segunda-feira, 25 de julho de 2016

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Esperando.Sempre

Esperando um milagre...:
Faz tempo que todos os dias a gente espera. Como personagens do teatro do absurdo. Mas nada parece acontecer. Ninguém chega. Ninguém parte. Nada se resolve. Vivemos a mesma agonia todos os dias. Esperando a solução que promete, mas não vem.

A gente não sabe mais qual a solução. Ou quantas são. Quando chegarão. Se existem. Se de fato aparecerão. Os dias vão se passando. Viram meses. Até anos. E as noticias, embora novas, são sempre as mesmas. Convidam o tédio.

O tédio, contrariamente as soluções, atende rápido. É mortal. Transforma dias vazios e ideias repetitivas em desesperança. Destrói a vontade e polui a vida. Precisa ser ludibriado. E assim fazemos.

Discutimos o inútil a exaustão. Mesmo que nada de novo exista para ser dito. Palavras, esquecemos sempre, não substituem a ação. Ficção não vira realidade. É impossível viver de mentiras. Mas enxergar a realidade é doloroso. Esperando permanecemos. Por anos, assim.

E esperando ficamos. Parados, iludidos, por vezes atônitos. Sempre assistindo a cenário grotesco de degradação ética, institucional e legal. Acompanhando fatos repetitivos cometidos pelos mesmos personagens, sem muitas novidades.

Enquanto isso falamos. Conversa monótona, repetitiva. Ouvimos explicações que pretendem parecer diálogo mas que na verdade são simples monólogos, na melhor das hipóteses, cômico, e em todas as hipóteses, farsesco.

Conformados, parecemos ter aceitado a suspensão da vida enquanto nada se resolve. E, no interim, inventamos distrações. Promovemos eventos e damos a eles importância que não tem, a um custo que não deveriam ter. A gente se diverte como pode. Talvez.

De vez em quando, aparece algum mensageiro. Diz que a solução não chega hoje. Certamente amanha, promete. Mas ninguém mais acredita. Não haveria porque acreditar. Resta a indignação, a revolta. Alguém poderia gritar: “Vamos embora”. Certamente todos concordariam. Entusiasticamente.

Mas ninguém se mexe. Todos ficam imóveis. Esperando. Como ditam as regras deste teatro de absurdos.

E cai o pano.

O jogo de aprender

Nesta semana, li um artigo da colunista Sally Jenkins, do “Washington Post”, afirmando que o Rio não está pronto para os Jogos Olímpicos e a culpa é do Comitê Olímpico Internacional, o COI. Ela cita os mesmos problemas de violência, poluição, crise econômica e acrescenta um que não estava tanto no meu radar: a superbactéria encontrada nas praias de Copacabana. Conhecida na intimidade científica como KPC, a superbactéria foi encontrada em cinco praias da Zona Sul. Os pesquisadores da UFRJ, no entanto, após a descoberta, afirmaram que não havia razões para alarme.


Todos os problemas apontados por ela me levaram a uma conclusão diferente: a culpa é dos líderes brasileiros que optaram pela Olimpíada no Rio. Mas a colunista do “Washington Post” tem razão ao afirmar que o COI vacilou e é responsável pela aventura de milhares de turistas que virão ao Rio ver os Jogos. Por baixo de tudo, afirma ela, estão milhões de dólares que o negócio produz. Como um simples atleta amador, os Jogos já estão mudando minha vida cotidiana. O trânsito está bastante lento. Na Lagoa Rodrigo de Freitas um longo trecho foi interditado aos ciclistas e corredores.

No Flamengo vai ser inaugurada uma nova piscina. Os norte-americanos vão treinar aqui. A primeira consequência da medida é a retirada dos gatos. Eles sempre viveram nas proximidades da piscina. Houve um momento em que a arquibancada era frequentada por um gambá, que fotografei algumas vezes e era um belo animal. Não sei se os americanos não querem os gatos ou se a própria direção do Flamengo aproveitou o pretexto para expulsá-los. Mas não são os pequenos dissabores cotidianos que me preocupam como atleta amador. É todo o enfoque da política brasileira voltada para os grandes eventos e provas de alta performance.

No mês em que a Olimpíada começa foi fechada a Vila Olímpica do Complexo do Alemão, chamada Carlos Castilho em homenagem ao fantástico goleiro do FLU. Existe sempre uma tensão na política de esportes entre as tendências de fazer muitos espectadores ou muitos praticantes do esporte. Não são, necessariamente, contraditórias. Mas a ênfase no momento está no atletismo de grande performance, no espetáculo. Na Zona Norte do Rio quase não há piscinas em que a garotada possa aprender a nadar. Numa cidade como o Rio, os esportes aquáticos como natação, water polo, surfe têm um enorme potencial de crescimento.

A ênfase num espetáculo grandioso como a Olimpíada, num país de cobertor curto como o nosso, significa, de certa maneira, sacrificar o investimento no esporte amador, em sintonia com as escolas. A Olimpíada custa e, conforme se propaga, deixará legados. Mas o que significa um velódromo para os moradores da Zona Oeste que, diariamente, são obrigados a desbravar uma ciclovia cheia de buracos, postes e lixo? Os custos dos Jogos não se limitam aos investimentos feitos pelo governo. Eles se estendem também a uma extensa rede de isenções de impostos, a mesma tática que o governo PT-PMDB usou para a indústria automobilística. Recentemente, a cidade inaugurou um campo de golfe na Barra da Tijuca. Havia outros no Rio, mas não estavam dentro dos padrões do COI. O próprio Ministério Público já denunciou a obra como ambientalmente incorreta. Logo depois disso, vi uma entrevista de Eduardo Paes, lamentando que os grandes jogadores de golfe não queiram participar da Olimpíada do Rio. O campo foi construído para eles e terá um papel secundário nos jogos.

Nada contra o golfe. Na verdade, quem tem algo contra o golfe são os próprios políticos brasileiros que lutaram pela Olimpíada no Rio. Lembro-me do diálogo de um garoto que morava na comunidade Nelson Mandela com Lula e Cabral. Foi gravado e difundido na internet. Num momento do diálogo, o garoto fala em seu desejo de aprender tênis. Lula responde agressivamente: mas tênis é esporte burguês. Aproveitei a oportunidade, na época, para mostrar o campo de golfe de Japeri, na Baixada Fluminense. Ali há um programa de ensino para garotos da região. Um deles tornou-se campeão nacional. Isso não é o mais importante. O fato é que todos os outros podem treinar, diariamente, e travar contato com um esporte que desenvolve seu potencial humano como qualquer outra modalidade. Concordo com a colunista do “Post” quando afirma que o COI se move com a perspectiva do lucro. Mas e os políticos, se movem com que perspectiva?

