segunda-feira, 27 de novembro de 2023

A guerra e a terra

A guerra, retumbante fracasso da Política, é uma severa agressão ao Planeta em contraste com as sábias palavras de Francisco na Encíclica Laudato si, Louvado sejas, cujo subtítulo: sobre o Cuidado da Casa Comum (2015) exaltam os cuidados com a Terra.

O Professor Clovis Cavalcanti, economista ecológico avant la lettre, recomendou uma leitura reflexiva e me disse, feliz, que tínhamos um Papa que compreendera a dimensão do cântico de São Francisco de Assis ao pregar: “a nossa casa comum se pode comparar ora a uma Irmã, com que partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços”.

Que me perdoem os cientistas,, dedicados pesquisadores, notáveis filósofos, pensadores e os bem-intencionados líderes empresariais e políticos, mas o texto papal é insuperável. Revoluciona a base conceitual dos padrões civilizatórios contemporâneos e propõe uma relação fraterna entre o Homem e a Natureza de modo a assegurar equilíbrio e integridade planetária para as novas gerações.


O gatilho da releitura foi um cotidiano repleto de violências da guerra que nos chegam todos os dias, ao vivo e em cores, exemplos do extremo desamor humanitário. A destruição em larga escala do meio ambiente se soma também, às pequenas e grandiosas maldades, criminosas, que vão do corte da árvore, à poluição do ar, à contaminação da água e ao envenenamento da terra como se o papel da natureza se limitasse a alimentar um sistema de produção capaz de atender o consumo desenfreado e a ambição incontida.

Ao lado estrondoso da guerra, também, nos chegam eventos em proporções nunca vistas de enchentes, incêndios, vendavais, calor intenso e frio paralisante, ameaçando o ritmo da natureza e, por consequência, colocando em risco a biodiversidade, a cadeia produtiva e a segurança alimentar.

Ora, não foi por falta de aviso das instituições internacionais e de vozes esclarecidas que o abuso da natureza por uma equivocada dominação humana e o uso desenfreado dos recursos naturais, afetaria o clima, acelerando mudanças e provocando graves emergências climáticas. Tudo com base científica, ignorada pelo obscuro, delinquente negacionismo e desmedida ganância do enriquecimento.

É inegável que as inovações tecnológicas e os avanços da ciência ajudam, a mitigar os impactos, mas estão longe de ser um Deus ex-machina. O verdadeiro poder está na consciência das pessoas; é um impulso de dentro para fora que enxergue uma relação amorável com cada pedaço e cada ser do universo.

Neste desafio de profunda transformação cultural, há uma componente vital: a ética do bem comum. Inviável trilhar este caminho sem a companhia de um regime político que assegure a força da alteridade, da solidariedade, do diálogo e dos consensos. Este regime político é a democracia.

A guerra e a autocracia são inimigas do futuro da Terra.

Neste sentido, o argumento democrático vem sofrendo ameaças em decorrência do avanço da polarização política, do discurso antistabilshment, apropriado pelo populismo extremista. É uma doença que tem sérios sintomas endêmicos. Os aliados da antidemocracia, revela recente e farta literatura política, promovem a erosão das instituições e destroem o regime com os próprios mecanismos que dão sustentação às democracias liberais. Sem tanques, a arma é a cooptação e desmoralização dos mecanismos da representação popular até o capítulo final da captura do poder. A Hungria é um caso exemplar.

A propósito, os autores, Levitsky e Ziblatt, de Como as democracias morrem, (Zahar, 2018) lançaram uma obra atualíssima Como salvar a democracia (publicada no Brasil no dia 17 do corrente mês pela Editora Zahar), com um prefácio comparativo das situações entre o Brasil e os EUA, enfatizando ao longo da obra o fenômeno trumpismo/republicanos e um olhar comparativo da ascensão dos extremismos mundo afora.

De outra parte examinam com acurácia algumas circunstâncias a serem enfrentadas: a banalização do autoritarismo, a semilealdade, atributo dos personagens aproveitadores de qualquer espaço de poder, a tirania das minorias (a reversão da “tirania da maioria”).

E ao constatar a perda de prestígio da democracia, os autores defendem estratégias capazes de lutar contra o perigo autoritário, entre elas, coalizões centristas, democracia militante e defensiva, reformismo institucional, reafirmando que “a cura de todos os males da democracia é mais democracia”.

Sem meias palavras, os autores concluem com firmeza: nossas instituições não salvarão as democracias, temos que salvá-las nós mesmos; ou seremos democracias multirraciais no século XXI ou não seremos democracias.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


O agro quer empurrar a conta do clima (para você)

No último dia 8, o presidente-executivo da Abiove, André Nassar, publicou no Broadcast Agro um artigo atacando o SEEG, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima. Entre outras coisas, o texto acusa o OC de ter, de alguma forma, contribuído para a exclusão ao agronegócio do mercado regulado de carbono ao atribuir 75% (na verdade, 74%) das emissões do país aos sistemas alimentares. Ocorre que o estudo em referência só foi publicado após a exclusão do agro do projeto de lei que regulamenta o referido mercado – exclusão esta que ocorreu a pedido do próprio setor. Esse é um dos problemas técnicos e lógicos da missiva, dos quais trataremos adiante. Na raiz de todos eles está uma narrativa cada vez mais utilizada pelo agronegócio brasileiro: o setor não quer assumir as emissões de desmatamento.

Há 11 anos o SEEG publica anualmente, com cálculos feitos a partir de uma metodologia robusta e publicada numa das principais revistas científicas do mundo, as estimativas de emissão do Brasil. As análises do SEEG são tão sólidas que três estados brasileiros usam o sistema do OC para fazer os próprios inventários de emissões. Ano após ano, as contas do SEEG mostram que a devastação perdulária dos nossos biomas responde por cerca de metade das emissões brutas de gases de efeito estufa do país.

Agora, às vésperas da COP28, o agro decretou que não tem nada a ver com isso. Tem-se ouvido de figuras importantes do setor, dentro e fora do governo, que desmatamento e clima são coisas distintas; e que, se há alguém desmatando no país, esse alguém não é o agronegócio. A historinha é que a agropecuária só participaria do drama do clima global na condição de vítima.


Em 24 de outubro, 20 dias depois de o agro ter exigido – e ganho – sua exclusão do PL do mercado de carbono, o OC publicou um relatório calculando pela primeira vez as emissões totais dos sistemas alimentares do Brasil. A forma de fazer a conta é nova. Como Nassar aponta, ela de fato “rompe a fronteira” dos inventários de emissões ao considerar tudo o que é emitido nas fases de pré-produção agropecuária (mudança de uso da terra e produção de fertilizantes), produção (emissões diretas do rebanho, por exemplo) e pós-produção (transporte de alimentos e uso de energia do varejo, por exemplo). Os autores do SEEG aplicaram no Brasil um método desenvolvido pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

Embora a conta seja nova, a notícia é velha: o desmatamento responde pelo grosso do 1,8 bilhão de toneladas de CO2 equivalente emitidas pelos sistemas alimentares no Brasil, com 56,3% do total, seguido pelas emissões diretas da agropecuária, com 33,7%, energia, com 5,6%, e resíduos, com 4,2%.

Confrontado com a febre, o presidente da Abiove preferiu atirar no termômetro: Nassar se bate contra a “alocação” das emissões, em especial as de desmatamento, ao setor. Segundo ele, a metodologia de alocação usada pelo OC no SEEG levaria a uma “atribuição exagerada” da responsabilidade das commodities pelo desmatamento. O oposto é verdade: o método da alocação, que parte das emissões totais do país (calculadas pelos seguros métodos de inventários que o SEEG adota rigorosamente) para então atribuí-las a um conjunto específico (no caso, os sistemas alimentares), busca justamente evitar que as emissões sejam superestimadas ou subestimadas.

Um aparte aqui: o peso direto do agro no PIB do Brasil é de cerca de 7%. Só que o setor computa efeitos indiretos, como a venda de máquinas agrícolas, insumos e serviços para chegar ao número mais frequentemente usado de 25% de participação. Isso tem nome: alocação. Aceitar alocações para a composição do PIB do agro, mas rejeitá-las quando o assunto são emissões, tem outro nome: duplo padrão.

