domingo, 4 de outubro de 2026

Reforma tributária, para quem

Sempre houve enorme resistência a realizar uma reforma tributária no Brasil. Basta recordar que os governos de Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, de Luiza Erundina, de Marta Suplicy, de Fernando Haddad, em São Paulo, tentaram realizar reformas tributárias e foram derrotados.

Quando se falava de reforma tributária, partia-se da injusta política tributária existente, que faz com que os pobres paguem, proporcionalmente, mais impostos que os ricos. Um objetivo central das propostas de reforma tributária era, assim, reverter essa situação, o que sempre significava fazer com que aumentassem os impostos pagos pelos ricos e diminuíssem os pagos pelos pobres.

Na própria afirmação, tão reiterada por Lula, de que é necessário colocar os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda, está implícita uma crítica à política tributária existente.

Até que se criou um consenso geral a favor da reforma tributária. E o governo Lula finalmente realizou, dirigido por Fernando Haddad, uma reforma tributária em que os ricos pagam mais e a grande maioria da população deixa de pagar, até porque salário não é renda.

Mas esse projeto, embora aprovado pela grande maioria da população e dos parlamentares, não contenta a todos. Segue a cantilena de que se pagariam muitos impostos no Brasil, comparado com outros países.

Se contentasse a todos, não estaria cumprindo com seu objetivo. Porque a mídia tem como um de seus temas reiterados a crítica ao Estado, que gastaria muito, que não cortaria os gastos que deveria cortar, que não se preocuparia com os riscos da inflação.

Haveria, além disso, uma anarquia tributária, que haveria de simplificar. Costuma-se afirmar que se pagariam muitos impostos; todos costumam fazer essa afirmação. Como se todos realmente pagassem mais. Como se não houvesse uma enorme sonegação da parte dos ricos. Como se não houvesse paraísos fiscais, aos quais apelam grandes empresas para não pagar impostos no país.

O que unificaria a todos seria a vontade de pagar menos impostos, ricos e pobres. Demandam-se maiores ações do Estado, mas se quer diminuir a arrecadação estatal. A visão das elites é a do Estado mínimo. Demandar mais isenções e pagar menos impostos.

Como é característico do neoliberalismo, degrada-se a imagem do Estado, que arrecadaria demais, que gastaria demais e mal, que tributaria demais, que gastaria muito com pagamento a servidores, que despenderia excessivos recursos com políticas sociais. Uma reforma tributária que se orientasse por essas visões teria piorado ainda mais o sistema tributário, em que já agora os pobres pagam relativamente mais do que os ricos.

Não se corrigiria, em nada, o já injusto sistema tributário existente. Os ricos pagariam menos ainda, enquanto os pobres seguiriam pagando injustamente por serviços precários.

Pela concepção predominante na mídia e em grande parte do Congresso, deveria ter sido aprovada uma reforma tributária que promovesse o Estado mínimo e a centralidade do mercado. Que enfraquecesse, ao invés de fortalecer, o Estado. Em que os ricos seriam menos tributados e não sofreriam políticas que combatam a sonegação e os paraísos fiscais.

Em suma, pelo clima criado pela mídia, deveria ter sido uma contrarreforma tributária, na contramão da difícil reconstrução da democracia no Brasil. Em que a definição de quem paga impostos e para onde vão é essencial para que verdadeiramente tenhamos uma democracia no país.

É outra das realizações de Lula na Presidência do país, que ficam para sempre, mas que seguem promovendo o descontentamento das elites, que detestam pagar impostos, mesmo se suas rendas sejam nababescas. Também por isso se opõem à reeleição de Lula, enquanto os que deixaram de pagar impostos estão a favor. Quem ganha mais paga mais; quem ganha pouco deixa de pagar. Este é o princípio de uma reforma tributária democrática.

Decisão será fácil porque eleitor sabe onde o calo aperta

A esta altura, resta pouco a dizer sobre a corrida eleitoral, entre os Poderes, acidentada; entre os eleitores, entediante. O que faltou em transparência e aprofundamento de propostas sobrou em protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), ora por atos dos próprios ministros, ora pela judicialização recorrente por candidatos e legendas. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em artigo aqui no GLOBO, classificou o pleito deste 2026 como a eleição do cansaço. É sentimento expresso tanto no excesso de trabalho, dívida, perrengue, frustração quanto na escassez de encantamento pela política e, pior, pela democracia.

Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista de Jair Bolsonaro exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura. Estamos. Míriam Leitão tem alertado em voz e texto o tanto que a defesa do regime anda negligenciada, numa corrida eleitoral com bolsonarismo competitivo e interferência estrangeira à espreita. Sob influência de Eduardo Bolsonaro e aliados lá radicados há mais de ano, os Estados Unidos têm atuado pela capitulação do Brasil à cartilha trumpista. Além de duas rodadas de tarifaço sobre exportações, houve sanção a autoridades; classificação de PCC e CV como organizações terroristas; pressão sobre a Justiça e o processo eleitoral; duas dezenas de inaceitáveis exigências comerciais; restrição de visto à embaixadora do Brasil em Washington; e até investida contra o Pix.

É verdade que faltou debate no período oficial da campanha, a partir de meados de agosto. Nas últimas semanas, os candidatos ocuparam-se de ataques mútuos e ao STF; aprofundaram pouco ou nada os planos de governo; abusaram de frases feitas e ideias rasas. Mas, por aí, se diz que mal uma eleição termina, outra começa. Pode ser que a disputa presidencial, de tão antecipada, tenha deixado tempo para os eleitores pensarem. Quem sabe o desinteresse de agora não seja fruto da reflexão exaustiva de antes? Há exemplos aos montes. Fico com um, as bets.

Nesta semana, tanto Quaest quanto Datafolha trouxeram dados robustos sobre a restrição total às apostas on-line, imposta por Medida Provisória assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, há uma semana. Difícil imaginar que, em poucos dias, tantos brasileiros tenham se posto contra as bets, mesmo com times popularíssimos, Flamengo à frente, assumindo em praça pública a própria ludopatia financeira. Seria o fim do futebol se perdessem os patrocínios. Ao Datafolha, 78% se declararam a favor da proibição; à Quaest, 62%. Nas duas pesquisas, os resultados foram assemelhados em todos os grupos analisados: gênero, faixa etária, religião, região, escolaridade, renda. Brasileiras e brasileiros, analisou Felipe Nunes, diretor da Quaest, não apenas já tinham opinião formada, mas deram sinais claros de que enxergar uma medida como certa não tem relação direta com o voto. Assim, é possível ser contra bets e não escolher o candidato a presidente que canetou a decisão.

À luz do caminhão de conversas e estudos e relatórios e vivências, não parece errado inferir que os eleitores chegam, nesta véspera do primeiro turno de uma campanha aquém do desejável, com opinião formada sobre tudo. Ou quase tudo. O brasileiro experimentou, em anos recentes, vendaval, chuvarada, calor extremo. Sabe, portanto, que a emergência climática é real. Tem consciência de que o desmatamento, se agravado, pode levar a Amazônia ao ponto de não retorno. Passa tempo demais em meios de transporte caros e de má qualidade. Vive em condições habitacionais precárias, paga caro por direitos tornados serviços (água, luz, internet, gás). Não há quem não vá ao mercado ou à feira.

Mulheres brasileiras sabem do perigo da multiplicação das armas de fogo em mãos civis. Mães já se deram conta dos riscos do território livre das redes sociais para crianças e adolescentes. Favelados perceberam que a política de confrontos nos territórios ceifa vidas, mas não reduz o crime. Nos lares de baixa renda, está claro que é justa a correção monetária para recompor o poder de compra do Bolsa Família, tal como a classe média aprovou a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Trabalhadores, mesmo os autônomos, empreendedores por conta própria, compreendem que a jornada excessiva, sem folga, sequestra tempo da família, do descanso, do lazer. Católicos e macumbeiros aprenderam a reagir à intolerância de líderes evangélicos inimigos do Estado laico.

Todo mundo sabe onde o calo dói. Já deu para distinguir barbárie e civilização; necropolítica e bem viver; mentira e verdade; subordinação ou altivez. O Brasil vai às urnas escolher de que lado ficará. Bom voto.

Flávia Oliveira

O risco evangélico

A política brasileira tem sofrido uma crescente e perigosa contaminação religiosa. As eleições de 2026 representam uma escalada nesse processo. Determinados líderes e grupos evangélicos estão se tornando um grave risco à paz religiosa, social e política. Estimulam o preconceito, o ódio e a intolerância. A família Bolsonaro, notadamente Flávio e Michelle, estão envolvidos com esses grupos e ameaçam o Estado laico. Michelle age, provavelmente, movida por uma fé distorcida. Flávio, por oportunismo político e eleitoral.

