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| Canoa em repouso na Lagoa de Marapendi, Barra da Tijuca (RJ), 1949, Armando Leite |
terça-feira, 20 de junho de 2017
Paisagem brasileira
Educação tutelada
Ao decidir pelo recolhimento de um livro que continha um conto considerado “inadequado” para crianças de 7 anos de idade, o Ministério da Educação (MEC) se expõe a três grandes críticas: exercício de censura, conhecimento duvidoso sobre a função pedagógica dos contos tradicionais e suspeita a respeito do real valor dos diplomas de professor que o órgão valida.
O MEC alega que não fez censura, apenas descobriu, após a denúncia de alguns pais, que o texto, por tratar de incesto, seria inadequado para crianças de 7 anos. Não se discute aqui o mérito da obra – mesmo porque se trata de ficção popular, não literária. Mas o tema – um dos poucos tabus ainda remanescentes em nosso mundo pós-moderno – em pouco difere das violências nada sutis que caracterizam esse gênero: crianças abandonadas pelos pais, bruxas que transformam arbitrariamente sapos em príncipes e príncipes em sapos, pretendentes à princesa que são decapitados sumariamente se não acertarem as adivinhas do rei. E é muito menos pernicioso do que assistir às incestuosas relações que se desenrolam aos nossos olhos nas antecâmaras do poder envolvendo os setores público e privado e, aparentemente, os próprios Poderes entre si.
A justificativa para recolher os livros baseou-se em pareceres internos do próprio Ministério da Educação – não houve debate com especialistas. Esse parecer revela desconhecimento da psicologia infantil e da função pedagógica dos contos populares. Crianças em todo o mundo tipicamente se maravilham por esse gênero entre os 3 anos e os 6 anos de idade – pelo menos desde Rudolf Steiner isso está bem estabelecido. Aqui reside a essência da questão, e convém aprofundar. Sejam os adeptos das interpretações psicanalíticas de Bruno Bettelheim, sejam os que acompanham os estudos de pesquisadores como Maria Tatar, condenar essa obra como inadequada em razão da idade das crianças é condenar todos os contos populares. Estes constituem um importante instrumento de amadurecimento emocional e cognitivo das crianças – especialmente entre os 3 anos e os 6 anos de idade, faixa etária em que seus critérios de decisão operam no branco e preto e suas certezas são maiores do que suas dúvidas.
A estrutura começa com o “era uma vez” abrindo espaço para imaginar e fugir do real. Os personagens são simples, consistentes e predizíveis, desempenham papéis sociais conhecidos, são estereotipados e não têm identidade pessoal. O enredo é tipicamente denso e violento e oferece oportunidades únicas para ajudar as crianças a refletir sobre temas universais como o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. O final, quase sempre feliz, reflete a aspiração de que um dia a justiça será feita.
Já o final infeliz reflete o princípio da realidade e pode causar tristeza ou indignação, mas não chega a causar surpresa à maioria das crianças. A transformação de princesa em bruxa ou em criada, ou do sapo em príncipe e vice-versa, reflete a arbitrariedade da nossa condição. Mas basta uma varinha mágica para reverter a ordem estabelecida. O medo, o terror, a arbitrariedade que antecedem a resolução do conflito ajudam a criança a sentir na pele e refletir sobre sua própria realidade – povoada de gigantes que tolhem a sua liberdade e impedem o exercício de sua curiosidade ilimitada e, na sua perspectiva, agem quase sempre de maneira arbitrária. Como agora o faz o MEC.
Cabe à família e à escola ensinar as crianças a lidar com o mundo como ele é – evitando, quando possível, que a criança sofra danos nesse processo. O maior antídoto contra a violência é enfrentá-la, ainda que com a ajuda da literatura. Mas se o MEC tiver razão, cabe a ele sustentar, com argumentos sólidos e num debate público com professores experientes e estudiosos do ramo, a idade para a qual o livro ora censurado seria recomendável.
Resta examinar a pergunta que não consegue calar: o Ministério da Educação desconfia que os professores não são capazes nem de escolher livros – por isso ele os escolhe – nem de calibrar a sua dosagem e interpretação? A suspeita possivelmente é fundada, mas se for confirmada o rei fica nu. Ou o MEC assume que os professores são competentes e delega a eles decisões pedagógicas importantes, ou, então, reconhece que não o são, que precisam ser tutelados e que os diplomas que ele valida são questionáveis.
Diante de tal situação, existem três saídas, sendo as duas primeiras inviáveis na prática. Uma delas consistiria em reconvocar os professores para recomeçar do zero uma formação adequada, a outra seria substituir os que não estiverem à altura do desafio e a terceira consistiria em assumir as deficiências como parte da realidade e usar estratégias comprovadamente eficazes para lidar com esse tipo de situação.
Voltamos, assim, ao ponto de partida. A censura se deu porque o MEC inventou um programa que não precisaria existir, mas que, ao existir, envolveu a escolha centralizada de leituras e, assim, colocou o Ministério na posição de censor. O problema, portanto, ocorreu porque, no lugar de promover políticas públicas que assegurem a melhoria da educação, o MEC opta por se envolver em ações emergenciais – projetos de curto fôlego e impacto zero. O próprio ministro Mendonça Filho reconheceu isso no início de sua gestão. Portanto, a causa maior do problema reside no próprio Ministério da Educação e na sua forma de entender o seu papel.
Mas ninguém tem coragem de reconhecer esses fatos e dar nome aos bois. Em vez de intervir no varejo e exercitar o poder de tutela, não seria mais interessante para o País que o governo central se concentrasse em estabelecer políticas que garantissem escolas e professores que possam atuar com autonomia em suas decisões pedagógicas?
João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto
O MEC alega que não fez censura, apenas descobriu, após a denúncia de alguns pais, que o texto, por tratar de incesto, seria inadequado para crianças de 7 anos. Não se discute aqui o mérito da obra – mesmo porque se trata de ficção popular, não literária. Mas o tema – um dos poucos tabus ainda remanescentes em nosso mundo pós-moderno – em pouco difere das violências nada sutis que caracterizam esse gênero: crianças abandonadas pelos pais, bruxas que transformam arbitrariamente sapos em príncipes e príncipes em sapos, pretendentes à princesa que são decapitados sumariamente se não acertarem as adivinhas do rei. E é muito menos pernicioso do que assistir às incestuosas relações que se desenrolam aos nossos olhos nas antecâmaras do poder envolvendo os setores público e privado e, aparentemente, os próprios Poderes entre si.

A justificativa para recolher os livros baseou-se em pareceres internos do próprio Ministério da Educação – não houve debate com especialistas. Esse parecer revela desconhecimento da psicologia infantil e da função pedagógica dos contos populares. Crianças em todo o mundo tipicamente se maravilham por esse gênero entre os 3 anos e os 6 anos de idade – pelo menos desde Rudolf Steiner isso está bem estabelecido. Aqui reside a essência da questão, e convém aprofundar. Sejam os adeptos das interpretações psicanalíticas de Bruno Bettelheim, sejam os que acompanham os estudos de pesquisadores como Maria Tatar, condenar essa obra como inadequada em razão da idade das crianças é condenar todos os contos populares. Estes constituem um importante instrumento de amadurecimento emocional e cognitivo das crianças – especialmente entre os 3 anos e os 6 anos de idade, faixa etária em que seus critérios de decisão operam no branco e preto e suas certezas são maiores do que suas dúvidas.
A estrutura começa com o “era uma vez” abrindo espaço para imaginar e fugir do real. Os personagens são simples, consistentes e predizíveis, desempenham papéis sociais conhecidos, são estereotipados e não têm identidade pessoal. O enredo é tipicamente denso e violento e oferece oportunidades únicas para ajudar as crianças a refletir sobre temas universais como o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. O final, quase sempre feliz, reflete a aspiração de que um dia a justiça será feita.
Já o final infeliz reflete o princípio da realidade e pode causar tristeza ou indignação, mas não chega a causar surpresa à maioria das crianças. A transformação de princesa em bruxa ou em criada, ou do sapo em príncipe e vice-versa, reflete a arbitrariedade da nossa condição. Mas basta uma varinha mágica para reverter a ordem estabelecida. O medo, o terror, a arbitrariedade que antecedem a resolução do conflito ajudam a criança a sentir na pele e refletir sobre sua própria realidade – povoada de gigantes que tolhem a sua liberdade e impedem o exercício de sua curiosidade ilimitada e, na sua perspectiva, agem quase sempre de maneira arbitrária. Como agora o faz o MEC.
Cabe à família e à escola ensinar as crianças a lidar com o mundo como ele é – evitando, quando possível, que a criança sofra danos nesse processo. O maior antídoto contra a violência é enfrentá-la, ainda que com a ajuda da literatura. Mas se o MEC tiver razão, cabe a ele sustentar, com argumentos sólidos e num debate público com professores experientes e estudiosos do ramo, a idade para a qual o livro ora censurado seria recomendável.
Resta examinar a pergunta que não consegue calar: o Ministério da Educação desconfia que os professores não são capazes nem de escolher livros – por isso ele os escolhe – nem de calibrar a sua dosagem e interpretação? A suspeita possivelmente é fundada, mas se for confirmada o rei fica nu. Ou o MEC assume que os professores são competentes e delega a eles decisões pedagógicas importantes, ou, então, reconhece que não o são, que precisam ser tutelados e que os diplomas que ele valida são questionáveis.
Diante de tal situação, existem três saídas, sendo as duas primeiras inviáveis na prática. Uma delas consistiria em reconvocar os professores para recomeçar do zero uma formação adequada, a outra seria substituir os que não estiverem à altura do desafio e a terceira consistiria em assumir as deficiências como parte da realidade e usar estratégias comprovadamente eficazes para lidar com esse tipo de situação.
Voltamos, assim, ao ponto de partida. A censura se deu porque o MEC inventou um programa que não precisaria existir, mas que, ao existir, envolveu a escolha centralizada de leituras e, assim, colocou o Ministério na posição de censor. O problema, portanto, ocorreu porque, no lugar de promover políticas públicas que assegurem a melhoria da educação, o MEC opta por se envolver em ações emergenciais – projetos de curto fôlego e impacto zero. O próprio ministro Mendonça Filho reconheceu isso no início de sua gestão. Portanto, a causa maior do problema reside no próprio Ministério da Educação e na sua forma de entender o seu papel.
Mas ninguém tem coragem de reconhecer esses fatos e dar nome aos bois. Em vez de intervir no varejo e exercitar o poder de tutela, não seria mais interessante para o País que o governo central se concentrasse em estabelecer políticas que garantissem escolas e professores que possam atuar com autonomia em suas decisões pedagógicas?
