sábado, 8 de julho de 2017

Brasil gasta 1,5 Bolsa-Família incentivando combustíveis fósseis

O impacto contínuo de nossas "tomadas". Energias renováveis é tema não chave, não ignorável. Enquanto isso, o uso de termelétricas movidas a combustível fóssil se prolifera em nosso país, o carvão abunda na China, ressurge na Europa e o Gás de Folhelho (Xisto - Shale) nos EUA é tido como solução #fail. Fácil de entender, difícil de copmpreender.
O governo brasileiro gastou US$ 25,5 bilhões em 2014 subsidiando combustíveis fósseis. O valor equivale a R$ 76 bilhões, ou uma vez e meia o orçamento anual do Bolsa-Família (R$ 50 bilhões). Os dados são de um relatório divulgado nesta semana pela ONG Germanwatch, que monitora as políticas climáticas dos países.

Na conta entram incentivos fiscais para o desenvolvimento de infraestrutura, regime tributário especial para equipamentos de exploração e produção de petróleo e gás, além da geração elétrica a carvão. Soma-se a isso mais de US$ 2 bilhões em apoio orçamentário para a produção e consumo de combustíveis naquele ano.

E, mesmo assim, comparada à das outras nações do G20, o bloco das maiores economias do mundo, a situação brasileira até que não é tão ruim. Segundo o relatório, publicado nesta semana, poucos dias antes da cúpula do G20, que começou nesta sexta-feira, a transição para uma economia de baixo carbono avança a um ritmo lento demais para a velocidade das mudanças climáticas.

Os investimentos em combustíveis fósseis são tão altos que os limites de aquecimento estabelecidos pelo Acordo de Paris naturalmente serão ultrapassados caso metas ousadas não sejam batidas nos próximos anos. “As fontes de energia poluentes ainda dominam a matriz energética das principais economias do mundo e isso é um grave problema no ano de 2017”, diz Jan Burck, da Germanwatch, organização não governamental que atua em mudanças climáticas, e um dos autores do estudo.

O Brasil tem 38% de renováveis na matriz, de longe o percentual mais elevado do G20, e uma política internacional de clima classificada como “boa” pelo relatório. Fomos, por exemplo, o primeiro grande país emergente a assumir uma meta absoluta de redução de emissões (NDC) no Acordo de Paris. A meta em si, porém, é considerada um esforço “médio” no objetivo geral de Paris, que é estabilizar o aquecimento da Terra em menos de 2º C acima da média pré-industrial. “Temos avanços, mas precisamos de metas maiores”, disse William Wills, coordenador técnico do CentroClima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e um dos coautores do estudo.

Os fósseis não apenas dominam a matriz energética como também drenam os recursos públicos das economias do G20, diz um segundo relatório, divulgado nesta quarta-feira pela Oil Change International. Os governos do G20 fornecem quatro vezes mais recursos a projetos de combustíveis fósseis do que para iniciativas de energia limpa, revelou o relatório Talk is cheap: How G20 governments are financing climate disaster. Significa que de todas as finanças públicas destinadas a projetos de energia, incluindo bancos de desenvolvimento, mais de US$ 71,8 bilhões anuais entre 2013 e 2015, ou 58%, se destinaram à produção de combustíveis fósseis; e apenas US $ 18,7 bilhões anuais (15%) a iniciativas de energia limpa.

Já não basta que os países do G20 estejam mais eficientes do ponto de vista energético: as economias avançaram 117% entre os anos de 1990 e 2014 e emissões de gases de efeito estufa, apenas 34% no período. Também não basta que a energia renovável siga em ascensão nas maiores economias do mundo: países do G20 já possuem 98% da capacidade instalada global de energia eólica, 97% da energia solar e 93% dos veículos elétricos. As emissões de gases de efeito estufa já não avançam em metade dos países do G20. “Ainda é pouco. Será preciso não só parar o financiamento aos combustíveis fósseis como interromper a queima das reservas nos campos de petróleo e gás. As potenciais emissões de carbono nos campos e minas que já operam no mundo todo são suficientes para elevar a temperatura acima dos 2°C”, diz Helena Wright, consultora de políticas da E3G, de Londres, grupo que defende uma transição acelerada e global para o desenvolvimento sustentável. Ela é uma das autoras do relatório da Oil Change.

Os subsídios à indústria fóssil serão um dos temas centrais da reunião do G20, em Hamburgo. A chanceler alemã Angela Merkel, anfitriã do encontro, pôs a mudança climática e a defesa do Acordo de Paris no topo da agenda, o que causará uma polarização com o presidente dos EUA, Donald Trump. A Alemanha chegou a propor um plano de ação específico do G20 para o clima, mas a ideia naufragou após pressão americana. Ainda é incerto como o comunicado do bloco abordará o assunto, mas há chance de que aconteça como no comunicado do G7, no qual os outros países destacam a importância do combate às emissões de carbono e os EUA registram sua posição em separado.

Paisagem brasileira

Alter do Chão - Pará - Brasil. Ótima praia para aproveitar o maravilhoso Rio Tapajós #Brazil
Alter do Chão, rio Tapajós (PA)

Guerra

Uso a palavra “guerra” com moderação, mas que outra palavra descreve o que estamos vivendo no Rio?

Memórias de guerra eram conversa comum na nossa casa quando minha irmã e eu éramos crianças. Meu avô serviu durante a Primeira Guerra, e meus pais chegaram ao Brasil quando a Segunda Guerra já ia praticamente pela metade. As lembranças do meu avô eram as típicas lembranças de um velho soldado: envolviam batalhas e mortes violentas, mas, atravessadas pelo espírito de aventura que move tantos rapazes em combate, eram paradoxalmente cheias de vida. As histórias dos meus pais, ao contrário, eram sombrias, e mesmo quando falavam dos que haviam sobrevivido, o seu leitmotif era a morte. Durante muitos anos li compulsivamente sobre essas duas guerras, suas causas e seus efeitos, que sentimos até hoje e sentiremos ainda durante muito tempo — tendo elas mesmas raízes tão longas na História.

Talvez por isso use a palavra “guerra” com certa moderação. Apesar de significar incontáveis tipos de luta, uma guerra ainda é, para mim, um conflito entre nações, entre etnias ou partidos políticos — uma ocorrência bem definida, que opõe grupos nitidamente diferenciados, aliados aqui, inimigos ali, com objetivos e ideologias distintos, cujas datas de começo e fim podem ser, pelo menos em linhas gerais, marcadas no calendário.

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Mas que outra palavra descreve o que estamos vivendo hoje no Rio?

