sábado, 20 de agosto de 2016

A medalha dourada do vexame

Sempre tive uma certeza: a medalha de ouro na categoria vexame internacional por equipes seria nossa. Seguíamos liderando também nas modalidades individuais mazela política, incompetência administrativa, corrupção despudorada e obras não concluídas. A imprensa mundial já trombeteava aos quatro ventos nossa vitória, apontando lixo e cadáveres boiando na baía de Guanabara, a violência onipresente e a precariedade da Vila Olímpica.

Tanta certeza tive de que o campeonato era nosso que não titubeei: adquiri uma sacolinha de papel para usar sobre a cabeça. Para completar o quadro, surgiram novas chances de medalhas na categoria péssimo anfitrião, quando oferecemos cangurus, vaiamos atletas e delegações adversários, incluindo os vizinhos que aprendemos a odiar.


Foi quando surgiu o nadador americano Ryan Lochte. Ah, esses americanos, sempre tentando arrebatar as medalhas alheias! Lochte relatou um assalto, incrementou a performance com a história de uma arma na cabeça e bateu em retirada. Estava certo de que nada aconteceria, afinal estava numa terra de ninguém, famosa pela incapacidade do Estado, por um aterrorizante número de crimes e por um povo acostumado a assistir passivamente a seus dirigentes mentirem com a mesma naturalidade com que se respira.

Desmascarado, o nadador seguiu agindo com arrogância e sem dar mostras de arrependimento. Foi a essa altura que, sozinho, Lotche quase nos arrebatou a medalha dourada e eu ensaiei tirar a sacola de papel que me cobria a cabeça. Como bem sabe quem acompanhou a saga, inicialmente os americanos deram suporte aos seus atletas, mas, diante das evidências, fizeram algo cada vez mais raro no Brasil: reconheceram a gravidade da conduta dos seus compatriotas e o Comitê pediu desculpas formalmente.

Com a maturidade desse gesto, os Estados Unidos deixaram a disputa pela medalha da vergonha. Continuamos soberanos na incapacidade de reconhecer erros, admitir equívocos, curvar a cabeça diante de provas cabais e demonstrar pudor em apoiar mentiras e crimes. Não há estatística da tragédia socioeconômica, testemunho de antigos comparsas, prova documental ou gravação de conversas obscenas que consiga arrancar de nossos homens públicos e seus apoiadores uma singela admissão de culpa ou o reconhecimento da gravidade de suas condutas.

Da nota do Comitê Olímpico americano destaquei esta frase: “O comportamento desses atletas não é aceitável, muito menos representa os valores do Time Americano ou a conduta da vasta maioria de seus membros”. Pensei aqui comigo no quanto seria prazeroso ouvir algo assim de dirigentes de partidos cujos membros foram flagrados em casos de corrupção. Ou como seria confortador ouvir de alguns eleitores que não é aceitável que seus políticos de estimação mintam, manipulem, cometam crimes e permaneçam impunes.

“Em nome do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, pedimos desculpas aos nossos anfitriões no Rio e aos brasileiros pelo problema causado durante o que deveria ser apenas a celebração da excelência”, declarou o comitê americano. E já que nossos políticos são apenas hóspedes temporários em Brasília, seria de bom tom copiar o modelo acima em várias situações:
º Em nome do meu partido/coligação, peço desculpas aos brasileiros pelos crimes causados durante o que deveria ser apenas um mandato. O comportamento desses políticos não é aceitável, muito menos representa os valores do partido ou da vasta maioria de seus membros.
º O comportamento causado pelo político que elegi causou graves prejuízos ao nosso país. Isso é inaceitável. Peço desculpas aos brasileiros pelos crimes causados por minha escolha equivocada.

º Reconheço e peço desculpas ao povo brasileiro pelos crimes que cometi, pelas mentiras que espalhei para convencer incautos e por ter me locupletado com dinheiro público durante o que deveria ser apenas um mandato. Meu comportamento não é aceitável, muito menos representa os valores da Nação brasileira.

Achou excessivo? Pois lembre-se que Ryan Lochte é considerado um dos maiores atletas olímpicos de todos os tempos e os americanos não hesitaram em expor o membro doente que pode corromper toda uma sociedade. Obviamente os Estados Unidos não são exemplos de perfeição ética ─ não é isso que estou afirmando. Mas demonstraram, neste episódio específico, que prezam pela imagem de seu país e que não aceitam ser associados a condutas abjetas. O recado foi claro: mentiras são prova de péssimo caráter e não há passado glorioso que possa justificar atos vergonhosos.

É exatamente o que nos falta: um movimento vigoroso de todo o organismo social para expurgar de vez os personagens sem ética que nos fazem campeões da vergonha. Mas, antes disso, temos uma outra tarefa ainda mais árdua: tornar verdadeira a parte das desculpas que diz que os comportamentos indecorosos não representam os valores de partidos políticos, da maioria de seus membros e do conjunto da pátria brasileira.

Com a medalha dourada do vexame reluzindo na Praça dos Três Poderes, decidi manter a sacolinha de papel na cabeça.

A diferença

Diz-se que o que diferencia o estadista do político é que, enquanto aquele pensa nas próximas gerações, este pensa nas próximas eleições. 
Não há estadistas no Congresso, que hoje divide suas preocupações entre as urnas e o banco dos réus. Não é ambiente propício à envergadura das necessidades do país
Ruy Fabiano, A crise, segunda temporada

Corrupção nas obras públicas

Longo período decorreu desde que, no Programa Roda Viva, da TV Cultura, de 15 de dezembro de 2014, foi apresentado e debatido um instrumento efetivo de combate à corrupção nas obras públicas. Trata-se do comprovado sistema conhecido como performance bonds, adotado nos EUA há exatos 120 anos e que tem o mérito de quebrar a interlocução direta das empreiteiras, geneticamente corruptas, com os agentes públicos prazerosamente encarregados de fraudar as concorrências e permitir o superfaturamento das obras públicas.

A resposta da opinião pública foi muito positiva à proposta, tendo havido, desde então, efetivas contribuições de especialistas e de entidades no sentido de formular um projeto de lei que implementasse essa solução estrutural de combate à corrupção. Um anteprojeto de lei foi efetivamente elaborado, a pedido do senador Cássio Cunha Lima, que em julho deste ano logrou ingressar como o PL n.º 274 no Senado, com rito terminativo na Comissão de Constituição e Justiça.

Convém lembrar, a título de curiosidade, que no mesmo dia do lançamento da proposta de performance bond no Roda Viva a presidente, ora afastada, declarava, em seu discurso de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral, que não deveriam ser punidas as empreiteiras corruptas, pois geravam empregos... E essa política de prevaricação, em face das empreiteiras do cartel da Petrobrás, foi efetivamente seguida, mediante a leniência escancarada da CGU, que jamais promoveu qualquer processo administrativo contra elas durante todo o governo dilmista. Ao contrário, continuaram elas a contratar livremente com o poder público e dele obter os financiamentos necessários a novas obras, no Dnit e em outros antros de corrupção do governo petista e suas aparelhadas estatais.

Mas esse quadro parece ter mudado. Já na segunda semana do novo governo o Ministério do Planejamento, por determinação do presidente em exercício, encampou o projeto do senador Cunha Lima, a fim de, efetivamente, implementar num prazo razoável a obrigatoriedade do regime de performance bond nas obras públicas contratadas.