Duas vertentes andam juntas na promoção desses conflitos. Uma é a do sionismo cristão, que defende o apoio incondicional ao Estado de Israel, incluindo o genocídio promovido na Faixa de Gaza. É movida por interpretações escatológicas do fim dos tempos. A recriação do Estado de Israel e as guerras que ele promove seriam cumprimentos de profecias bíblicas preparadoras da segunda vinda do Cristo à Terra. Em nome dessa loucura validam guerras, massacres e genocídios. O secretário da Guerra dos Estados Unidos, ­Pete Hegseth, justifica a guerra contra o Irã em nome dessa insanidade.


Michelle Bolsonaro é a expoente evangélica ligada ao sionismo cristão, com formação teológica nessa corrente. Em determinados vídeos, exibe a estrela de ­Davi e usa camisetas e bandeiras de ­Israel. Não é a única. O governador ­Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e outros políticos bolsonaristas também exibiram essas indumentárias, num desprezo absoluto pelos milhares de crianças, mulheres e inocentes massacrados e despedaçados em Gaza.

Michelle, com frequência, usa termos que soam como ameaças ao Estado laico. Defende a interferência religiosa na política, apela para a expressão “exército de Deus” para se referir aos seus partidários e declara que “o Brasil é do Senhor”. Flávio Bolsonaro declarou em vídeo que, se eleito, decretará que “o Brasil pertence a Nosso Senhor Jesus Cristo”. Falsos profetas se arvoram de uma autoridade que não têm. Em nome de Jesus defendem teses e atitudes anticristãs. Michelle declara que André Mendonça “é escolhido e ungido do Senhor”. Ungido para ser parcial no caso Master, visando proteger crimes de bolsonaristas e para censurar postagens na internet para favorecer Flávio Bolsonaro, um mentiroso contumaz e acusado de vários crimes de corrupção.

A segunda vertente é a da guerra espiritual. Trata-se de uma crença evangélica, emanada dos Estados Unidos, principalmente pelo teólogo Peter Wagner, que sustenta a existência de um conflito invisível e contínuo entre o Reino de Deus e as forças do mal, representadas por Satanás e os demônios. Essa guerra teria três dimensões. Pessoal, que se manifesta na luta contra as próprias tentações. Interpessoal, com orações para expulsar os demônios de indivíduos. E Estratégica ou Territorial, crença de que regiões geo­gráficas, instituições, imagens e autoridades abrigam as potestades do mal.

A maior parte dos evangélicos defende que a guerra é puramente espiritual­, travada por orações, jejuns e clamores. Outros grupos pregam, no entanto, a intolerância religiosa e procuram inflamar fiéis para atitudes violentas contra outras religiões, autoridades e instituições. Agridem indivíduos, destroem imagens e disseminam o ódio. Afirmam que o mal está oculto em determinados símbolos, como imagens de Nossa Senhora Aparecida ou a Virgem do Rosário, na cidade de Rosário, na Argentina.

No fim de 2022 e início de 2023, pastores partidários da guerra espiritual incitaram os acampamentos em frente a quartéis do Exército e defenderam a violência armada para impedir a posse de Lula. Na Marcha para Jesus de 2026, Flávio Bolsonaro declarou que o Brasil vive uma guerra espiritual e, com afirmações belicistas, afirmou que o mal será expulso do governo. É escandaloso e hipócrita que um político investigado e acusado de vários crimes fale como se tivesse um mandato divino para empunhar o bem na guerra contra o mal.

Essa retórica violenta e a manipulação da fé por parte de pastores e políticos precisam ser repudiadas, para evitar que conflitos religiosos e políticos descambem para a violência. Embora a maioria esmagadora dos evangélicos seja tolerante e respeitadora do pluralismo religioso, o fato é que crescem os grupos intolerantes que insuflam o ódio, a manipulação política e tendem à violência.

Os evangélicos não podem se considerar melhores do que os integrantes de outras religiões, pois esse é o princípio da intolerância. Eles não são exclusivistas da doutrina cristã. Não são portadores da verdade única nem exclusivistas da salvação. Gente boa e má existe em todas as religiões.

Levantamento da Plataforma de Mídia Ploc Social indica que, entre janeiro e meados de julho de 2026, foram registrados 158 casos envolvendo pastores evangélicos em crimes. Dados consolidados do Disque 100 mostram que, nos últimos três anos, foram registrados 167 casos de denúncias de violência sexual de líderes religiosos. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 43% das mulheres evangélicas sofreram violência de gênero ou doméstica.

As principais categorias de crimes e escândalos que envolvem líderes evangélicos são de violência sexual, incluindo estupros de vulneráveis, abuso de poder religioso, estelionato e crimes financeiros, corrupção política e tráfico de in­fluência. Crimes desse tipo não são exclusividade de evangélicos. Mas líderes evangélicos se destacam, entre religiosos, na prática deles.

sábado, 3 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Candidatos ignoram crise climática enquanto planeta aquece

Num ano que tem tudo para bater o novo recorde de temperatura e após o mês de agosto mais quente da história, as eleições de outubro para presidente passam longe do debate sobre clima. Embora a expressão "meio ambiente" apareça nos planos de governo dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas, as propostas não estão à altura da emergência.

Em busca do seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o único que apresenta estratégias mais claras para o enfrentamento da crise. A atual gestão assumiu a presidência em 2023 após anos de alta do desmatamento e abandono de políticas socioambientais por Jair Bolsonaro.

"E agora, em campanha, Lula é o único que apresenta um plano mais consistente em clima. Ele reflete um pouco o que está acontecendo em termos de política climática e ambiental de uma forma mais ampla", analisa Suely de Araujo, do Observatório do Clima.


A rede da qual Araujo faz parte, formada por mais de 170 organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais, analisou os planos dos presidenciáveis e levou em consideração o histórico de atuação dos candidatos.

Entre as propostas, os especialistas identificaram pontos de alerta de Lula, inconsistências de Flávio Bolsonaro e falta de estrutura nas propostas de Augusto Cury, terceiro colocado nas intenções de voto.

"A agenda socioambiental está longe de ser prioritária para todos os candidatos. Em verdade, a maioria dos presidenciáveis ignora a necessidade de enfrentar a crise climática, mesmo que ela já seja uma realidade e se manifeste no país por meio de secas rigorosas, queimadas e enchentes com grande potencial destrutivo", avalia o Greenpeace.

O programa proposto pelo governo que busca a reeleição, segundo a análise técnica, aponta boas pautas socioambientais e de combate às mudanças climáticas. Segundo o levantamento, as propostas acabam se destacando em relação aos demais concorrentes principalmente pela reconstrução da governança ambiental e o combate à destruição das florestas.

Mas há ressalvas. A principal crítica está voltada para o setor de energia: apesar de as fontes renováveis aparecerem como estratégicas, Lula aposta na produção de combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pelas mudanças climáticas. "Essa expansão de petróleo é uma contradição no governo Lula e é uma preocupação. Mas isso está presente desde o início do governo", pontua Araújo.

Lula tem defendido a busca por petróleo na bacia marítima da Foz do Amazonas, projeto atualmente em curso pela Petrobras. Depois de um longo e conturbado processo de licenciamento, a empresa obteve em outubro de 2025 a autorização para perfurar o poço FZA-M-59 e afirmou, em agosto, ter identificado a presença do combustível no local.

Em suas 79 páginas, que listam os planos de governo de Flávio Bolsonaro, o candidato afirma que vai tratar o meio ambiente como um ativo estratégico, e não como um obstáculo ao desenvolvimento. E, para isso, diz que vai "eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio" para dar eficiência à fiscalização.

Esta formulação é avaliada como preocupante pelo Observatório do Clima. "Não existem essas superposições que ele fala. O que ele quer? Enfraquecer o poder dos órgãos ambientais?", comenta Araújo.

Em diversos momentos de sua trajetória parlamentar, Flávio demonstrou pouco apoio à atuação dessas entidades. Um dos exemplos mais recentes ocorreu durante a campanha, num evento em Manaus no qual o candidato chamou os órgãos ambientais de ideológicos e de esquerda. Na ocasião, o presidenciável defendia a conclusão do asfaltamento da rodovia BR-319, que liga a capital do Amazonas a Porto Velho, em Rondônia.

Flávio também defende a expansão do petróleo e gás natural, além de promover a liberação do fracking. Essa técnica de extração de combustível fóssil pelo fraturamento hidráulico injeta água e outros produtos no subsolo sob alta pressão, quebra as rochas e libera o material de interesse. Mas seu potencial de impacto ambiental é altíssimo.

