quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Desinformação climática é relevante

A desinformação climática consiste no compartilhamento de informações falsas ou de dados atuais pré-selecionados sobre as emissões de combustíveis fósseis ou sobre as mudanças climáticas, o que inclui a omissão dos dados completos sobre esses temas, potencialmente influenciando a opinião de muitas pessoas.

Isso ocorre não necessariamente de maneira proposital: a desinformação também pode ser resultado de enganos ou da má compreensão de um tema complexo.

Um exemplo é a chamada greenwashing ("lavagem verde"), adotada por algumas empresas para transmitir uma imagem de correção ecológica e de respeito ao meio ambiente que não corresponde à realidade.

Algumas empresas de vestuário, por exemplo, propagandeiam o uso de fibras naturais ou renováveis e de embalagens recicláveis, ao mesmo tempo em que omitem a enorme quantidade de roupas descartáveis e de baixa qualidade que produzem.

A desinformação também ocorre quando negacionistas das mudanças climáticas e outros grupos ou organizações publicam de maneira proposital informações falsas ou disseminam farsas no intuito de avançar sua agenda contra a ciência do clima e as políticas governamentais criadas em benefício do meio ambiente.


Grandes empresas petrolíferas como Shell, Exxon Mobil e BP, juntamente com a chamada Coalizão para o Clima Global – um grupo de fachada dissolvido em 2022 que reunia quatro empresas associadas à indústria dos combustíveis fosseis – foram acusadas de promover campanhas de descrédito contra cientistas do clima e de omitir seus investimentos em combustíveis fósseis através de lobbies e propagandas com mensagens positivas desde o anos 1970.

Grupos como a The Empowerment Alliance ("Aliança do Empoderamento") nos Estados Unidos ou a Responsible Energy Citizen Coalition ("Coalizão de Cidadãos Responsáveis em Energia") na Europa utilizam táticas como o chamado astroturfing – ações políticas criadas de modo a parecer que são movimentos populares espontâneos – para promover o uso de gás natural derivado de combustíveis fósseis e para desacreditar políticas ambientais, sendo muitas vezes financiados por fontes obscuras.

Desinformações e mentiras também são publicadas em alguns veículos de imprensa ou promovidas por políticos populistas. Quando as enchentes resultantes de um ciclone extratropical causaram mais de 40 mortes no Rio Grande do Sul, em setembro de 2023, oposicionistas do governo e até um jornalista bastante conhecido no país atribuíram as mortes a abertura de comportas de três represas, numa tentativa de distrair a atenção dos esforços para mitigar os efeitos extremos do aquecimento global e culpar o atual governo federal pelo ocorrido. Umas das três barragens em questão nem sequer têm comportas.

As redes sociais e a manipulação de fotografias ou vídeos tornaram mais fácil a disseminação desse tipo de desinformação, especialmente quando associadas a teorias da conspiração, como nos ataques recentes à estratégia de planejamento urbano chamada de cidades de 15 minutos – na qual as cidades seriam planejadas de tal modo em que a maioria dos serviços e necessidades básicas dos habitantes estariam localizados a 15 minutos de distância, a pé ou de bicicleta, dos locais de moradia.

A Climate Action Against Disinformation ("Ação Climática contra a Desinformação"), uma coalizão global que trabalha no combate à desinformação e à má compreensão dos fatos, concluíram que as postagens negacionistas do clima com hashtags como #ClimateScam ("farsa climática") aumentaram na rede social X (antigo Twitter) depois de a plataforma ter sido adquirida pelo bilionário Elon Musk.

Nos últimos anos, a desinformação também infiltrou a esfera dos tomadores de decisões políticas. Um dos exemplos mais notáveis foram as repetidas críticas do ex-presidente dos EUA Donald Trump às energias renováveis e sua negação à ciência do clima antes e depois de ser eleito, com frequência classificando as mudanças climáticas como "farsa".

Trump, inclusive, retirou os EUA do Acordo Climático de Paris, de 2015, assinado por mais de 190 países que se comprometeram a limitar o aquecimento global a 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais. A decisão gerou um retrocesso de vários anos nas ações climáticas dos EUA e, possivelmente, globais.

Enquanto isso, se esgota o tempo para a adoção de medidas para conter o aquecimento global, em meio ao aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa e recordes sucessivos de temperaturas em todo o mundo.

A maioria dos cientistas concorda que ações urgentes se fazem necessárias, embora a desinformação resulte em questionamentos sobre a tese científica já comprovada de que os humanos são a causa das mudanças climáticas, e crie dúvidas que minam o apoio popular à defesa do clima.

Em 2022, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima da ONU (IPCC) reconheceu pela primeira vez que a "retórica e desinformação sobre as mudanças climáticas e a desautorização deliberada da ciência contribuíram para percepções errôneas sobre o consenso científico, assim como para incertezas, ignorância dos riscos e da urgência e para a discórdia".

Grupos como a Climate Action Against Disinformation, governos como o da União Europeia (UE) e organizações globais como a ONU, a Organização Meteorológica Mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre outras, trabalham para denunciar e combater a desinformação.

Muitos veículos de imprensa também direcionam recursos para a cobertura jornalística sobre o clima, a fim de desfazer mitos e mentiras sobre as questões ambientais.

A persistência da memória

Em 2024, já muitos chamaram a atenção para o facto, cerca de metade da população adulta mundial vai ter oportunidade de votar. É certo que algumas destas eleições, como será o caso das que acontecerão na Rússia ou no Irão, pouco mais serão do que meros atos formais, ritualistas ou performativos. Mas também é verdade que teremos importantes eleições livres e justas nalguns dos tradicionais bastiões da democracia liberal ocidental. Os portugueses terão, como bem sabemos, oportunidade de escolher um novo governo, os europeus um novo parlamento e, com muito mais significado global, os americanos escolherão um novo presidente.

Infelizmente, aquilo que, noutras circunstâncias, poderia ser uma grande festa da democracia, arrisca-se a resultar, a nível mundial, num enorme retrocesso dos regimes demo-liberais tal como os fomos conhecendo e, em consequência disso, numa perigosa erosão dos tradicionais pilares da segurança e da paz. Os sinais estão à vista de todos quantos queiram olhá-los de frente. Por todo o lado, crescem desencantos e descontentamentos profundos com esta particular fórmula de governo e de organização da cidade, assente em originalíssimas (mas também delicadíssimas) instituições materiais e imateriais, a que devemos muita da nossa paz, liberdade e prosperidade passadas, mas que parece progressivamente ter perdido a capacidade de ser geradora de esperança para franjas crescentes das populações. Sendo que – é bom ter consciência disso – não há qualquer regime político que possa sobreviver indefinidamente à desesperança. É pela desesperança que caem as autocracias, mas é também a desesperança que, mais subtil e lentamente, corrói as democracias.

São muitas e são variadas as causas da desesperança (das percepções sobre corrupção à desigualdade, da estagnação económica à disfuncionalidade do Estado). Seria uma irresponsabilidade tentar dissertar sobre todas, em poucas linhas, com um mínimo de seriedade e de profundidade. A minha proposta é bem mais modesta. Fixo-me, alternativamente, na ideia de memória. Não porque a junte ao rol das causas da desesperança, mas porque tenho para mim que esta lenta e silenciosa degenerescência dos nossos regimes demo-liberais se explica tanto pelo desencanto com as suas limitações intrínsecas e com as conjunturais dificuldades em responder aos desafios do tempo presente, como se fica a dever à falta de uma memória aguda, presente e viva sobre as suas reais alternativas.

A desintegração da Persistência da Memória, Salvador Dali

Explico-me. Em boa parte do mundo ocidental, uma muito significativa percentagem dos eleitores que são chamados a votar, neste perigoso ano de 2024, nunca verdadeiramente experimentou uma alternativa aos regimes demo-liberais em que temos o luxo de viver. Isso é verdade para boa parte dos cidadãos da União Europeia e é uma verdade insofismável para a esmagadora maioria dos cidadãos nascidos nos Estados Unidos (as exceções serão mesmo os migrantes chegados de outras paragens). Mesmo em Portugal, uma jovem democracia no contexto europeu e um dos países mais envelhecidos do mundo, quase metade dos eleitores nasceu já depois do 25 de Abril e cerca de três quartos destes não tinham atingido a maioridade naquela data (eu próprio incluído). Igualmente relevante, uma parte significativa dos líderes que se apresentam a eleições não podem ter reais memórias da vida num regime sem eleições livres e justas, sem separação de poderes, sem liberdade de expressão, sem proteções constitucionais às minorias e aos direitos fundamentais. Entre nós, só Rui Rocha, Rui Tavares e Luís Montenegro nasceram antes – e nasceram pouco antes – da revolução. Respetivamente em 1970, 1972 e em 1973.

Porventura mais relevante, a esmagadora maioria dos eleitores e dos líderes políticos do mundo ocidental nunca experimentou o horror de viver num país dilacerado pela guerra. Se é certo que nos Estados Unidos vários líderes políticos foram chamados a combater noutras paragens (curiosamente não é o caso de Trump, o primeiro Presidente americano sem qualquer experiência prévia, governativa ou militar), em boa parte da Europa há muito que se retirou a geração que viveu o trauma da Segunda Guerra Mundial. Em Portugal nenhum dos líderes políticos atuais terá, obviamente, memórias da Guerra Colonial.

Não quero com isto naturalmente significar que o apego racional aos ideais democráticos e da paz não seja real e absolutamente convicto nas gerações que nunca viveram em ditadura ou que nunca experimentaram a guerra. Seria absolutamente injusto fazê-lo. Limito-me a dizer que a ausência dessa memória viva e vivida acarreta riscos muito específicos. Desde logo porque cria uma ilusão sobre a perenidade da democracia e da paz. No plano racional, sabemos bem que o passado está pejado de sombras e de horrores, mas a verdade é que temos dificuldade em acreditar que possam, efetivamente, reavivar-se. Talvez seja uma defesa inconsciente e necessária para viver o quotidiano – mas uma defesa perigosa, como já veremos.