A matéria está no Congresso não somente pelo projeto referido, como também por meio de emendas que o Ministério do Planejamento procura introduzir em outro projeto, n.º 559, do senador Fernando Bezerra, que deverá ser votado nas próximas semanas.

Há, com efeito, todo um movimento do atual Poder Executivo e de suas lideranças parlamentares visando à adoção do performance bond nas obras públicas. E esse sistema será um novo marco estrutural nas relações público-privadas no Brasil, em matéria de obras públicas.

Como é notório, prevalece entre nós o arcaico capitalismo de laços (crony capitalism), que se caracteriza como uma economia em que o sucesso nos negócios depende, necessariamente, das relações entre os empresários e os agentes públicos, tanto administrativos como políticos. No nosso caso, esse capitalismo de laços se caracteriza, portanto, como o regime da relação direta entre as empreiteiras e os agentes do Estado.

Essas construtoras de obras públicas, na sua totalidade, são controladas por grupos familiares, o que permite uma manipulação corruptiva continuada e cultivada dos agentes políticos e administrativos. Nessas empresas familiares quem manda são os controladores, muitas vezes fora do alcance da Operação Lava Jato.

Em alguns casos, esses familiares que operam o esquema da corrupção não são nem diretamente acionistas, refugiados que estão numa cadeia internacional de holdings. Essa verdadeira casta de empreiteiras de família, difusamente entrosadas com as autoridades, permite, que se formem os cartéis de obras, dos quais também participam multinacionais sediadas no exterior.

O remédio fundamental, portanto, para o combate estrutural à corrupção no setor público é o rompimento desse capitalismo de laços, ou seja, a quebra da interlocução, direta e promíscua, das empreiteiras e dos fornecedoras com os agentes políticos e administrativos. E esse rompimento se dá pela presença, no contrato de obras públicas, de uma seguradora que, obrigando-se a ressarcir o Estado, no caso de descumprimento, passa a fiscalizar permanentemente a respectiva obra, quanto aos prazos, à manutenção do preço ajustado e à qualidade dos materiais empregados.

O regime de performance bonds ampara-se em três elementos fundamentais: a obrigatoriedade da contratação da apólice em todos os contratos de obras públicas de valor relevante, a importância segurada em 100% do valor do contrato e a atribuição do poder de permanente fiscalização da obra e dos recebimentos/pagamentos pela seguradora. Esta passa a ser a principal interessada no cumprimento do contrato entre o poder público e a empreiteira.

Esse poder-dever de fiscalização permanente que tem a seguradora contratada pela empreiteira, a favor do ente público, acaba por eliminar as fraudes na execução da obra, sobretudo, nas mediações, nos aditivos e seus superfaturamentos, no cumprimento de prazos e na efetiva qualidade dos materiais utilizados.

Tem, ademais, a seguradora da obra pública três opções no lugar do puro e simples pagamento do sinistro, por inadimplemento da empreiteira: poderá ela própria assumir a obra, por sua conta e risco; ou poderá contratar, sob sua responsabilidade, outra empreiteira para concluir os trabalhos; ou, ainda, financiar a empreiteira inadimplente para que prossiga na sua execução. Essas alternativas ao pagamento puro e simples do sinistro dão maior viabilidade ao prosseguimento das obras, atendendo ao interesse público na sua efetiva conclusão.

A cidadania espera que esse movimento em torno da adoção do performance bond nas obras públicas seja levado avante pelo Congresso Nacional, o que permitirá uma mudança estrutural indispensável no combate à corrupção no setor público.

Modesto Carvalhosa

Legado de Lula, de Dilma e do PT foi a desmoralização das esquerdas

Em entrevista à jornalista Júlia Dias Carneiro, da BBC Brasil, o ex-presidente Lula da Silva assumiu o papel de vítima de um complô movido por dois poderes da República, o Judiciário e o Legislativo, com apoio irrestrito da grande imprensa e das elites do empresariado, que teriam se unido para destruir a reputação dele, retirar do poder a presidente Dilma Rousseff, destruir a obra do PT e suspender os programas sociais desenvolvidos nos últimos anos.

Lula alegou que não existe nenhuma prova de qualquer irregularidade cometida por ele, acrescentando que a presidente afastada enfrenta a mesma situação. “É tão grave o que está acontecendo no Brasil que mesmo os 81 senadores, sabendo que a presidente Dilma não cometeu nenhum crime contra a Constituição, eles resolveram cassá-la politicamente por interesse”, disse ele, assinalando:
“Então, nós entramos com um processo no escritório da ONU em Genebra para que a gente mostre que há, no mínimo, uma certa suspeição no comportamento, ou seja, as pessoas querem transformar uma mentira, que eles inventaram, num processo”.

Lula disse que a imprensa brasileira mentiu muito e não vai ter caráter para pedir desculpas. “É por isso que eu recorri a uma instância das Nações Unidas para ver se existe pelo menos um comportamento exemplar de uma Justiça a serviço da justiça”.

Sobre a denúncia à ONU, o ex-presidente disse que pretende revelar ao mundo inteiro o que está acontecendo no Brasil: “E esse debate já começou por advogados, sindicalistas e políticos de outros países. E pela imprensa. Se não fosse a imprensa estrangeira cobrir com uma certa isenção e autonomia o impeachment da presidente Dilma, a versão da imprensa brasileira é um horror”.

Lula elogiou muito o legado do PT. “Nenhum presidente na história desse país fez o que a presidenta Dilma e eu fizemos para dotar o Estado de instrumentos de combate à corrupção”, afirmou, citando a autonomia do Ministério Público, os investimentos na Polícia Federal e a lei da delação premiada. Disse também que em 12 anos o PT fez mais do que os outros governos nos últimos 200 anos, em benefícios nas áreas de educação, saúde, trabalho e política agrícola, vejam a que ponto chegou o egocentrismo dele.
A longa entrevista à BBC foi uma aula de empulhação e contorcionismo político. Com muita habilidade, a repórter Júlia Dias Carneiro deu corda ao entrevistado e permitiu que o próprio Lula fizesse uma espécie de “striptease” de sua desfaçatez.

Na verdade, o grande legado dele foi a completa desmoralização das esquerdas no Brasil. Hoje, a política brasileira tem caminho aberto para o total neoliberalismo. Não há a menor esperança de que possamos avançar rumo ao moderno capitalismo, praticado há décadas pelos países escandinavos, que se tornaram exemplos de justiça social. Pelo contrário, o Brasil está hoje dominado pelo pior tipo de regime democrático – o capitalismo financeiro. Em nenhum país civilizado do mundo os bancos conseguem tamanha lucratividade, praticando juros recordes em operações de cartões de crédito e cheque especial, sem que o poder público demonstre a menor preocupação a respeito.

Com toda certeza, o legado de Lula é que nunca antes, na História deste país, os banqueiros lucraram tanto, às custas do empobrecimento do trabalhador brasileiro, que se viu obrigado a sustentar até mesmo a família da amante do então presidente da República, que deu a ela um belíssimo emprego público, com direito a cartão corporativo para comprar o que bem entendesse, no Brasil e no mundo.

Outro legado de Lula será a destruição dos direitos trabalhistas e previdenciários do povo brasileiro, justamente num momento em que deveríamos estar discutindo o gigantismo da máquina estatal e a absoluta necessidade de sua adequação à realidade brasileira. E assim o Brasil seguirá praticando o mais perverso modelo de capitalismo existente em regime democrático, sem que as esquerdas sequer possam se manifestar.