Crianças baleadas nas escolas, mãe e filha abatidas no meio da rua, um porteiro atingido por uma granada, um bebê alvejado na barriga da mãe, homens e mulheres mortos por assaltantes ou por policiais, policiais mortos às dezenas, jovens pobres mortos às dúzias, mortos mortos mortos.

Em qualquer lugar que se proclame em paz, todo esse sangue derramado causaria uma crise nacional, com demissão e renúncia de autoridades, processos, investigações. Aqui, como em outras cidades sitiadas, as notícias caem como pedras na água, traçam alguns breves círculos de comoção e pronto, nunca mais se fala no assunto. Não há espaço, nem físico nem emocional, para discutir tantas tragédias; o cotidiano as absorve rapidamente, uma após a outra.
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Nas redes sociais, sucedem-se relatos: a moça que estava fazendo compras quando um arrastão invadiu a loja, a família que saiu do shopping e não encontrou o carro, pessoas que tiveram os celulares roubados e pedem que os amigos mandem novamente os contatos.Ninguém se dá mais ao trabalho de notificar assaltos em que não perde documentos: para quê? Mesmo assim, apenas em maio, de acordo com estatísticas divulgadas na semana passada pelo ISP, foram registrados 23.213 deles. São quase 800 por dia. Pela lógica perversa com a qual nos acostumamos, 800 pessoas que, apesar de tudo, respiraram aliviadas quando chegaram em casa porque, afinal, escaparam com vida.

Há alguns dias, bandidos renderam a empregada de um apartamento aqui perto e passaram a noite aterrorizando moradores do prédio. No Jardim Oceânico, já são seis invasões em um mês. Como ninguém morreu, a vida segue, pequenas notinhas registrando horas de pavor e traumas para todo o sempre.

Não há mais autoridades responsáveis. Não há mais autoridades. O prefeito viaja como se estivesse à frente de uma ilha de tranquilidade, o governador jogou a bola como se a sua consciência estivesse em paz e ele não tivesse nada a ver com a deterioração do estado. Não estão nem aí. Querem apenas o seu naco de poder, os seus carguinhos e as suas verbas, a sua parcela do nosso suor.

Os funcionários não recebem e, é claro, não pagam. As lojas quebram, os restaurantes fecham, os apartamentos ficam vazios com placas de “Vende-se” e “Aluga-se” desbotando nas janelas. Ninguém se dá mais ao trabalho de limpar ou de repintar as paredes pichadas, consertar as calçadas esburacadas ou os equipamentos quebrados.

A cidade segue seu rumo pela Lei da Inércia, sem dinheiro, sem projeto, sem futuro.

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Sérgio Cabral.

Não consigo definir Sérgio Cabral.

Há corrupção, e há Sérgio Cabral.

Há canalhas, e há Sérgio Cabral.
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Enquanto isso, em Brasília, Temer usa o seu tempo, custeado com os nossos impostos, para cuidar da sua permanência num cargo em que ninguém o quer mais. Ministros têm as agendas suspensas, e tudo para na capital de um país com 207,8 milhões de habitantes, só porque um bandido precisa provar para outros bandidos que não é tão bandido assim.

Chega, Temer.

Vaza.
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O Brasil já foi mais bonito e inocente. Há vestígios disso por toda a parte, mas recomendo muito a exposição do comovente trabalho de Chichico Alkmim, que pode ser vista no Instituto Moreira Salles. Chichico, que nasceu em 1886 e morreu em 1978, fotografou a cidade e o povo de Diamantina entre o começo e a metade do século passado. Seus retratos, realizados com visível afeto e com extraordinário rigor técnico, são especialmente tocantes. Os brasileiros que nos contemplam dessas antigas fotografias são aqueles de que falava Drummond quando descrevia a Minas Gerais da sua infância, os mesmos que povoam “Minha vida de menina”, de Helena Morley. São dignos e reservados, e estão conscientes da importância do momento, para o qual se arrumaram com esmero e puseram as suas roupas de domingo.

O catálogo da exposição, já nas livrarias, com excelentes textos de Eucanaã Ferraz, Pedro Karp Vasquez e Dayse Lúcide Silva Santos, é um daqueles livros que nos reconciliam com o país.

Cora Rónai

A desgraça em que se transformou o Rio e todo o Brasil

“Meu sentimento é de muita revolta. Estou me sentindo abandonado pelas autoridades. Não tem ninguém dando suporte. Quem está com a gente são os amigos. São eles que estão dando força, nos ajudando a tomar providências”. Este é o desabafo de Leandro Monteiro de Matos, de 39 anos, pai de Vanessa Vitória dos Santos, de 10 anos, morta com um tiro na cabeça nesta terça-feira (dia 4) durante um confronto entre policiais militares e bandidos no Complexo do Lins, Rio de Janeiro.

A outrora Cidade Maravilhosa e todo o país estão completamente perdidos e o povo brasileiro ao desamparo. As chamadas “autoridades” não passam de patifes-corruptos no cargo. Mas a Lei do Carma será implacável com todos eles. E apenas questão de tempo. Aqui se faz, aqui se paga.


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Nenhum deles chora por sua filha, Leandro. Nenhum deles procurou você e sua família e nem vai procurá-los. Nem a Igreja. Cadê o Cardeal Tempesta? Cadê o prefeito do Rio? Cadê o governador do Estado do Rio? Cadê o presidente do Brasil?

Essa gente não se sensibiliza com a tragédia, mesmo sendo responsáveis e culpados. O prefeito chegou dias atrás da Holanda e já voltou para a França, vizinha à Holanda. O presidente viajou para a Alemanha. O governador… bom, o governador nem se sabe onde anda, ou se ainda consegue andar. Pafifes.

Mencionei o cardeal porque ele, ao menos para o catolicismo, é a maior autoridade eclesiástica desta metrópole sanguinária e sangrenta que é o Rio de Janeiro. Mas nada é novidade. Anos atrás a menina Adrielly foi atingida com um tiro na cabeça no Méier, subúrbio do Rio.


Levada para o Hospital Municipal Salgado Filho, não pode ser operada porque o cirurgião doutor Adão faltou. Não estava no plantão. Transferida para o Hospital Municipal Souza Aguiar, a menina agonizou 11 dias no CTI e seus pais, também por 11 dias, permaneceram na porta do hospital. Quando chovia, se abrigavam na parte coberta. Todos os dias os noticiários das telefisões mostravam os dois sentadinhos na mureta do Souza Aguiar. Definharam, de tanto chorar. E ninguém foi até eles para levar carinho, amor e sustentação para suportar tamanha dor. No 11º dia Adrielly morreu. Também nenhuma autoridade foi ao enterro.

Enquanto tantas mortes, tanto sofrimento acontecem, o presidente Temer está comprando votos na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados para que a denúncia do Procurador-Geral Rodrigo Janot não seja aprovada.

