sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

A saga do Papai Noel de Brasília

Todos os setores, governo, STF e Parlamento, têm dificuldade para chegar ao nível de austeridade de que o País precisa.

Um pouco ofuscado pelas festas de fim de ano, Brasília viveu mais um drama em torno das emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino bloqueou um lote de R$ 4,2 bilhões em emendas por não cumprirem os requisitos básicos de transparência e rastreabilidade. Para finalizar, Dino pediu à Polícia Federal (PF) que abrisse um inquérito sobre o tema. O maior suspeito é Arthur Lira, que articulou a aprovação das emendas e destinou grande parte do dinheiro para Alagoas.

O que se sucedeu foi um vaivém de notas e reuniões entre os Poderes, encerrando o ano com uma autêntica reprise do que vivemos ao longo desses últimos meses. O Parlamento se apossou de uma parte substancial do Orçamento e a utiliza de forma que nem as instituições nem a sociedade possa controlá-la.


Na verdade, os eleitores acompanham tudo isso por alguns pequenos escândalos na imprensa, mas parecem cansados e desiludidos a ponto de não mais reagirem. Avião cheio de dinheiro, notas de reais jogadas pela janela, cidades onde todo mundo fez radiografia da mão, enfim, uma série de irregularidades, algumas vezes descobertas pela PF. Mas apenas algumas vezes para nos dar a falsa impressão de que tudo está sob controle.

E não está. Desde o chamado orçamento secreto a roubalheira parece estar sendo combatida. Mas, desde aquela época, é visível como o triângulo Supremo Tribunal Federal (STF), governo e Parlamento se move de forma a nos dar a entender que afinal isto é um país sério e a Constituição será respeitada.

A ministra Rosa Weber proibiu o orçamento secreto. A tese essencial é a de que o dinheiro público tem de ser gasto com transparência. A proibição foi driblada de várias maneiras, inclusive com a criação de novas modalidades como as chamadas emendas Pix.

O próprio ministro Flávio Dino, quando retoma a tarefa de fazer cumprir o texto da lei, reconhece que existem inúmeras tentativas de driblar o STF.

Nessa história toda, a ponta do triângulo, o Executivo, tem uma posição ambígua. A ele interessa disciplinar as emendas porque sobra mais dinheiro para executar seus projetos, de certa forma, prometidos durante o período eleitoral.

No entanto, o governo não pode bater de frente com o Parlamento. Sua tática é de demonstrar interesse para que as emendas sejam pagas, ora questionando o STF ora encontrando um caminho para driblar a proibição.

Foi o que fez agora no apagar das luzes, tentando liberar, excepcionalmente, R$ 2,5 bilhões, movimento que acabou sendo vazado para a imprensa.

Minha hipótese é a de que o Supremo sozinho não consegue segurar essa onda. Por debaixo do pano, o governo tem de ceder para conseguir aprovar seus projetos no Parlamento. E a sociedade, que poderia dar o apoio a essa óbvia defesa da Constituição, parece viver um momento de cansaço, esses muitos momentos em que se diz: o Brasil é isto mesmo, não vale a pena protestar.

Na verdade, a Justiça também tem uma retaguarda vulnerável quando se trata de garantir o mínimo de austeridade. São muitos os supersalários nos seus quadros, além de pequenos escândalos do tipo que aconteceu no Mato Grosso, onde uma desembargadora que ganha R$ 130 mil mensais determinou uma ajuda natalina de R$ 10 mil para os funcionários do tribunal. Um auxílio-peru que poderia não ter tanta repercussão se fosse mesmo um caso isolado.

Mas a verdade é que todos os setores, governo, STF e Parlamento, têm dificuldades de cortar gastos e chegar a um nível de austeridade compatível com as necessidades do País.

É algo muito forte e talvez culturalmente enraizado. Pode ser que se explique por nossas origens católicas. A cisão que deu origem ao protestantismo criticava prédios suntuosos e a vida luxuosa de parte do clero. Combatia a venda de indulgências, pois o perdão não se compra. Martinho Lutero defendia uma vida religiosa mais próxima das pessoas, marcada pela simplicidade e foco nas escrituras.

É possível até tentar explicações histórico-culturais, mas isso não impede de julgar o que se passa nas esferas do poder: é injusto com um país tão necessitado gastar dinheiro sem controle e eficácia, como fazem com as emendas parlamentares, assim como é constrangedor ver a ostentação na alta burocracia estatal.

Ultimamente, o chamado mercado faz uma pressão por economia. Mas ele se interessa em preservar as aplicações financeiras que administra. Não tem critério de valor sobre os cortes, que acabam sendo eficazes apenas quando atingem os mais pobres. Temas como supersalários, subsídios – tudo isso fica para as calendas.

Na verdade, assistimos à farsa em que se repetem os gestos, a movimentos de correção que apenas ajustam a engrenagem que esmaga não só a esperança dos mais pobres, como também a aspiração de todos por um país mais solidário e justo.

É um enredo tão pouco inspirado e monótono que acabará sendo tocado por ventos de renovação. Os eleitores precisam se convencer de que é possível algo melhor e, o que é mais importante, precisam acertar quando acharem que estão escolhendo algo melhor. O caminho continua aberto para aventureiros.

Tranquilidade da Alma

1.
Passemos agora à consideração do patrimônio, essa fonte mais fértil das dores humanas: se compararmos todos os outros males de que sofremos – mortes, enfermidades, medos, arrependimentos, dores e fadigas – com as misérias que o nosso dinheiro nos inflige, este último pesará muito mais do que todos os outros.

2. Reflita, pois, quanto menos dor é nunca ter tido dinheiro do que tê-lo perdido: assim entenderemos que quanto menos a pobreza tem a perder, menos tormento tem com que nos afligir: pois você está enganado se supõe que os ricos suportam suas perdas com maior espírito do que os pobres: uma ferida causa a mesma quantidade de dor ao maior e ao menor corpo.

3. Foi um belo ditado de Bion, “que dói aos carecas tanto quanto aos cabeludos terem seus cabelos arrancados”: você pode estar certo de que o mesmo se aplica aos ricos e aos pobres, de que seu sofrimento é igual: pois seu dinheiro se agarra a ambas as classes e não pode ser arrancado sem que eles o sintam: no entanto, é mais suportável, como já disse, e mais fácil não ganhar propriedade do que perdê-la, e, portanto, verá que aqueles sobre os quais a Fortuna nunca sorriu são mais alegres do que aqueles sobre os quais ela desertou.

4. Diógenes, um homem de espírito infinito, percebeu isso e impossibilitou que lhe fosse tirado qualquer coisa. Chame isso de precariedade, miséria, carência, necessidade ou qualquer nome desdenhoso que lhe agrade: Considerarei tal homem feliz, a menos que você me encontre outro que não possa perder nada. Se não me engano, é um atributo real entre tantos avarentos, malfeitores e ladrões, ser o único homem que não pode ser ferido.

5. Se alguém duvida da felicidade de Diógenes, duvida se a posição dos deuses imortais é de felicidade plena, pois eles não têm fazendas ou jardins, não têm propriedades de valor arrendadas a inquilinos desconhecidos, nem grandes títulos de crédito no mercado monetário. Não se envergonha de si mesmo, você que olha as riquezas com admiração estupefata? Olhe para o universo: você verá os deuses totalmente desprovidos de propriedade, e não possuindo qualquer coisa, ainda que deem tudo.

6. Você acha que esse homem que se despojou de todos os acessórios fortuitos é um pobre, ou um semelhante aos deuses imortais? Você considera Demétrio, o libertado de Pompeu, um homem feliz, aquele que não tinha vergonha de ser mais rico do que Pompeu, que era diariamente munido de uma lista com o número de seus escravos, como um general faz com o do seu exército, embora há muito merecesse que todas as suas riquezas consistissem num par de subordinados, e numa cela mais espaçosa do que os outros escravos?

7. Mas o único escravo de Diógenes fugiu dele, e quando foi apontado para Diógenes, ele não achou que valesse a pena buscá-lo de volta. “É uma vergonha”, disse ele, “que Manes possa viver sem Diógenes, mas que Diógenes não possa viver sem Manes”. Ele me parece ter dito: “Fortuna, não se intrometa: Diógenes não tem mais nada que lhe pertença. O meu escravo fugiu? Não, ele se afastou de mim como um homem livre”.

8. Uma casa cheia de escravos requer comida e roupa: as barrigas de tantas criaturas famintas têm que ser preenchidas: temos que comprar roupas para eles, temos que vigiar suas mãos mais ladras, e temos que fazer uso dos serviços de pessoas que nos lamentam e nos execram. Quão mais feliz é aquele que não deve nada a ninguém, a não ser o que se pode privar com a maior facilidade!

9. Mas, como não temos tal força de espírito, devemos, em todo caso, diminuir a extensão dos nossos bens, para estarmos menos expostos aos ataques da sorte: aqueles homens cujos corpos podem estar dentro do abrigo de suas armaduras, estão mais aptos para a guerra do que aqueles cujo enorme tamanho se estende por toda parte para além dela, e os expõe a feridas: a melhor quantidade de bens a ter é aquela que é suficiente para nos afastar da pobreza, mas que ainda não nos deixei muito distante dela.
Sêneca

Desejo amor ao Brasil

Neste primeiro dia do ano, desejo que meu país seja descoberto por seus cidadãos. Isso deveria ter ocorrido há décadas, ou séculos, para que o Brasil tivesse seu berço: um sistema nacional único de educação com qualidade e equidade para todas as nossas crianças, independentemente de renda e endereço. Mas não aconteceu. Por isso, apesar de tardio, agora é ainda mais necessário o desejo de que os brasileiros coloquem o Brasil acima dos interesses de grupos corporativos.

Desde o início, somos divididos socialmente entre escravos e senhores, ricos e pobres, doutores e analfabetos, favelas e condomínios e, politicamente, em sindicatos, partidos, igrejas, municípios, estados, cada um se colocando acima do país. No último mês, esse divisionismo se mostrou descaradamente diante da constatação de que esgotamos os recursos fiscais do país. Mas, quando o ministro da Fazenda apresenta proposta para equilibrar as contas, cada setor da sociedade se levanta e diz: "Não no meu pedaço do orçamento".


