A realidade do desemprego para Dilma Rousseff será muito melhor que a maioria dos 12 milhões de brasileiros que seu governo deixou na rua da amargura. Com todas as despesas pagas pelo contribuinte, a petista teve a oportunidade de poupar os salários que recebeu desde sua posse na Presidência da República, em 2011. Até ser cassada, dia 31, Dilma acumulou mais de R$ 2 milhões somente com seus salários. A informação é do colunista Cláudio Humberto, do Diário do Poder.
Como presidente, Dilma não gastou um só centavo com residência, transporte, gasolina, viagens e alimentação durante 65 meses.
Quando assumiu a Presidência, em 2011, o contracheque de Dilma era de R$ 26,7 mil. No segundo mandato, passou a R$ 30,9 mil.
Dois meses antes do início do impeachment, Dilma cortou em 10% o salário dela, do vice e dos ministros. Foi inútil.
Se manteve sua grana na poupança, Dilma terá rendimentos mensais de R$10 mil. Mais que o suficiente para se manter sem cargo público.
Agora ex-presidente, ele terá direito a oito assessores, dois carros com motoristas e cartão corporativo para usar à vontade na manutenção da sua estrutura.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Manifesto do partido Otimista
Ettore Scola, advogado e cineasta italiano, não viveu para filmar o magistrado brasileiro Ricardo Lewandowski, que suavizou, seguro que só tem o céu acima de sua cabeça, a pena da presidente. Mas “Nós que nos amávamos tanto”, seu filme de mais de 40 anos atrás, deveria ser visto por ele, Dilma, Renan e Lula, juntos, para observarem por que a esperança saiu do catálogo das virtudes.
Não aceitar ser julgada, bom Deus, vamos condenar a democracia brasileira à desordem. O político não é lotado no Estado, como o tijolo na parede! A verdade enfrenta um tráfego pesado no mundo. Sou a versão para gringos, o gigante que se debruça sobre ela.
Ótimo, a história inicial se perdeu, não vale a pena procurar o seu começo. Encontrei muitas pessoas dispostas a me amarem, mas nada de promiscuidade, meritíssimo. Mantenho meu passado! São sujos! Ora, moça, se aceitou assentar ali bem comportada, enterrou sua ilusão retrospectiva. Acione seus punhos de ferro, mas pense, sua vergonha não passa de orgulho.
Todo julgamento, para conter alguma possibilidade de sucesso para o acusado, deve carregar uma dúvida razoável e necessária, que paralise a consciência de quem julga. Ela sempre teve seu próprio método.
Nunca quis aliados, mas devedores de obrigação. Sentia seus desejos como exigência. E, assim, não reconhecia a ninguém o direito de entendê-la. Czarina do czar que a escolheu, caminhava negligente se fazendo dura. Para dar credibilidade à sua história, multiplicou por dez seus inimigos. Povoava seus dias contando traições. Ampliava sua angústia, mas as coisas não ficavam nisso.
E aquele quase nada para a razão do outro era reforçado por interlocutores que a faziam escapar mais ainda da realidade. Eles temiam complicações com aquele nenhum talento para a reciprocidade. Sua bossa é botar culpa nos outros. Ela se fatigava e seus amigos a mimavam, dizendo que caminhava para a perfeição.
Tempestade sem relâmpago confundiu seu desencanto com virtude, sua incapacidade com a verdade. Embora vivendo no rebanho comum da política desde sempre, só não era joão-ninguém quem a tolerava. E foi assim, só reconhecendo legitimidade em quem a inocentasse, que entrou naquela sala azul de quase 200 anos.
Ao nomear a realidade de escândalo, a política traz o escândalo para a realidade. E fica dispensada de se convencer que desvios políticos costumam ser sempre obra de panelinhas. Grupos que conquistaram posição estrutural e material acima das condições da sociedade e se alienaram em relação a ela. Suas ideias perdem a maturidade para representar o interesse e a consciência da maioria. E o ciclo histórico de onde vieram se esgota, com seus principais personagens ainda vivos.
Não há necessidade mais de crítica. O argumento tornou-se parasita do problema velho. São anomalias, que serão melhor retratadas pela literatura e o cinema. O que precisamos, agora, é de um movimento abolicionista de práticas antigas.
Não é que ela venha de fora, da conversa, das leituras, da experiência. A liberdade que sustenta a coerência e o respeito à opinião dos outros vem de dentro da pessoa que já tenha dentro dela o gosto pela liberdade.
Não aceitar ser julgada, bom Deus, vamos condenar a democracia brasileira à desordem. O político não é lotado no Estado, como o tijolo na parede! A verdade enfrenta um tráfego pesado no mundo. Sou a versão para gringos, o gigante que se debruça sobre ela.

Todo julgamento, para conter alguma possibilidade de sucesso para o acusado, deve carregar uma dúvida razoável e necessária, que paralise a consciência de quem julga. Ela sempre teve seu próprio método.
Nunca quis aliados, mas devedores de obrigação. Sentia seus desejos como exigência. E, assim, não reconhecia a ninguém o direito de entendê-la. Czarina do czar que a escolheu, caminhava negligente se fazendo dura. Para dar credibilidade à sua história, multiplicou por dez seus inimigos. Povoava seus dias contando traições. Ampliava sua angústia, mas as coisas não ficavam nisso.
E aquele quase nada para a razão do outro era reforçado por interlocutores que a faziam escapar mais ainda da realidade. Eles temiam complicações com aquele nenhum talento para a reciprocidade. Sua bossa é botar culpa nos outros. Ela se fatigava e seus amigos a mimavam, dizendo que caminhava para a perfeição.
Tempestade sem relâmpago confundiu seu desencanto com virtude, sua incapacidade com a verdade. Embora vivendo no rebanho comum da política desde sempre, só não era joão-ninguém quem a tolerava. E foi assim, só reconhecendo legitimidade em quem a inocentasse, que entrou naquela sala azul de quase 200 anos.
Ao nomear a realidade de escândalo, a política traz o escândalo para a realidade. E fica dispensada de se convencer que desvios políticos costumam ser sempre obra de panelinhas. Grupos que conquistaram posição estrutural e material acima das condições da sociedade e se alienaram em relação a ela. Suas ideias perdem a maturidade para representar o interesse e a consciência da maioria. E o ciclo histórico de onde vieram se esgota, com seus principais personagens ainda vivos.
Não há necessidade mais de crítica. O argumento tornou-se parasita do problema velho. São anomalias, que serão melhor retratadas pela literatura e o cinema. O que precisamos, agora, é de um movimento abolicionista de práticas antigas.
Não é que ela venha de fora, da conversa, das leituras, da experiência. A liberdade que sustenta a coerência e o respeito à opinião dos outros vem de dentro da pessoa que já tenha dentro dela o gosto pela liberdade.
Quanto ganha um servidor?

Os aposentados do Poder Judiciário federal recebem em média R$ 25.659 por mês. Quem recebe pensão desses funcionários leva R$ 23.077 por mês, em média.
É muito? Para começar, o salário médio de quem está na ativa do Judiciário, sem penduricalhos, é de R$ 17.629. Não faz sentido a aposentadoria valer 45% mais que o salário da ativa. Isso é sinal de grossas distorções no passado e de coisa pior.
Ainda assim, R$ 17 mil por mês é muito? No Executivo federal, a média é de R$ 9.800. O rendimento médio do trabalho ("salário") dos brasileiros anda pela casa de R$ 1.985.
A comparação imediata é indevida porque, por exemplo, a qualificação dos servidores do Executivo é maior. No Brasil, 13,5% dos ocupados tinham mais de 15 anos de estudo (curso superior) em 2014 (Pnad mais recente). Entre os servidores civis do Executivo, são 74,5%. Os com doutorado são 13,7% do total.
A discussão é, óbvio, imensa e complexa.
Ainda assim, consideradas as diferenças de formação, a disparidade salarial se justifica? A disparidade ainda maior entre aposentadorias públicas e privadas é aceitável? As médias contam toda a história? Não, não, não.
"Evidências anedóticas": o salário inicial dos motoristas de certa autarquia é de R$ 5.176. O dos escreventes de polícia dos ex-territórios Acre, Amapá, Roraima e Rondônia pagos pela União é de R$ 8.699. Basta passar os olhos pelas tabelas de cargos federais para perceber injustiças entre os servidores e a disparidade entre salários privados e públicos.
Para piorar, os salários médios de quem tem carteira assinada no setor privado estão caindo ao ritmo de mais de 4% ao ano. No funcionalismo (federal, estadual, municipal), crescem 2% ao ano. Nem se fale da estabilidade no emprego.
Dadas as iniquidades, fica ainda mais difícil aceitar o aumento para a elite do funcionalismo, ministros do Supremo, que querem R$ 39,2 mil (sem penduricalhos). Por tabela, haverá reajuste de salários do serviço público pelo país todo.
Não há dinheiro. Será necessário cortar despesas de investimento "em obras" ou fazer mais dívida pública, que paga juros indecentes aos mais ricos.
Considere-se ainda a desigualdade. Pelos dados da Pnad de 2014, apenas 1,8% de quem trabalhava recebia na faixa de 10 a 20 salários mínimos, o que na média daria hoje uns R$ 11.400; apenas 0,7% recebia mais de 20 mínimos. No funcionalismo federal civil, 20% recebem mais de R$ 11.500.
O valor médio da aposentadoria do INSS é de R$ 1.200. A pensão média, de R$ 1.066. No Legislativo federal, o aposentado leva em média R$ 28.587; o pensionista, R$ 21.491.
No INSS, 64% dos beneficiários recebem menos de dois salários mínimos (R$ 1.742); 99,8%, menos de seis mínimos, cerca de R$ 5.226 por mês. Aliás, o teto atual de quem se aposenta pelo INSS é de R$ 5.147,38.
Sim, a despesa com o funcionalismo federal tem caído, como fatia do PIB, da renda nacional. Baixou dos 5,5% do PIB de 1995 para 4,2% do PIB, que, porém, cresceu bem nos anos antes de Dilma Rousseff. Como parcela da receita do governo, essa despesa flutua em torno de 18% desde FHC 2.
Esses números, porém, contam pouco dessa história de desigualdades e distorções. Vamos falar mais disso nos próximos dias.
Temer brinca com fogo e PT flerta com baderna
Decidido a demonstrar que falta combustível à oposição petista, Michel Temer adotou uma tática perigosa: riscou um palito de fósforo no interior do tanque de gasolina. Perguntaram-lhe se as manifestações de rua não deslustram o início do seu govenro. E Temer: ''As 40 pessoas que quebram carro? Precisa perguntar para os 204 milhões de brasileiros e para os membros do Congresso Nacional que resolveram decretar o impeachment.''
| Manifestação em São Paulo, S. Moreira( EFE) |
Pois bem, neste domingo, com o fogo subindo-lhe pelas meias, Temer foi informado, na China, de que o asfalto ardeu mais forte. Sob o patrocínio de engrenagens como CUT e MTST, a turma do ‘fora Temer’ encheu pelo menos oito quadras da Avenida Paulista. Os fortões da quebradeira também estavam lá. E não se tem notícia de manifestação do PT condenando a baderna.
