?

Os demais seguidores deram algumas outras respostas, contudo, nenhum delas deixou o sábio satisfeito.

Finalmente ele explicou:

Quando duas pessoas estão com raiva, seus corações se distanciam um do outro. Para encurtar essa distância, gritam para serem ouvidos. Quanto mais irritados estiverem, mais fortes terão de gritar para se fazerem ouvir através dessa grande distância .

Então o sábio perguntou:

-O que acontece quando duas pessoas se amam?

Eles não gritam, falam suavemente.

Por quê? Seus corações estão muito próximos.

A distância entre eles é muito pequena.

O sábio continuou: “Quando você se apaixona ainda mais, o que acontece? Eles não falam, apenas sussurram e se aproximam ainda mais de seu amor. Finalmente, eles nem precisam sussurrar, apenas olham um para o outro e é isso. É assim que duas pessoas são próximas quando se amam.

E, encerrando a explicação, concluiu:

– Quando você argumentar, não deixe seus corações se afastarem. Não permita que saiam da sua boca palavras que os distanciem ainda mais. Pois, se assim proceder, chegará um dia em que a distância é tão grande que você não encontrará o caminho de volta.

Bolsonaro e a autoverdade

A pós-verdade se tornou nos últimos anos um conceito importante para compreender o mundo atual. Mas talvez seja necessário pensar também no que podemos chamar de “autoverdade”. Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet. E que é expressa nas redes sociais pela palavra “lacrou”.

O valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos. Nem seu apagamento está na produção de mentiras ou notícias falsas (“fake news”). Essa é uma relação que já não opera no mundo da autoverdade. O valor da autoverdade está em outro lugar e obedece a uma lógica distinta. O valor não está na verdade em si, como não estaria na mentira em si. Não está no que é dito. Ou está muito menos no que é dito.

Assim, a questão da autoverdade também não está na substituição de verdades ancoradas nos fatos por mentiras produzidas para falsificar a realidade. No fenômeno da pós-verdade, as mentiras que falsificam a realidade passam elas mesmas a produzir realidades, como a eleição de Donald Trump ou a aprovação do Brexit. A autoverdade se articula com esse fenômeno, mas segue uma outra lógica.


O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. “Dizer tudo” é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro e, claro, (sempre), Donald Trump. E como não são eles e outros assemelhados o problema, mas sim o fenômeno que vai muito além deles e do qual são apenas os exemplos mais mal acabados.

Uma pesquisa de junho do Datafolha mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) são jovens: seu eleitorado se concentra principalmente na faixa dos 16 aos 34 anos. O capitão do exército também lidera as intenções de voto entre os mais ricos e os mais escolarizados do país. O candidato de extrema-direita está em primeiro lugar na disputa presidencial de outubro. Isso num cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com Lula, Bolsonaro cai para o segundo lugar. Mas Lula, como sabemos, está preso e impedido de se manifestar num dos mais controversos episódios da história recente do Brasil, um país hoje assinalado pela politização da justiça.

Em pesquisa recém divulgada, a professora Esther Solano entrevistou pessoas na cidade de São Paulo para compreender o crescimento das novas direitas e especialmente da extrema-direita mais antidemocrática, representada por Jair Bolsonaro. Os selecionados cobrem um amplo espectro de posição econômica, de emprego, de idade e de gênero. Solano é professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Ela tem se destacado como uma das principais estudiosas do perfil dos participantes dos protestos no Brasil desde 2013, quando foi uma das poucas a escutar os adeptos da tática black bloc em profundidade.

A pesquisa, financiada pela Fundação Friedrich Ebert, é ótima, importante e deve ser lida na íntegra. Aqui, me limito a reproduzir um trecho que ajuda a iluminar a questão que apresento nessa coluna:

“No começo da roda de conversa com os alunos de São Miguel Paulista, assistimos a um vídeo com as frases mais polêmicas de Bolsonaro. No final do vídeo, muitos alunos estavam rindo e aplaudindo. Por quê? Porque ele é legal, porque ele é um mito, porque ele é engraçado, porque ele fala o que pensa e não está nem aí. Com mais de cinco milhões de seguidores no Facebook, o fato é que Bolsonaro representa uma direita que se comunica com os jovens, uma direita que alguns jovens identificam como rebelde, como contraponto ao sistema, como uma proposta diferente e que tem coragem de peitar os caras de Brasília e dizer o que tem de ser dito. Ele é foda.