O corolário desse raciocínio é que, se não se deve atribuir ao agronegócio as emissões de desmatamento, é porque o agro não desmata. Se isso é verdade, alguém mais está desmatando – a menos que as árvores da Amazônia venham programadas para entrar em apoptose e depois em combustão espontânea. Mas quem seriam os responsáveis? E o que ocorre com essa área convertida?

Utilizando as matrizes de transição do MapBiomas, que olham o que aconteceu com cada quadrado de 30 metros por 30 metros do território brasileiro desde 1985, os autores do SEEG concluíram que, desde 1990, 92% das emissões por desmatamento ocorreram devido à formação de pastagens, e outros 5% à produção de soja. Decerto há muito desmatamento especulativo, feito para tomar posse de terras públicas e não para produzir. Só que o destinatário final da maior parte da área aberta por grileiros é um pecuarista. Não há, portanto, nenhum erro em alocar todas as emissões por mudança de uso da terra, atividade que se beneficia de pelo menos 97% delas, à agropecuária. Ao contrário, é obrigação de quem calcula emissões fazê-lo.

Mas, se o agro não tem nada a ver com quem desmata, fica aqui então um desafio para o setor: aprovar um projeto de lei aumentando a punição aos crimes por desmatamento, ou outro para punir de forma rigorosa e definitiva o crime de grilagem de terras, que afinal tanto lhe prejudica a imagem.

No mundo real, infelizmente, o que se vê é o contrário: representantes do agro no Congresso estão neste momento em campanha para aprovar uma anistia potencialmente eterna à grilagem de terras no país e avançando sobre os direitos e territórios indígenas, estes os verdadeiros guardiões das florestas. Pior ainda, a julgar pela sugestão de André Nassar sobre o mercado de carbono, o setor quer ganhar dinheiro vendendo créditos de carbono, mas não quer reportar e muito menos limitar suas emissões. No sistema de “cap and trade”, o agro quer o “trade”, mas não o “cap”.

A agropecuária brasileira é melhor que isso. É um setor que obteve ganhos imensos de produtividade com uso de tecnologia e que há dez anos pratica o maior programa de agricultura tropical de baixa emissão do mundo, com sequestro líquido de carbono em solos bem manejados (como o SEEG mostra há oito anos). Faria melhor o setor para si, para o país e o planeta se encarasse seus problemas – todos solucionáveis – de frente em vez de tentar se esconder atrás de contorcionismo retórico ou negacionismo.

As vozes do povo precisam ser ouvidas

Não sei dizer se “a voz do povo é a voz de Deus”, mas que a sociedade precisa ser mais ouvida, precisa.

As mudanças na sociedade são como placas tectônicas em movimento. Só são percebidas quando ocorrem acidentes, como os terremotos, cujo paralelo seriam as revoltas nas ruas e as surpresas nas urnas.

Há um descontentamento social que se revela em sentimento de insegurança e medo de retrocessos. Esse fenômeno, global, representa um desafio, especialmente para os partidos de centro-esquerda, que têm falhado ao não capturar e acolher as novas demandas sociais.

Nos Estados Unidos, estudo recente do Progressive Policy Institute aponta para mudanças nos anseios de eleitores da classe trabalhadora, que levaram ao seu afastamento do Partido Democrata. Uma trajetória que culminou com o domínio de Trump no Partido Republicano.


Se no passado a classe trabalhadora estava associada a ocupações masculinas sindicalizadas, principalmente na manufatura, hoje ela se encontra mais nos vários segmentos de serviços, muitos não sindicalizados, havendo grande presença de mulheres. Muitos trabalhadores não desfrutam dos benefícios dos sindicalizados da indústria e desejam ter seus próprios negócios, sendo assim mais sensíveis a barreiras regulatórias e burocracias que dificultam o empreendedorismo.

Queixam-se da automação que deprime empregos e salários, e não veem o grau universitário como caminho para o avanço profissional. A maioria (74%) defende o investimento público em estágios e planos de carreira e deseja atividades de curta duração que combinem aprendizado e trabalho.

Grande parcela (45%) acredita que o Partido Democrata se moveu em demasia para a esquerda e (40%) o considera bastante influenciado por "interesses especiais”, como sindicatos do setor público. Quando perguntados sobre o que mudariam na plataforma democrata, apontaram a prioridade no crescimento e o controle dos gastos públicos.

Apesar de desejarem maior respeito do Partido Republicano a instituições democráticas e postura menos restritiva em temas sociais, o julgam mais preparado para gerir a economia. Acham que se sai melhor no fortalecimento da iniciativa privada e do empreendedorismo. Os democratas lideram apenas na agenda ambiental e no respeito às instituições democráticas.

A eleição de Javier Milei na Argentina é outro exemplo das consequências do movimento de placas tectônicas. Com apoio puxado por homens jovens, sem formação superior e baixas perspectivas no mercado de trabalho, obteve ampla vitória.

As últimas décadas mudaram a dinâmica social naquele país, principalmente desde a crise de 2001, quando a pobreza ficou mais visível, aponta a consultoria Moiguer. Até então, apesar da fragmentação da sociedade, havia um imaginário comum de um país de classe média – tanto segmentos ricos como pobres se identificavam como classe média.

As crises econômicas não só aprofundaram como solidificaram a fragmentação social, apagando o sentimento de pertencimento de classe média e alimentando a polarização na sociedade, em diversos temas.

Um estudo da consultoria aponta que 91% da classe baixa, que representa 50% da sociedade, é cronicamente pobre, o que significa que não sairia da pobreza mesmo com 4 ou 5 anos de crescimento econômico robusto do país. Apesar de 70% dos indivíduos da classe baixa terem mais escolaridade do que os seus pais, isso não se traduziu em ascensão social.

O Brasil seguiu caminho diverso, que permitiu o surgimento da nova classe média, ainda que com retrocessos por conta da recessão do governo Dilma. Novos anseios surgiram, como por serviços públicos de qualidade e liberdade para empreender. Temas típicos de uma agenda liberal deixam de ser tabu, como as reformas trabalhistas e a autonomia do Banco Central.

Enquanto isso, o PT confunde estado forte, que provê bom serviços públicos e protege direitos, com estado intervencionista, que alimenta o patrimonialismo, este bastante revigorado, como se viu na tramitação da reforma tributária.

Há ainda boa dose de paternalismo que, ao final, acaba prejudicando a própria classe trabalhadora, como no tabelamento dos juros do consignado e na portaria que condiciona o trabalho do comércio nos domingos e feriados à convenção coletiva de trabalho.

Esses elementos não têm aderência aos novos valores das classes trabalhadoras. Elas serão ouvidas?

Vencedora do Pulitzer denuncia guerra em Gaza e se demite do New York Times

A guerra em Gaza e o horror televisionado tem levado intelectuais, artistas e ativistas em todo o mundo a se posicionarem a respeito dos crimes de guerra cometidos por Israel durante o conflito. Uma delas, é a proeminente a poetisa e ensaísta Anne Boyer, que se pronunciou de forma contundente contra a política editorial do The New York Times (NYT) sobre a cobertura da guerra no Oriente Médio.


Editora de poesia da New York Times Magazine, o suplemento dominical do diário novaiorquino, ela pediu demissão do cargo, alegando que “a guerra do Estado israelense apoiada pelos Estados Unidos contra o povo de Gaza é em nome de ninguém”.

“Não há segurança dentro ou fora dela, nem para Israel, nem para os Estados Unidos ou a Europa, e especialmente para os muitos povos judeus caluniados por aqueles que afirmam falsamente lutar em seus nomes. O seu único lucro é o lucro mortal dos interesses petrolíferos e dos fabricantes de armas”, acrescentou a autora, em texto publicado em seu blog Mirabilary, no qual divulga as razões por trás de sua decisão.

Em outra passagem do seu texto de demissão, a poetisa condena as “paisagens infernais verbalmente higienizadas” nos textos do jornal, e também o apoio editorial do NYT às “mentiras belicistas” de Israel.