João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto
A força enfraquecida no Brasil
Mas, ao mesmo tempo, vemos que os cidadãos se mobilizam quando há algo que eles julgam importantes, mas em ações mais pontuais, não mais em grandes ideologias gerais. Por exemplo, se você é ecologista, você vai se engajar neste campo, ou no campo do feminismo, do casamento gay, e as pessoas vão se engajar nestes temas. Antes era direita e esquerda, capitalismo ou socialismo. Nas grandes ideologias, as pessoas não acreditam muito mais. Elas querem coisas mais pragmáticas.

Então, isso criou um novo tipo de relação com a política e que, acho, deve nos levar a repensar os meios para melhorar o mundo. Porque se não é mais a política que tem a força de mudar o mundo, então o que seria? E eu acho que uma das grandes forças que deve fazê-lo é a educação.
Gilles Lipovetsky, autor de "Era do Vazio" e "O Império do Efêmero"
Meirelles mostra otimismo, mas equipe teme bondades do Planalto
Como convém ao cargo, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anda propagandeando pelas redes sociais os bons indicadores da economia. Tenta usar números que sugerem a retomada da atividade como contraponto ao péssimo momento político vivido pelo país. Meirelles está imbuído da missão de manter a percepção de que, por meio de uma política econômica responsável, a confiança de consumidores, empresários e investidores se mantém intacta.
O ministro pode até obter algum resultado na sua empreitada. Mas, antes de tentar conquistar corações e mentes da população em geral, deveria conter a onda de insegurança que ronda a sua equipe. Nos bastidores, vários técnicos vêm se perguntando até que ponto o governo está disposto a manter o compromisso com o ajuste fiscal. Nos últimos dias, o presidente Michel Temer deu sinais claros de que está disposto a recorrer a um pacote de bondades para garantir sua sobrevivência.
Na avaliação dos técnicos, não é recomendável para um governo que conseguiu reconstruir a credibilidade da política econômica com a promessa de um ajuste fiscal consistente ficar indicando que pode abrir os cofres para atender pleitos de aliados políticos. É enorme a limitação do Tesouro Nacional para cumprir todos os seus compromissos sem que o deficit primário previsto para este ano não ultrapasse o teto de R$ 139 bilhões. O risco de o rombo ser maior é bastante alto.
As promessas são muitas. Vão da correção da tabela do Imposto da Renda à repactuação de dívidas de estados num total de R$ 50 bilhões. Os técnicos reconhecem que algumas das bondades preparadas pelo governo são compreensíveis, mas não deveriam ser aventadas agora, quando ainda se está pavimentando o caminho para o equilíbrio das contas públicas. “Estamos muito longe de dizer que o ajuste fiscal está consolidado. Ainda vamos ter rombo fiscal por vários anos”, diz um dos técnicos. “O quadro está tão complicado que, em vez de se recuperar, a arrecadação está caindo”, emenda.
A expectativa da equipe econômica é de que as bondades alardeadas pelo governo fiquem na promessa. “Primeiro, porque, se tiradas do papel, não agregarão nada à economia. Segundo, porque não há espaço no Orçamento para estripulias”, assinala outro integrante da equipe econômica. Para ele, o governo deveria concentrar esforços a fim de aprovar as reformas trabalhista e da Previdência Social com um discurso de austeridade. É isso que manterá a confiança dos agentes econômicos.
Os técnicos destacam ainda que os bons números comemorados pelo governo não garantem uma recuperação concreta da atividade. São apenas sinais positivos. Em abril, o varejo e o setor de serviços cresceram 1%, já a indústria avançou 0,6%. Apesar desses indicadores, a maior parte dos especialistas acredita que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre será negativo. Não se pode esquecer, segundo eles, que a economia praticamente parou da segunda metade de maio em diante, quando o país tomou conhecimento das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo JBS.
Portanto, neste momento, a tal retomada é muito mais desejo do que realidade concreta. O ideal é que o governo mantenha a responsabilidade fiscal, pois essa será a maior garantia aos agentes econômicos de que não há espaço para retrocessos no ajuste fiscal. “Credibilidade é tudo neste momento. Vejam: a inflação está caindo e os juros, também. Mesmo que de forma desigual, a economia está reagindo. Não podemos abrir mão disso”, ressalta um ministro.
Ele acredita que, ao longo dos próximos meses, provavelmente até agosto, a inflação acumulada em 12 meses ficará bem próxima de 2%. “Teremos deflação em junho e, provavelmente, em julho, por causa da queda dos preços dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica. Isso obrigará o Banco Central a manter o corte de juros em um ponto percentual”, acredita.
Responsabilidade, porém, é tudo. Foram as maluquices de Dilma Rousseff quando presidente da República, na condução da política econômica, que empurraram o Brasil para a mais profunda recessão da história e desempregaram 14 milhões de pessoas. Esse filme, no entanto, ninguém quer mais ver. A hora é de virar o jogo. E isso requer muito juízo.
O ministro pode até obter algum resultado na sua empreitada. Mas, antes de tentar conquistar corações e mentes da população em geral, deveria conter a onda de insegurança que ronda a sua equipe. Nos bastidores, vários técnicos vêm se perguntando até que ponto o governo está disposto a manter o compromisso com o ajuste fiscal. Nos últimos dias, o presidente Michel Temer deu sinais claros de que está disposto a recorrer a um pacote de bondades para garantir sua sobrevivência.
Na avaliação dos técnicos, não é recomendável para um governo que conseguiu reconstruir a credibilidade da política econômica com a promessa de um ajuste fiscal consistente ficar indicando que pode abrir os cofres para atender pleitos de aliados políticos. É enorme a limitação do Tesouro Nacional para cumprir todos os seus compromissos sem que o deficit primário previsto para este ano não ultrapasse o teto de R$ 139 bilhões. O risco de o rombo ser maior é bastante alto.
As promessas são muitas. Vão da correção da tabela do Imposto da Renda à repactuação de dívidas de estados num total de R$ 50 bilhões. Os técnicos reconhecem que algumas das bondades preparadas pelo governo são compreensíveis, mas não deveriam ser aventadas agora, quando ainda se está pavimentando o caminho para o equilíbrio das contas públicas. “Estamos muito longe de dizer que o ajuste fiscal está consolidado. Ainda vamos ter rombo fiscal por vários anos”, diz um dos técnicos. “O quadro está tão complicado que, em vez de se recuperar, a arrecadação está caindo”, emenda.
A expectativa da equipe econômica é de que as bondades alardeadas pelo governo fiquem na promessa. “Primeiro, porque, se tiradas do papel, não agregarão nada à economia. Segundo, porque não há espaço no Orçamento para estripulias”, assinala outro integrante da equipe econômica. Para ele, o governo deveria concentrar esforços a fim de aprovar as reformas trabalhista e da Previdência Social com um discurso de austeridade. É isso que manterá a confiança dos agentes econômicos.
Os técnicos destacam ainda que os bons números comemorados pelo governo não garantem uma recuperação concreta da atividade. São apenas sinais positivos. Em abril, o varejo e o setor de serviços cresceram 1%, já a indústria avançou 0,6%. Apesar desses indicadores, a maior parte dos especialistas acredita que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre será negativo. Não se pode esquecer, segundo eles, que a economia praticamente parou da segunda metade de maio em diante, quando o país tomou conhecimento das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo JBS.
Portanto, neste momento, a tal retomada é muito mais desejo do que realidade concreta. O ideal é que o governo mantenha a responsabilidade fiscal, pois essa será a maior garantia aos agentes econômicos de que não há espaço para retrocessos no ajuste fiscal. “Credibilidade é tudo neste momento. Vejam: a inflação está caindo e os juros, também. Mesmo que de forma desigual, a economia está reagindo. Não podemos abrir mão disso”, ressalta um ministro.
Ele acredita que, ao longo dos próximos meses, provavelmente até agosto, a inflação acumulada em 12 meses ficará bem próxima de 2%. “Teremos deflação em junho e, provavelmente, em julho, por causa da queda dos preços dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica. Isso obrigará o Banco Central a manter o corte de juros em um ponto percentual”, acredita.
Responsabilidade, porém, é tudo. Foram as maluquices de Dilma Rousseff quando presidente da República, na condução da política econômica, que empurraram o Brasil para a mais profunda recessão da história e desempregaram 14 milhões de pessoas. Esse filme, no entanto, ninguém quer mais ver. A hora é de virar o jogo. E isso requer muito juízo.
Quem deve a Lula
Nélson Rodrigues, o Sófocles do subúrbio carioca, enchia a boca para dizer que “toda unanimidade é burra”. Poucas unanimidades sobreviveram à guerra das torcidas organizadas da rapina pública desde que Nélson saiu de fininho da vida para virar gênio da dramaturgia na paz do Senhor. Mas ainda há verdades tão óbvias que seduzem as multidões a ponto de arrancarem um gemidinho de gol perdido das galeras ensandecidas nas arquibancadas. Agora, por exemplo, o presidente Michel Temer, embarcado para a Noruega e a Rússia para fingir que governa, é uma quase unanimidade nacional. Poucos, muito poucos brasileiros, ainda apostam um centavo nele. E o fazem no melhor da boa-fé. Acreditam que ruim com ele, muito pior sem ele. Nunca ninguém vai tirar a prova dos nove nessa questão de última aposta contra a crise, porque a diaba continuará de qualquer jeito e quem não puder muito não se salvará nela.
Alguns velhos cínicos, como o autor destas notas, acha que a grande maioria deve até ter uma antipatia congênita, pois o macróbio de Tietê não desperta apreço nem simpatia de ninguém com seu estilo mesoclítico e sua mentalidade neolítica. Meu amigo Mauro Guimarães, caipira de Bebedouro, costumava dizer que nunca é de bom alvitre desprezar a pré-racionalidade do povo. Acredito nessa máxima e faço fé de que mais do que a antipatia congênita, a voz estridente e os apostos em sequência enervante em nada influem no desgosto popular quanto ao primeiro mandatário. O povo apenas não se esquece, como este autor e mais alguns, de que Sua Excelência é apenas um acólito do esquema que, ao juntar PT, PMDB, outros partidecos e a oposição graúda do PSDB, paga com propina para não ir até o fundo das coisas, sob a égide de Luiz Inácio Lula da Silva, não deixando moeda sobre moeda nos cofres de Viúva.