Comprar votos não é crime eleitoral? Não importa se em pleitos eleitorais ou em escrutínios entre os já eleitos, empossados e no exercício do cargo. Tudo, enfim, é pleito, é votação. Ou se não for crime eleitoral, não é corrupção ativa? Não é concussão ( “exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida”)? Não é obstrução da Justiça?

Afinal, esta primeira denúncia do dr. Janot contra Temer é denúncia pela prática de crime comum. Foge do âmbito legislativo e é da competência do Judiciário, a ser julgado por sua expressão maior, que é a Suprema Corte, o STF.

Choram muitos e muitos outros pais e mães pelas mortes de seus pequenos filhos. Chora, Claudinéia! A bala atingiu você e se alojou no bebê, ainda dentro do seu ventre. Nem ainda tinha nascido, e já foi baleado! Chora o Rio, chora todo o povo brasileiro. É um choro de dor e de ódio.

Os chamados governantes são bisonhos. Mais que isso, são covardes. Mais que isso, são boçais. Mais que isso, são corrutos. E tudo isso junto.

Elefante oculto

Dizem alguns ser muito fácil ocultar-se um elefante em uma plantação de morangos - bastaria pintar as unhas dele de vermelho. Deve ser verdade, considerada a imensa quantidade de vezes que ficamos concentrados nos detalhes da vida nacional, em detrimento de uma visão mais ampla.

Vamos a um exemplo: nos idos de 1995, a dívida pública do Brasil ficava em 61 bilhões de Reais. Em 2007, já estava alcançando 1,3 trilhão de Reais. Chegou, em 2016, a espantosos 3,1 trilhões de Reais. E li, em publicação oficial recente, que ela já alcança 4,19 trilhões.

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Qual a consequência disso? Nos idos de 2006, quando a dívida era bem menor, fiz a seguinte conta: os recursos destinados no orçamento nacional para custear a Previdência Social, a Assistência Social, a Saúde, a Educação, o Trabalho, a Reforma Agrária, a Segurança Pública, o Urbanismo, a Habitação, os Direitos da Cidadania, o Desporto e Lazer, a Cultura e até o Saneamento, somados, davam R$ 317 bilhões - R$ 7,9 bilhões a menos do pagamos a título de juros naquele ano (R$ 325 bilhões).

Naqueles dias, calculava-se que 30% dos impostos pagos pelos brasileiros eram destinados ao pagamento de juros - desconsiderada a emissão de novos títulos para a denominada "rolagem". Perceba a extensão deste quadro: em um único ano (2008, quando a dívida pública era bem menor) o Brasil pagou de juros 5,35 vezes o que distribuiu aos seus famintos, via o "Bolsa-Família", nos cinco anos anteriores.

Avanço um pouco no tempo e chego a 2013, quando um relatório do FMI mostrou o gasto do Brasil com juros da dívida pública como o terceiro maior do mundo. A despesa brasileira, na época equivalente a 5,7% da renda nacional, só perdia para a da Grécia, mergulhada em séria crise financeira, e a do Líbano, vivendo um quadro de guerra civil. Recordo que daquela época para cá nossa dívida aumentou bastante!

Porém, pouco se discute este tema - preferimos tratar da eliminação de direitos e da implantação de reformas, ou seja, das unhas do elefante. Não temos percebido que nosso povo vive menos e pior por conta de uma queda na qualidade dos serviços públicos causada, em última análise, pela ânsia no gerar de um tal "superavit primário", meio legal para pagar mais e mais juros. Eis aí o elefante do cenário - este sim, merecedor de profundo debate.

Pedro Valls Feu Rosa

sexta-feira, 7 de julho de 2017

'Botafogo' na folha-seca

O noticiário tem pintado Rodrigo Maia como um Didi da política, o craque que joga parado. Sem se mexer, o presidente da Câmara estaria armando para suceder a Temer – e não só quando este vai ao exterior. Tirando o Botafogo, que um fez bicampeão e o outro imortalizou como apelido odebrechtiano, Didi e Maia têm pouco em comum. Elegância principesca só se aplica a um deles, por certo.

Nem por isso deve-se imaginar que “Botafogo” seja incapaz de um lance em profundidade. Filho de prefeito, primo de senador e genro de felino ministro-governador, Maia acabou de fazer 47 anos e já cumpre o quinto mandato consecutivo como deputado federal. Se não há mais bobo no futebol, imagine no Congresso. Ninguém galga duas vezes a presidência da Câmara por acaso.
Resultado de imagem para rodrigo maia com faixa chargeComo o antecessor de Maia no cargo provou, tampouco alguém permanece presidente da República por muito tempo sem a colaboração do presidente da Câmara. Quando o titular do Planalto está impopular e acuado, aí então é que o segundo da linha sucessória vira um árbitro de pelada. Pode marcar tantos impedimentos e pênaltis contra o potencial sucedido que inviabiliza seu governo. É só apitar na hora certa.

Imaginava-se que Maia iria praticar a lealdade que prega em relação a Temer por causa de Moreira Franco. O chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República é padrasto da atual mulher de Maia. Ou seja, o presidente da Câmara é genro do “genro do genro”. Explica-se: antes de ser apelidado de “Gato Angorá” por Brizola, Moreira Franco era conhecido por ser casado com a filha de Amaral Peixoto, que era genro de Getúlio Vargas. Nessa família, todos os casamentos levam à Presidência da República, mais cedo ou mais tarde.
Mas e a apregoada lealdade? Temer é vítima do próprio sucesso. Ao conseguir tirar aliados como o maleiro Rodrigo Rocha Loures da cadeia e evitar que seu algoz, Rodrigo Janot, emplacasse o sucessor na Procuradoria-Geral da República, o presidente fez com que os investigadores apressassem o passo e mudassem de tática. Voltaram os canos fumegantes ao entorno temerário.

A prisão de Geddel Vieira Lima não foi apenas a detenção de mais um ex-ministro, como já havia sido a de Henrique Eduardo Alves. Junto com Temer, Renan, Padilha e Barbalho, Geddel é sócio-fundador da Turma do Pudim – o grupo que substituiu o Clube do Poire no controle do PMDB após a morte de Ulysses Guimarães. Ele foi vice-líder de Temer e seu principal cabo eleitoral na eleição para presidente da Câmara, mais de duas décadas atrás.

Se Rocha Loures sabe muito sobre Temer desde 2011, o falante Geddel sabe quase tudo sobre o presidente desde 1995, ao menos. No roque da cadeia, Temer ganhou um peão, mas perdeu um cavalo.