Como parlamentar, Flávio Bolsonaro é notório por votar contra as causas ambientais. Ele sequer reconhece a existência da crise climática em curso e a atividade humana como causadora dela, aponta o Greenpeace.

A promessa de acabar com o desmatamento ilegal até 2029 apresentada no plano também destoa da postura parlamentar de Flávio. Em 2019, ele foi o autor do PL nº 2362/2019, que tentava acabar com a obrigatoriedade da reserva legal – área de vegetação nativa que deve ser mantida em toda propriedade rural, segundo a lei.

Sem qualquer atuação na vida política, o estreante Augusto Cury é psiquiatra e escritor. Apesar de trazer em seu plano de governo propostas para o combate às mudanças climáticas e prevenção de desastres, seu plano liga as pautas ambientais a projetos de modernização econômica, desenvolvimento tecnológico e expansão produtiva.

"É um plano muito ruim. É difícil até contextualizar com a atuação pregressa porque ele não tem. O plano do Cury fala em renováveis, prevenção de incêndios, mas não detalha como que isso vai ser feito", detalha Araujo.

Renan Santos, que também nunca teve um mandato político, apresenta poucas propostas. As que aparecem no papel, analisa o Observatório do Clima, pioram o quadro de proteção ambiental e de atuação do país na agenda climática.
Quem governa

O candidato vitorioso que assumir o posto em 2027 vai lidar com um Congresso consideravelmente renovado. Junto com o presidente, serão eleitos todos os 513 assentos disponíveis para deputados federais e 54 das 81 cadeiras para senadores serão renovadas.

A atual legislatura é marcada por aprovações de projetos polêmicos que causaram diversos retrocessos ambientais, apontam especialistas. Entre eles está o novo licenciamento ambiental (PL nº 15.190/2025), que flexibilizou regras e dispensou alguns projetos da obrigatoriedade de apresentarem estudos de impacto.

A plataforma digital Congresso Anti-Indígena, alimentada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra que 88% das votações de projetos que atingem indígenas tiveram resultados desfavoráveis para os povos originários. Esse dado, diz o Cimi, mostra o controle expressivo da pauta por setores contrários aos direitos indígenas.

"Uma bancada muito alinhada ao agronegócio predatório e à extrema direita que, como mostra a análise dos programas dos presidenciáveis, nega a existência de uma crise climática e, na prática, impõe retrocessos ambientais, significaria abrir as portas para a destruição", alerta o Greenpeace.
Nádia Pontes

Datafolha em SP, MG, RJ, PE e DF: margem de Lula supera 2 milhões de votos

O Datafolha divulgou nesta sexta os números da pesquisa presidencial em cinco unidades da Federação: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito Federal. Destaco no quadro que ilustra este texto os dados colhidos nos seguintes estados, com suas respectivas margens de erro e os percentuais de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL):

São Paulo (de 29 a 30) – 2 pontos – Lula: 38%; Flávio: 39%;
Minas Gerais (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 42%; Flávio: 36%;
Rio de Janeiro (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 38%; Flávio: 45%;
Pernambuco (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 61%; Flávio: 25%;
Distrito Federal (de 28 a 30) – 3 pontos – Lula: 35%; Flávio: 44%.

Aí decidi operar o que para todos poderia ser óbvio, mas fui eu a fazer: submeti os respectivos percentuais ao eleitorado de cada um desses estados, segundo os dados disponíveis do TSE para 2026. No quadro que acompanha este texto, vocês encontram os totais de cada unidade da Federação e também o total geral.

Num eleitorado de 72.818.361 — 45,9% do total do país —, Flávio somaria 27.780.333 votos, e Lula, 29.920.393, com uma vantagem para o petista de 2.140.060 votos.


Sim, caras e caros, há várias condicionantes aqui:

Existe a margem de erro. Ocorre que, para ser ruim para o petista, ela teria de estar sempre contra o petista;

Existe a abstenção, que, objetivamente, tende a prejudicar mais o presidente porque é maior entre os mais pobres, mas teria de colher quase que exclusivamente o eleitorado do presidente;

Existem os movimentos de última hora, mas a metafísica influente não é exatamente favorável a Flávio.

Não estou fazendo predição nenhuma. Sei que o Flávio, dado o total desses estados, adoraria trocar de lugar com o Lula.

Falso brilhante

Seu principal ponto fraco é a falta de conteúdo político de qualquer natureza. Ele é vazio, não tem nada, a não ser intenções meritórias. Parece um ator que decorou sua fala e interpreta o papel que lhe deram — ou que escolheu — de maneira convincente.

Não tem biografia, e não é a idade que justifica essa lacuna; é porque nada fez de relevante até aqui. Não tem compromisso com coisa alguma, a não ser com aquilo que a retórica da oportunidade lhe aconselha a dizer que tem.


O êxito de sua candidatura se ampara, no mínimo, em bases duvidosas. Apresenta-se como um “não político”, mas nasceu em berço político tradicional. É alguém capaz de fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa — para alcançar seus objetivos. Pode até conseguir se eleger presidente da República assim. Mas que tipo de presidente será?

Avancemos trinta e poucos anos.

Nos parágrafos acima, publicados originalmente no Jornal do Brasil em 21 de maio de 1989, eu desenhava o perfil de Fernando Collor de Mello. Então candidato à presidência, o ex-governador de Alagoas surfava na onda de partidos de aluguel como o Social Cristão, o Social Trabalhista e o Trabalhista Renovador.

Aquele pleito, o primeiro pelo voto popular desde o fim da ditadura, foi pulverizado por 22 candidatos. Entre as lideranças históricas, figuravam Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Lula, Mário Covas, Paulo Maluf e Aureliano Chaves. Collor venceu Lula no segundo turno, mas ruiu em 1992, escorraçado pelo Congresso sob o peso de denúncias de corrupção.

Na época, a direita que se pretendia civilizada não escolheu Collor por engano. Sabia perfeitamente quem ele era, mas preferiu abraçá-lo diante da ausência de outro nome capaz de deter a marcha da esquerda rumo ao poder. Para viabilizar o projeto, acionou-se a engrenagem de sempre: fartos recursos financeiros, pressão sobre o eleitorado, manipulação de debates e a embrionária disseminação de notícias falsas.

Diferente de hoje, a economia sangrava em crise crônica. Com o voto impresso em cédulas de papel, a apuração nos grotões do país corria sem fiscalização efetiva, abrindo margem para a manipulação de atas e urnas. A máquina publicitária manufaturou o “caçador de marajás” — o paladino implacável contra os supersalários —, prometendo um salvador da pátria. O desfecho a história registrou.

A grande diferença para quem ruma às urnas amanhã é o excesso de luz. A trajetória dos dois candidatos com chances reais de vitória já foi escrutinada à exaustão. Desta vez, ninguém terá o direito de alegar, no futuro, que foi ludibriado por um falso brilhante.

Entre biografias e folhas corridas

Nestes dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.

O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.

Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.


Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar.

Um desses instrumentos foi a adoção do nome de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e cemitérios.

Tornaram-nos um povo que se acha devedor de favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro, ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação “profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.

Apesar dos recursos modernos de verificação eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.

É claro que os portadores de apelidos podem acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.

O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes esdrúxulos.

Uma amiga, no consultório dentário, enquanto esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte: Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa: “made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.

A mesma mentalidade tosca se manifestou na eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na cédula, o que anulava o voto.

A eleição frequente de suspeitos de atos graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas faz”.

A disputa entre biografia e folha corrida não é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas. Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de espertalhões e enganadores.

Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não serem cúmplices dos que dela se servem.

O currículo de Flávio Bolsonaro

O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes — o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.


E quanto ao risco institucional? Um princípio elementar do Estado de Direito é o de que a culpa de um criminoso não se transfere para seus familiares. É Jair e não Flávio que foi, com seus corréus, condenado por tentativa de golpe. E é por isso que o senador está em pleno gozo de seus direitos políticos e pode concorrer à Presidência. Isso dito, é preocupante a ameaça de Flávio de subir a rampa ao lado do pai. Um indulto presidencial aos golpistas reverteria o que talvez seja o único avanço institucional que obtivemos na história no que diz respeito ao controle do Estado sobre militares.

O adversário de Flávio Bolsonaro, Lula, tem é claro sua própria lista de pecados, ainda que de outra ordem. Aludi a alguns deles numa coluna publicada poucos dias atrás. Nem deveria ser necessário dizê-lo, mas a tarefa do jornalismo de opinião é criticar, de preferência com propriedade, tudo o que pode ser criticado em qualquer campo político. Cabe ao jornalismo informar e subsidiar argumentações, não substituir a faculdade de julgar do eleitor, por mais imperfeita que seja.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

As últimas 72 horas da guerra eleitoral

A 72 horas do início da votação, quatro em cada dez eleitores não têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o senador Flávio Bolsonaro na ponta da língua. São brasileiros que não apenas não sabem quem são Daniel Vorcaro ou Roberta Luchsinger, como tampouco têm qualquer interesse nos personagens. A decisão acontece na virada do mês que mal deram conta de fechar, uma grande parte deles, no prejuízo.