Outra quase unanimidade, apadrinhado por Lula e recebido em segredo por Temer no Palácio do Jaburu, que o povo mantém para ele morar com a mulher e o filhinho temporão, é o bamba do abate de bois Joesley Batista. Poucos, muito poucos brasileiros, apenas o suficiente para não entrar na definição de burrice do autor de O Boca de Ouro, comprariam uma bicicleta usada do moço de Anápolis, embora consumam muitos produtos que suas empresas fabricam e vendem em supermercados – da coalhada da Vigor à costela da Friboi. É essa equação que Mauro chamava de “pré-racionalidade”. Não convém desconhecê-la abusivamente.
Atualmente essas duas referências nacionais da quase unanimidade contra disputam no ringue do MMA da política o cinturão do desagrado amplo, geral e irrestrito. Tudo indica que, por mais que lutem, ambos nunca escaparão do empate, assim como um lance de dados jamais abolirá o acaso, de acordo com o preceito mallarmaico. Todo brasileiro com mais de cinco anos, se não sabia, desconfiava de que o Batistinha é bandido de marca. Mas nunca foi um bandido NOSSO, que merecesse o perdão marxista do historiador britânico Eric Hobsbawn, como o célebre Robin Wood e o menos conhecido Ned Kelly. Joesley está mais para aqueles bandoleiros medíocres catalogados por Jorge Luís Borges em seu clássico dos clássicos da realidade tornada ficção História Universal da Infâmia.
Joesley é um bandidinho DELES – Lula, Dilma, Temer e Aecinho. Está sempre disposto a dar uma esmola pedida de bilhões, desde que ganhe mais bilhões em negócios da China patrocinados pelo desatento contribuinte traído. Michel Temer, seu recente desafeto, sabia disso. Tanto sabia que achou um bom redator para resumir a história de sucesso do bamba do abate que virou o papa da propina numa nota oficial que seus assessores prepararam para desmascarar o Billy the Kid do pequi.
Faço questão de reproduzir o texto, porque é exemplar em bile e síntese. “Em 2005, o Grupo JBS obteve seu primeiro financiamento no BNDES. Dois anos depois, alcançou um faturamento de R$ 4 bilhões. Em 2016, o faturamento das empresas da família Batista chegou a R$ 183 bilhões. Relação construída com governos do passado, muito antes que o presidente Michel Temer chegasse ao Palácio do Planalto. Toda essa história de ‘sucesso’ é preservada nos depoimentos e nas entrevistas do senhor Joesley Batista.” No primeiro parágrafo descreveu-se o malfeito, como diria a Doidinha Dilma, de quem Temer foi desprezado vice. No segundo, foram lembrados os artífices, quais sejam, “os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo, as conversas realmente comprometedoras com os sicários que o acompanhavam, os grandes tentáculos da organização criminosa que ele ajudou a forjar ficam em segundo plano, estrategicamente protegidos”.
É desnecessário perguntar que falha de memória impediu que o chefe do governo abrisse os porões do palácio para recebê-lo, ouvi-lo e até, de certa forma sutil, como é seu hábito, estimulá-lo. Mas importante é deixar registrado que ambos conheciam bem um ao outro e suas origens para dividirem aquela conversa “nada republicana”. Como Joesley repetiu, imitando com seu idioleto próximo do português o que falava Márcio Thomaz Bastos, professor de Lula em republicanismo.
O que nos interessa saber aqui é algo mais relevante e mais urgente: por que os agentes federais, os procuradores públicos de Brasília e o seriíssimo ministro Fachin não tiveram a curiosidade de perguntar como foi possível obrar aquele milagre citado no primeiro parágrafo da nota de Temer? O editor-chefe da revista Época, Diego Escosteguy, que chefia uma briosa equipe de repórteres investigadores e entrevistou o corsário dos abatedouros, foi um pouquinho, bem pouquinho, além. Até perguntou. Mas se contentou com vagas respostas. Sim, quem deu o dinheiro foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Não diga! Mas não, o doutor Luciano Coutinho nunca levou um mísero tostãozinho de recompensa, vulgo propina, por isso. E Lula, chefão do professor? Com esse aí Joesley teve duas conversinhas, mas elas foram bem republicanas. Terá sido sobre futebol, sexo ou cachaça? Não é mesmo fabuloso?
Então, é o caso de esclarecer algumas coisinhas. Primeiro, a Polícia Federal não é um monólito de republicanismo, como a definia o citado ex-ministro da Justiça do padim Lula. Não: a PF é uma areia radiativa que contamina adversários dos senhores de suas diversas facções: os petistas de Paulo Lacerda, os tucanos de Marcelo Itagiba, as viúvas de Tuma e por aí afora. Isso não é necessariamente mau. É até bom, pode crer, caro leitor. É dessa fragmentação que emerge o conhecimento que temos dos podres poderes nacionais, levantados por operações como a Castelo da Areia, dissolvida por Bastos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), e a Lava Jato, que continua, impávido colosso, a assombrar políticos de todos os partidos que só não a enxugaram ainda por causa da idolatria que o povo lhe devota.
Quanto aos procuradores-gerais da República, é útil lembrar que Roberto Gurgel poupou o chefão do Partido dos Trabalhadores (PT), que o ungiu no alto cargo, nos libelos acusatórios do celebérrimo mensalão. E Rodrigo Janot teve cobrada sua ingratidão em telefonema desse mesmo Lula a Jaques Wagner. Terá chegado agora a hora da gratidão, quando seus subordinados não levaram em conta o dinheiro público que enriqueceu os irmãos Batista, tornando-os os maiores produtores de proteína animal do mundo? Pode ser que sim, pode ser que não. Novos fatos o dirão…
O prêmio máximo obtido pelos bilionários da JBS recebeu ainda o beneplácito homologatório do relator da Lava Jato no STF, ministro Luiz Edson Fachin. Este empreendeu longa e árdua batalha para ser aprovado pelo Senado para o lugar que Dilma lhe reservou no Supremo. Teve a seu lado o braço amigo de Ricardo Saud, um dos delatores premiados dos bambas do abate. E acólitos caros e solícitos pagos pelo Erário e emprestados por obra e graça de madama, cuja campanha apoiou às claras.
Pode ser que seja tudo mera coincidência. Mas quanta coincidência há em logo Lula ser credor de todos eles de uma forma ou de outra, não é?

Outra quase unanimidade, apadrinhado por Lula e recebido em segredo por Temer no Palácio do Jaburu, que o povo mantém para ele morar com a mulher e o filhinho temporão, é o bamba do abate de bois Joesley Batista. Poucos, muito poucos brasileiros, apenas o suficiente para não entrar na definição de burrice do autor de O Boca de Ouro, comprariam uma bicicleta usada do moço de Anápolis, embora consumam muitos produtos que suas empresas fabricam e vendem em supermercados – da coalhada da Vigor à costela da Friboi. É essa equação que Mauro chamava de “pré-racionalidade”. Não convém desconhecê-la abusivamente.
Atualmente essas duas referências nacionais da quase unanimidade contra disputam no ringue do MMA da política o cinturão do desagrado amplo, geral e irrestrito. Tudo indica que, por mais que lutem, ambos nunca escaparão do empate, assim como um lance de dados jamais abolirá o acaso, de acordo com o preceito mallarmaico. Todo brasileiro com mais de cinco anos, se não sabia, desconfiava de que o Batistinha é bandido de marca. Mas nunca foi um bandido NOSSO, que merecesse o perdão marxista do historiador britânico Eric Hobsbawn, como o célebre Robin Wood e o menos conhecido Ned Kelly. Joesley está mais para aqueles bandoleiros medíocres catalogados por Jorge Luís Borges em seu clássico dos clássicos da realidade tornada ficção História Universal da Infâmia.
Joesley é um bandidinho DELES – Lula, Dilma, Temer e Aecinho. Está sempre disposto a dar uma esmola pedida de bilhões, desde que ganhe mais bilhões em negócios da China patrocinados pelo desatento contribuinte traído. Michel Temer, seu recente desafeto, sabia disso. Tanto sabia que achou um bom redator para resumir a história de sucesso do bamba do abate que virou o papa da propina numa nota oficial que seus assessores prepararam para desmascarar o Billy the Kid do pequi.
Faço questão de reproduzir o texto, porque é exemplar em bile e síntese. “Em 2005, o Grupo JBS obteve seu primeiro financiamento no BNDES. Dois anos depois, alcançou um faturamento de R$ 4 bilhões. Em 2016, o faturamento das empresas da família Batista chegou a R$ 183 bilhões. Relação construída com governos do passado, muito antes que o presidente Michel Temer chegasse ao Palácio do Planalto. Toda essa história de ‘sucesso’ é preservada nos depoimentos e nas entrevistas do senhor Joesley Batista.” No primeiro parágrafo descreveu-se o malfeito, como diria a Doidinha Dilma, de quem Temer foi desprezado vice. No segundo, foram lembrados os artífices, quais sejam, “os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo, as conversas realmente comprometedoras com os sicários que o acompanhavam, os grandes tentáculos da organização criminosa que ele ajudou a forjar ficam em segundo plano, estrategicamente protegidos”.
É desnecessário perguntar que falha de memória impediu que o chefe do governo abrisse os porões do palácio para recebê-lo, ouvi-lo e até, de certa forma sutil, como é seu hábito, estimulá-lo. Mas importante é deixar registrado que ambos conheciam bem um ao outro e suas origens para dividirem aquela conversa “nada republicana”. Como Joesley repetiu, imitando com seu idioleto próximo do português o que falava Márcio Thomaz Bastos, professor de Lula em republicanismo.
O que nos interessa saber aqui é algo mais relevante e mais urgente: por que os agentes federais, os procuradores públicos de Brasília e o seriíssimo ministro Fachin não tiveram a curiosidade de perguntar como foi possível obrar aquele milagre citado no primeiro parágrafo da nota de Temer? O editor-chefe da revista Época, Diego Escosteguy, que chefia uma briosa equipe de repórteres investigadores e entrevistou o corsário dos abatedouros, foi um pouquinho, bem pouquinho, além. Até perguntou. Mas se contentou com vagas respostas. Sim, quem deu o dinheiro foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Não diga! Mas não, o doutor Luciano Coutinho nunca levou um mísero tostãozinho de recompensa, vulgo propina, por isso. E Lula, chefão do professor? Com esse aí Joesley teve duas conversinhas, mas elas foram bem republicanas. Terá sido sobre futebol, sexo ou cachaça? Não é mesmo fabuloso?