O último trabalho de Boyer como editora do suplemento do NYT foi a publicação, na edição de 5 de novembro, de um poema da poeta palestino-americana Fady Joudah intitulado “Escrito nas últimas semanas”, sobre o qual ela comentou: “O peso do não dito e do indizível, do perdido e do deixado de lado, paira sobre a cabeça do poema. Talvez seja a Palestina. O que está faltando desafia a proporção. Poderia ser tão vasto quanto a história, tão pequeno quanto a respiração de uma criança”.

Anne Boyer vive atualmente em Kansas City, no Missouri. Sua carreira se destaca por obras como The Romance of Happy Workers (2006), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015, 2016) e Handbook of Disappointed Fate (2018).

Anos atrás, a escritora lutou contra um agressivo câncer de mama, e criticou firmemente o sistema de saúde norte-americano no livro The Undying: Pain, Vulnerability, Mortality, Medicine, Art, Time, Dreams, Data, Exhaustion, Cancer, and Care (2019), vencedor do Prêmio Pulitzer de 2020.

Na obra, a poetisa aborda “a experiência da doença mediada por telas digitais, tecendo antigos diários de sonho, fraudadores e fetichistas do câncer, vloggers de câncer, mentiras corporativas, pessoas pró-dor, os custos ecológicos da quimioterapia e os muitos pequenos assassinatos do capitalismo”, como descreve o site da premiação.

Posições anticapitalistas são uma marca da escrita transgressora de Boyer. Em entrevista à BBC em 2021, ela crítica a retórica neoliberal do livre arbítrio, dizendo que “ela esconde que, na realidade, muito do que nos acontece não é o resultado de nossas escolhas, é um conjunto de condições compartilhadas, de forças históricas, de estruturas político-sociais”.

“Não posso escrever sobre poesia no tom ‘razoável’ daqueles que pretendem nos acostumar a esse sofrimento irracional”.

Eis a sua carta de renúncia ao seu cargo como editora de poesia da New York Times Magazine:

“Pedi demissão do cargo de editora de poesia da New York Times Magazine.
A guerra do Estado israelense apoiada pelos Estados Unidos contra o povo de Gaza é em nome de ninguém. Não há segurança dentro ou fora dela, nem para Israel, nem para os Estados Unidos ou a Europa, e especialmente para os muitos povos judeus caluniados por aqueles que afirmam falsamente lutar em seus nomes. O seu único lucro é o lucro mortal dos interesses petrolíferos e dos fabricantes de armas.

O mundo, o futuro, os nossos corações – tudo fica menor e mais difícil com esta guerra. Não é apenas uma guerra de mísseis e invasões terrestres. É uma guerra contínua contra o povo da Palestina, pessoas que resistiram durante décadas de ocupação, deslocação forçada, privação, vigilância, cerco, prisão e tortura.
Como o nosso status quo é a auto expressão, por vezes o modo mais eficaz de protesto para os artistas é recusar.

Não posso escrever sobre poesia no tom ‘razoável’ daqueles que pretendem nos acostumar a esse sofrimento irracional. Chega de eufemismos macabros. Chega de paisagens infernais higienizadas verbalmente. Chega de mentiras belicistas.
Se esta demissão deixa nas notícias um buraco do tamanho da poesia, então essa é a verdadeira forma do presente”.

Nunca morreram tantos jornalistas num só lugar

Quando, a 2 de Novembro, o jornalista Mohammed Abu Hatab, repórter veterano da Televisão da Palestina, morreu em Gaza, as notícias sobre a sua morte foram confusas.

Salman Al-Bashir, colega da mesma televisão – o canal oficial da Autoridade Palestiniana –, estava em directo quando soube da morte. Ficou muito perturbado, chorou ao vivo e, num gesto que correu o mundo, tirou o capacete da cabeça e despiu o colete antibala com a palavra “PRESS” gravada no peito e nas costas. Atirou tudo para o chão e disse qualquer coisa como: “Isto não serve para nada, não nos protege de nada, vamos ser todos mortos”.

A sua intervenção dava a entender que Abu Hatab morrera “em serviço”, enquanto fazia uma notícia ou uma reportagem. No dia seguinte, o New York Times publicou uma notícia que dizia na “entrada” – frase abaixo do título que antecede o texto – que “Mohammed Abu Hatab é o mais recente jornalista a morrer enquanto cobria a guerra Israel-Hamas”.


Abu Hatab não estava a trabalhar. A própria notícia do New York Times diz que “a Televisão Palestina disse” que Abu Hatab foi morto “em casa por um ataque aéreo israelita”.

Abu Hatab estava em casa. Todas as notícias que li relatam que morreu com 11 membros da sua família, incluindo a mulher, um filho e um irmão. Algumas notícias dizem que fizera uma reportagem no Hospital Nasser, em Khan Yunis, em Gaza, uma hora antes do ataque a sua casa e sugerem que a casa foi um alvo directo de Israel. Há imagens que mostram o pequeno prédio onde Abu Hatab vivia totalmente destruído, ao lado de prédios intactos.

Será difícil saber.

É bem possível que não tenha sido intencional, mas um bombardeamento como tantos outros. Já morreram 15 mil pessoas desde que a guerra começou, alguns são jornalistas, muitos mais têm outras profissões ou são jovens e crianças.

A organização Euro-Mediterranean Human Rights Monitor, cujo presidente é Richard Falk, professor emérito de Direito Internacional da Universidade de Princeton, diz no entanto que “Israel lançou uma onda de assassinatos contra jornalistas no país, visando deliberadamente profissionais e escritórios de media, para tentar impor um bloqueio real e abrangente dos media em toda a Faixa de Gaza”.

Diz também que “a escalada de Israel contra os jornalistas foi acompanhada pelo incitamento público por parte de ministros e funcionários israelitas, que fizeram afirmações infundadas e ilógicas de que jornalistas tinham conhecimento do ataque de 7 de Outubro no sul de Israel”. Dão como exemplo as declarações do antigo embaixador israelita nas Nações Unidas, Danny Danon, que apelou a que alguns fotojornalistas de Gaza fossem incluídos na lista de participantes na operação de 7 de Outubro e fossem “eliminados”.

Dirá o leitor: a Euro-Mediterranean Human Rights Monitor é pró-Palestina, a sua análise é parcial. É possível.

Mas o caso de um freelancer da agência de notícias Reuters levanta perguntas perturbadoras.

Há dois dias, a Reuters escreveu que “ataques mortais atingiram a casa de um fotógrafo em Gaza, dias depois de um grupo de activistas de defesa dos media israelitas ter questionado a sua cobertura do ataque do Hamas de 7 de Outubro, gerando ameaças de morte contra ele nas redes sociais”.

Diz a Reuters que o fotógrafo Yasser Qudih sobreviveu ao ataque a sua casa na noite de 13 de Novembro, mas que oito familiares morreram. O ataque ocorreu cinco dias depois da publicação de um texto da organização HonestReporting no qual se questiona se Qudih e outros três fotógrafos de Gaza, cujas imagens foram publicadas na Reuters, AP, CNN e New York Times, teriam tido conhecimento prévio do ataque de 7 de Outubro.

A HonestReporting diz ter como missão “combater o preconceito ideológico no jornalismo e nos media com impacto em Israel”.

No dia 9, a Reuters negou as sugestões da HonestReporting de que tinha conhecimento prévio do ataque e disse que o governo israelita lhe exigira explicações.

O HonestReporting disse que não estava a acusar a Reuters de conluio, mas a “levantar questões éticas sobre a cobertura jornalística”.

O facto é que circulou uma fotografia de 7 de Outubro na qual se vêem palestinianos a transportar uma mulher civil israelita, capturada no kibbutz Kfar Azza e que estava ser levada de moto para Gaza. Na imagem, vêem-se dois fotógrafos.

A 8 de Novembro, Eli David, investigador e investidor (e que diz ter uma das 100 contas de Twitter mais influentes do mundo), publicou essa fotografia com setas vermelhas a apontar para esses fotógrafos palestinianos e escreveu no X: “Última hora: AP, CNN, New York Times e Reuters tinham jornalistas ’embedded’ com os terroristas do Hamas no massacre de Outubro.” O post foi visto por dez milhões de pessoas.