O uso das redes sociais, a utilização de vídeos curtos e apelativos, o meme como ferramenta de comunicação, a figura heroica e juvenil do ‘mito ’Bolsonaro, falas irreverentes e até ridículas, falas fortes, destrutivas, contra todos, são aspectos que atraem os jovens. Se, nos anos 70, ser rebelde era ser de esquerda, agora, para muitos destes jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em formas de memes e de vídeos divertidos: O Bolsomito é divertido, o resto dos políticos não”.

Na roda de conversa na escola de São Miguel Paulista, na Zona Leste, a mais precarizada de São Paulo, os alunos negam que Bolsonaro faça a difusão de um discurso de ódio. Mas valorizam a sua coragem de dizer coisas fortes. Um garoto de 16 anos resumiu: “Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade”.
Leia mais o artigo de Eliane Brum

domingo, 22 de julho de 2018

Brasil das pré-candidaturas


O mecanismo

A perda de prestígio e de rumo do Brasil tem nomes. Sem citar os pecadores, o que despertaria polêmica, vamos aos pecados, para que, revelados, ao menos se atenuem.

A verdade vos libertará. Exatamente a verdade tem que ser mostrada sem paixão nem torcida. Doa a quem doer, para que depois não doa por quatro anos a milhões de ingênuos e inocentes.

Quase sempre um governante em Minas ou no Planalto, antes de assumir, se fez preceder de acordos e compromissos fisiológicos, negócios espúrios com financiadores, partidos e grupos que atuam e se locupletam na esfera pública. Perde-se aí a possibilidade de dar certo. Deixa-se o Estado refém dos favores de campanha e de retribuir acordos lesivos ao interesse difuso e popular.


A visão “negocial” da política impõe ao eleito “comprometido” transformar-se em tomador de conta do galinheiro para dar livre acesso às raposas. O acerto precisa ser “honrado”, devolvendo centenas de vezes mais o que foi financiado na campanha. Assim, quem manda não é bem o eleito, mas os financiadores, os partidos, aqueles que, depois, ditam as decisões. Os exemplos abundam nas revelações da operação Lava Jato. Interessante, embora romanceada, a série “O Mecanismo” da rede Netflix. Dá uma ideia de Brasil.

No ambiente luxurioso e aloprado de mordomias e esbanjamentos com o dinheiro público, chafurdam figuras que, na vida real e competitiva, teriam lugar de chapéu na mão nas escadarias de uma igreja. A política se transformou numa transgressão quase permanente. Política não é mais o que significa, “o modo e a arte de convivência na comunidade”. Serve, sobretudo, ao mecanismo para explorar a ingenuidade da população e, assim, engordar a si com aquilo que se retira dela. A roda gira a favor do constitucionalmente incorreto.

O mal que esgarça como lâmina a economia da nação se expandiu tão rapidamente, atingindo um aspecto monstruoso que envergonha o Brasil e sua gente, que faz milhões sonharem em sair daqui, como se sai de um pesadelo.

Os governos são entregues a incompetentes cujo maior compromisso é serem fiéis às regras do mecanismo, não interessa a experiência e a competência.

Paradoxalmente, chegou-se até a figura do ministro laranja, aquele que se presta a encobrir a ação delituosa de partidos. O único predicado necessário é saber ler, escrever e acima de tudo manter aberta a porta do galinheiro.

Nota-se que as pequenas obras, talvez as mais necessárias à qualidade de vida da população e que são imprescindíveis garantias de educação e saúde são menosprezadas, justamente por estarem ao alcance de milhões de empresas competitivas e trabalharem sem margem de desvios. Gasta-se despudoradamente o valor de mil unidades básicas de saúde, que atenderiam 12 milhões de cidadãos a vida toda, pelo estádio que hospedou apenas três jogos da Copa do Mundo e ficou, depois, às moscas.

Quando um governo é deixado refém, tem que ceder ao financiador, ao partido, ao bandido.

As regras eleitorais desta eleição foram aprovadas para cercear a livre escolha, via o artificialismo, para exploradores manterem-se onde estão: no poder.

Uma pesquisa divulgada recentemente que estimulou o entrevistado a escolher entre os principais candidatos ao governo de Estado de Minas revelou a definição de apenas 43% do eleitorado, com 57% decidido anão votar. Assusta. Mais ainda a rejeição dos mais citados nas intenções de votos. Isso mostra, em geral, que prevalece antipatia, e não admiração.