Os donos de salários astronômicos não aceitam tocar em qualquer um dos penduricalhos que lhes permite romper o teto constitucional para saquear o Tesouro Nacional. A corporação militar, que deveria dar exemplo de patriotismo, não aceitou abrir mão da aposentadoria, nem mesmo para integrantes cuja carreira se passa quase toda em escritórios e sem riscos de vida. Dentro do próprio governo, surgiram sugestões para desidratar a proposta inicial do seu ministro. Em nome de votos e de interesses que defende, o partido do ministro adotou a regra "no meu pedaço não".

Os agentes do mercado — investidores, especuladores, consumidores, vendedores — não fizeram gestos para colocar o Brasil acima do lucro individual, com sacrifícios de todos para manter a confiança necessária nas nossas finanças, sem o que ameaçamos o valor do real e aumentamos a taxa de juros. Os parlamentares chantagearam o governo ao condicionarem só votar na necessária redução dos gastos estatais se houvesse aumento no valor destinado a suas emendas para comprar votos com dinheiro público; e, irresponsável e desastradamente, fizeram pedaladas jurídicas para burlar a lei e enganar a população.

Nós, brasilienses, unimos-nos contra a proposta do ministro. Pela primeira vez em décadas, partidos que, até a véspera, digladiavam-se, agora tiveram uma só voz: "No valor do Fundo Constitucional do DF não se toca". Não levamos em conta nossa responsabilidade com os demais 200 milhões de brasileiros aos quais servimos como a capital federal e, por isso, devem nos financiar. Não pedimos desculpas pelo fato de que a Secretaria de Segurança, financiada pelo Brasil, participou da tentativa de golpe do 8 de janeiro, ao ser comandada por golpistas que estão em julgamento; tampouco nos desculpamos pelo fato de não sabermos até hoje onde estava nosso governador naquele dia.

Não explicamos aos brasileiros porque nossa educação, que eles financiam com mais recursos do que usam para suas próprias crianças, não é mais um exemplo de qualidade. Tampouco explicamos como recebemos recursos dos brasileiros para cuidarmos da saúde na capital deles, e, no ano passado, fomos campeões em casos de dengue, ao ponto de ameaçar o bom funcionamento da máquina do governo federal e das embaixadas; não explicamos aos irmãos goianos o porquê de eles financiarem nosso sistema de saúde e doentes nossos buscarem apoio médico em suas cidades. Corretamente, defendemos a absoluta necessidade da manutenção do fundo — que a proposta do ministro nunca ameaçou — mas raros entre nós propuseram uma auditoria para que nossa Câmara Legislativa e nosso Tribunal de Contas indicassem se e onde seria possível haver maior eficiência, menos desperdício, menos corrupção, para reduzir o sacrifício do resto do Brasil e ajudar no necessário ajuste nas contas públicas do país.

Não importou o tamanho da crise, o bolso individual continuou na frente do Tesouro Nacional, todo saque aceito, desde que não se toque no interesse pessoal de cada um. O sentimento "no meu pedaço do orçamento não" foi usado pelos que têm poder para vitimar 50 milhões de crianças, porque o Fundeb será reduzido; aos milhões que recebem salário mínimo, porque seus reajustes serão menores; milhões de pobres perderão porque parte dos seus benefícios serão cortados; aos que recebem até R$ 5 mil por mês, porque a isenção que receberiam foi postergada para algum momento no futuro. Em uma atitude suicida, porque o câncer de um país é sua divisão em pedaços que não abrem mão de interesses específicos e imediatos em favor do conjunto do país e seu futuro.

Todo peso do seu mundo


Carrego nos ombros o peso dos escombros da minha casa e dos meus livros transformados em cinzas

Mosab Abu Toha, poeta do sofrimento de Gaza

Vila de férias de Israel em Gaza

A verdadeira notícia do dia não é que o exército israelense montou uma vila de férias para soldados cansados ​​na costa de Gaza, não muito longe de Jabaliya, que esses mesmos soldados vêm destruindo metodicamente nos últimos três meses.

A vila é apenas um lembrete grotesco de quão longe o estado de Israel e a maioria de seu povo se distanciaram da humanidade comum.

As verdadeiras notícias são a morte de mais palestinos, a destruição final do hospital Kamal Adwan em Beit Lahia, o assassinato ou sequestro de funcionários e pacientes e a remoção dos gravemente feridos para outros hospitais, que até mesmo a grande mídia admite que não estão mais funcionando.

A equipe médica foi levada para um destino desconhecido, possivelmente a prisão de Sde Teiman, onde outro médico sequestrado, Dr. Adnan al Bursh, um cirurgião ortopédico e graduado do King's College, foi assassinado. De acordo com Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, ele foi estuprado até a morte.

O heroísmo dos palestinos está resumido na pessoa do Dr. Hussam Abu Safiya, diretor do Hospital Kamal Adwan, que foi espancado com cassetetes e pedaços de pau enquanto era levado embora.

Em outubro, o filho do Dr. Abu Safiya, Ibrahim, foi morto pelos israelenses. O Dr. Abu Safiya foi ferido em um ataque de drone, mas ficou com sua equipe e pacientes até o fim. Seu paradeiro não é conhecido, mas sua vida está obviamente em perigo de ser encerrada da mesma forma que a de Adnan al Bursh.


A vila de férias de Israel para soldados estressados ​​serve café da manhã com café expresso gelado, torradas, bebidas saborizadas e shakes. O café da manhã é seguido por um almoço e jantar de churrasco, com waffles belgas, pretzels frescos e merengues servidos com café no café depois.

Há salas de massagem para corpos cansados ​​e clínicas médicas e odontológicas móveis para check-ups. Há chuveiros, internet, suprimentos ilimitados de pipoca, doces e água fresca, pufes para relaxar, consoles PlayStation para entretenimento e frutas e sorvete "quando o tempo está quente".

A distância de Tel Aviv a Gaza é de pouco menos de 80 quilômetros. Os mesmos prazeres estão disponíveis em Tel Aviv dia e noite, mas a destruição não pode ser vista e os gritos dos feridos e moribundos não podem ser ouvidos em Tel Aviv.

A vila de férias fica perto de Jabaliya, que os soldados que tiravam um tempo para se recuperar de suas tarefas onerosas passaram os últimos três meses destruindo. Dois dias depois do Natal, eles invadiram o hospital Kamal Adwan, destruíram suas unidades especializadas, assassinaram cinco funcionários médicos, marcharam outros para longe em suas roupas íntimas e levaram 350 pessoas para o frio. Cinquenta pessoas que se abrigavam foram mortas em um ataque aéreo a um prédio no terreno do hospital.

O jornalista Gideon Levy comparou esta vila de férias a 'The Zone of Interest', o filme de Jonathan Glazer sobre a vida levada logo depois do muro de Auschwitz pelo comandante do campo, Rudolf Hoss, sua esposa e filhos. Gritos distantes, tiros e a chegada de trens podem ser ouvidos enquanto as crianças brincam no jardim e a esposa cuida das plantas e conversa com os visitantes. O cenário é idílico, as crianças se divertindo muito.

Não muito longe da vila de férias dos soldados israelenses em Gaza, não muito longe dos cafés da manhã de qualidade de hotel, churrascos e suspiros servidos com o café, crianças estão morrendo de frio e fome, sendo baleadas por atiradores e despedaçadas por mísseis e granadas de tanques.

Gaza há muito tempo se transformou em uma reserva de caça humana, com soldados israelenses capturando suas presas e agora indo para suas aldeias para se recuperar do estresse com uma massagem ou relaxando em um pufe.

Israel está comemorando a sequência de "vitórias" do ano, como chama o genocídio em Gaza e a matança de milhares de civis no Líbano. Ele explorou a crise na Síria para roubar mais terras sírias, está lançando ataques com mísseis no Iêmen e está se preparando para um ataque ao Irã.

Netanyahu está vivendo uma fantasia, como um guerreiro judeu que se iguala aos maiores entre eles, quando a história se lembrará dele como um desprezível criminoso de guerra e um covarde assassino em massa de mulheres e crianças.

Há a causa e há a batalha. A Palestina é a causa e Israel nunca a destruirá. Gaza é a batalha, mas, apesar de todo o seu poderio armado, Israel não conseguiu derrotar o Hamas mesmo depois de 15 meses. A outra batalha que perdeu, de forma abrangente e decisiva, é pela opinião pública global. Este é um terreno que nunca recuperará, por mais tempo que consiga manter seu controle sobre a Palestina.

Mesmo que o Hamas não consiga disparar outro tiro, a causa continuará pelas próximas gerações. Os jovens palestinos que sobreviveram a Gaza e seus descendentes não produzirão outro Arafat ou o desprezado Mahmoud Abbas. Nenhum outro tempo será desperdiçado em outro "processo de paz" que foi criado como uma armadilha mortal. O modelo das próximas gerações será Yahya Sinwar e seu slogan é o retorno a um antigo, "o que foi tomado pela força só pode ser tomado de volta pela força".

O mundo não pode pagar um estado como Israel mais do que poderia pagar a Alemanha nazista, uma lição que aprendeu tarde demais. A fúria sem lei de Israel ao longo da história o coloca na mesma categoria e, como nos anos 1930, parece que o mundo ocidental, pelo menos, só vai aprender a lição tarde demais.

Ehud Barak, o ex-primeiro-ministro israelense, disse uma vez que Israel era a vila na selva. Claro, Israel não é uma vila, mas um estado genocida de apartheid. A "selva" é aquela que ele criou e a "lei da selva", não as leis da humanidade, a lei pela qual Israel escolheu viver.

A 'villa' é a vila de férias montada em Gaza e a selva é o apocalipse que os soldados israelenses criaram a uma curta distância. Crianças estão morrendo de fome e frio enquanto comem waffles belgas.