Então, é o caso de esclarecer algumas coisinhas. Primeiro, a Polícia Federal não é um monólito de republicanismo, como a definia o citado ex-ministro da Justiça do padim Lula. Não: a PF é uma areia radiativa que contamina adversários dos senhores de suas diversas facções: os petistas de Paulo Lacerda, os tucanos de Marcelo Itagiba, as viúvas de Tuma e por aí afora. Isso não é necessariamente mau. É até bom, pode crer, caro leitor. É dessa fragmentação que emerge o conhecimento que temos dos podres poderes nacionais, levantados por operações como a Castelo da Areia, dissolvida por Bastos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), e a Lava Jato, que continua, impávido colosso, a assombrar políticos de todos os partidos que só não a enxugaram ainda por causa da idolatria que o povo lhe devota.
Quanto aos procuradores-gerais da República, é útil lembrar que Roberto Gurgel poupou o chefão do Partido dos Trabalhadores (PT), que o ungiu no alto cargo, nos libelos acusatórios do celebérrimo mensalão. E Rodrigo Janot teve cobrada sua ingratidão em telefonema desse mesmo Lula a Jaques Wagner. Terá chegado agora a hora da gratidão, quando seus subordinados não levaram em conta o dinheiro público que enriqueceu os irmãos Batista, tornando-os os maiores produtores de proteína animal do mundo? Pode ser que sim, pode ser que não. Novos fatos o dirão…
O prêmio máximo obtido pelos bilionários da JBS recebeu ainda o beneplácito homologatório do relator da Lava Jato no STF, ministro Luiz Edson Fachin. Este empreendeu longa e árdua batalha para ser aprovado pelo Senado para o lugar que Dilma lhe reservou no Supremo. Teve a seu lado o braço amigo de Ricardo Saud, um dos delatores premiados dos bambas do abate. E acólitos caros e solícitos pagos pelo Erário e emprestados por obra e graça de madama, cuja campanha apoiou às claras.
Pode ser que seja tudo mera coincidência. Mas quanta coincidência há em logo Lula ser credor de todos eles de uma forma ou de outra, não é?
À espera do fato novo
O ex-deputado Ulysses Guimarães, presidente nos anos 80 do século passado do PMDB, da Câmara e da Assembleia Nacional Constituinte, costumava chamar de “Vossa Excelência” o fato político relevante. "Com a palavra, Vossa Excelência, o Fato", dizia Ulysses. E ensinava:
- O fato é tão ou mais importante do que qualquer autoridade que mereça ser chamada de Vossa Excelência. Um fato só pode ser revogado por um fato novo. Que, por sua vez, só pode ser revogado por um fato consumado.
No momento, “Sua Excelência, O Fato” é o estado de fraqueza de Michel Temer atingido há mais de um mês pela delação do empresário Joesley Batista, dono do Grupo JBS, e a gravação da conversa travada entre os dois no porão do Palácio do Jaburu, em Brasília.
Temer sangra desde então, e só se mantém no cargo porque a crise econômica descolou-se da crise política, e nenhum partido se considera apto para enfrentar a eleição repentina de um novo presidente. Todos os partidos, inclusiva o PT, preferem eleição em 2017, como manda a lei.
Isso não significa, todavia, que Temer completará o mandato herdado de Dilma ou subtraído dela. Um fato novo não só pode revogar o fato anterior, como também agravá-lo. E é à espera de um novo fato que a República tem respirado nas últimas semanas, e respirará as próximas.
Só quem tem conhecimento prévio das cartas a serem postas na mesa são a Polícia Federal e o Ministério Público. Quem mais participa do jogo fica no escuro até o surgimento das primeiras pistas sobre as cartas que receberá. Aí mal dá tempo para refletir sobre o que fazer em seguida.
Derrubar Dilma foi tarefa mais fácil do que derrubar Temer. Primeiro porque ela afundou o país na maior recessão econômica de sua história. Segundo porque perdeu o apoio do Congresso. Terceiro porque a crise econômica e a política caminhavam juntas.
Por menos que tenha melhorado, a situação econômica melhorou. Entre os aspirantes à sucessão de Temer, nenhum dá sinais de que pretenda dar uma guinada de 180 graus na condução da atual política econômica. Se Temer cair amanhã, o ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, não cairá.
O chamado “mercado” já se convenceu disso. Portanto, para ele, que muito importa nas decisões dos políticos, não fará diferença se Temer ficar ou se sair. Ninguém alimenta mais esperança de que as reformas avancem como se desejava. Poderão ficar para depois.
A sorte de Temer, pois, só depende dele. Somente ele sabe o que fez ou o que deixou de fazer, o que está para ser descoberto e o que jamais será. Os dias por vir serão assim.
- O fato é tão ou mais importante do que qualquer autoridade que mereça ser chamada de Vossa Excelência. Um fato só pode ser revogado por um fato novo. Que, por sua vez, só pode ser revogado por um fato consumado.
No momento, “Sua Excelência, O Fato” é o estado de fraqueza de Michel Temer atingido há mais de um mês pela delação do empresário Joesley Batista, dono do Grupo JBS, e a gravação da conversa travada entre os dois no porão do Palácio do Jaburu, em Brasília.
Isso não significa, todavia, que Temer completará o mandato herdado de Dilma ou subtraído dela. Um fato novo não só pode revogar o fato anterior, como também agravá-lo. E é à espera de um novo fato que a República tem respirado nas últimas semanas, e respirará as próximas.
Só quem tem conhecimento prévio das cartas a serem postas na mesa são a Polícia Federal e o Ministério Público. Quem mais participa do jogo fica no escuro até o surgimento das primeiras pistas sobre as cartas que receberá. Aí mal dá tempo para refletir sobre o que fazer em seguida.
Derrubar Dilma foi tarefa mais fácil do que derrubar Temer. Primeiro porque ela afundou o país na maior recessão econômica de sua história. Segundo porque perdeu o apoio do Congresso. Terceiro porque a crise econômica e a política caminhavam juntas.
Por menos que tenha melhorado, a situação econômica melhorou. Entre os aspirantes à sucessão de Temer, nenhum dá sinais de que pretenda dar uma guinada de 180 graus na condução da atual política econômica. Se Temer cair amanhã, o ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, não cairá.
O chamado “mercado” já se convenceu disso. Portanto, para ele, que muito importa nas decisões dos políticos, não fará diferença se Temer ficar ou se sair. Ninguém alimenta mais esperança de que as reformas avancem como se desejava. Poderão ficar para depois.
A sorte de Temer, pois, só depende dele. Somente ele sabe o que fez ou o que deixou de fazer, o que está para ser descoberto e o que jamais será. Os dias por vir serão assim.
Quem é o chefão?
I
Lula se encontrou com Temer
No mato ali por detrás:
Foram acertar as contas
(Quem sabe a hora é que faz),
Pra saber quem é o chefe
E qual dos dois roubou mais.
II
Estavam os dois chateados
Com Joesley e com Janot:
São muitas contradições
Na voz de quem declarou
E agora ninguém sabe
Quem foi o que mais roubou.
Joesley disse que Temer
Comanda a operação,
A tropa de Curitiba
Teve logo uma reação
E diz que o dedo de Lula
Comandou o Petrolão.
IV
-Lula sempre foi o chefe -,
Disse o Doutor Lavajato.
Foi chefe do mensalão,
Comprando voto e mandato,
E incriminou Zé Dirceu
Pra ele pagar o pato.
V
- Aquele sítio e o tríplex
São só uma tapeação.
Passaram o rodo na terra,
Que secaram a plantação;
Pobre, quando vê comida,
Se acaba no rubacão!
VI
O filósofo João Caiti
Disse na Rua do Cancão
Que o esquema funcionou
Numa grande organização:
Com o chefe principal,
Cada um tinha uma função.
VII
Lula mandava no topo,
José Dirceu na canhota,
Temer ia pela direita
E o resto da patota
Fazia a distribuição
Daquele monte de nota.
VIII
Pelo lado dos tucanos
De São Paulo até Campina
José Serra, Aécio Neves,
A turma da Dudalina
Passaram a ser conhecidos
Como os chatos da propina.
IX
Depois que José Dirceu
Se lascou no mensalão,
Palocci tornou-se o príncipe
E juntou mais de um trilhão,
Chegou a pensar em ser
O Poderoso Chefão.
X
Mantega, com cara de morto,
Discursava pro povão,
Dizendo que o PT
Ia salvar a Nação,
Enquanto a turma dos bancos
Na grana passava a mão.
XI
Lula e Temer lá no mato
Começaram a cochichar;
Chico de Tozinho enchia
De aveloz um caçuá
Quando ouviu esta proposta
Que os dois estavam a gestar:
- Vamos dizer que foi Dilma,
Que ela é doida e vai gostar!
Lula se encontrou com Temer
No mato ali por detrás:
Foram acertar as contas
(Quem sabe a hora é que faz),
Pra saber quem é o chefe
E qual dos dois roubou mais.
II
Estavam os dois chateados
Com Joesley e com Janot:
São muitas contradições
Na voz de quem declarou
E agora ninguém sabe
Quem foi o que mais roubou.
Joesley disse que Temer
Comanda a operação,
A tropa de Curitiba
Teve logo uma reação
E diz que o dedo de Lula
Comandou o Petrolão.
IV
-Lula sempre foi o chefe -,
Disse o Doutor Lavajato.
Foi chefe do mensalão,
Comprando voto e mandato,
E incriminou Zé Dirceu
Pra ele pagar o pato.
V
- Aquele sítio e o tríplex
São só uma tapeação.
Passaram o rodo na terra,
Que secaram a plantação;
Pobre, quando vê comida,
Se acaba no rubacão!
VI
O filósofo João Caiti
Disse na Rua do Cancão
Que o esquema funcionou
Numa grande organização:
Com o chefe principal,
Cada um tinha uma função.
VII
Lula mandava no topo,
José Dirceu na canhota,
Temer ia pela direita
E o resto da patota
Fazia a distribuição
Daquele monte de nota.
VIII
Pelo lado dos tucanos
De São Paulo até Campina
José Serra, Aécio Neves,
A turma da Dudalina
Passaram a ser conhecidos
Como os chatos da propina.
IX
Depois que José Dirceu
Se lascou no mensalão,
Palocci tornou-se o príncipe
E juntou mais de um trilhão,
Chegou a pensar em ser
O Poderoso Chefão.
X
Mantega, com cara de morto,
Discursava pro povão,
Dizendo que o PT
Ia salvar a Nação,
Enquanto a turma dos bancos
Na grana passava a mão.
XI
Lula e Temer lá no mato
Começaram a cochichar;
Chico de Tozinho enchia
De aveloz um caçuá
Quando ouviu esta proposta
Que os dois estavam a gestar:
- Vamos dizer que foi Dilma,
Que ela é doida e vai gostar!