Da mesma forma, esta ausência de memórias diretas torna-nos incapazes de fazer tangível um passado que nunca foi o nosso. Somos capazes de uma racionalidade abstrata, é certo. Mas, porque nos é impossível reinventar as cicatrizes das memórias vividas, nunca conseguimos verdadeiramente entender, em toda a sua profundidade concreta, a experiência de uma vida sem liberdade, sem democracia ou sem paz.

Ora é essa ilusão sobre a perenidade da democracia e da paz e é essa incapacidade de alcançar o real significado de um mundo em que não existam, que, não destruindo o nosso apego intelectual a ambas, diluem o nosso sentido de urgência e a nossa capacidade de sacrifício para as preservar. É a complacência inconsciente que nos deixa mais expostos à repetição do indizível.

Teria Mario Soares feito frente, com a coragem que conhecemos, aos delírios da esquerda militar sem um passado de prisão e de exílio? Teriam Kohl e Mitterrand defendido com o mesmo afinco o projeto de paz que é a União sem a experiência de ter servido na Segunda Guerra Mundial? Teria Adenauer dedicado a última parte da vida a reconstruir uma Alemanha pacífica e reconciliada com a Europa, se não queimassem ainda as memórias do Reich?

São respostas que nunca teremos. Assim como não temos real resposta ao problema da erosão da memória. Resta-nos, apesar de tudo, ter a consciência de que existe.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

Presságios do fogo, da água, da terra e do ar

Um dia já distante, os magos voaram até a gruta da mãe do deus da guerra. A bruxa que levava oito séculos sem lavar-se, não sorriu nem cumprimentou. Aceitou, sem agradecer, as oferendas, mantas, peles, plumas, e escutou com uma careta as notícias. México, informaram os magos, é senhora e rainha, e todas as cidades estão aos seus mandados. A velha grunhiu seu único comentário: Os astecas derrubaram os outros, disse, e outros virão que derrubarão os astecas.
Passou o tempo.

Há dez anos, se sucedem os signos.

Uma fogueira esteve gotejando fogo, do centro do céu, durante toda uma noite.
Um súbito fogo de três caudas ergueu-se do horizonte e voou de encontro ao sol.
Se suicidou a casa do deus da guerra, se incendiou a si mesma: lhe arrojavam cântaros de água e a água avivava as chamas.

Outro templo foi queimado por um raio, uma tarde em que não havia tormenta.
A lagoa onde tem seu assento a cidade, se fez caldeira que fervia. As águas se levantaram, candentes, altas de fúria, e levaram as casas e arrancaram até os alicerces.

As redes dos pescadores ergueram um pássaro cor de cinza misturado aos peixes. Na cabeça do pássaro, havia um espelho redondo. O imperador Montezuma viu avançar, no espelho, um exército que corria sobre patas de veados e escutou os seus gritos de guerra. Depois, foram castigados os magos que não souberam ler o espelho nem tiveram olhos para ver os monstros de duas cabeças que acossavam, implacáveis, o sono e a vigília de Montezuma. O imperador encerrou os magos em jaulas e condenou-os a morrer de fome.

Cada noite, os alaridos de uma mulher invisível sobressaltam a todos os que dormem em Tenochtitlán e em Tlatelolco. Filhinhos meus, grita, pois já temos de ir-nos longe! Não há parede que não atravesse o pranto dessa mulher. Aonde iremos, filhinhos meus?
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Ensino técnico, Pé-de-Meia e sonhos de Beneditos

Forte, alto e magro, José Benedito (nome fictício) tinha tudo para ser um zagueirão. Desde garoto, destacou-se entre os coleguinhas do bairro pela estatura, que hoje chega quase a 1,90m. Era um gigante intransponível na defesa em jogos de futebol no terrão.

O tempo foi passando e Benedito teve de abandonar os amiguinhos do bairro, enquanto alguns já faziam testes na base de grandes times de São Paulo. Tendo pai ausente, aos 9 anos começou a ajudar a mãe, empregada doméstica, a sustentar a família, com cinco irmãos menores. Vendeu picolés caseiros no farol e ao mesmo tempo carregou tijolos como servente de pedreiro.

O trabalho infantil, que envolve 1,9 milhão de crianças no país, destruiu dois sonhos do jovem Benedito: ser jogador de futebol e fazer engenharia civil. Mas ele conseguiu uma vaga no ensino técnico, o que hoje lhe garante um emprego na enfermagem em um grande hospital de São Paulo.

Já trabalhando na área médica, Benedito tentou realizar o sonho da engenharia, mas não deu certo. A faculdade era privada e ele não conseguiu bolsa, porque seu salário estava acima do limite para a concessão do benefício. Já com dois filhos, teve que optar entre sustentar a própria família e estudar engenharia. Abandonou a faculdade no segundo ano. (Entre parênteses, isso lembra o clássico “Pequeno Burguês”, de Martinho da Vila: “Felicidade, passei no vestibular/mas a faculdade é particular/”).


Não há, como já houve no passado, conflito ideológico sobre a importância dos cursos médios técnicos no país. Durante décadas, a educação profissional e tecnológica sofreu com o estigma de que seria apenas uma boa opção para pobres. E os jovens ricos iriam para a universidade. Talvez por isso e, consequentemente, por falta de investimento público, hoje apenas 10% dos alunos cursam o técnico, enquanto países ricos, líderes nas avaliações internacionais sobre educação, investem pesadamente para que os estudantes ingressem nos cursos técnicos e tecnológicos. Cerca de 84% dos jovens fazem ensino técnico na Suíça, 68% na Finlândia e 49% na Alemanha. Até na América Latina os números são desfavoráveis ao Brasil: 34% no México, 29% no Chile, 24% na Colômbia e 20% na Costa Rica.

Os resultados de 2022 do Pisa, a prova mais importante de educação no mundo, que avalia estudantes de 15 anos em 81 países, foram divulgados no fim de 2023. E mostraram que os seis países líderes do ranking são asiáticos: Cingapura, China, Taiwan, Hong Kong, Japão e Coreia do Sul. Não por coincidência, todos são entusiastas e incentivadores do ensino técnico. Também no Brasil, que está em posição vergonhosa no ranking do Pisa (65º lugar entre os 81 países), alunos de escolas técnicas são os que conseguem melhores notas nos vestibulares quando comparados com outros alunos de escolas públicas.

Pessoas que cursaram o ensino técnico no país têm uma remuneração profissional média 12% acima daqueles que fizeram apenas o ensino médio convencional. Há inúmeros estudos nacionais e internacionais sobre esse tema e alguns concluem que o aumento da remuneração chega a 32% em muitos casos, com efeito direto na redução da desigualdade de renda. Estudo divulgado recentemente pelo Itaú Educação e Trabalho e pelo Insper mostrou que, além dos benefícios para os estudantes, há ganhos macroeconômicos para o país. Quando o governo triplica o número de vagas no ensino técnico, ocorre um impacto positivo de 2,32% no PIB a longo prazo.

Em entrevista à imprensa, o pesquisador do Insper Vitor Fancio disse que a capacidade de produzir de uma empresa que tem mais funcionários com ensino médio técnico é maior: produz mais bens e mais serviços do que se tivesse empregados majoritariamente com o médio tradicional. É isso, segundo ele, que leva à elevação do PIB a longo prazo no país.

O sonho de entrar na universidade não conflita com a escolha do técnico no ensino médio. A educação profissional representa até um incentivo à continuidade dos estudos. Exatamente o que José Benedito tentou fazer, mas foi barrado pela falta de recursos e de financiamento estudantil.

Agora, todo seu empenho é para formar a filha mais velha, de 13 anos, que é um fenômeno na escola, segundo os professores da rede pública em que estudou. O novo sonho é colocá-la numa escola privada para fazer um bom ensino médio e depois conseguir ingressar em uma universidade pública.

Na semana passada, foi sancionada a lei que institui o “Programa Pé-de-Meia”, que dará incentivo financeiro para a permanência de estudantes de baixa renda no ensino médio. Talvez isso ajude os Beneditos a realizar seus sonhos. Talvez.

Mercado de carbono: aliado ou concorrente?

Na expectativa de descobrir novas fontes de receita para amparar a economia, o governo brasileiro vem propagando um “futuro” baseado no ciclo comercial do carbono e na importância da bioenergia. Serve, no mínimo, de apoio para a discussão sobre “oneração” e “desoneração” fiscal tributária, pontos de inflexão política.

Para além disso, faz ressurgir das tais “memórias do esquecimento” uma das políticas públicas que mais alavancaram a economia brasileira nos anos 60 e 70: a Lei no 5.106, de 02.09.de 1966, que permitia investimentos em reflorestamento por parte de pessoas físicas e jurídicas, até o limite de 50% do imposto de renda devido. Tirou o Brasil de uma cultura extrativista, inconscientemente predatória, para criar milhares de empresas e empregos de base florestal no país.

Em pouco mais de dez anos, o setor passou a ser responsável por 4% das exportações brasileiras. Gerou mais de um milhão de empregos em todo o Brasil. Só a modesta indústria moveleira, que operava de maneira primitiva, abriu 255 mil empregos diretos e institucionalizou mais de 18 mil negócios, transformando-os em pessoas jurídicas cooperativas, e que, em 2021, tiveram um valor de produção estimado em aproximadamente R$ 78,1 bilhões (Abimovel, 2023).