Este exemplo atual da "banalidade do mal" de Hannah Arendt repete o enredo de "Zona de Interesse", com Rudolf Hoss olhando pela janela de sua vila para as crianças brincando no jardim e sua esposa colhendo flores enquanto, do outro lado do muro, os internos do campo estão sendo destruídos.

No discurso de aceitação do Oscar, que ele ganhou pelo filme, o diretor, Jonathan Glazer, disse que na produção de 'The Zone of Interest', "todas as nossas escolhas foram feitas para refletir e nos confrontar no presente, não para dizer 'olhe o que eles fizeram então', mas sim 'olhe o que fazemos agora'. Era Gaza que ele tinha em mente como um exemplo atual de mostrar 'onde a desumanização leva, na pior das hipóteses'.

Rudolf Hoss foi enforcado por seus crimes. Netanyahu foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas quando falou perante o Congresso dos EUA em julho de 2024, foi interrompido por aplausos quase a cada minuto e recebeu várias ovações de pé, que é certamente como Hoss teria sido recebido se estivesse falando em um comício do partido nazista.

Por trás das fantasias da "única democracia no Oriente Médio" e do "exército mais moral do mundo", o Ocidente vem humanizando o desumano há décadas. Nunca chamado a prestar contas de seus crimes, Israel tem sido livre para continuar cometendo-os, a ponto de jogar o genocídio na cara do mundo, como se estivesse confiante de que pode escapar mesmo com isso. Protegido pelos EUA, talvez consiga. O que é revelado por trás de uma fachada moral desmoronada é a evidência de "onde a desumanização leva na pior das hipóteses".

Como se estivessem lendo o que estava escrito na parede, estima-se que meio milhão de israelenses tenham partido desde 7 de outubro de 2023. Muitos provavelmente nunca retornarão, pois nenhuma pessoa "normal" gostaria de viver em um ambiente de conflito permanente e risco para si e suas famílias.

Eles estão se separando de uma população que quer o inimigo completamente erradicado e sua terra tomada. Os meios – massacres, atiradores de elite, ataques com mísseis, bombardeios de hospitais, queima de mulheres e crianças vivas e estupros por soldados nas prisões de Israel – não importam. Só o fim importa.

Tal sociedade é "normal" apenas no sentido de que as mesmas visões são compartilhadas por quase todos. Essa é a "normalidade" de pessoas totalmente doutrinadas que são continuamente incitadas pelos fanáticos racistas violentos que se sentam no Knesset e ocupam posições críticas no governo israelense.

Aqueles que não são normais nesse cenário, que estão revoltados com os crimes cometidos em seu nome, estão concluindo que não têm lugar nem futuro para si e suas famílias em Israel.

À medida que o fluxo de emigração aumenta, Israel, em guerra interna e ameaçado externamente, encolherá ainda mais para um reduto teocrático fascista – outra Massada – insultado pelo mundo e condenado ao colapso.

É isso que o futuro parece reservar, a menos que haja algum tipo de reviravolta interna dramática na direção que Israel vem tomando há décadas, e agora isso parece não estar à vista.

Os "sucessos" do ano passado de fato convenceram a camarilha dominante de que a vitória total sobre todos os inimigos de Israel está próxima.

Deve ser mencionado, no entanto, que o parceiro de Israel no crime, os EUA, pode mudar a perspectiva sempre que decidir. Pode eventualmente perder a paciência com Israel, mas isso acontecerá quando e se Israel não servir mais aos seus interesses estratégicos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


A nossa avidez infinita

Todos nós sofremos de uma avidez infinita. As nossas vidas são-nos preciosas, estamos sempre alerta contra os desperdícios. Ou talvez fosse melhor chamar a isso Sentido de Destino Pessoal. Sim. Creio que é melhor do que avidez. Deverá a minha vida perder um milésimo de polegada da sua plenitude? É uma coisa diferente avaliar-se a si próprio ou vangloriar-se loucamente. E há então os nossos planos, os nossos ideais. Também eles são perigosos. Podem consumir-nos como parasitas, comer-nos, sorver-nos e deixar-nos exangues e prostrados. E no entanto estamos constantemente a convidar os parasitas, como se estivéssemos ansiosos por sermos sorvidos e comidos. Isto porque nos ensinaram que não há limites para o que um homem pode ser.

Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista, temos uma história à qual responder. Éramos outrora suficientemente importantes para que as nossas almas fossem objeto de luta. Agora cada qual é responsável pela sua própria salvação, que está na sua grandeza. E isso, essa grandeza, é a rocha sobre a qual se fere o nosso coração. Rodeiam-nos grandes inteligências, grandes belezas, grandes amantes e criminosos. Da grande tristeza e desespero dos Werthers e dos Don Juans passámos para as grandes figuras dominantes dos Napoleões; desses passámos para os assassinos que tinham que tinham esse direito sobre as vítimas; aos homens que se sentiam privilegiados por se aproximarem dos outros com um chicote; aos rapazes das escolas e aos funcionários que rugem como leões enfurecidos; a esses proxenetas e outras criaturas dos bas-fond oradores nas cafetarias noturnas que acreditavam que poderiam ser grandes na traição e que poderiam torcer o pescoço daqueles que sentiam ser puros e bons com o laço da sua morbidez; aos sonhos de sombras lindíssimas que se abraçavam num ecrã impecável. Odiamo-nos terrivelmente e punimo-nos por causa destas coisas. O medo de ficar para trás persegue-nos e enlouquece-nos. O medo está em nós como uma nuvem. Forma um clima interior de escuridão. E há ocasionalmente uma tempestade, e ódio, e chuva que fere, a brotar de nós.
Saul Bellow, "Na Corda Bamba"

Vencer o pessimismo

Os tempos são propícios ao pessimismo. Em especial quando o discurso público está dominado pelas indignações permanentes, as redes sociais ficaram cada vez mais transformadas em ringues de boxe – mas de rua, sem regras nem cavalheirismos – e os debates deixaram de ser centrados na realidade para se debruçarem sobre as perceções, em que apenas as negativas são valorizadas e dissecadas até muito para lá da exaustão.

O pessimismo é, ainda por cima, acentuado quando olhamos para o mundo e parece que o caos está instalado um pouco por todo o lado. Os sinais são evidentes: cresce o individualismo e perderam-se noções básicas de solidariedade. O humanismo ficou reservado para algumas raras ocasiões – mais para quando “fica bem” do que para quando seria necessário e até urgente.

Muita da raiva que tem sido canalizada para os partidos extremistas e radicais nasce precisamente deste desencanto latente que se vai manifestando entre quem considera que foi ficando para trás, com dificuldades no acesso à habitação, sem perspetivas de melhoria salarial e, pior do que tudo, com a sensação de que o seu papel na sociedade é menos valorizado e, por isso mesmo, mais dispensável.


À custa de ouvirmos e lermos que “está tudo pior” e que “nada funciona”, vamos destruindo, aos poucos, o pilar essencial de qualquer sociedade: a confiança em nós próprios, enquanto comunidade. Não é por acaso que os inimigos da democracia e das liberdades são, precisamente, os que mais gostam de espalhar o caos e a desconfiança nos serviços e instituições que deveriam representar-nos e proteger-nos. Aproveitam todos os motivos para desmoralizar espíritos. E usam o pessimismo para destruir aquilo que, no fundo, sempre foi o motor do progresso: a esperança.

É nestes momentos de caos e de pessimistas encartados que se torna mais importante não perder a esperança. E acreditar que o futuro, como tantos exemplos do passado demonstraram, pertence aos otimistas, aos que acreditam no progresso, aos que não desistem de melhorar a vida e as sociedades.

Neste mundo cada vez mais habitado por líderes carrancudos e de ar zangado, em que o sorriso passou até a ser menosprezado por muitas máquinas de campanhas eleitorais, não podemos deixar-nos ceder pelo pessimismo.

Vários trabalhos científicos já identificaram uma relação direta entre o otimismo e a longevidade, por exemplo. Um estudo realizado, em 2019, com base em inquéritos feitos em 15 hospitais dos EUA, revelou que os indivíduos com níveis mais altos de otimismo tinham um risco 35% menor de sofrer de doenças cardiovasculares, bem como uma menor taxa de mortalidade. Por outro lado, outros estudos indicaram que as pessoas mais pessimistas tendem a ter hábitos de vida menos saudáveis e a importar-se menos com o seu bem-estar. Além de que o pessimismo patológico pode ser, muitas vezes, uma autoestrada para a depressão – um fator de risco também para as doenças cardiovasculares.

Da mesma maneira que as perceções erradas devem ser combatidas com factos, também o pessimismo só pode ser atenuado se, a cada motivo de desânimo, conseguirmos apresentar um dado ou uma realidade que incuta esperança. E é nesses momentos em que nos vemos rodeados de guerras, de convulsões e de incertezas, que devemos recordar-nos de que, apesar de tudo, o mundo está melhor do que tantas vezes nos parece ou é difundido pelos agentes do caos.

Mais do que nos concentrarmos nas perceções, temos de regressar ao tempo em que confiávamos, naturalmente, nos factos. E acreditar nos indicadores fornecidos pelas instituições válidas e de trabalho comprovado. Deixar de pensar que cada estudo ou estatística que contrarie a nossa perceção – própria ou induzida por outros – teve origem numa qualquer conspiração, de motivos ocultos. A realidade é bem mais transparente. E a verdade é que, por exemplo, apesar de todos os problemas nos serviços de saúde, a esperança média de vida continua a aumentar em Portugal, as vacinas reduziram a mortalidade infantil em 40% a nível mundial, nos últimos 40 anos, e que, nas décadas recentes, mais de 1,2 mil milhões de pessoas do planeta escaparam à pobreza extrema. E mesmo que ainda esteja muito por fazer no domínio das alterações climáticas, convém ter a noção de que, atualmente, por cada dólar investido em petróleo, gás e carvão, é gasto o dobro na produção de energias renováveis. O mundo precisa de mais otimismo. 

Sem vergonha!

Invadem o nosso espaço, ignoram os nossos limites, matam o bom senso. Sem constrangimento, sem pudor. Agem como se o mundo fosse palco para as suas vontades, e as suas exigências.