Parodiando o sucesso internacional da grande cantora argentina Mercedes Sosa, podemos dizer: “Gracias a Lula, gracias a la vida”.

Imagem do Dia

Canyon Gorge, Estados Unidos

Haddad e a farsa da TV municipal: É grotesco!

O prefeito Fernando Haddad é mesmo das figuras mais grotescas surgidas na política brasileira, tomada a palavra como sinônimo de estapafúrdio, de bizarro, de caricato.

Tendo descumprido de forma quase religiosa todas as promessas que fez em 2012, ele se lança agora à reeleição com uma ideia-força: criar uma TV pública municipal, que, segundo os seus cálculos, custará R$ 10 milhões… por ano!

Respondendo a críticos da proposta, o petista fez o que mais sabe: falseou a questão. Disse: “Não entendo como alguém possa ser contra a periferia se expressar num canal específico. É muita crueldade não querer, tendo a tecnologia disponível, que as pessoas se expressem. Deixar a comunidade se expressar virou pecado”.

Entenderam? Em vez de ele debater a viabilidade de uma TV pública municipal, passa a falar em nome da expressão da periferia, como se alguém fosse contrário a isso.

É impressionante! A TV Brasil surgiu com ambições relativamente modestas e hoje consome metade dos recursos destinos a EBC: devem chegar a R$ 535 milhões neste ano. E seu apelido, nem é preciso dizer por quê, é TV traço. Vocês acham mesmo que uma eventual TV municipal custaria menos de R$ 1 milhão por mês?

Mais: a queda da presidente Dilma permitiu que se abrissem os arquivos da TV Brasil: lá estavam pendurados, em contratos milionários, os subjornalistas notórios por puxar o saco do PT. Vale dizer: nem eram sabujos por convicção, mas por dinheiro mesmo. Trata-se de gente que cobra caro para atacar reputações e ainda mais caro para elogiar. É um caso notável de prostituição ideológica.

A TV Brasil é um caso exemplar de desperdício de dinheiro público. Foi criada sob o pretexto de que era preciso manter a diversidade e a pluralidade de vozes na comunicação — como se isso não existisse hoje em dia, especialmente depois da Internet. Farsantes que são, os petistas transformaram a emissora num reduto de esquerdistas. E de esquerdistas irrelevantes, já que ninguém sintoniza o canal.

O que importa? A patota não está preocupada com o público, mas em manter as próprias benesses. Haddad promete, se eleito, reproduzir a farsa em escala municipal.

Entendo o prefeito. Ele não pode falar de corredores de ônibus porque, afinal, ele os prometeu e não os entregou. Ele não pode falar em creches: ele as prometeu e não as entregou. Ele não pode falar em postos de saúde: ele os prometeu e não os entregou.

Então ele promete criar uma TV municipal.

Haddad é plenamente capaz de prometer uma farsa e de cumprir essa promessa.

Lula vai acabar exigindo uma medalha olímpica

Todo o dinheiro roubado da Petrobras não seria suficiente para vestir 3% das desculpas esfarrapadas que Lula utiliza para fugir das evidências. Ao entrevistar o pajé do PT, a repórter Júlia Dias Carneiro, da BBC, fez uma constatação óbvia: a corrupção minou a credibilidade do PT. Perguntou a Lula se não seria o caso de um pedido de desculpas. E ele, categórico: “Não.”

“Quem tem que pedir desculpas é quem está inventando acusações”, respondeu Lula. Para ele, o PT não é senão vítima de “um massacre”. E continua sendo o partido de maior credibilidade eleitoral. No Brasil, a credibilidade de uma agremiação partidária é inversamente proporcional à quantidade de filiados que passou pela cadeia, continua no xilindró ou roça as grades.


Depois que o STF mandou a cúpula do PT para a Papuda, no julgamento do mensalão, Lula declarou: 1) o processo foi político; 2) o mensalão não existira; e 3) a história se incumbirá de esclarecer a verdade. Antes que a posteridade pudesse se pronunciar, sobreveio o petrolão. E Lula agora sustenta que tudo o que está na cara não passa de invencionice.

A Lava Jato derreteu a presidência petista de Dilma Rousseff, converteu Lula em denunciado, botou José Dirceu novamente na cadeia, encrencou três ex-tesoureiros do PT. E Lula fala em acusações inventadas. O morubixaba petista afirmou à BBC que não tem medo de ser preso. Acha que querem tirá-lo da vida política porque ele fez muito bem ao país. Nesse ritmo, antes do final dos Jogos Olímpicos Lula ainda exigirá uma medalha de ouro por ter feito aos brasileiros o favor de presidir o país.

Lixo e esgoto na construção da imagem do Brasil

As Olimpíadas 2016 estão superando as expectativas de brasileiros irritados com as despesas do evento e de estrangeiros preocupados com a segurança das delegações: ações terroristas, violência no Rio de Janeiro, endemias e poluição da baía de Guanabara. A mídia explorou essas falhas, apostando no fracasso. As medidas adotadas têm sido, entretanto, eficazes, como a instalação de redes para que o lixo no mar não prejudicasse o iatismo. A abertura do dia 5, com o encantamento gerado por Gisele Bündchen e a mensagem política para o mundo, sinalizou que o país não daria vexame. Foi louvável também que tenha indicado como os brasileiros devem rever sua postura, reconhecendo que podem construir uma nação mais próspera em condições de salubridade. Isso deve começar com as propostas de candidatos a prefeito quanto à urgência do saneamento.

meio ambiente:
O BNDES está sugerindo o financiamento de programas para que esse serviço seja estendido a todos os brasileiros, mas acontecerá apenas se a população exigir que ele se torne preponderante na administração pública. Para isso, cada pessoa deve acatar também os princípios mínimos de preservação ambiental, especialmente dos corpos d’água, pois apenas com a parceria estreita entre Estado e cidadãos será estancado o processo de degradação de lagos, rios e córregos. O momento é, portanto, agora, pois os visitantes estão deslumbrados com as belezas sem fim do Rio de Janeiro, embora tenham sentido mal-estar com o lixo, o odor e as pichações em muitos pontos da cidade.

Isso aconteceu, certamente, com turistas que vieram a Belo Horizonte para assistir aos jogos de futebol e visitar o Conjunto Moderno da Pampulha que se tornou, recentemente, Patrimônio Cultural da Humanidade, diante da lagoa poluída e malcuidada. Sabemos que parte desse problema nasce do escoamento de esgoto doméstico para os córregos que formam a represa e do descarte de lixo por cidadãos sem compromisso com o ambiente. Tentativas oficiais para recuperar esse belo patrimônio público não terão sucesso sem a colaboração de todos.

Há cidades limpas em diferentes países que incorporaram a reciclagem dos detritos e o tratamento do esgoto para impedir seu despejo nos cursos d’água. Isso pode acontecer aqui se os brasileiros mudarem sua postura. Enquanto eles deixam um rastro de sujeira nos estádios, japoneses recolhem o lixo ao redor de seus assentos, mostrando como se responsabilizam por seu entorno, e não apenas pelo que vão descartar.

Recebemos, nos últimos dias, visitantes de mais de 200 países. Eles apreciaram os dias ensolarados, a alegria contagiante e as belas paisagens, além das competições de alto nível, sem maiores atropelos. Levariam impressão muito melhor se não tivessem visto tanta sujeira e depredação por onde passaram. Constataram, então, que os brasileiros são capazes de produzir um grande espetáculo, mas não sabem cuidar de seu cotidiano com a mesma eficiência.