As torres devem ter ficado ainda mais preocupadas. Eliseu Padilha e Moreira Franco garantem distância da margem oposta do Lago Sul de Brasília (para onde Geddel foi levado algemado), por sua inocência, é certo, mas também pelos gabinetes que ocupam no quarto andar do Palácio do Planalto. Calculavam que se manteriam seguros enquanto o presidente estivesse por lá. Hoje, caberia a eles perguntar: qual presidente?

Um que, ao se proteger, não os exponha ainda mais a risco. Temer ou Maia? De novo, Rodrigo Maia não é Didi, mas joga parado. Por sorte, parado é o estado que mais lhe convém. Temer tem pressa. Não quer repetir o erro de Dilma e esperar a oposição alcançar 372 votos para mandá-lo do Jaburu à praça Conde de Barcelos, ou pior. Quanto menos Maia se move, mais lentamente corre a denúncia contra Temer na Câmara, mais pressão se acumula contra o presidente. Não é uma folha-seca, mas pode dar em gol.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O monstro do desemprego

Indicadores econômicos informam que as empresas começaram a oferecer melhores salários iniciais, os chamados salários de admissão. Talvez seja das poucas boas notícias em nosso dramático cotidiano. São sinais de melhora da renda, mas não diminuição do desemprego, porque continuamos com 14 milhões de desempregados.

Temos insistido aqui na questão do desemprego. Este é a mais cruel consequência de uma economia de mercado e um imenso desperdício de recursos humanos de uma sociedade que se quer desenvolvida. Sem emprego, o homem perde sua inserção na sociedade, tem sua identidade desfigurada, seu núcleo familiar corroído. E, se a interdição ao trabalho for longa, ele pode perder suas qualificações.

Além das dramáticas consequências econômicas que fazem com que nações fiquem estagnadas ou retrocedam décadas, o desemprego costuma produzir consequências políticas. Uma crise longa pode levar um país a ficar seduzido por propostas messiânicas.

A mistura de inflação galopante, desemprego em massa, pagamento de indenizações vultosas e baixa autoestima permitiu o surgimento de uma personalidade como a de Hitler na Alemanha após a Primeira Guerra. Uma nação tão rica material e culturalmente não teria ficado hipnotizada por uma liderança como a dele senão estivesse vivendo uma situação sem precedentes.

Na outra ponta, como exemplo do bem, temos a figura de Franklin Delano Roosevelt, que assumiu a Presidência dos Estados Unidos quando 20% da força de trabalho estavam desempregados. Com seu New Deal, conseguiu reerguê-lo. Transformou-se num candidato presidencial imbatível, vencendo quatro eleições seguidas. FDR foi tão marcante que o próprio sistema americano modificou a Constituição para limitar a Presidência a apenas dois mandatos.


Pawel Kuczynski
Com as crises, surgem com frequência a sedução por propostas messiânicas ou o saudosismo de períodos autoritários do país, mesmo que a única motivação, ainda que não consciente, desses defensores seja a memória de tempos econômicos melhores.

Sabemos que nossa crise é mais política do que econômica. A grande dúvida é se o governo Temer, ou o que resta dele, será capaz de aprovar as reformas prometidas. Ninguém questiona a qualidade técnica da equipe econômica, mas a força de torná-las realidade.

Teme-se também a desmontagem dessa equipe após a mudança abrupta e indesejável ocorrida no BNDES.

O desemprego é mais cruel ainda num país como o nosso, sem rede de proteção social. Não temos saúde pública, a Previdência pública não funciona, a privada também não.

As teias de solidariedade do nosso tecido social se desmancham aos nossos olhos. A única rede de proteção do povo brasileiro é o trabalho, que impede o salário zero do desemprego.

O país precisa das reformas. O governo também. A da Previdência, economicamente, é a mais importante.

O desequilíbrio do custo médio das aposentadorias do setor público e do setor privado mostra de forma matemática e irrefutável que, se não houver participação integral do setor público na reforma, ela não existirá.

A questão da idade da aposentadoria é adereço irrelevante em comparação com essa macroquestão.

A reforma trabalhista é pesadelo recorrente. Getulio Vargas talvez tenha sido o mais importante presidente do país, mas parte do arcabouço trabalhista, que foi fundamental nos anos 30, tornou-se anacrônico hoje.

É inacreditável que, num momento que o mundo debate as consequências da internet e do comércio eletrônico no mercado de trabalho, estejamos ainda discutindo o fim do imposto sindical.

Caso não aprove as reformas, o governo terá ele mesmo dificuldades de se manter.

Luiz Roberto Nascimento Silva

Paisagem brasileira

Paisagem de Curitiba em 1890, Augusto Conte

Defesa de Temer mostra que ele ficou indefeso

Defendido na Câmara por Antonio Cláudio Mariz, um dos mais conceituados criminalistas do país, Michel Temer revelou-se na tarde desta quarta-feira um denunciado indefeso. Mariz gastou 98 folhas para se contrapor às 60 páginas da denúncia em que a Procuradoria-Geral da República acusa Temer de corrupção passiva. E o talento do advogado não conseguiu senão reforçar a conveniência de que a Câmara exerça a atribuição política de permitir que o Supremo Tribunal Federal cumpra a obrigação de analisar a consistência jurídica da peça acusatória.

Na denúncia assinada pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot, a acusação foi pintada com tintas fortes. O miolo da descrição menciona que Temer era o destinatário da mala com a propina de R$ 500 mil, repassada por intermédio do seu preposto Rodrigo Rocha Loures. Fala da aceitação de promessa de vantagem indevida. Coisa de R$ 38 milhões. Relaciona os pagamentos a um percentual de negócio envolvendo a Petrobras e o Cade, que beneficiaria uma empresa do grupo J&F, do delator Joesley Batista.


Sobre isso, o advogado de Temer empilha um lote de interrogações: Qual seria a eventual atuação do presidente da República que pudesse vir a favorecer os interesses das empresas de Joesley Batista? A que ato de ofício estaria vinculado esta atuação? Em que medida a atuação de Michel Temer representaria a contraprestação exigida pela descrição típica do crime de corrupção? Em que consistiria a solicitação ou o recebimento de vantagem indevida? Qual a unidade de desígnios e comunhão de ações entre Michel Temer e Rodrigo Loures? Onde está o indício de que os R$ 500 mil recebidos por Rodrigo Loures se destinariam a Michel Temer? Repita-se: acerca do dinheiro que a denúncia afirmou ter sido recebido por Rodrigo Loures com destino a Michel Temer, onde teria havido o recebimento do mencionado montante? De quem teria sido recebido? Quando teria recebido?”