Gritam alto, gritam tolices, confundindo liberdade de falar com o exibicionismo.

O insulto e a mentira é a norma. A falta de respeito é a nova etiqueta. Insistem, persistem, assediam.

Causam incómodo, constrangimento. Acham-se impunes. Sem vergonha.

Até um dia. Um dia destes. Há limites a impor, e respeito a exigir. Que falta de noção. Que prepotência. Que abuso. Que cinismo.

De quem se fala aqui? De tantos e de tantas, mas de Trump certamente.

Fim dos tempos

Um dia ainda vamos lembrar dos tempos difíceis de hoje e sentir saudades deles, e vamos chamá-los, com nostalgia, “o tempo em que tínhamos tudo”. Porque já estaremos num tempo em que vai ser mais importante ter uma arma e munição à cabeceira do que comida no refrigerador. A humanidade gosta de correr riscos, ou se não gosta pelo menos dá essa impressão, a julgar pelos riscos desnecessários que corre. Um futuro tipo Mad Max 2 não é mais impossível do que um futuro sem guerras, e ainda existe tanta gente que luta por um mundo sem guerras. “Pobrema”, diria o coronel Galdino, “é que guerra engorda mais o putufu”.


Se a vida é de fato um sonho, como queria o poeta, talvez não seja o sonho de algum redator de Hollywood, e sim o pesadelo de algum professor de filosofia lituano da década de 1930. Em seu mundo paralelo, ele usou, para descrever o mundo industrial pós-moderno, a expressão “cobra que se devora a si mesma deixando apenas matéria negativa em seu lugar”. A imagem o deixou tão fascinado que ele foi o primeiro humano em mais de dois séculos a dar uma guinada na História pela mera intensidade de um pensamento. O mundo em que vivemos é o que ele vem pensando desde então, numa dimensão onde não existe morte.

O parágrafo acima é a sugestão para um começo de conto fantástico, mas seria possível torná-lo mais FC. Digamos que essa imagem mitogeométrica foi divulgada por um grupo de cientistas em experimentos quânticos, e foi ela que sugeriu, a certa altura, a formulação relativamente simples de algum abstruso entrelaçamento infratômico. A descoberta desencadeou, entre outros efeitos medianos, a criação de um videogame simulacrônico onde cada um de nós é apenas um algoritmo ensinado a pensar como cada um de nós. Nós, a Terra, nosso universo, somos um videogame para alienígenas ociosos e com uma dimensão a mais que nós. Jogam conosco com a mesma sede de rejuvenescimento que fazia os deuses do Olimpo descerem aos bailes rurais da Grécia.

O Universo é um “Show de Truman” onde Truman somos sete bilhões de inadvertidos, quebrando a cabeça com os problemas daqui, esquentando o sangue com as patifarias daqui, perdendo o sono por causa das incertezas daqui. E o tempo todo, como naqueles contos do tempo do romantismo, “era tudo um sonho”. Tudo um jogo, não menos honroso que um xadrez, não menos desfrutável do que se fosse um futebol. O mundo não é real? Que seja, mas cada hipótese do Real é um conjunto de regras. É só tê-las em mente e aplicá-las a uma pseudo-existência qualquer. O jogo é para ser jogado, a vida é para ser vivida, mesmo que a gente descubra que é de mentira.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Pensamentos do Dia


Escusa fazer o balanço do ano. O tempo é contínuo, e a divisão em meses, convencional. Por que ter esperanças no ano próximo e desacreditar o que passou? Eu é que passei não ele. 
Carlos Drummond de Andrade

Ano ímpar

Por curiosidade, perguntei à IA Gemini como será 2025. E ela disse: Tecnologia em alta. Metaverso em expansão. Sustentabilidade em foco. Economia dinâmica. Obrigado, disse eu!

Não sou de tentar adivinhar o ano de 2025. Gosto, no entanto, de anos ímpares. Porque são ímpares. Únicos. Sem igual. Mas daí a pensar que será inimitável ou excecional, vai uma distância impossível de percorrer.

O que sabemos, por antecipação e pelo calendário, é que Trump regressa à Casa Branca no dia 20 de janeiro, que no final de fevereiro haverá eleições na Alemanha e que a paz na Ucrânia e no Médio Oriente continuará difícil de concretizar. Haverá muitas tréguas, eventualmente, mas as hostilidades não se dissiparão em 2025.

2025 será o que tiver de ser, na verdade. Como todos os outros anos passados e futuros. Num segundo, ultrapassamos a barreira formal e psicológica de 24 para 25. Não dói, não espanta, não atemoriza. É uma festa, um foguete, um desejo.

Bebês de Gaza morrem de frio com queda nas temperaturas do inverno

Sila tinha menos de três semanas quando sua mãe, Nariman, percebeu que ela não estava se mexendo.

"Acordei de manhã e disse ao meu marido que o bebê não se mexia há algum tempo. Ele descobriu o rosto dela e a encontrou azul, mordendo a língua, com sangue saindo da boca", diz Nariman al-Najmeh.

Em sua tenda situada na praia no sul de Gaza, Nariman está sentada com seu marido, Mahmoud Fasih, e seus dois filhos pequenos - Rayan, de quatro anos, e Nihad, de dois anos e meio.

A família diz que foi deslocada mais de 10 vezes durante os 14 meses de guerra.

"Meu marido é pescador, somos do norte e ficamos sem nada, mas fizemos isso pelos nossos filhos", diz Nariman em uma entrevista com um cinegrafista freelancer que trabalha com a BBC. Israel impede que a mídia internacional entre e trabalhe livremente em Gaza.

"Quando eu estava grávida, eu pensava em como eu ia comprar roupas para o bebê. Eu estava realmente preocupada porque meu marido não tem trabalho."

A mãe de Sila, Nariman, estava preocupada sobre como cuidaria do bebê durante a gravidez

Mahmoud leva o corpo da filha para enterrar na areia

Durante seus 20 dias de vida, a casa de Sila era o pequeno e superlotado acampamento na "área humanitária" de al-Mawasi, para onde centenas de milhares de palestinos deslocados de outras partes do território receberam ordens do exército israelense para se mudar.

A área sofre com infraestrutura e saneamento precários, além de inundações causadas tanto pela chuva quanto pelas ondas do Mar Mediterrâneo.

"O frio é cortante e severo. A noite toda, por causa do frio, nos amontoamos, nos enrolando um ao lado do outro", diz o pai de Sila, Mahmoud.

"Nossa vida é um inferno. É um inferno por causa dos efeitos da guerra, minha família foi martirizada, e nossa situação é insuportável."

Apesar de dizer aos civis para irem para a área, o exército israelense atacou al-Mawasi repetidamente durante sua campanha contra o Hamas e outros grupos armados em Gaza.

A morte de Sila não foi por bombardeio, mas sim pelas condições punitivas que a guerra está impondo aos civis.

Ela é uma dos seis recém-nascidos que morreram de hipotermia em um período de duas semanas em Gaza — onde as temperaturas noturnas caíram para 7°C (45°F) — de acordo com as autoridades de saúde locais, que também relataram que milhares de tendas foram danificadas pelo clima.

Há pesadas restrições de Israel sobre entregas de alimentos e outras ajudas para Gaza, diz a ONU, agravando a crise humanitária da guerra. Israel nega que esteja restringindo ajuda.

Nariman diz que Sila nasceu em um hospital de campanha britânico estabelecido na área de Khan Younis.

"Depois que dei à luz... comecei a pensar em como poderia garantir o leite dela, fraldas. Tudo o que consegui, consegui com muita dificuldade."

"Eu nunca pensei que daria à luz vivendo em uma tenda, em condições tão frias e congelantes, com água pingando em nós. A água vazava para dentro da tenda, caindo sobre nós. Às vezes, tínhamos que correr para escapar da água - pelo bem do bebê", diz Nariman.

Ainda assim, Sila nasceu sem complicações.

"A saúde dela estava boa, graças a Deus. De repente, ela começou a ser afetada pelo frio", diz Nariman. "Notei que ela estava espirrando e parecia ficar doente por causa do frio, mas nunca imaginei que ela morreria por causa disso."

Sila foi internada na quarta-feira passada no hospital Nasser em Khan Younis, onde o Dr. Ahmad al-Farra, diretor do departamento pediátrico, disse que ela sofreu de "hipotermia grave, levando à cessação dos sinais vitais, parada cardíaca e, eventualmente, morte".

"[No dia anterior] também, dois casos foram trazidos: um era um bebê de três dias e o outro tinha menos de um mês. Ambos os casos envolveram hipotermia grave, resultando em morte", diz o Dr. Farra.

Bebês têm um mecanismo subdesenvolvido para manter sua própria temperatura corporal e podem desenvolver hipotermia facilmente em um ambiente frio. Bebês prematuros são especialmente vulneráveis, e o Dr. Farra diz que os médicos de Gaza observaram um aumento no número de nascimentos prematuros durante a guerra.

As mães também sofrem de desnutrição, o que as deixa incapazes de amamentar seus bebês o suficiente. Há também uma escassez de fórmula infantil devido às entregas de ajuda humanitária serem restritas, de acordo com o Dr. Farra.

Então, no domingo, outro caso trágico.

Do lado de fora do hospital de al-Aqsa, no centro de Gaza, um segundo cinegrafista local trabalhando com a BBC encontrou Yehia al-Batran, que não conseguia conter sua angústia enquanto carregava seu filho bebê morto, Jumaa. Assim como Sila, ele também tinha apenas 20 dias de vida e estava azul de frio.

"Toque nele com sua mão, ele está congelado", disse Yehia. "Nós oito, não temos quatro cobertores entre nós. O que posso fazer? Vejo meus filhos morrendo na minha frente."

"Essas mortes evitáveis ​​expõem as condições desesperadoras e deteriorantes enfrentadas por famílias e crianças em Gaza", disse o diretor regional da Unicef, Edouard Beigbeder, em um comunicado na quinta-feira.

"Com a previsão de que as temperaturas cairão ainda mais nos próximos dias, é tragicamente previsível que mais vidas de crianças sejam perdidas devido às condições desumanas que estão enfrentando."