No dia 9, o general Benny Gantz, ministro sem pasta no actual governo israelita, escreveu no X que “os jornalistas que sabiam do massacre e que ainda assim optaram por permanecer como espectadores passivos enquanto crianças eram massacradas não são diferentes dos terroristas e devem ser tratados como tal.”

A Reuters respondeu que as fotografias que comprou a Qudih, fotógrafo que estava na fronteira a 7 de Outubro, foram tiradas muito depois de o ataque ter começado, o que destrói o argumento de que a agência ou o fotógrafo tiveram conhecimento prévio do ataque.

Disse a Reuters: “As fotografias publicadas pela Reuters foram tiradas duas horas depois de o Hamas ter disparado contra o sul de Israel e mais de 45 minutos depois de Israel ter dito que homens armados tinham atravessado a fronteira. Os jornalistas da Reuters não estavam no terreno nos locais mencionados no artigo do HonestReporting.” Ou seja, os jornalistas souberam do ataque e foram a correr para a fronteira, que é o que os jornalistas fazem.

Certo é que, dias depois de tudo isto, a casa de Qudih foi bombardeada.

Desde que a guerra Israel-Hamas começou, já houve mais jornalistas e pessoal dos media mortos do que em qualquer outro período semelhante num só conflito, disse o Comité de Protecção dos Jornalistas. Pelo menos desde 1992, quando esta lista começou a ser feita. Hoje, 22 de Novembro, já são 62 mortos, quase todos jornalistas palestinianos. Em 2022, em todo o mundo, morreram 68 jornalistas por serem jornalistas.

Sessenta e dois jornalistas são uma gota nos mais de 15 mil mortos desde o início desta guerra. A vida dos jornalistas não vale mais do que a dos médicos, professores ou sapateiros. E muitos jornalistas não morreram enquanto estavam a trabalhar, não terão morrido por serem jornalistas. A maior parte estava simplesmente em Gaza, em casa, talvez a dormir.

Mas há dois problemas: o primeiro é a nuvem de suspeita sobre a morte de tantos jornalistas em tão pouco tempo. Outro é mais simples: há cada vez menos jornalistas para contar o que se está a passar em Gaza.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Milei reforça onda de ultradireita na América Latina; agora é a vez da Argentina

Chegou a vez da Argentina. Javier Gerardo Milei, economista de 53 anos, alcança a Presidência de seu país como a versão platense de uma tendência de governos de ultradireita que vêm atravessando outros países da região.

Suas particularidades são muitas em relação àqueles com quem costuma ser comparado: não tem apreço pelo conservadorismo moral ou pelos militares como tinha Jair Bolsonaro; não evoca ditadores do passado, como o chileno José Antonio Kast; não defende a construção de prisões gigantes nem um Estado hiperpaternalista como o salvadorenho Nayib Bukele; tampouco aprova que o Executivo seja enorme e abocanhe os demais Poderes, como o guatemalteco Alejandro Giammattei.

Mas, sim, Milei se parece com todos eles ao pregar um rompimento com o que considera política tradicional, ao abraçar o politicamente incorreto, ao desconsiderar as políticas de gênero e avançar contra os direitos de minorias e imigrantes, ao estar a favor da liberação do comércio de armas e ao elogiar e exaltar a meritocracia em um país em que isso deveria ser considerado obsceno devido a suas grandes desigualdades.


Nunca a Argentina teve um presidente tão excêntrico como Milei. Carlos Menem (1930-2021) poderia ser uma comparação nesse quesito. Adorava receber presentes caros, como Ferraris; embarcou no delírio da convertibilidade dólar/peso e das privatizações em um país não preparado para isso; esteve cercado de casos místicos em que mortes e intrigas de pessoas próximas a ele e a seu círculo de poder eram comuns; deu indultos a repressores da última ditadura (1976-1983), como a vice de Milei, Victoria Villarruel, deseja fazer.

Como Menem, Milei não esconde sua enorme vaidade, que o faz namorar mulheres do mundo do espetáculo e exibi-las por todos os lados, assim como transmitir a ideia do macho alfa que tem "superioridade estética" com relação aos que pensam diferente.

Também como Menem, Milei não quer saber dos países vizinhos e de se parecer com outros países latino-americanos. Para quem não se lembra, Menem falava em manter "relações carnais" com os EUA. Milei quer chutar o Mercosul em nome da "liberdade" de buscar tratados de livre-comércio com o mundo e se relacionar com "Israel e o mundo ocidental".

O clássico "Pizza Con Champán" (Sylvina Walger, 1995), que retrata a fervilhante excentricidade dos anos 1990, "dolarizados", com um presidente meio amalucado no comando do país, merece ser relido hoje como possível referência de coisas que podem ocorrer novamente.

Milei venceu as eleições por conta de um cansaço da população com o kirchnerismo —esta que vem sendo a corrente predominante do peronismo desde o surgimento de Néstor Kirchner, em 2003. Esse cansaço já havia dado mostras de uma escalada antes, abrindo espaço para a eleição de Mauricio Macri em 2015.

Este, porém, também falhou ao não conseguir reduzir a inflação, fazer os ajustes necessários e trazer investimentos. O resultado é que a pobreza aumentou até cifras muito parecidas às obscenas de hoje. Seu governo começou a ruir a partir de 2018, quando decidiu pedir o empréstimo de US$ 56 bilhões ao FMI (Fundo Monetário Internacional), que comprometeria a economia do país nos anos seguintes, junto à pandemia e à grave seca que fez com que o país tivesse um prejuízo de US$ 20 bilhões no ano passado.

Sergio Massa, ministro da Economia há apenas um ano, tem menos culpa do que se pintou contra ele durante a campanha eleitoral. As medidas que Alberto Fernández se recusou a tomar no começo de seu mandato estão mais relacionadas a essa situação econômica agônica na qual o país já arrastava. A má relação entre ele e sua vice, Cristina, e suas diferenças não "acalmaram a economia". De todo modo, a "narrativa" de que Massa era o culpado pela inflação foi eficiente.

O resultado do fracasso de Macri foi um cansaço ainda mais raivoso do que havia em 2015. Se naquele ano atacavam-se a corrupção e a deterioração econômica apontando apenas para o kirchnerismo, em 2023 essa insatisfação cresceu de modo mais hostil, abraçando também a oposição.

O achado de Milei, de chamar a todos, incluindo a oposição, de "casta" lhe deu vantagem desde o início de sua escalada, nas eleições legislativas de 2021, quando se elegeu deputado.

É preciso olhar para a história para avaliar as chances de êxito de Milei em seu governo. Macri teve como um de seus únicos sucessos o fato de ser o único opositor ao peronismo a completar um mandato. Os demais todos saíram antes. Esse fantasma acompanhará Milei, uma vez que o peronismo na oposição atua em sua forma mais eficiente, mobilizando sindicatos, militância e províncias em que reina há décadas.

Outro entrave para Milei será o Congresso, onde não terá maioria. Também a Constituição, que colocará travas a sua ideia de promover consultas populares vinculantes para aprovar medidas como a dolarização ou outras que não teriam chance, a princípio, de passar pelo Parlamento.

Se saem de cena os Kirchners, o peronismo vai se reagrupar em torno de novas figuras e terá o espaço deixado pelo Juntos pela Mudança.

O peronismo também tem recursos para conter "estallidos" e evitar grandes tensões sociais, justamente por distribuir benefícios. Milei não contará com isso. Se não entregar resultados rápidos nos primeiros meses, a chance de a insatisfação tomar as ruas é muito grande.

Os direitos para o futuro da Terra

Há profundas alterações no clima do planeta, em decorrência da poluição, da economia desenfreada e poluente dos países desenvolvidos, e da baixa aderência aos protocolos climáticos.

Direitos e deveres surgirão para tornar ou manter a Terra, minimamente, habitável?