Nese ritmo, Temer ateará fogo às próprias vestes e o petismo, com seu silêncio, acabará confundido com os black blocs —eufemismo para bandido. Se tiverem juízo, Temer fecha a boca e o PT abre o olho.
domingo, 4 de setembro de 2016
Retrato do Brasil
Foi sempre proveitoso ouvir o baiano Milton Santos. Impossível entrevistá-lo sem aprender montes com esse brasileiro detentor da honraria mais cobiçada pela nata da geografia mundial — o Prêmio Internacional Vautrin Lud, costumeiramente chamado de Nobel de uma disciplina que não tem Prêmio Nobel.
“O maior erro que a Geografia cometeu foi o de querer ser ciência, em vez de ciência e arte. Não é maravilhoso saber que o filósofo alemão Immanuel Kant foi o primeiro catedrático com diploma em Geografia?”, lembrava ele.
Formado em Direito, doutor em Geografia pela Universidade de Strasbourg e forçado ao exílio após o golpe militar de 1964, Santos rodou o mundo disseminando saber nas universidades de Toronto, Columbia, Paris, MIT, Caracas e Dar es Salaam antes de retornar ao Brasil. Jamais perdeu o costume de tratar o interlocutor de vosmecê.
Em suas aulas de pós-graduação na Universidade de São Paulo nos anos 1990, costumava acolher cada aluno egresso da Economia como se estivesse salvando um brasileiro a mais. Ensinava que valores locais produzem cidadania melhor. Ou, pelo menos, algum tipo de cidadania. “A força do consumo em moldes globais leva ao abuso da palavra ‘usuário’ como substitutivo de ‘cidadão’, inclusive na literatura acadêmica”, apontava já à época. “E no discurso político ela leva ao abuso da palavra ‘cidadão’ como sinônimo de ‘consumidor’ , acrescentava.
Do rico baú de vinhetas da vida brasileira que colecionou até morrer em 2001, Santos contava com predileção um causo ocorrido na Salvador de meados dos anos 1950.
O geógrafo tinha ido visitar um amigo que acabara de se mudar para um edifício recém-erguido num bairro então emergente da capital baiana. Os felizes proprietários haviam comprado as unidades na planta, e tudo fora construído de acordo com o combinado. À exceção dos elevadores.
Simplesmente faltara dinheiro para o item que daria ao prédio o obrigatório selo obrigatório de respeitabilidade esperado: a instalação de dois ascensores, um social e um de serviço. Os recursos eram suficientes para apenas um.
Diante da recusa dos condôminos em arcar com o pesado encargo adicional, foi preciso encontrar uma solução emergencial. Embora não sendo a fórmula ideal, os novos proprietários conformaram-se com o que foi possível: uma curiosíssima divisória mambembe construída no interior de um mesmo e único elevador.
Assim, de um lado da gaiola que ascendia e descendia, passaram a espremer-se, de um lado da divisória os moradores; do outro, a criadagem. Estava salva a reputação do prédio e a higienização social do espaço. Nenhum dos dois grupos abria a boca, pois a divisória não era à prova de som.
Hoje, como se sabe, leis municipais e estaduais sobre uso de elevadores sociais proíbem qualquer forma de discriminação por raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa. Em princípio, apenas quando estiver em trajes de banho ou em serviço de obras, transportar volumes ou cargas alguém pode ser orientado a utilizar o elevador “dos fundos”.
Na prática, como também se sabe, na maioria dos condomínios brasileiros o bípede serviçal, mesmo quando desmunido de qualquer sacola, continua a dirigir-se automaticamente para o elevador de carga. Embora com a lei a seu favor, prefere não arrumar encrenca com quem faz as leis no país. A legislação de 2013 que ampliou benefícios para os trabalhadores domésticos em nada alterou o Brasil de duas portas.
Na semana da posse-relâmpago de Michel Temer, o 16º ocupante da Presidência desde os tempos da invenção do elevador com divisória, o episódio narrado por Milton Santos teve um revival que mereceria ter sido captado em vídeo.
A cena se passou num condomínio de classe alta do bairro de Botafogo, num Rio de Janeiro ainda embalado em sonhos de civilização pós-olímpica. Três senhoras de mesma faixa etária caminhavam lado a lado por um longo corredor, rumo aos elevadores que as depositariam no térreo. Duas portavam bolsas, uma levava uma sacola dobrada debaixo do braço. Conversavam.
Por mero acaso, um elevador de serviço e outro, social, estavam de prontidão quando o trio aportou. Sem que qualquer palavra fosse pronunciada, a mulher de sacola entrou no ascensor de serviço e as senhoras de bolsa se dirigiram ao social. Com igual naturalidade empregada e patroas voltaram a se reunir no desembarque e continuaram a caminhada lado a lado, talvez rumo a compras.
Milton Santos se definia como um “cidadão-geógrafo brasileiro” e tinha uma teoria geral do espaço humano. Por ser negro, passou a vida sendo recepcionado em inglês por tripulações aéreas brasileiras quando viajava de primeira classe.
O retrato do Brasil carimbado pela posse de Michel Temer e o lugar que cabe a cada brasileiro nos elevadores do país dariam poucas alegrias ao grande geógrafo. O medo do contágio social mudou pouco. Uma matéria-prima para a construção da nação continua em falta: cidadania. Tristes trópicos.
Dorrit Harazim
“O maior erro que a Geografia cometeu foi o de querer ser ciência, em vez de ciência e arte. Não é maravilhoso saber que o filósofo alemão Immanuel Kant foi o primeiro catedrático com diploma em Geografia?”, lembrava ele.
Formado em Direito, doutor em Geografia pela Universidade de Strasbourg e forçado ao exílio após o golpe militar de 1964, Santos rodou o mundo disseminando saber nas universidades de Toronto, Columbia, Paris, MIT, Caracas e Dar es Salaam antes de retornar ao Brasil. Jamais perdeu o costume de tratar o interlocutor de vosmecê.
Em suas aulas de pós-graduação na Universidade de São Paulo nos anos 1990, costumava acolher cada aluno egresso da Economia como se estivesse salvando um brasileiro a mais. Ensinava que valores locais produzem cidadania melhor. Ou, pelo menos, algum tipo de cidadania. “A força do consumo em moldes globais leva ao abuso da palavra ‘usuário’ como substitutivo de ‘cidadão’, inclusive na literatura acadêmica”, apontava já à época. “E no discurso político ela leva ao abuso da palavra ‘cidadão’ como sinônimo de ‘consumidor’ , acrescentava.
Do rico baú de vinhetas da vida brasileira que colecionou até morrer em 2001, Santos contava com predileção um causo ocorrido na Salvador de meados dos anos 1950.
Simplesmente faltara dinheiro para o item que daria ao prédio o obrigatório selo obrigatório de respeitabilidade esperado: a instalação de dois ascensores, um social e um de serviço. Os recursos eram suficientes para apenas um.
Diante da recusa dos condôminos em arcar com o pesado encargo adicional, foi preciso encontrar uma solução emergencial. Embora não sendo a fórmula ideal, os novos proprietários conformaram-se com o que foi possível: uma curiosíssima divisória mambembe construída no interior de um mesmo e único elevador.
Assim, de um lado da gaiola que ascendia e descendia, passaram a espremer-se, de um lado da divisória os moradores; do outro, a criadagem. Estava salva a reputação do prédio e a higienização social do espaço. Nenhum dos dois grupos abria a boca, pois a divisória não era à prova de som.
Hoje, como se sabe, leis municipais e estaduais sobre uso de elevadores sociais proíbem qualquer forma de discriminação por raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa. Em princípio, apenas quando estiver em trajes de banho ou em serviço de obras, transportar volumes ou cargas alguém pode ser orientado a utilizar o elevador “dos fundos”.
Na prática, como também se sabe, na maioria dos condomínios brasileiros o bípede serviçal, mesmo quando desmunido de qualquer sacola, continua a dirigir-se automaticamente para o elevador de carga. Embora com a lei a seu favor, prefere não arrumar encrenca com quem faz as leis no país. A legislação de 2013 que ampliou benefícios para os trabalhadores domésticos em nada alterou o Brasil de duas portas.
Na semana da posse-relâmpago de Michel Temer, o 16º ocupante da Presidência desde os tempos da invenção do elevador com divisória, o episódio narrado por Milton Santos teve um revival que mereceria ter sido captado em vídeo.
A cena se passou num condomínio de classe alta do bairro de Botafogo, num Rio de Janeiro ainda embalado em sonhos de civilização pós-olímpica. Três senhoras de mesma faixa etária caminhavam lado a lado por um longo corredor, rumo aos elevadores que as depositariam no térreo. Duas portavam bolsas, uma levava uma sacola dobrada debaixo do braço. Conversavam.
Por mero acaso, um elevador de serviço e outro, social, estavam de prontidão quando o trio aportou. Sem que qualquer palavra fosse pronunciada, a mulher de sacola entrou no ascensor de serviço e as senhoras de bolsa se dirigiram ao social. Com igual naturalidade empregada e patroas voltaram a se reunir no desembarque e continuaram a caminhada lado a lado, talvez rumo a compras.
Milton Santos se definia como um “cidadão-geógrafo brasileiro” e tinha uma teoria geral do espaço humano. Por ser negro, passou a vida sendo recepcionado em inglês por tripulações aéreas brasileiras quando viajava de primeira classe.
O retrato do Brasil carimbado pela posse de Michel Temer e o lugar que cabe a cada brasileiro nos elevadores do país dariam poucas alegrias ao grande geógrafo. O medo do contágio social mudou pouco. Uma matéria-prima para a construção da nação continua em falta: cidadania. Tristes trópicos.
Dorrit Harazim
Delírio tropical
A senadora Gleisi Hoffmann sugere que o Senado seja casa de tolerância. Já o cacique Renan rebate que parece hospício. E a presidenta não percebe que está sendo condenada enquanto chefa de governo. Para além do show de horrores — o que é mais grave — perde-se a oportunidade única de enfrentar a questão de fundo do sistema de nossa representação política. Ou não seria total falha de juízo que os senadores tenham promovido “um destaque regimental no texto constitucional”?
O delírio tropical parece ter sido o fundamento sobre o qual construímos nossa cultura de impunidade e jeitinho, nosso pacto pelo fingimento de reduzir tudo a um mero pastiche “para inglês ver”, como na lei da abolição do tráfico de escravos, que retardou em 40 anos a Abolição. Quando culturas politicamente mais maduras se pautam exatamente pela premissa oposta: por ter rabo de palha, a própria condição humana de errar pelo falho juízo para discernir, é que tenho o dever cívico de dar ao outro o direito de me julgar, instaurando-se assim a cultura da mútua responsabilidade da cidadania! Fato a que se referiu Miguel Reale Júnior no seu libelo final, quando desmontou a frágil tese da chantagem de Eduardo Cunha lançada pela defesa: o país é que exigiu nas ruas o impeachment pelo estelionato eleitoral cometido pela presidente eleita na sua campanha de 2014. O problema de tentar enganar a todos a todo tempo é que nem o PT percebeu a gravíssima contradição de que se estava ali a julgar um chefe de Estado por atos típicos de chefe de governo, pois nosso presidencialismo de coalizão não separa as responsabilidades de uma e de outra função.