Longe de contestar os indícios, as perguntas do advogado parecem realçar a conveniência do prosseguimento do processo. Mariz reclama da gravação que a perícia da Polícia Federal considerou íntegra. Alega que a peça é “duvidosa” e “ilegal”. Mas defende que seja levada a sério, pois não serviria de prova contra o presidente. Ora, a voz de Temer soa no áudio indicando Rocha Loures como seu preposto, uma espécie de resolvedor-geral dos problemas do empresário Joesley. Na sequência, o indicado do presidente foi pilhado em gravações nas quais negocia em seu nome. Depois, foi filmado correndo pelas ruas de São Paulo com a mala de dinheiro.

Como bom criminalista, o doutor Mariz faz o seu trabalho. Mas não ignora que, nesta fase do processo, os 11 magistrados que compõem o plenário do Supremo terão apenas de atestar a viabilidade técnica da denúncia da Procuradoria. Significa dizer que os ministros verificarão se a peça subscrita por Janot reúne indícios mínimos de envolvimento do acusado numa trama criminosa. E os indícios contra Temer são máximos. Assim, se os deputados permitirem, só restará à Suprema Corte homenagear a lógica e o bom senso abrindo uma ação penal para elucidar o caso.

O que apavora Temer é o fato de o início de uma ação desse tipo significar o fim do seu já moribundo governo. Aceita a denúncia, o presidente seria afastado por 180 dias. O Supremo ouviria testemunhas, determinaria diligências, encomendaria perícias, cotejaria as evidências e, ao final, julgaria Temer e Rocha Loures. Em tese, o presidente retornaria ao Planalto se o veredicto atestasse sua inocência. Na prática, essa hipótese é inexistente. Uma vez apeado do cargo, Temer só voltaria por um milagre. Por isso Antonio Mariz sugere à Câmara, com outras palavras, que tudo o que está na cara seja varrido para baixo do tapete com uma rejeição da denúncia.

O problema é que o Brasil continuaria a viver em cima do tapete. Algo perigoso, pois operações como a Lava Jato já demonstraram que não é mais tão fácil manter o acobertado em baixo do tapete. A sujeira acumulada ao redor de Temer vaza pelas bordas, reclamando por investigação e julgamento. De resto, a estratégia da defesa parte da presunção de que a plateia é feita de bobos.

No limbo dos acontecimentos

Nunca na história política do país as elites midiáticas estiveram tão rachadas. Nada de errado. É mais do que saudável que exista o contraditório, que existam opiniões diferentes. A unanimidade, como disse Nelson Rodrigues, é burra. Porém, em um país onde a grande mídia sempre olhou – quase sempre – para o mesmo lado, devemos observar o cenário com atenção.

O que explica o racha nas elites? A resposta é complexa. Não dá para esgotar o tema em um simples artigo. Conjunturalmente, parte da mídia se associa a um viés mais pronunciado em favor do ativismo judicial. Gosta de iniciativas como condução coercitiva, longas prisões temporárias, acordos de delação com validade de prova inconteste, entre outras. E apoia, também inconteste,o ativismo fundamentalista da República de Curitiba, muitas vezes sem refletir sobre seus exageros.

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Setores minoritários mas importantes da mídia trafegam na linha mais garantista. Um exemplo perfeito e acabado dessa posição se viu no editorial d’O Estado de S. Paulo que tachou de inepta a denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente Michel Temer. A Folha, como sempre, diversa, apresenta os contra e os favor. Mas os sites de ambos (G1 e Uol) trabalham na linha das manchetes escandalosas que podem acordar o internauta em meio à inundação provocada pelo excesso de informações.

Não cabe aqui fazer um juízo de valor sobre quem tem razão. Mas é certo dizer que a precisão da informação fica em risco quando o noticiário toma um lado que não é, necessariamente, o lado da verdade dos fatos.

Existe ainda outra hipótese para o racha: como a mídia se envolveu na campanha pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, alguns veículos carregam a pecha de golpistas. Então não poderia ser diferente com Temer, desde que exista um motivo. O problema é que uns veem esse motivo; outros, nem tanto.

Para onde vamos? É um prognóstico difícil. Poucos políticos e poucos governos resistem a uma desconstrução diária na mídia eletrônica. Todos os dias o governo Temer é “espancado” em horário nobre. Para quem não se interessa por detalhes, a mera exposição negativa já é uma tragédia.

Sem fatos novos as elites vão continuar divididas, tal como revelado nas avaliações reproduzidas pela TV Globo e pelo Estadão. Apenas fatos novos poderiam promover a unificação das narrativas, contra ou a favor de Temer. Quais seriam os fatos novos? Basicamente, evidências que comprovassem que as suspeitas e as ilações de Rodrigo Janot são verdadeiras ou falsas. Até lá, ficamos no limbo.

Nelson Rodrigues pode levar-nos a refletir sobre a unanimidade

Nelson Rodrigues está mais atual hoje do que ontem. A afirmação parece fora de propósito, mas há talentos que ganham maior vulto anos depois da morte de seu detentor. Nelson dizia com frequência que “toda unanimidade é burra” e que “quem pensa com unanimidade não precisa pensar”. Disse um monte de outras coisas – sobre futebol, teatro, política etc. Mas a frase aqui transcrita ganhou mais notoriedade em relação às outras. Até os que nada conhecem do jornalista, do cronista ou do teatrólogo, repetem-na em qualquer conversa, sobre qualquer assunto.

A célebre frase foi lembrada por meu irmão Luís Lara Resende, também jornalista, a propósito da unanimidade que se formou contra o presidente Temer. É claro que nem toda unanimidade é burra. Ela pode ser até mesmo inteligente. Com sua espiritual observação, o pernambucano, que deixou Recife aos 4 anos para viver e morrer aos 68 anos no Rio de Janeiro, em 1980, quis chamar a atenção para a múltipla diversidade do ser humano. Quis dizer que o livre pensar – aquilo que mais defendeu em sua vida – faz parte da natureza humana.

Agora, leitor, qualquer atitude do presidente, por mais desinteressada que seja, será julgada de maneira extremamente severa. Não bastam, pois, seus erros ou derrapadas. O que está em jogo é o futuro político de Michel Temer. E isso se agravou ainda mais depois da acusação raivosa que o procurador geral da República, Rodrigo Janot, encaminhou ao Supremo Tribunal Federal ou, mais precisamente, ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, confirmado no cargo com votação quase unânime. E, enquanto a pesada carga se despeja sobre Temer, Lula e seus companheiros vão distanciando-se dos holofotes da mídia de modo geral. Até parece que há algo combinado e que escapa, totalmente, a nossa percepção ou a nossa capacidade de analisar os fatos políticos ou outros que, em torno deles, nos desafiam.