Uma delas sem dúvida é a aspiração de glória e poder. Naquele rápido e espontâneo diálogo com o garoto da Mandela, Lula e Cabral revelaram não apenas preconceitos, mas também como são débeis seus vínculos com uma política de democratização da prática esportiva. Continuo desejando que a Olimpíada seja um êxito, embora a simples normalidade já baste. A esperança é de que os políticos que vão surgir, disputando a modalidade voto direto, reflitam melhor entre produzir espectadores ou produzir atores no cenário esportivo.

O golpe dos patetas

Está inaugurado o festival de bobagens. Abrindo as comemorações vem o governo Michel Temer, no qual se incluem deputados e senadores em maioria, ministros, assessores, dirigentes dos partidos da base oficial e quem mais se queira incluir no mundo oficial. Não se relacione, porém, nesse bando de patetas, um único eleitor dos que vão se definir em outubro.


Traduzindo: não há como acreditar que para sair vitorioso das eleições municipais, os detentores do poder deverão adiar para depois da votação a tentativa de o Congresso aprovar o pacote de maldades engendrado nos porões do palácio do Planalto. Sustentam que devem ficar para mais tarde as reformas da Previdência Social, trabalhistas, PEC do teto, renegociação da dívida dos estados, mudança nas regras do pré-sal, limitação da indicação de diretores de estatais e de fundos de pensão, privatizações em massa, redução do número de partidos e sucedâneos – essas e outras capazes de despertar indignação na opinião pública.

Não que imaginem abrir mão dessas maldades, mas, simplesmente, querem protelá-las para que o eleitorado não se vingue votando em seus adversários. Depois da eleição, entendem, tudo será permitido em termos de impopularidade.
Serão tão bobos para imaginar que o cidadão comum deixe de perceber a manobra? Estaria a sociedade iludida a ponto de imaginar-se cega, surda e muda?

Que o governo prepara violências, está à vista de todos. Ainda por cima, tentam enganar-nos ocultando suas verdadeiras intenções.

Podem preparar-se para o maior dos sustos com o resultado das urnas. Ficará claro que o povo não é bobo. Até porque espalham a receita do que pretendem: enviar a conta da suposta recuperação econômica para os mesmos de sempre, a população menos favorecida e mais sacrificada. Não perdem por esperar, venha o eleitorado a votar nos seus contrários ou, melhor solução ainda, a não votar…

Uma eleição com novas regras

Inicia-se em 16 de agosto uma campanha eleitoral totalmente diferente das anteriores. Espremida em 45 dias de calendário e apenas 35 dias de divulgação em TV e rádio, sem outdoor, superplacas ou recursos mirabolantes, sem show de cantores e atores, terão os candidatos um enorme trabalho para arrancar votos dos eleitores usando de sua cara e capacidade pessoal.

A lei que regulamenta o pleito deste ano retirou do quadro o espetacularismo, os efeitos especiais, as cenas apoteóticas. O candidato aparecerá quase nu e cru explicando para o que veio e o que representa um voto nele, e não em outro.

Podemos imaginar um eleitor que, com toda a razão, imagina a política brasileira um exercício contumaz do crime, com suas perversas expressões, estará a escutar de má vontade os candidatos, aderindo em larga escala ao voto em branco, que serve apenas para fortalecer quem explora o meio. Mas grande parte deverá prestar atenção mais nas propostas do que nas críticas, nos acenos de saída de um beco político que levou para a crise, o desemprego e a incerteza.

Não às promessas surradas de lotes na lua, de metrô na porta de casa, mas de coisas mais simples, como a honestidade, a competência, a capacidade de realizar melhorias num ambiente decente.

A onda que passa pela Europa, varrendo métodos que pareciam eternos e cinzentos, poderá varrer personalidades estigmatizadas pelo velho estilo. O eleitor esclarecido está interessado na novidade em primeiro lugar, naquele que, bem ou mal, apresente um aceno de saída da dicotomia direita versus esquerda que se comungam em métodos errados.

O novo perfil almejado é o de quem dará um basta ao fisiologismo, à partilha do poder e à exploração da coisa pública, àquele que antes de tudo se cerca de cúmplices, e não de colaboradores competentes. Àquele que tem um projeto de poder acima de um projeto de desenvolvimento e bem-estar. Terá dificuldades aquele que acenar a partilha do poder entre aliados e associados, sem colocar seu cargo à disposição do verdadeiro destinatário: o cidadão.

Valerão as mazelas de sempre? Apenas em parte. Ainda o eleitorado está longe de ser livre das contas fisiológicas rasteiras, a ignorância também sobreviverá por gerações e continuará a desfigurar o bom e não se aperceber do mal.

As redes sociais, contudo, excluindo-se os canalhas que nela atuam anonimamente como vândalos, já atuam como meio democrático e valioso à população, são a grande novidade, abrindo um debate permanente de ideias e opiniões durante ininterruptas 24 horas por dia. Provavelmente serão as redes a “pior” novidade para quem pratica a enganação, poderão arejar o ambiente fechado aos poucos “tradicionais” e dar possibilidade de disputar o voto a quem tem boas ideias e conteúdo.

As sondagens entre eleitores, nas faixas de maior esclarecimento, mostram a sede de bons administradores, experientes, realizados em suas profissões, que saibam realizar mais que obras cíveis, obras sociais e humanitárias, diminuir a burocracia e a tributação, dar eficiências e valor aos entes públicos.

Estas eleições municipais são um prelúdio daquilo que acontecerá em maior escala em 2018. Um aquecimento de um jogo com novas regras, mais que para firmar posição partidária, servirá para indicar as tendências que prevalecerão para o futuro. Prometem a superação de um sistema esgotado.

Um alívio para a crise ética num poço que não pode mais se aprofundar. Clama-se por novas e mais eficientes formas, aproveitando as tecnologias para construir uma sociedade mais avançada e protegida dos infortúnios dos patrimonialismos e da corrupção.

Os sonhos se perderam para nossa juventude, deixando lugar aos pesadelos do primeiro emprego, do tempo que escapa sem perspectiva de uma vida confortada. Os valores singelos da democracia batem forte no peito da nova geração, e serão esses que determinarão surpresas e avanços.

Com Paes à frente da Olimpíada, dá até vergonha de ser brasileiro

A vergonha é enorme. Primeiro foi Copa do Mundo, com o Brasil imitando a África do Sul ao espalhar elefantes brancos pelo país, apelidados de “arenas” e que hoje não servem para nada. A maioria dos gigantescos estádios não tem mais serventia, está ao abandono, como acontece com o histórico Maracanã, que não realiza mais partidas de futebol, embora continue a ser procurado por turistas do mundo inteiro, que insistem em considerar o Rio de Janeiro uma cidade maravilhosa.

Organizada pelo trio Lula da Silva, Sérgio Cabral e Eduardo Paes (verdadeira formação de quadrilha), a Copa do Mundo foi apenas uma maneira de facilitar o enriquecimento ilícito desse tipo de político, com superfaturamento de obras suntuosas e inúteis, que jamais poderiam ter sido consideradas prioritárias num país ainda subdesenvolvido como o Brasil.