Nossos senadores insistiram em discutir questões de governo a partir de uma alegada objetividade da acusação que se cingia a dois crimes contra a Lei Orçamentária. Mas retornavam sempre ao bate-boca faccioso, num cenário que mais parecia a Escolinha do Professor Raimundo. Em momento algum tentaram fundamentar o debate em doutrina política séria, mas na mera disputa populista, sabendo que estavam sendo televisados.
O ponto fundamental a ser debatido é o sistema político. Há décadas são pautadas, mas nunca tramitadas, as propostas de reforma política e, no caso deste processo, se evidencia claramente um parlamentarismo de facto, embora não o seja de jure. É de se perguntar se este impeachment nada mais foi do que um recall usurpado pelo Senado, que condenou um presidente da República por crime de responsabilidade por atos típicos de chefe de governo.
Como o chefe de governo coexiste com o chefe de Estado numa só pessoa, sacrifica-se a função do chefe de Estado com a condenação do chefe de governo. Como é inviável transformar nosso presidencialismo de jure, mas não de facto, por que não mitigá-lo, delegando de vez a chefia do governo ao Congresso, num processo muito menos danoso ao país e sem carecer de uma PEC de custosa tramitação? Missão que um Temer tem condições de articular se o melhor de nossa cidadania botar a boca no trombone da mídia.
Perdemos uma grande oportunidade de um sério debate sobre os custos da (in)governabilidade do presidencialismo de coalizão que só provoca corrupção e crises. A gambiarra de um destaque regimental atropelar o texto constitucional, para além da demanda judicial que renderá, mais parece um samba do crioulo doido, o máximo “para inglês ver”.
Jorge Maranhão
Nossos senadores insistiram em discutir questões de governo a partir de uma alegada objetividade da acusação que se cingia a dois crimes contra a Lei Orçamentária. Mas retornavam sempre ao bate-boca faccioso, num cenário que mais parecia a Escolinha do Professor Raimundo. Em momento algum tentaram fundamentar o debate em doutrina política séria, mas na mera disputa populista, sabendo que estavam sendo televisados.
O ponto fundamental a ser debatido é o sistema político. Há décadas são pautadas, mas nunca tramitadas, as propostas de reforma política e, no caso deste processo, se evidencia claramente um parlamentarismo de facto, embora não o seja de jure. É de se perguntar se este impeachment nada mais foi do que um recall usurpado pelo Senado, que condenou um presidente da República por crime de responsabilidade por atos típicos de chefe de governo.
Como o chefe de governo coexiste com o chefe de Estado numa só pessoa, sacrifica-se a função do chefe de Estado com a condenação do chefe de governo. Como é inviável transformar nosso presidencialismo de jure, mas não de facto, por que não mitigá-lo, delegando de vez a chefia do governo ao Congresso, num processo muito menos danoso ao país e sem carecer de uma PEC de custosa tramitação? Missão que um Temer tem condições de articular se o melhor de nossa cidadania botar a boca no trombone da mídia.
Perdemos uma grande oportunidade de um sério debate sobre os custos da (in)governabilidade do presidencialismo de coalizão que só provoca corrupção e crises. A gambiarra de um destaque regimental atropelar o texto constitucional, para além da demanda judicial que renderá, mais parece um samba do crioulo doido, o máximo “para inglês ver”.
Jorge Maranhão
O grito
Sou insistente. Afirmo que uma visão do inferno me assola ultimamente e sou suficientemente descrente para não achar que estou variando. Peço a gentileza dos nobres leitores de Sonia Zaghetto para um exercício simples, quase pueril. Uma vez lido o manifesto, entendemos perfeitamente tratar-se do fato em andamento, da Era da Mediocridade em que mergulhamos fundo e parece que temos agora a chance tênue de voltar à tona para respirar.
Por um momento, esqueçam o momento vivido – quase vinte anos de socialismo no lombo – e releiam o artigo, agora imaginando uma visão futura e trocando o socialismo batedor de carteira pelo jihadismo neo-evangélico dos fast foods da fé. O que lhes parece? Vou guardar este texto com muito carinho, para saboreá-lo de novo daqui a vinte anos. Até lá acredito que terá passado o novo reinado que tenta se instaurar por aqui. O reinado do dinheiro vivo. Da campanha bancada em espécie.
Não tenho mais esperanças com o Brasil. Nenhuma. Foram fatiadas numa cerimônia bronca, fingida e dissimulada para fazer-nos pensar que ganhamos, mas não levamos. Para nos tungar e iludir. Falei agora mesmo em privado com amigos que também estão sitiados em casa, com receio das manifestações superfaturadas que o “impixi” vem causando. São a senha de alinhamento dos broncolóides que, descendo das árvores e perdendo o rabo, se julgam no direito de apedrejar os dissidentes, com a conivência tácita e explícita de quem deveria zelar pela lei, pela ordem e pela justiça.
Não há no horizonte qualquer suspiro dessa maturidade demandada pela nobre articulista. Pelo contrário. O que vejo – e poucos estão vendo – é uma desfaçatez ainda maior liderando as pesquisas de opinião, inaugurando um período ainda mais nefasto de crendices e pilantragens regadas a fartas doses de dinheiro público novamente desviados para finalidades estranhas.
Sabem o que é incrível? Ainda com o “copo de prástico” onde meteram o espumante que abriram para comemorar o enterro da morta-viva do Planalto, ninguém está levando a serio a ameaça que paira em nossa frente, bem diante dos nossos olhos mal abertos. Aqui estou eu de novo, margem de erro de novo absolutismo, tentando convencer a maioria das pessoas do óbvio ululante. O que aparece aí na frente tem chifres, é vermelho, cheira a enxofre mas não tem uma estrelinha na cueca. Este é diferente. Este tem uma pombinha dentro.
Por um momento, esqueçam o momento vivido – quase vinte anos de socialismo no lombo – e releiam o artigo, agora imaginando uma visão futura e trocando o socialismo batedor de carteira pelo jihadismo neo-evangélico dos fast foods da fé. O que lhes parece? Vou guardar este texto com muito carinho, para saboreá-lo de novo daqui a vinte anos. Até lá acredito que terá passado o novo reinado que tenta se instaurar por aqui. O reinado do dinheiro vivo. Da campanha bancada em espécie.
Não há no horizonte qualquer suspiro dessa maturidade demandada pela nobre articulista. Pelo contrário. O que vejo – e poucos estão vendo – é uma desfaçatez ainda maior liderando as pesquisas de opinião, inaugurando um período ainda mais nefasto de crendices e pilantragens regadas a fartas doses de dinheiro público novamente desviados para finalidades estranhas.
Sabem o que é incrível? Ainda com o “copo de prástico” onde meteram o espumante que abriram para comemorar o enterro da morta-viva do Planalto, ninguém está levando a serio a ameaça que paira em nossa frente, bem diante dos nossos olhos mal abertos. Aqui estou eu de novo, margem de erro de novo absolutismo, tentando convencer a maioria das pessoas do óbvio ululante. O que aparece aí na frente tem chifres, é vermelho, cheira a enxofre mas não tem uma estrelinha na cueca. Este é diferente. Este tem uma pombinha dentro.
Dilma apequenou-se
A Dilma não entendeu até agora que não foram só as pedalas responsáveis pelo seu expurgo da presidência. O que a derrubou na verdade foi a sua incompetência para exercer o cargo e a avassaladora corrupção no seu governo. Essa coisa de conspiração, golpe e oportunismo do vice é balela. Ela procura pretextos que lhes parecem convincentes para justificar a sua inaptidão para governar.
O que o Brasil poderia esperar de uma pessoa que falsificou o próprio currículo para se qualificar? Nada. Essa notícia apareceu durante a primeira eleição e ela para se justificar culpou os redatores da campanha pelo equívoco. Ora, nenhum assessor de bom senso vai rechear o currículo de um candidato se não for autorizado. Se ela foi capaz de adulterar o próprio histórico da sua vida acadêmica, certamente o pais não poderia esperar dela atos honestos na presidência da república.
A mania de não se responsabilizar por suas ações também se caracterizou quando ela negou a própria assinatura na compra da refinaria de Pasadena que lesou os cofres da Petrobrás em 1 bilhão de dólares. Denunciada, logo tentou se justificar com o argumento de que teria sido enganada pelos diretores da Petrobrás antes que o escândalo ferisse de morte o seu mandato. Não adiantou. Ao depor na delação premiada, Nestor Cerveró, assegurou ao juiz Sérgio Moro que a Dilma sabia o que estava assinando. Portanto, ela, então presidente do Conselho da Petrobrás, foi de fato quem autorizou a compra da geringonça.
Essas falhas de caráter da ex-presidente foram ficando mais evidentes durante os dois mandatos. Agora, no segundo, quando esteve frente à frente com os senadores para se defender das pedaladas, as mentiras saiam da sua boca com a leveza das verdades. Sustentou durante todo o depoimento que não cometeu nenhum crime fiscal, quando todas os indícios apontavam ter sido ela a autora da manipulação dos empréstimos aos bancos oficiais. Chegou a insinuar que os seus amigos gaúchos no Banco Central teriam sido os responsáveis pelas pedaladas, tentando terceirizar seus atos irresponsáveis.
A ex-presidente que se esforçava para parecer uma pessoa valente, de caráter inquebrantável e determinada, uma mulher guerreira, dona do seu nariz, não passava de um objeto manipulável à frente do governo. Quando tinha que decidir sobre os assuntos mais delicados da nação viajava para São Paulo para se aconselhar com Lula, o cara que de fato governava o país pela terceira vez. Não dava um passo sem pedir orientação ao antecessor. E quando tentou agir sozinha, teve que recuar para não contrariar o parceiro. Nos últimos meses de governo foi repreendida até mesmo pelo fundamentalista Rui Falcão, presidente do PT, quando tentava se assanhar para mexer no ministério escolhido pelo partido.
Antes de ser afastada da presidência, submeteu-se ao vexame de nomear Lula ministro na Casa civil para evitar a sua prisão. Por isso está sendo processada por tentar obstruir o trabalho da justiça. Não escondeu do país a sua submissão a cúpula do PT mesmo sabendo que estaria colocando à prova a sua capacidade de gerenciar o país. Nessa altura, mostrava-se dominada e a reboque do partido. Usou de um truque sórdido e reprovável para salvar a pele de Lula que estava na bica de ser preso. Naquele momento, diante daquele ato extravagante, o Brasil já estava ingovernável com os movimentos sociais nas ruas pedindo sua cabeça.
Todas as vezes que tentou se proteger em momentos de crise evocou a sua história de luta contra a ditadura como se ela, sozinha, tivesse enfrentado os militares. Ao ser inquirida, ouviu de alguns senadores que não estava sendo julgada pelo seu passado, mas tão somente pelo seu presente. E que os mais de 50 milhões de votos, segundo o senador Ricardo Ferraço, não lhes serviam como salvo conduto para ela destroçar a economia e acobertar os maiores escândalos de corrupção do país.
As ações da Dilma e os seus atos de fraqueza à frente da presidência só serviram para mostrar ao povo brasileiro que a sua principal representante, eleita para proteger e defender a nação, não passava de uma marionete submissa a um grupo que se organizou para se perpetuar no poder sangrando os cofres públicos.