O jeca e a respectiva criatura quebram cotidianamente o próprio recorde de delinquência

O que torna o cotidiano possível? O Brasil sempre me deu a impressão de que padecia da deformação resultante da inversão “o importante é ganhar, não competir”, mas isso parece a forma branda da patologia verdadeira: “importante não é ganhar, mas ganhar sempre”. O texto primoroso de Augusto Nunes, da gratidão citando a excelente Dorrit Harazim, passando pela homenagem ao grande Ricardo Prado, até a comemoração do que espero ser uma melhora definitiva na alma enferma de um país infantiloide e brutalizado na rejeição a qualquer resultado que não o pódio – e, neste, o topo –, ensina um olhar de generosidade sobre grandes homens e mulheres que inspiram uma nação e colonizam a alma dela com a beleza de fazer flutuantes os limites ou da poesia no desafio aos limites imóveis.

Essa generosidade nada tem de condescendente e contempla não somente o desempenho quase inumano dos competidores numa olimpíada, mas também a risonha oportunidade de que o possam testemunhar homens e mulheres normais, heróis anônimos de si mesmos que, além de envolvidos em embates íntimos ou privados normais da vida, tentam sobreviver moral e fisicamente num Brasil cujas melhores potencialidades o lulopetismo sabotou enquanto se servia das piores.

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Agora mesmo, enquanto há brasileiros competindo para serem os melhores, o jeca e a respectiva criatura quebram cotidianamente o próprio recorde de delinquência numa disputa sem limites ao pódio mais alto do pior que a terra tão garrida produziu para ser tão esbulhada. Enquanto ele, sempre afastando os limites da sordidez, para escapar da merecida e tardia cadeia, mente numa cartilha em quatro idiomas distribuída no exterior, difamando o Brasil, as instituições brasileiras, Sergio Moro e Rodrigo Janot; ela, para escapar do merecido e tardio impeachment, faz do Alvorada a locação para um documentário ficcional a respeito do processo lendo uma carta em que encena promessas tão plausíveis quanto válidas de uma mulherzinha de caráter miúdo que demitiu a verdade de todas as promessas inventadas, com exceção de uma: fazer o diabo para ganhar a eleição.

Maquiando o vazio, Dilma repetiu a tríade formada por uma verdade desnecessária e duas mentiras inúteis: foi torturada pela ditadura militar, o que não a inocenta do crime de responsabilidade fiscal; é honrada, OK, Fernando Henrique Cardoso acreditar nisso não a inocenta do crime de responsabilidade fiscal; ela não tem conta no exterior, nem eu, só que não cometi crime de responsabilidade fiscal, ela sim, crime pelo qual será condenada.

Os bravos Sergio Moro ou Hélio Bicudo não são heróis e há coisas que o impeachment e a Lava Jato não poderão fazer, mas acho que eles são figuras inspiradoras e triste do país que, desgraçado por Lula e Dilma, não pudesse contar com eles. Do mesmo modo, ainda que a excepcionalidade de Ricardo Prado ou Thiago Braz não baste para curar nossa impotência olímpica, eles integram, para sempre e mesmo sem repetir o que já fizeram, uma coleção heterogênea de genialidades humanas que deslumbram o presente, como Usain Bolt, e inspiram o futuro.

Me lembro que em agosto de 2012, quando esta coluna ergueu o justo brinde a Usain Bolt por ter sobrevoado no chão da pista olímpica de Londres 100 metros em menos de 10 segundos, eu quis comentar, mas não sabia o que dizer. Na ocasião, minha filha me perguntou para que serve correr 100 metros em menos de 10 segundos. Também não soube o que dizer. Mas falei qualquer coisa sobre como isso não acontece da noite para o dia, que exige treino absurdo, disciplina espartana, que a marca genial era inédita, que o feito ajuda a entender melhor a fisiologia do corpo humano e… vi que era melhor ter ficado calada. Aquilo não estava alcançando a pequena.

Fiquei olhando para os olhos grandes dela, atentos, lindos na sua apressada curiosidade pelo mundo. Lembrei-me de um dia de agosto de 1977, quando, só um pouco maior do que ela, o cabelo preso num alto rabo-de-cavalo, cheguei da escola vestindo o uniforme de sainha xadrez plissada e camisa branca. Não quis almoçar, brincar, nem fazer a lição de casa. Por quê? Minha mãe deixando as costuras quis saber e eu não sabia como explicar que meu primeiro namorado acabara de morrer sem que eu pudesse contar a ele da minha paixão.

Passei o dia inteiro ouvindo as músicas dele numa vitrolinha ordinária do Mickey, como se cada uma fosse um beijo: It’s now or never, Kiss me quick, Burning love, Blue moon, Suspicious mind, Love me tender, Blue suede shoes, tantas outras e a eterna You’re always on my mind. Por algum tempo, o cotidiano só era possível se eu ouvisse Elvis Presley.

Então, soube o que dizer à minha filha: como qualquer realização genial, alguém correr 100 metros em menos de 10 segundos, fazer mil gols e ter os mais lindos gols não feitos ou saltar mais de 6 metros é um sonho que torna possível o cotidiano e, com outras palavras, confidenciei que isso faz aquilo que é pó e transitório em nós experimentar por instantes, como num beijo, o eterno. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A agonia do Brasil

Sim, a festa está linda mas não é do Brasil, é só no Brasil. Quando acabar estaremos de volta àquele Rio de Janeiro de sempre com R$ 3 bi a menos de segurança pública por quinzena onde errar o caminho é morte certa.

Aquela abertura foi, sim, uma síntese, mas do nosso velho drama roteirizado. A mais moderna tecnologia emprestando cintilância à mais retrógrada e opaca das mensagens assinada, proverbialmente, pelos noveleiros da Globo ultra especializados nesse tipo de embalagem. Um gostinho para o mundo da anti-utopia que, desde os idos de 1936 é entoada diariamente como um mantra sagrado em todas as escolas e “meios de difusão de cultura da burguesia”: a quase centenária “recriação” stalinista das supostas “raízes” de um Brasil sem empreendedores, só com usurpadores de um lado e escravos do outro, que repudia a superação, sonha apenas com a “hegemonia” da favela.