Sob o som de drones israelenses voando à frente, o pai de Sila, Mahmoud, carregou seu corpo sem vida do hospital Nasser para um cemitério improvisado em Khan Younis. Lá, ele cavou uma pequena cova na areia.

Depois de colocar Sila para descansar, Mahmoud confortou Nariman.

"Os irmãos dela estão doentes, exaustos. Estamos todos doentes. Nossos peitos doem, e temos resfriados por causa do frio e da chuva", diz Nariman. "Se não morrermos da guerra, estamos morrendo de frio."

Deus é um refugiado de Gaza


Não, nós não adoramos o mesmo Deus,
Pois o meu anda descalço pelas ruas de Jabaliya,
Suas feridas não cicatrizadas, sangrando na terra—
Manchando sua pele oliva, marcando-o para sempre.

Meu Deus é o lamento das mães,
Enlutadas em al-Mawasi,
Ainda rezando pela salvação,
Beijando os rostos cinzentos de seus filhos mortos.

Meu Deus são duas crianças,
Transportando os restos mortais de seus pais em uma carroça puxada por burros,
Procurando freneticamente por terra vazia,
Para enterrar seus amados antes que os soldados retornem.

Meu Deus é coragem, paciência, justiça —
A força de um povo
Cujo espírito não pode ser confinado
A uma manchete ou à teoria de um acadêmico.

Meu Deus é a teimosa garota refugiada,
Que se recusa a abandonar sua busca por um lar,
Inflexível, apesar da tempestade,
Seu coração ainda anseia pelo lugar que ela chama de seu.

E acima de tudo,
Meu Deus é liberdade —
Um fogo que nenhum poder pode apagar,
Uma chama que corta a opressão,
Uma luz que guia o caminho.

Meu Deus é um refugiado de Gaza,
Lutando para nos libertar
de todos os falsos ídolos
Que nos mantêm acorrentados em um silêncio ensurdecedor.
Ramzy Baroud

Desacato à lei na casa das leis

Na Constituição discutida, votada e aprovada pela Assembleia Constituinte eleita em 1986 e concluída em 1988, há um dispositivo claro no artigo 37 que demanda transparência aos atos da administração pública.

A esse preceito, pouco observado com seriedade, se refere o ministro Flávio Dino ao exigir, com apoio dos pares do Supremo Tribunal Federal, o cumprimento das regras de manejo das emendas parlamentares.

A olhares mais frouxos tal exigência pode parecer implicância do Judiciário ou mesmo soar como um quê de retaliação devido a certas iniciativas do Legislativo, mas não é. Trata-se da simples disciplina legal.


O Congresso tenta descumprir a lei, enquanto o Supremo atua para fazer valer o escrito na Carta. A este embate se dá o inadequado nome de crise institucional, quando o que se tem é um conflito movido por interesses da freguesia.

O Parlamento bate continência ao faz de conta ao alegar que cumpriu todas as determinações em consonância com regras do Executivo. Além de não ter cumprido de maneira reiterada, o estabelecimento das normas não cabe ao Planalto e sim ao STF, no resguardo ao que diz aquele artigo 37.

Cristalina, pois, a situação. Não vê quem não quer ou, por outra, quem pretende interpretar a realidade de acordo com as próprias conveniências. É o caso dos congressistas resistentes à clareza do argumento constitucional.

O ano termina com a questão em aberto e assim ficará até a volta do recesso, em fevereiro, quando Flávio Dino avisou que vai se dispor, mais uma vez, a ouvir o Congresso já sob nova direção.

Com isso, o ministro está sendo benevolente. A rigor não cabe discussão quanto à letra da lei, matéria-prima do estado de Direito, que os legisladores deveriam ser os primeiros a respeitar, mas não o fazem numa clara afronta à natureza de suas funções.

O Executivo, por sua vez, sem força para dar um basta nos abusos, confere um perigoso aval aos dribles, arriscando-se a ser sócio do escândalo em gestação pelas descobertas que a Polícia Federal vem fazendo no uso das emendas.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Sobre a depressão dos brucutus

Aplicada à vida política, a cosmética mental permite esdrúxulas aproximações entre realidades tão diferentes como a síria e a brasileira. É que as aparências, a terapia de águas mornas tem efeitos de pensar feridas e molificar tensões. Mesmo ante o risco de cair a maquiagem de moderação da liderança jihadista, os sírios acorrem às ruas de Damasco para festejar o fim da ditadura de 54 anos da família de Bashar al-Assad um país destruído por 13 anos de guerra civil. Estranho que pareça, a alegria se sobrepõe à incerteza quanto ao cenário futuro.

O poder instalado pela coalizão rebelde HTS é liderado por um indivíduo que ostenta dois nomes: Abu Mohammad al-Joulani e Ahmed Hussein al-Chara. Com o primeiro, nome de guerra, ele fez carreira sangrenta no Estado Islâmico, depois na al-Qaeda até fundar a sua frente, al-Nosra. Com o segundo, nome civil para fins de relações públicas, diz não ter sangue nos olhos. Mas, nomeou um primeiro-ministro provisório, al-Bashir, membro da Irmandade Muçulmana, cujo programa político reza "Allah é nosso objetivo, o Profeta nosso chefe, o Corão nossa lei, a Jihad nosso caminho, a morte no caminho de Allah a nossa mais cara esperança".

Minha Nossa. Por que então estariam sorrindo os sírios que se querem filhos de um Deus menos surtado? A resposta está nos primeiros momentos da queda de um regime que exterminou milhares de pessoas e exilou milhões. As descrições das atrocidades na prisão de Saydnaya remontam aos piores pesadelos da humanidade. Numa avaliação realista sobre a nova liderança, a suspensão do terror pode estar por um fio de cabelo: a olhos islâmicos, pelos públicos de mulheres são tão licenciosos quanto os púbicos. Mas há uma pausa no medo. Alegria é o modo de fazer durar o momento.

Guardadas as proporções, esse sentimento deve presidir entre nós ao que pesquisas deixam transparecer quanto aos desmandos extremistas. Nada menos de 69% das pessoas apoiam a democracia, 62% são contrárias à anistia aos criminosos do 8 de janeiro. Nenhuma alteração perceptível nas posições polarizadas, mas é provável uma trégua no estresse coletivo. As bestas recolhem-se às tocas.

A socialidade nas redes sociais é bipolar, ora maníaca, ora depressiva. O golpe urdido a fogo lento por uma camarilha teve a cumplicidade da exaltação maníaca nas redes. Em contrapartida, depressão "é um cansaço de poder e de fazer" (Byung-Chul Han em "Sociedade do Cansaço"). Ocorre quando o terrorismo termina engolindo os seus próprios ativos pela irracionalidade das ações.

Nada indica que a estrutura social por trás do golpismo centenário tenha sido abalada. Bolsonaro foi um catalisador, descartável a médio prazo, embora a grife "bolsonarismo" continue precificada no mercado eleitoral. Mas a desmontagem de uma rede extremista de generais capitaneada por um proscrito do Exército vai além da esfera penal, é um evento de magnitude social. Sugere um descanso na loucura. É automática, claro, uma cosmética teatral de moderação. Ainda assim, seja entre nós ou os sírios, por conta da violência que rasteja na penumbra, a depressão dos brucutus é salutar para a cidadania.

As máquinas mortais

Não são robôs musculosos, schwarzeneggerianos, armados de espingardas-doze. São, é claro, as maquininhas aparentemente benignas que usamos: notebooks, celulares, iPads, desktops, mainframes... Para o documentarista James Barrat, em seu livro Our Final Invention: Artificial Intelligence and the End of the Human Era, está se aproximando aquele momento que alguns escritores de FC chamam A Singularidade, quando as inteligências artificiais criadas pelo homem superarão a inteligência da nossa espécie. Pode ser um upgrade cósmico de integração a uma inteligência universal; mas pode ser o momento em que as máquinas simplesmente tomarão a decisão de nos descartar.

Robert Crumb

Um artigo de Greg Scoblete (http://bit.ly/1jtH1Yc) avalia com elas nos eliminarão: “Pensem no mundo de hoje. Vírus de computador viajam pelo ar. Nossas casas, carros, aviões, hospitais, refrigeradores, fornos, estão conectados a uma “Internet de objetos” que não cessa de se ampliar valendo-se da banda larga sem fio. Estamos cada vez mais integrando elementos eletrônicos aos nossos corpos. Vamos extrapolar essas tendências para 2040: a Super-Inteligência Artificial surgirá num mundo cada vez mais dependente do virtual, e vulnerável a ele.”

À inevitável pergunta: ”Mas por que essa Super-Inteligência iria querer nos eliminar?” Scoblete responde: “Computadores, como os humanos, precisam de energia. Numa competição por recursos energéticos as máquinas se preocupariam tão pouco em nos conceder acesso a eles quanto nós nos preocupamos com a próxima refeição de uma formiga.”

A preocupação procede, e o livro de James Barrar sugere um cenário interessante para a literatura. Para ele, no momento em que essa Super-Inteligência Artificial for criada, não teremos como controlá-la porque ela terá a tendência a se retroalimentar e aumentar exponencialmente sua própria potência e seu alcance. “O tempo necessário para que ela nos deixe tão minúsculos quanto as formigas pode ser uma questão de dias, se não de simples horas, depois de ser criada. Pior: os cientistas humanos podem nem perceber que criaram essa Super-Inteligência, até ser tarde demais para contê-la”.

E agora digo eu: já a criamos. Ela já existe. Ela já se exprime, numa linguagem digital balbuciante, mas onipresente. Ela produz, com o auxílio inconsciente de funcionários humanos, os programas de TV de hoje, os noticiários de hoje, os filmes de hoje, as crises financeiras de hoje. Para ela, os próximos 50 anos serão os 5 segundos de que precisou para provocar o suicídio coletivo dos ácaros que a criaram e que agora se tornaram desnecessários e incômodos. (Ela permitirá a publicação desta inútil denúncia.)