Quer dizer, a avalanche de votos nulos e brancos é hoje superior ao volume de intenções da soma de votos de todos os candidatos. Isso pode levar a eleição a ser decidida em favor de um candidato com mais de 50% de rejeição.

Seguindo adiante na análise, entende-se o risco de ingovernabilidade do próximo eleito, já que este assumirá sem respaldo da maioria, mas apenas em decorrência da maior fraqueza do adversário que passar de turno.

A eleição está “sem propostas”, ancorada aos defeitos alheios. Que governo teremos? Insustentável e sem apoio para tomar as medidas necessárias para que o Estado se recupere?

A campanha será marcada, como já é em grande parte, por personalismo, acertos de bastidores, alianças, falta de programas e, ainda, presença de velhas figuras que retornarão a seus lugares sem levar a responsabilidade de compromissos claros. Sem planos, sem apontar quadros competentes. Teremos uma campanha inútil.

Valerá ter uma cota menor de defeitos para vencer. E isso será lamentável.

Notícias sob medida

Tenho um amigo que gosta de receber o jornal em papel diariamente só para ver a sua capa, o espaço em centímetros de celulose que cada notícia ocupa. Quer vê-las todas de uma vez, numa captura de tela; curiosa expressão para definir uma situação tão analógica. Às vezes rio dele, mas devo admitir que o compreendo. O que ele está pedindo é o critério editorial, essa mensagem que um veículo nos dirige, essa expectativa de ver o que ele nos traz hoje.


Lembrei disso quando uma jornalista do The Guardian perguntou a Christopher Wylie o que o levara a vazar o assunto dos dados do Facebook e da Cambridge Analytica, e o analista não estava tão preocupado com o direito à privacidade dos 87 milhões de pessoas, e sim com algo maior. Disse que usando o microtargeting em suas campanhas percebeu como estamos pondo em risco o funcionamento da nossa sociedade. “Em vez de você dizer o que pensa em praça pública e deixar que as pessoas venham e tenham essa experiência compartilhada, o que você faz é sussurrar no ouvido de cada eleitor. Diz uma coisa a um, e outra ao seguinte. Pomos a sociedade em risco de fragmentação, de uma maneira em que já não há experiências nem entendimento compartilhado. Se não tivermos isso, como podemos ser uma sociedade funcional?”

Wylie de repente entendeu algo que vários autores vêm estudando nos últimos anos: como o Twitter e o Facebook podem estar influenciando o debate político. Eli Pariser e Cass Sunstein alertaram sobre os problemas das câmaras de eco numa época em que a troca de informações é a base das experiências compartilhadas, e na qual recebemos conteúdos cada vez mais personalizados.

Além de consumidores somos cidadãos, e como tal deveríamos avaliar as redes sociais, proteger nossos lugares públicos e desenvolver ferramentas contra a fragmentação

E o que meu amigo, o do jornal em papel, tem a ver com isso? Você verá. Assim como no Facebook, Twitter ou mesmo nos resultados do Google, o conteúdo que nos chega através de muitos sites está adaptado às nossas preferências. É verdade que os filtros são necessários diante de uma quantidade de informação inabarcável por si só, e por isso abraçamos tudo o que essas plataformas põem à nossa disposição para facilitar a nossa vida. Por que não ver trailers de séries que poderemos gostar, e receber os anúncios de objetos que compraremos? Por que não ler um jornal personalizado a cada manhã? Espere aí. A soberania do consumidor é boa, mas não é tudo. Há sinais de que estamos restringindo nossos espaços públicos de debate e com eles as condições para uma democracia sã.

Sunstein explica que um sistema onde a liberdade de expressão funciona bem tem dois requisitos: a exposição não escolhida, que propicia certo acaso – ou seja, que as pessoas se encontrem expostas a temas ou notícias não previamente selecionados – e, em segundo lugar, as experiências compartilhadas. Sem elas, uma sociedade heterogênea terá dificuldades para abordar problemas sociais.

Todos nós lemos mais, nos sentimos mais bem informados e mais capazes de fazer ouvir nossa opinião através das redes sociais. Vimos como as redes podem ser fóruns públicos cruciais em processos democráticos, como na Primavera Árabe. Mas esses mesmos sistemas de comunicação são os que influíram na vitória do Brexit e de Donald Trump através de fake news e campanhas de marketing.

Estudos sobre a fragmentação mostram que uma de suas consequências é a dificuldade de entendimento mútuo, e que a polarização dos grupos é um fenômeno muito real na Internet e que pode levar ao extremismo e à violência.