Esse “Brasil” dos “intérpretes”, complacente com a derrota como provaram que não são cada um dos atletas verde-e-amarelos nas Olimpíadas disputadas na Vila construída pelos empreendedores “que não há”, é o único representado em Brasília. O que suava nas quadras e pistas em busca de glória e remissão pelo esforço individual não tem quem fale por ele na capital mundial do horror ao mérito que as Olimpíadas honram porque meritocracia pressupõe a morte do “Sistema” que vive da distribuição e venda de privilégios.
No Brasil Real onde a casta dos funcionários públicos vence sempre e é contra a lei evitar o suicídio orçamentário haja o que houver, ha sangue na água e os predadores se assanham. Com a inflação comendo por baixo 9% do valor do trabalho ao fim de 8 trimestres consecutivos de queda da produção e mais de 100 mil brasileiros da 2a Classe se juntando à legião dos desempregados a cada 30 dias, os bancos comem soltos. O volume de crédito concedido caiu 4,4% mas a “receita com clientes” subiu 4,2%. A cada “renegociação” das dívidas de empreendedores a quem a única garantia dada pelo “governo de salvação nacional” é a de que nada na equação entre contribuintes e “contribuídos” vai mudar senão para pior, aumenta forte o “spread” entre juros pagos e juros cobrados. Os quatro maiores bancos “lucraram” R$ 31,7 bilhões no segundo trimestre, volume de drenagem que se vem somar aos R$ 60 bi recem chupados pela União para garantir que os seus funcionários permaneçam fora da crise que criaram e aos outros R$ 50 bi que vão custar a renegociação sem contrapartidas das dívidas dos estados. Na fila os governos municipais, só 42 dos quais, em quase 6 mil, têm folhas de pagamento menores que a própria arrecadação apesar do frenesi de multas com que caçam o povo pelas ruas e estradas de todo o país. Jogue-se por cima disso a tempestade de “ações trabalhistas” que o desemprego em massa precipita, montando, este ano, a algo em torno de R$ 70-80 bi e tem-se um retrato parcial do estupro coletivo que o país que trabalha vem sofrendo.

Bolsa subindo, dólar caindo? No mundo da “arbitragem de instituições” é assim: “Tá caro produzir aqui? A lei não garante? Empregar é expor-se à chantagem? Bora produzir em outro lugar”! E na contra-mão: “Tá fácil ganhar dinheiro no mole? É o juro mais alto do mundo? Vamos lá, enquanto durar!” Não tem nada a ver com a economia real. O Brasil que produz e cria empregos está sendo morto a chutes.

Nunca tantos foram tão estraçalhados por tão poucos. Como foi que isto se tornou possível?

O “Sistema” produz exatamente o resultado para o qual foi desenhado. Partindo da falsificação constitucionalmente imposta da base de toda a estrutura de representação da sociedade civil a partir dos sindicatos que dispensam simpatizantes porque são sustentados por impostos, o esquema criado por Getulio Vargas foi clonado, a partir de 1988, pelos partidos políticos. E isto fez da nossa tão propalada “democracia” uma farsa em que os “representantes” se podem dar impunemente o luxo de dispensar o endosso dos “representados” aos seus atos. Fechado em si mesmo, “O Sistema” tem la os seus mecanismos de processamento de lutas intestinas mas o respeito à hierarquia interna, uma vez estabelecida, é sagrado sob pena de “morte”, por condenação aberta quando possível, por chantagem e “assassinato de personagem” quando necessário. Desse momento em diante garantir “o seu” e o “dos seus” às custas dos “de fora”, tão certo quanto que o sol nascerá amanhã, é o que os unirá a todos, para além do falatório, nos momentos de decisão. O conjunto é absolutamente blindado contra qualquer interferência externa, sobretudo dos eleitores, tanto antes, no processo de seleção dos candidatos aos futuros “hubs” de distribuição de acesso a privilégios que são os cargos eletivos, prerrogativa exclusiva dos grandes caciques segundo critérios inconfessáveis porém explícitos, quanto depois do momento fugaz da eleição.

Esperar que o próprio “Sistema” atue contra si mesmo é, portanto, uma ilusão de noiva. Enquanto a imprensa ou pelo menos uma parte dela resistiu denunciando os avanços da casta que parasita a Nação e amplificando a voz dos que pagam a conta sobreviveram, ainda que aos trancos e barrancos, elementos de democracia nas instituições brasileiras. Depois que a ética corporativa substituiu a ética jornalística e a função institucional da imprensa, ultimo bastião dos desvalidos, cedeu lugar a uma conta de chegar na ordem das prioridades das empresas de comunicação, o caminho ficou livre.

Enquanto a imprensa, a reboque da guerra de “acessos” aos dossiês com que as partes em disputa pelo controle do “Sistema” se alvejam umas às outras, seguir tratando a corrupção como causa e não como efeito da sujeição do país à ditadura de uma casta com direitos e deveres totalmente diferenciados dos do resto do povo que ela, imprensa, esta dispensada de expor como o que de fato é, as atenções e as energias da Nação abusada seguirão dispersas e erráticas como estão hoje e não haverá meio de por um fim à opressão.

Fernão Lara Mesquita

O poder do voto municipal

Desde a terça-feira,16, candidatos a prefeito e vereador estão fazendo propaganda e participando de comícios visando uma das eleições municipais mais interessantes dos últimos 30 anos. A campanha no rádio e na TV começa no dia 26, quando a TV Bandeirantes realizará o primeiro debate entre os candidatos das principais cidades do país.

Dois pontos devem ser destacados. O mais relevante é que as ruas aprenderam o influenciar o destino da política desde 2013, a ponto de se transformarem no motor da destituição da presidente afastada Dilma Rousseff. Tal fato não pode ser esquecido.


Outro dado relevante é a ausência das doações empresariais. Essa nova realidade dará imensa relevância para o uso dos fundos partidários e vantagem para os candidatos que são ricos ou apoiados por corporações e grupos organizados.

Levantamento realizado pela Arko Advice nas sete maiores capitais do país aponta que PMDB e PSDB largam em vantagem. O partido do presidente interino tem chances de vitória em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de ser o favorito em Porto Alegre. São dois partidos com acesso a muitos recursos.

No caso do PSDB de São Paulo, um candidato muito rico se dispõe a bancar sua campanha. O PSDB lidera em Belo Horizonte. Recife é outra capital onde, apesar do favoritismo do PSB, os tucanos podem surpreender. O DEM larga em primeiro lugar em Salvador e o PDT em Fortaleza. O PT deve ser derrotado em todas as sete maiores cidades do país, com chances de chegar ao segundo turno somente em Recife.

Caso a vantagem do PMDB e do PSDB se confirme nas urnas em outubro, os dois partidos largarão em vantagem para a corrida presidencial de 2018. No entanto, devemos acompanhar com atenção os dois candidatos do PRB, Crivella (Rio) e Russomano (SP), ambos capazes de captar votos anti-PT.

Os prognósticos mais moderados antecipam um pleito recortado pelos seguintes sinais particulares: jovens lideranças, capazes de semear novas utopias e entregar serviços públicos de qualidade, deverão substituir os políticos tradicionais; a Operação Lava-Jato credencia-se como um dos mais poderosos eleitores de 2016. Quem estiver distante de seu alcance ganhará um certificado de probidade.

Pior será a falta de recursos, após a proibição de doações corporativas, obrigando todo tipo de aliança para baratear custos. O PT acabará provavelmente punido com uma das mais modestas votações de sua história de 35 anos, enquanto Lula corre o risco de retornar ao patamar de votos do PT, em torno de 25%, o que representaria o fim do lulismo, atropelado pelo jeito petrolão de fazer política.

O 'primo pobre' pede socorro com urgência

Há sinais extremamente preocupantes no horizonte – e não se trata de forma simbólica de expressão. O panorama visível no País até a olho nu mostra com extrema clareza o aumento das queimadas, que somadas a outros fatores de devastação apontam para perdas alarmantes. E principalmente naquele considerado ao longo do tempo o “primo pobre dos biomas brasileiros”, o Cerrado. Como se se tratasse de um bioma imenso, mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, mas coberto por campos sem fertilidade e sem valor.