Mas apenas a Copa não era o bastante para satisfazer esses políticos roedores, eles tinham também de dar um jeito de realizar uma Olimpíada, mesmo depois do fracasso financeiro de Atlanta, nos Estados Unidos, de Barcelona, na Espanha, de Atenas, na Grécia, de Pequim, na China, de Sidney, na Austrália, e de Londres, na Inglaterra, segundo uma análise implacável feita pela Associação Internacional de Economistas e Esportes (IASE).

Olimpíada pode dar prestígio e até atrair turistas futuros, mas não registra lucro. O resultado é sempre o mesmo: dívidas, estádios e parques vazios, desilusão. Um estudo feito pela Monash University da Austrália descobriu que não houve nenhum benefício tangível ou “impulso econômico” a partir dos Jogos Olímpicos de Sidney.

Em todos os países, as autoridades se vangloriam dos lucros e dos legados. Os ingleses gastaram 9 bilhões de libras, uns R$ 30 bilhões. David Cameron, primeiro- ministro, anunciou um lucro final de “13 bilhões” de libras, algo como R$ 42 bilhões. Houve gargalhadas e deboche na mídia. O respeitado The Guardian, mais importante jornal inglês, ridicularizou as declarações sobre o falso lucro: “Isso é lixo”.

Nem mesmo Barcelona serve de exemplo de suposto sucesso. Um ano depois da Olimpíada, os hotéis tinham uma queda entre 50% e 80%. A prosperidade da cidade, que veio depois, é atribuída aos vôos baratos e ao posterior boom espanhol.

Por fim, o relatório da IASE sobre a Olimpíada de Atlanta (EUA) poderia se aplicado ao Brasil: “Desvios de recursos escassos que poderiam ter uso mais apropriado e produtivo no combate às lentas taxas de crescimento econômico”.

Agora, vem aí a Olimpíada da Irresponsabilidade, a ser vencida pelos políticos brasileiros, com Lula, Cabral e Paes subindo juntos ao pódio. Antes mesmo da abertura, a vergonha já é imensa. Muitos atletas estrangeiros se recusaram a vir, por causa das doenças transmissíveis. Além disso, obras sendo acabadas às pressas, um governador incompetente que decreta “calamidade pública” na cidade e provoca devolução de 50 mil ingressos, um prefeito idiota que dá seguidas entrevistas à imprensa estrangeira falando mal da cidade e dizendo que a Olimpíada foi uma “oportunidade perdida”. É constrangedor.

Agora, as delegações estrangeiras estão chegando à Vila Olímpica, que o eterno cartola Carlos Arthur Nuzman, enriquecido ilicitamente por conta do esporte, classificou como “as melhores instalações da História das Olimpíadas”. Mas não é verdade, era tudo conversa fiada, há problemas nas instalações de gás, elétricas e hidráulicas, sem falar na sujeira ambiente, que surpreendeu a delegação australiana, enquanto a Folha informava que delegações de outros países tiveram a cautela de contratar operários para dar acabamento às obras de suas instalações.

E o prefeito Eduardo Paes ainda tem coragem de abrir a boca para fazer piadas e dizer que vai botar cangurus na Vila Olímpica para agradar a delegação visitante…

É nessas horas que a gente até sente vergonha de ser brasileiro. Se fosse no Japão, o prefeito se curvaria diante dos estrangeiros e pediria desculpas por seus erros, antes de sair para praticar um ligeiro haraquiri.

Nunca foi tão fácil detectar os cleptocandidatos

Vai começar em 16 de agosto um espetáculo político diferente: uma eleição municipal em que as contribuições de empresas privadas estão proibidas. Considerando-se a estatística repassada por João Santana a Sérgio Moro —“98% das campanhas no Brasil utilizam caixa dois”—, pode-se intuir que a verba que circula por baixo da mesa vai aumentar. Se esse dinheiro saísse do bolso dos candidatos ou das caixas registradoras que os apoiam, tudo bem. O diabo é que cada centavo tem uma única origem: os impostos que o eleitor entrega ao fisco.

Antônio Ermírio de Moraes costumava definir a política como “a arte de pedir recursos aos ricos, pedir votos aos pobres e mentir para ambos na sequência.” Nessa formulação, somente o político é vilão. O oligarca faz companhia ao desafortunado no papel de vítima dos políticos venais. Traído pelo destino, Ermírio morreu em agosto de 2014, cinco meses após a explosão da Lava Jato. Uma pena. Vivo, o mandachuva da Votorantim seria compelido a reformular sua tese.

Se o petrolão demonstrou alguma coisa é que a política no Brasil não passa de um conluio entre as oligarquias política e empresarial, para assaltar o eleitorado em dia com o fisco e usar parte do produto do roubo no financiamento da propaganda eleitoral que o fará de idiota. Quem não quiser passar por imbecil, deve tomar suas precauções. A primeira delas é fugir de candidatos marquetados. Sob pena de eleger a melhor encenação, não o melhor prefeito.

Nunca foi tão fácil detectar os cleptocandidatos. Além de proibir a verba empresarial, as regras eleitorais fixam um teto para a tesouraria dos comitês. O pé-direito do caixa varia de R$ 108 mil, valor máximo de uma campanha à prefeitura dos municípios com menos de 10 mil eleitores, até R$ 45,4 milhões, limite estabelecido para a cidade de São Paulo. Num cenário ideal, os próprios adversários cuidarão de denunciar os excessos. Com sorte, alguns atores enxergarão o novo momento do país.

Estão na cadeia empresários poderosos como Marcelo Odebrecht, políticos influentes como José Dirceu, gerentes de arcas partidárias como João Vaccari Neto, ex-diretores da Petrobras como Renato Duque e até um marqueteiro do porte de João Santana. A corrupção agora dá cadeia, eis a novidade. Se os empresários tivessem amor às suas logomarcas, fechariam o caixa dois. Se os políticos tivessem vergonha na cara, fariam da tesouraria limpa um mote de campanha. Se o eleitor tivesse juízo, fugiria de candidatos marquetados.

Quanto mais rica a campanha, maior a mistificação. Quanto mais tempo de propaganda no rádio e na tevê, mais inconfessáveis os acordos que aumentaram a coligação partidária. Se quisessem ser levados a sério, os partidos deveriam começar o debate sobre uma reforma eleitoral por duas providências simples.

Numa, a propaganda cinematográfica seria substituída por debates ao vivo entre os candidatos, transmitidos por um pool de emissoras e pela internet. Noutra, partidos que deixassem de apresentar candidatos no primeiro turno para vender seu tempo de tevê perderiam automaticamente a vitrine eletrônica e a verba do Fundo Partidário.

Os Terroristas Estão Chegando! Estão Chegando Os Terroristas!