Quando o Facebook ou qualquer site personaliza seu serviço de notícias, eles se perguntam se os usuários estão recebendo o que desejam. Mas, além de consumidores, somos cidadãos, e sob essa óptica deveríamos avaliar as redes sociais, proteger nossos espaços públicos e desenvolver ferramentas contra a fragmentação. Como cidadãos podemos solucionar problemas coletivos – como o da poluição do ar – que como consumidores não conseguiríamos enfrentar.

Muito se pode fazer a partir daqui para promover melhores debates públicos. Alguns autores propõem um “botão do acaso”, e estão sendo feitos experimentos com artigos que mostram uma opinião contrária no rodapé de uma notícia que você acaba de ler. Tomara que funcionem. Eu tenho claro que meu amigo, embora não suspeite, é um defensor da descoberta diária a partir da sua querida capa do jornal de papel.

Marilín Gonzalo

Ironias banais do Brasil

Declarar-se “anti sistema” e ao mesmo tempo depender do establishment político para vencer a eleição é tão penoso quanto risível. Fácil é maldizer o fisiologismo, complicado é render-se em articulações que mais tarde cobrarão o apoio em sinecuras. Há nisso tudo aparente esquizofrenia, que sugere paradoxos e contradições. Mas, no interior do sistema e da cultura política, isto tudo apenas revela ironias banais no Brasil.

Salvo pequenas exceções, a maioria dos candidatos faz pose, renega o fisiologismo e condena a corrupção. Não hesita, porém, correr atrás de apoios; oferece espaços e recursos à turma do Centrão e a alguns ícones do fisiologismo nacional. Pudores se dobram à realpolitke ao mais básico (e duvidoso) dos bens eleitorais, o tempo de TV durante a campanha.

Se é fato que não se governa sem vencer a eleição, o problema é que se governa muito mal quando a vitória eleitoral se dá a qualquer custo. O filme é conhecido. Contudo, nesta fase do certame, governar ainda parece ser preocupação de segunda ordem.

Por outro lado, partidos do adesismo e fisiologismo nacionais se aproximarem assim a esmo de candidatos díspares. Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e o Plano B do PT… Difícil encontrar pontos em comum entre eles. Nada os aproxima, nem o diagnóstico da situação do país, nem os valores que carregam. Menos ainda as personalidades. Ainda assim, nenhuma aliança é descartada.

Não há intersecção entre esses nomes, estilos ou propostas. Ainda assim, partidos como PR, PP, Dem e Solidariedade se quedam paralisados como quem está em dúvida diante de uma bifurcação na estrada. Mas, o que menos interessa é o caminho se todos levarem ao mesmo lugar: ao governo, em 2019.

O certo é que quase ninguém se coliga por afinidade ideológica ou por em busca de um consenso programático. Os interesses são menos abstratos e muito mais concretos que isso. Há quase sempre um leilão: leva a mesa quem der mais em instrumentos políticos que farão eleger maior bancada ou expressar a melhor perspectiva de vitória. Tudo muito mais simples.

***

Em vista disso, líder nas pesquisas eleitorais, Jair Bolsonaro tem encontrado um paredão de dificuldades para fechar alianças e compor sua coligação para outubro. Em tese, a força eleitoral do ex capitão deveria estar acompanhada por correspondente importância política. Não está. Contraditoriamente, é a força centrífuga do sistema que o afasta.

Bolsonaro tem se consolidado como candidato orgânico da parcela mais conservadora e reativa da sociedade. Isto lhe dá sólida base, em torno de 15% ou 20% o que, numa eleição como esta, leva à liderança no primeiro turno. Mas, ao mesmo tempo, parece ser pouco, quase nada, para o segundo turno, quando a eleição se define de verdade.

Confinado ao estilo e ao tipo de carreira política que fez, o ex capitão tem dificuldade em expandir seu diálogo e se aproximar do eleitor de centro, bem mais moderado. A limitada capacidade de ampliação o fere profundamente, formando um círculo negativo (para ele): sem ampliar, não terá coligações e portanto tempo de TV. Sem isto, não consegue ampliar.

O fisiologismo nacional é sagaz: apostar num eventual campeão do primeiro turno, que fique pelo meio do caminho no segundo é o mesmo perder a eleição de largada. Pragmáticos e voltados ao poder, políticos fazem conta: querem inteiro, não pela metade.