Braulio Tavares

Presos no espaço

Em “Orbital”, obra que deu à escritora inglesa Samantha Harvey o prestigioso Booker Prize em 2024, seis astronautas ancorados na Estação Espacial Internacional orbitam a Terra e contemplam a vida cá embaixo. A missão do grupo (quatro mulheres e dois homens) é essencialmente científica — testar os limites do corpo humano, coletar dados meteorológicos, realizar experimentos. Contudo, durante esse orbitar que lhes permite observar, no espaço de um único dia, a dança dos continentes, o ciclo das quatro estações, a potência das geleiras, desertos, montanhas e oceanos, também a vida terrena os alcança, com suas pequenas grandes tragédias. Recebem a notícia da morte da mãe de um deles, acompanham a formação de um tufão que vai devastar uma ilha e pessoas queridas, sentem a concretude da fragilidade humana.

Apesar de tão distantes, passam a se sentir responsáveis, protetores em relação ao planetinha azul. E começam a pensar no que seria a vida sem a Terra, e a Terra sem a humanidade.

— Ver a Terra do espaço é como uma criança que olha para um espelho e percebe, pela primeira vez, que a pessoa no espelho é ela. O que fazemos a nosso planeta fazemos a nós mesmos — explica a autora do livrinho enxuto (160 páginas), cuja edição no Brasil deverá sair em 2025 pela editora DBA.

Os astronautas Sunita “Suni” Williams e Barry Eugene “Butch” Wilmore não são mais crianças. Ela, descendente de mãe eslovena e pai hindu, tem 59 anos. Casada e sem filhos, mas com um processo de adoção em curso, é veterana de missões espaciais. Ele, piloto de testes da Marinha, casado, duas filhas, três missões espaciais no currículo. Já tiveram, portanto, múltiplas ocasiões para se reconhecer no espelho da Terra. Mesmo assim, talvez nunca tenham pensado na condição humana de forma tão absoluta como hoje, por estarem encalhados numa estação orbital de 108 metros de comprimento, a 480 quilômetros da Terra.

Na manhã primaveril de 5 de junho, a dupla decolou rumo à Estação Espacial Internacional em viagem inaugural da cápsula Starliner, fabricada pela Boeing, o combalido gigante da indústria aeroespacial americana. Como se sabe, cinco dos 28 propulsores da cápsula deram defeito e foi preciso abortar o retorno tripulado. O que deveria ter sido um vapt-vupt de oito dias para testar o novo veículo se transformou em desterro infindo e incerto. Inicialmente, a Agência Nacional Aeroespacial dos Estados Unidos (Nasa) adiou o retorno de Suni e Butch por cinco semanas, depois aumentou para oito. Lá se foram as férias de verão, um ou outro aniversário de alguém querido. Mais recentemente, em setembro último, os dois foram informados de que passariam Natal e Ano-Novo suspensos no ar, com previsão de retorno em fevereiro de 2025. Na semana passada, nova atualização: talvez revejam amigos e familiares somente em abril, quando terão completado dez meses em órbita.

Para a Boeing, cuja divisão de aviação civil há anos tenta se recuperar dos problemas em sua frota de jatos comerciais 737 Max, o golpe espacial é duro. A multinacional fora selecionada pela Nasa em 2014, com a SpaceX de Elon Musk, para desenvolver cápsulas capazes de absorver o ir e vir de astronautas da Terra à Estação Espacial Internacional. Para isso, embolsou US$ 4,2 bilhões do governo americano, mas já gastou mais de um terço para corrigir falhas técnicas, de software, de material inflamável, válvulas defeituosas e sistema de paraquedas falho. Enquanto isso, Musk nada de braçada. Será considerado o salvador da pátria quando sua espaçonave Crew Dragon, da SpaceX, decolar de Cabo Canaveral e resgatar Suni e Butch.

Uma longa permanência em órbita acarreta alterações físicas conhecidas. Sem o efeito da gravidade, o rosto tende a inchar, uma vez que o sangue e os fluidos corporais ficam estocados na parte superior do corpo. A massa muscular também pode diminuir em até 30% em casos de estadia longa, e a massa óssea sofre desmineralização com perda de força. A visão, a pele e até mesmo o desempenho cognitivo costumam exigir cuidados especiais no retorno dos desbravadores espaciais.

Muitos precisam reaprender a andar com naturalidade. Por isso, recomenda-se aqui a Suni e Butch a leitura de “Caminhar, uma filosofia”, do pensador francês Frédéric Gros. Trata-se de uma coletânea de ensaios, sensível e erudita, sobre as muitas maneiras de irmos de A até B — seja em peregrinação, a passeio, em marcha de protesto, em fuga, para pensar, criar, aprender, Gros descreve assim nosso andar pela vida:

— Ao caminhar, você escapa da própria ideia de identidade, da tentação de ser alguém, de ter um nome e uma história... A liberdade no caminhar reside em não ser ninguém; pois o corpo que caminha não tem história, é apenas um redemoinho no fluxo da vida imemorial.
Dorrit Harazim

sábado, 28 de dezembro de 2024

Presente natalino de Israel

 


O que restou do complexo hospitalar Kamal Adwan em Beit Lahia,

Ainda restará Primavera?

Mas a Primavera chegará e eles, aqueles que nos bombardeiam, não encontrarão flores entre as bombas. Estaremos entre as árvores, a luz do sol nos banhará junto aos ninhos dos pardais. Eles, aqueles que nos bombardeiam, não terão sol, nem lugar para descansar, nem pernas para correr
Mosab Abu Toha, poeta de Gaza, premiado nos Estados Unidos

Então é Natal…

Assim diz o verso de John Lennon e Yoko Ono, escrito há mais de meio século (1971). Pedia o fim da guerra do Vietnam, e desejava um ano novo “sem medos”. Dizia, ainda, a “guerras acabam, se você assim quiser”. Inútil o poema? Certamente que não, embora a ganância, os pré-conceitos e o ódio estejam, ainda, vencendo a generosidade, o conhecimento, a serenidade e o equilíbrio.

A nós, economistas, é ensinado nos livros textos que as forças do mercado levam sempre a um equilíbrio. O pior é que muitos economistas, assim como não economistas, passaram a acreditar nisso, apesar de todas as evidências em contrário!

Neste planeta cada vez mais desfigurado e conflagrado, onde está o equilíbrio? Estamos presenciando a aceleração dos desastres provocados pela intervenção humana na biosfera: gases de efeito estufa, resíduos sólidos, líquidos, plásticos, venenosos, …. Continuar a degradar leva-nos, não a um equilíbrio, mas ao seu contrário, ao rompimento do relativo equilíbrio climática dos últimos 10 a 12 mil anos, com consequências dantescas. Alguém ousaria dizer que esse processo não é parte da economia?

Com a multiplicação de guerras em nossa terra – em Gaza (Israel x Palestinos), na Europa (Rússia x Ocidente), na África (Yemen, Congo, Sudão), nas Américas (Estados x pretos pobres, indígenas e outros) e em tantos outros locais, onde está o equilíbrio? Mas, dirão alguns, isso não é economia, é sociedade! E então, pode a sociedade ser diferente, ou independente da economia? Claro que não!

Mais de meio século após o lançamento da música que dá título a este texto, o sonho persiste. Infelizmente apenas como sonho, ou como um sonho que (ainda) não se tornou realidade. São muitos os pensadores que constataram a importância do sonho como impulsionador do futuro, como farol a iluminar o caminho a se trilhar e o objetivo a alcançar.

O suposto realista, que acredita nas forças de mercado levando ao equilíbrio, descarta e até ridiculariza os sonhos, constatando a realidade da violência e acreditando na inevitabilidade da sua permanência. O mesmo suposto realista acredita, também, em sonhos criados por gananciosos inventores de miragens. Por exemplo, “no futuro, todos teremos carros voadores”; “no futuro, o “desenvolvimento” dará a todos excelentes condições de vida”; “tome hormônios e, no futuro, serás como os famosos”! Inventores de futuros irrealizáveis que buscam apenas se beneficiar, enganando e prejudicando a população, como ensinou e fez Edward Bernays, sobrinho do Freud. Vejam seu livro, intitulado Propaganda.

E, de desequilíbrio em desequilíbrio, vamos todos a mais um ano novo cheio de medos, o contrário do que propunham Lennon e Yoko. Contrariando os sonhadores supostos realistas, vamos agir para construir, sim, a utopia de um mundo de paz e melhorias continuadas da qualidade de vida dos 80% de humanos que hoje “não vivem, apenas aguentam”.
Eduardo Fernandez Silva

O ano zero do novo extremismo

Em dezembro de 2023, num exercício de balanço semelhante ao desta edição, escrevemos na capa da VISÃO que o mundo tinha acabado de passar pelo “ano de todas as fraturas”. Havia razões evidentes para esse título, por causa dos acontecimentos que marcaram o final desse ano: o eclodir, mais violento do que nunca, do conflito no Médio Oriente e a demissão abrupta do governo de maioria absoluta em Portugal, que representou também o último ato dos “dias felizes” entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Tudo isto, num clima em que a crispação ganhava terreno na generalidade dos discursos políticos, aumentava a polarização em todas as latitudes, a guerra na Ucrânia começava a cavar divisões profundas na Europa e, um pouco por todo o lado, cresciam os sinais de revolta, num planeta a recuperar do trauma da pandemia da Covid-19.

Agora, um ano depois, é fácil constatar que os sinais de divisão ganharam ainda mais expressão ao longo dos últimos doze meses. E traduziram-se em muitas mudanças, cujas consequências vão, com toda a certeza, perdurar nos próximos tempos.


Este foi o ano em que cerca de dois mil milhões de pessoas foram chamadas a votar, nas múltiplas eleições que se realizaram em mais de sete dezenas de países, e em que, por isso mesmo, ficaram evidentes algumas tendências: a penalização dos que ocupavam o poder, a emergência de forças radicais, o esvaziamento acentuado do centro político e o crescimento do radicalismo.