A tão propalada valentia da ex-presidente espalhada por seus áulicos, na verdade, servia para esconder a fraqueza e a fragilidade do caráter de uma presidente que deixou o poder sem exercê-lo porque, de fato, nunca governou com autonomia.
O que o Brasil poderia esperar de uma pessoa que falsificou o próprio currículo para se qualificar? Nada. Essa notícia apareceu durante a primeira eleição e ela para se justificar culpou os redatores da campanha pelo equívoco. Ora, nenhum assessor de bom senso vai rechear o currículo de um candidato se não for autorizado. Se ela foi capaz de adulterar o próprio histórico da sua vida acadêmica, certamente o pais não poderia esperar dela atos honestos na presidência da república.
A mania de não se responsabilizar por suas ações também se caracterizou quando ela negou a própria assinatura na compra da refinaria de Pasadena que lesou os cofres da Petrobrás em 1 bilhão de dólares. Denunciada, logo tentou se justificar com o argumento de que teria sido enganada pelos diretores da Petrobrás antes que o escândalo ferisse de morte o seu mandato. Não adiantou. Ao depor na delação premiada, Nestor Cerveró, assegurou ao juiz Sérgio Moro que a Dilma sabia o que estava assinando. Portanto, ela, então presidente do Conselho da Petrobrás, foi de fato quem autorizou a compra da geringonça.
Essas falhas de caráter da ex-presidente foram ficando mais evidentes durante os dois mandatos. Agora, no segundo, quando esteve frente à frente com os senadores para se defender das pedaladas, as mentiras saiam da sua boca com a leveza das verdades. Sustentou durante todo o depoimento que não cometeu nenhum crime fiscal, quando todas os indícios apontavam ter sido ela a autora da manipulação dos empréstimos aos bancos oficiais. Chegou a insinuar que os seus amigos gaúchos no Banco Central teriam sido os responsáveis pelas pedaladas, tentando terceirizar seus atos irresponsáveis.
A ex-presidente que se esforçava para parecer uma pessoa valente, de caráter inquebrantável e determinada, uma mulher guerreira, dona do seu nariz, não passava de um objeto manipulável à frente do governo. Quando tinha que decidir sobre os assuntos mais delicados da nação viajava para São Paulo para se aconselhar com Lula, o cara que de fato governava o país pela terceira vez. Não dava um passo sem pedir orientação ao antecessor. E quando tentou agir sozinha, teve que recuar para não contrariar o parceiro. Nos últimos meses de governo foi repreendida até mesmo pelo fundamentalista Rui Falcão, presidente do PT, quando tentava se assanhar para mexer no ministério escolhido pelo partido.
Antes de ser afastada da presidência, submeteu-se ao vexame de nomear Lula ministro na Casa civil para evitar a sua prisão. Por isso está sendo processada por tentar obstruir o trabalho da justiça. Não escondeu do país a sua submissão a cúpula do PT mesmo sabendo que estaria colocando à prova a sua capacidade de gerenciar o país. Nessa altura, mostrava-se dominada e a reboque do partido. Usou de um truque sórdido e reprovável para salvar a pele de Lula que estava na bica de ser preso. Naquele momento, diante daquele ato extravagante, o Brasil já estava ingovernável com os movimentos sociais nas ruas pedindo sua cabeça.
Todas as vezes que tentou se proteger em momentos de crise evocou a sua história de luta contra a ditadura como se ela, sozinha, tivesse enfrentado os militares. Ao ser inquirida, ouviu de alguns senadores que não estava sendo julgada pelo seu passado, mas tão somente pelo seu presente. E que os mais de 50 milhões de votos, segundo o senador Ricardo Ferraço, não lhes serviam como salvo conduto para ela destroçar a economia e acobertar os maiores escândalos de corrupção do país.
As ações da Dilma e os seus atos de fraqueza à frente da presidência só serviram para mostrar ao povo brasileiro que a sua principal representante, eleita para proteger e defender a nação, não passava de uma marionete submissa a um grupo que se organizou para se perpetuar no poder sangrando os cofres públicos.
A tão propalada valentia da ex-presidente espalhada por seus áulicos, na verdade, servia para esconder a fraqueza e a fragilidade do caráter de uma presidente que deixou o poder sem exercê-lo porque, de fato, nunca governou com autonomia.
Tempos de expressão superlativa
Os estilos da galinha e da pata servem para comparar protagonistas da política. A primeira põe um ovo pequenino, mas cacareja e todo mundo vê, enquanto a segunda põe um ovo maior e ninguém nota. O ovo da pata, segundo os nutricionistas, é mais completo que o da galinha, mas é este que gera atenção, intenção, desejo e ação – a fórmula AIDA – para estimular seu consumo. E o êxito se deve porque a fêmea do galo sabe alardear seu produto, cumprindo rigorosamente o preceito maquiavélico: “o vulgo só julga aquilo que vê.”
Para compreender como o cacarejo adquiriu importância central em tempos de campanha eleitoral, é oportuno lembrar as tintas que desenham nossa identidade. Os estudiosos do ethos nacional costumam apontar, entre os valores que o plasmam, a falta de precisão, a adjetivação excessiva, o individualismo, a propensão ao exagero. Somos um povo de linguagem destemperada e de pensar fluido, indeterminado, misterioso. Por isso o Brasil passeia na gangorra, ora sendo o “melhor dos melhores”, ora figurando no pior dos mundos. Ainda como pano de fundo para a verborragia, o País manteve, apesar da dimensão continental, a unidade linguística, o que facilita a capilarização de ideias e robustece a matriz do pensamento. Sob essa configuração, tem sido fácil aos nossos governantes pôr um aditivo no verbo e exagerar o tamanho de seus esforços. Por isso, em relação aos feitos administrativos, a verdade acaba bem antes do final dos relatos.
Foi um marco: toda a Imprensa aclamava aquilo que deveria ser o fim definitivo do flagelo da inflação, o Plano Cruzado. As donas de casa se autoproclamavam fiscais do Sarney e corriam aos supermercados para vigiar os preços congelados. Os empresários se viram acuados.
Mas economistas sérios e apartidários alertavam para aquele voo de galinha, pois congelamento de preço de bens, serviços e taxa de câmbio nunca foi remédio eficaz contra a inflação.
Resumo da ópera: passada a eleição daquele ano, com preços congelados, a coligação governista PMDB-PFL conseguiu 77% das cadeiras do Congresso Nacional. Em seguida a inflação rompeu os diques da represa e explodiu. Foi um dos maiores estelionatos eleitorais da história e o povo pagou caro, com inflação de mais de 50% ao mês.
Falácias assim acabaram frustrando a população. Perplexos, assistimos depois ao marketing exacerbado do furacão Collor – vendido como “Caçador de Marajás”. O confisco da poupança ficou escondida do cacarejo. Os brasileiros tomaram um susto. Entramos depois na era palanqueira de Luiz Inácio, que durou dois mandatos. O gogó deu o tom geral até desembocarmos nos tempos de atropelo linguístico da presidente Dilma. Que foi apresentada à população como gerente de alta qualidade. A expressão, em todo o ciclo petista, dividiu o país ao meio: nós e eles. Esse foi o bordão repetido à exaustão.
Vamos aguardar. A título de curiosidade, lembremo-nos de Temístocles, o altivo ateniense, não era de cacarejar. Convidado para tocar cítara numa festa, o general declinou: “Não sei música, o que sei é fazer de uma pequena vila uma grande cidade.” Regra geral, nossos governantes das três esferas federativas, afinando o tom com o maior dos tocadores, não hesitam em aceitar convites para manejar cítara, clarineta ou trombone. Abandonam o foco. Grande parte prefere trombetear no marketing que fazer de suas cidades e Estados territórios desenvolvidos e civilizados. O momento de cantar loas a si mesmo é este dos tempos eleitorais. Promessas mirabolantes são trombeteadas na mídia eleitoral. Exageros se multiplicam. Municípios passam a ter todos os seus problemas equacionados: educação de alta qualidade, transportes coletivos modernos, rápidos e confortáveis, sistemas de saúde salvadores.
Muitos se banham na fonte das grandes ideias. Esquecem-se do ensinamento de Gogol: “Não é por culpa do espelho que as pessoas têm uma cara errada.” É a ruína que o modelo pirotécnico de prometer coisas oferece ao Brasil.
Não se questiona a necessidade de candidatos e governantes comunicarem aos seus públicos ações e diretrizes de seus governos. Mas é seu dever comprovar a viabilidade de suas promessas, o que exige comunicação séria, livre de firulas. A mensagem deve ser apropriada. O que é mensagem apropriada? Na seara dos candidatos, é o acerto de boas propostas. O que é desapropriado? O uso da mentira, das versões fantasiosas, dos verbos populistas, enfim, da expressão superlativa: somos os maiores, os melhores, os mais qualificados, os mais adequados ao município. O Brasil carece enterrar a venda de ilusões, as mentiras, o engodo.
O cacarejo da glória
Antes mesmo de divisarmos as primeiras pontes que nos conduziram ao Estado-Midiático da era moderna, nossos mandatários, com muito cacarejo, acrescentavam palmos de altura ao seu tamanho, elevando as benesses dos governos e a grandeza das Nações. Basta olhar para os contornos do Estado Novo, emoldurados pelas cores do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) getulista. Mergulhamos nas águas do Brasil potência, sob a onisciente comunicação do ciclo militar. Resgatamos os albores democráticos, a partir de 1986, com o governo Sarney, ouvindo mais uma vez cacarejos que vendiam as glórias de planos econômicos.Foi um marco: toda a Imprensa aclamava aquilo que deveria ser o fim definitivo do flagelo da inflação, o Plano Cruzado. As donas de casa se autoproclamavam fiscais do Sarney e corriam aos supermercados para vigiar os preços congelados. Os empresários se viram acuados.
Mas economistas sérios e apartidários alertavam para aquele voo de galinha, pois congelamento de preço de bens, serviços e taxa de câmbio nunca foi remédio eficaz contra a inflação.
Resumo da ópera: passada a eleição daquele ano, com preços congelados, a coligação governista PMDB-PFL conseguiu 77% das cadeiras do Congresso Nacional. Em seguida a inflação rompeu os diques da represa e explodiu. Foi um dos maiores estelionatos eleitorais da história e o povo pagou caro, com inflação de mais de 50% ao mês.
Falácias assim acabaram frustrando a população. Perplexos, assistimos depois ao marketing exacerbado do furacão Collor – vendido como “Caçador de Marajás”. O confisco da poupança ficou escondida do cacarejo. Os brasileiros tomaram um susto. Entramos depois na era palanqueira de Luiz Inácio, que durou dois mandatos. O gogó deu o tom geral até desembocarmos nos tempos de atropelo linguístico da presidente Dilma. Que foi apresentada à população como gerente de alta qualidade. A expressão, em todo o ciclo petista, dividiu o país ao meio: nós e eles. Esse foi o bordão repetido à exaustão.