Não tem a menor possibilidade de o terrorismo internacional se dar bem no Brasil. É sem chance. Zero. Já está tudo explodido e detonado. Pode juntar o ISIS, o Hamas, o Hezbollah e o Al Qaeda -- tudo não chega nem perto da capacidade de destruição dos políticos brasileiros. Na verdade, na modalidade olímpica de terrorismo muçulmano explosivo, a equipe brasileira não tem nenhuma possibilidade de medalha. O Brasil é o único lugar do mundo em que os Mártires de Alá combinam atentados usando WhatsApp e Facebook. Terrorista brasileiro é tão burro que tira selfie para colocar no Instagram. Parece até a Dilma, que, aliás, também foi presidenta-bomba.

Caso o terrorismo internacional resolva se instalar de vez no Brasil, também não vai dar certo. Os guerrilheiros vão ser obrigados a tirar CPF, o governo vai aumentar o imposto sobre o explosivo e ainda cobrar um IPVA extorsivo dos carros-bomba. Os homens-bomba, antes de explodir, teriam que tirar um alvará, além de cadastrar-se na Anvisa e no Detran. Os terroristas mais famosos seriam convidados a passar o fim de semana se autoexplodindo no Castelo de Caras para sair da depressão. Também seriam contratados para fazer anúncio de presunto da Seara, apesar de o islamismo proibir o consumo de carne de porco. Terroristas ligados às “comunidades” seriam convidados do “Esquenta” da Regina Casé e dariam receita de bomba caseira no programa da Ana Maria Braga.

E tem mais: os terroristas concursados do estado, com direito à estabilidade, quinquênio, biênio e licença-prêmio poderiam se aposentar aos 35 anos de idade, “devido de que” a periculosidade da profissão. Os terroristas estaduais do Rio de Janeiro entrariam em greve, pois não iriam receber as 400 virgens a que têm direito por acordo do Sindicato dos Terroristas, filiado à CUT. Para protestar, vão ficar na porta do prédio do governador tampão e tampinha, Chico Dornelles, ameaçando não se explodir durante os Jogos Olímpicos. 

Tempo de idiotas

TV é coisa do capetaOutrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina
Nelson Rodrigues

Um golpe chegou

Os golpes não nascem nas cabeças maquiavélicas dos candidatos a ditadores, mas nas pernas trôpegas de governantes democratas que não cumprem os compromissos assumidos nas eleições. Quando a democracia não atende às aspirações da nação e do povo, seus governantes cansam, e os golpistas se apresentam como alternativa.

Há décadas a democracia brasileira caminha a passos trôpegos, deixando aberta a necessidade de diversos golpes: contra corrupção, irresponsabilidade fiscal, aparelhamento do Estado pelo partido no poder, concentração de renda, causas da violência urbana, ineficiência e baixa produtividade da economia, sobretudo contra a deseducação geral de nossa população.

Só não necessitamos de golpes políticos contra a ordem democrática. Se estes necessários golpes sociais continuarem ausentes da prática política, será uma questão de tempo para a realidade fazer o golpe político que não desejamos. Se isto acontecer, duas causas serão identificadas: a resistência a pensar e o dogmatismo de colocar siglas, interesses pessoais e preconceitos ideológicos à frente dos interesses do Brasil.

Domingo, 3 de julho, esperava um voo, em Porto Seguro (BA), para voltar a Brasília, quando uma senhora aproximou-se e perguntou: “O senhor é o senador Cristovam?”. Respondi que sim, estendendo-lhe a mão que ela recusou, dizendo “Não aperto a mão de golpista.”. Perguntei como ela sabia qual será o meu voto se, como um dos juízes do impeachment, só decidirei ao fim do processo, depois de analisar todos os argumentos favoráveis e contrários, buscando qual a decisão menos comprometedora para o futuro do Brasil: cassar outra vez o mandato de presidente por crime de responsabilidade ou manter um mandato sem credibilidade nem rumo.

Aquela senhora me respondeu com toda a convicção: “Dúvida é golpe. Se o senhor ainda não decidiu, é golpista”. Ou seja, refletir, pensar, julgar são atos golpistas. Por formas diferentes, esse comportamento vem sendo comum há anos na sectária política brasileira. Não há espaço para dúvida e reflexão; nem simpatia para ouvir ideias divergentes.


O golpe chegou derrubando o pensamento. O julgamento do impeachment ao longo do prazo previsto pela Constituição seria apenas pró-forma: a decisão já deve estar tomada. De um lado, conforme a simpatia pela presidente, sem considerar seu governo, nem os crimes que por ventura tenha cometido; de outro, pelos que não querem a presidente, o impeachment deve ser definido logo, independentemente de ela ter ou não co- metido crimes de responsabilidade.

A busca do melhor futuro para o Brasil está fora do “debate” entre as torcidas. Neste jogo, todos perdem a oportunidade de uma grande e coletiva reflexão sobre o que está acontecendo com o nosso país e o futuro que nos aguarda.

O processo de impeachment chegou golpeando o pensamento. Prova é que, ao ver o título deste artigo, a maioria provavelmente já tomou posição contra ou a favor, antes mesmo de ler o conteúdo. 

Berlim, 'cidade-esponja'' contra aquecimento global

Mais árvores e toldos nas calçadas para proporcionar sombra; telhados cobertos com musgo e grama; edifícios pintados com cores claras, que refletem mais calor do que absorvem; pavimentação de estradas especial, resistente ao calor, para prevenir o derretimento do asfalto em dias muito quentes; charcos urbanos e mais áreas permeáveis para absorver e armazenar a água das chuvas.

Essas são algumas das mais importantes, entre as dezenas de intervenções específicas para a adaptação climática, recomendadas por um consórcio de especialistas num novo relatório. As medidas têm como objetivo tornar a cidade de Berlim mais resistente e habitável diante das mudanças climáticas esperadas nos próximos anos e décadas.

Proprietários devem ser encorajados a reflorestar os pátios internos
Proprietários serão incentivados a criar áreas
 verdes em pátios internos de condomínio
As ideias de design urbano dos especialistas foram solicitadas pelo Senado de Berlim, o órgão legislador da cidade, e publicadas no fim de julho sob o título StEP Klima KONKRET. Desde 2007 a capital alemã tem gradualmente desenvolvido conhecimento substancial em estudos sobre como sua paisagem urbana será afetada pela mudança climática. Agora a municipalidade pressiona por mudanças tangíveis no sentido da adaptação de longo prazo.

As mudanças climáticas vão atingir outros países bem mais duramente do que a Alemanha, mas o norte da Europa não será poupado de grandes impactos. Em 2003 semanas de uma onda de calor extremo causaram numerosas mortes no país.

Nos anos seguintes, tempestades excepcionalmente fortes causaram inundações devastadoras em várias regiões. Tais eventos foram altamente incomuns durante o século 20, mas em meados do século 21, com a aceleração do aquecimento global, a expectativa é de que eles se tornarão comuns.