O caso de Geraldo Alckmin se assemelha, mas também se difere. O tucano seria quem garantiria melhor convívio ou pelo menos maior previsibilidade, depois de eleito. Contudo, como garantir hoje que decolará logo mais, amanhã, quando o horário de TV começar? O tempo pode ser curto para se desvencilhar das bolas de chumbo que traz aos pés: Aécio Neves e Michel Temer, além da inconveniência de amigos arrolados pela Lava Jato. A incerteza em relação ao ex-governador é grande. Mas, em relação aos outros também.

Ciro Gomes, menos comprometido por aliados e correligionários, é, porém, a instabilidade encarnada numa pessoa. Seus movimentos não são retilíneos nem tampouco uniformes. É ziguezagueante. Dono de uma loquacidade ímpar, “avança, para, e recua; recua, avança e para”. Acerta e erra com a mesma facilidade com que fala; tropeços verbais também esfolam joelhos, além da sensação de segurança. Esta de xingar um promotor de fdp foi mais uma de lascar.

As circunstâncias até ajudam, mas, Ciro parece ser tão capaz de ganhar a eleição quanto de perder uma eleição ganha. Por ser menos imprevisível, entre todas as incertezas, Alckmin pode ser compreendido como a dúvida menos incerta. Obviamente, há dificuldades com a decolagem. Mas, alguma aposta, aos 45 do segundo tempo tem que ser feita. O ex-governador é leito mais sereno. Ao final, a rapaziada do Centrão pode se ver em maior perspectiva. Na eleição e no eventual governo.

Como qualquer tipo de investidor, esse tipo de político é avesso ao risco. Quer segurança, previsibilidade, se não para o país, para a manutenção do poder. Por isso, nem mesmo Lula e o PT estão descartados. Tudo depende da perspectiva que se abre. (“Haverá transferência dos votos de Lula para o Plano B?”, deve se perguntar Valdemar Costa Neto…) Política é jogo de expectativas tanto quanto a economia. E, ao final, ninguém rasga dinheiro.
Carlos Melo 

Pensamento do Dia


Antes de Depois: as pessoas 'fakenstein'

A loucura da vaidade e avidez por mudanças para aparecer bem, de bonita ou de bonito, nas redes sociais, nas selfies e etceteras faz surgir uma nova sorte de criaturas, meio humanas, meio alguma coisa grotesca indefinível. A situação está tomando um rumo que faz com que muitos virem também mortos nas mãos de despreparados, ou, quando têm sorte e não ficam aleijados, apenas patéticos sendo enganados por promessas de milagres.


Antes era bem mais difícil fazer alguma transformação mais radical no corpo. Era preciso e indispensável procurar um bom cirurgião plástico e seu hábil bisturi, com custo em geral muito alto, e a clara necessidade de ficar em estaleiro por alguns dias. Não era coisa de você entrar por uma porta de um jeito e sair de outro como o que vêm sendo proposto ultimamente por todo tipo de malandros prontos a lucrar com a sandice alheia. Dr. Bumbum é grão de areia nesse zoológico sobrenatural.

A coisa vem num assustador crescendo: primeiro foram as lipoaspirações. Enfia um cano e puxa gordura daqui, dali. Pega dali, põe lá atrás. Muitas vítimas acabaram foi sem gordura nenhuma; literalmente, ossos. Enterrados, inclusive. Apareceram então as aplicações de botox e ácidos com nomes proparoxítonos. Rugas e expressões esticadas, paralisadas, bocas parecendo que acabaram de levar uma ferroada de vespa. Peles do rosto amarradas, meio que costuradas com fios de ouro – sempre tem algum elemento assim, nobre, sendo propagandeado – esticadas, atrás da orelha.

Agora até que anda um pouco mais suave e calmo, mas o comércio de próteses de silicone para os seios também causou um belo estrago na paisagem humana que habita a terra quando começaram a aparecer umas mulheres que dificilmente avistam seus próprios pés diante daquela dupla frontal anexada, de bolas que chegam a conter até 750 ml. Teve umas pondo mais de litro. A pessoa chega, mas o peito vem antes, abrindo portas. Coisas de moda. “Alguém” determina o padrão e lá vai o trenzinho seguindo. Os traseiros cresceram.

(E, vejam, tudo isso sem falar no criminoso avanço de venda de hormônios, anabolizantes e outras drogas para os que querem parecer saudáveis nas fotos feitas em academias. Daí saem aquelas mulheres com acentuadas vozes travestidas que eu ainda não sei o que virarão depois de alguns anos – talvez muxibas).