O Brasil precisa de mais do que a Lava Jato
Felizmente chegou à pauta do dia a preocupação de que no Brasil a vida está reduzida às denúncias, às investigações e às delações premiadas, com seus respectivos abusos, idas e voltas. Denuncia-se tudo e todos. Denuncia-se com ou sem critério, em nome de interesses nacionais ou outros os mais diversos, muitas vezes irresponsavelmente, sem se levar em conta a reputação, a história e os compromissos de denunciados. Denunciam-se também bandalhos históricos, políticos vagabundos e enganadores, empresários forjados e que cresceram na corrupção, membros (ainda) do Executivo e do Judiciário que merecem o cerco em que estão vivendo.
Nessa tarefa têm colaborado segmentos da imprensa, da sociedade e das mídias sociais, que dão volume a um esquema de propagação de suspeitas às vezes criadas, mas também de fatos reais, que têm operado a revelação e a demolição de prósperas quadrilhas justamente alcançadas. As investigações empreendidas pela Polícia Federal, base dos processos dos quais se serve o Ministério Público para suas denúncias, ganharam o apoio de tecnologias que lhe permitem rebuscar a vida dos investigados desde seu batismo; não fosse a exposição midiática do processamento dessas investigações, estas seriam perfeitas. Show à parte, a PF é a ponta célere do conjunto da ópera, abreviando os resultados que se pretendem.
Em recente palestra feita pelo polêmico ministro Gilmar Mendes em Recife, no Grupo de Líderes Empresariais, esse realçou sua preocupação, como membro do STF, com a postura de membros do Ministério Público e da magistratura, levantando duras críticas à falta de objetividade na identificação do que deveria ser investigado.
Longe a pretensão de se nivelar com a mesma régua, a do ministro Gilmar Mendes, especialmente, tudo que se produziu nos últimos anos em termos da histórica responsabilização criminal de elevado número de gestores públicos, diretores de empresas estatais, políticos com mandatos no Legislativo e no Executivo – a Lava Jato é uma de nossas mais significativas conquistas históricas –, o país precisa encontrar uma saída para voltar ao desenvolvimento, à produção, ao emprego.
Estamos falidos, gravitando unicamente em torno dessa operação, que se deve avançar sem limites em seus resultados, não pode se transformar em nossa única esperança. Somos mais. O Brasil não pode esperar o fim da Lava Jato para empreender sua tão necessária agenda de reformas.
Nessa tarefa têm colaborado segmentos da imprensa, da sociedade e das mídias sociais, que dão volume a um esquema de propagação de suspeitas às vezes criadas, mas também de fatos reais, que têm operado a revelação e a demolição de prósperas quadrilhas justamente alcançadas. As investigações empreendidas pela Polícia Federal, base dos processos dos quais se serve o Ministério Público para suas denúncias, ganharam o apoio de tecnologias que lhe permitem rebuscar a vida dos investigados desde seu batismo; não fosse a exposição midiática do processamento dessas investigações, estas seriam perfeitas. Show à parte, a PF é a ponta célere do conjunto da ópera, abreviando os resultados que se pretendem.
Em recente palestra feita pelo polêmico ministro Gilmar Mendes em Recife, no Grupo de Líderes Empresariais, esse realçou sua preocupação, como membro do STF, com a postura de membros do Ministério Público e da magistratura, levantando duras críticas à falta de objetividade na identificação do que deveria ser investigado.
Longe a pretensão de se nivelar com a mesma régua, a do ministro Gilmar Mendes, especialmente, tudo que se produziu nos últimos anos em termos da histórica responsabilização criminal de elevado número de gestores públicos, diretores de empresas estatais, políticos com mandatos no Legislativo e no Executivo – a Lava Jato é uma de nossas mais significativas conquistas históricas –, o país precisa encontrar uma saída para voltar ao desenvolvimento, à produção, ao emprego.
Estamos falidos, gravitando unicamente em torno dessa operação, que se deve avançar sem limites em seus resultados, não pode se transformar em nossa única esperança. Somos mais. O Brasil não pode esperar o fim da Lava Jato para empreender sua tão necessária agenda de reformas.
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Memória e vergonha
Já lá se vai meio ano. 6 meses a se somarem aos últimos 4 jogados fora. Padecemos da maldição de Sísifo. Continuamos condenados a reviver a mesma história, as vezes com personagens novos, sem, entretanto, nada completar, nada conseguir, nada mudar.
Depois de tanto tempo, de tanta repetição, é perfeitamente compreensível que estejamos cansados. Que nossos ouvidos já estejam calejados. Que os olhos já se acostumaram. Que tenhamos aceitado destino aparentemente inevitável da agonia sem fim.
O distinto público não consegue mais apontar a diferença entre os membros da cleptocracia que assola a sociedade, o governo, as instituições. Parece tudo igual. E talvez seja mesmo.
Optamos pela mediocridade. Ninguém mais acredita dá para consertar. Agora ou no futuro previsível. Preferimos a estabilidade reservada aqueles que não sonham. Se despiorar, tudo bem. Não sonhamos. Não desejamos muito. Acreditamos em nada.
Os sonhos morreram sem foguete, reparo ou bilhete, luar ou violão. Apenas morreram. O sofrimento ficou sem sentido. Não mais construímos pontes. Acreditamos ser trabalhoso e inútil. Preferimos pinguelas, mesmo que claramente podres. Precariedade faz tempo não ser motivo de incomodo.
E quando assistimos o previsível e esperado colapso da pinguela, ficamos atônitos. Sem razão. Surpresa, seria que uma pinguela fosse conexão satisfatória entre o presente e um futuro mais digno.
Esquecemos nada. Aprendemos nada. E de alguma maneira esperamos que as coisas melhores pelas mãos dos mesmos líderes que comandaram o ataque aos cofres, a dignidade de todos e a cidadania. Lembramos de tudo claramente. E aprendemos nada.
Memoria não nos falta. Vergonha, por outro lado, está em falta. E desaparecendo rapidamente.
Elton Simões
Depois de tanto tempo, de tanta repetição, é perfeitamente compreensível que estejamos cansados. Que nossos ouvidos já estejam calejados. Que os olhos já se acostumaram. Que tenhamos aceitado destino aparentemente inevitável da agonia sem fim.
O distinto público não consegue mais apontar a diferença entre os membros da cleptocracia que assola a sociedade, o governo, as instituições. Parece tudo igual. E talvez seja mesmo.
Optamos pela mediocridade. Ninguém mais acredita dá para consertar. Agora ou no futuro previsível. Preferimos a estabilidade reservada aqueles que não sonham. Se despiorar, tudo bem. Não sonhamos. Não desejamos muito. Acreditamos em nada.

E quando assistimos o previsível e esperado colapso da pinguela, ficamos atônitos. Sem razão. Surpresa, seria que uma pinguela fosse conexão satisfatória entre o presente e um futuro mais digno.
Esquecemos nada. Aprendemos nada. E de alguma maneira esperamos que as coisas melhores pelas mãos dos mesmos líderes que comandaram o ataque aos cofres, a dignidade de todos e a cidadania. Lembramos de tudo claramente. E aprendemos nada.
Memoria não nos falta. Vergonha, por outro lado, está em falta. E desaparecendo rapidamente.
Elton Simões
Hora de desligar aparelhos
Nas gravações divulgadas, Lula foi o primeiro a articular uma reação, criticando os procuradores, confrontando Sérgio Moro, politizando ao máximo a luta ao que chama de República de Curitiba. Lula tentou articular uma reação. Ele percebeu que todo o sistema politico partidário poderia ruir. Não conseguiu avançar. Havia a possibilidade do impeachment, e o tema da luta contra a Lava-Jato caiu para segundo plano.

Num outro compartimento, as gravações de Sérgio Machado mostram a cúpula do PMDB tramando para deter as investigações. Nas intervenções de Romero Jucá fica claro que a expectativa era deter a sangria. Mas ao mesmo tempo era preciso derrubar o PT. Possivelmente, julgavam-se mais capazes, uma vez no poder, de realizar o sonho de preservação do sistema.
As intervenções de Aécio Neves, presidente do PSDB, são mais ambíguas. Aécio não assumia publicamente que era contra a Lava-Jato. No entanto, articulava leis para neutralizá-la, seja pela anistia ao caixa dois ou pela Lei de Abuso de Autoridade. No terceiro ano da Lava-Jato, Aécio é gravado tratando de dinheiro com Joesley Batista, um empresário, por boas razões, investigado em várias frentes.
A resistência do velho sistema foi se esfacelando até encontrar, agora em Temer, o último general, com uma tropa de veteranos da batalha de Eduardo Cunha, como o deputado José Carlos Marin. É um presidente impopular que se escora apenas na cativante palavra estabilidade. A mesma que Gilmar Mendes utiliza ao absolver a chapa Dilma-Temer diante de provas que o relator Herman Benjamin classificou de oceânicas.
Que diabo de estabilidade é essa? O Tribunal Superior Eleitoral, num espetáculo caro aos cofres públicos, perdeu toda a credibilidade. Mas mesmo ali, julgando um fato passado, a Lava-Jato estava em jogo. Não só porque desprezaram provas da Odebrecht.
O ministro Napoleão Nunes mostrou-se um bravo soldado do sistema em agonia. Referindo-se aos seus delatores, falou na ira do profeta passando a mão pelo pescoço, como se fosse decapitá-los. Num mesmo espetáculo, soterram provas contundentes, e um deles se comporta, simbolicamente, como se fosse um terrorista do Estado Islâmico.
Nada mais instável do que abalar a confiança na Justiça. As reformas necessárias, os 14 milhões de desempregados são uma realidade inescapável. Mas a estabilidade que o núcleo do governo está buscando é uma proteção contra a Lava-Jato. Oito ministros são investigados. O chamado núcleo duro, Moreira Franco e Padilha se agarram ao foro privilegiado.
Olhando o futuro próximo, não é a estabilidade que vejo, e sim turbulência. Um presidente desmoralizado pelos fatos policiais vai buscar todas as maneiras de se agarrar ao poder. Quando tiver de hesitar entre a estabilidade fiscal e a do seu cargo, certamente lançará mão de pacotes de bondades.
Mesmo um presidente indireto teria de seguir a sina de Lula, Renan, Jucá, Aécio e do próprio Temer. Uma das condições para que o Congresso escolha alguém é a promessa de proteção contra a Lava-Jato. Tarefa inglória. Todos falharam até agora. Por que um presidente nascido de uma escolha indireta teria êxito?
O seu trabalho seria desenvolvido num período eleitoral. A experiência mostra que nesses períodos a sociedade tem um peso maior sobre as decisões do Congresso.