Este jornal tem mostrado (3/8), com base em informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que os focos de incêndio no País, desde o começo do ano até fins de julho, cresceram 57% comparados com igual período de 2015 – foram 40.765 (28/7). E poderão chegar a um aumento de 80%, com uma situação de extrema gravidade também na Amazônia. No mês de julho as queimadas no Estado de São Paulo (687) aumentaram 361%, comparadas com julho de 2015. São os maiores números de uma série histórica que começa em 1998. Desde o começo do ano foram 1.702.
Parque Estadual do Jalapão
O Ministério do Meio Ambiente dizia desde o ano passado (Estado, 26/11/15) que “o desmatamento já atinge metade do Cerrado”, mais exatamente 54,6%. Num dos Estados mais atingidos, Goiás, os incêndios, que foram 172 em 1998, chegaram a 1.374 em 17 de julho deste ano. Lá “só sobraram 34,5% do Cerrado (em São Paulo, 9,8%; no Piauí 83,1%)”. Da Mata Atlântica, em Goiás, restaram 2,7% , ou 290 km2, de acordo com o IBGE (O Popular, 20/6/15).

As perdas no Cerrado têm um dos efeitos mais graves na redução das águas ali nascidas e que correm para as principais bacias hidrográficas brasileiras: Araguaia-Tocantins, Paraná e São Francisco. Essas águas podem reduzir-se em até 40%, afetando também a produção das hidrelétricas. Tão graves quanto são as perdas na área da diversidade biológica. O bioma (ECO21, maio de 2016) “é uma das mais ricas regiões de savana tropical do mundo e abriga comunidades biológicas altamente diversas, com muitas espécies únicas e variedades”. Parte delas, endêmicas. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 1.629 espécies terrestres e de água doce estão ameaçadas – entre elas, peixes e plantas raros. Mas também pesam ameaças sobre a pecuária, a agricultura e a produção de biocombustíveis.

Começam a ser cada vez mais frequentes os estudos científicos sobre a importância do Cerrado. Stephanie Spera, da Brown University, por exemplo (Eco-Finanças, 18/4), mostrou num deles o impacto da devastação no Cerrado no ciclo de chuvas – e os efeitos na área da agricultura. O bioma é um hotspot da biodiversidade, com mais de 4 mil espécies endêmicas. E “a vegetação do Cerrado recicla água para a atmosfera, que é essencial também para a sustentabilidade da Amazônia”.

Outro cientista, Paulo Tarso Sanches Oliveira, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento, autor da teseWater balance and soil erosion in the brazilian Cerrado, afirma que a substituição da vegetação nativa do Cerrado por áreas destinadas à produção agrícola tem causado intensas mudanças nos processos hidrológicos e acelerado a erosão do solos. Essas mudanças são “fundamentais na tomada de decisão de uso e manejo do solo da região”. Segundo ele, o desmatamento no Cerrado está ocorrendo “mais rapidamente” que na Floresta Amazônica – e com isso pode até “desaparecer nos próximos anos”. E “a substituição do Cerrado para o uso agrícola tem o potencial de intensificar a erosão do solo de 10 a 100 vezes”. Pode haver “alterações no balanço hídrico, intensificação dos processos erosivos, perda da biodiversidade, desequilíbrios no ciclo do carbono, poluição hídrica, mudanças no regime de queimadas e alteração do clima regional” (amazonia.org, 2/3/2015).

Outro estudo relevante é o Perfil do Ecossistema Hotspot da Biodiversidade do Cerrado(don@cerrado.org.br), coordenado por Donald Sawyer e do qual participaram mais de cem instituições. A região é uma das maiores e biologicamente mais ricas entre as de savana tropical do mundo; abriga comunidades biológicas “altamente diversas”; muitas espécies e variedades únicas. É vital para o abastecimento de água e geração de energia no Brasil; para o controle da erosão e para a redução no País da emissão de gases de efeito estufa.

O desenvolvimento de um perfil do ecossistema, diz o sumário executivo, relaciona 1.629 espécies terrestres e de água doce classificadas pela UICN como globalmente ameaçadas, bem como peixes e espécies de plantas raros. E a melhor forma de conservação para muitas espécies é a proteção de “áreas adequadas de hábitat apropriado”. No Brasil, 761 áreas-chave foram identificadas.

O bioma tem 43 milhões de habitantes em áreas urbanas, mas cerca de 12,5 milhões ainda dependem de terras agrícolas, ecossistemas naturais e zonas úmidas. As mudanças são aceleradas e acentuadas com o processo de ocupação da fronteira agrícola “no coração do Cerrado”, após a construção de Brasília. O estudo entende que “as principais ameaças” ao bioma no presente e no futuro próximo são a pecuária, as culturas anuais (principalmente soja, milho e algodão), biocombustíveis (cana-de-açúcar), carvão vegetal, fogo e “silvicultura de monoespécies”, junto com erosão, espécies invasoras, culturas permanentes, suínos, transporte e aquecimento (local e global). Tudo isso leva um desmatamento anual de 6 mil km2 e já produziu a perda de 50% da cobertura natural.

Não faltam, portanto, informações científicas respeitáveis. Mas faltam políticas nacionais, regionais e locais adequadas que permitam a sobrevivência de um hotspot de biodiversidade – garantia de futuro. Que precisam ser formuladas e executadas sem perda de tempo.

Imagem do Dia

Menino de cinco anos identificado como Omran é resgatado após bombardeio em Aleppo, na Síria
Omran D., de 5 anos, retirado dos escombros depois de um bombardeio em Alepo, na Séria

Pedido de explicações de Comissão da OEA é um apanhado de tolices

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA enviou ao governo brasileiro um documento pedindo explicações sobre o processo de impeachment. Atenção! Trata-se de um procedimento padrão, mas que, nem por isso, deixa de revelar seu caráter ridículo, uma vez que a ação que o motivou é um despropósito.


Parlamentares petistas, encabeçados por Wadih Damous, ex-presidente da OAB-RJ — o que, suponho deve envergonhar a Ordem —, denunciaram à Comissão o que seria um golpe parlamentar no Brasil. Segundo a denúncia dos petistas, “estamos diante de uma situação que não pode ser solucionada por meio de recursos internos”. Os companheiros pedem ainda que a Comissão suspenda o processo. A iniciativa conta com o apoio de José Eduardo Cardozo, o advogado de Dilma, ele também, agora, investigado por obstrução da Justiça.

Chamo atenção para o fato de que, segundo os parlamentares do PT, o próprio Supremo faria parte, então, do tal golpe, uma vez que, como está na denúncia, inexistem “recursos internos” para resguardar os direitos políticos e, pasmem!, humanos de Dilma. Vamos mais longe: para esses senhores, o Brasil já não consegue cuidar sozinho dos seus problemas.

Trata-se de um acinte e de um despropósito. As perguntas enviadas pela Comissão, dado o ridículo da denúncia, tornam-se igualmente vexaminosas.

A Comissão quer saber, por exemplo, “como teria sido garantido o devido processo legal” e “quais seriam os efeitos de uma inabilitação definitiva [de Dilma]”. Ora, ora… O órgão, que abriga o lulista Paulo Vannuchi, não precisaria nem preguntar isso ao governo. Bastaria consultar o Google. A pena em caso de impeachment está devidamente prevista em lei.

Como foi garantido o devido processo legal? Ora, com a aplicação estrita dos nossos códigos, referendados pelo regime democrático e devidamente acompanhados pelo Supremo, que foi chamado a atuar mais de uma vez pelos aliados de Dilma. A Comissão pergunta ainda se haveria a chance de uma “revisão” do processo… Hein? Revisão de quê? Estaria a dita-cuja disposta a declarar sem validade a Constituição do Brasil?