Heike Stock, funcionária municipal encarregada do programa, afirmou à DW que a gestão da água terá uma importância-chave para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre o ambiente urbano.

"Temos usado o termo Schwammstadt ou 'cidade-esponja'. A chave está em evitar a impermeabilização demasiada da superfície do solo com concreto ou asfalto. Sempre que possível, queremos superfícies permeáveis à água. Por exemplo, áreas de estacionamento e faixas medianas podem ser repavimentadas para permitir a absorção de água pelo solo."

Telhados cobertos de musgo ou grama também podem absorver água e mais tarde liberá-la por meio da evaporação. O resultado é um efeito de resfriamento por evaporação, da mesma maneira que o suor refresca um atleta superaquecido ao evaporar na pele.

"Queremos ver mais elementos como lagos, fossos e áreas úmidas, bem como parques e espaços verdes, incluindo jardins nos pátios internos dos edifícios e cinturões verdes ao longo de estradas, capazes de absorver uma grande quantidade de água durante uma tempestade", explica Stock. O objetivo é reter a água da chuva na própria paisagem urbana, de modo que parte dela evapore e o resto seja escoado gradualmente, em vez de um escoamento brusco para os rios e lagos de Berlim.

Isso ajuda a evitar inundações do subsolo e dos sistemas de esgoto, e também protege a qualidade da água de muitos lagos e rios da capital. O escoamento rápido faz com que todo tipos de sujeira urbana seja arrastado pela água que corre na superfície. Até mesmo materiais naturais, como pólen e botões de flores que caem das árvores da cidade, quando escoados para os lagos, podem matar os peixes devido à sobrecarga de nutrientes e o esgotamento do oxigênio da água.

domingo, 24 de julho de 2016

Sábios e sabidos

Dinheiro falso. Era esse o assunto no telejornal. Quadrilhas desenvolveram maneiras sofisticadas de falsificar notas de real, e métodos elaborados de distribuí-las, usando a internet. A reportagem mostrava que é possível fazer contato on-line com os falsificadores, encomendar dois mil reais mediante comprovação de depósito de R$ 250 em determinada conta, e receber o produto em casa pelo correio. Delivery express, como pizzarias gostam de anunciar. Não deveria ser espantoso ver uma coisa dessas num país onde grassam as mais diversas formas de larapio, a começar pelos mais altos escalões da nação. Mas mesmo assim surpreende. E sempre é possível alegar que, como no tradicional conto do vigário, a vítima queria ser sabida demais e também passar a perna nos outros, já que alguém alfabetizado e usuário da internet não cairia num golpe desses se não tivesse objetivos inconfessáveis.

Em seguida, outro caso. Este sem mediações digitais. Entrevistam uma aposentada moradora da periferia, que a duras penas conseguiu juntar R$ 900 para uma pequena obra doméstica. Ela conta que foi procurada em casa por um sujeito bem falante e respeitoso, que lhe disse vir em nome do banco para trocar seu dinheiro, pois em breve o que guardava não valeria mais, já que o governo está substituindo todas as notas, para mudar sua numeração. Mostrou-lhe que as cédulas têm números impressos, exibindo-lhe notas novas com números diferentes. Ela entregou suas economias. Quando descobriu o erro, já não tinha como consertar. Perda total.


Quem acredita em qualquer coisa que lhe dizem, a ponto de cair em golpes primários desse tipo, é porque não tem informação. Vai atrás de qualquer conversa. E, na hora das eleições, elege qualquer um — como o país constatou de forma chocante, ao ouvir um por um de seus representantes durante a cobertura ao vivo da votação na Câmara de Deputados sobre a admissibilidade do impeachment. De uma presidente legitimamente eleita pela maioria dos votos válidos. E ainda se descobriu que essa Câmara podia ser presidida por um Waldir Maranhão, legitimamente eleito. Substituto de um Eduardo Cunha, legitimamente eleito.

Mas não temos campanha eleitoral que deveria justamente fazer com que os candidatos ficassem conhecidos? Ajudar os eleitores a saber mais e se preparar para o voto, dar-lhes informação? E uma mídia livre, atenta e atuante, despejando notícias 24 horas por dia? E não estamos reduzindo os índices de analfabetismo?

É claro que parte da responsabilidade está no sistema eleitoral e seus mecanismos, propícios à mentira e ao engodo, com marqueteiros milionários, proteção a partidos de aluguel, coligações esquisitas, campanhas em que nada sério é discutido, e votos proporcionais distorcidos — em que o eleitor vota em um candidato e elege outro, enquanto deixa de eleger quem teve mais votos. Daí a importância da reforma nessa área, pela qual a democracia clama.

Há, sim, os eleitores metidos a sabidos, que querem se dar bem e vendem o voto por uma suposta benesse (como os que compraram dinheiro falso pela internet). E há os crédulos e desinformados, acreditando no que lhes diz o vizinho, o cabo eleitoral, o guru da hora, o miliciano, o “dono” da comunidade, ou o pastor de uma das tantas igrejas que proliferam, isentas de impostos e ligadas a partidos políticos.

Mas há também, e com relevo, o efeito de uma educação deficiente, incapaz de provocar comparações e reflexões, desenvolver o espírito científico e a capacidade de análise crítica baseada na observação da realidade. Seja por insistir em fórmulas prontas a que o aluno deve aderir, seja por deficiências na formação do professor. A imposição do conformismo acaba perpetuando crenças incompatíveis com a racionalidade, ainda mais deletérias quando se somam à certeza absoluta, vinda da ilusão do conhecimento. Exemplos disso estão na tentativa de impor dogmas e interditos religiosos e políticos. E em teorias constrangedoras como a externada recentemente por sábia filósofa, de respeitada universidade, que leva a negação do real ao ponto de afirmar que não houve corrupção sistemática e institucionalizada na Petrobras, mas apenas o juiz Sérgio Moro foi treinado pelo FBI para a Lava-Jato, com o fim de desestabilizar o país e entregar o pré-sal aos EUA. Ou para cumprir os desígnios do Ocidente e ocupar nosso mercado, apoiou outro sábio, doutor pela mesma universidade.

Precisamos de mais abertura para a realidade, mais exame dos fatos. Para aprender. Palmas para a bem-humorada Fernanda Torres, que anuncia um programa chamado “Minha estupidez”, focalizando temas e ângulos em que se sente ignorante. Recente estudo do historiador Yuval Harari, “Sapiens”, sustenta que o reconhecimento da própria ignorância foi que propiciou a revolução científica da modernidade, ao rejeitar dogmas e ideias prontas. Atitude que foge da arrogância e se aproxima da máxima socrática que há séculos ensina: “Só sei que nada sei". Caminho da sabedoria.

Ana Maria Machado 

Eles venceram

Dia desses, não faz muito tempo, me peguei praguejando pelos cotovelos em plena padaria enquanto esperava o frango ser embalado. A fila estava ínfima, nada de especial acontecera, não passava de um domingo como outro qualquer, e no entanto eu desfilava uma carranca de fazer gosto, digna de almanaque.