Um calvário de amarguras
O cacarejo atingiu o clímax. O Brasil foi elevado à máxima potência em matéria de igualdade social, assistencialismo, redenção dos marginalizados, progresso material, enfim, o país nunca foi tão feliz. Mas quando o discurso ultrapassa os limites do bom senso, vira um bumerangue. Onde está a grandeza do ciclo petista? Os 30 milhões que teriam ascendido ao meio da pirâmide estão descendo para a base. O rombo de 170 bilhões nas contas públicas mostra a desorganização do sistema petista de governar. Os 12 milhões de desempregados vivem um calvário de amarguras. A inflação alta consome os parcos recursos das margens carentes. Felizmente, o modelo petista de governar chega ao fim. A era Michel Temer se inicia. Um novo modelo de governar se abre. Temer quer inaugurar o presidencialismo mitigado, um governo compartilhado com o Congresso Nacional.Vamos aguardar. A título de curiosidade, lembremo-nos de Temístocles, o altivo ateniense, não era de cacarejar. Convidado para tocar cítara numa festa, o general declinou: “Não sei música, o que sei é fazer de uma pequena vila uma grande cidade.” Regra geral, nossos governantes das três esferas federativas, afinando o tom com o maior dos tocadores, não hesitam em aceitar convites para manejar cítara, clarineta ou trombone. Abandonam o foco. Grande parte prefere trombetear no marketing que fazer de suas cidades e Estados territórios desenvolvidos e civilizados. O momento de cantar loas a si mesmo é este dos tempos eleitorais. Promessas mirabolantes são trombeteadas na mídia eleitoral. Exageros se multiplicam. Municípios passam a ter todos os seus problemas equacionados: educação de alta qualidade, transportes coletivos modernos, rápidos e confortáveis, sistemas de saúde salvadores.
Muitos se banham na fonte das grandes ideias. Esquecem-se do ensinamento de Gogol: “Não é por culpa do espelho que as pessoas têm uma cara errada.” É a ruína que o modelo pirotécnico de prometer coisas oferece ao Brasil.
Não se questiona a necessidade de candidatos e governantes comunicarem aos seus públicos ações e diretrizes de seus governos. Mas é seu dever comprovar a viabilidade de suas promessas, o que exige comunicação séria, livre de firulas. A mensagem deve ser apropriada. O que é mensagem apropriada? Na seara dos candidatos, é o acerto de boas propostas. O que é desapropriado? O uso da mentira, das versões fantasiosas, dos verbos populistas, enfim, da expressão superlativa: somos os maiores, os melhores, os mais qualificados, os mais adequados ao município. O Brasil carece enterrar a venda de ilusões, as mentiras, o engodo.
De si sobre si
No século IV a. C. começou oficialmente a filosofia, para o pensamento e para a vida. Nos seus últimos cursos no Collège de France, Foucault formulou a hipótese de que o grande mandamento socrático fundador não tenha sido o famoso “conhece-te a ti mesmo”, mas um menos festejado “cuida de ti’’. Pois só quem cuida de si pode vir a se conhecer. E quem não cuida de si, como haverá de cuidar da cidade? — Uma pergunta a um só tempo ética, psicológica e política. Assim, colada na vida, longe dos sistemas fechados, autossuficientes, teria nascido a filosofia.
Depois bifurcou. A questão do conhecimento predominou sobre a do cuidado, e a filosofia foi se tornando um sistema de conhecimento da verdade. O sujeito tem direito natural à verdade. Ela se esconde. A filosofia a procura. Às vezes a encontra. Esse é o feito dos grandes sistemas, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant. Essa filosofia veio a predominar sobre aquela outra, mais modesta, do cuidado de si. Para marcar a diferença, Foucault reservou o nome “filosofia” para a vontade de sistema. E (espantosamente para quem o vinha lendo até seus prodigiosos três últimos anos de vida e pensamento) deu à outra o nome de “espiritualidade”. — Olhando o nosso tempo devagar, com olho crítico mas amoroso, parece que é da espiritualidade que andamos supernecessitados. De voltarmos a perguntar a nós mesmos, e uns aos outros: “Estamos cuidando de nós?”. Porque parece que não.
O cultivo do cuidado, do trabalho de si sobre si, como desde cedo o chamaram, ficou nas mãos das “escolas menores”. Aquelas que um dia, aqui, selecionei para o meu segundo time. Agora penso se esse não foi um erro estratégico. Talvez andemos mais precisados dos estoicos, epicuristas, cínicos e céticos do que dos grandes formuladores de sistemas. Os sistemas talvez nos roubem hoje o ar, que ficou pouco e sujo. Quem sabe esse sufocamento seja o sentido do ‘fim da filosofia’ que os pós-modernos gostam de proclamar. Não sei. Se for, erraram o alvo de novo. Porque lá do passado os filósofos ‘menores’ não deixaram de olhar para nós. Tornaram-se atuais. E precisamos deles.
Em comum, essas escolas tiveram um axioma não explicitado, mas poderoso a mais não poder: o sujeito não tem direito à verdade; ela resulta de um trabalho de si sobre si; nesse trabalho o sujeito se transforma, faz-se diferente do que era — e a verdade vem ao seu encontro. A lida com o verdadeiro não se passa diretamente na relação da alma com as coisas do mundo, mas na da alma consigo mesma. — Essa é uma ideia cuja beleza deixamos depois escapar. Encantamo-nos com a potência das lógicas e dialéticas e descuidamos de nós mesmos, da nossa substância ética. Santo Agostinho entreviu essa dimensão da filosofia. Pascal, de um modo torturado. Nietzsche. Poucos. Mas a ideia continua aí. Podemos ainda pegá-la com nossas mãos tornadas inábeis para ela. E apressadas pelo nosso tempo hiperacelerado. Ela pede calma, serenidade e vagar. Digo que podemos reaprender essas virtudes inúteis.
O esforço fundamental dessas antigas escolas consistia em pôr-se alguém diante de si mesmo e perguntar: “Em que sou menos do que podia ser? Como posso cuidar de mim para merecer a verdade — e ser feliz?’’ Essa é, já se vê, uma questão de ordem prática. Ética. Política. Não constrói estritamente sistemas de conhecimento. Constrói vidas.
O trabalho de si sobre si tinha suas etapas e técnicas. Exigia esforço e vontade. Começava com esse exame de si, que mais tarde os cristãos chamaram “exame de consciência”. Um exame de vida. Passava por práticas de abstenção, de ascese daquilo que nos afastava de nós. Em seguida, um esforço para elevarmo-nos acima de nós mesmos. Um trabalho de transcendência. Nele, se bem executado, é que, de repente, a verdade, a que o sujeito não tinha direito originário, saltava do seu escondimento e vinha, ela, ao seu encontro. A verdade de si e do mundo. Coisa pequena, nenhuma epifania. Mas esse era o momento da felicidade.
Como a felicidade é coisa para ser dividida, esses filósofos conversavam com quem desejasse encontrar seu próprio caminho. Não doutrinavam. Escreviam cartas. Reuniam-se para trocar ideias no jardim. Cícero e Sêneca, estoicos, escreveram cartas. Marco Aurélio, imperador e filósofo, escreveu um diário. Epicuro abriu um jardim para a conversação de homens e mulheres em busca da felicidade. Lucrécio, epicurista, compôs um belíssimo poema. Por ali o pensamento corria, leve, levando em consideração as pessoas e seu esforço de viver.
Reaprenderemos, nós, os do ocaso do Ocidente, viciados em sistemas fechados e contas grandes, a escrever cartas de sabedoria, a registrar em diários nosso trabalho sobre nós mesmos? A criar poemas? A passear pelos jardins? — Não sei. Mas devíamos tentar. Antes que a noite caia. Antes que o amor acabe
Marcio Tavares D’amaral
Depois bifurcou. A questão do conhecimento predominou sobre a do cuidado, e a filosofia foi se tornando um sistema de conhecimento da verdade. O sujeito tem direito natural à verdade. Ela se esconde. A filosofia a procura. Às vezes a encontra. Esse é o feito dos grandes sistemas, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant. Essa filosofia veio a predominar sobre aquela outra, mais modesta, do cuidado de si. Para marcar a diferença, Foucault reservou o nome “filosofia” para a vontade de sistema. E (espantosamente para quem o vinha lendo até seus prodigiosos três últimos anos de vida e pensamento) deu à outra o nome de “espiritualidade”. — Olhando o nosso tempo devagar, com olho crítico mas amoroso, parece que é da espiritualidade que andamos supernecessitados. De voltarmos a perguntar a nós mesmos, e uns aos outros: “Estamos cuidando de nós?”. Porque parece que não.
O cultivo do cuidado, do trabalho de si sobre si, como desde cedo o chamaram, ficou nas mãos das “escolas menores”. Aquelas que um dia, aqui, selecionei para o meu segundo time. Agora penso se esse não foi um erro estratégico. Talvez andemos mais precisados dos estoicos, epicuristas, cínicos e céticos do que dos grandes formuladores de sistemas. Os sistemas talvez nos roubem hoje o ar, que ficou pouco e sujo. Quem sabe esse sufocamento seja o sentido do ‘fim da filosofia’ que os pós-modernos gostam de proclamar. Não sei. Se for, erraram o alvo de novo. Porque lá do passado os filósofos ‘menores’ não deixaram de olhar para nós. Tornaram-se atuais. E precisamos deles.
Em comum, essas escolas tiveram um axioma não explicitado, mas poderoso a mais não poder: o sujeito não tem direito à verdade; ela resulta de um trabalho de si sobre si; nesse trabalho o sujeito se transforma, faz-se diferente do que era — e a verdade vem ao seu encontro. A lida com o verdadeiro não se passa diretamente na relação da alma com as coisas do mundo, mas na da alma consigo mesma. — Essa é uma ideia cuja beleza deixamos depois escapar. Encantamo-nos com a potência das lógicas e dialéticas e descuidamos de nós mesmos, da nossa substância ética. Santo Agostinho entreviu essa dimensão da filosofia. Pascal, de um modo torturado. Nietzsche. Poucos. Mas a ideia continua aí. Podemos ainda pegá-la com nossas mãos tornadas inábeis para ela. E apressadas pelo nosso tempo hiperacelerado. Ela pede calma, serenidade e vagar. Digo que podemos reaprender essas virtudes inúteis.
O esforço fundamental dessas antigas escolas consistia em pôr-se alguém diante de si mesmo e perguntar: “Em que sou menos do que podia ser? Como posso cuidar de mim para merecer a verdade — e ser feliz?’’ Essa é, já se vê, uma questão de ordem prática. Ética. Política. Não constrói estritamente sistemas de conhecimento. Constrói vidas.
O trabalho de si sobre si tinha suas etapas e técnicas. Exigia esforço e vontade. Começava com esse exame de si, que mais tarde os cristãos chamaram “exame de consciência”. Um exame de vida. Passava por práticas de abstenção, de ascese daquilo que nos afastava de nós. Em seguida, um esforço para elevarmo-nos acima de nós mesmos. Um trabalho de transcendência. Nele, se bem executado, é que, de repente, a verdade, a que o sujeito não tinha direito originário, saltava do seu escondimento e vinha, ela, ao seu encontro. A verdade de si e do mundo. Coisa pequena, nenhuma epifania. Mas esse era o momento da felicidade.