O que acho mais divertido é ler por aí que a Comissão pode conceder uma liminar para “suspender” o julgamento. É mesmo? E quem aplicaria a medida? A Quinta Cavalaria? O Brasil é um país soberano, onde vigora uma democracia de direito. A deposição de Dilma, segundo a Constituição e as leis, é uma questão de política interna.

E arremato com uma questão que já lembrei aqui: quando essa mesma Comissão recomendou a Dilma a suspensão da construção da usina de Belo Monte, a então presidente, em 2011, deu-lhe uma solene banana. E fez muito bem!

Nem a Comissão nem a Corte Interamericana de Direitos Humanos são instâncias revisoras da Justiça brasileira. Menos ainda do Congresso Nacional.

O pedido de explicações não passa de uma tolice derivada de outra.

Se o deputado Wadih Damous não gosta da Constituição e das leis que temos, ele que proponha projetos e emendas para alterá-las. Ou, então, que proponha, sei lá, a luta armada.

O povão ficará de fora?

As atenções estarão voltadas para o que parece o último capítulo da novela do impeachment, do dia 25 ao dia 31, se não sobrevierem inusitados. Foram aprovados os detalhes do julgamento final de Dilma Rousseff, com direito ao comparecimento de Madame ao plenário do Senado, para sua derradeira defesa e diálogo com os senadores, dia 29, além de depoimentos de testemunhas e coleta final dos votos, para condená-la. Tudo milimetricamente definido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski.


Uma lacuna, porém, permanece à margem da competência do ilustre magistrado: e o povo? Tem gente achando que a enfadonha tramitação do processo de afastamento de Dilma exauriu as últimas reservas de paciência do cidadão comum, que por isso dará de ombros durante os acontecimentos. O operário continuará operando, o banqueiro contando juros, o estudante estudando e o desempregado sofrendo. No máximo, uma parcela da população dividirá seus afazeres com as telinhas de reprodução da TV Senado.

Prevê-se a concentração de grupos, ainda que não de multidões, diante do palácio do Congresso, uns protestando e outros festejando a saída da presidente, não se sabe se de carro ou de helicóptero. Dificilmente procissões saudosistas ou carnavalescas desfilarão na Praça dos Três Poderes durante as prolongadas horas do julgamento. Apesar de um razoável aparato policial estar programado para zelar pela ordem na capital federal, não se tem notícia de desordens engendradas pelos sindicatos, partidos, sequer o PT, e sucedâneos. No Rio, São Paulo e outras capitais, algumas aglomerações poderão acontecer, mas o povão, mesmo, ficará à margem, diante de sequelas e querelas que não lhe dizem respeito.

Pedido de campeão

Essa medalha tem um significado especial por ter vindo de um projeto social, mas me dá tristeza ver que isso acabou no Brasil. Se vocês tiverem como tirar fotos dessa medalha, mostrem aos nossos políticos no Planalto para que eles parem de brigar entre si e continuem a buscar novos atletas
Isaquias Queiroz, medalha de prata na canoagem

Como a pobre Brejo Santo construiu as melhores escolas públicas do Brasil

Sob um sol forte e um calor de mais de 30 graus, começam a descer das vans escolares, às 7 horas da manhã, os alunos da escola de ensino fundamental Maria Leite de Araújo, na zona rural de Brejo Santo, cidade a 70 quilômetros de Juazeiro do Norte, no Ceará, e a mais de 500 km da capital do Estado, Fortaleza. O verde das paredes da escola, uma construção simples de tijolos, contrasta com a paisagem ao redor, dominada pelo marrom das estradas de terra, pelo amarelo das plantações acostumadas à escassez de chuva e pela magreza do gado, castigado pela seca.

A escola tem somente cinco salas e 180 alunos, dos quais mais de 90% dependem de programas sociais do Governo, como o Bolsa Família. A renda per capita da região não passa de 350 reais mensais (contra pouco mais de 1.000 reais no Brasil), dinheiro que vem principalmente da agricultura familiar. Com essas características, que são bastante comuns na rede de ensino de um Brasil tão desigual, a escola Maria Leite desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas de um colégio modelo: é a melhor instituição pública de ensino fundamental do país.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), apurado pelo Ministério da Educação (MEC), é quem constata o fato. A escola Maria Leite de Araújo possui a maior nota do Brasil, 9,6, para o primeiro ciclo do fundamental. A média para o país, inclusive, é quase a metade (5,2). O indicador mede o desempenho em português e matemática dos alunos da rede pública.

O segredo para tal desempenho, segundo a secretária municipal de Educação, Ana Jacqueline Braga, não se esconde em uma fórmula mágica mirabolante. "Não é preciso muito dinheiro. Basta fazer um feijão com arroz bem feito. Se tiver recurso sobrando, faz também um bifinho à milanesa, claro. Mas é o básico que precisa ser feito primeiro", conta. A secretária foi percebendo os desafios educacionais do município durante seus mais de 20 anos de experiência como professora da rede.

Um exemplo do "básico" que precisava ser feito parece um reles detalhe, mas fez toda a diferença num município predominantemente pobre. Desde 2009, as crianças tomam um café da manhã quando chegam para assistir às aulas, uma medida fundamental quando grande parte delas tem na escola a principal fonte de alimentação (às vezes, a única). Além dessa refeição, contam com um almoço bem reforçado no recreio. A matéria-prima vem dos agricultores familiares do município, uma iniciativa que garante a qualidade das frutas e verduras no prato das crianças e movimenta a economia local.

Outra iniciativa importante para elevar a qualidade de ensino do município foi o acompanhamento pedagógico constante dos alunos. Antes de todo ano letivo, cada criança é avaliada por suas competências. Aquelas que não aprenderam o conteúdo esperado, assistem a aulas de reforço fora do horário no qual foram matriculadas. Ao longo de todo o ano, as crianças também são acompanhadas por coordenadores pedagógicos. Quando têm dificuldades em alguma disciplina, os professores são orientados sobre como trabalhar com aquela criança para nivelá-la em relação àquilo que é esperado da turma.

A guinada na qualidade do ensino de Brejo Santo, com cerca de 45 mil habitantes, não é um caso isolado do Ceará. Foi durante o governo de Cid Gomes, entre 2007 e 2014, que o Estado começou a implantar um projeto educacional para todos os municípios da região, com destaque para o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic). Em 2007, 39% das crianças entre 7 e 8 anos saíam dos primeiros anos do ensino fundamental sem saber ler nem escrever, percentual de analfabetismo que caiu para 6% em 2014. Foram iniciativas como acompanhamento pedagógico de professores e de alunos e meritocracia, como as feitas em Brejo Santo, que o Estado viu o seu Ideb evoluir de 3,5 para 5,2 nos estágios iniciais do ensino fundamental em menos de sete anos. O projeto educacional do Estado, contudo, foi inspirado em uma experiência na cidade natal da família Gomes, Sobral.

Sala de aula da Nobilino Alves de Araújo.
No caso da cidade visitada pelo EL PAÍS, os 921 professores da rede municipal fazem treinamentos semanais na secretaria de Educação, como parte de um programa de educação continuada do município. O piso salarial é superior ao nacional, que hoje soma 2.135 reais. Os magistrados também recebem bônus de final de ano, um 14 salário que acompanha o desempenho da sua escola no Ideb e no Spaece, prova que mede o conhecimento dos alunos no Estado do Ceará. "Quem faz acontecer, na verdade, é o professor. Então a sua profissão deve ser valorizada", explica Jacqueline.