Se, afinal de contas, existia razão para tanto? Não só existia como persiste mas ainda assim levei um bom tempo flertando com o autoengano. Agora, porém, olhando em perspectiva, entendo perfeitamente o porquê da minha reação. Vamos combinar, quem hesitaria em se esquivar, assim, de supetão, ao constatar o próprio País fadado a viver dividido pelos piores motivos?

E a divisão em si não é um problema. Aliás, neste mesmo espaço já cansei de criticar a demonização do nosso debate político. E continuo afirmando, promove um desserviço irreparável quem dele faz pouco caso, seja tachando-o negativamente de Fla-Flu ou mesmo lamentando sua inegável crueza.

Inaudito, isto sim, para não dizer tolo, seria esperar discernimento e maturidade popular a respeito um tema histórica e sorrateiramente forjado para ser ignorado.


Ora essa, quantos Odoricos não foram eleitos até hoje, e ainda o são, graças ao discurso que celebra a “festa da democracia” mas escamoteia a obrigatoriedade do voto? E a quem interessa o voto obrigatório em um país acostumado a repetir que, além de futebol e religião, precisamente a política não se discute? Por fim, quem se beneficia da eterna tergiversação sobre a cláusula de barreira?

Negativo, o debate em si, por ferrenho que seja, está longe de ser um problema. Muito pelo contrário, deveria ter começado antes, estaríamos mais habituados a ele e capazes de travá-lo em outro nível.

O momento pede que por um momento deixemos de lado os vários bilhões escoados via corrupção, a roubalheira desenfreada e as chicanas morais. São todas inéditas, tanto no volume quanto na desfaçatez, e por este motivo promovem e ainda promoverão máculas indeléveis para o Partido dos Trabalhadores. Quanto à economia, cedo ou tarde, em algum momento, recuperará seu fôlego.

Doloroso mesmo, e como, é constatar que talvez o maior estrago promovido pelo PT, ao longo de todo este tempo, só agora começa a dar as caras: sua tenacidade pelo poder e a falta de escrúpulos conseguiu forjar em nossa sociedade indivíduos dispostos a ludibriar sem dó, a repercutir todo o tipo de mentiras, se preciso for, em nome de uma causa tão abjeta quanto defunta.

Das esquinas às redações de jornais e revistas, principalmente nestas últimas, não faltam sujeitos determinados a fazer este papel. Posam como paladinos da moral mesmo desconhecendo por completo o real significado do termo. Mentem, enganam, desconversam com a desenvoltura dos verdadeiros crápulas, e não é por acaso.

Caberia, agora, à parcela da sociedade responsável por desmontar o maior esquema de corrupção institucionalizada na história do Brasil, rechaçar estes indivíduos.

Se torço para quem sejam caçados como bruxas? Que sintam-se asfixiados, constrangidos na hora de exercer suas profissões? Rechaçados como párias, apontados nas ruas como figuras desprezíveis e que portanto devem ser evitadas? Claro que não.

Seria de uma burrice imperdoável transformar em mártires essa gente. Nada seria melhor para o espectro da nossa esquerda corrupta e fanática do que poder lançar a carta da vitimização.

Mas, então, o que fazer? Se repugná-los funcionaria como um tiro saindo pela culatra, e se estão espalhados por todos os grandes veículos, portanto com palco e megafone disponíveis, o que nos resta?

Com toda a sinceridade, não faço a menor ideia.

Nossas terríveis armas

Mãos ao alto! Agora, sim, de vez, chegamos à conclusão que somos, nós mesmos, armas; e que tudo pode mesmo ser ou virar arma. Que de um segundo a outro algo pode vir de qualquer lado e estragar tudo. Só com corações e mentes desarmadas poderemos nos sentir seguros

Andamos todos nós armados até os dentes. Aliás, literalmente, porque uma mordida pode causar uma boa inflamação, há de se lembrar. Marcante como impressão digital, naquele formato meia lua.

Unhas podem ser garras que tiram sangue para se defender, ou uma outra forma de arma – para a conquista, quando suavemente usadas. Nosso corpo é arma poderosa quando luta, quando golpeia, quando fechamos os punhos, chutamos certeiros pontapés. Até dentro dele moram muitas armas, que criam monstros, que matam células, que podem nos suicidar envenenados por emoções ou tristezas, estou convencida. Assim como criamos nossos próprios cabelos brancos.

Um olhar. Quer coisa que pode ser mais arma letal do que um olhar? Dependendo de quem o desfere em sua direção seus efeitos são imediatos, tanto quanto aqueles que os nossos pais nos dirigiam quando éramos crianças e saíamos da linha – fulminantes. E a palavra, então? – essa arma ainda tem sua capacidade multiplicada dependendo do uso do tom da voz, da cadência, do volume, da entonação do aposto. Dependendo do que desfaz, a palavra pode levar à morte por amor. Gestos podem ser mortais.
Mas agora temos mais uma outra dimensão do perigo. Muito além daquela que já representava alguém bêbado ao volante, muito aquém dos irresponsáveis dos rachas. Um caminhão assassino. Já tínhamos visto os aviões assassinos, mas eles pareciam mais distantes, mais complexos, mais difíceis de ocorrer. Esta semana, ainda, lá de cima no céu da Turquia, helicópteros despejaram balas no curso de suas rotas durante o embate da tentativa de golpe – dezenas de mortos a esmo. Mas caminhões? E se os ônibus também começarem a ser usados? As motos, bicicletas, skates? As vans? E se for necessário manter por muito mais tempo e além dos grandes eventos os tanques de guerra pelas ruas como já estamos vendo percorrendo no Rio de Janeiro?

Aterrorizante porque muita coisa pode ser arma, como disse, para atacar ou se defender. Uma garrafa, um cinzeiro atirado. Um trivial estilingue. O canivete que zune no ar movido por mãos ágeis. Uma torneira enrolada com um pano, empunhada como bem tentou um ladrão outro dia, que a tornou muito ameaçadora – e qualquer coisa apontada para a gente não é para ficar perguntando se é verdadeira, falsa ou inventada.

Pode ser elástico de cabelo, bola de gude, isqueiro, spray de desodorante, gás pimenta. Até flor pode ser arma, apontando seus espinhos afiados e pinicantes.
Aí, o cerne da questão e de nossos medos. Pensando, somos armas. Além das líquidas, nucleares, químicas. Delirando, podemos ser invencíveis e corajosos. Sem noção da vida, nada impede de buscar a morte levando muita gente, querendo ser um nome na história, nos sites de busca, mesmo que nas páginas de terror e ódio, de crimes de lesa humanidade, lesa pátria.

Falo em corações e almas desarmadas, mas sei bem que isso é utopia. Pior: não temos arma melhor, algum argumento estrategicamente guardado que faça com que todos acreditem de verdade e se desarmem.