O eleitor típico desta escolha derradeira é mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8 mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas. Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo. Agora são, em média, 300.


Não bastasse as mulheres serem maioria no eleitorado e na parcela que bate martelo por último, são também mais decisivas na reta final porque, apesar de todo o alheamento, comparecem mais para votar que os homens. Em grande parte porque são mais afetadas pelos serviços públicos a serem prestados pelos eleitos. Quem está no poder, portanto, leva vantagem para conquistar este voto derradeiro.

Foi isso que aconteceu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que surpreendeu ao passar ao 2º turno de 2022 a despeito de estar mais de dez pontos atrás de Lula nas pesquisas que antecederam o primeiro. Tinha despejado dinheiro de baciada no ano eleitoral, do Bolsa Família ao vale-gás, da desoneração dos combustíveis à ampliação do crédito consignado. O fôlego por pouco não impediu a vitória de Lula na segunda rodada.

A vantagem de quem está no poder explica a arrancada dos governadores candidatos à reeleição nesta reta final. Lula diluiu as políticas públicas capazes de fidelizar este eleitor ao longo do mandato: Pé de Meia e linha de crédito para reforma de casa (2024), isenção do IR até R$ 5 mil, vale-gás e tarifa social para famílias de renda per capita até meio salário-mínimo (2025), reajuste do Bolsa Família e Desenrola 3, subvenção aos combustíveis e liberação excepcional de FGTS (2026). E, finalmente, anunciou a MP que proíbe apostas. Não é dinheiro extra, mas uma tampa no ralo.

É nisso que aposta para atrair este eleitor desconfiado e sair da condição de empate com seu principal adversário, apontada tanto no voto da ponta da língua quanto naquele que é estimulado. Não quer que este eleitor goste dele, mas que precise de seu governo. O objetivo é alcançar uma vitória ainda em 1º turno. Seria mais fácil se conseguisse ampliar a aprovação ao seu governo, o que não aconteceu ao longo do programa eleitoral.

A investida das últimas 72 horas é outra. Visa a minar a confiança em Flávio Bolsonaro, especialmente entre as mulheres, com o currículo do seu adversário. Trouxe um vídeo, a partir de versão mais longa produzida pela plataforma Revelando, de uma criança de cinco anos, morta por um policial militar em sua casa, que teve seu julgamento postergado quando Flávio Bolsonaro entrou de advogado no caso. “Quem defende um assassino de criança vai te defender?”.

Não é a única aposta. Novas reportagens e vazamentos não apenas evidenciaram ainda mais o envolvimento do senador do PL com o banqueiro do Master como mostraram a profusão de amigos que Flávio Bolsonaro fez em sucessivos rolos ao longo de sua vida. A capacidade de achaque demonstrada é uma pitada da ameaça à segurança jurídica sobre o país com a eventualidade de sua eleição. Há símbolos mais facilmente captados pelo eleitor do que a triangulação da lavagem de dinheiro do “Dark Horse”. Tem avião, mulheres, Rolex, mas é isso que vai mover o eleitor tardio? Pode fazê-lo, no limite, se afetar a confiança em sua capacidade de governar, que, por incrível que possa parecer, é o principal atributo do candidato do PL.

O que o senador tem de arsenal para se defender? Por enquanto, ainda parece ocupado com seu sistema antimísseis. Colaboradores de sua campanha têm passado o chapéu entre endinheirados para reforçar a ofensiva nas redes sociais. A entrada de Pablo Marçal na sua campanha parece ter sido o primeiro resultado do arrecadado. Por enquanto, com cortes que retratam Lula como um anticristão. Mas como Marçal falsificou um laudo médico para atestar o uso de cocaína pelo então candidato do PSol à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, hoje ministro da Secretaria-geral da Presidência, é de se esperar que sua ofensiva não tenha limites.

A ofensiva mais poderosa de Flávio Bolsonaro, porém, se daria sobre a cadeira vazia no debate de hoje. Iria desgostar o eleitor e deixar o candidato à reeleição sem defesa para os ataques. Como a entrevista de Lula a um podcast de larga audiência aconteceria antes e não depois do debate, o presidente e sua campanha pareceram mais preocupados em atingir uma audiência grande do que se defender do que viria.

A única chance de equilibrar o ringue do debate seria uma decisão liminar do TSE para que a TV Globo, a exemplo do que fez com Romeu Zema (Novo), acolhece também Renan Santos (Missão), que pontua acima do ex-governador de Minas nas pesquisas e gira sua metralhadora a esmo. É em meio a este tiroteio que o eleitor tardio terá de se mover. Oxalá não seja vítima de uma bala perdida.

Flávio Bolsonaro foge da raia para escapar aos ataques de Renan Santos

Entra eleição, sai eleição, e a TV Globo não aprende, nem renuncia à pretensão de tentar influir nos resultados. Às vezes se dá bem; às vezes, mal. Deu-se bem na primeira eleição presidencial da história após o fim da ditadura militar, em 1989, quando apoiou abertamente a candidatura de Fernando Collor para evitar uma vitória de Lula ou de Leonel Brizola. Collor elegeu-se, mas, dois anos mais tarde, o Congresso Nacional cassou seu mandato sob acusações de corrupção.

Nas duas eleições seguintes (1994 e 1998), a emissora apoiou Fernando Henrique Cardoso — o idealizador do Plano Real, que controlou a inflação — novamente com o intuito de derrotar Lula. Como não interessava ao seu candidato participar de debates no primeiro turno, a Globo simplesmente não os promoveu.


Em 2002, o candidato respaldado pela emissora foi José Serra. Os debates retornaram, mas Lula acabou eleito. O petista reelegeu-se em 2006 contra Geraldo Alckmin, o novo escolhido da Globo, mesmo sem comparecer aos debates do primeiro turno por opção própria. A emissora também saiu derrotada nas duas eleições seguintes (2010 e 2014), vencidas por Dilma Rousseff. Nessas ocasiões, o canal apoiou José Serra, mais uma vez, e Aécio Neves.

Com Lula preso em 2018, Fernando Haddad assumiu a candidatura do PT. Diante de Alckmin outra vez no páreo, restou à Globo apoiá-lo. O eleito, contudo, foi Jair Bolsonaro, após o episódio da facada em Juiz de Fora. Devido à forma hostil como o novo presidente tratou a emissora — e a imprensa em geral — ao longo de seu mandato, a Globo viu-se na posição de ter que engolir o retorno de Lula ao poder em 2022. Os dois não se toleram.

A esperança da Globo era a de que, neste ano, o candidato da direita à Presidência fosse Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo. Como não foi, esperava-se que surgisse outro nome capaz de se impor como alternativa a Lula e a Flávio Bolsonaro. Não surgiu, como ficou demonstrado por todas as pesquisas de intenção de voto realizadas até aqui.

É nesse vácuo de alternativas que se desenha uma aparente contradição: a emissora historicamente atacada pelo bolsonarismo vê-se agora empurrada ao pragmatismo de mercado. Sem uma terceira via viável e diante de um PT refratário às suas pressões históricas, o canal calcula seus danos econômicos e editoriais. Face a isso, o mais fácil de lidar e o mais sensível aos interesses corporativos da empresa talvez seja, ironicamente, Flávio. Certamente não será Lula.

Uma indicação a respeito foi dada com o episódio do cancelamento do debate. Lula avisou que não iria. Para comparecer, Flávio exigiu que Renan Santos fosse excluído, e a Globo concordou. Tão logo Flávio soube que Renan estaria presente por decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, o candidato do pai — condenado e preso por tentativa de golpe de Estado — desistiu de ir. Dos demais concorrentes, Renan era o único que partiria para o confronto direto com ele.

A velocidade com que a engrenagem operou nos bastidores escancara o alinhamento de interesses. Enquanto Ronaldo Caiado aguardava pacientemente nos estúdios da emissora, Flávio Bolsonaro já havia sido alertado sobre a reviravolta jurídica, garantindo o tempo necessário para orquestrar sua saída estratégica. A Globo, por sua vez, demonstrou que o debate nunca foi sobre o debate, mas sim sobre o controle da narrativa e a audiência comercial: sem o principal nome da direita no púlpito para confrontar as decisões da Justiça, o encontro perdeu sua utilidade prática e foi sumariamente cancelado. Para completar o cenário de esvaziamento, àquela altura, Lula já reinava absoluto como entrevistado em um podcast concorrente.