Isso completa a visão de que não há estabilidade à vista, mas uma rota de turbulência. A escolha portanto é voar para frente ou para trás. Desligar ou não os aparelhos do velho e agonizante sistema politico partidário, ancorado na corrupção.
A ausência das manifestações de rua não significa que a sociedade perdeu o interesse. Pelo contrário, o impacto de espetáculos como o do TSE tem um longo alcance. É muito provável que, num momento em que achar necessário, vá comparecer com a célebre voz da rua. Se tudo o que aconteceu passar em branco, corremos o risco de nos transformar numa nação de zumbis. Com a exceção de praxe: os índios isolados da Amazônia.
Fernando Gabeira
Briga de Temer e Joesley não pode ser apartada
O presidente da República e o dono da JBS decidiram trocar insultos na frente das crianças. Joesley Batista disse que Temer é “o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”. Em resposta, Temer declarou que Joesley é “o bandido notório de maior sucesso na história brasileira.” Atônita, a platéia observa o espetáculo em silêncio. Não convém discutir com peritos no assunto, pois ambos podem ter razão.
Muita gente está preocupada em Brasília com os desdobramentos políticos do arranca-rabo. A turma do deixa-disso ameaça entrar em cena. A interrupção da desavença é o pior que poderia acontecer. A multidão vaiaria. E talvez gritasse, em uníssono: “Tem que manter isso, viu?”
Arranca-rabo nascido de um encontro fraternal do “chefe da quadrilha” com o “bandido notório” no escurindo do Palácio do Jaburu é um tipo de briga que pede para não ser apartada. Há um enorme interesse dos brasileiros pela continuidade do rififi. Estão todos ávidos para saber até onde os contendores permitirão que o melado escorra.
O espetáculo ficaria muito melhor se Lula e Aécio Neves —que Joesley acusa, respectivamente, de ter “institucionalizado a corrupção” e de ser “tão corrupto quanto os outros”— entrassem na confusão com a mesma disposição de cuspir fogo exibida por Temer.
As crianças na faixa etária de 5 a 90 anos ficariam esacandalizadas. Mas uma briga generalizada talvez ajudasse a esclarecer esse estranho período da história brasileira em que um governo em decomposição do PT foi substituído por uma administração podre do PMDB e a alternativa a ambos, representada pelo PSDB, não consegue demonstrar a diferença entre tucanos e protozoários.
Muita gente está preocupada em Brasília com os desdobramentos políticos do arranca-rabo. A turma do deixa-disso ameaça entrar em cena. A interrupção da desavença é o pior que poderia acontecer. A multidão vaiaria. E talvez gritasse, em uníssono: “Tem que manter isso, viu?”
Arranca-rabo nascido de um encontro fraternal do “chefe da quadrilha” com o “bandido notório” no escurindo do Palácio do Jaburu é um tipo de briga que pede para não ser apartada. Há um enorme interesse dos brasileiros pela continuidade do rififi. Estão todos ávidos para saber até onde os contendores permitirão que o melado escorra.
As crianças na faixa etária de 5 a 90 anos ficariam esacandalizadas. Mas uma briga generalizada talvez ajudasse a esclarecer esse estranho período da história brasileira em que um governo em decomposição do PT foi substituído por uma administração podre do PMDB e a alternativa a ambos, representada pelo PSDB, não consegue demonstrar a diferença entre tucanos e protozoários.
Recolham os cacos
Estamos vivendo um daqueles momentos da história de uma sociedade em que o futuro se impõe sobre o presente e o passado e que algo novo terá que ser construído pelo esforço de todos.

A operação Lava-Jato já destruiu, com o que foi revelado até agora, as bases de um sistema político iniciado com a redemocratização e que certamente não existirá mais
Nunca tantos emprenharam pelos ouvidos
A fofoca tem três lados bonitos: a pessoa não fala de si mesma, por modéstia; está preocupada com a vida da outra, por altruísmo; e só fala pelas costas, pois seria uma indelicadeza dizer o que diz, que às vezes é muito rude, na frente daqueles a quem critica. Prefere, então, falar pelas costas.
Fofocas, celeumas e polêmicas são inerentes à vida democrática. Proibi-las, além de tarefa inócua, seria uma insensatez. Mas é preciso tomar cuidado e proteger-se das devastações que podem causar.
Polêmica tem origem no Grego pólemos, guerra. Foi palavra que migrou do campo de batalha para os parlamentos.
Igualmente do Grego veio celeuma, de kéleuma, o canto cadenciado do chefe dos remadores com o fim de fazer com que todos unificassem o movimento dos remos para o navio avançar.
Já fofoca, de origem controversa, deriva do Quimbundo fuka, remexer, repetindo-se a primeira sílaba alterada de “fu” para “fo”, com provável influência do Banto, e equivale ao Inglês gossip, mexerico.
Só que gossip é de origem religiosa, pois teria o significado de God-sib, a Deus confiado, expressão nascida ao redor de pias batismais, em cerimônias de casamento, em funerais etc., locais propícios a fofocas, como se sabe.
Já o Francês foutriquet, de foutre, do Latim clássico futuere pelo Latim vulgar futere, deu futriqueiro no Português, mas o étimo é o verbo que se tornou o conhecido palavrão para designar o ato sexual, mudado para o eufemismo “fazer amor.”
No canto XII da Odisseia, obra construída oralmente e que foi fixada na escrita por volta do século VIII a.C., Homero conta-nos que para evitar o naufrágio do navio, quando navegava nas proximidades da ilha de Capri, Ulisses tomou duas providências: tapar os ouvidos dos marinheiros com cera e amarrar-se ao mastro da embarcação.
O comandante sabia que o canto das sereias poderia levar o barco de encontro aos rochedos e matar a todos. Ou ainda que, carentes da presença feminina, tanto tempo já no mar sem suas amadas, os marinheiros confundiriam o sibilar dos ventos costeiros com murmúrios amorosos femininos e se lançariam ao mar à procura daqueles sons, morrendo do mesmo modo.
Nós vivemos o reinado das sereias, de seus cantos e de seus feitiços.. Elas são belas, conquanto tenham rabo de peixe, mas fazem um serviço trágico: enfeitiçam aqueles que as ouvem, levando-os à tragédia.
Nunca o barco chamado Brasil precisou tanto de um Ulisses no comando. Pois nunca houve tantos emprenhando o povo pelos ouvidos, uma expressão nascida na Idade Média, quando um arcebispo de Constantinopla, chamado Proclus, fez um sermão em que defendia que Nossa Senhora tinha sido emprenhada pelos ouvidos, ao receber do anjo Gabriel a notícia de que estava grávida do Altíssimo.
Devido a esta crença, imagens cristãs de Nossa Senhora representam a mãe Deus com o ouvido em forma de útero, em cujo interior cresce um bebê.
Em Brasília, cresce um estranho bebê: o país estava melhorando seus índices econômicos quando, de repente, dia sim, dia também, uma fofoca varre todo o território nacional dando conta de que nada vai dar certo.
É um fenômeno muito estranho!
Aulas em meio à guerra no Rio: 'Ele se jogou sobre as crianças para protegê-las'
De sua carteira, Renan, de 13 anos, não consegue enumerar mais de três países sem travar – “Brasil, humm... Argentina, México, ah...” –, mas diz de cabeça nove tipos de armas: “Snipe, AK-47, 7.65, AR-15, Bazuca, calibre .50, calibre 12, Glock, giratória...”. Na classe ao lado, Guilherme, de 14 anos, também é capaz de imitar o som dos tiros: a rajada espaçada do AK-47, o eco seco da pistola e o estrondo de um lança-granadas. “É o que escutamos todos os dias”, justificam. Os dois, garotos negros e pobres, são alunos de uma escola municipal do Rio de Janeiro encravada em um complexo de favelas dividido por um rio fétido, uma linha de trem e a guerra entre três facções de traficantes, a apenas 36 quilômetros do Cristo Redentor.
Dezenas de milhares de crianças no Rio estudam em colégios de áreas de conflito, dominadas pelos traficantes e submetidas às frequentes incursões da polícia. São bairros em guerra. Os tiroteios são quase diários, mortos, balas perdidas e os garotos crescem aprendendo protocolos para sobreviver em casa, mas também nas aulas. A crise econômica pela qual atravessa o Rio aumentou todos os índices de violência, a polícia sofre com falta de recursos e o tráfico de drogas intensificou suas atividades criminosas e suas disputas: a escola já não é um lugar seguro. Nos primeiros 82 dias letivos de 2017, só houve sete dias de paz em que nenhum dos mais de 1.500 colégios municipais precisou fechar suas portas, foram quase 120.000 crianças sem aulas, segundo a secretaria municipal de Educação.
Quando o fogo cruzado surpreende as crianças na sala de aula os professores já sabem o que fazer. Todos correm aos corredores e deitam no chão esperando o silêncio voltar. Foi o que aconteceu em 31 de março na escola de Renan e Guilherme quando a polícia entrou na rua do colégio em pleno horário escolar. Dois traficantes foram atingidos e depois executados diante do muro da escola e Maria Eduarda, de 13 anos, que estava na aula de educação física no pátio, não teve tempo de se esconder. Vários tiros de fuzil a atingiram enquanto bebia água e pelo menos um deles saiu da arma de um policial. O muro do colégio, com mais de 20 perfurações de fuzil, era a imagem da barbárie.
“Morreu na frente de todo mundo. Tinha acabado de dizer o quanto nos amava. É desumano”, lamenta Fábio, de 15 anos, amigo de Maria Eduarda. O professor de educação física, “um negão enorme”, como todos os colegas o descrevem, está de licença desde então. “Naquele dia ele se jogou por cima de um monte de crianças para protegê-las das balas. Ainda não consegue entrar na escola sem chorar”, conta o diretor, Luiz Menezes, que ainda parece estar em estado de choque.
Após quase um mês sem aulas, dedicado ao cuidado psicológico de alunos e professores e atividades lúdicas para aliviar o trauma, a escola voltou à rotina. Tem pela frente o desafio de recuperar o conteúdo atrasado, mas também apagar as marcas da tragédia. O muro já não é branco e os sinais da perícia policial que circulou com uma caneta marca-texto cada impacto de tiro foram substituídos por um mural de um céu azul em que voam pássaros e peixes coloridos feitos com pneus. Plantas crescem, pintaram a palavra "paz" em letras grandes e coloridas e um eletrocardiograma com 23 corações intercalados percorre a extensão da parede. Um para cada bala. “Foi nossa forma de recomeçar, tentando apagar as marcas da violência, que nunca pensamos que chegaria aqui dentro. Todos pensávamos que, apesar de tudo, esse era um lugar seguro”, diz Menezes.