O problema não é, claro, o importante avanço da medicina e das pesquisas na área de cosmética, aperfeiçoamento do corpo humano, retardamento da velhice, busca de auto estima e valorização estética. Isso é direito. Que fique claro.

O problema é a mentira, a proliferação indiscriminada de aproveitadores profissionais, alguns nem um pouco profissionais ou qualificados, prometendo mágicas. Tem dentista aplicando botox, descascando dentes para enfiar uma tal lente de porcelana sem exatamente informar consequências e quanto tempo aquele efeito lindeza vai durar. Tem salões de cabeleireiros, ops, esteticistas ou outros títulos super rebuscados, prontos a injetar, furar, puxar, pintar, tatuar as caras das pessoas, inclusive com sobrancelhas de fazer inveja aos melhores diabos e monstros da história da humanidade. Coisas permanentes. Ficou bom? Que bom. Puxa, deu errado, não gostou? Que pena. Não tem volta. Nem em dinheiro, nem em satisfação.

Esses dias o caso do Dr. Bumbum (!!!) e sua mãe trouxe à tona na imprensa alguns depoimentos assustadores de outras vítimas, muitas que estavam caladas, algumas até sem convívio social e envergonhadas depois da barbeiragem pela qual pagaram bem caro. Meninas, gente jovem, que se submeteram a esse açougueiro. Quase todas (inclusive a que morreu) queriam ficar bonitas para as fotos nas redes sociais.

Repara que agora tudo quanto é criancinha, adolescentes ainda imberbes, postam fotos com batonzinho e fazendo boca de pato.

Vamos falar sobre bullying estético? Seria necessário o quanto antes ressaltar para a geral que muitas destas celebridades e subcelebridades que vemos todas serelepes nas fotos passaram por verdadeiras transformações, mas não “no real”, sim no banho de loja, no dinheiro que entra na conta, no tratamento da imagem, em maquiagens ou photoshops? Que elas não são exatamente daquele jeito, quase impossível? Cinturas sem osso, peles translúcidas, barrigas negativas, dentes resplandecentes, cabelos de boneca.

Além das fake news, teremos de nos preocupar também com as fake pessoas, as "fakensteins."

Tempos de roubo descarado

A realidade que estamos vivendo é estranha, exótica, excêntrica: o que está determinando quase que um favoritismo eleitoral é a reunião desses partidos para discutir tempo de televisão e divisão de dinheiro público
Miro Teixeira (Rede)

Chegar ao século 21, uma boa pauta de governo

O próximo governo será um dos mais inovadores da história nacional se conseguir trazer o Brasil ao século 21 ou, no mínimo, até a sua vizinhança. Impedir a quebra do Estado, ameaçado por uma dívida enorme e crescente, será uma condição preliminar - essencial, é claro, mas insuficiente para atualizar o País. Há meio século, economias como a sul-coreana e outras da Ásia, bem menores que a brasileira, apenas começavam a se mover. A Tailândia mal dispunha de algumas indústrias simples no começo dos anos 1980, quando iniciou um programa de modernização com apoio do Banco Mundial. A China estava longe de ser uma potência produtiva, exportadora e, até há pouco tempo, inovadora. Todas se moveram muito mais que a brasileira. O Brasil ficou em 80.º lugar entre 137 países na avaliação de competitividade publicada em setembro do ano passado pelo Fórum Econômico Mundial. Ocupou a 26.ª posição entre os exportadores, em 2017, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), embora tenha continuado entre as dez maiores economias. Permaneceu entre os últimos, em 2015, no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), nos exames de ciência, matemática e linguagem. Hoje, além de ser uma das mais fechadas, a economia brasileira continua pouco preparada, a começar pelo domínio da própria língua pela maioria das pessoas, para participar do jogo mundial.


O Brasil é competitivo na agropecuária e na mineração. Na indústria, a Embraer e umas poucas empresas ficam muito acima dos padrões dominantes no País. Pouca inovação, ineficiência e baixo investimento produtivo compõem a maior parte do cenário, desde o planejamento estatal, a gestão dos serviços públicos e a oferta de infraestrutura, até a formação escolar, miserável e pouco ambiciosa, oferecida à maior parte dos brasileiros.

Essa formação indigente, visível no dia a dia e confirmada por quase todas as comparações internacionais, é um dos maiores entraves à integração no jogo internacional, ao desenvolvimento social e, naturalmente, à consolidação de uma democracia real e moderna. Não se conseguirá desatolar o País sem uma política educacional séria e realista. Será indispensável abandonar o populismo, encerrar a multiplicação de universidades mal planejadas e abandonar a facilitação, demagógica e eleitoreira, do ingresso em cursos ditos superiores - frequentemente superiores só no rótulo oficial.