Tornou-se no maior programa de reflorestamento do mundo. Reproduzia-se em sofisticados empreendimentos nas áreas da siderurgia, do papel, da celulose, dos laminados e aglomerados e da indústria moveleira, gerando fabricantes periféricos de pequenas máquinas, ferramentas, colas, tintas, vernizes, óleos, tacos, embalagens, chapas, parafusos, forrageiras, sementes e mudas selecionadas, designs originais, que atraíam italianos, ingleses, japoneses, norte-americanos, pela alta qualidade e beleza dos produtos. Eram três mil subprodutos derivados da floresta.


O reflorestamento oferecia alternativas de matérias primas naturais abundantes e de economicidade maior, ao mesmo tempo em que as espécies tropicais nativas, particularmente algumas madeiras duras, como o mogno, o cedro, o jacarandá, o jequitibá, a sucupira e outras que, por sua vez, demoravam 20 a 30 anos para viabilizar-se economicamente. Os brasileiros descobriram que, com 6 a 7 anos, a madeira de pinus (Pinus elliottii e Pinus taeda), introduzidas por meio de sementes importadas, apresentavam resultados similares. Centenas de experimentos feitos nas universidades e pelas empresas mostraram sua adaptação ao clima e ao solo tropical, inclusive os mais áridos. Brasília foi cercada para um cinturão florestal.

O programa ganhou maturidade, tornando-se um negócio como outro qualquer, incorporando, sem dúvida, também os males da corrupção e a ideia explícita da agressão à natureza pelos grandes desmatamentos, sem reposição, voltados para abrir espaços para a agricultura extensiva, que envolvia o cultivo de grandes áreas de terra, baixo uso de mão de obra e de tecnologia.

Os produtos e subprodutos florestais ocupavam o 5º. ou 6º. lugar entre as exportações brasileiras. As grandes indústrias florestais e periféricas juntaram-se em polos de desenvolvimento, ganhando configuração e mercado próprio. Concomitante, na área da agricultura, capitaneada pelo professor Alyson Paulinelli, desencadeara-se a “Revolução Verde”, gerando massa crítica profissional, pesquisas, altas tecnologias, a introdução de insumos, máquinas agrícolas, fertilizantes, que independiam do clima. Representado por um 1/3 das exportações, tornou-se um dos maiores produtores mundiais de alimentos.

Não é, entretanto, esta a imagem que ficou na história da economia brasileira. No início dos anos 80, a moralidade ambientalista chegara, combatendo, em nome da ciência, da qualidade de vida e da proteção dos recursos naturais, a revolução agrícola e os desmatamentos, sobretudo na Mata Atlântica, e as queimadas na Amazônia, que destruíam, de fato, solos férteis, a fauna, princípios biológicos ativos, e poluíam os rios. A indústria, inclusive a florestal, passou a ser acusada de produzir gases que agrediam a atmosfera e o ar que respiramos. A modernidade expulsava os trabalhadores do campo, engrossando a pobreza da vida urbana.

A política florestal tomaria outros rumos. O Brasil descobrira a sustentabilidade, e geraria visões novas sobre a proteção dos recursos naturais. Depois de revisar os incentivos, incrementaram-se programas compulsórios de reposição florestal e de preservação dos ecossistemas originais, bem como de cooperação entre pequenos produtores rurais, reunindo propriedades familiares (2011).

Contudo, havia alcançado a autossuficiência na produção florestal e incorporado ao sistema outros produtos da floresta que passaram a ser incluídos nas formulações acadêmicas da biotecnologia – essências silvestres para a indústria farmacêutica e perfumaria, frutos da floresta, como açaí, palmitos, cacau, castanhas, pimentas e forragens. O setor estava consolidado. A política florestal ganhara, entretanto, um novo perfil, associado agora fortemente às preocupações com o meio ambiente e, mais recentemente, também com as mudanças climáticas.

Caminhando para os oitenta, Lula está alheio a isso. Preocupa-se é com as novas oportunidades comerciais que estão desembarcando no setor, como o mercado de carbono e do hidrogênio verde. Sua mensagem vai ao encontro de quem dispõe de maciços de florestais naturais ou de reflorestamento: a venda, em toneladas, da captura do CO² pelas florestas. Essa pretensiosa intenção tende a ser concorrente forte para os segmentos industriais e extrativistas produtivos baseados na floresta.

Estaria ele no caminho certo? Na Itália acabaram de descobrir um grupo de ativistas profissionalizados formuladores e difusores de teorias conspiratórias pelo mundo.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Os errantes

Muros são a representação física mais simplória de mundos que se querem isolados. Em toda a Europa de 1989, ano da queda do Muro de Berlim, existiam apenas quatro demarcações de fronteiras semelhantes no Velho Continente. No início do milênio, outras 30 haviam sido erguidas, todas destinadas a barrar não mais o específico inimigo armado de antanho, e sim um animal genérico, desprovido de retaguarda e futuro: o ser humano errante. Ele é danado, esse migrante, apátrida, exilado, expatriado, deslocado ou expelido pela força. Ele teima em buscar um chão, em alguma parte, a qualquer risco. Antes, porém, com igual tenacidade, terá se agarrado ao pedaço de teto que sempre chamou de seu. Assim tem caminhado a humanidade. Dois episódios ocorridos na semana passada fazem parte desse caldeirão.


Na quarta-feira, o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, conseguiu aprovação para transformar em lei uma promessa de campanha nascida da cabeça platinada de Boris Johnson, seu desastroso antecessor. Trata-se de desestimular o afluxo de embarcações irregulares que cruzam o Canal da Mancha todos os anos, abarrotadas de migrantes em busca de asilo, deportando-os para Ruanda, país africano sem saída para o mar. Ali, a 6.500 quilômetros de Westminster, aguardariam o resultado de seu pedido de asilo.

Segundo dados do Observatório de Migração da Universidade de Oxford, 45.755 refugiados conseguiram chegar à costa britânica em 2022 pelas águas traiçoeiras da Mancha, em pequenos barcos, enquanto o total de imigrados irregulares chegou a 670 mil. Seria, portanto, uma medida irrisória, além de sua essência desumanizante e colonialista. Ela ainda precisará do aval da Câmara dos Lordes, que não demonstra o menor apetite para tratar do tema. O próprio Partido Conservador de Sunak ficou rachado, com alguns parlamentares exigindo medidas mais radicais enquanto outros apontavam para a inexequibilidade da operação.

Uma primeira tentativa de deportação para Ruanda, com Boris Johnson ainda em Downing Street, fora abortada judicialmente na 25ª hora, quando as turbinas do avião que levaria a carga humana rumo a Kigali já estavam ligadas. À época, o governo britânico havia feito um adiantamento de 240 milhões de libras esterlinas (o equivalente a R$ 1,5 bilhão ) aos cofres do presidente Paul Kagame, para cobrir o custeio dos deportados. Em Davos, Kagame reclamou da lentidão da operação e não falou em ressarcir de imediato os cofres de Sua Majestade. Entrementes, as 4 mil pessoas listadas para compor o pelotão inicial e aguardar, em Ruanda, autorização de asilo no Reino Unido simplesmente sumiram do radar do home office. São errantes escaldados por desesperança múltipla acumulada ao longo de suas muitas travessias.

Na quinta-feira, foi a vez de o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, remoer com bota a ferida mais exposta do Oriente Médio desde o final da Segunda Guerra Mundial. Em entrevista tensa concedida na base militar de Kirya, em Tel Aviv, ele rejeitou a perspectiva da criação de um futuro Estado Palestino independente e soberano. Nem ontem, nem hoje, nem amanhã. Nem mesmo se conseguir erradicar de Gaza o terrorismo do Hamas, responsável pelos atos de barbárie e desumanidade praticados em 7 de outubro contra civis israelenses. A mensagem de Bibi foi clara, mesmo sob pressão dos Estados Unidos e de movimentos democráticos em seu próprio país: todas as terras palestinas continuarão sob ocupação do Estado judeu.

E o que sobrar da população civil de Gaza, encurralada num pedaço reduzido do enclave onde persiste a teimosia humana de sobreviver? Netanyahu não disse, mas vozes do primeiro escalão de seu governo falaram por ele: que saiam de Gaza, larguem o chão onde nasceram, procurem outro lugar como tantos outros obrigados a se tornar errantes antes deles.

Consta dos arquivos do Estado de Israel uma minuta datada de 55 anos atrás, que autorizava o governo a transferir 60 mil palestinos de Gaza ao Paraguai:

— Decisão Shin.Taf/24 do Comitê Ministerial para a Administração de Territórios, 29 de maio de 1969, Imigração Árabe. Aprovada a sugestão do Mossad para a emigração de 60 mil árabes dos territórios administrados de acordo com os seguintes termos (...).

Os quatro itens listados no documento estabeleciam a responsabilidade de Israel com as despesas de viagem de cada emigrado, a alocação de US$ 100 para cobrir seus custos iniciais de instalação, o pagamento de US$ 33 por palestino ao governo do Paraguai e o desembolso imediato de US$ 350 mil para a operação com os 10 mil primeiros selecionados. Levi Eshkol, o primeiro-ministro daqueles tempos expansionistas que se seguiram à Guerra dos Seis Dias, não poderia ter sido mais claro:

— Quero que todos vão embora, nem que seja para a Lua.

Foi um experimento que deu terrivelmente errado. O Paraguai, nos confins da América do Sul, então comandado pelo ditador Alfredo Stroessner, tinha ainda menos a ver com a alma palestina que Ruanda tem a ver com um refugiado da Síria. Quem primeiro revelou a operação foi o jornalista israelense Yossi Melman, em 1988. Ele havia atuado nos serviços de Inteligência de seu país. E quem se aprofundou no tema mais recentemente foi a antropóloga americana de origem palestina Hadeel Assali. Em artigo para a London Review of Books de 10 de maio de 2023, ela mergulha na memória de um tio natural de Gaza, ainda vivo. Rapazote em 1969, Mahmoud embarcara com um laissez-passer fornecido pela ONU para, segundo os ocupantes israelenses, trabalhar um ou dois anos no Brasil. Depois poderia retornar a Gaza. Era embuste, nem sequer viu a cor do Brasil.