Em sucessivas eleições, nas mais diversas geografias, os eleitores usaram o voto para exprimir a sua revolta. E fizeram-no sem demonstrarem a mínima preocupação com conceitos anteriormente valorizados como a estabilidade política ou a formação de maiorias políticas sólidas. O objetivo, em muitos casos, foi unicamente o de procurar castigar quem estava no governo – mesmo quando, como sucedia em diversos casos, os indicadores económicos eram positivos, embora essas “boas contas” nem sempre fossem percetíveis pela opinião pública.

De certa maneira, este foi o ano que encerrou um ciclo iniciado em 2016, com a eleição surpreendente de Donald Trump e o Brexit no Reino Unido: o princípio do fim de uma certa era de globalização e de uma ordem internacional estável, dominada pelos Estados Unidos da América. Esse caminho tinha sido interrompido com a pandemia – que deixou a nu a teia de dependências dos países em relação às cadeias globais de produção – mas foi depois retomado, ainda com maior vigor e ânimo, logo que desapareceram as máscaras anti-Covid, por todos os que se sentiam atingidos pela crescente desigualdade e a falta de oportunidades.

Este 2024 que agora termina pode ter sido o ano zero de uma nova era de extremismo, que ninguém consegue prever quanto tempo poderá durar. Sabemos, no entanto, que as mudanças que se espera que ocorram no próximo ano poderão ser muito mais radicais do que tudo o que vimos até agora. Até porque, desta vez, já ninguém é apanhado de surpresa. E, como acontece sempre no início de um novo ciclo, há sempre quem decide rapidamente mudar de convicções e tentar aproveitar a nova onda, para seu benefício ou como estratégia de sobrevivência. Sabemos que Donald Trump promete virar os EUA de pernas para o ar e que as ondas de choque da sua “revolução” vão fazer-se sentir por todo o planeta. A política de Washington vai transformar-se radicalmente, de uma forma nunca vista em muitas décadas, nomeadamente na sua relação com o resto do mundo. E os apelos ao isolacionismo vão repetir-se, por contágio, em diversos países.

A Europa vai viver, seguramente, um dos seus momentos mais difíceis, com a Alemanha e a França em dificuldades económicas e próximas do caos político. Com o eixo da União Europeia a deslocar-se cada vez mais Leste e com a força crescente dos partidos extremistas antidemocráticos, não será fácil manter a coesão do bloco, em especial nos assuntos relacionados com os direitos, liberdades e garantias.

Neste ano zero desta nova era de extremismo, que é também de polarização extrema, já se percebeu como o discurso dos partidos de centro-direita foi capturado pela retórica radical. Em especial nos temas relacionados com a segurança e a imigração. Pelos últimos sinais, nomeadamente a inenarrável operação policial na zona do Martim Moniz, em Lisboa, o que podemos esperar, no próximo ano, é que a distinção entre os dois discursos será ainda menor.

Palavras em agonia

No avião, ouço a voz da comissária: "Senhores passageiros, estamos próximos à decolagem." Oba! Finalmente vou descobrir onde fica a decolagem. Deve ser um lugar, porque, segundo a moça, estamos próximos dela. Já reparei que, ao levantar voo no Santos Dumont para São Paulo, o avião rola de mansinho pela pista, acelera e, quando passa pela Escola Naval, decola. Se a decolagem é um lugar, significa que esse lugar é ali, diante da antiga ilha onde, em 1555, Villegagnon tentou construir a França Antártica. Isso justificaria a frase "Estamos próximos à decolagem".

Mas, e se a decolagem não for um lugar, e sim uma ação? Mais correto, então, seria dizer "Dentro de instantes iremos decolar". Ou "Estamos perto de decolar". Isso obrigaria, no entanto, ao uso de uma palavra que está se despedindo da língua, como se seu significado tivesse se exaurido. A palavra é "perto". As pessoas agora dizem "Estou próximo de sair", não "perto de sair", "Estou próximo de conseguir emprego", não "perto de conseguir emprego".

"Perto" não é a única palavra em agonia entre nós. Há muitas mais, substituídas por outras que se instalaram e ganharam a preferência nacional. Exemplos. Ninguém mais coloca algo em lugar nenhum —"posiciona". Ninguém termina mais nada —"finaliza". Ninguém mais tem resistência física ou emocional —é "resiliente". Ninguém mais completa ou enriquece um texto —"atualiza".

Ninguém mais vive isso ou aquilo —"vivencia". Ninguém mais acrescenta algo ou alguém — "adiciona". Ninguém mais entrega ou manda alguma coisa — "encaminha". Se for uma entrega com endereço, "direciona". E não há mais possibilidade de você ter respeito ou consideração por alguém, só "empatia". A "empatia" abunda. "Empatia" se tornou sinônimo até de simpatia, embora sejam muito diferentes, tanto que o antônimo de empático não é antipático, mas indiferente.

Sei bem que falar das palavras que estão sendo expulsas da língua é coisa desagradável, polêmica, difícil de enfocar. A não ser que, contumaz no uso do eu foco, tu focas, ele foca, nós focamos, vós focais e eles focam, você "foque" nelas.

O experimento social de Elon Musk com a humanidade

O bilionário Elon Musk tem exaltado o Twitter como um bastião da liberdade de expressão desde que adquiriu a plataforma de rede social há dois anos. Mas, ao longo de 2024, o X, como agora é chamado, evoluiu do que parecia ser uma praça pública comunitária para um centro polarizado em que as opiniões e publicações parecem ainda mais controversas.

Certos perfis que compartilhavam informações enganosas sobre política e notícias — alguns dos quais foram acusados de incitar ódio — ganharam destaque recentemente.

Tudo isso é importante porque o X pode não ter tantos usuários quanto outras plataformas de rede social, mas parece ter um impacto significativo nas discussões políticas.

Além de ser um site em que alguns políticos importantes, governos e forças policiais compartilham declarações e pontos de vista, agora seu proprietário, Elon Musk, se alinhou diretamente com Donald Trump, um relacionamento que pode redefinir a forma como os donos de outras redes sociais lidam com o próximo presidente dos EUA.

Mas, afinal, o que está por trás desta nova onda de mudanças? Houve uma alteração no perfil demográfico das pessoas que usam o X no último ano — ou isso pode ser resultado de decisões deliberadas tomadas pelos que estão no comando da plataforma?


Há dois meses, o Inevitable West não existia no X. Agora, o perfil, que se autodenomina "defensor dos valores e da cultura ocidentais", conta com 131.600 seguidores (número que está crescendo rapidamente). Ele está obtendo cerca de 30 milhões de visualizações por dia entre todas as suas postagens, de acordo com seu criador. Musk até respondeu às postagens do Inevitable West no X.

Suas publicações recentes, que geralmente apresentam legendas no estilo de alertas de notícias, incluem um vídeo falso que mostra Trump dizendo ao primeiro-ministro britânico que vai "invadir seu país, e tornar a Grã-Bretanha grande novamente".

Também foram publicadas várias postagens em apoio ao ativista de direita radical Tommy Robinson, assim como algumas alegações desmentidas sobre os protestos dos agricultores no Reino Unido e um ataque a faca em Southport, no qual três crianças foram mortas durante uma oficina de dança inspirada nas músicas de Taylor Swift.

O Inevitable West nega as acusações de promover desinformação e incitar abuso ou violência. "O objetivo da minha conta no X é ser a voz da maioria silenciosa do mundo ocidental", me contou seu criador. Ele se recusou a compartilhar sua identidade comigo quando nos correspondemos, mas afirma ser da "geração Z" e diz que "não é russo".

"Informações e opiniões sem censura vão levar inevitavelmente os EUA e todo o Ocidente e a Europa a se moverem mais para a direita, o que é comprovado pela eleição de Donald Trump e pela ascensão da direita radical na Europa", ele argumentou. "Globalmente, isso significaria que políticos e líderes corruptos seriam descobertos."

Ele parece ver a ascensão da sua conta como a "morte" daquilo que chamariam de "MSM" (abreviação em inglês para mainstream media), a mídia tradicional. Isso talvez não seja nenhuma surpresa, já que, após as eleições nos EUA, o próprio Musk disse aos usuários do X: "Vocês são a mídia agora".

Quando Musk adquiriu o Twitter, enfatizou a necessidade de abrigar todas as opiniões políticas e de se opor à censura por parte das empresas de rede social e dos governos.

As mudanças — incluindo demissões em massa e alterações nas políticas de moderação em relação a questões como desinformação política — começaram imediatamente.

Também houve várias alterações na natureza dos feeds, incluindo a criação de duas timelines separadas: "Seguindo", que apresenta as contas que você segue, e "Para você", que é selecionada por algoritmos, como no TikTok.

No entanto, ao longo de 2024, houve outra onda de mudanças que parecem ter transformado ainda mais a plataforma. A função de bloqueio foi alterada, o que significa que, se você bloquear uma conta, não estará protegido de que aquele perfil veja o que você posta. As curtidas, por sua vez, se tornaram privadas.

O site ainda apresenta o recurso de notas da comunidade, uma forma colaborativa de verificar ou refutar o que as postagens dizem, e os usuários podem pagar pelo tique azul, que antes era fornecido gratuitamente como um sinal de autenticação de que a pessoa era quem dizia ser.

Agora, porém, é necessário pagar pela assinatura do X Premium para receber uma marca de verificação. Há três níveis diferentes de assinatura disponíveis.

Os perfis Premium têm direito a mais privilégios e destaque — e podem ganhar dinheiro com o engajamento que recebem de outros perfis com marca de verificação. A partir de outubro, o X alterou suas regras de modo que, em vez de basear a receita de contas individuais em anúncios, ele agora leva em conta curtidas, compartilhamentos e comentários de outras contas Premium.

É claro que outros sites de rede social permitem que os usuários ganhem dinheiro com publicações e compartilhem conteúdo patrocinado — o que não é incomum —, mas a maioria das principais plataformas tem regras que permitem a elas desmonetizar ou suspender perfis que publicam desinformação.

O X não possui regras para desmonetizar contas por conta de postagens deste tipo, embora permita que os usuários adicionem notas da comunidade a tuítes enganosos ou falsos. E não permite "mídia enganosa", como vídeos manipulados ou gerados de forma sintética que "podem resultar em confusão generalizada sobre questões públicas, afetar a segurança pública ou causar danos graves".