Esses novos direitos terão como prioridade a manutenção da vida? Tal catálogo está profundamente relacionado à água potável, à suportabilidade das altas temperaturas, à escassez dos alimentos e ao novo formato das habitações.

Isso relaciona-se com a desertificação de amplas áreas, hoje agricultáveis, da poluição das nascentes, dos rios e dos mares, da extinção das florestas, às enchentes inesperadas e aos novos fenômenos que resultam em multidões de refugiados climáticos.

Serão direitos conectados ao meio ambiente e à sobrevivência. Os deveres estarão relacionados à produção econômica das grandes corporações, que jamais se submeteram aos protocolos ambientais.

A supressão da poluição aérea, terrestre e hídrica deverá compor uma nova Constituição Global e Estatal, hoje relegada às franjas ineficazes dos ordenamentos jurídicos.

Como direitos sem sanção não funcionam, – as estruturas do poder estatal obrigarão o cumprimento desse novo sistema legal ambiental.

Por enquanto, está ocorrendo a perda considerável de vidas, faunas e floras, e os painéis científicos internacionais apenas orientam e alertam, nada mais.

Tal debate está distante das novas tecnologias, da inteligência artificial e das poderosas redes sociais que arrastam milhões de pessoas à superficialidade.

Enquanto isso, nos E.U.A., cujo PIB está crescendo graças à indústria armamentista, detém 45% da produção de armas globais.

Em 2022, esse mercado movimentou US$ 2,2 trilhões, em 2023 cresceu US$241 Bi (estimado). Resumo, tais lucros poderiam promover o fim da miséria no mundo, e reduzir a marcha do aquecimento climático. Nada é feito.

Os fins do Estado estão cada vez mais esquecidos: da segurança pública; dos transportes, do fornecimento da energia e da água potável; das políticas públicas e da economia em prol da população.


Ao lado da indústria das armas estão os bancos e a especulação financeira em grande escala, que espoliam bilhões de pessoas, com lucros sempre maiores que todos os outros setores econômicos. Resultado: a economia global movimenta-se no eixo das armas e das instituições financeiras.

Os ordenamentos preocupam-se com esses temas, ora escamoteando-os, ora garantindo-lhes a legalidade. Vejamos as recentes leis e as novas decisões de tribunais sempre favoráveis aos bancos no Brasil, como também a ideologia da independência dos bancos centrais, o livre mercado que se autorregula, enfim, tudo que desencadeou a quebradeira de 1929 e 2008 (dentre outras).

Os direitos e os deveres deverão focar nos profundos problemas globais do clima, das guerras e dos genocídios.

A primeira grande medida será a extinção dos arsenais bélicos e da indústria armamentista; a segunda, a alteração na economia global para voltá-la aos cidadãos do mundo e não ao rentismo. Na última conta, as atuais armas nucleares do mundo poderiam destruir 80 vezes a Terra. Tudo isso que está acontecendo não é uma grande e terrível lição para a humanidade?

Calor.

Tudo está abafado. O ar condicionado mal dá conta, é preciso auxílio do ventilador. Luísa sua pela nuca, testa e virilhas, mas não pelas axilas. Nunca soube o porquê. Só sabe que há coisas na vida que desconhecem porquês e para quês. Só são como são. Luísa é assim, sudorenta irregular. O calor lhe desperta seus “não sei porquês” do corpo e da alma. Fica mais manhosa, às vezes, letárgica. O lento espalhar com as mãos do suor do pescoço e peito lhe dá um ar sedutor e, ao mesmo tempo, seu rosto adquire traços de cansaço e devaneio. Para quem a vê, Luísa torna-se um mistério. Mais um, num mundo quente sem porquês.

Resolveu almoçar na cafeteria da Lorena, a dois quarteirões do trabalho. Foram dois quarteirões de sol a pino e calor inescapável. Vez ou outra, seu rosto era atiçado por baforadas de vento quente que vinham como marolas de ar provocadas pelos ônibus barulhentos que cruzavam a cidade apinhados de gente suada. “Caminhar foi uma má ideia”, pensou.

Chegou melada de suor e incomodada com o vestido que se agarrava à pele suada em desalinho com seu corpo. Sentia-se suja. Incomodada. O garçom, que a conhecia, cumprimentou-a sem o sorriso de sempre. Suava mais que ela. O ar da cafeteria não dava conta do calor da rua, do abre e fecha da porta e do calor que irradiava da cozinha com um forte cheiro de manteiga derretida. Entregou-lhe o cardápio molhado do suor que lhe escorria pelo queixo. Pensou em ir embora, mas para onde fosse, haveria de encarar o calor bafento e malcheiroso da rua. Preferiu ficar no calor amanteigado da cafeteria.


Na mesa ao lado, um sujeito de voz grossa, quase gutural, chamava aos palavrões pelo garçom. “Cadê minha lasanha? E esse ar que não funciona!…”. Gesticulava exibindo duas enormes manchas molhadas e esbranquiçadas de desodorante nas mangas da camisa sob as axilas. Pareciam duas bocas gigantes de xícara de capuccino.

O garçom lhe respondeu tão rápida e displicentemente que Luísa não entendeu o que ele dissera, mas entendeu pelo tom que não era a resposta gentil de costume. Sem retrucar, o sujeito levantou quase num salto seu corpo pesado da cadeira, precipitando a mesa e todos os apetrechos sobre ela ao chão. A mão voou fechada e atingiu em cheio o queixo do garçom, lançando ao ar um leque de gotículas de suor. Um segundo soco o tirou da letargia do susto. Reagiu a pontapés. A cena se passava para Luísa como em câmera lenta, como se não fosse real, como se nada fosse real. O choque de realidade lhe veio na cabeça, atingida por uma cadeira lançada ao ar sabe-se lá por quem.

Em pouco tempo, todos batiam, todos apanhavam. A cafeteria foi se desfazendo em mesas quebradas, vidros e louças estilhaçadas. O chão tornou-se um atoleiro de suor, sangue, comidas e bebidas. Luísa caiu e preferiu não levantar mais. Assistia à barbárie do chão molhado, sem se preocupar com as bochechas que se molhavam na lama do chão. Sentiu-se protegida naquela sarjeta de restos dos incômodos e brutalidade dos que lutavam com palavras, pernas e punhos pela manutenção de seus orgulhos e paciências apequenadas pelo calor indiferente aos incômodos e outras miudezas humanas.

Luísa deu-se por si suja, malcheirosa, ferida e, pela primeira vez na vida, com as axilas suadas. Sentia-se completamente despida de sua dignidade. Largou-se ali até quase adormecer naquele chão menos quente do que o ar fedorento de suor do que, um dia, foi a cafeteria da Lorena.

Dia Mundial da Criança

 


Como são contados os mortos na Faixa de Gaza

Em qualquer zona de guerra, contar os mortos é um desafio. Em Gaza não é diferente.

À medida que as batalhas se intensificam, a situação caótica - com bombardeamentos por forças israelenses, combates terrestres, cortes de comunicações, escassez de combustível e infraestruturas em ruínas - torna extremamente difícil obter informações precisas sobre o número de pessoas que morreram.

E as autoridades palestinas afirmaram que existem agora “dificuldades significativas” na obtenção de informações atualizadas devido à interrupção das comunicações na Faixa de Gaza.

O Ministério da Saúde controlado pelo Hamas é a fonte oficial de Gaza para o número de mortos – que é atualizado regularmente. Na noite de segunda-feira (13/11), informou que 11.240 pessoas foram mortas, incluindo 4.630 crianças, desde os ataques do Hamas a Israel no dia 7 de outubro, que desencadearam a guerra atual.

Os números foram publicamente questionados por Israel, embora recentemente tenha tido de rever os seus próprios números de mortes para baixo em cerca de 200 – de 1.400 para cerca de 1.200.

O presidente dos EUA, Joe Biden, disse que “não tem confiança” nas estatísticas de Gaza. Mas organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) das Nações Unidas, afirmaram não ter motivos para não acreditar neles.

A BBC tem analisado detalhadamente como são contabilizados o número de vítimas em Gaza.