Como a felicidade é coisa para ser dividida, esses filósofos conversavam com quem desejasse encontrar seu próprio caminho. Não doutrinavam. Escreviam cartas. Reuniam-se para trocar ideias no jardim. Cícero e Sêneca, estoicos, escreveram cartas. Marco Aurélio, imperador e filósofo, escreveu um diário. Epicuro abriu um jardim para a conversação de homens e mulheres em busca da felicidade. Lucrécio, epicurista, compôs um belíssimo poema. Por ali o pensamento corria, leve, levando em consideração as pessoas e seu esforço de viver.
Reaprenderemos, nós, os do ocaso do Ocidente, viciados em sistemas fechados e contas grandes, a escrever cartas de sabedoria, a registrar em diários nosso trabalho sobre nós mesmos? A criar poemas? A passear pelos jardins? — Não sei. Mas devíamos tentar. Antes que a noite caia. Antes que o amor acabe
Marcio Tavares D’amaral
Apoio à democracia cai na América Latina com economia fraca e corrupção
A crise econômica, os escândalos de corrupção e a insatisfação com os serviços públicos estão fazendo estragos na opinião que os latino-americanos têm da democracia, um regime que se consolidou em quase toda a região, mas cujo exercício não consegue satisfazer os cidadãos. De acordo com o Latinobarómetro – um prestigioso estudo regional que está completando 20 anose analisa 20.000 pesquisas realizadas nos 18 principais países da América Latina–, o apoio à democracia caiu novamente em 2016. O respaldo passou de 56% para 54%. E o que é mais grave, cresceu a porcentagem daqueles que respondem ser “indiferentes” se há um regime democrático ou não, passando de 20% para 23%. É o máximo de indiferentes nos 21 anos do Latinobarómetro. Em 14 dos 18 países pesquisados a popularidade dos Governos está abaixo dos 50%.
| Maentis |
O Brasil lidera o pessimismo com a democracia: o apoio a esta forma de poder diminuiu 22 pontos porcentuais no país, passando de 54% em 2015 para 32% neste ano. Numa lista de 18 países, o Brasil é o segundo país mais pessimista, à frente apenas da Guatemala (30%). O Brasil só havia atingido uma marca tão baixa em 2001, quando chegou a 30%. Foi um ano de economia fraca e do apagão nacional de energia, que tirou o humor dos brasileiros. Agora, a crise política e os escândalos de corrupção podem explicar o desânimo nacional. Esse contexto explica também outro indicador da pesquisa: o Brasil é o país com menos confiança interpessoal do continente, com meros 3%, enquanto a média do continente é de 17%. “Nunca havia sido registrado um país sem confiança interpessoal desde que esta série começou a ser medida [em 1995]. Sem dúvida, a crise política que o Brasil vive é um dos fatores que explica esse dado”, diz o relatório.
Nas entrevistas, a pergunta feita aos participantes é: Você acredita que é possível confiar na maioria das pessoas ou que a gente nunca é suficientemente cuidadoso no trato com os demais?
O Chile é outro país que registrou uma queda significativa no apoio à democracia, passando de 65% para 54%, um recuo de 11 pontos porcentuais, seguido por Uruguai (-8 pontos porcentuais), Venezuela e Nicarágua (-7) e El Salvador (-5).
O único dado positivo da pesquisa Latinobarómetro é que não cresceram, mas diminuíram ligeiramente, os que apoiam um “regime autoritário”, que passaram de 16% para 15%.
Este é o quarto ano consecutivo que, apesar dos teóricos avanços e da chegada de novas gerações que nasceram na democracia, o apoio a esse regime não melhora. “O apoio à democracia na América Latina tem três pontos baixos nestes 21 anos que o Latinobarómetro mede esse indicador: a crise asiática em 2001, quando atingiu 48%, e em 2007 e 2016 com 54%”, explicam as conclusões. Pode-se dizer que “o paciente está em estado delicado, com algumas recaídas”, insiste a análise.
Os autores do estudo, dirigido pela chilena Marta Lagos, interrogam sobre as causas e encontram algumas nos dados analisados. “Depois de 21 anos monitorando o apoio à democracia, a situação é pior do que no início. O que aconteceu com a região, além de entrar num período de baixo ou nenhum crescimento econômico? Será que o ciclo econômico impede o avanço do processo de consolidação da democracia? Os dados sugerem algo diferente porque o apoio à democracia aumentou durante a crise do subprime em 2008 e 2009, quando a economia estava indo na direção oposta e atingiu um pico em 2010, com 61%. Só a partir de 2010 aconteceu uma queda, o que indicaria que a economia não é o único fator que influi”, apontam.
Multidões com um olho só
Os jovens de agora, por exemplo, sequer vislumbram um Brasil independente da esquerda, especificamente do petismo. Estão, como estiveram seus pais, à mercê de narrativas cuidadosamente enredadas na mídia, nas escolas e universidades; hoje em dia também difundidas nas redes sociaisMario Vitor Rodrigues
A gente somos inútil
Dia desses ouvi uma piada segunda a qual, quando da Criação, nosso país teria sido privilegiado com riquezas imensas e poupado da maioria dos desastres naturais para compensar o Zé-Povinho que seria colocado aqui. De tão repetida, esta desagradável ironia virou verdade aceita: a culpa pelo atraso do Brasil é do Zé-Povinho.
Menos lembrada, porém de muito maior importância, é uma acusação terrível feita por ninguém menos que Theodore Roosevelt, o 26º presidente dos EUA: Por detrás do Governo ostensivo acha-se um Governo invisível, que não deve fidelidade nem reconhece qualquer responsabilidade perante o povo. Destruir este Governo invisível, dissolver esta maligna aliança entre negócios corruptos e política corrupta, há que ser a primeira tarefa de Estado. Este país pertence ao povo. Seus recursos, seus negócios, suas leis, suas instituições, deveriam ser utilizadas, mantidas ou alteradas somente da maneira que melhor atendesse o interesse coletivo.
Curiosa, esta frase. No final das contas, que Governo invisível é esse? Será que ele existe só lá nos Estados Unidos? Seria ele o responsável por muitas das mazelas inexplicáveis que afligem a humanidade?
Como explicar, por exemplo, a opção rodoviária feita pelos brasileiros, habitantes de um país de dimensões continentais? Por conta de termos negligenciado os transportes marítimo e ferroviário, passamos as décadas a morrer aos milhares em rodovias que mais parecem matadouros. Está aí a culpa do Zé-Povinho ou deste tal Governo invisível?
Qual a explicação para o fato de dependermos tanto de exportar recursos naturais a preço de banana, para importá-los depois a peso de ouro sob a forma de produtos industrializados? Quem ganha com isso? Seria obra do Zé-Povinho ou do tal Governo invisível?
Como compreendermos o brutal processo de desindustrialização e internacionalização a que nossa economia foi submetida no século passado? Como se explica a entrega de vastos setores - os mais lucrativos, diga-se de passagem - ao capital estrangeiro? Quem lucra com isso? O Zé-Povinho ou este Governo invisível mencionado pelo ex-presidente norte-americano?
E o pagamento de juros? É difícil de entender como chegamos a um ponto no qual os recursos que destinamos no orçamento de 2006 para custear a Previdência Social, a Assistência Social, a Saúde, a Educação, o Trabalho, a Reforma Agrária, a Segurança Pública, o Urbanismo, a Habitação, os Direitos da Cidadania, o Desporto e Lazer, a Cultura e até o Saneamento, somados, deram apenas R$ 317,9 bilhões - R$ 7,9 bilhões a menos do que pagamos só de juros naquele ano. Este descalabro histórico seria culpa do Zé-Povinho ou deste Governo invisível?
Curiosamente, os brasileiros pouco falam sobre tudo isso. Vivem - como de resto a maioria dos outros povos - praticamente em um estado de alienação, desinformados sobre a natureza e extensão de problemas nacionais os mais sérios. Seria isso obra do Zé-Povinho ou deste famoso e penumbrento Governo invisível?
Acorde. Olhe em volta. Perceba que estamos todos a viver em um mundo, em um país, totalmente sem lógica - que somente a existência de um Governo invisível pode explicar. Somos, cada um de nós, vítimas dele. Combatê-lo não importa em qual esfera for é nosso dever, sob pena de, em não muito tempo, chegarmos aos portais da eternidade cantarolando o refrão da famosa música do grupo Ultraje a Rigor: inútil, a gente somos inútil.
Menos lembrada, porém de muito maior importância, é uma acusação terrível feita por ninguém menos que Theodore Roosevelt, o 26º presidente dos EUA: Por detrás do Governo ostensivo acha-se um Governo invisível, que não deve fidelidade nem reconhece qualquer responsabilidade perante o povo. Destruir este Governo invisível, dissolver esta maligna aliança entre negócios corruptos e política corrupta, há que ser a primeira tarefa de Estado. Este país pertence ao povo. Seus recursos, seus negócios, suas leis, suas instituições, deveriam ser utilizadas, mantidas ou alteradas somente da maneira que melhor atendesse o interesse coletivo.
Curiosa, esta frase. No final das contas, que Governo invisível é esse? Será que ele existe só lá nos Estados Unidos? Seria ele o responsável por muitas das mazelas inexplicáveis que afligem a humanidade?

Como explicar, por exemplo, a opção rodoviária feita pelos brasileiros, habitantes de um país de dimensões continentais? Por conta de termos negligenciado os transportes marítimo e ferroviário, passamos as décadas a morrer aos milhares em rodovias que mais parecem matadouros. Está aí a culpa do Zé-Povinho ou deste tal Governo invisível?
Qual a explicação para o fato de dependermos tanto de exportar recursos naturais a preço de banana, para importá-los depois a peso de ouro sob a forma de produtos industrializados? Quem ganha com isso? Seria obra do Zé-Povinho ou do tal Governo invisível?
Como compreendermos o brutal processo de desindustrialização e internacionalização a que nossa economia foi submetida no século passado? Como se explica a entrega de vastos setores - os mais lucrativos, diga-se de passagem - ao capital estrangeiro? Quem lucra com isso? O Zé-Povinho ou este Governo invisível mencionado pelo ex-presidente norte-americano?
E o pagamento de juros? É difícil de entender como chegamos a um ponto no qual os recursos que destinamos no orçamento de 2006 para custear a Previdência Social, a Assistência Social, a Saúde, a Educação, o Trabalho, a Reforma Agrária, a Segurança Pública, o Urbanismo, a Habitação, os Direitos da Cidadania, o Desporto e Lazer, a Cultura e até o Saneamento, somados, deram apenas R$ 317,9 bilhões - R$ 7,9 bilhões a menos do que pagamos só de juros naquele ano. Este descalabro histórico seria culpa do Zé-Povinho ou deste Governo invisível?
Curiosamente, os brasileiros pouco falam sobre tudo isso. Vivem - como de resto a maioria dos outros povos - praticamente em um estado de alienação, desinformados sobre a natureza e extensão de problemas nacionais os mais sérios. Seria isso obra do Zé-Povinho ou deste famoso e penumbrento Governo invisível?
Acorde. Olhe em volta. Perceba que estamos todos a viver em um mundo, em um país, totalmente sem lógica - que somente a existência de um Governo invisível pode explicar. Somos, cada um de nós, vítimas dele. Combatê-lo não importa em qual esfera for é nosso dever, sob pena de, em não muito tempo, chegarmos aos portais da eternidade cantarolando o refrão da famosa música do grupo Ultraje a Rigor: inútil, a gente somos inútil.