A educação pouco tem sido explorada, no entanto, na fala da maior parte dos candidatos ou possíveis candidatos à Presidência da República. Além disso, raramente a discussão de temas educacionais, no Brasil, toma os padrões internacionais como referência. Autoridades, quando mencionam problemas ou avanços, quase sempre se limitam à experiência brasileira. Comparam-se os números de hoje com os de alguns anos atrás para medir os progressos ou tropeços, mas quase nunca se olha para fora, pelo menos no debate público.

Nas piores manifestações, a visão da política educacional pouco ou nada se afasta do assistencialismo. Há alguns anos, houve quem classificasse como elitista a exigência de padrões gramaticais na educação pública, especialmente no ensino proporcionado a crianças pobres. Terão os coreanos seguido esse padrão complacente em seu caminho para se tornar uma potência industrial, tecnológica e comercial?

É quase surpreendente, contra esse pano de fundo, a manifestação do tucano Geraldo Alckmin numa entrevista ao jornal Valor, publicada na última quinta-feira. Falando sobre suas propostas de governo, ele tratou das condições para levar o País a um crescimento econômico mais veloz e sustentável por um longo período. O programa, segundo explicou, deve incluir uma agenda de competitividade, baseada em primeiro lugar na “educação básica, infantil, fundamental, média e técnica”. Esse é exatamente o conjunto negligenciado pelos programas populistas. Facilitar ingresso em faculdades pode dar mais votos, mas, no caso brasileiro, nada proporcionou em termos de competitividade e de avanço social sustentável.

O ex-governador mencionou, na entrevista, a fixação de metas. Um ganho de 50 pontos no Pisa, argumentou, pode proporcionar 1% a mais de crescimento econômico. Pode-se discutir se a meta é realista e suficientemente ambiciosa, mas o foco é tão inovador quanto promissor. Além de valorizar a formação anterior à universidade, mal tratada por muito tempo, a proposta elege como referência o padrão internacional. No último exame Pisa, em 2015, com 70 países participantes, os estudantes brasileiros ficaram em 63.º lugar em ciências, em 65.º em matemática e em 59.º em leitura. O Brasil obteve 401 pontos em ciências, 407 em leitura e 377 em matemática. Ficou, portanto, bem abaixo das médias de 493 pontos, nos dois primeiros casos, e de 407, no terceiro. Dentre os latino-americanos, Chile, Colômbia, México e Costa Rica ficaram acima do Brasil.

Nada importante se fará nos próximos anos, é claro, se o governo for incapaz, por negligência ou incompetência, de conter o avanço da dívida pública. Ninguém conterá esse avanço sem um severo controle do gasto oficial e sem maior eficiência administrativa, objetivos incompatíveis com as bandeiras populistas. É fácil entender por que muitos dos analistas mais competentes, dentro e fora do Brasil, estão avaliando principalmente as possibilidades de arrumação fiscal a partir do próximo ano.

Mas a arrumação fiscal é só uma condição para todo o resto. A pauta de fortalecimento econômico envolverá itens fáceis de enumerar, como a elevação do investimento em meios de produção, a racionalização dos tributos e a busca de bons acordos comerciais e de integração internacional. O esforço será incompleto sem um programa educacional eficiente e livre de populismo. Alguém ganhará votos propondo um programa desse tipo?

Javalis Selvagens sabem

Agora que os Javalis Selvagens saíram, é hora de a seleção brasileira entrar na caverna escura e de lá só dar as caras quando entender como, caramba!, aqueles moleques não panicaram?! Que técnica de jogo é essa? É o arroz? Aquela saudação de mãos postas?

O que faz com que o time dos milionários brasileiros trema as pernas, e tudo mais que lhes vai em cima, quando sofre um gol banal? Os juniores dos Javalis Selvagens, trancados em meio à lama escura, próximos do fim anunciado para a hora seguinte, simplesmente meditaram sorridentes à espera de uma solução.