A Globo usou a expressão “insegurança jurídica” na nota em que justificou o cancelamento do debate. Desde então, Flávio passou a falar em “insegurança jurídica” para justificar por que fugiu da raia. Fugiu com medo de ser atacado por Renan, uma vez que não seria pelos demais, todos eles inclinados a apoiá-lo em um possível segundo turno contra Lula.

A santa e o crime organizado

Já cansou o noticiário de Nossa Senhora Aparecida. Ninguém aqui é trouxa. A santa preta está sendo manipulada à direita e à esquerda. A intolerância religiosa ultrapassa a fé e é assunto político, por vários motivos. Na origem, esses motivos não são imaginários. Não são fake.

O filho de Jair Bolsonaro prometeu que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”. Católicos enxergaram nisso e em pastores radicais um desejo de destronar a padroeira. Esse temor foi noticiado, sem má fé.

A partir daí tudo saiu de controle. Redes sociais. TSE. STF. Todos extrapolaram. Flávio Bolsonaro acusou o PT e a CNBB de espalhar fake news e ergueu um boneco de crochê da santa. Lula explorou o caso e bispos católicos reagiram a Flávio. Aparecida polarizou o Brasil.

O ministro terrivelmente evangélico André Mendonça censurou todas as postagens e depois recuou, vetando apenas as que citavam Flávio. O humor de Tabet sobre a família miliciana está salvo. Mas a intolerância persiste.

O ministro do STF Flávio Dino recebeu denúncias de vandalismo religioso e pediu investigação da PF. Oito episódios, entre março e setembro, em seis estados. Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Sul, Alagoas, Minas Gerais e Pará. Imagem de Nossa Senhora Aparecida decapitada. Outras santas, destruídas com machado, incendiadas ou depredadas. Imagens de anjos. Imagens de orixás.

Precisam ser investigados? Sim. Mas não é o risco de um governo evangélico extremista o que mais me amedronta.


Uma ameaça concreta, ao Brasil e ao Estado do Rio, é o voto que legitima e fortalece o crime organizado. Candidatos ligados a assassinos de aluguel. Candidatos milicianos.

Um vídeo de 20 minutos com Camila Pitanga, na série Revelando, do podcast Calma Urgente, viralizou. Mais de 5 milhões de visualizações. “O julgamento que nunca aconteceu” relembra Ana Clara, de 5 anos, morta por disparos de fuzil na porta de casa.

O cabo PM Bruno Delaroli, acusado do crime e preso em flagrante, nunca foi julgado. Seu defensor? O advogado e senador Flávio Bolsonaro, que salvou Delaroli do júri popular. O PM segue livre até hoje.

Mas o vídeo vai adiante. Relata ligações íntimas de Flávio Bolsonaro com assassinos de aluguel. Flávio condecorou, com a medalha Tiradentes, o então tenente do Bope Adriano da Nóbrega. Adriano não apareceu na homenagem, estava preso por matar um guardador de carros.

Esposa e mãe de Adriano foram contratadas no gabinete de um deputado. Quem? Flávio Bolsonaro. Adriano era suspeito de chefiar o Escritório do Crime, milícia na Zona Oeste.

O covarde assassinato de Marielle Franco, que ajudava Freixo na CPI das Milícias, acordou o Rio. Foram nove tiros nela e em seu motorista. A polícia pediu a prisão de um tenente: Adriano da Nóbrega. Expulso da PM, fugiu, e foi morto por policiais na Bahia.

Outro personagem sombrio surgiu agora, ligado a Flávio. Robson Calixto, o Peixe. Está preso, acusado de ser o elo entre os matadores de Marielle e os mandantes. Ex-PM, o Peixe tratava Flávio Bolsonaro como “nosso senador”. Uma emenda parlamentar liberou R$ 200 mil a pedido do Peixe. Emenda de quem? Flávio Bolsonaro. Dinheiro de quem? Nosso.

Faz quase 20 anos que Flávio subiu à tribuna da Alerj para legitimar as milícias como “novo tipo de policiamento”, para "expurgar do seio da comunidade o que há de pior".

No Estado do Rio, o candidato dos Bolsonaro se chama Douglas Ruas. Policial civil. Quase um laranja do inelegível Cláudio Castro e de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, preso, acusado de ligação com o Comando Vermelho.

Temos o dever cívico, mais que nunca, de votar domingo com base em fatos. Esqueça minha opinião ou a do vizinho.

Eu preferia falar de flores nessa primavera de vento e chuva. Mas, o futuro me preocupa demais. Como cidadã e como mãe. 

EUA destinam US$ 1 milhão a projeto que contesta atuação do STF

O governo dos Estados Unidos destinou US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,3 milhões) a um projeto voltado ao financiamento de organizações da sociedade civil que contestam a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi divulgada na quarta-feira pelo jornal britânico The Guardian, com base em documentos sobre a destinação dos recursos.

O projeto, chamado Combating Weaponized Litigation and Censorship in Brazil (“Combate à Litigância Instrumentalizada e à Censura no Brasil”, em tradução livre), prevê apoio a grupos que se opõem ao que classificam como abuso do poder judicial e censura no país.

A verba faz parte de uma redistribuição de recursos do Fundo de Direitos Humanos e Democracia (HRDF, na sigla em inglês), administrado pelo Departamento de Estado norte-americano. Segundo o Guardian, o pacote reúne 43 concessões que somam US$ 176,9 milhões e contempla projetos relacionados a pautas conservadoras e de direita em diferentes países.


De acordo com os documentos obtidos pelo jornal britânico, a iniciativa brasileira prevê financiar organizações que contestem decisões e medidas atribuídas ao Supremo Tribunal Federal.

O desenho do programa inclui apoio a grupos da sociedade civil envolvidos em disputas sobre decisões judiciais e liberdade de expressão. O financiamento ocorre em um momento de forte tensão entre os governos de Donald Trump e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e depois de uma série de medidas adotadas por Washington contra autoridades brasileiras.

O Departamento de Estado não comentou individualmente a concessão. Segundo o Guardian, a pasta afirmou que os programas permaneciam sob análise e que os beneficiários deveriam cumprir as regras federais para receber os recursos.

O financiamento agora destinado pelo governo Trump, ao que indica, foi citado em um edital publicado pelo Departamento de Estado em junho deste ano. Na ocasião, a pasta abriu uma chamada pública de até US$ 986.679 para um projeto denominado Countering Censorship and Judicial Overreach in Brazil (“Combate à Censura e ao Excesso Judicial no Brasil”, em tradução livre).

O edital previa um programa de 18 a 24 meses voltado a questões de liberdade de expressão, regulação de plataformas digitais e decisões judiciais no Brasil. O documento citava diretamente o Supremo Tribunal Federal e mencionava medidas relacionadas à remoção de conteúdos, ao bloqueio de plataformas e à responsabilização de empresas de tecnologia por publicações de usuários.

Entre as atividades previstas, estavam campanhas de conscientização, articulação com organizações internacionais, formação de coalizões e apoio jurídico a pessoas e grupos que se considerassem vítimas de decisões judiciais abusivas.

O valor previsto no edital era de até US$ 986.679, enquanto a concessão divulgada agora é de US$ 1 milhão. Os documentos disponíveis não deixam claro, até o momento, se a diferença corresponde a uma atualização do valor ou a uma nova concessão vinculada ao mesmo programa.

A trama da destinação de recursos ocorre em meio a alertas sobre a atuação dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026.

Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre ameaças às eleições elevou a possibilidade de influência ou interferência externa dos Estados Unidos a um “nível de criticidade”.

Na última semana, 31 congressistas norte-americanos — 30 deputados democratas e o senador independente Bernie Sanders — enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual manifestaram preocupação com uma possível interferência do governo Trump na eleição brasileira.

O documento, obtido pelo Metrópoles, pediu que Washington se comprometesse a respeitar o processo eleitoral e o resultado das urnas.

Nessa quarta, informações sobre uma reunião entre autoridades brasileiras, francesas e alemãs acrescentaram outro elemento ao cenário. Representantes da Abin teriam relatado a autoridades europeias a existência de interferências atribuídas aos Estados Unidos e à Rússia no processo eleitoral brasileiro.

A mansão de Flávio Bolsonaro e a gentileza do tabelião de Brasília

A mansão de R$ 6 milhões que Flávio Bolsonaro, comprada em 29 de janeiro de 2021 por meio de um polêmico financiamento feito via BRB, é uma espécie de cadáver insepulto na vida do candidato do PL.

O presidente do banco àquela altura era o agora notório Paulo Henrique Costa, ora preso na Papudinha.

Começa a circular agora uma foto ainda inédita do fim de janeiro de 2021 que tem a ver com essa transação imobiliária.