Virar a página não está sendo tão fácil, pois nada mudou. Ao se dobrar a esquina continua no mesmo lugar um ponto de venda de drogas protegido por adolescentes com fuzis nos ombros e os arredores da escola continuam sendo o lugar ideal para que os criminosos retirem a carga dos caminhões roubados, uma de suas atividades mais lucrativas, intensificada com a crise, e que age como um imã para as operações policiais. Se perguntarmos em uma das salas de aula quantos já perderam um parente por culpa da violência, 17 de 22 alunos levantarão as mãos. “O maior impacto dessa violência é que os alunos ficam tão próximos dela que não veem que há alternativa, não cultivam expectativas”, opina o professor de História, Leonardo Bruno da Silva.
Dezenas de milhares de crianças no Rio estudam em colégios de áreas de conflito, dominadas pelos traficantes e submetidas às frequentes incursões da polícia. São bairros em guerra. Os tiroteios são quase diários, mortos, balas perdidas e os garotos crescem aprendendo protocolos para sobreviver em casa, mas também nas aulas. A crise econômica pela qual atravessa o Rio aumentou todos os índices de violência, a polícia sofre com falta de recursos e o tráfico de drogas intensificou suas atividades criminosas e suas disputas: a escola já não é um lugar seguro. Nos primeiros 82 dias letivos de 2017, só houve sete dias de paz em que nenhum dos mais de 1.500 colégios municipais precisou fechar suas portas, foram quase 120.000 crianças sem aulas, segundo a secretaria municipal de Educação.
Quando o fogo cruzado surpreende as crianças na sala de aula os professores já sabem o que fazer. Todos correm aos corredores e deitam no chão esperando o silêncio voltar. Foi o que aconteceu em 31 de março na escola de Renan e Guilherme quando a polícia entrou na rua do colégio em pleno horário escolar. Dois traficantes foram atingidos e depois executados diante do muro da escola e Maria Eduarda, de 13 anos, que estava na aula de educação física no pátio, não teve tempo de se esconder. Vários tiros de fuzil a atingiram enquanto bebia água e pelo menos um deles saiu da arma de um policial. O muro do colégio, com mais de 20 perfurações de fuzil, era a imagem da barbárie.
“Morreu na frente de todo mundo. Tinha acabado de dizer o quanto nos amava. É desumano”, lamenta Fábio, de 15 anos, amigo de Maria Eduarda. O professor de educação física, “um negão enorme”, como todos os colegas o descrevem, está de licença desde então. “Naquele dia ele se jogou por cima de um monte de crianças para protegê-las das balas. Ainda não consegue entrar na escola sem chorar”, conta o diretor, Luiz Menezes, que ainda parece estar em estado de choque.
Após quase um mês sem aulas, dedicado ao cuidado psicológico de alunos e professores e atividades lúdicas para aliviar o trauma, a escola voltou à rotina. Tem pela frente o desafio de recuperar o conteúdo atrasado, mas também apagar as marcas da tragédia. O muro já não é branco e os sinais da perícia policial que circulou com uma caneta marca-texto cada impacto de tiro foram substituídos por um mural de um céu azul em que voam pássaros e peixes coloridos feitos com pneus. Plantas crescem, pintaram a palavra "paz" em letras grandes e coloridas e um eletrocardiograma com 23 corações intercalados percorre a extensão da parede. Um para cada bala. “Foi nossa forma de recomeçar, tentando apagar as marcas da violência, que nunca pensamos que chegaria aqui dentro. Todos pensávamos que, apesar de tudo, esse era um lugar seguro”, diz Menezes.
Virar a página não está sendo tão fácil, pois nada mudou. Ao se dobrar a esquina continua no mesmo lugar um ponto de venda de drogas protegido por adolescentes com fuzis nos ombros e os arredores da escola continuam sendo o lugar ideal para que os criminosos retirem a carga dos caminhões roubados, uma de suas atividades mais lucrativas, intensificada com a crise, e que age como um imã para as operações policiais. Se perguntarmos em uma das salas de aula quantos já perderam um parente por culpa da violência, 17 de 22 alunos levantarão as mãos. “O maior impacto dessa violência é que os alunos ficam tão próximos dela que não veem que há alternativa, não cultivam expectativas”, opina o professor de História, Leonardo Bruno da Silva.
Porque nada acontece
Se você anda estupefato por nada ter acontecido ainda diante da avalanche de fatos, eis a explicação: nada acontece porque acontecer alguma coisa não interessa a ninguém que pode fazer alguma coisa acontecer. Decepcionante talvez, mas com certeza didático. Você que sai à rua atrás de miragens tem aqui a chance de crescer. Políticos movem-se pelo poder
Joesley é fruto da avacalhação do Brasil doente
O Brasil está tão avacalhado que um empresário, que fez fortuna à sombra do dinheiro dos bancos públicos, chama o presidente da república de “chefe de quadrilha” e não acontece nada. Joesley Batista, dono da JBS, que goza das benesses da Procuradoria Geral da República, revelou-se o capo di tutti capi em um país desgovernado e moralmente doente. É réu confesso em vários crimes de suborno e formação de quadrilha. Por muito tempo financiou as campanhas do PT com recursos que lhe chegavam às mãos pelos ministros da Fazenda Palocci e Mantega, com a conivência da dupla Lula/Dilma. Agora, com o cinto apertado pelas dívidas, decidiu novamente vomitar o que sabe para se livrar da cadeia.
A entrevista de Joesly à revista Época é um escárnio. Lula, o cara a quem ele acusa de ter “institucionalizado a corrupção no Brasil”, já minimizou as declarações dele ao dizer que nada do que o empresário falou tem valor jurídico. Mas, com certeza, mostra definitivamente como os políticos, principalmente aqueles que tinham a chave do cofre, envolveram-se promiscuamente com empresários bandidos e saqueadores do dinheiro público. Transformaram esses aventureiros de armazéns de secos e molhados em bilionários da noite para o dia para depois serem vítimas de suas próprias garras afiadas. Hoje pagam um preço alto pela cumplicidade inescrupulosa que tiveram com esses oportunistas gananciosos que lhes garantiram o poder.
É bom, entretanto, colocar os pontos nos is. Nessa guerra de delações e de revelações desavergonhadas não existe ninguém inocente. Pelo que se viu até agora tanto o PT como PMBDB e PSDB estão no lixo da história. O último dos moicanos a tentar se segurar na corda bamba fazendo malabarismo para não cair é o Temer, herança do próprio PT que caiu do poder, mas deixou esse legado imoral para o país. Na essência, o Brasil vive no esgoto. Isso porque o Partido dos Trabalhadores, chefiado por Lula, Palocci, Zé Dirceu, Mantega, Vaccari, Vargas e Dilma abriram a estação de tratamento para despejar os dejetos palacianos in natura em todos os lugares. Não é exagero dizer que nesse aterro sanitário o país fede de um canto a outro.
As declarações intempestivas de Joesly contra os dois presidentes, que a gente sabe que não são flores que se cheirem, só mostram quanto envolvimento esses dois senhores – Temer e Lula – tinham com a escória do empresariado. Só um cara que ainda guarda segredos inconfessáveis da república e se diz “achacado” por esses políticos, como ele disse na entrevista, dispara misseis com essa potência em direção a um presidente. Encurralado, com dívidas estratosféricas, ameaçado de ir para prisão nos Estados Unidos que, pela legislação, não permitem que empresários estabelecidos lá subornem autoridades em outros países, Joesley visualiza o fim do império que se aproxima.
Mas até la, o que desperta mais curiosidade em todo esse imbróglio é saber que Joesley recebeu um salvo conduto do Rodrigo Janot e do Ministro Edson Fachin, do STF, para ficar em liberdade e deixar o país depois de tanta revelação escandalosa que o inclui também como partícipe da farra financeira e da corrupção. Fachin, sabe-se agora, precisou do lobista da JBS, Ricardo Saud, também delatou, para convencer os senadores da sua indicação para o tribunal. Quanto a Janot, não se sabe até agora porque tanta benevolência com Joesley que se revelou o cérebro por trás de toda engrenagem da organização criminosa.
A participação de Joesley e seus irmãos na cooptação dos políticos é tão insolente que leva a população a perguntar como esses senhores conseguiram convencer o governo petista de que abrir empresa lá fora era melhor economicamente para o Brasil com a criação de multinacionais. Pelo menos foi esse argumento que eles usaram para levar os bilhões do BNDES para os Estados Unidos e outros países a juros maternais. Isso é a negação do que o Lula pregava quando chegou ao governo. Ele dizia que a Petrobrás deveria refazer sua política de compra, produzindo internamente para incrementar a indústria local e gerar emprego e renda no Brasil.
Nada disso aconteceu. Pelo que se viu, Lula era um blefe. Nunca entendeu patavinas de economia e menos ainda de administração. Deixou que seus dois ministros da fazenda agissem como Al Capone, transformando os gabinetes de Brasília em bordeis de luxo para lavar dinheiro e sangrar os cofres públicos. É a mais cabal de todas as evidências do despreparo do ex-presidente para gerar alguma coisa na vida, pois por onde passou deixou um rastro de corrupção.
A entrevista de Joesly à revista Época é um escárnio. Lula, o cara a quem ele acusa de ter “institucionalizado a corrupção no Brasil”, já minimizou as declarações dele ao dizer que nada do que o empresário falou tem valor jurídico. Mas, com certeza, mostra definitivamente como os políticos, principalmente aqueles que tinham a chave do cofre, envolveram-se promiscuamente com empresários bandidos e saqueadores do dinheiro público. Transformaram esses aventureiros de armazéns de secos e molhados em bilionários da noite para o dia para depois serem vítimas de suas próprias garras afiadas. Hoje pagam um preço alto pela cumplicidade inescrupulosa que tiveram com esses oportunistas gananciosos que lhes garantiram o poder.
É bom, entretanto, colocar os pontos nos is. Nessa guerra de delações e de revelações desavergonhadas não existe ninguém inocente. Pelo que se viu até agora tanto o PT como PMBDB e PSDB estão no lixo da história. O último dos moicanos a tentar se segurar na corda bamba fazendo malabarismo para não cair é o Temer, herança do próprio PT que caiu do poder, mas deixou esse legado imoral para o país. Na essência, o Brasil vive no esgoto. Isso porque o Partido dos Trabalhadores, chefiado por Lula, Palocci, Zé Dirceu, Mantega, Vaccari, Vargas e Dilma abriram a estação de tratamento para despejar os dejetos palacianos in natura em todos os lugares. Não é exagero dizer que nesse aterro sanitário o país fede de um canto a outro.