Nos últimos anos, a rede toda foi reformulada, e a maior parte das 42 escolas de ensino básico foram segregadas por séries. Algumas escolas oferecem matrículas do ensino infantil, outras do primeiro ao quinto ano do fundamental e, outras, do sexto ao nono. Diferentemente da tentativa de reorganização escolar aplicada no Estado de São Paulo, as crianças que foram transferidas contam com transporte escolar e, ainda que tudo seja muito perto na zona urbana da interiorana Brejo Santo, não precisam se preocupar com a distância entre o novo colégio e as suas casas. Na zona rural, onde as distâncias são de fato um problema, as escolas costumam oferecer vaga para todos níveis de ensino. Mesmo assim, o transporte escolar é obrigatório.

Antes de 2009, o ensino em Brejo Santo era multisseriado, ou seja, na mesma sala de aula encontravam-se alunos de séries diferentes. O modelo, que funciona bem na Escola da Ponte, em Portugal, parece não se adaptar a Brejo Santo. "Modelos muito construtivistas são ótimos quando os alunos têm boa estrutura familiar, conhecimentos prévios para serem trabalhados. As crianças aqui não vivem essa realidade e eu não posso simplesmente ignorá-las, nem esperar que elas estejam preparadas para as pedagogias modernas", defende Jacqueline.

Dados comprovam a evolução do município após a reestruturação, rede de ensino que já esteve entre as piores do país. O Ideb médio de Brejo Santo passou de 3 em 2007 para 7,2 em 2013. Há alguns anos, a evasão escolar era uma das maiores do Brasil e, o número de matrículas, baixo. Atualmente, 99% dos alunos em idade escolar estão, de fato, na escola, o que corresponde a 12.325 estudantes. Tudo o que foi conquistado pela cidade, contudo, provém de poucos recursos. Além dos repasses do Fundeb, fundo de educação básica distribuído pelo Governo federal para todos os municípios do país, Brejo Santo aplica no segmento 27,5% de suas receitas com tributos, pouco mais de 13 milhões de reais por ano. A cidade conta com cerca de 47 mil habitantes, dos quais 11 mil dependem de bolsas assistenciais do Governo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A Olimpíada como metáfora

O Rio de Janeiro recebeu um reforço de 88.000 agentes para garantir a realização dos Jogos Olímpicos, o maior esquema de segurança da história do Brasil. Turistas, torcedores e membros das comitivas esportivas podem circular com certa tranquilidade pelas ruas da Zona Sul, que inclusive passaram por um processo de expulsão dos sem teto na Operação Caça-Tralha. Ainda assim, alguns episódios isolados de violência foram registrados, sendo os mais graves as mortes do soldado da Força Nacional, Hélio Andrade, atingido por uma bala ao entrar por engano no Complexo da Maré, e do técnico da equipe alemã de canoagem, Stefan Henze, em decorrência de um acidente de carro na Barra da Tijuca.

Talvez, ao voltarem para casa, os turistas estrangeiros e membros das comitivas esportivas carreguem uma imagem positiva do Brasil e até mesmo questionem as notícias sempre reiteradas do perigo que é transitar pelo nosso país. Este foi, em suma, o objetivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando, em outubro de 2009, anunciou a vinda dos Jogos Olímpicos para o Rio de Janeiro, ironicamente realizados sob a presidência interina de Michel Temer.

No entanto, no dia seguinte ao encerramento das Olimpíadas, os cariocas vão se deparar com a triste realidade: em junho, segundo dados do Instituto de Segurança Pública, os roubos a pedestres subiram 80% em relação ao mesmo mês de 2015 e os homicídios dolosos (com intenção de matar) cresceram 38% no mesmo período.

No resto do Brasil, que escapa aos olhares dos estrangeiros, ofuscados pelos holofotes dos Jogos Olímpicos, viver continua a ser muito perigoso. Segundo o Atlas da Violência 2016, nosso país é o que mais mata no mundo em números absolutos – quase 60.000 assassinatos por ano –, uma taxa média igual a 29,1 homicídios por 100.000 habitantes. De cada 100 pessoas assassinadas no planeta, 10 são brasileiros. E a violência está diretamente ligada à cor da pele e à situação socioeconômica. Um jovem de 21 anos, idade de pico das mortes por homicídio, com menos de sete anos de estudo, tem 17 vezes mais chances de ter uma morte violenta; e, caso seja negro ou pardo, as possibilidades aumentam ainda em 147%.

Felipe da Silva Ângelo, de 26 anos, recebeu 14 tiros na cabeça e nas costas numa travessa do bairro miserável de Santa Lúcia, em Maceió, no dia 10. Ninguém soube os motivos do crime e talvez nunca saberemos. Felipe não é cidadão, é estatística. Ele foi apenas mais uma das muitas vítimas da selvageria que grassa em Alagoas, estado que lidera o ranking do Atlas da Violência 2016, com 63 homicídios por 100 mil habitantes, o dobro da média brasileira, já altíssima. Alagoas, como se sabe, é dominada por clãs, como o do presidente do Senado,Renan Calheiros, cujo filho é o prefeito de Maceió, e por figuras públicas como o senador Fernando Collor, ex-presidente da República cassado por corrupção. Ambos, Renan e Collor, estão envolvidos nas denúncias da Operação Lava-Jato.

Mas Maceió, onde Felipe nasceu e viveu, não é nem o nosso município mais perigoso. De acordo com o Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, das 50 cidades acima de 300.000 habitantes mais violentas do mundo, 21 encontram-se no Brasil. E Fortaleza, capital do Ceará, mundialmente conhecida como destino preferencial para a prática da prostituição infantil, se destaca com 60 assassinatos por 100.000 habitantes. No último fim de semana, por exemplo, foram registrados 29 homicídios – um deles, o de um menino chamado Kell. Kell havia abandonado os estudos e gostava de passar o dia soltando papagaio (ou pipa ou raia ou pandorga, dependendo da região). Ele tinha apenas 12 anos.

Por fim, infelizmente, Fortaleza não é nem nossa cidade mais violenta, em termos relativos. Segundo o Atlas da Violência de 2016, o município mais violento do Brasil chama-se Caracaraí, em Roraima, com um inacreditável índice de 210,3 mortes por 100.000 habitantes, três vezes e meia maior que o de Fortaleza. Em 2014 – ano em que foram coletados os dados – ocorreram 40 homicídios em meio a uma população de pouco mais de 19.000 pessoas. Lá, no último domingo,uma adolescente de 16 anos assassinou o tio, de 38 anos, com uma facada no abdome. A mãe dela explicou que o tio, irmão dela, havia agredido a filha e que ela se vingou, matando-o.

Todos os dias 164 pessoas são assassinadas no Brasil, a grande maioria jovens negros ou pardos residentes nas periferias das cidades, ou seja, em lugares distantes e tendo como vítimas seres humanos invisíveis para o resto da sociedade. Só tomamos consciência da violência quando ela se aproxima de nós, atingindo vizinhos ou familiares. E então nos indignamos momentaneamente para em seguida nos conformamos de novo, pois como nas medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos só conseguimos atuar de maneira individual. Coletivamente somos um imenso e retumbante fracasso.