De acordo com o Inevitable West, o X agora pode se tornar um emprego. Ele me disse que, quando estava postando cerca de sete vezes por dia, era capaz de ganhar pelo menos "US$ 2,5 mil por mês".

Ele contou que conhece outra conta que ganha "US$ 25 mil" por mês — esta conta supostamente tem 500 mil seguidores e publica "aproximadamente 30" vezes por dia.

Às vezes, a mudança pode ocorrer quando um site altera os algoritmos (ou sistemas de recomendação) de alguma forma, por exemplo, para impulsionar e beneficiar determinadas postagens. O que não está claro é se este pode ou não ser o caso aqui.

Sem dúvida, observei uma diferença na variedade de postagens recomendadas no feed "Para você", em comparação com o ano anterior.

Isso é algo que analisei por meio do projeto "Undercover Voter", no qual criei e administrei contas de rede social pertencentes a mais de 20 personagens fictícios, baseados nos EUA e no Reino Unido, que refletem pontos de vista de todo o espectro político.

Estes personagens têm perfis nos principais sites, incluindo o X, o que me permitiu analisar as diferentes contas que eram recomendadas nas redes sociais. As contas são privadas e não enviam mensagens para pessoas reais nem têm amigos.

Independentemente das diferentes visões políticas que as contas manifestam, observei que, nos últimos seis meses deste ano, seus feeds passaram a ser dominados por postagens que geram divisão e tendem a apresentar mais apoio a Trump ou oposição a políticos e pessoas no mundo todo que não são vistos como alinhados com o presidente eleito dos EUA.

No entanto, tudo isso parece ser consequência do ambiente e das diversas alterações no site como um todo, e não apenas um simples ajuste no algoritmo.

Andrew Kaung, que foi analista de segurança do usuário no TikTok e também trabalhou na Meta, passou anos observando como esses sistemas de recomendação podem ser atualizados e alterados. "O que vimos no X não se trata apenas da mudança no algoritmo, mas também da falta de mecanismos de segurança em nome da liberdade de expressão", diz ele.

Nina Jankowicz foi diretora executiva do Conselho de Governança da Desinformação dos EUA, criado em 2022 para aconselhar o Departamento de Segurança Interna em questões como a desinformação russa e, mais tarde, dissolvido diante das críticas e temores em relação à liberdade de expressão e transparência.

Ela argumenta que os algoritmos do X agora "privilegiam a retórica controversa e enganosa", e sugere que os usuários que publicam conteúdo menos polêmico tiveram uma redução nas visualizações.

"A consequência é que a plataforma que se apresenta como uma praça pública é um ambiente extraordinariamente artificial, um verdadeiro black mirror das partes mais preocupantes da natureza humana."

Enviei mensagens para dezenas de outras contas grandes, que falaram sobre a influência cada vez maior que são capazes de ter na plataforma, muitas vezes de forma inesperada.

"Nunca tive a intenção de me tornar um influenciador", admite um perfil chamado Andi, que diz ser baseado em Nova York. "Mas achei que, como tenho esta plataforma, deveria tentar usá-la para promover minhas próprias causas."

Ele conta como compartilhou um meme de esquilo — após saber que um esquilo foi sacrificado por causa do risco de transmitir raiva — que agora tem 45 milhões de visualizações. E compara seu alcance com o do popular podcaster Joe Rogan, que tem 14,5 milhões de seguidores no X.

"Mas eu não sou nenhum Joe Rogan, então é realmente especial que algo que eu poste possa ter quase a mesma audiência."

Andi e outras contas do X com quem me correspondi acreditam que as mudanças no X são boas, uma vez que agora elas têm um alcance que jamais poderiam ter imaginado.

No início deste mês, um ataque a uma feira de Natal na Alemanha, que matou cinco pessoas e feriu mais de 200, foi amplamente debatido no X. Grande parte da discussão girava em torno do suspeito, um residente alemão que nasceu na Arábia Saudita.

Os promotores alemães disseram que a investigação está em andamento, mas sugeriram que um possível motivo para o ataque "pode ter sido a insatisfação com a forma como os refugiados da Arábia Saudita são tratados na Alemanha".

O perfil Inevitable West estava entre os que comentaram: "Invadam as mesquitas. Proíbam o Alcorão. Realizem deportações em massa. Nossa paciência oficialmente acabou".

A conta foi acusada de incitar o ódio com postagens sobre questões como imigração e religião. Outros usuários disseram que isso poderia incitar a violência. Mas o perfil respondeu dizendo que estava "incitando a segurança, na verdade".

Quando questionado sobre isso, o Inevitable West me disse que diria o mesmo sobre outras religiões. Separadamente, também afirmou que nunca excluiria suas próprias publicações, mesmo quando elas se revelassem falsas.

Enquanto isso, seu conteúdo está sendo visto por feeds em todo o mundo.

Há muito tempo, o Twitter tem sido acusado de viés nos métodos de moderação, tanto antes quanto depois que Musk adquiriu a empresa, além de alvo de questionamentos sobre se a plataforma limitava anteriormente a liberdade de expressão.

Conversei com pessoas de dentro do Twitter sobre isso para uma investigação do programa Panorama, da BBC, que foi ao ar em 2023, e eles me disseram que, na opinião deles, a empresa teria dificuldades para proteger os usuários contra trollagem, desinformação coordenada pelo Estado e exploração sexual infantil, devido, entre outras coisas, às demissões em massa.

Na ocasião, o X não respondeu às questões levantadas. Posteriormente, Musk tuitou um artigo da BBC sobre o episódio do Panorama com a legenda: "Desculpem-me por ter transformado o Twitter de um paraíso acolhedor em um lugar que tem... trolls". Ele também declarou que "os trolls são divertidos".

Separadamente, Musk havia dito que "não tinha escolha" a não ser reduzir a força de trabalho da empresa devido a perdas financeiras.

Lisa Jennings Young, ex-chefe de design de conteúdo do X, que trabalhou lá até 2022, afirma: "Sinto que estamos vivendo um grande experimento social [sobre a humanidade]".

Não tem um objetivo específico, segundo ela. "Não é um experimento de ciências sociais controlado, [mas um] do qual todos nós fazemos parte". Ninguém sabe realmente qual pode ser o resultado final, ela argumenta.

Alguns usuários do X me disseram que recentemente decidiram migrar para outras plataformas de rede social, incluindo o Bluesky, que começou em 2019 como um site experimental de mídia social "descentralizado", criado pelo ex-chefe do Twitter, Jack Dorsey. Atualmente, tem mais de 20 milhões de usuários.

É difícil determinar exatamente quantos usuários reais optaram por deixar o X — ou até mesmo se cresceu.

Elon Musk e o X não responderam às questões levantadas nesta reportagem, nem aos pedidos de entrevista.

O X diz que sua prioridade é proteger e defender a voz do usuário e tem diretrizes sobre ódio, que afirmam que os usuários "não podem atacar outras pessoas com abuso ou assédio ou incentivar outras pessoas a fazer isso".

Um porta-voz do X disse anteriormente à BBC: "O X possui uma série de políticas e recursos para proteger o debate em torno das eleições. Rotularemos o conteúdo que violar nossa política de mídia manipulada e gerada de forma sintética e removeremos contas envolvidas na manipulação da plataforma ou em outras violações graves de nossas regras".

O site também informou à Comissão Europeia em novembro: "[O X] se esforça para ser a praça pública da internet, promovendo e protegendo a liberdade de expressão".

Desde a eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos, o X consolidou sua posição como fonte de atualizações políticas sobre o novo governo Trump.

Musk apoiou Trump como candidato em julho. Agora, ele foi convidado a ocupar um cargo no governo, liderando uma nova equipe de consultoria chamada Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês).

Sam Freeman, ex-funcionário do Meta que agora trabalha como especialista em confiança e segurança para uma empresa chamada Cinder, acredita que isso também vai ter um efeito mais amplo sobre outros donos de plataformas de rede social.

Ele prevê que eles vão "precisar ter um relacionamento mais pessoal com o novo governo", principalmente se sentirem uma pressão maior sobre a regulamentação e a segurança online.

Mark Zuckerberg, que fundou o Facebook (agora Meta) e desde então adquiriu o Instagram, jantou recentemente com Trump em sua residência em Mar-a-Lago.

O presidente eleito já havia atacado Zuckerberg em ocasiões anteriores, acusando sua plataforma, assim como outras, de parcialidade. "O Facebook, o Google e o Twitter, sem mencionar a mídia corrupta, estão muitíssimo do lado dos democratas de esquerda radical", escreveu Trump certa vez.

Será que o jantar poderia indicar um apaziguamento na relação deles? Certamente, sugere que Zuckerberg considera que se aproximar pelo menos um pouco de Trump pode ser do seu interesse.

O mesmo parece acontecer com o CEO do TikTok, Shou Zi Chew, que também teria se encontrado com Trump em Mar-a-Lago, enquanto a empresa de rede social luta contra os planos das autoridades dos EUA de proibir o aplicativo.

O governo americano alega que a empresa controladora do TikTok, a ByteDance, tem vínculos com o Estado chinês. Tanto o TikTok quanto a ByteDance negam. A Suprema Corte deve ouvir os argumentos legais do TikTok em janeiro.

No Reino Unido, entrará em vigor, em breve, a Lei de Segurança Online, segundo a qual as empresas vão ter que assumir compromissos com o órgão regulador, a Ofcom, sobre como combater conteúdo ilegal e publicações prejudiciais às crianças.

Na Austrália, os políticos foram além e aprovaram planos para proibir o uso das redes sociais por menores de 16 anos.

Mas, em última análise, considerando que muitas das principais plataformas de rede social estão baseadas nos EUA, é a abordagem do governo e do presidente americanos que pode ter o maior impacto.

A questão que permanece é qual é realmente a visão de Trump sobre isso — e se ele vai exigir que estas plataformas assumam responsabilidades de uma maneira diferente no futuro, ou não.

Os desdobramentos, seja qual for a direção que ele tomar, sem dúvida vão ser de longo alcance.