O Ministério da Saúde de Gaza publica regularmente o número de mortes nas redes sociais, com uma divisão separada no número de mulheres, crianças e idosos. Os números não indicam a causa da morte, mas descrevem os mortos como vítimas da “agressão israelense”.

O ministério também fornece números de feridos e desaparecidos. Alguns dos corpos permanecem presos sob pilhas de escombros, afirma a organização humanitária Crescente Vermelho Palestino.

Autoridades do Ministério da Saúde dizem que os números de mortes são registrados por profissionais médicos antes de serem repassados a eles e os números incluem apenas pessoas registradas como mortas no hospital.

Os números não fazem distinção entre mortes de militares e civis. E, como não levam em conta aqueles que morreram no local das explosões e cujos corpos não foram encontrados ou enterrados imediatamente, pode haver uma subcontagem, dizem as autoridades de Gaza.

Esse ponto foi amplificado pela administração Biden na semana passada, quando um alto funcionário dos EUA disse que o número de mortos provavelmente seria maior do que os números divulgados.

"Achamos que são muito altos, francamente", disse Barbara Leaf, secretária de Estado adjunta para Assuntos do Oriente Próximo, ao Comitê de Relações Exteriores da Câmara, "e pode ser que sejam ainda maiores do que os citados".

Isso contrasta fortemente com a opinião do próprio Biden, que, em 25 de outubro, disse não ter “nenhuma noção de que os palestinos estão dizendo a verdade sobre quantas pessoas foram mortas”.

No entanto, ele não forneceu nenhuma razão para seu ceticismo.

Um dia depois de Biden ter rejeitado os números, o Ministério da Saúde de Gaza forneceu mais informações, publicando uma extensa lista de nomes de todos aqueles que foram mortos entre 7 e 26 de outubro. A lista incluía mais de 6 mil nomes completos com idade, sexo e números de identidade.

Como foi compilado? A BBC conversou com pessoas envolvidas na coleta e organização dos dados, assim como com um acadêmico que verificou se havia duplicatas na lista de nomes.

Também falamos com um grupo de investigação independente, o Airwars, que está no processo de comparar as mortes que investigou com nomes que constam na lista do Ministério da Saúde, e com a ONU - que avaliou os números de mortes em Gaza durante períodos anteriores ao conflito.

Profissionais de saúde como Ghassan Abu-Sittah, um cirurgião plástico da Médicos Sem Fronteiras que vive em Londres e tem tratado pessoas em hospitais na Cidade de Gaza, são fundamentais para registar esses números.

Ele diz que o necrotério do hospital registra as mortes apenas após confirmar a identidade do falecido com seus familiares.

O número de mortes registradas até agora, acredita ele, é muito inferior ao que realmente ocorreu. “A maioria das mortes acontece em casa”, diz ele. “Aqueles que não conseguimos identificar, não registramos”.

No entanto, uma vez encontrado um corpo, “ele tem de ser levado ao hospital para ser registrado”, afirma um porta-voz do Crescente Vermelho Palestino.

Para examinar a lista do Ministério da Saúde, a BBC cruzou nomes nela incluídos com os de pessoas mortas que apareceram nas nossas reportagens. Uma dessas mortes relatadas pela BBC foi a de Midhat Mahmoud Saidam, morto num ataque em 14 de outubro. A BBC conversou com seus ex-colegas.

A análise de imagens de satélite realizada pela BBC mostrou danos na área onde ele morava por volta da data de sua morte. Uma imagem publicada nas redes sociais mostra um saco para cadáveres com o nome dele e detalhes escritos.

Trabalho semelhante, mas em maior escala, está sendo realizado pela Airwars. Como parte do seu trabalho de investigação de mortes de civis, ela comparou os nomes dos mortos na lista do Ministério da Saúde com as áreas que foram bombardeadas. Até agora, a Airwars encontrou 72 nomes na lista do ministério em cinco das áreas que investigou, incluindo o de Saidham.

A investigação descobriu ainda que 23 membros da família dele também morreram e todos foram registrados na lista do Ministério da Saúde.

A BBC também falou com a ONU e a Human Rights Watch - ambas afirmaram não ter motivos para desconfiar dos números divulgados pelo Ministério da Saúde em Gaza.

A ONU depende do Ministério da Saúde como fonte de números de vítimas na região.

“Continuamos incluindo os dados nos nossos relatórios e a sua origem é clara”, afirmou em comunicado. "É quase impossível neste momento fornecer qualquer verificação diária da ONU."

Outras pessoas que examinaram os números do Ministério da Saúde incluem o professor de economia Michael Spagat, da Royal Holloway, da Universidade de Londres – que preside a instituição de caridade Every Casualty Counts, que estuda o número de mortos em guerras.

Ele diz que, junto com um colega, encontrou apenas uma entrada duplicada no conjunto de dados do Ministério da Saúde – a de um menino de 14 anos.

No entanto, uma discrepância continua sendo fortemente contestada – a do número de mortos após uma explosão no hospital al-Ahli, na Cidade de Gaza, no dia 17 de outubro. O Ministério da Saúde disse que 500 pessoas foram mortas, e esse número foi posteriormente revisado para 471.

Uma avaliação da inteligência americana foi mais baixa, "provavelmente na extremidade inferior do espectro, de 100 a 300". Os militares de Israel citaram os números de Al-Ahli como base para a afirmação de que o Ministério da Saúde de Gaza “inflaciona continuamente o número de vítimas civis”.

A BBC fez repetidas tentativas de contato com o Ministério da Saúde de Gaza, mas não obteve respostas até a publicação deste texto.

O professor Spagat também analisou conflitos anteriores e descobriu que os números do Ministério da Saúde em Gaza não pareciam estar distantes da realidade.

Em uma análise dos números de mortes do Ministério da Saúde no conflito Israel-Gaza em 2014, no qual Gaza foi bombardeada, e em um registo separado dos números de mortes desse mesmo ano recolhido pela organização israelense de direitos humanos B'Tselem, Spagat encontrou consistência nos números relatados.

O Ministério da Saúde disse que 2.310 habitantes de Gaza foram mortos em 2014, enquanto B'Tselem contou 2.185 mortes. A ONU disse que 2.251 palestinos foram mortos, incluindo 1.462 civis, e o Ministério das Relações Exteriores de Israel disse que a guerra de 2014 matou 2.125 palestinos.

Discrepâncias como essas são “bastante normais”, diz Spagat, já que algumas pessoas podem ter morrido no hospital por razões posteriormente demonstradas como não relacionadas com a violência no conflito.

Ola Awad-Shakhshir, presidente do Gabinete Central de Estatísticas Palestino, em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, recebe atualizações regulares sobre as mortes em Gaza.

Awad-Shakhshir diz que o Ministério do Interior de Israel controla efetivamente os números de identificação dos recém-nascidos em Gaza e na Cisjordânia – os mesmos números de identificação que aparecem no registo de mortes do Ministério da Saúde, gerido pelo Hamas.

O Gabinete de Registo da População de Israel mantém arquivos que correspondem aos de Gaza e da Cisjordânia.

Quando a BBC abordou um porta-voz das Forças de Defesa de Israel sobre o motivo pelo qual lançaram dúvidas sobre os números de mortes em Gaza, ele disse que o Ministério da Saúde era um ramo do Hamas e que qualquer informação fornecida por ele deveria ser “vista com cautela”. Mas não forneceu nenhuma evidência de inconsistências nos dados divulgados pelo Ministério da Saúde.

Também perguntamos ao gabinete do primeiro-ministro israelense como foi registrado o número de israelenses mortos no dia 7 de outubro pelo Hamas. Ele não respondeu a essa pergunta, no entanto, nos últimos dias, Israel revisou para baixo o número de pessoas mortas durante o ataque para cerca de 1.200, ante o número anterior de 1.400.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lior Haiat, disse que o número revisado se deve ao fato de muitos corpos não terem sido identificados imediatamente após o ataque e "agora pensamos que pertencem a terroristas... e não a vítimas israelenses".

O governo israelense não publicou uma lista detalhada das vítimas civis, embora alguns meios de comunicação israelenses tenham reunido essas listas com nomes, idades e locais das mortes.