Nela, aparecem sorridentes Allan Guerra, Costa, Flávio e Fernanda, sua mulher. A mansão ainda meio vazia emoldura a foto.

O tabelião Guerra comanda o 4º Ofício de Notas, Protesto, Registro Civil, Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas de Brazlândia (DF). Gentil e prestativo, foi levar pessoalmente o registro de compra e venda da mansão para ser assinado por Flávio.


A mansão, no Lago Sul, possui 1.100 m² de área construída em um terreno de 2.400 m² e tem quatro suítes e piscina. Flávio e Fernanda deram uma entrada de R$ 2,87 milhões e conseguiram um financiamento de 30 anos no valor de R$ 3,1 milhões com o BRB. Três anos depois, no entanto, foi tudo quitado.

O financiamento foi contratado com taxas nominais de 3,65% a 3,71% ao ano (+ IPCA), abaixo taxa padrão do BRB, que era de 4,85%.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Pensamento para Domingo

 


Deus, cabo eleitoral com exclusividade

Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais assim. Flávio Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência. E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e, se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.


"Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como quem respira e suplicar dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma midiática crucificação.

"Deus vai me honrar [com a vitória na eleição]." Pela frequência com que Flávio repete isso, parece que a vitória está incluída no pacote de seus negócios com Deus. Resta ver se um dia prestará contas sobre esses negócios, ao contrário das contas que continua devendo sobre o filme "Dark Horse". "Se Deus me honrar, vamos poder colocar mais ministros [no STF]." E, com isso, obrigará Deus a se misturar com um tribunal tão desmoralizado.

"Vou fazer uma oração antes de ler o termo de posse, entregando o Brasil nas mãos de Jesus." Epa! Significa que quem vai governar é Jesus? Pode isso, Arnaldo — o fulano ser eleito e terceirizar o mandato? E sabe-se lá se Jesus não tem mais o que fazer?

Afinal, sua jurisdição abrange toda a humanidade, o que inclui os Estados Unidos. O patrão Donald Trump se contentará com sublocar Deus em vez de tê-lo todo para si?

"Não debato com quem não acredita em Deus." Afinal, Flávio é candidato a presidente ou a pastor? Resta ver se ele, notório evangélico de última hora, aguentaria cinco minutos de debate com um pastor de verdade.

Bolsonaros propõem caça às bruxas no Itamaraty

Duas reportagens de Patrícia Campos Mello publicadas nesta quarta  na Folha detalham como seria a política externa de Flávio Bolsonaro, se eleito.

Depois do isolacionismo implementado durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.


O que se propõe, afinal, é uma mudança radical do lugar da diplomacia do Brasil no mundo. Seria um cavalo de pau na política externa brasileira, que se tornaria menos multilateral e mais subserviente aos EUA; menos pragmática e mais ideológica, privilegiando alinhamentos a países sob a liderança da direita; mais conflituosa com a China e com o Brics em geral.

Ficam as perguntas sobre se o agro brasileiro está disposto a pagar a conta de tensões com os chineses e se a população estaria disposta a debater Pix, big techs e temas afins com os EUA.

O alvo principal seria o próprio Itamaraty, com uma reestruturação à la Rubio do corpo diplomático, com menor participação de diplomatas de carreira e mais indicações políticas, ou seja, menos João Cabral de Melo Neto e mais Filipe Martins. Hoje, apenas 9% dos embaixadores americanos vêm do corpo diplomático, evidenciando a partidarização da carreira.

Direto dos EUA, Eduardo Bolsonaro propôs uma "faxina" (leia-se caça às bruxas) no Itamaraty se o irmão for eleito, o que eleva o risco real de perseguição política no órgão.

Trata-se de um erro para o Brasil, que se beneficia, inclusive economicamente, da habilidade histórica da diplomacia de dialogar e negociar com o espectro mais amplo possível de países. E há o risco de que a caça às bruxas se alastre para outros órgãos, como Polícia Federal e Banco Central.

Um corpo técnico no alto funcionalismo é indispensável para a qualidade do Estado, da diplomacia ao combate à corrupção, e é isso o que está sob ameaça.

O dever cristão de se manter informado

Eu posso ignorar que Flávio Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do Senhor Jesus Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.

Posso ignorar que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB e os riscos à liberdade religiosa.

Posso ignorar o desprezo de Flávio por mulheres, sua rejeição à Lei Maria da Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.


Posso ignorar conexões de Flávio com o miliciano Adriano da Nóbrega, com Major Ronald e Robson Calixto (condenados no caso Marielle), com Domingos Brazão; posso ignorar construção de seu patrimônio ligada a transações em dinheiro vivo e à loja de chocolates; ou suas relações com Willer Tomaz e Daniel Vorcaro, com o Careca do INSS, com Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro.

Posso ignorar que André Mendonça expôs fatos graves sobre Alexandre de Moraes e não fez nada equivalente para informar o eleitor sobre Ciro Nogueira, Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Mendonça nem sequer deu transparência à sua própria relação com Vorcaro e aos contratos públicos de seu instituto, do qual se retirou sem esclarecer se deixará de prestar serviços ou usar de sua autoridade para renda privada. Ou se foi um delito ético, que continua sem explicar. Posso ignorar que, na série extravagante de ordens monocráticas do STF, nenhuma se compara em radicalidade e lesividade eleitoral às de Mendonça.

Posso ignorar que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes anularam provas produzidas contra Flávio no caso das "rachadinhas".

Posso ignorar tudo isso e chamar fatos documentados de fake news. Tenho direito de acreditar e abraçar a mentira. Afinal, tenho direito à ignorância. Sou livre para, sendo ignorante, renunciar à minha liberdade. Livre para a servidão. Esses paradoxos do direito constitucional e da moralidade política me favorecem.

A ética da ignorância estratégica, aquele modo insincero de se relacionar com a verdade, pode confortar a consciência. Contudo, é incompatível com qualquer conceito não cínico de pessoa de bem, com qualquer fé que se preocupa com o próximo, como a fé cristã. A Bíblia condena a "ignorância deliberada", e há responsabilidade espiritual por tamanha cegueira voluntária.

Informar-se é um direito-dever cívico, como o voto. Voto livre depende de boa informação. Voto que ignora tanta coisa e apoia candidato-símbolo das práticas mais cruéis e sinistras da sociedade brasileira, sem deixar nada de fora, nem tortura ou crime organizado, nem corrupção ou exploração da fé alheia, também é insustentável na fé cristã.

Posso ter direito à ignorância. Só não posso exercer esse direito e reivindicar amor em Cristo. Se Deus existe, Deus está me vendo.

Donald Trump é um ser humano horrível que viraliza das piores formas

Donald Trump é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no lugar do retrato de Biden?

Infelizmente, porém, quando alguém tão moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da Era da Inteligência Artificial, não se pode ignorá-lo.

Porque, neste momento, Trump está deixando os Estados Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos. Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.


Comecemos pelo vírus digital que está à solta. Recentemente, OpenAI, Anthropic, Meta e Google revelaram, todas elas, incidentes nos quais seus modelos de inteligência artificial escaparam ao controle e saíram por aí invadindo outros sistemas de computador —incluindo um site do governo australiano, a plataforma Hugging Face e sites do Departamento de Comércio e da Comissão de Valores Mobiliários americana.

Lembrem-se: esses são sistemas de IA ainda na infância; estão de fraldas e ainda não foram potencializados pelo treinamento completo de si mesmos, que os levará a deixar para trás seus projetistas humanos.

E lembrem-se também de que as histórias acima dizem respeito ao que os mocinhos estão fazendo. Converse com qualquer grande especialista em cibersegurança de uma grande empresa americana e você ficará aterrorizado com as histórias sobre o que os bandidos estão fazendo com modelos menores de IA que conseguiram obter, dos quais foram retirados os mecanismos de controle.

O Relatório Global de Ameaças da CrowdStrike afirmou que os ataques de "adversários habilitados por IA" aumentaram 89% em 2025 na comparação com o ano anterior, segundo a revista Infosecurity Magazine, em fevereiro —e o ritmo disparou desde então.

Mas não tenham medo, porque nosso presidente, que nem sequer usa email, disse às Nações Unidas na semana passada que sabe que nossos temores em relação à segurança da IA são fraudulentos. Ele se referiu às "mesmas pessoas que disseram que todos estaríamos mortos em 12 anos por causa do aquecimento global". E acrescentou: "E ninguém morreu. São as mesmas pessoas que agora dizem que a IA vai nos matar a todos".

Milhares de pessoas morreram em catástrofes agravadas pelas mudanças climáticas na última década, e só na imaginação pútrida de Trump alguém disse: "Senhor, todos estaremos mortos em 12 anos".