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O provérbio “o caminho do inferno está palmilhado de boas intenções” se aplica ao presidente como uma luva. Ele convocou uma equipe econômica competente, mas isso não vale nada. Sua equipe política está cheia de denunciados na operação Lava Jato. Nada do que disser ou fizer, ainda que seja bom, será aceito por seus acusadores. É evidente que isso aconteceu porque Temer praticou atos realmente reprováveis. O “Carlos”, nos tristes versos de Carlos Drummond de Andrade, poderia ser o próprio Michel: Quando nasci, um anjo torto,/ desses que vivem na sombra,/ disse: vai, Michel, ser gauche na vida.

A absolvição do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, pela oitava Turma da 4ª Região do TRF, de Porto Alegre, num dos cinco processos que são movidos contra ele, todos conduzidos pelo juiz Sergio Moro, de quem tenho a melhor das impressões, levanta, senão uma dúvida, pelo menos uma intrigante hipótese: será que o ex-presidente Lula não poderá ter, em segunda instância, o mesmo destino de Vaccari?

Será que o destino ou, quem sabe, os demônios da política não estariam trabalhando, intensamente, e com a colaboração de outras forças, igualmente poderosas, para que se possa entregar o país outra vez àquele que não sabe de nada, mas, na verdade, sabe de tudo?

“Sei não!”, exclamou o amigo motorista de táxi na semana passada. E acrescentou: “Está tudo, no mínimo, muito estranho!”

Como disse o empresário mais “sortudo” do Brasil, Joesley Batista, Lula nunca teve com ele conversa não republicana…

Ou o melhor, leitor, é fingir que não sabemos de nada?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

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Fatos novos que reproduzem a marmota de sempre

A prisão de Geddel Vieira Lima é mais uma flechada no São Sebastião sangrado em que se transformou o governo Temer. Piora a situação, é evidente; mas, não constitui surpresa: o ex-ministro já antevia sua sorte e, ao que consta, tentava bloquear a Justiça. No Planalto, seu efeito máximo foi aumentar o temor pelos seus: a fila anda e o governo se preocupa com Eliseu Padilha e Wellington Moreira Franco, diz o Estadão.

Também a prisão de Jacob Barata Filho, no Rio de Janeiro, não implica em novidade: finalmente, a polícia chegou a um dos esquemas de corrupção mais manjados nos municípios, os transportes públicos. Como todos os setores que se envolvem com o Estado, este também começou a desmoronar. É mais um e é bom que assim seja. A questão é que esse processo parece não ter fim. No longo prazo, talvez, se construa o novo; o problema é que no presente só se vê o passado — um museu de grandes novidades que pode comprometer o futuro.

Com menos graça e inteligência que numa comédia, a conjuntura nacional pode ser comparada a um blockbuster americano, chamado ''O Feitiço do Tempo'' (ou ''O Dia da Marmota''). O filme, de 1993, retrata uma situação cômica em que o mesmo dia se reinicia a cada manhã; dezenas de vezes, cenas e situações se repetem e a confusão aumenta. Todavia, ao dar-se conta do fenômeno, o protagonista (Bill Murray) se ajusta, corrigindo as interações ao longo processo. Ao final, transforma-se num sujeito melhor e conquista o coração da mocinha (Andie MacDowell).

Já o Brasil de Geddéis e Baratas parece condenado à mesmice maldita mesmo: cenas de prisões e escândalos de corrupção se sucedem, como capítulos repetidos de uma novela que se arrasta. Os personagens insistem no velho enredo; a situação só piora. Desatento, o cidadão não percebe o feitiço que o domina: rostos mais ou menos conhecidos repetem desculpas, com sinais trocados; as condições gerais se deterioram. Nada de glamour hollywoodiano; trata-se de um filme B, de terror banal e sem fim.

Quando não é Eduardo Cunha, é Lúcio Funaro; quando não é Rodrigo Rocha Loures, é Henrique Eduardo Alves; quando não é o próprio Michel Temer, é Geddel Vieira Lima. Quando não é João Vaccari, é Antônio Palocci; quando não é Lula, é Aécio Neves. Todos enredados no roteiro que aos poucos ficou desinteressante. A polícia prende, os juízes liberam; a polícia torna a prender, novos prisioneiros ocupam as mesmas celas. Na infecção intestinal do país, prisões e solturas se alternam.

Sujeita à disposição dos protagonistas da política, a sociedade queda paralisada. À piora das condições fiscais e econômicas, se junta o agravamento de questões sociais: desemprego, endividamento, serviços públicos de péssima qualidade, violência rural e urbana; crianças baleadas no ventre da mãe. Ninguém sai às ruas — até porque não se acredita que resolvam; os movimentos de ontem mostraram que não tinham amanhã. O rancor da sociedade é, porém, guardado na geladeira para ser usado em outro momento.

Pesquisas divulgadas nos últimos dias demonstram que a desolação pode não ser um sentimento apenas estéril: ela evolui em revoltas subjetivas e protestos calados que somente mais tarde poderão explodir, se não nas ruas, nas urnas. Sem centro político, a polarização está posta. Oportunistas de qualquer canto e populistas de todos os matizes se movimentam pelo melhor lugar no grid de largada de 2018.

Na Câmara dos Deputados, como antenas, os parlamentares captam esse sentimento geral. Não o reproduzem como representantes da sociedade e, assim, tampouco se mobilizam pela solução do problema — à maioria falta estatura. Mas, se organizam em virtude do cenário que vislumbram: novas solturas e novas prisões; o labirinto sem saída; a fúria das ruas, o populismo e o oportunismo eleitoral. Correm recolher raspas e restos do governo; sugam o bagaço dos recursos. Acordos só os pontuais; amanhã tudo se repetirá. Os urubus pressentem a carniça.

Michel Temer não tem, desse modo, quem o defenda; há uma debandada em sua base. No pronunciamento que fez em sua defesa, o presidente atrasou o relógio à espera do público que não veio. Até os áulicos se escondem. Torce, assim, para manter meros 172 votos ou omissões suficientes apenas para que ganhe tempo, arrastando o jogo que não tem futuro. Mas, sabe que em três votações nominais, entremeadas por desgastes sucessivos, será difícil se segurar.

Dilma Rousseff repetiu Fernando Collor; a possibilidade de Temer seguir o destino de Dilma está posta. Se isto ocorrer, virá Rodrigo Maia e, depois dele, outro e possivelmente mais outro. O elenco de atores e personagens é limitado; sem renovação, o roteiro não evolui. Os protagonistas desse filme ainda não o compreenderam; não se corrigem, cometem os mesmos erros. Enquanto isto ocorrer, reproduzirão o mesmo dia e a mesma marmota.