A polícia de Israel afirma que mais de 850 corpos de civis foram identificados – o trabalho continua para tentar identificar restos mortais usando técnicas forenses especializadas.

Existe uma lista pública dos soldados israelenses mortos até agora que inclui 48 que morreram nos combates dentro de Gaza.
Kayleen Devlin

A intolerância

Manifestantes bolsonaristas invadem a Esplanada dos Ministérios e promovem atos de vandalismo e terrorismo em prédios públicos. Na imagem, eles entram em confronto com a polícia, que usam cavalos e escudos para deter vândalos - Metrópoles

A democracia não tem descanso. Sofre ameaças permanentes e frequentes agressões reais. A causa é uma contradição de difícil superação: paga o altíssimo preço mais pelas virtudes que abriga do que pelos defeitos que carrega como obra imperfeita da criação humana.

Os fundamentos do ideal democrático podem ser identificados na definição da notável filósofa, autora de obras marcantes, Hannah Arendt (1906-1975) sobre o que vem a ser a Política: “Tem por base a pluralidade de homens e a convivência de diferentes” (O que é política?; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p.21).


A sábia concisão de Arendt revela os elementos constitutivos da construção democrática: pluralismo, regras de convivência e solução pacífica dos conflitos.

A judia-alemã, naturalizada norte-americana, tinha pleno conhecimento do que dizia não só porque nos legou obras magistrais, frutos de profunda reflexão, como também por uma experiência vivida em que a democracia foi massacrada pela devastadora beligerância dos totalitarismos.

Sua sobrevivência pessoal à “solução final”, preconizada pelo nazismo como etapa derradeira da extinção dos judeus, equivale à uma narrativa épica; sua existência revelou a fortaleza de uma mulher dotada de inabalável empatia e capacidade de enxergar A Condição Humana (título de grande obra) em “ação” integrada à esfera pública, livre e plural.

Sem direitos do homem reconhecidos e protegidos no ambiente fecundo da diversidade, do antagonismo e do diálogo, o espaço da democracia é sufocado pela violência e supremacia do mais forte.

As regras de convivência e as instituições, derivadas do consentimento, separam a barbárie e da civilização; afirmam o governo da lei e as limitações do exercício do poder. Porém, não bastam códigos escritos, a força dos costumes, os imperativos morais ou religiosos, é necessário que a lei seja cumprida e eficaz, pois, quanto maior for a adesão voluntária dos cidadãos aos comandos normativos, mais democrática é uma sociedade.

O momento necessário de confirmação e reiteração do ideal democrático é a paz. Desde os pequenos círculos de convivência à configuração da geopolítica global, caso não haja possibilidade para solução pacífica dos conflitos, a democracia agônica perde continuamente a respiração para o poder dos tiranos e a consagração da estupidez que se chama guerra.

Pois bem, o estrondo das armas e a crueldade terrorista demonstram que a democracia não tem sossego. É o quadro do nosso cotidiano ao refletir as dores que emitem imagens e cores da tragédia humana. Não surpreende porque, na raiz dos conflitos, se encontra, talvez, a maior virtude das democracias: a tolerância.

O preâmbulo da Carta das Nações Unidas (26/6/1945) prescreve “praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais….”, no entanto, a experiência histórica tem mostrado como é difícil para uma verdadeira democracia, regime tolerante e permeável à opinião pública, lutar contra a intolerância.

Não custa lembrar o Acordo de Munique (28/9/1938), pacto firmado entre as potências europeias que dava à Alemanha nazista os Sudetos e o controle da Checoslováquia desde que fossem a última reivindicação territorial de Hitler. O então Primeiro-Ministro inglês Neville Chamberlain foi recebido em Londres com calorosos aplausos, a exceção de Churchill que proferiu uma de suas célebres e proféticas frases: “Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra e terás a guerra”.

Mais uma vez, o mundo sofre um ódio epidêmico que é a aversão às dessemelhanças. A negação do direito à alteridade. De todos os tipos. Das etnias aos imigrantes. Do racismo ao sexismo. E por aí vai. A questão desafiadora é qual o limite da tolerância? Tolerar o radicalmente intolerável?

É preciso atentar para o fato de que o intolerante não se contenta em recusar sua própria liberdade: quer obrigar todos os outros a renunciarem com ele à liberdade. A espontaneidade humana, mundo aberto, fonte radical da liberdade a que se referia Hannah Arendt, perde espaço para os extremismos a ponto de uma organização terrorista manifestar o objetivo de destruir Israel em permanente e subterrânea (literalmente) declaração de “guerra”.

Melhor dizendo: declaração estatutária de extinção de milhões de pessoas. Não há registro de guerras entres estados democráticos. A reação à ameaça de ampliação das agressões é o legítimo direito de defesa dos judeus e não-judeus que são alvos e escudos, reais e potenciais, da inominável e covarde agressão do Hamas.

Importante lembrar para não esquecer: o terrorismo é um crime contra a humanidade, logo seus fanáticos adeptos são criminosos adestrados para matar disseminando o medo e o horror dos conflitos.

Consciência do mundo num hospital em Gaza

Numa segunda-feira, falar de temas tão distantes como um hospital em Gaza, levantar questões como uma ainda inexistente ordem mundial, talvez não seja o melhor caminho.

“Alguma coisa está fora da nova ordem mundial” — diz a canção. Mas Henry Kissinger, em seu livro sobre o tema, diz que nunca houve uma verdadeira ordem mundial. A Paz de Vestfália no fim da Guerra dos 30 Anos (1618-1648) foi um evento europeu.

No momento em que as tropas de Israel entraram no Hospital Al-Shifa, em Gaza, nada pude fazer, exceto me informar. Mas a ONU também nada pode fazer, exceto dizer que hospitais não são campos de batalha. Estamos, portanto, no mesmo barco, eu a ONU.

As imagens do dia anterior foram terríveis. Bebês recém-nascidos fora das incubadoras, por falta de energia. Israel afirma que, com dados da Inteligência, sabe que o Hamas usa o hospital como base. O Hamas nega. Um palestino entrevistado pela Al Jazeera parece confirmar a tese de Israel: o Hamas deveria sair daqui e ir para o inferno. O Hamas usa as pessoas como escudo humano. Sua tese, pós-atentado, é que trouxe Israel para a guerra, e era isso que pretendia para manter acesa a causa palestina.


Não é possível concordar com quem usa mulheres e crianças como escudo humano. Mas também não é possível concordar com quem mata escudos humanos, numa tentativa de alcançar o Hamas.

O hospital está cheio de feridos de guerra e doentes. Sem remédios ou eletricidade. Os recém-nascidos estavam do lado de fora por causa disso. Uma fila de corpos enrolados em lençóis brancos à espera de uma cova comum nos fundos do hospital. As cirurgias eram feitas sem anestesia ou, nos casos mais graves, com meia dose. Médicos e enfermeiros dormem apenas duas horas por noite. E há ainda centenas de refugiados nos corredores do hospital.

As bombas caíram perto. Soldados de Israel invadem o hospital, visitam quarto por quarto. Homens são chamados para uma revista no pátio. Imagino tudo isso sendo visto pelos olhos de doentes e feridos. Vulneráveis e estupefatos, os pacientes do Al-Shifa foram internados no inferno.

Quando a OMS perdeu contato com os médicos e enfermeiros do hospital, percebi uma nova dimensão da tragédia: estavam isolados no centro de Gaza, sem contato com o mundo exterior. Israel permitiu uma visita controlada da imprensa, achou alguns fuzis, mas ainda procurava os túneis.

Minha vontade foi me sentar na calçada com a ONU e chorar a impossibilidade de fazer algo. No entanto o que sempre sonhei ser possível no Conselho de Segurança acabou se consumando: uma declaração enfatizando o direito das crianças e clamando por pausas humanitárias, inclusive a devolução daquelas que foram sequestradas pelo Hamas. Inicialmente, Israel resistirá.

Será que essa pequena dose de influência da comunidade internacional será cumprida? Será que é possível realmente sonhar com uma ordem mundial com tantos conflitos violentos, tanto extremismo religioso?