Humanidade matou 144 mil elefantes em sete anos, 30% dos que restavam

A conservação da natureza africana é uma guerra de morte. E não é uma metáfora. Diretores de parques nacionais, como o espanhol Luis Arranz, que dirigiu o de Garamba, na República Democrática do Congo, reconhecem que armam seus guarda florestais no mercado negro. Os inimigos da fauna africana são caçadores clandestinos que empunham fuzis Kalashnikov, mas também grupos armados como os extremistas cristãos do Exército de Resistência do Senhor, em Uganda, ou os fundamentalistas islâmicos do Boko Haram, na Nigéria, que se financiam com a venda do marfim dos elefantes. Somente no Parque Nacional de Virunga, vizinho de Garamba, morreram assassinados 150 patrulheiros na última década. Os últimos, Fidèle Mulonga Mulegalega, de 25 anos, e Venant Mumbere Muvesevese, de 35, mortos a tiros em março pelas milícias Mai Mai.
A cada 15 minutos morre um elefante na África. “A vaidade, para exibir colares e pulseiras de marfim, está provocando uma demanda que faz disparar a matança de elefantes”, lamentou neste sábado Anthony Banbury, um antigo alto funcionário das Nações Unidas que agora dirige os projetos de filantropia do multimilionário Paul Allen, cofundador da Microsoft. Banbury apresentou neste sábado os resultados do esperado primeiro censo continental de elefantes, durante o Congresso Mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que se realiza até 10 de setembro em Honolulu (EUA).
Toda oferta de marfim, incluídos os mercados nacionais legais, cria oportunidades para a lavagem do marfim ilegal sob uma aparência de legalidade
Congresso Mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN)
Há um ano o presidente norte-americano, Barack Obama, e seu homólogo chinês, Xi Jinping, anunciaram um acordo para a proibição “quase completa” da importação e exportação de marfim, com exceções como os troféus de caça esportiva devidamente documentados. A China é o grande mercado negro do marfim, considerado um símbolo de status social. “É preciso proibir também o comércio de marfim dentro dos países. Se conseguirmos que todo o comércio de marfim seja ilegal, veremos recuperações muito importantes das populações de elefantes”, declarou em Honolulu o ecologista norte-americano James Deutsch, vice-presidente da Wildlife Conservation Society.
“É preciso conseguir valorizar economicamente os elefantes vivos para que as comunidades locais ganhem dinheiro com eles e os defendam. Uma forma óbvia é o turismo, mas é preciso desenvolver outras”, afirmou Deutsch. Calcula-se que um elefante que morra de velhice gere ao longo de sua vida mais dinheiro que 76 congêneres mortos. Os caninos de cada exemplar são vendidos por cerca de 22.000 euros (cerca de 80.000 reais).
sábado, 3 de setembro de 2016
'Apesar de você, amanhã há de ser outro dia'
Ninguém é capaz de expressar sentimentos como os poetas. Sejam os nossos sentimentos ou os do conjunto de uma sociedade. E a poesia fala várias línguas ao mesmo tempo.
No Brasil, existiram poucos poetas como Chico Buarque, o genial letrista e músico que, nos duros anos da ditadura militar, expressou o sentimento da sociedade naquele momento de trevas e dramático.
A letra de uma de suas músicas mais famosas, Apesar de Você, foi à época, e continua sendo hoje, um exemplo da força da poesia, essa que sempre intrigou e irritou os poderes autoritários.
Esse poema de Chico chamou a atenção dos militares que o interrogaram para saber quem era aquele você.
Hoje o Brasil não vive uma ditadura. É uma democracia das mais firmes do continente, mas que começa a mostrar rachaduras.
Hoje o você da canção pode ser muitas coisas, até nós mesmos, que vivemos no Brasil e mostramos pessimismo diante do futuro incerto desse país.
Podem ser os políticos corruptos, que resistem à mudança, os saudosos da autoridade, os cínicos que resistem a aceitar que o Brasil, sua economia, sua democracia, sua esperança no futuro têm que crescer. Os que continuam mais firmes em defender seus direitos e privilégios do que em pensar com generosidade no futuro da sociedade que representam.
Apesar deles, Chico poderia escrever novamente, “amanhã há de ser outro dia”.
E será, porque a sociedade brasileira irá sair mais madura do drama que está vivendo. Apesar das polêmicas e divisões, é uma sociedade que cresceu democraticamente, mais exigente com os políticos e com a democracia.
Uma sociedade que, por exemplo, já não admitiria uma guerra contra a Lava Jato que, pela primeira vez nesse país, está julgando e prendendo essa parcela do poder político e econômico que sempre se sentiu imune às punições.
Hoje, o Brasil sabe melhor do que ontem o que quer e o que não quer.
"Você vai ter que verA manhã renascere esbanjar poesia".Espero que o genial poeta volte hoje a ter razão como teve quando escreveu essa música, que como toda a verdadeira arte, não morre porque é atemporal.
A bagunça política
O PT, nos seus treze anos de reinado, bagunçou não apenas o coreto da economia, mas sobretudo o da política.
Se colocar os números no lugar leva tempo, mais ainda levará a política, que depende de fatores bem mais complexos, ligados a questões de natureza psicossocial, como confiança e credibilidade, que não se improvisam, nem se resolvem com emendas constitucionais, decretos ou projetos de lei.
Se é possível – e necessário – impor um teto aos gastos públicos, não há teto à vista para os estragos da política.
O dano causado pelo golpe de fatiar a Constituição em plenário, numa votação que era única, e que só poderia ser única, piorou o que já não prestava. O poço parece já não ter fundo.
Mas o truque saiu pela culatra: se o objetivo era – e foi – livrar Dilma de Sérgio Moro, nomeando-a secretária de Estado de algum governador amigo, a reação havida foi – está sendo - de tal porte que é improvável que alguém, por mais fiel a ela, tenha a coragem de lhe encaminhar tal convite. A menos, claro, que queira ir para o inferno com ela. Em política, até cumplicidade tem limite.
Não obstante o tamanho da lambança, os políticos só começaram a percebê-la depois da reação indignada da sociedade. E se assustaram. De algum modo, a maioria chancelou o crime (pois é disso que se trata: crime contra a Constituição).
As declarações das principais lideranças – gente como Aloysio Nunes, Aécio Neves, Cássio Cunha Lima, Cristovam Buarque (que apoiou o fatiamento) – eram no sentido de contemporizar.
Ninguém se dispunha a recorrer ao STF. Michel Temer mesmo, embora registrasse sua contrariedade, manteve sua viagem à China no dia mesmo em que recebia em caráter efetivo a Presidência da República e via sua base parlamentar cindida em meio ao caos moral daquela votação. Mais uma vez, os políticos assustaram-se com a reação da sociedade, como se esta pudesse reagir de outra forma.
Assim como não previram as manifestações de rua do ano passado e deste ano – e só as levaram em consideração quando já não era possível ignorá-las -, subestimaram a capacidade reativa diante do estupro à Constituição. E aí, só aí, passaram a considerar a hipótese de ir ao STF, que já recebera recursos de entidades da sociedade civil, que, mais uma vez, se antecipou aos políticos.
Por aí se vê o quanto a política oficial está dissociada do sentimento da sociedade que deveria representar. Não fosse a voz das ruas, o tema do impeachment nem teria entrado na agenda. As instituições só funcionam quando movidas pelo combustível do medo.
A Era PT, pontuada por Mensalão, Petrolão e coisas do gênero, fez com que o absurdo parecesse natural. E fez com que a classe política mergulhasse num autismo do qual parece emergir com grande lentidão e contrariedade.
Algo está mudando – e é de fora para dentro. “A agenda política está nas ruas, não nos gabinetes”, proclama o senador Ronaldo Caiado. O recado é para Temer e os que o cercam.
Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski não o perceberam. O presidente do STF, em dissonância com alguns de seus mais experientes pares, como Celso de Melo e Gilmar Mendes, já declarou que cabe recurso ao impeachment, embora isso não conste da Constituição, que diz que o Senado é instância definitiva e incontrastável para decidir a matéria.
Mas o advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, confiante nos padrões até aqui vigentes, já ingressou no STF com pedido de anulação do impeachment. Lá, ele está convencido, tudo é possível.
Tem razão: até aqui, as teses mais absurdas encontraram eco no STF. Lula, por exemplo, ainda não se encontrou com Sérgio Moro graças ao STF, que segurou o quanto pôde o seu processo, mesmo não tendo ele direito a foro privilegiado. Tem amigos privilegiados, é o que lhe basta – ou bastava.
Os tempos estão mudando, não obstante a resistência dos políticos (e de alguns juízes e procuradores) a que isso aconteça. Mais de 35 milhões de brasileiros assistiram ao impeachment de Dilma peyla televisão aberta, mais gente do que a média de espectadores durante a Olimpíada, que registrou pouco mais de 33 milhões.
As pesquisas eleitorais mostram que o petismo está minguando, com reflexos sobre seus satélites – PSOL, PSTU, Rede. Não há espaço para truques como os de Marina Silva, da Rede, que, depois de meses condenando o impeachment, decide apoiá-lo na última hora, cuidando, porém, de orientar o único senador do partido, Randolfe Rodrigues, a que votasse em favor de Dilma.
A plateia está atenta. Pode até não entender direito o que é pedalada fiscal, mas sabe que quem as cometeu foi a mesma quadrilha que saqueou a Petrobras. E de roubo todo mundo entende.
Se colocar os números no lugar leva tempo, mais ainda levará a política, que depende de fatores bem mais complexos, ligados a questões de natureza psicossocial, como confiança e credibilidade, que não se improvisam, nem se resolvem com emendas constitucionais, decretos ou projetos de lei.
Se é possível – e necessário – impor um teto aos gastos públicos, não há teto à vista para os estragos da política.
O dano causado pelo golpe de fatiar a Constituição em plenário, numa votação que era única, e que só poderia ser única, piorou o que já não prestava. O poço parece já não ter fundo.
Mas o truque saiu pela culatra: se o objetivo era – e foi – livrar Dilma de Sérgio Moro, nomeando-a secretária de Estado de algum governador amigo, a reação havida foi – está sendo - de tal porte que é improvável que alguém, por mais fiel a ela, tenha a coragem de lhe encaminhar tal convite. A menos, claro, que queira ir para o inferno com ela. Em política, até cumplicidade tem limite.
Não obstante o tamanho da lambança, os políticos só começaram a percebê-la depois da reação indignada da sociedade. E se assustaram. De algum modo, a maioria chancelou o crime (pois é disso que se trata: crime contra a Constituição).
As declarações das principais lideranças – gente como Aloysio Nunes, Aécio Neves, Cássio Cunha Lima, Cristovam Buarque (que apoiou o fatiamento) – eram no sentido de contemporizar.
Ninguém se dispunha a recorrer ao STF. Michel Temer mesmo, embora registrasse sua contrariedade, manteve sua viagem à China no dia mesmo em que recebia em caráter efetivo a Presidência da República e via sua base parlamentar cindida em meio ao caos moral daquela votação. Mais uma vez, os políticos assustaram-se com a reação da sociedade, como se esta pudesse reagir de outra forma.