Errantes sempre houve e haverá. Cabe a nós não esquecê-los.

Transição ecológica para onde?

Cada vez mais evidente são os efeitos ecológicos e ambientais negativos decorrentes da superexploração dos recursos naturais, a partir da revolução industrial. Essa conclusão, muito bem documentada na publicação “Limites do Crescimento”1 , aduz ainda que, se a humanidade continuasse seguindo o padrão de produção e consumo verificado na época, os recursos naturais se esgotariam em menos de 100 anos. Esses foram os fatores que levaram à realização da 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano, que reuniu 113 países na cidade de Estocolmo em 1972.

Vinte anos depois, 176 autoridades governamentais (países) e 1400 entidades da sociedade civil (ONGs), compondo mais de 30 mil pessoas, se reuniram na cidade do Rio de Janeiro em 1992 para a realização da 2ª Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, conhecida também por ECO 92, uma das conferências mais emblemáticas já realizadas, e que apresentou ao mundo um quadro preocupante sobre a questão ambiental e aquecimento global, o que levou os países a assinarem vários acordos, entre eles a Agenda 21 e a Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas.

Em 2024, mais de 30 anos se passaram desde a Rio-92 e 50 anos desde Estocolmo-72, em que o alerta foi dado à humanidade, pois esses eventos já expressavam a necessária e urgente transição ecológica, estando essa necessidade expressa na publicação “A Transição Ecológica”2 , que abordou as preocupações sobre a interação negativa do homem com o ambiente físico, assim como na publicação “Nosso Futuro Comum”3 , que revelou os problemas ambientais estavam além da capacidade natural de recomposição e cientifica de apresentar soluções, além dos dados do aquecimento global e as falhas na camada de ozônio, e a publicação “Manual de Transição: da dependência do petróleo à resiliência local”4 , um manual com orientações para pôr uma cidade em movimento de transição.


Portanto, podemos considerar que o assunto da transição ecológica não é algo novo, mas volta com força ante os resultados climáticos violentos, cada vez mais intensos, que todos inequivocamente temos observado, vivenciado e sentido cotidianamente. A “transição ecológica” encontra rebatimento em diferentes esferas, além da questão das emissões de gases de efeito estufa, devido à queima de combustível fóssil que causa a aceleração do aquecimento global, tais como: economia competitiva e predatória, desflorestamentos para a produção de celulose e geração de pastos, superprodução de resíduos urbanos e industriais perigosos, agricultura industrial baseada em agrotóxicos prejudiciais à saúde e meio ambiente e uma visão de saúde centrada na doença e fármacos químicos perigosos, em contraposição à energias limpas e renováveis, economia justa e solidária, reciclagem, compostagem e biofertilizantes, uma produção orgânica e de incentivo familiar, e uma saúde centrada na pessoa e o rigoroso controle e eliminação de condicionantes deletérias de determinantes e determinações sociais de saúde.

Portanto, considerando meio século desde Estocolmo-72, já deveríamos estar em um estágio muito mais avançados e já ultrapassado esse período, do que desejosos por um processo de transição. Já dizia Albert Einstein: “Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo pensamento que usamos quando os criamos”. De lá para cá, estamos apenas trabalhando na inclusão de poucos desvalidos, em uma sociedade talhada para uma produção e consumo insustentáveis para a manutenção da vida como a conhecemos.

No livro “A Lei da Entropia e o Processo Econômico”5 , se demonstrou que o processo econômico não é um sistema perpétuo, que alimenta a si mesmo de forma circular, sem perdas. O sistema econômico — hoje dominante, linear e predatório, como se os recursos naturais não fossem finitos — é alimentado pelos recursos naturais, que após sua utilização são transformados em rejeitos que não são gerenciados para serem reutilizados.

Pois bem, muito embora essa teoria tenha sua lógica, nunca fora verdadeiramente levada em consideração; afinal, sempre se imaginou que recursos naturais eram todos infinitos, e que aqueles que não fossem teriam em abundância na natureza.

Essa afirmação acabou sendo superada por si só com o passar dos anos, e hoje percebemos que os recursos naturais estão escassos — os chamados serviços ecossistêmicos estão cada vez mais comprometidos por superexploração, devastação, desertificação, poluição e contaminação de territórios — aliás situação ideal para acumular ainda mais capital. Dessa maneira o desenvolvimento humano sustentável é fundamental e urgente.

Afinal não há nenhuma atividade econômica no mundo que não precise de recursos naturais, e que uma vez desaparecendo, desaparece junto toda a atividade econômica como a conhecemos.

A bola da vez é um Desenvolvimento Humano Sustentável, isto é uma gestão equilibrada fundada no tripé da integração de práticas econômicas (solidárias), sociais (universalizadas) e ambientais (ecologicamente equilibrada); logo, é preciso entrar no domínio do pensar complexo, solidário para com o destino planetário, ajustando o convívio do homem com a natureza, visto que estão nela contidos os elementos e os meios que garantem a vida em sociedade e suprem materialmente as bases de criação e manutenção do corpo vegetal, animal e humano, em síntese, a adequada sobrevivência da presente e futuras gerações.

Em tese o plano de transição ecológica no Brasil e no Mundo tem por objetivo o
combate à crise do clima com justiça social, sustentabilidade, geração de empregos e aumento da produtividade com objetivo de tornar a economia mundial e brasileira mais sustentável, espelhadas expressamente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sucessor dos Objetivos do Milênio e da Agenda 21 que precisam ser relembrados. No entanto, no bojo dessas discussões e ações, é preciso exaustivamente lembrar que economia sustentável pode ser a insustentabilidade do desenvolvimento à médio e longo prazo, e que nem toda proposta sustentável de fato é, dependendo de diversos fatores condicionantes.

Com poucas críticas midiáticas, pois precisamos agir, a transição tem atenção
centrada na matriz energética, e que apesar de sua importância em função das mudanças climáticas, na verdade é tímido, uma vez que essa mesma energia independentemente da matriz, da maneira que é e será usada, ou seja, para manter os atos que geraram escassez de recursos naturais, é destruidora de mundos. E ao não impedir que processos necrocorporativos e necroeconômicos, deletérios ao meio ambiente e à saúde pública e coletiva sejam instalados, como por exemplo: produzir energia queimando insanamente milhares de toneladas de lixo reciclável e combustível fóssil, de fato podemos concluir que estamos bem longe de aproximação do discurso com a prática.

Nesse diapasão, e não abordado com firmeza nos referidos planos de transição
ecológica, está o incentivo e a expansão de processos que fazem uso intensivo de
combustível fóssil em várias partes do mundo e regiões do Brasil. Estamos sendo ameaçados pelo fantasma das termelétricas e incineradores, esse último disfarçado de unidades de recuperação de energia (UREs), ambos operados através da queima de quantidades exorbitantes de combustível fóssil e que se constitui, na prática, ofensa à Constituição Federal e à Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A exemplo, está sendo planejada, numa linha de 75 quilômetros entre duas
grandes regiões metropolitanas, três incineradores (Santos, Mauá, Barueri no estado de São Paulo), que, juntos, terão a capacidade total próxima de queimar 6 mil toneladas de resíduos por dia e, com isso lançarão na atmosfera, diariamente, cerca de 4 mil toneladas de gases tóxicos e de efeito estufa, 1500 toneladas de resíduos sólidos perigosos, mais algumas milhares de toneladas de água contaminada.

Esquece-se com facilidade da frase bicentenária de Lavoisier, que “no mundo nada
se cria, nada se perde, tudo se transforma”, ou seja, tudo que entra para ser incinerado sai em uma forma ainda mais perigosa. Importante salientar que essa política retrógada na perspectiva do desenvolvimento humano sustentável, contou com total apoio de governos anteriores, nos níveis estadual e federal, e das empresas que operam e lucram com esse processo poluidor e sugador de recursos públicos e que vêm fazendo efetivo lobby junto aos governos locais.

Ainda sob o signo da transição ecológica e energética, para alimentar esse aumento e uso intensivo de combustível fóssil em incineradores e termelétricas, está sendo implantado um píer de descarga dos navios metaneiros, dentro da cidade de Santos, próximo à região urbana densamente povoada, sendo que um único tanque padrão de GNL4 (125 mil metros cúbicos) é equivalente a sete décimos de uma megatonelada de TNT, o mesmo que cerca de 55 bombas de Hiroshima, como apontam estudiosos no assunto (LOVINS & LOVINS, 2001). Os navios mais modernos carregam até o dobro dessa quantidade e em conjunto com o navio regaseificador somam um potencial energético de até 190 bombas de Hiroshima. O processo movido contra essa ameaça, realizada pelo Ministério Público com apoio da sociedade civil organizada, encontra-se sob a apreciação da Justiça.

Não obstante a boa intenção dos planos de apoio e de Transição Ecológica, posto que é um passo aparentemente positivo, mas é excessivamente tímido, e pode até mesmo ser inócuo para reverter ou atenuar a grave questão climática e ambiental, quando ainda não tratou da malsinada herança do governo anterior que no estouro da boiada empurrou goela baixo da sociedade Santista a implantação de um terminal que em caso de acidente catastrófico pode vir a pôr bens público e privados no chão e ceifar centenas, quiçá milhares de vidas, e sacudir a economia nacional, pois pelo Porto de Santos passa 1/3 do PIB nacional.