Os Javalis Selvagens não enfrentaram a mixaria dos diabos belgas. Eles se viram olho no olho com a morte imediata, isto se a indigitada das gentes não estivesse invisível na escuridão. Ninguém via nada, os diabos de todas as nações estavam na tocaia. Nenhum garoto gritou. Por que o Brasil da Copa de 2018, diante de dificuldades menores, alarmou-se em pânico? Tinha sido assim em 2010, quando sofreu um gol da Holanda e imediatamente o volante Felipe Melo pisou de raiva vingativa a perna do Robben, e foi expulso. Os Javalis Selvagens controlaram-se. Diante da derrota que parecia iminente, foram encontrados sem tremeliques no meio das trevas. Zero de desespero. Que chá eles tomam? Que Deus? Que técnico é esse?!

Quem viu os jogos da Copa da Rússia ficou com a impressão de que essas seleções inventaram agora jogadores de dois mil metros de altura aos quais só custa aparar com a cabeça a bola que vem do escanteio. Grandes coisas! De futebol mesmo esses grandalhões devem ter visto no máximo aquele vídeo em que o Pelé, diminuindo-se de glórias, ensina a cabecear — bastava ficar de olhos abertos para ver em que direção se está mandando a bola. O Pelé era baixo, precisava de alguma artimanha para sair do chão. Esses sujeitos do futebol de laboratório são altos, fortes, mas quando voam não dão asas à imaginação. Como foram chatos esses gigantes cabeceadores que resolveram a Copa com os procedimentos permitidos pelas centimetragens extras! Que vida lamentável essa de se postar ali na altura da pequena área, com toalha e sabonete, à espera do famigerado chuveirinho!

O Brasil está completando 60 anos da frase redentora de Nelson Rodrigues, aquela de que graças à seleção campeã de 1958 o país havia deixado de ser um vira-lata entre as nações. Foi um momento de afirmação, o fim da crença de uma covardia atávica que a todos de verde e amarelo acometeria na hora de decidir. Agora a viralatice pátria está nos nervos. Um país à flor da pele. Por que será que os Javalis Selvagens, ao verem a morte de perto, simplesmente não piscaram para qualquer manifestação de desespero, enquanto nos campos da Rússia, ao serem atropelados pelo De Bruyne e o Lukaku, os jogadores brasileiros esqueceram imediatamente todos os recursos que lhes eram inerentes e começaram a chutar bolas sem qualquer sentido para longe do gol adversário?

Nervos de aço só nas letras de Lupicínio Rodrigues. Os jogadores da seleção nessas últimas Copas, ao primeiro gol adversário fizeram-se com os nervos em frangalhos. Perderam aí. Foi uma Copa do Mundo triste, essa que idolatrou os jogadores velocistas, versão ludopédica do Usain Bolt. Eles ganharam a capacidade de correr feito uns loucos, agora com o plus da dificuldade de não perder o controle da bola presa aos pés. Esses novos robôs do futebol cabeceiam muito, correm mais ainda, mas não sabem o valor de uma caneta, não traçam o compasso necessário para o drible da vaca. Toda essa ausência de talento tornou a temporada de um aborrecimento infindo. As estatísticas estão aí com sua antipatia indesmentível. Nunca se fez tanto gol de falta. Como sabe qualquer João Saldanha de botequim, qualquer Oldemário Touguinhó de quitanda, basta treinar o dia inteiro com aquela barreira de bonecos de lata e logo se colocará a bola lá onde a coruja dorme. Chegará o dia, aguardem a próxima Copa, em que a Fifa, assim como já acontece no futebol americano, permitirá a entrada em campo daquele jogador que simplesmente dará o chute e em seguida se porá medíocre de volta ao banco, à espera de uma nova falta.

Os jogadores brasileiros continuam sendo os melhores do mundo, com os talentos mais imprevisíveis e, se isso é um passo importante para botar a mão na taça, é preciso que se dê mais um.

É preciso parar de tremer diante da possibilidade do fracasso, da bola aérea ou do contra-ataque. Se o adversário faz o primeiro gol, o Deus-nos-acuda entra em campo e a desgraça se completa. Ao Brasil Bom de Bola, campeão mundial no controle de embaixadinhas, falta controlar os nervos. Na Copa do Brasil em 2014 também foi assim, e lá está a imagem inesquecível do capitão Thiago Silva, incumbido da responsabilidade de ser o macho dos machos, chorando sentado na bola, no pânico lamentável de bater um pênalti. Por que tremem tanto assim esses rapazes, todos apavorados com uma simples bola nas costas? Os Javalis Selvagens parecem saber a resposta. Cabecearam de olhos abertos no contrapé da morte. Sem faniquito. Mereceram ganhar a Copa.
 Ana Maria Machado