Ao contrário, dia após dia parece que tudo fica muito mais perigoso.
Marli Gonçalves

Jeitinho a favor



A lei é feita por eles e em prol deles. Uma das piores coisas da minirreforma foi mexer na propaganda fora de época 
Procurador regional eleitoral do Rio, Sidney Madruga

Hora do voto facultativo

O voto é um dever cívico ou um direito subjetivo? A instigante questão diz muito a respeito da qualidade de um sistema democrá­tico. No nosso caso, a resposta é dada pela Constituição, que torna o voto compulsório, exceção feita aos jovens entre 16 e 18 anos, eleitores com mais de 70 anos e analfabetos. Quem deixar de votar e não apresentar justificativa plausível estará sujeito a sanções.

Que implicações haveria para a democracia brasileira caso o voto fosse facultativo? O primeiro efeito seria a quebra de cerca de 30% na participação da população nas eleições, conforme projeções feitas por estudiosos do sistema elei­toral. Algo em torno de 102 milhões de eleitores, considerando um eleitorado de 146.470.880.



Esse volume menor não significaria, porém, enfraquecimento da nossa democracia representativa, como alguns querem comprovar sob o argumento de que o País ainda não alcançou grau elevado de institucionalização política. Tal abordagem não resiste a uma análise mais acurada.

Para início de conversa, há um dado irrefutável que precisa ser levado em consideração: com o somatório de abstenções, votos nulos e em branco, ocorre uma quebra de 25% no resultado geral, conforme tem ocorrido em eleições. No pleito de 2012, este número foi de 26% no segundo turno. E dos cerca de 31,7 milhões de eleitores aptos a votar nas 50 cidades que tiveram disputa de segundo turno, 19% não compareceram às urnas. Em São Paulo, capital, 19,99% não foram votar.

Minoria ativa ou maioria passiva?

Em suma, o voto, apesar de obrigatório, queima considerável parcela da votação, sendo razoável projetar para este ano mais de 37 milhões de votos que não entrarão na planilha da apuração. Já o voto facultativo, significando a liberdade de escolha, o direito de ir e vir, de participar ou não do processo eleitoral, abriga a decisão da consciência, calibrada pelo amadurecimento.

Se milhões de eleitores pudessem abster-se de votar, por livre e espontânea vontade, outros milhões compareceriam às urnas com discernimento para sufragar nomes e partidos previamente selecionados. O processo registraria índices bem menores de votos nulos e em branco, eis que a comunidade política, ativa e participativa, afluiria em peso aos locais de votação.

É falaciosa a tese de que a obrigatoriedade do voto fortalece a instituição política. Se assim fosse, os EUA ou os Países europeus, considerados territórios que cultivam com vigor as sementes da democracia, adotariam o voto compulsório.


O fato de se ter, em algumas eleições americanas, participação de menos de 50% do eleitorado não significa que a democracia ali seja mais frágil que a de nações onde a votação alcança dados expressivos.

Como observa Paulo Henrique Soares, em seu estudo sobre a diferença entre os sistemas de voto, na Grã-Bretanha, que adota o sufrágio facultativo, a participação eleitoral pode chegar a 70% nos pleitos para a Câmara dos Comuns, enquanto na França a votação para renovação da Assembleia Nacional alcança cerca de 80% dos eleitores. Portanto, não é o voto por obrigação que melhorará os padrões políticos.

A elevação moral e espiritual de um povo decorre dos níveis de desenvolvimento econômico do País e seus reflexos na estrutura educacional.

Na lista do voto obrigatório estão os territórios da América do Sul, com exceção do Paraguai, enquanto a lista do voto facultativo é integrada por Países do Primeiro Mundo, os de língua inglesa e quase todos os da América Central.

A facultatividade do voto, ao contrário do que se pode imaginar, animaria a comunidade política, engajando os grupos mais participativos e vivificando a democracia nos termos apregoados por John Stuart Mill, numa passagem de Considerações sobre o Governo Representativo, quando divide os cidadãos em ativos e passivos. Diz ele: “Os governantes preferem os segundos – pois é mais fácil dominar súditos dóceis ou indiferentes –, mas a democracia necessita dos primeiros. Se devessem prevalecer os cidadãos passivos, os governantes acabariam por transformar seus súditos num bando de ovelhas dedicadas tão somente a pastar capim uma ao lado da outra.”

Valorizar o voto dos mais interessados e envolvidos na política, pela via do voto consciente, pode evitar que conjuntos amorfos participem do processo sem convicção. Alguns poderão apontar nisso posição elitista. Ao que se contrapõe com a indagação: o que é melhor para a democracia, uma minoria ativa ou a maioria passiva? A liberdade para votar ou não causaria um choque de mobilização, levando lideranças e partidos a conduzir um processo de motivação das bases.

Momento adequado

O voto obrigatório remonta à Grécia dos grandes filósofos, tempos em que o legislador ateniense Sólon fez a lei obrigando os cidadãos a escolher um dos partidos. Era a forma de conter a radicalização de facções que quebravam a unidade em torno da polis. Ao lado da proibição de abstenção, nascia também ali o conceito de distribuição de renda.

Já entre nós, a obrigatoriedade do voto foi imposta nos tempos do Brasil rural. O voto compulsório se alojou no Código Eleitoral de 1932, tornando-se norma constitucional em 1934. O eleitorado abarcava apenas 10% da população adulta. Temia-se que a pequena participação popular tornasse o processo ilegítimo. Hoje a paisagem brasileira é essencialmente urbana e os desafios são bem maiores.

Resumo da história: o governo promete votar até o fim do ano dois instrumentos da reforma política - a implantação da cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais. Sem dúvida, trata-se de duas disposições que enxugarão a planilha partidária, hoje composta por 33 partidos. A sugestão é que o voto facultativo também seja inserido na reforma política. O momento é mais que adequado.

O voto não é um dever, mas um direito. E o cidadão deve ter liberdade de usar esse direito, se for o caso, com o não-voto. Ou com melhor disposição cívica de comparecer às urnas.

O mentiroso em conserva

Nem de longe quero me equiparar ao Feira, “simpático” apelido do Goebbels em compota que ajudou a eleger essa vigarista para nos desgovernar, mas também já fiz campanha política na vida. Não roubei, não enriqueci e não aceitei dinheiro em underwear nenhuma. O que o casal de mercadores alega – que a política é assim mesmo e se eles não aceitarem o produto do roubo outros aceitarão – esconde uma calhorda ideologia que não para em pé.

Já disse aqui — e volto a repetir — que eu estaria rico se a verdade fosse essa. Não é. Conheço coitados que dormiam nas salas onde as campanhas eram concebidas e realizadas, pois não podiam sequer voltar pra casa para tomar um banho. Passavam dois meses presos por uma causa. Nunca enriqueceram. Conheço muita gente que trabalhou em campanha política. Gente honesta, fazendo o seu serviço e ganhando por ele, sem empulhações nem vigarices.