Em resumo, esses navios trarão combustíveis fósseis responsáveis pelas mudanças climáticas para serem queimados em termelétricas e incineradores disfarçados de URE, que poderá inviabilizar a sadia qualidade de vida da população Santista e região ao liberar substâncias conhecidas como moléculas da morte, além de aumentar a poluição na região com outros gases tóxicos e de efeito estufa; não resta dúvida que, apesar de teoricamente ter boas intenções, os planos na prática trazem omissões e, da maneira como são criados, não serão suficientes para que os objetivos ambientais e climáticos tenham êxito.

Corremos sério risco de ter uma resposta engendrada pelo mesmo pensamento
que gerou tais problemas ambientais. Não podemos continuar maculando e extraindo do planeta o que ele não está mais sendo capaz de suportar, para nos doar recursos gratuitamente para as nossas vidas. Nossos esforços devem ultrapassar as demandas emergentes e respostas ao saldo negativo, resultantes dos anos de descaso, a transição ecológica precisa também enfrentar o desafio de apontar para soluções mais permanentes, construindo processos de boa governança, democráticos de fato e amplamente participativo, com a inclusão da sociedade como um todo.

Não é impossível de mudar

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar
Bertolt Brecht

A fumaça, os rios, os lagos e a ciência

Eu gostaria de facilitar as coisas para todos nós, achando que um feliz maconheiro, deixou escapar um “bagulhinho” no mato, e o Curupira, ainda descuidado, em conluio com o Greenpeace, não tomaram conta dos galhos e folhas como deveriam, e tudo virou fumaça, intoxicando aqueles que não gostam de um produto da floresta.

Resolvemos perguntar ao Dr. Google e ao Chat GPT, os dois mais renomados e baratos assistentes que eu consegui contratar, para isolar a burrice que me castigava, e eles responderam no mesmo patamar:

“A Amazônia é conhecida por ter uma alta incidência de raios, com algumas estimativas sugerindo que a região pode experimentar milhares de raios em um único dia". Que coisa espantosa, essa resposta dos meus assistentes! Todos à mesa do dominó, sentimos que a evolução passou por nós e nos beijou. De repente, o nosso Gorila achando-se à altura do Dr. Google e do Mestre GPT, gritou: até que enfim sei de uma coisa há mais tempo que o Dr. Google! Os raios não contribuem com as queimadas?


Comemoramos com um açaí duplo e passamos a nos considerar cientistas do GreenPeace, WWF, BrazilFundation, ICMBio, Fundo Amazônia, One Tree Planted e do SOS Amazônia, que tem a sua vida ligada ao hiper cientista, físico, químico, naturalista, Einstein dos microbianos vermelhos e verdes, o cerebral PhD Chico Mendes.

Somando a estas, existem mais algumas centenas de ONGs por quilômetro quadrado na nossa Amazônia, todas dizendo que as fumaças são atividades criminosas e nenhuma delas é oriunda de raios que caíram em árvores e mato ressecado. A este crime, os bares das cidades ribeirinhas, repletos de brasileiros querendo aprender de Amazônia, com os “amazonólogos” do momento, perguntam, com a voz um pouco trêmula, de emoções geladas, ingeridas para o calor:

Tá bom que as fumaças são criminosas! Mas quem bebeu as águas dos rios, lagos e igarapés, em pouco mais de um mês?

Os nossos irmãos amazônidas estudam, desde o Jardim da Infância, que o oxigênio vem das diatomáceas marinhas, algas existentes no sul do Oceano Pacífico, e que a Amazônia, por ser uma floresta velha, tudo que produz de oxigênio pela manhã, consome à noite. É bom reconsiderar esse teorema e colocá-lo para a comunidade acadêmica do mundo, como uma tese para estudos, de todas as nações, ou vamos ter problemas muito graves em um pequeno intervalo de tempo. O bom mesmo seria acabar com essa história de que isso é o El Niño, aquilo é La Niña e tudo é culpa do casal e também do Lula e do Bolsonaro.

Os institutos daqui, como o INPA, o Goeldi e outros competentes estudiosos, deveriam chamar a comunidade mundial e colocá-los nas diversas regiões e rios, com máquinas e computadores, com dedicação extrema e acharem, juntos, outro nome e como usar essa praga que se abateu sobre a nossa Amazônia.

Nunca sentimos um calor tão desmoralizante, capaz de prostrar milhares de pessoas em seus lares, dentro de quartos com ar-condicionado, sempre no máximo, até queimá-los. Nunca sentimos uma temperatura tão alta e por um prolongado número de dias sem chuvas.

É hora de estudar e pesquisar. Que venha Harvard, Princeton, Stanford, Yale, Cambridge, Oxford, Ben-Gurion, Haifa e quem se dispuser a enfrentar esse problema, que deixou de ser só nosso e passou a ser mundial.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


A celebração da democracia

A intentona autoritária de 8 de janeiro de 2023 pelo golpe militar e pela anulação do mandato legítimo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, escondia e esconde um conjunto extenso de autorias e protagonismos que não tiveram visibilidade nas prisões efetuadas. Examinando o conjunto conhecido dos fatos e a sequência de ações de agentes do Estado e de seus coadjuvantes, é inevitável reconhecer brechas e invisibilidades nas evidências de conexões necessárias ao andamento e ao desfecho do processo golpista.

As celebrações de 8 de janeiro deste ano, do triunfo das instituições, podem sugerir que as capturas e condenações realizadas pegaram os manifestantes mas nem todos os que deveriam ser capturados e processados. Os principais agentes da conspiração não foram devidamente identificados e presos. A multidão alucinada da ilegalidade notória, reunida à sombra de um quartel do Exército, revelou-se multidão de manobra da baderna preparada há muito.


A turba revelou-se de baixa classe média e expôs sua mentalidade de botequim nas invasões e depredações, o que é essencial para se inferir a identidade do sujeito coletivo da ação. O modo como se deu a invasão dos recintos dos Três Poderes, a escolha dos objetos depredados, tudo indica uma concepção do que para ela é o Poder a ser demolido, o vazio a ser criado com a anulação simbólica das instituições.

É particularmente significativo que o ataque ao STF e a depredação ali praticada coincidissem com o principal alvo dos discursos e ameaças do ex-presidente da República e dos coprotagonistas ilegais do seu mandato, os que usaram a alienação popular e as frustrações decorrentes de uma impressão caricata e ignorante do que é o poder. A mensagem ideológica das mentiras norteou a caminhada da manada carneiril que se deslocou pela Praça dos Três Poderes em direção aos alvos de sua fúria de “patriotas” de aluguel.

Talvez as autoridades devessem colocar no primeiro plano de suas preocupações não indivíduos isolados, como se faz nas delegacias de polícia com os criminosos comuns. O criminoso do 8 de janeiro é um criminoso coletivo, que não mostra a cara, lentamente gestado dentro e fora do aparelho de Estado.

A possibilidade do golpe tentado agora já estava definida no Artigo 142 da Constituição, cuja ambiguidade supostamente legitimava a pretensão militar de tutelar os destinos do país e a consciência política do povo. Nele as Forças Armadas definidas como guarda pretoriana da República, uma função subalterna em relação àquilo que deveria ser próprio da instituição.

Reli nestes dias o livro de Jorge Americano “A lição dos factos”, sobre a Revolução de 1924, em São Paulo. Reconheci no livro as enormes coincidências entre os acontecimentos de agora e os acontecimentos militares de um século atrás. Americano era advogado e tinha formação sociológica inspirada em Oliveira Viana. Escreveu o livro em 42 dias para ressaltar não o cotidiano, mas os impasses da história.

Sua análise é muito superior à da maioria das narrativas que descreveram os acontecimentos trágicos que destruíram indústrias e residências nos bombardeios, que mataram mais de 500 pessoas e feriram mais de 2.500, dois terços civis, especialmente nos bairros operários. Vários dos analistas entenderam que os alvos eram civis no confronto de duas facções do mesmo Exército, cuja unidade se expressará na Revolução de Outubro de 1930 e no governo Vargas.

Americano ressalta que o golpe da Proclamação da República foi o fator de deslocamento do Exército para funções anômalas num regime republicano. De certo modo, como se viu no regime bolsonarista, a crescente ocupação de funções civis por militares, o próprio Exército suscitando a necessidade de sua intervenção na realidade política para enquadrar necessidades de expressão da sociedade.

Porém, há uma novidade na anomalia. Há um novo ente coletivo com funções parecidas com essa função do Exército. O surgimento de partidos políticos antidemocráticos disfarçados de igrejas e religiões, pastores usando o púlpito em favor do golpe militar e do autoritarismo, criou uma mediação estranha à democracia e ao regime republicano que teve função de mandante de muitos na baderna de 8 de janeiro.

Quando um pastor ou padre usa o púlpito como tribuna de partido, de fato não se trata de igreja nem de religião. Trata-se de crime político, que viola a Constituição quanto à separação entre Estado e religião. Nesse caso essa modalidade de ação partidária deveria perder as supostas imunidades religiosas. O mesmo em relação aos militares que se dispuseram a conspirar contra a democracia em favor do golpe. É a função que diz que coisa é.

Banco x natureza


Se a natureza fosse um banco, já teria sido salva
Eduardo Galeano, "Os filhos dos dias"

'Polvo' letal

Num sábado de manhã resolveu levar sua filhinha até a praia. Ela vivia pedindo pra irem ao zoológico, mas os pais não achavam aquele ambiente muito agradável. Tinha algo em enjaular bichos que os incomodava.

Foram então pra praia. Brincaram na areia, fizeram castelinhos, forte e até uma vila rodeada por um rio. Entraram juntos no mar, tomaram água de coco, passearam pela orla. Durante todas as atividades, o pai recolhia pequenos pedaços de lixo que encontravam na água ou na areia.

