Já cansou o noticiário de Nossa Senhora Aparecida. Ninguém aqui é trouxa. A santa preta está sendo manipulada à direita e à esquerda. A intolerância religiosa ultrapassa a fé e é assunto político, por vários motivos. Na origem, esses motivos não são imaginários. Não são fake.
O filho de Jair Bolsonaro prometeu que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”. Católicos enxergaram nisso e em pastores radicais um desejo de destronar a padroeira. Esse temor foi noticiado, sem má fé.
A partir daí tudo saiu de controle. Redes sociais. TSE. STF. Todos extrapolaram. Flávio Bolsonaro acusou o PT e a CNBB de espalhar fake news e ergueu um boneco de crochê da santa. Lula explorou o caso e bispos católicos reagiram a Flávio. Aparecida polarizou o Brasil.
O ministro terrivelmente evangélico André Mendonça censurou todas as postagens e depois recuou, vetando apenas as que citavam Flávio. O humor de Tabet sobre a família miliciana está salvo. Mas a intolerância persiste.
O ministro do STF Flávio Dino recebeu denúncias de vandalismo religioso e pediu investigação da PF. Oito episódios, entre março e setembro, em seis estados. Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Sul, Alagoas, Minas Gerais e Pará. Imagem de Nossa Senhora Aparecida decapitada. Outras santas, destruídas com machado, incendiadas ou depredadas. Imagens de anjos. Imagens de orixás.
Precisam ser investigados? Sim. Mas não é o risco de um governo evangélico extremista o que mais me amedronta.
Uma ameaça concreta, ao Brasil e ao Estado do Rio, é o voto que legitima e fortalece o crime organizado. Candidatos ligados a assassinos de aluguel. Candidatos milicianos.
Um vídeo de 20 minutos com Camila Pitanga, na série Revelando, do podcast Calma Urgente, viralizou. Mais de 5 milhões de visualizações. “O julgamento que nunca aconteceu” relembra Ana Clara, de 5 anos, morta por disparos de fuzil na porta de casa.
O cabo PM Bruno Delaroli, acusado do crime e preso em flagrante, nunca foi julgado. Seu defensor? O advogado e senador Flávio Bolsonaro, que salvou Delaroli do júri popular. O PM segue livre até hoje.
Mas o vídeo vai adiante. Relata ligações íntimas de Flávio Bolsonaro com assassinos de aluguel. Flávio condecorou, com a medalha Tiradentes, o então tenente do Bope Adriano da Nóbrega. Adriano não apareceu na homenagem, estava preso por matar um guardador de carros.
Esposa e mãe de Adriano foram contratadas no gabinete de um deputado. Quem? Flávio Bolsonaro. Adriano era suspeito de chefiar o Escritório do Crime, milícia na Zona Oeste.
O covarde assassinato de Marielle Franco, que ajudava Freixo na CPI das Milícias, acordou o Rio. Foram nove tiros nela e em seu motorista. A polícia pediu a prisão de um tenente: Adriano da Nóbrega. Expulso da PM, fugiu, e foi morto por policiais na Bahia.
Outro personagem sombrio surgiu agora, ligado a Flávio. Robson Calixto, o Peixe. Está preso, acusado de ser o elo entre os matadores de Marielle e os mandantes. Ex-PM, o Peixe tratava Flávio Bolsonaro como “nosso senador”. Uma emenda parlamentar liberou R$ 200 mil a pedido do Peixe. Emenda de quem? Flávio Bolsonaro. Dinheiro de quem? Nosso.
Faz quase 20 anos que Flávio subiu à tribuna da Alerj para legitimar as milícias como “novo tipo de policiamento”, para "expurgar do seio da comunidade o que há de pior".
No Estado do Rio, o candidato dos Bolsonaro se chama Douglas Ruas. Policial civil. Quase um laranja do inelegível Cláudio Castro e de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, preso, acusado de ligação com o Comando Vermelho.
Temos o dever cívico, mais que nunca, de votar domingo com base em fatos. Esqueça minha opinião ou a do vizinho.
Eu preferia falar de flores nessa primavera de vento e chuva. Mas, o futuro me preocupa demais. Como cidadã e como mãe.
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