Carlos Melo

Ruína de Temer é continuação de Lula e Dilma

Charge do dia 04/07/2017
A investigação que levou Geddel Vieira Lima para a cadeia envolve a Caixa Econômica Federal. Dinheiro do sacrossanto FGTS foi usado em empréstimos fraudulentos para empresas corruptas, entre elas a J&F do delator Joesley Batista. A encrenca que ameaça o mandato de Michel Temer é parte da roubalheira endêmica que transformou a rotina de Lula num tormento penal e levou a Presidência de Dilma ao abismo.

O PMDB da Câmara, coordenado por Michel Temer, aproximou-se do PT no segundo mandato de Lula. A exemplo do que já fazia o PMDB do Senado, de Renan Calheiros e José Sarney, o grupo de Temer plantou apadrinhados na máquina do Estado. Nessa época, Geddel virou ministro da Integração Nacional. Tocava a obra da Transposição do São Francisco.

No governo de Dilma, Geddel foi nomeado vice-presidente da área que lidava com empresas na Caixa Econômica. Eduardo Cunha nomeou um afilhado, Fábio Cleto, para a vice-presidência de loterias, FGTS e outras mumunhas. Hoje, Dilma silencia sobre a pilhagem. Lula diz em depoimento que não sabia. Temer faz pose de limpinho. E a plateia descobre o que Romero Jucá queria dizer quando declarou que era preciso estancar a sangria. Resta torcer para que a hemorragia seja levada às últimas consequências.

Em vídeo, Lula garante que Geddel é um exemplo a seguir

"Preso ex-ministro de Temer", noticiaram os grandes jornais nesta terça-feira. A informação é incompleta: Geddel Vieira Lima foi ministro-chefe da Secretaria de Governo do atual presidente, mas também foi ministro da Integração Nacional do governo Lula, entre 2007 e 2010, e vice-presidente da Caixa Econômica Federal de março de 2011 a dezembro de 2013, quando a presidente era Dilma Rousseff. Mais: a transferência para a gaiola ocorreu com o amigo Michel Temer alojado no Planalto. Mas as bandalheiras descobertas pela Polícia Federal foram praticadas no cargo que Geddel ganhou da amiga Dilma por ordem do amigo Lula, um entusiasta dos dotes administrativos do político baiano cuja gula por dinheiro lhe valeu o apelido de Jacaré.


Em 2010, ao saber que Geddel deixaria o primeiro escalão para ser surrado na disputa pelo governo da Bahia, Lula lamentou em vários comícios a perda irreparável. O vídeo acima registra um dos momentos da cerimônia do adeus a um servidor da nação. “Você foi um cumpridor de tarefa extraordinário”, derrama-se o orador de olhos postos no ministro que se vai. “E isso eu tenho ouvido não apenas da minha boca, que viajo com você, mas da companheira Dilma, que conviveu contigo”. Enquanto o motivo da choradeira retórica capricha na pose de estadista sertanejo, Lula contempla a plateia amestrada e segue em frente. “Eu disse ao Geddel outro dia: é uma pena que você deixa o governo, você poderia continuar no governo (…) pela grandeza do teu trabalho.

Não era pouca coisa. Mas não era tudo, informou a continuação do espetáculo da pieguice demagótica. “Eu acho que o Temer deveria pegar os deputados aqui, de todos os partidos, e levar pra ver algumas obras que estão acontecendo no Nordeste brasileiro, pra saber o que que tá acontecendo no Nordeste brasileiro”, viaja na redundância. Todas as obras tinham como parteiros o presidente e o ministro. Por exemplo, a transposição das águas do Rio São Francisco.“O canal da integração é uma obra que vocês vão perceber por que que Dom Pedro II queria fazer essa obra em 1847, e eu espero que até 2012 a gente conclua ela inteira. Então, Geddel, meus agradecimentos por todo o teu trabalho nesses três anos e meio de governo”.

Passados mais de sete anos, a promessa não desceu do palanque, o ministro insubstituível está na cadeia e o falastrão fantasiado de Pedro III tem sucessivos pesadelos que misturam celas, grades, catres e camburões com placas de Curitiba. Separados politicamente pelo impeachment, os dois prontuários ambulantes continuam atados por laços indissolúveis. Lutaram juntos pela institucionalização da corrupção impune, assaltaram juntos milhares de cofres públicos, conviveram fraternalmente na organização criminosa disfarçada de aliança partidária. Caso se reencontrem no mesmo pátio de presídio, Lula e Geddel imediatamente entenderão que nasceram um para o outro.

Só queria entender

A rigor, não tenho autoridade para criticar a Justiça, já que sou ignorante de suas leis e lógica — eu, a torcida do Flamengo e o porteiro de um prédio da minha rua. Portanto, não ouso discutir suas decisões, só queria entender algumas, até para poder explicá-las ao meu interlocutor matinal quando passo a caminho do calçadão, o porteiro. Temos discordâncias. Ele vivia repetindo que aqui a polícia prende, e a Justiça solta, e eu tentava convencê-lo de que esse Brasil não existia mais. Era aquele em que Millôr dizia: “a Justiça farda, mas não talha”. Hoje é diferente, eu garantia.

Outro dia, no entanto, ele declarou: “O senhor tem razão. Agora, ela mesma prende e ela mesma solta”. Levei alguns segundos para perceber a ironia. Ele se referia ao prende e solta da Justiça, às supremas razões que a razão dos pobres mortais da opinião pública desconhece. Eu mesmo não consigo explicar como e por que dois ministros do STF beneficiaram num mesmo dia dois políticos já denunciados na Lava-Jato — um, por ter sido flagrado carregando uma mala com R$ 500 mil de propina. O outro, senador afastado, por ter recebido R$ 2 milhões de um famoso corrupto-corruptor. O primeiro voltou para casa com tornozeleira; o segundo foi autorizado a retornar ao Senado com direito a elogio em sua carreira. Dias antes, o ex-tesoureiro de um partido teve revogada a condenação a 15 anos e quatro meses decretada pelo juiz Sergio Moro. Anteontem, o ex-ministro e “fraterno amigo” do presidente que teria recebido R$ 20 milhões indevidos foi finalmente preso, não se sabe até quando.


Para não dizer que o entra e sai da cadeia só acontece com políticos, há o caso do médico especialista em reprodução humana e em estupro, um crime que praticou 47 vezes em 37 pacientes. Condenado a 278 anos de reclusão, cumpriu pouco mais de quatro meses e foi solto pelo habeas corpus de um juiz do STF. Aí fugiu para o Paraguai, de onde veio deportado quatro anos depois. Esteve no presídio de Tremembé de 2013 até há pouco, foi solto e uma semana depois preso novamente. Agora aguarda um novo habeas corpus.