A insistência desses calhordas em afirmar que “isso é aí isso aí mesmo” esconde a real natureza dessa roubalheira impune. Nunca fui ladrão. Exatamente por isso, me recusei a trabalhar com o PT, quando convidado a fazê-lo. Não era campanha política o mote da roubalheira deles. Era sim o “pagamento pela consciência”, uma espécie de “dízimo do avesso” que esses canalhas pagam ao seu eleitorado para queimar a VEJA em cerimônias universitárias, financiarem milícias virtuais escaladas para achincalharem desafetos nas redes sociais e constrangê-los por suas posições.

É o preço que pagam por dentaduras, laqueaduras e milheiros de telhas distribuídos por esses vagabundos em rincões distantes e fora dos radares da Justiça eleitoral; é a grana necessária para calar a “mídia”, financiar shows milionários da nossa “intelectualidade de tanga” e toda uma “costura social” utilizada para dar um verniz de unanimidade a uma causa vagabunda que não para em pé, sem tungar umas carteiras primeiro.

Acorda, brasileiro. Não sou seu algoz, nem seu ladrão. Não sou cúmplice desse vigarista que afirma que está preso pela qualidade do serviço que prestou à quadrilha de turno. É tão asquerosa essa postura que mereceria uma revisão da prisão por mais tempo, pela periculosidade que apresenta. Esse sujeito não é um marqueteiro; é um bandido. Assim como aquela dona não é uma “prizidenta”; é uma estelionatária.

Seu chefe e dono do bando não é um “iluminado”; é um criminoso cujos crimes estão transbordando como barragem de dejetos, por todos os cantos. Que sirvam de exemplo de como não se deve fazer política neste país, meus caros. Eu vejo gente morta. Gente morta que se diz expert em marketing de campanha. Não passam de embusteiros.

Terrorista Zé Buchada

Charge Super Notícia 23.7.2016
A Paraíba é lembrada
Por ser bela e pequenina:
O mestre Humberto Teixeira
A chamou de masculina,
Caetano viu nela a lua
Com sua luz de lamparina.

II
Agora o mundo voltou
Os olhos pra Paraíba,
Pois acharam um terrorista,
Primo de Zé Carnaíba,
Que é bom de perna e de faca,
Na briga fica por riba.

III

Ele mora em Cabedelo,
Tão bonita quanto o Céu,
Costumava andar na orla
Pra comer sarapatel
E ouvia toda tarde
O Bolero de Ravel.

IV
Conheceu pela Internet
Um movimento esquisito,
Que queria mudar o mundo
No coice, tapa e no grito,
E ensinava a fazer bomba
Com buchada de cabrito.

V
Mandava pegar o bucho
E entupir de picado,
Depois com uma linha preta
Deixava bem costurado
E fazia uma bolinha
Interando o cozinhado.

VI
O tempero da buchada,
Misturado com tutano,
Pimenta-do-reino e sebo,
Coentro, cebola e Cinzano,
Botava pra cozinhar
Na panela de um cigano.

VII
É uma bomba poderosa,
Solta nitrato encardido,
Não fica ninguém por perto
E quem não morre enturido
Pode ficar quase mouco
Com o pipoco no ouvido.

VIII
Se soltar dentro de um ônibus,
Gera a maior confusão,
O motorista, enfartando,
Se mete na contramão
E o maquinista do trem
Nem chega na estação.

IX
Num jogo de bacará,
Detonaram uma buchada:
O jogador dava o choro,
Na hora da respirada,
A bomba entrou nas narinas
Que deixou a venta inchada.

X

Na diligência de ontem,
A Federal na cozinha
Encontrou bucho de bode,
Cachaça e pé de galinha,
Uma faca de cortar fumo
E um carretel de linha.

Quanto custa um cadáver?

Em 2016, o mundo gastará quase um trilhão e oitocentos bilhões de dólares com exércitos e armamentos. Por coincidência, é aproximadamente o valor do PIB brasileiro de 2015. Posto de outra maneira, o que cada brasileiro produziu no ano passado será usado até dezembro para matar seres humanos em algum canto do planeta. Ou para exibir força e poder. O exibicionismo de um indivíduo é proibido, porém o de países é tolerado. Os bem dotados são os mais explícitos. Ou letais.

Dois terços desses gastos acontecem em nações com população majoritariamente cristã, que constituem um terço da população mundial. É um paradoxo, se considerarmos o ensinamento dos Evangelhos. O paradoxo cresce se levarmos em conta que com apenas um décimo do dinheiro investido nas guerras seria eliminada a fome no mundo, segundo especialistas da ONU. Um décimo apenas.

Sofremos muito – com razão – pelos 84 seres humanos barbaramente eliminados em Nice, porém nem tomamos conhecimento dos milhares que sucumbem à subnutrição e às balas todos os dias na África, no Oriente Médio e na Ásia. Viraram meras estatísticas. E já perdemos a conta dos corpos encontrados no Mediterrâneo que pertenciam a pessoas como nós em busca de esperança, fugindo de países devastados pelas lutas ou pela miséria. Se pesquisarmos a fundo, em cada nação falida há o dedinho cruel de uma potência ocidental ou emergente. Ou sua ganância brigando pelas riquezas ou pela posição estratégica desses infelizes.

Num cálculo conservador, os gastos militares chegaram a mais de sessenta trilhões de dólares durante o século 20. No mesmo período, segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, os cadáveres produzidos pelas guerras alcançaram a estratosférica cifra de 200 milhões. Dividindo-se esses números, obtém-se algo aterrador: cada cadáver custou mais de 300.000 dólares. Quantas pessoas na Terra amealham durante a vida um patrimônio de 300.000 dólares, o que as tornaria milionárias no Brasil? É muito mais caro matar que sustentar a vida. No entanto, optamos por matar.

Por falar em milionários, a tendência global conduz a uma projeção nefasta. Mantido o atual nível de gastos militares e supondo que eliminaremos no século 21 o mesmo número de pessoas do século 20, atingiremos a incrível marca de um milhão de dólares por cadáver. Isso mesmo. Os seres humanos gastarão um milhão de dólares para se exterminarem, caso repitam a performance assassina do século 20. Se matarmos menos, o preço macabro será ainda maior.

Criamos coisas belas na arte e na ciência, melhoramos a qualidade de vida para muitos, aprovamos uma carta dos Direitos Humanos. Com cinismo, alguns belicosos afirmam que muito do progresso resulta da guerra. Mentira. A paz rende muito mais. Somos uma espécie com instinto predador tão elevado quanto solidário, com uma ressalva: o primeiro prevalece em casos de disputa ou surtos de cobiça. Com tristeza, muita tristeza, desconfio de que o homem seja mesmo o lobo do homem. Duvida? Confira os noticiários.

Luís Giffoni