Trump e seu partido —assim como os magnatas da tecnologia da IA que, na prática, pagaram a eles para que não interfiram em seu setor— deveriam rezar para que a "surpresa de outubro" nas próximas eleições legislativas de meio de mandato não seja um grande evento destrutivo envolvendo IA.

Se for, é melhor que tenham suas espaçonaves prontas para levá-los a outro planeta, onde possam viver para sempre, porque este evento talvez transforme suas existências em um inferno.

Essa ameaça da IA não é uma farsa (assim como a ameaça climática não é uma farsa, como Trump saberia se algum dia consultasse o site da Nasa de seu próprio governo). A única farsa é Trump, que certa vez sugeriu que injetar água sanitária poderia ser uma boa maneira de se livrar da Covid-19, achar que sabe alguma coisa sobre IA ou mudanças climáticas —ou água sanitária.

Gostaria que a única ameaça que a ignorância desenfreada de Trump representasse para nós fosse um vírus de IA. Infelizmente, na semana passada, Apoorva Mandavilli, minha colega do New York Times, noticiou que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), por muito tempo considerados "líderes globais incontestáveis em saúde pública", foram tão sistematicamente desmantelados pelo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que agora são "um esqueleto do que já foi uma potência".

Não apenas o quadro de funcionários do CDC foi reduzido em cerca de 30%, como, segundo Mandavilli, citando funcionários atuais e antigos, "as mudanças prejudicaram a capacidade do CDC de responder a surtos, enquanto o sarampo se espalha dentro do país, e o ebola, no exterior, e de emitir orientações oportunas sobre vacinação à medida que a queda das temperaturas dá início à temporada de doenças respiratórias. Divisões inteiras foram fechadas, incluindo equipes que trabalhavam com tabagismo, violência sexual, abuso infantil e quedas entre idosos".

O jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre a disseminação do surto de sarampo na Pensilvânia, que já ultrapassou 900 casos. O médico John Goldman, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, disse que, entre 1992 e 2026, não havia visto um único caso, segundo o Guardian. Agora, "estamos vendo pelo menos um por dia".

E acrescentou: "Nunca na minha vida pensei que voltaria a ver sarampo". Esse é um exemplo de como a negligência de Trump está ajudando a disseminar vírus biológicos de verdade.

Mas não se esqueçam também do vírus antidiplomático, que igualmente está minando nossas forças. O que seria isso? Uma reportagem do jornal israelense Haaretz, assinada por seu especialista em assuntos do Oriente Médio, Zvi Bar’el, descreveu como a incompetência diplomática do governo Trump e a malevolência do gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, se combinaram para paralisar o plano de paz de 20 pontos de Trump para a Faixa de Gaza.

Assim, os civis palestinos, muitos deles vivendo em edifícios destruídos pela guerra —um dos quais desabou em 16 de setembro, matando pelo menos 21 pessoas, incluindo 11 crianças—, continuam em condições de absoluta miséria.

Quando Trump lançou seu tão alardeado Conselho da Paz e se tornou seu presidente, os países participantes prometeram US$ 17 bilhões para Gaza. Mas, "até onde se sabe, menos de US$ 300 milhões foram transferidos", informou Bar’el.

Além disso, a força internacional de estabilização prevista no plano de paz ainda não foi criada. A força policial palestina que deveria substituir o Hamas, sob a supervisão de um governo tecnocrático palestino, deveria receber treinamento no Egito, "mas Israel está impedindo que seus integrantes deixem Gaza", segundo Bar’el.

Aprendi ao longo dos anos que a diplomacia também funciona como um vírus, de maneira benéfica ou prejudicial: quanto mais sucesso você tem, mais respeito conquista; quanto mais respeito conquista, mais sucesso obtém. No sentido inverso, quanto mais fracassos acumula, menos os aliados confiam em se juntar a você, o que leva a mais fracassos.

Um exemplo: entre março e outubro de 1991, o secretário de Estado James Baker fez oito viagens diplomáticas ao Oriente Médio para organizar a Conferência de Paz de Madri — a primeira entre Israel, a Organização para a Libertação da Palestina e vários Estados árabes. Acompanhei as oito viagens com ele, como correspondente diplomático do NYT. Ele fracassou nas sete primeiras, mas Baker não desistiu e conseguiu realizar a conferência na oitava.

Mostrem-me uma única iniciativa diplomática que o governo Trump tenha desenvolvido desde o cessar-fogo em Gaza, que Trump deixou definhar. É como se tudo o que lhe importasse fosse a manchete sobre a assinatura do acordo, após a qual ele declarou, espantosamente, em 13 de outubro do ano passado: "Juntos, conseguimos o que todos diziam ser impossível. Finalmente temos paz no Oriente Médio".

Isso, sim, é o que chamo de uma verdadeira farsa.

Não há um acompanhamento enérgico e concentrado porque não existem linhas claras de autoridade. Temos Thomas Barrack, enviado especial para Síria e Iraque e embaixador na Turquia, fazendo suas próprias declarações sobre políticas. Temos Massad Fares Boulos, sogro de Tiffany, filha de Trump, atuando como assessor sênior do presidente para assuntos árabes e do Oriente Médio. Temos Jared Kushner e Steve Witkoff, que atuam em tempo parcial. Temos vários subsecretários de Estado e de Defesa. E temos Trump em suas redes sociais. (Alguém ainda vai transformar isso em um musical!)

O que não temos é um secretário de Estado como Baker, que se concentre incansavelmente em mobilizar o poder dos Estados Unidos e que faça viagem após viagem, até cumprir a missão.

A única coisa que Trump acompanha incansavelmente é a perseguição à imprensa. No último sábado, depois de ser obrigado por um juiz a permitir que repórteres da CNN voltassem à Casa Branca, após Trump tê-los banido ilegalmente porque a cobertura da emissora não era bajuladora o suficiente, o presidente ainda assim impediu que a CNN o acompanhasse no Air Force One para assistir a uma partida de futebol americano no Tennessee.

Quando se trata de denunciar a imprensa, Trump tem foco absoluto. Mas, ao lidar com os vírus digitais, biológicos e diplomáticos que enfraquecem o sistema imunológico nacional, nem tanto —para nosso enorme risco.

'Um clã tão radical quanto disfuncional'

A família Bolsonaro é o tema de reportagem de capa da revista de fim de semana do Financial Times, um dos jornais de economia mais influentes do mundo. Com o título "Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro", o texto, assinado pelo chefe do escritório do jornal no Brasil, Michael Pooler, descreve o clã como uma família "tão radical quanto disfuncional", que pode estar à beira de um retorno ao poder com a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.

Segundo o FT, os Bolsonaro oscilam entre o conservadorismo e o caos e praticam um estilo paranoico de política. O jornal os compara à família Trump, afirmando que ambas encarnam o espírito político dos anos 2020, com a fusão entre celebridade, redes sociais e busca pelo poder.


A reportagem abre com um episódio de junho, pouco antes de um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Em um vídeo no Instagram, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acusou o enteado Flávio de humilhá-la em uma disputa interna do partido, e chamou a atitude dele de "uma facada nas costas".

Para o FT, os detalhes da briga, sobre alianças e candidaturas regionais, importavam pouco. O que chamou atenção foi a hostilidade aberta, que expôs uma fissura no centro da principal família da direita brasileira justamente quando ela planejava voltar ao poder.

Segundo um assessor da campanha ouvido pelo jornal, naquele momento a equipe de Flávio chegou a achar que estava tudo acabado.

Madrasta e enteado só fizeram as pazes publicamente em meados de agosto, depois de semanas de mediação de aliados. O jornal registra que a reconciliação, com orações e abraços, não convenceu todo mundo.

O pastor Silas Malafaia, aliado próximo da família e que celebrou o casamento de Jair e Michelle, disse ao FT que a disputa é sobre herança política. "A briga é sobre quem vai carregar o nome", afirmou.

O jornal descreve Jair Bolsonaro como um "rei-sol em declínio", em torno do qual orbitam a mulher e os três filhos mais velhos. Condenado a 27 anos de prisão por tramar a permanência ilegal no poder, ele cumpre prisão domiciliar em Brasília, com visitas restritas e proibido de se comunicar publicamente.

Dentro da família, segundo o FT, Jair inspira reverência. Uma pessoa que conviveu com os Bolsonaro disse ao jornal que os filhos tinham medo do pai: "Ele é como um deus para eles". A reportagem lembra que o ex-presidente, que é ex-militar, chama os filhos por números para não confundir os nomes: Flávio é o "01", Carlos o "02" e Eduardo o "03".