No fim do dia ele chamou mãe e filha para fazerem um tour e conhecerem uma espécie de animal muito perigosa. Ele sabia como ela se encantava por animais, então foram juntos até as pedras, no final da praia, onde as mulheres da família viram canudinhos, bexigas, sacolas, fios de balões de gás hélio, garrafas plásticas cheias de areia, tudo montado de um jeito que parecia formar uma espécie horrível de animal, algo que se assemelhava com um polvo, mas que escancarava a mais letal espécie que habita o planeta: o ser humano.

Bernardo Tavares. "A espécie mais letal"

Super-ricos pedem para pagar mais impostos

Um grupo de mais de 250 bilionários e milionários divulgou uma carta esta semana exigindo que uma política de elite global, reunida nesta semana no Fórum Econômico Mundial de Davos, aumente os impostos sobre suas fortunas, a fim de combater as desigualdades e possibilitar melhorias nos serviços públicos de trânsito em todo o mundo.

"Estamos surpresos que vocês fracassaram em responder a uma simples pergunta que fazemos há três anos: quando vocês vão taxar a riqueza extrema? Se os representantes eleitos nas principais economias do mundo não adotarem medidas para lidar com o aumento dramático da desigualdade econômica, as consequências continuarão a ser catastróficas para a sociedade", afirma a carta aberta aos líderes mundiais.

"Nós somos as pessoas que investem em startups, moldam os mercados de ações, fazem os negócios crescerem e fomentam o crescimento econômico sustentável. Somos os que mais se beneficiam do status quo. Mas a desigualdade atingiu um ponto de inflexão, e os custos dos riscos à nossa estabilidade econômica, social e ecológica são graves, e aumentam a cada dia. Em suma, precisamos de ação já."


Os signatários da carta são pessoas ricas de 17 países, entre os quais estão a herdeira do império Disney, Abigail Disney; o ator e roteirista Simon Pegg; Valerie Rockefeller, herdeira da dinastia de sua família; Ise Bosch, neta do alemão industrial Robert Bosch e o músico e compositor Brian Eno, além do ator da série Succession , Brian Cox.

O único brasileiro na lista é João Paulo Pacífico, fundador do grupo de investimentos Gaia que hoje investe em projetos sociais e colabora com as cooperativas do Movimento dos Sem Terra (MST).

"Nosso pedido é simples. Nós, os muito ricos em nossa sociedade, queremos ser tributados por vocês. Isso não vai alterar fundamentalmente nosso padrão de vida, tampouco prejudicar nossas crianças ou afetar as economias de nossas nações. Irá transformar uma riqueza extrema e improdutiva em investimento em nosso futuro democrático comum", diz o documento.

O grupo quer entregar a carta intitulada Proud to pay ("Orgulhosos em pagar") diretamente aos líderes mundiais reunidos em Davos.

Uma pesquisa recente revelou que 74% dos super-ricos apoiam pagar mais impostos sobre suas fortunas para ajudar a combater a crise no custo de vida e melhorar os serviços públicos.

O levantamento realizado pela entidade de pesquisas Survation a pedido do grupo Patriotic Millionaires , dos Estados Unidos, entrevistou mais de 2,3 mil pessoas em 20 países que possuem cada um mais e 1 milhão de dólares (R$ 4,94 milhões) em bens de investimentos, excluindo suas próprias casas – o que os coloca entre os 5% mais ricos do mundo.

Segundo a pesquisa, 58% dos ricos apoiam a criação de uma taxa de 2% sobre os que possuem fortunas de 10 milhões de dólares, sendo que 54% acreditam que a riqueza extrema gera ameaças à democracia.

Um relatório da ONG de combate à pobreza Oxfam apresentado em Davos nesta semana revelou que a fortuna dos cinco homens mais ricos do mundo mais do que dobraram desde 2020, enquanto 5 bilhões de pessoas ficaram mais pobres.

A Oxfam International afirmou que, somadas, as fortunas das cinco pessoas mais ricas do mundo – Elon Musk (Tesla, SpaceX), Bernard Arnault (LVHM), Jeff Bezos (Amazon), Larry Ellison (Oracle) e o megainvestidor Warren Buffet – aumentaram 114 %, o que corresponde a 464 bilhões de dólares (R$ 2,26 trilhões), chegando a 869 bilhões de dólares no ano passado.

Em contrapartida, desde 2020 o poder financeiro de quase 4,77 bilhões de pessoas – ou 60% da população mundial – caiu 0,2% em termos reais. Segundo a entidade, seriam precisos 229 anos para erradicar a pobreza no nível global.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Bem-vindos ao século XXI

É impressionante como uma criatura tão pequena, invisível a olho nu, tem a capacidade de paralisar o planeta. Algo que só se conhecia do passado ou por meio de fantasias, de distopias científicas agora faz parte da nossa realidade.

Sempre se sai mudado de um estado de anomalia: passamos a repensar se essa rotina acelerada é mesmo necessária, se todo mundo precisa sair de casa e voltar no mesmo horário, se estamos fazendo bem ou muito mal para o planeta. Se não podemos ser mais flexíveis, menos congestionados, menos poluidores.

Ficar em casa é reinventar a rotina, se descobrir como uma pessoa estrangeira. Eu me conheço como uma pessoa que acorda de manhã, sai para correr, vai para o trabalho, vai para outro lugar e chega em casa exausta. Agora, preciso me reinventar numa temporalidade diferente. É um movimento interior de redescoberta.

Mas como dizia Montaigne: “A humanidade é vária”. Nem todos estão passando por isso da mesma maneira. Há grandes diferenças, a depender de raça, classe, gênero. Nós, mulheres, por exemplo, temos um conhecimento distinto dos homens quanto ao cuidado com a casa. Não há nada de biológico nessa constatação; essa é uma função que nos foi impingida histórica e culturalmente de modo a parecer “natural”; o que não é. Há vários relatos de maridos que não imaginavam que os afazeres domésticos dessem todo esse trabalho, que não se davam conta do tempo que tomavam, o que evidencia uma divisão do trabalho internalizada e invisível.

Os séculos XX e XXI são e serão da revolução feminista, como já vai ficando claro. As mulheres não vão voltar atrás. Quem sabe possamos aprender com a experiência das várias mulheres dirigentes de nações, como é o caso de Nova Zelândia, Islândia, Finlândia, Taiwan, Alemanha e Bélgica, que estão inventando uma forma nova de “fazer política”: menos viril, menos normativa, menos dogmática. Uma forma mais atenta aos cuidados de que a população precisa e ao diálogo. São governos que tiveram grande sucesso em conter a pandemia com clareza, objetividade, assertividade, firmeza, respeito à ciência e, sobretudo, respeito e cuidado para com os cidadãos.

Mas a questão das mulheres é também de gênero e classe social. Mulheres das classes média e alta têm mais recursos e podem lidar melhor com seu tempo diante do trabalho, o que é muito diferente no caso de mulheres de baixa renda e negras. Elas são as que menos têm acesso à saúde pública e as que mais apresentam problemas cardíacos e respiratórios recorrentes. São elas, também, que estão na outra ponta da saúde: há muitas enfermeiras negras e pardas sendo contaminadas e morrendo de covid-19. Elas assumem o cuidado com os pacientes e até com os médicos, desempenhando o mesmo papel em casa e no sistema de saúde. E são ainda mais vulneráveis porque muitas delas estão trabalhando sem a proteção necessária, e porque em geral já estão sobrecarregadas com o trabalho doméstico. E nem sempre “casa” quer dizer “lar”. Casa sempre foi um local de repouso e abrigo. Já lar é um conceito criado pela burguesia, no século XIX, que tendeu a idealizar esse lugar, sublinhando o modelo de família estruturada e esquecendo dos conflitos por lá inerentes. Muitas vezes romantizamos esse espaço, sem ver que, nesse contexto pandêmico, os números de violência doméstica aumentam. Os de feminicídio e de infanticídio também.

A desigualdade tem muitas dimensões e a pandemia escancara as nossas. Ela chegou ao país de avião, por meio de pessoas da elite que estavam no estrangeiro e voltaram contaminadas — tanto que os primeiros dados incidem sobre os bairros mais nobres. Mas o que está acontecendo agora é que o vírus chegou com força nas periferias, nos subúrbios, nas comunidades e favelas espalhadas pelo país. Em São Paulo a pandemia já é muito mais concentrada na periferia do que nos bairros centrais. No Rio de Janeiro, em Manaus e em Fortaleza, idem, e em Salvador o perfil parece estar se repetindo. Além do mais, dados vêm mostrando como ela tem incidido sobretudo na população negra, a mais afetada pela pandemia da covid-19.

E quando dizemos “fique em casa, mantenha o isolamento” temos que refletir não só acerca da nossa “bolha”, mas sobre as condições de vida dessas populações. Muitas moram em cômodos únicos com seis ou mais pessoas. Pouco ou não atendidas por serviços de saneamento básico como água potável e tratamento de esgoto, as populações pobres são também vítimas preferenciais de doenças como anemia, problemas pulmonares e pressão alta. Por isso, numa pandemia, elas são duplamente castigadas. Por outro lado, no que se refere à educação, mais uma vez ficam acirradas as nossas desigualdades. Longe de mim achar que as crianças que estudam em escolas privadas não estejam sendo afetadas pela covid-19. Perderam a sociabilidade, a oportunidade de aprender em conjunto, de encontrar colegas e professores. Mas se a crise é ruim ela é de alguma maneira contornável. O que dizer de crianças que moram em locais sem internet, que não têm computadores e tampouco pais e amigos para lhes ajudarem? Mais uma vez, a Pandemia apenas evidencia nossa renitente desigualdade.

Por sinal, o Brasil consistentemente vai ganhando posições de proeminência nesse quesito. É o sexto país mais desigual do mundo. É o primeiro, junto com Catar, dentre os países democráticos. O Brasil não é um país pobre, mas é um país de pobres.