A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, prometeu que a Corte “não vai ignorar o clamor por justiça que se ouve em todos os cantos do país”. Maravilha. Mas tomara que não ignore também o clamor por mais concisão e clareza nas doutas decisões, a começar pela linguagem. Por exemplo, ao justificar uma ordem de soltura, um magistrado escreveu: “À luz das atuais circunstâncias, se depreende mitigada a possibilidade da reiteração delitiva”. Desconfio que o autor quis dizer algo como “No momento, não há risco de novo delito”. Simples assim.

Zuenir Ventura

Gente fora do mapa

rain

O espanto e a maravilha

Nunca antes neste país tivemos um presidente denunciado criminalmente em pleno mandato. É um espanto. E está longe de ser o único no Brasil de hoje.

Temer deveria ter sido cassado em abril, mas o TSE alegou precisar de tempo para examinar as novas provas. No mês passado, o tribunal decidiu que não aceitaria as provas que tinham sido a razão do adiamento — uma cara de pau espantosa, mesmo em um país cujas autoridades têm na cara de pau um modo de vida — e o absolveu.

A denúncia contra o presidente não é menos espantosa do que aquilo que a motivou: Temer recebeu (em sua casa, tarde da noite, à sorrelfa) um empresário sabidamente investigado pela polícia, ouviu-o confessar crimes sem esboçar reação e o orientou a procurar um deputado “de sua inteira confiança”, deputado esse visto, em seguida, a correr pelas ruas com uma mala de dinheiro entregue pelo empresário.

Apesar disso tudo, o presidente, espantosamente, recusa-se a renunciar. E uma espantosa quantidade de gente continua a apoiá-lo para evitar um “mal maior”.

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Alguns defendem a permanência de Temer em nome da estabilidade. O presidente, denunciado, pode ser afastado a qualquer momento. Em breve, será denunciado de novo. E de novo. Funaro e Rocha Loures provavelmente delatarão Temer, Cunha avisou que vai delatar, e Geddel acaba de ser preso. Um projeto de impeachment tramita na Câmara. O STF logo revisará a decisão do TSE, com possibilidade concreta de cassar o presidente.

O desemprego está em 14 milhões. Os EUA suspenderam a importação de carne do Brasil. É quase impossível que o governo consiga aprovar a Reforma da Previdência. Inoperante, o governo tem chance real de não cumprir o orçamento. Temer tornou-se uma figura patética, cujo único interesse é manter-se no cargo para escapar, junto com seus apaniguados, à Justiça. E falam em estabilidade. É um espanto.

Outros defendem Temer porque têm medo de Lula ser eleito presidente — no caso de afastamento de Temer, a eleição será indireta, mas têm medo assim mesmo. Ainda que, por milagre (será necessário emendar a Constituição e desrespeitar todos os prazos regimentais), haja eleições diretas, Lula, seis vezes denunciado — em breve, condenado —, está no auge da rejeição: é um espanto alguém achar que possa se eleger em condições assim.

Só que Lula, apoiado por gente supostamente inteligente e bem informada, é, no momento, o primeiro em intenções de voto — e isso constitui o espanto insuperável: se, mesmo sabendo tudo o que sabemos a esta altura, formos capazes de eleger Lula, é melhor vir logo o dilúvio, pois só ele nos redimirá.

O Brasil de hoje é um tal exercício de surrealismo que temos um deputado federal que, de dia, ajuda a criar, na Câmara, a legislação que determina que ele próprio, de noite, durma na cadeia... e ninguém se espanta.

Ricardo Rangel

Quem deseja um político presidiário?

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O cadeado da cela se abre. É hora de despachar com assessores, assinar decretos, liberar recursos para uma obra e, é claro, acertar, durante o horário de visita, estratégias para destruir provas e dificultar o andamento da investigação que provocou a decretação de sua prisão.

Essa situação lhe parece absurda?

Pois não é! Trata-se da realidade brasileira que permite que um político preso mantenha o mandato, o salário e todos os benefícios do cargo, seja ele um vereador, prefeito, governador, deputado ou senador.

O mercado de votos no Congresso do Brasil

Existe a impressão de que o que mais importa para os deputados do Congresso não é se o presidente Temer deve ou não ser julgado por corrupção, e sim o preço material de cada voto.

E o que mais choca é que esse mercado não é escondido nem camuflado. Ao contrário, é discutido à luz do dia. Os deputados interrogados pela imprensa não dizem que estão ou não em dúvida sobre a culpabilidade de Temer e que será isso o que decidirá seu voto. Alegam motivos muito mais frugais.

A Folha de S. Paulo escreve, por exemplo, que alguns parlamentares estão indecisos se votam a favor ou contra o processo contra Temer devido à insatisfação com nomeações não cumpridas ou com emendas parlamentares com pagamentos atrasados. Outros dizem que ainda não decidiram seu voto porque esperam conhecer a reação de seus colégios eleitorais ou das redes sociais. Que Temer seja ou não culpado parece despertar pouco interesse entre eles.

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O curioso e triste é que Temer conhece como ninguém esse mercado escancarado no Congresso. Por isso, parece menos preocupado em defender sua inocência – e convencer os congressistas de que não é corrupto – do que em identificar, uma a uma, as “insatisfações” dos indecisos para subir o preço da oferta.

Chegou a hora do comércio descarado de votos, algo bem parecido com o que vimos com o impeachment de Dilma, quando o ex-presidente Lula jogou suas cartas, em um hotel em Brasília, para “convencer” os senadores a salvar a mandatária. Também naquela ocasião, a culpabilidade ou não de Dilma contou menos na hora de votar do que os ganhos pessoais presentes ou futuros.

Não é preciso ter muita formação para que as pessoas nas ruas entendam que esse mercado de votos, em momentos tão cruciais e decisivos para a democracia e o futuro do país, é no mínimo indecente. Com a possível nova incriminação do senador Collor, seriam já cinco ex-presidentes da República com problemas na Justiça desde a redemocratização. Um número alto e perigoso demais para uma democracia ainda jovem como a brasileira.

O que fazer? Essa é a pergunta do milhão, feita até pelos analistas políticos mais independentes. Enquanto isso, o Brasil chora e se desespera, incrédulo, com a bala que atravessou o bebê ainda no ventre de uma mulher no Rio, metáfora de uma cidade que é símbolo, ao mesmo tempo, de um país que parece naufragar perseguido pelos fantasmas da corrupção de seus políticos e da aparente indiferença das pessoas, que preferem ficar em suas casas vendo os touros da janela a sair às ruas para expressar sua indignação.

Os corruptos agradecem.