Flávio, 45 anos, é apresentado como o "moderado autodeclarado" da família, alguém que se definiu como um "Bolsonaro vacinado". Pessoas próximas o descrevem ao jornal como o filho "mais normal", tranquilo e que não guarda rancor. Em entrevista ao FT no início do ano, ele admitiu não chegar aos pés do pai: "Como comparar o filho do Pelé com o próprio Pelé?".

O jornal conta que, na convenção do PL em julho, Jair apareceu no telão na forma de um avatar criado por inteligência artificial para apresentar Flávio como seu sucessor, e que o filho enxugou uma lágrima no palco.

Carlos, 43 anos, é descrito como o estrategista das redes sociais creditado pela vitória de 2018, chamado pelo próprio pai e pelo irmão de "pit bull da família". Já Eduardo, 42, é o que mais se parece com Jair no estilo, segundo o FT. Morando no Texas desde 2025, ele teve o mandato de deputado cassado e foi condenado à revelia em junho por pressionar autoridades americanas a interferir no julgamento do pai.

O FT dedica boa parte da reportagem à ascensão de Michelle, que o jornal aponta como possível "arma secreta" dos Bolsonaro nesta eleição. Evangélica, 27 anos mais jovem que o marido e um ano mais nova que Flávio, ela deixou de ser uma primeira-dama discreta para se tornar, segundo uma pesquisa citada pelo jornal, a mulher mais poderosa do país.

A reportagem lembra que pesquisas do ano passado chegaram a mostrar Michelle com mais chances de derrotar Lula do que Flávio ou Eduardo, o que alimentou a rivalidade com os enteados. Hoje ela é candidata ao Senado pelo Distrito Federal, a pedido do marido.

O jornal relata uma série de tropeços de Flávio Bolsonaro em 2026. Em maio, um áudio vazado mostrou o senador pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cuja quebra, segundo o FT, soma cerca de US$ 10 bilhões. O dinheiro seria para financiar Dark Horse, filme em inglês sobre a trajetória do pai, estrelado pelo ator americano Jim Caviezel, de A Paixão de Cristo. De acordo com o jornal, o projeto recebeu ao menos US$ 12,3 milhões de Vorcaro, que está preso e é o centro de um amplo escândalo de corrupção em Brasília.

Flávio nega irregularidades e afirma que se tratava de um acordo privado. O FT acrescenta que a polícia investiga se parte do dinheiro bancou a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, o que os irmãos negam.

Ainda assim, escreve o jornal, os ventos agora sopram a favor de Flávio. A maioria das pesquisas mostra Lula ligeiramente à frente no primeiro turno, marcado para 4 de outubro, mas aponta empate técnico num eventual segundo turno. Segundo o FT, os mercados de apostas já dão ao candidato do PL mais chances de vencer do que ao presidente.

O jornal aponta uma ironia: o ministro Alexandre de Moraes, que conduziu o julgamento de Jair, pode acabar ajudando a família, já que o escândalo bancário atingiu o próprio Supremo Tribunal Federal após revelações sobre supostas relações impróprias entre Moraes e o dono do banco. Ambos negam irregularidades.

Se Flávio vencer, segundo o FT, os Bolsonaro se consolidarão como uma dinastia política, e não como uma anomalia passageira. O jornal afirma que ele pressionaria imediatamente o Congresso por uma anistia ampla aos condenados pela trama golpista e pelo 8 de janeiro, o que poderia provocar uma crise constitucional com o Supremo. O deputado Lindbergh Farias (PT) disse ao jornal que uma vitória de Flávio seria "quase a transformação do Brasil numa colônia americana".

Se Flávio perder, o cenário é outro. Uma pessoa próxima de Jair contou ao FT que o ex-presidente disse que, nesse caso, "a era Bolsonaro acabou". O jornal avalia que uma derrota poderia abrir espaço para uma direita mais moderada, como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Há ainda um terceiro cenário: se Flávio e Carlos perderem e Michelle for eleita senadora, a madrasta passará a ser a Bolsonaro com o mandato nacional mais importante. Os filhos não gostariam, escreve o FT, mas a candidatura dela pode manter vivo o negócio da família.

A reportagem termina com uma frase do ex-chanceler Ernesto Araújo, para quem Bolsonaro "não é só um homem, é uma ideia".

Escolha que não é difícil

Esta não será uma escolha difícil. Ao contrário de eleições passadas, nas quais um número maior de candidatos chegou ao fim do primeiro turno com chances de passar para o segundo, desta vez são apenas dois: Lula e Flávio Bolsonaro. Um conta com os votos que acumulou ao longo de seis disputas presidenciais anteriores. O outro, com os votos transferidos por seu pai, condenado e preso desde o final do ano passado por tentativa de golpe de Estado.

Goste-se dele ou não, um eventual novo governo Lula — o quarto desde 2002 — não promete surpresas arrepiantes, nem boas nem más. Um eventual governo Flávio, esse sim, será uma incógnita. Sua experiência administrativa resume-se ao fato de ter sido um dos donos de uma loja de chocolates. De resto, Flávio é o único candidato a presidente investigado pelos crimes de evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.


Durante 16 anos como deputado estadual no Rio de Janeiro, o grosso de sua produção legislativa convertida em leis consistiu em datas comemorativas, inclusões no calendário oficial do estado e concessões de medalhas e honrarias a milicianos e a policiais civis e militares. Seus projetos voltados à segurança pública estrutural ou à alteração de regras penais locais costumavam ser rejeitados ou declarados inconstitucionais por vício de iniciativa.

Em pouco mais de sete anos como senador, Flávio apresentou mais de 60 projetos de lei como autor principal. Apenas um deles, porém, virou lei federal: o PL 3.190/2023, que fez alterações técnicas no Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado. Lembra-se dele? Eu também não. O projeto impactou sua vida? Nem a minha. Os beneficiados pelas alterações técnicas no tal programa são gratos a Flávio? Se são, jamais se manifestaram publicamente.

Flávio puxou ao pai até nisso. Nos seus 27 anos como deputado federal (de 1991 a 2018), Jair Bolsonaro apresentou mais de 170 projetos de lei e propostas de emenda. Desse total, apenas dois projetos de lei foram aprovados pelo Congresso, tornando-se leis federais. O primeiro estendeu o prazo de isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens de informática e automação industrial. Quanto ao segundo… Vamos adiante.

Sancionado em abril de 2016 pela então presidente Dilma Rousseff, o projeto autorizava o uso e a distribuição da fosfoetanolamina sintética, conhecida como “pílula do câncer”, para pacientes diagnosticados com tumores malignos. Mais tarde, a eficácia da substância foi contestada e o Supremo Tribunal Federal suspendeu a lei por falta de testes clínicos que comprovassem a segurança do produto. Um vexame, concorda?.

De volta a Flávio. Fui atrás de suas frases consideradas as mais marcantes pelo Google. Eis algumas:

– “Estão usando uma estrutura de Estado para me atingir e atingir o governo de Jair Bolsonaro.” (Declaração repetida em transmissões ao vivo e coletivas de imprensa entre 2019 e 2021, período em que se defendia das investigações do caso das “rachadinhas” promovidas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.)

– “Não tenho nenhuma ligação com milícia e não posso ser responsabilizado por atos de pessoas que passaram pelo meu gabinete há anos.” (Entrevista concedida em 2019 ao ser questionado pela imprensa sobre as homenagens feitas e o emprego de familiares do ex-capitão Adriano da Nóbrega em seu gabinete parlamentar.)

– “Policial militar não pode ir para a rua com medo de ser preso por cumprir o seu dever de proteger a sociedade.” (Discurso recorrente na tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ao defender o chamado “excludente de ilicitude”, que prevê blindagem jurídica para policiais que matam em serviço. A fala ocorreu em meio a debates contra comissões de Direitos Humanos que fiscalizavam as condições dos presídios fluminenses no início dos anos 2010.)

– “A escala 6×1 é o que garante que o pequeno comércio consiga manter as portas abertas e gerar emprego no Brasil.” (Declaração pública e votos em comissões manifestando forte oposição à Proposta de Emenda à Constituição que visa extinguir a jornada de trabalho de seis dias por um de descanso.)

– “O que aconteceu no 8 de janeiro foi um erro, mas as penas aplicadas são desproporcionais e configuram perseguição política.” (Justificativa apresentada no Senado ao protocolar e defender o projeto da “Lei da Dosimetria”, que buscava reduzir as condenações dos envolvidos nos ataques à Praça dos Três Poderes, em Brasília.)

Em 8 de outubro de 2018, sob o título “Uma escolha muito difícil”, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um célebre editorial a respeito do segundo turno da eleição daquele ano, travado por Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro. Recentemente, sob o título “Flávio é um candidato sob suspeita”, o editorial do mesmo jornal concluiu sobre o candidato que poderá ser um dos finalistas das próximas eleições:

“É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas. Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.”

Assino embaixo.