O certo é que essa Pandemia apresenta muitas faces, no Brasil e no mundo.
O historiador britânico Eric Hobsbawm disse que o longo século XIX só terminou em 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial. Acreditava-se então no progresso e na evolução. Euclides da Cunha, por exemplo, aqui no Brasil dizia: “Estamos condenados ao progresso”, como se o progresso fosse uma danação de uma sociedade que gostava de se chamar de “civilização”. No entanto, a Primeira Guerra mostrou como esses mesmos povos estavam mais próximos da barbárie e da destruição, e o conflito retirou todo o lustro civilizatório da Belle Époque europeia.

O mundo, ao contrário, não era tão civilizado quanto se imaginava. As pessoas guerreavam corpo a corpo e voltavam mutiladas e traumatizadas, em silêncio. Mas um silêncio cheio de ruídos. Por isso Hobsbawm tem razão: os séculos não terminam com o virar da folhinha do calendário, mas quando grandes crises colocam em questão verdades que já pareciam consolidadas.

A grande marca do século XX foi a tecnologia e a ideia de que ela nos emanciparia e libertaria. Discordo da afirmação de que não estávamos globalizados no século XIX , mas foi apenas no século XX que a tecnologia ganhou escala mundial e acelerou o nosso tempo. Graças a ela, acreditávamos estar nos livrando das amarras geográficas, corpóreas, temporais. Não estávamos! Ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX.

A doença, seja ela qual for, produz uma sensação de medo e insegurança. Diante desse tipo de crise sanitária, nossa primeira reação é dizer que sairemos imunes. Antes de virar uma pandemia, as mortes nos soam muito distantes, e o discurso do “não vai acontecer comigo” é natural. Reconhecer um problema do tamanho de uma pandemia também é algo custoso, em vários sentidos, por isso sempre se vê algum tipo de negacionismo. No começo do século, em 1903, a expectativa de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de “grande hospital” e tinha todo tipo de doença: lepra, sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela. Quando o presidente Rodrigues Alves assume o poder e indica um médico sanitarista para combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, eles começam exterminando ratos e mosquitos e depois passam a vacinar a população.

Mas na época os brasileiros não foram bem informados e reagiram de muitas maneiras. Essa foi a primeira revolta do pós-abolição e a primeira da República que prometeu inclusão, mas entregou muita exclusão social. Aliás, o mesmo Rodrigues Alves estará de volta ao poder no contexto da gripe espanhola de 1918, não como presidente na ativa, mas como presidente eleito. E é dele a ideia de, como Oswaldo Cruz já havia morrido, indicar o herdeiro dele, Carlos Chagas. As autoridades brasileiras já sabiam da propagação da gripe espanhola no mundo, e mesmo assim não agiram a tempo. O vírus entrou a bordo de navios que atracaram no Brasil e então a contaminação explodiu. Mas a atitude sempre foi essa: “Não somos um país de pessoas idosas, nosso clima é quente, aqui a gripe não pega”.

Uma particularidade do momento que vivemos é que as pessoas recebem informações com muito mais velocidade, o que pode ser uma vantagem e uma desvantagem. Uma vantagem porque o acesso à informação foi democratizado, sem tantos intermediários. O conhecimento está mais rápido: todo fim da tarde é possível verificar os dados sobre novos casos de contaminação e novas mortes ocasionadas pela covid-19. A desvantagem é que estamos expostos à ambiguidade das redes: boa parte das fake news no Brasil é negacionista. Elas contestam a gravidade da situação e a importância do isolamento. Também fazem crer em milagres, investindo pesado na propaganda de remédios que não têm eficácia comprovada e podem agravar o estado de saúde dos pacientes, desfazendo os ganhos da ciência. Mais do que nunca, precisamos ser seletivos em relação a nossas formas de conhecimento. Precisamos aprender a reconhecer quais são os veículos idôneos e quais são os profissionais que se pautam por pesquisas e dados. Quem são os especialistas e quem são os populistas que pretendem fazer sucesso em cima de tantas mortes.

Como afirmar que o Brasil corre menos risco porque sua população é mais jovem, se ela é também muito mais desigual que a de países europeus que já se veem sobrecarregados pelos efeitos da pandemia? O negacionismo cria o bode expiatório. E esse fenômeno é recorrente na nossa história.

A conta agora recai sobre os idosos. Nossa sociedade não sabe lidar com a morte, e por isso relutamos tanto em envelhecer, criando o mito da eterna juventude. A juventude é uma construção histórica e cultural, que varia muito a cada época. Fica claro que somos uma sociedade que transforma a história e os idosos em “velharias”. Juventude não é, porém, uma qualidade — é uma forma de estar no mundo que independe de idade. E a pergunta que cada um de nós tem que fazer é: alguém tem o direito de dizer quem pode ou não pode morrer? No Ocidente a velhice é vista não como um momento de sabedoria, mas apenas como decrepitude. E isso também tem a ver com a tecnologia: velho é aquele que não sabe lidar com ela. Portanto, que seja isolado. E aguarde a morte. Pior: não sabemos falar sobre o luto. Não vemos o presidente do Brasil pronunciar uma única palavra de solidariedade às famílias das pessoas que morreram, como se não quisesse nem tocar no assunto. E a essa altura não existe quem não tenha o seu luto: um amigo, um inimigo, um parente, um conhecido.

Esse pensamento combina muito bem com uma sociedade que nega a história, por exemplo, ao dizer que em 1918 não tínhamos as condições de combate à crise que temos hoje. Esse é um uso equivocado e negacionista da história: refutar o passado e dizer que o que aconteceu naquela época não vai acontecer agora. Negar o passado significa também não aprender com ele — com nossos erros e acertos.

Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis — e aí se incluem os idosos, a população de baixa renda e os negros e negras —, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só numa dimensão simbólica, como também de maneira prática. Aliás, como mostra Silvio Almeida, não teremos uma democracia enquanto praticarmos um racismo institucional e estrutural como o que vivemos no Brasil. O racismo é institucional pois só vemos pessoas brancas nas posições de mando e direção. O racismo é estrutural uma vez que se insere, perversamente, em todas as entranhas do sistema: na saúde, na educação, no trabalho, nos transportes, nos índices de nascimento e de morte. É estrutural, também, pois parece “natural” e invisível por parte das elites. Somos capazes de “ver”, pois esse é um atributo biológico; no entanto, temos muita dificuldade de “enxergar”, uma vez que essa é uma escolha cultural e todos nós somos “míopes culturais” e sistematicamente fazemos da “branquitude” uma realidade sem pejas e receios.

O racismo foi uma criação branca, portanto, cabe a toda a sociedade brasileira lidar com ele. O protagonismo é de negras, negros e negres (numa referência aqui a identidades de gênero), mas a pauta é de todos nós. Por sinal, nada mais denunciador do que o conceito de “novo normal”. A pergunta que não quer calar é: “novo normal” para quem? Para as elites que moram em seus “lares”, têm seus computadores individuais e quartos privativos ou para a imensa maioria da população brasileira que não tem acesso a essas benesses?

Já não basta dizer que não somos racistas. Não funciona mais. É preciso ser antirracista, como definiram Angela Davis e Djamila Ribeiro aqui no Brasil. E ter certeza de que a questão não é só moral. Trata-se de uma responsabilidade que implica ações e atitudes de todos nós, em todos os lugares e setores.

Somos um país que vai se mostrando avesso a qualquer tipo de “ressarcimento”, e mesmo à memória. Por exemplo, nunca aprovamos uma política de ressarcimento aos ex-escravizados e ex-escravizadas; na verdade, foram eles os únicos a pagar por suas alforrias, uma vez que compensavam, com o esforço de seus trabalhos, os proprietários e senhores de escravos, comprando a própria liberdade.

O mesmo aconteceu com o golpe militar de 1964. Enquanto outros países vizinhos fizeram comissões e julgaram e puniram os militares envolvidos nas ditaduras latino-americanas, o processo no Brasil foi muito mais brando. Até porque a Constituição de 1988 permitiu a autonomia das Forças Armadas para definir assuntos de seu interesse. O resultado ficou latente no andamento da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final foi entregue à então presidente Dilma Rousseff em 10 de dezembro de 2014. O documento apontou 377 responsáveis direta ou indiretamente pela prática de tortura e assassinato entre 1964 e 1985. Mas a indicação dessas pessoas não implicou sua “responsabilização jurídica”. O relatório fez recomendações ao governo, entre as quais a de que os acusados de cometer crimes contra a humanidade respondessem na Justiça, além de recomendar o necessário reconhecimento pelas Forças Armadas de seu papel na violação de direitos humanos no Brasil. No entanto, a responsabilização criminal, que daria ensejo a uma revisão da Lei da Anistia de 1979, não foi unanimidade e a situação permanece intocada até hoje.

Aliás, impressiona o lugar do Exército na história do Brasil, que garante para si esse papel “tutelar”, de “salvador” da pátria. Os países têm exército e têm também toda uma população de reserva para a hipótese de haver uma guerra. Se o Estado brasileiro levasse a sério a metáfora bélica, que tanto utiliza, deveria ter criado uma estrutura semelhante para lutar nas “guerras de saúde”. Mas ele não dispõe nem sequer de um sistema para prevenir epidemias e se dá ao luxo de demitir dois Ministros da Saúde especialistas, para colocar um militar no comando provisório (e permanente) da pasta. É preciso inverter os termos bélicos, e pensar que essa pode ser uma “crise humanitária”, que depende de todos nós.

Uma doença só existe quando se concorda que ela existe. É preciso mostrar para a população que estamos doentes. Se não temos diretrizes claras por parte do governo, se nosso presidente insiste em dar contraexemplos e apoiar aglomerações, não há argumento que dê conta de se opor ao negacionismo de parte da população brasileira.