As declarações intempestivas de Joesly contra os dois presidentes, que a gente sabe que não são flores que se cheirem, só mostram quanto envolvimento esses dois senhores – Temer e Lula – tinham com a escória do empresariado. Só um cara que ainda guarda segredos inconfessáveis da república e se diz “achacado” por esses políticos, como ele disse na entrevista, dispara misseis com essa potência em direção a um presidente. Encurralado, com dívidas estratosféricas, ameaçado de ir para prisão nos Estados Unidos que, pela legislação, não permitem que empresários estabelecidos lá subornem autoridades em outros países, Joesley visualiza o fim do império que se aproxima.
Mas até la, o que desperta mais curiosidade em todo esse imbróglio é saber que Joesley recebeu um salvo conduto do Rodrigo Janot e do Ministro Edson Fachin, do STF, para ficar em liberdade e deixar o país depois de tanta revelação escandalosa que o inclui também como partícipe da farra financeira e da corrupção. Fachin, sabe-se agora, precisou do lobista da JBS, Ricardo Saud, também delatou, para convencer os senadores da sua indicação para o tribunal. Quanto a Janot, não se sabe até agora porque tanta benevolência com Joesley que se revelou o cérebro por trás de toda engrenagem da organização criminosa.
A participação de Joesley e seus irmãos na cooptação dos políticos é tão insolente que leva a população a perguntar como esses senhores conseguiram convencer o governo petista de que abrir empresa lá fora era melhor economicamente para o Brasil com a criação de multinacionais. Pelo menos foi esse argumento que eles usaram para levar os bilhões do BNDES para os Estados Unidos e outros países a juros maternais. Isso é a negação do que o Lula pregava quando chegou ao governo. Ele dizia que a Petrobrás deveria refazer sua política de compra, produzindo internamente para incrementar a indústria local e gerar emprego e renda no Brasil.
Nada disso aconteceu. Pelo que se viu, Lula era um blefe. Nunca entendeu patavinas de economia e menos ainda de administração. Deixou que seus dois ministros da fazenda agissem como Al Capone, transformando os gabinetes de Brasília em bordeis de luxo para lavar dinheiro e sangrar os cofres públicos. É a mais cabal de todas as evidências do despreparo do ex-presidente para gerar alguma coisa na vida, pois por onde passou deixou um rastro de corrupção.
Erário rima com sacrário
É de Albert Einstein este categórico juízo: "A imaginação é mais importante que o conhecimento". De Mário Quintana, esta conhecida metáfora: "A imaginação é a memória que enlouqueceu".
Pelo que passei a imaginar como a "Ética" escreveria um texto sobre si mesma, no torvelinho da atual quadra histórica do Brasil. Deu nos escritos que seguem:
"Ética é meu nome. Ora me chamam de "ciência da moral", ora de "moral" mesma. Seja como for, o que me define é ser a única trilha para a conduta das pessoas de caráter. Aquelas que são unha e carne com a verdade. Mais até, aquelas pessoas que têm como primeira religião o total respeito pelo que pertence a terceiros.
Em especial, o completo, o devocional respeito pelos "dinheiros, bens e valores públicos" (parágrafo único do art. 70 da Constituição brasileira). Com o que desponta clara a rima entre erário e sacrário.
Ser dura na queda é outra das minhas caraterísticas. Radicalizo na afirmação: eu não desisto nunca! Eu nunca jogo a toalha!
O pugilato é o ar que respiro, porque sempre me puxam o tapete. Sempre há quem viva para me ver morta. Eu ali muito abaixo dos sete palmos de chão. Mesmo sabendo, meus inimigos, que não vim ao mundo para servir de pasto aos vermes.
Ainda que sabendo, meus antagonistas, que sou o oposto da lama, do visgo, do sujo, do lodo.
Mesmo sabendo cada um deles que só existo, tal qual o poeta Castro Alves, para fitar os Andes. Eu, irmã e ímã do sol a pino. Eu, arquiteta da fronde das árvores, engenheira das mais altas varandas da consciência.
Por isso que tenho tudo a ver com vergonha na cara. Por isso é que tenho sangue nas veias e vontade de ferro. Persistência em mim é como tatuagem na alma. Não vou desistir jamais de um dia chegar à porta dessa imensa casa de nome "Política", para encontrar o quê? Uma placa de "Entre sem bater". Não como cortesia dela, porém como direito meu.
Direito meu? Assim está na cabeça do art. 37 da Constituição, entre muitos outros dispositivos dela. Donde a consequência de que parlamentos e tribunais não têm como deixar de me reconhecer e aplicar.
Os que me derem as costas irão bater de frente com as mais claras e vigorosas normas constitucionais. Todas mais e mais acessíveis ao direto entendimento do povo, porque também mais e mais familiarizado com elas.
O povo, sim, pois finalmente o Brasil já surfa na crista de uma era que o jurista alemão Peter Häberle bem etiquetou como "A Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição". Todo o povo, sim -falo pela segunda vez-, pela percepção de que eu sou um princípio-dever do Estado e um correlato princípio-direito dos cidadãos. Dever de lá, direito de cá.
Falo um pouco mais de mim. Isso para ajuntar que só ali onde eu impero é que há vida social civilizada. Que o meu desafio maior, estruturalmente falando, é dinamitar as vigas todas desse tal de "patrimonialismo". Persistente ninho desta venenosa serpente de três cabeças: corrupção sistêmica, desperdício desbragado de tudo que é dinheiro do Estado, corporativismo.
Por isso que devo insistir: meu nome é "Ética". Se você tem identidade comigo, abanque-se. Venha sentar-se a meu lado e ser 'um comigo'. Um só corpo, uma só consciência, uma só alma. Assim é que o mais cristalino espelho da história passará a refletir o unitário rosto de quem já não tem o menor motivo para corar de vergonha.
Concluo esta minha fala com um outro pensamento de Einstein: 'Quando a mente humana se abre para uma nova ideia, impossível retornar ao tamanho inicial'.
Digo o mesmo quanto à ideia coletiva de que eu vim para ficar. Ideia coletiva, essa, de que farei o meu escudo, o meu aríete, a minha catapulta.
Aqui e em todo lugar onde o direito vier a me consagrar como uma das suas mais fortes razões de se dar ao respeito. Como verdadeira condição e elemento conceitual da própria Justiça".
Pronto! Nada mais disse a minha imaginação nem lhe foi perguntado. Mas não posso deixar de acrescentar que foi precisamente a ética o núcleo denso desta sentença de Thomas Jefferson: "A arte de governar consiste exclusivamente na arte de ser honesto".
Pelo que passei a imaginar como a "Ética" escreveria um texto sobre si mesma, no torvelinho da atual quadra histórica do Brasil. Deu nos escritos que seguem:
"Ética é meu nome. Ora me chamam de "ciência da moral", ora de "moral" mesma. Seja como for, o que me define é ser a única trilha para a conduta das pessoas de caráter. Aquelas que são unha e carne com a verdade. Mais até, aquelas pessoas que têm como primeira religião o total respeito pelo que pertence a terceiros.
Em especial, o completo, o devocional respeito pelos "dinheiros, bens e valores públicos" (parágrafo único do art. 70 da Constituição brasileira). Com o que desponta clara a rima entre erário e sacrário.
Ser dura na queda é outra das minhas caraterísticas. Radicalizo na afirmação: eu não desisto nunca! Eu nunca jogo a toalha!
O pugilato é o ar que respiro, porque sempre me puxam o tapete. Sempre há quem viva para me ver morta. Eu ali muito abaixo dos sete palmos de chão. Mesmo sabendo, meus inimigos, que não vim ao mundo para servir de pasto aos vermes.
Ainda que sabendo, meus antagonistas, que sou o oposto da lama, do visgo, do sujo, do lodo.
Mesmo sabendo cada um deles que só existo, tal qual o poeta Castro Alves, para fitar os Andes. Eu, irmã e ímã do sol a pino. Eu, arquiteta da fronde das árvores, engenheira das mais altas varandas da consciência.
Por isso que tenho tudo a ver com vergonha na cara. Por isso é que tenho sangue nas veias e vontade de ferro. Persistência em mim é como tatuagem na alma. Não vou desistir jamais de um dia chegar à porta dessa imensa casa de nome "Política", para encontrar o quê? Uma placa de "Entre sem bater". Não como cortesia dela, porém como direito meu.
Direito meu? Assim está na cabeça do art. 37 da Constituição, entre muitos outros dispositivos dela. Donde a consequência de que parlamentos e tribunais não têm como deixar de me reconhecer e aplicar.
Os que me derem as costas irão bater de frente com as mais claras e vigorosas normas constitucionais. Todas mais e mais acessíveis ao direto entendimento do povo, porque também mais e mais familiarizado com elas.
O povo, sim, pois finalmente o Brasil já surfa na crista de uma era que o jurista alemão Peter Häberle bem etiquetou como "A Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição". Todo o povo, sim -falo pela segunda vez-, pela percepção de que eu sou um princípio-dever do Estado e um correlato princípio-direito dos cidadãos. Dever de lá, direito de cá.
Falo um pouco mais de mim. Isso para ajuntar que só ali onde eu impero é que há vida social civilizada. Que o meu desafio maior, estruturalmente falando, é dinamitar as vigas todas desse tal de "patrimonialismo". Persistente ninho desta venenosa serpente de três cabeças: corrupção sistêmica, desperdício desbragado de tudo que é dinheiro do Estado, corporativismo.
Por isso que devo insistir: meu nome é "Ética". Se você tem identidade comigo, abanque-se. Venha sentar-se a meu lado e ser 'um comigo'. Um só corpo, uma só consciência, uma só alma. Assim é que o mais cristalino espelho da história passará a refletir o unitário rosto de quem já não tem o menor motivo para corar de vergonha.
Concluo esta minha fala com um outro pensamento de Einstein: 'Quando a mente humana se abre para uma nova ideia, impossível retornar ao tamanho inicial'.
Digo o mesmo quanto à ideia coletiva de que eu vim para ficar. Ideia coletiva, essa, de que farei o meu escudo, o meu aríete, a minha catapulta.
Aqui e em todo lugar onde o direito vier a me consagrar como uma das suas mais fortes razões de se dar ao respeito. Como verdadeira condição e elemento conceitual da própria Justiça".
Pronto! Nada mais disse a minha imaginação nem lhe foi perguntado. Mas não posso deixar de acrescentar que foi precisamente a ética o núcleo denso desta sentença de Thomas Jefferson: "A arte de governar consiste exclusivamente na arte de ser honesto".
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