Assim como não previram as manifestações de rua do ano passado e deste ano – e só as levaram em consideração quando já não era possível ignorá-las -, subestimaram a capacidade reativa diante do estupro à Constituição. E aí, só aí, passaram a considerar a hipótese de ir ao STF, que já recebera recursos de entidades da sociedade civil, que, mais uma vez, se antecipou aos políticos.
Por aí se vê o quanto a política oficial está dissociada do sentimento da sociedade que deveria representar. Não fosse a voz das ruas, o tema do impeachment nem teria entrado na agenda. As instituições só funcionam quando movidas pelo combustível do medo.
A Era PT, pontuada por Mensalão, Petrolão e coisas do gênero, fez com que o absurdo parecesse natural. E fez com que a classe política mergulhasse num autismo do qual parece emergir com grande lentidão e contrariedade.
Algo está mudando – e é de fora para dentro. “A agenda política está nas ruas, não nos gabinetes”, proclama o senador Ronaldo Caiado. O recado é para Temer e os que o cercam.
Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski não o perceberam. O presidente do STF, em dissonância com alguns de seus mais experientes pares, como Celso de Melo e Gilmar Mendes, já declarou que cabe recurso ao impeachment, embora isso não conste da Constituição, que diz que o Senado é instância definitiva e incontrastável para decidir a matéria.
Mas o advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, confiante nos padrões até aqui vigentes, já ingressou no STF com pedido de anulação do impeachment. Lá, ele está convencido, tudo é possível.
Tem razão: até aqui, as teses mais absurdas encontraram eco no STF. Lula, por exemplo, ainda não se encontrou com Sérgio Moro graças ao STF, que segurou o quanto pôde o seu processo, mesmo não tendo ele direito a foro privilegiado. Tem amigos privilegiados, é o que lhe basta – ou bastava.
Os tempos estão mudando, não obstante a resistência dos políticos (e de alguns juízes e procuradores) a que isso aconteça. Mais de 35 milhões de brasileiros assistiram ao impeachment de Dilma peyla televisão aberta, mais gente do que a média de espectadores durante a Olimpíada, que registrou pouco mais de 33 milhões.
As pesquisas eleitorais mostram que o petismo está minguando, com reflexos sobre seus satélites – PSOL, PSTU, Rede. Não há espaço para truques como os de Marina Silva, da Rede, que, depois de meses condenando o impeachment, decide apoiá-lo na última hora, cuidando, porém, de orientar o único senador do partido, Randolfe Rodrigues, a que votasse em favor de Dilma.
A plateia está atenta. Pode até não entender direito o que é pedalada fiscal, mas sabe que quem as cometeu foi a mesma quadrilha que saqueou a Petrobras. E de roubo todo mundo entende.
Transparência e encenação
Há alguns anos, Fernando Gabeira revelou que, sendo candidato petista, amadureceu a decisão de sair do partido quando, ao gravar um programa eleitoral, foi surpreendido por uma encenação coletiva em que políticos de ar sério e pastas na mão fingiam se consultar ou exibir papéis e projetos em gestos teatrais, como se estivessem trabalhando. Chocado com a farsa preparada para enganar os eleitores, pura casca sem substância, concluiu que não queria continuar participando daquilo.
Há menos de um mês, dia 19 de agosto, em entrevista à BBC, Lula afirmou que em seu governo o Brasil era um país mais rico do que a Inglaterra. A fanfarronice pode ter sido recebida com sorrisos zombeteiros de alguns ou gargalhadas francamente debochadas de outros, racionalmente incapazes de aceitar que agora sumiu de repente, como carruagem de Cinderela nas 12 badaladas, esse país tão rico que não chegou a ser visto, com a pobreza resolvida em nível britânico — em saneamento básico, saúde gratuita para todos, habitação popular, escola de qualidade, transporte de massa adequado e segurança pública que permita a qualquer cidadão andar tranquilamente em sua cidade a qualquer hora. Mas muita gente não estranhou e engoliu a balela numa boa. Outros nem ligam, relevam a bazófia, gabolice que não prejudica ninguém e se repete há tanto tempo que já anestesiou os ouvintes. Tudo bem, a crença é livre. Acredite quem quiser. Com fé religiosa não se discute — é um fervor poderoso que opera em outra esfera, capaz de aceitar todos os milagres e promessas, inocências e santidades.
A dificuldade começa quando o fiel religioso é chamado a ser eleitor. A distinguir transparência de jogo de cena. Ainda mais em dias dramáticos como estes, em que uma presidente eleita por 54 milhões de votos é impedida por um congresso eleito por 140 milhões. Essa legitimidade de parte a parte só aumenta a exacerbação dos ânimos, já esgotados por processo tão longo. Sucedem-se momentos exaltados — de xingamentos de canalha e golpista a uma estarrecedora confissão do presidente de um Poder cobrando de senadora por favores oriundos de gestões indevidas junto a outro Poder. Câmeras guardam as imagens que para elas exibem os participantes, cada um buscando seu melhor ângulo e maior protagonismo na construção do personagem que deseja impingir à história ou à campanha eleitoral futura — não apenas diante de jornalistas, mas também de ficcionistas, mais uma vez desprezando fronteiras entre documento e circo, transparência e encenação. Mais que o fato, importa é “a disputa pela versão dos fatos”, como explicitou o líder petista no Senado. Sair bem na foto, no filme, no livro. As imagens mostram quase tudo, mas em falsa transparência. Ocultam, por exemplo, as manobras de bastidores pelo fatiamento da decisão, de modo a garantir que congressistas (como Cunha ou Renan, para só citar as estrelas) sejam também beneficiados no futuro. Ou que daqui a pouco a presidente defenestrada possa driblar a Justiça e pular para dentro de casa outra vez, pela janela do foro privilegiado.
Não é a primeira vez que os holofotes midiáticos atuam nesse jogo. Um dos momentos mais emblemáticos a que a nação assistiu, no impeachment do Collor, foi propiciado pelo então presidente do SFT, Sidney Sanchez: tendo recebido um envelope lacrado do presidente da República, em pleno exercício de suas funções, deixou para abri-lo ao vivo durante o “Jornal Nacional” e leu , para microfones e câmeras, o texto em que Collor destituía seu advogado. Não se sabe se sob comando de um diretor de cena quanto ao ângulo ideal ou à melhor luz.
A diluição desses limites entre realidade e espetáculo também está presente nas sucessivas discussões sobre vazamentos e não apenas aqui e agora. Lá fora, basta lembrar os questionamentos envolvendo Julian Assange ou Edward Snowden (logo transformados em heróis de filmes ) e suas explosivas revelações, do tipo “doa a quem doer”. No Brasil, temos um exemplo didático: o do agora sumido procurador Luiz Francisco de Souza, que no governo FH consagrou o obsessivo processo chamado de “escandalização do nada” e falsos vazamentos, ao fazer denúncias semanais que logo ecoavam na mídia, provocando investigações que eram arquivadas em seguida por falta de base, mas enlameavam nomes e davam origem a acusações de “engavetamento geral”.
Para evitar manipulações ocultas, a cada vazamento cabe desconfiar e perguntar a quem serve a divulgação daquele rumor ainda sem provas. Analisar quem se beneficia com aquela “informação” assim plantada e coberta pela impunidade garantida pelo sigilo da fonte. Lembrar que a cada plantação anônima corresponde uma futura colheita. E a safra anunciada pode apenas ser a mentira de uma erva daninha trazendo riscos para a tenra planta da democracia, regime ideal ainda que imperfeito. Sempre ameaçado por aqueles que, dos bastidores, confundem iluminação ou transparência com sombras e jogo de cena. Olho neles.
Ana Maria Machado
Há menos de um mês, dia 19 de agosto, em entrevista à BBC, Lula afirmou que em seu governo o Brasil era um país mais rico do que a Inglaterra. A fanfarronice pode ter sido recebida com sorrisos zombeteiros de alguns ou gargalhadas francamente debochadas de outros, racionalmente incapazes de aceitar que agora sumiu de repente, como carruagem de Cinderela nas 12 badaladas, esse país tão rico que não chegou a ser visto, com a pobreza resolvida em nível britânico — em saneamento básico, saúde gratuita para todos, habitação popular, escola de qualidade, transporte de massa adequado e segurança pública que permita a qualquer cidadão andar tranquilamente em sua cidade a qualquer hora. Mas muita gente não estranhou e engoliu a balela numa boa. Outros nem ligam, relevam a bazófia, gabolice que não prejudica ninguém e se repete há tanto tempo que já anestesiou os ouvintes. Tudo bem, a crença é livre. Acredite quem quiser. Com fé religiosa não se discute — é um fervor poderoso que opera em outra esfera, capaz de aceitar todos os milagres e promessas, inocências e santidades.
A dificuldade começa quando o fiel religioso é chamado a ser eleitor. A distinguir transparência de jogo de cena. Ainda mais em dias dramáticos como estes, em que uma presidente eleita por 54 milhões de votos é impedida por um congresso eleito por 140 milhões. Essa legitimidade de parte a parte só aumenta a exacerbação dos ânimos, já esgotados por processo tão longo. Sucedem-se momentos exaltados — de xingamentos de canalha e golpista a uma estarrecedora confissão do presidente de um Poder cobrando de senadora por favores oriundos de gestões indevidas junto a outro Poder. Câmeras guardam as imagens que para elas exibem os participantes, cada um buscando seu melhor ângulo e maior protagonismo na construção do personagem que deseja impingir à história ou à campanha eleitoral futura — não apenas diante de jornalistas, mas também de ficcionistas, mais uma vez desprezando fronteiras entre documento e circo, transparência e encenação. Mais que o fato, importa é “a disputa pela versão dos fatos”, como explicitou o líder petista no Senado. Sair bem na foto, no filme, no livro. As imagens mostram quase tudo, mas em falsa transparência. Ocultam, por exemplo, as manobras de bastidores pelo fatiamento da decisão, de modo a garantir que congressistas (como Cunha ou Renan, para só citar as estrelas) sejam também beneficiados no futuro. Ou que daqui a pouco a presidente defenestrada possa driblar a Justiça e pular para dentro de casa outra vez, pela janela do foro privilegiado.
Não é a primeira vez que os holofotes midiáticos atuam nesse jogo. Um dos momentos mais emblemáticos a que a nação assistiu, no impeachment do Collor, foi propiciado pelo então presidente do SFT, Sidney Sanchez: tendo recebido um envelope lacrado do presidente da República, em pleno exercício de suas funções, deixou para abri-lo ao vivo durante o “Jornal Nacional” e leu , para microfones e câmeras, o texto em que Collor destituía seu advogado. Não se sabe se sob comando de um diretor de cena quanto ao ângulo ideal ou à melhor luz.
Para evitar manipulações ocultas, a cada vazamento cabe desconfiar e perguntar a quem serve a divulgação daquele rumor ainda sem provas. Analisar quem se beneficia com aquela “informação” assim plantada e coberta pela impunidade garantida pelo sigilo da fonte. Lembrar que a cada plantação anônima corresponde uma futura colheita. E a safra anunciada pode apenas ser a mentira de uma erva daninha trazendo riscos para a tenra planta da democracia, regime ideal ainda que imperfeito. Sempre ameaçado por aqueles que, dos bastidores, confundem iluminação ou transparência com sombras e jogo de cena. Olho neles.
Ana Maria Machado
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