Passaram-se cem anos desde que a gripe espanhola chegou ao Brasil, e as alternativas que temos hoje para combater a pandemia da covid-19 não são muito diferentes das usadas naquela época. As reações em 1918 foram muito semelhantes às de agora: havia poucas pessoas nas ruas, todas usando máscara, as igrejas ficaram fechadas, os teatros eram lavados com detergente, os bondes limpos com álcool. A humanidade ainda não inventou outra maneira de lidar com a pandemia a não ser aguardar o remédio ou a vacina.

Nossa prepotência é um pouco esta: achar que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, quando na verdade estamos sempre esperando por um milagre atrás do último arco-íris.

Toda vez que passamos por uma grande crise, nossa principal reação é basicamente a mesma: “Agora nós aprendemos, nunca mais vamos fazer isso”. Mas as crises continuam a acontecer. A pandemia já vinha se anunciando, e as nações não tomaram atitudes preventivas, buscando montar exércitos da saúde. Era preciso que se antecipassem à pandemia, não que corressem atrás do prejuízo. Se a humanidade aprendesse com o passado, os historiadores seriam visionários. Mas, infelizmente, não acredito na ideia de que nós deixamos de repetir o passado. Infelizmente a humanidade é teimosa. Vem se repetindo em termos de violência, de intolerância, de racismo, de xenofobia. Mas, já que é a primeira vez que esta geração vive algo do tipo, quem sabe algumas coisas não mudam? Vários países já estão começando a pensar em estruturas que não apenas reajam, mas prevejam pandemias como esta e outras que virão.

O problema é que nós temos no Brasil um governo que não acredita na ciência. Um governo autoritário e populista que só acredita em si mesmo, acha que tem respostas para tudo e fala diretamente com o povo, sem necessidade da ciência, dos acadêmicos, dos jornalistas, das instituições democráticas. Em horas como esta, fica cada vez mais claro que a saída virá da ciência, com a vacina ou o remédio que venha a controlar a pandemia. Na época da gripe espanhola, Carlos Chagas se tornou mais popular do que cantores e jogadores de futebol — as charges retratavam isso.

Não estranharia se nossos próximos presidentes fossem médicos. O que vários países estão aprendendo é a importância de ter um Ministério da Saúde forte, ocupado por especialistas de verdade, e não contar apenas com um político, mas com um político especialista. A ciência, antes o grande vilão, é hoje a grande utopia.

Sou pessimista no atacado e otimista no varejo. Se cada um exercer sua cidadania, sua vigilância cidadã, quem sabe damos sorte no azar. Quem sabe fazemos dessa crise única na história brasileira — porque é social, econômica, ambiental, cultural, moral e da saúde — uma oportunidade. O fato é que a sociedade civil está comparecendo. A população acordou para a importância do SUS e da ciência. Lutar pelo SUS , nesse momento, é virar um defensor dos direitos humanos. O Brasil já se perdeu e já se encontrou várias vezes em sua história. O novo coronavírus está gerando muita dor, muita solidão, muita insegurança, muito luto. Mas é hora de fazer da crise um propósito. Quem sabe construiremos um cotidiano com mais tempo e qualidade? Quem sabe não aprenderemos a dar tempo ao tempo?

Já havia muitos sinais do desgaste da utopia tecnológica do século que agora termina. É mais do que óbvio o quanto estávamos e ainda estamos abusando da natureza, e os desastres climáticos e ambientais de proporções inéditas são prova disso. Há muito tempo vimos recebendo alertas de cientistas, ambientalistas, ativistas e lideranças indígenas sobre a “queda do céu”, título do impressionante livro de Davi Kopenawa. Nossa marcha desenfreada pela tecnologia agora se depara com essa pandemia, e começamos a nos despedir, tristemente, da utopia do século XX. Bem-vindos ao século XXI.

Lilia Moritz Schwarcz, "Quando acaba o século XX"

Falar, calar

Hoje eu falo de silêncio. Eu, que amo as palavras, hoje fico nos espaços brancos e nas entrelinhas. Fico ausente, estou ausente embora de longe siga pelo milagre da tecnologia tudo o que acontece onde me leem neste instante.

Ausente presente como tantas vezes tantas pessoas.

Nas histórias que relato ou invento, hoje não me interessam tanto as tramas e os personagens: somos todos sombras que andam de um lado para o outro, aparecem e desaparecem em quartos, corredores, jardins. Caem de escadas, jogam-se no poço, naufragam como rostos ou ratos.


A mim seduzem palavras e silêncios, e jeitos de olhar. O formato de uma boca melancólica, ou o baixar de uma pálpebra que esconde o desejo de morrer ou de matar, ódio ou desamparo, hipocrisia, ah, o olhar sorrateiro, o estrábico olhar dos mentirosos.

A mim interessam as coisas que normalmente ninguém valoriza. Porque o real está no escondido. Por isso escrevo: para esconjurar o avesso das coisas e da vida, de onde nos vem o medo, que impulsiona como a esperança.

Nas relações amorosas, sou fascinada pela fração de segundo, o lapso mínimo em que os olhares se desencontram e a palavra que podia ser pronunciada se recolhe por pusilanimidade, egoísmo ou autocompaixão. E a cumplicidade se rompe e a gente se sente sozinha.

O caminho do desencontro é ladrilhado de silêncios, quando se devia falar, e de palavras quando melhor teria sido ficar calado: e a gente sabia, ah, sim, sabia. Pior: é ladrilhado de gestos que não foram feitos quando o outro precisava.

E no silêncio o peso da omissão, cumplicidade com o erro, se agiganta.
Lya Luft

Com o mundo nas mãos

Bernardo tem cinco anos, mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo: “É atrás daquele teto azul que fica o Japão”. Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum. “Mas então o céu não é o teto do mundo”. “Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do céu é o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo” e apontei para o chão: “O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não, só o céu mesmo, mais nada. Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão: “ Então este Brasil é mesmo o fim do mundo.

Daqui pra lá não tem mais nada... Difícil de lhe explicar o que até mesmo a mim parece meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem” Às vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.

Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres modernos, aliás de fabricação japonesa, feito de matéria plástica e que se enchem de ar, como os balões.

O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o Japão e a Inglaterra, o Brasil, os países todos. Limitou-se a fazê-lo girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se dispôs a sair jogando futebol com ele, não deixei.

Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo da mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado e assim que me vi só, tranquei-me no escritório para apreciar devidamente a minha nova aquisição. Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar.

Descobri que a Coreia é muito mais lá para cima do que eu imaginava uma espécie de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O que é que os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa.

O Vietnã nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar. Tem a Tailândia e tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia. A Tasmânia não tem. Pelo menos não encontrei.

Continua sendo para mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor da minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos, para que eu descubra o que é mais que tem.

Outra confusão é ali nas Arábias, onde o pau anda comendo; Síria, Líbano, Arábia Saudita, Iêmen, e o diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar. Estou ficando bom de geografia. Duvido que alguém me diga onde fica Andorra.

A última pessoa a quem perguntei me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no Festival da Canção.

Em compensação, a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar para encher o mundo. De repente me vem uma ideia meio paranoide. De tanto apalpar o globo de plástico, ele acabou meio murcho, acho que o ar está se escapando.

E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro.

O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no cosmo, e do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus oceanos cheios de peixes e singrados por navios, as cidades agarradas aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de aviões, de gaivotas e de urubus...

Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens se explorando mutuamente, se maltratando, se assassinando para colher um segundo de satisfação ao longo dos séculos de História, não mais que alguns minutos em face da eternidade.

Que aventura mais temerária, a de Deus, escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para a ele enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de redimir a nossa pobre humanidade. Faço votos que tenha valido a pena e que um dia ela se veja redimida.

Até lá, este mundo não passará mesmo de uma bola, como esta que meu filho Bernardo, irrompendo alegremente no escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.
Fernando Sabino, "As Melhores Crônicas de Fernando Sabino"

A guerra dos 100 mil anos

Nunca houve guerras boas. Todas trazem sofrimento para muitos e ganhos para alguns. Contudo, a situação atual confirma o ditado popular de que “nada está tão ruim que não possa piorar”. Dito e feito: o que já era ruim ficou pior.

Além da destruição normal provocada por qualquer conflito, hoje em dia as guerras estão tornando ainda mais difícil o esforço da humanidade para conter o aquecimento global. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas europeu (Copernicus), em 2023 a temperatura do planeta foi a mais elevada dos últimos 100 mil anos.


De maneira pontual, as guerras modernas em si já provocam aumento das emissões de gases efeito estufa, resultante do aumento da queima de combustíveis fósseis pelos veículos e equipamentos utilizados.

Porém, as guerras podem provocar outros impactos mais sutis (e muito mais expressivos) sobre o enfrentamento do caos climático, que vem se mostrando iminente. Um deles tem a ver com a pergunta central no debate da mudança climática: quem vai pagar a conta?

Basta observar a dificuldade dos governos europeus e do americano em defender uma provisão orçamentária para a prevenção e adaptação às consequências da mudança climática. Quando uma guerra começa, o dinheiro disponível é direcionado para o mercado de defesa. É o que está acontecendo com os conflitos da Ucrânia e de Gaza.

No caso ucraniano, a nova guerra atingiu a oferta de grãos e o mercado de fertilizantes. Pela primeira vez na história, a crise dos alimentos alcança a escala de ‘elemento estratégico’ para os países.

Na correria dos europeus para garantirem sua independência alimentar e energética, abandonou-se acordos multilaterais que vinham tratando da transição da matriz de energia, descarbonização da economia etc.

Por sua vez, o parlamento dos EUA, de maioria republicana, aumentou sua resistência à destinação de recursos para cooperação ambiental mundo afora diante da prioridade de apoio a Israel e Ucrânia.

Nesse cenário aquecido, se a humanidade quiser realmente esfriar o planeta precisará, antes de mais nada, esfriar a cabeça.