Algumas tentativas fracassaram ao longo da História. Mas, num momento como este em que nos sentimos tão frágeis, assim como a própria ONU criada para abrigar todos os países, é exatamente quando precisamos renovar a esperança. O que fizemos com a natureza ameaça nossa existência, só falta nos destruirmos antes de sermos expulsos pelo próprio planeta.

Não importa o resultado desta guerra no Oriente Médio. Ela já nos mostrou como são inadequados os instrumentos que temos, inclusive o próprio Conselho de Segurança, que, na verdade, sempre nos assegura que nada ou muito pouco será feito. Suas regras são feitas para que a rivalidade das potências leve à paralisia. Pelo menos as crianças conseguiram sensibilizar um organismo tão ineficaz. São as grandes vítimas e podem ser uma inspiração para a mudança.

sábado, 18 de novembro de 2023

O morde e assopra do governo Biden dá passe livre à matança em Gaza

Uma no cravo, outra na ferradura, e assim o governo do presidente Joe Biden vai levando a guerra que Israel trava com o Hamas. Não quer dizer que Biden ora apoia, ora desapoia Israel. Ele apoia incondicionalmente o maior aliado do seu país no Oriente Médio.

Acontece que esse apoio custa caro a Biden, dentro dos Estados Unidos e principalmente fora. E ele está a menos de um ano de tentar se reeleger. Será uma parada dura derrotar Donald Trump pela segunda vez. Daí porque tem de agradar todos os lados.

Então, um dia ele exalta o direito de Israel à defesa e diz que a guerra só terminará quando o Hamas for destruído; e no outro se opõe a ataques aéreos a hospitais e defende a criação de um Estado palestino. Israel entende a conduta de Biden e vai em frente.


O Programa Alimentar Mundial da ONU (PAM) alertou que a Faixa de Gaza enfrenta agora uma “enorme” lacuna alimentar e uma fome generalizada. Quase toda a população do enclave palestino necessita “desesperadamente” de assistência alimentar.

Disse na quinta-feira Cindy McCain, a diretora executiva do PMA, que “apenas uma fração” da ajuda humanitária necessária chega ao território através das fronteiras:

““Com o inverno a aproximar-se rapidamente, os abrigos inseguros e superlotados e a falta de água potável, os civis enfrentam a possibilidade imediata de morrer de fome. A única esperança é abrir outra porta de entrada em Gaza.”

A escassez de combustível também prejudica a distribuição de água, alimentos e remédios. A agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) revelou que hoje não haverá entregas de ajuda a partir da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito.

Todas as comunicações caíram em Gaza na noite da quinta-feira. Quando isso ocorre é um mal sinal para os palestinos. Ou os bombardeios se intensificam ou Israel lhes reserva uma surpresa. Deixou de ser surpresa perto da meia-noite.

Anunciou o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant:

“Concluímos a retomada e limpeza da parte ocidental da Cidade de Gaza e estamos agora a passar para a próxima fase da ofensiva”.

Ao que acrescentou o chefe do Estado-Maior do exército, general Herzi Halevi:

“Estamos perto de destruir o sistema militar que existia no norte da Faixa de Gaza. Vamos completar isto.”

O hospital indonésio no norte de Gaza foi completamente fechado, e 45 pacientes que precisam de cirurgia deixados na área da recepção. O hospital está sitiado por tanques israelenses, informa a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino.

Continua o cerco israelense ao hospital de al-Shifa. Houve relatos de tiroteio no hospital. As Forças de Defesa de Israel IDF acusaram o Hamas de usar o hospital como centro de comando e controle à medida que as tropas avançam e aumenta a raiva global.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Pensamento do Dia




O entretenimento engole a política

Você olha e fica boquiaberto. Mas como pode ser? Você esfrega os olhos, não é possível que esteja vendo o que vê. O modo como as pessoas reagem às notícias desperta no seu espírito uma incredulidade perplexa. Tudo na política – tudo mesmo, sem exceção – virou uma questão de torcida organizada, de arrebatamento de almas (pequenas) e de furor irracional. Nos tempos da covid a gente viu de perto: a hidroxicloroquina vai dar certo porque eu tenho fé; a ivermectina vai salvar vidas porque eu acredito; a vacina chinesa carrega um chip oculto que vai rastrear os desejos de consumo da vizinha, eu sei, eu vi um vídeo na internet. Parece loucura. É loucura.

A polarização se faz de ânimos conflagrados, não mais de opiniões divergentes. A metáfora da ágora grega não serve mais para representar o debate público. A imagem da disputa de pontos de vista entre seres racionais perdeu a validade. Agora, as multidões se sentem em guerras santas, em cruzadas sanguinárias, se sentem no Coliseu de Roma apontando o polegar para baixo. O script do tempo são os linchamentos virtuais. O fundamentalismo corre solto. Intolerância na veia. Nos Estados Unidos, os numerosos radicais do Partido Republicano trabalham com o dogma tácito de que as eleições de 2020 foram roubadas, e ai de quem discordar. Para muita gente, o aquecimento global é um mito fabricado. Eis o colégio eleitoral do nosso tempo.


Como explicar esses efeitos de estrondos e de fúria? As hipóteses são múltiplas, não necessariamente excludentes, mas uma delas fala mais alto: o universo da política foi inteiramente tragado pela linguagem do entretenimento – e, no entretenimento, a reafirmação do ego (ou do eu) vale mais do que a verdade dos fatos. Ponto. Parágrafo.

É verdade que, desde que o mundo é imundo, a política traz na sua fórmula ingredientes teatrais, elementos lúdicos e temperos passionais. Sempre foi assim. A partir da prevalência das plataformas sociais, contudo, a coisa mudou de patamar. Todas as escolhas que antes se resolviam na esfera da pólis hoje se decidem num imenso reality show interativo, onde o desejo íntimo sobrepuja com folga (e com gozo) o interesse público. A razão e a objetividade escasseiam, enquanto as emoções eclodem, em apoteoses surdas.

O que vemos diante de nós não combina mais com os conceitos que valiam até algumas décadas atrás. É outra coisa, outro bicho. Já deram a esse ambiente, em que as questões políticas se comportam como atrações circenses, o nome de “era da pós-verdade”. Foi com essa expressão, aliás, que a revista The Economist se referiu à campanha presidencial de Donald Trump, numa reportagem de capa em setembro de 2016. Por certo, podemos nos referir à nova geleia geral como a “era da pós-verdade”, mas o fenômeno é maior do que imaginávamos em 2016. É mais monstruoso e mais profundo.

Vejamos o que se passa com a comunicação dos partidos, das autoridades estatais, das ONGs ou dos organismos internacionais. Essa comunicação já não interpela a razão, mas a emoção – e faz isso em formatos melodramáticos. Ou a mensagem segue o alfabeto visual estabelecido pela indústria do entretenimento, quer dizer, ou a propaganda assimila as narrativas baseadas no modelo bonzinhos-contramalvados, ou não encontrará eco nas mentes e nos corações.

A que se reduziu o impasse da guerra do Oriente Médio? A uma disputa interminável sobre quem é que merece ser posto no papel de vítima. Os escombros da Faixa de Gaza – escombros urbanos, escombros humanos – são apenas o epicentro cenográfico de uma imensa guerra de imagem para ver quem consegue tomar para si o papel de vítima. Quem fizer jus a esse lugar merecerá o amor incondicional da plateia (antes conhecida como opinião pública). Acostume-se. A realidade se comporta como um filme de aventura, com princesinhas desprotegidas, cavalos suados e rapazes incultos, mas valentes.

Assim como o ideólogo do início do século 20 cedeu seu posto ao marqueteiro do início do século 21, o instituto da razão perdeu terreno para as identificações pulsionais, libidinais, fáceis e acachapantes propiciadas pelas técnicas industriais do entretenimento. A política hoje integra o vasto comércio das diversões públicas. O cidadão, que era a fonte de todo o poder, acomodou-se na condição de consumidor voraz de sensações estupefacientes. Não é mais como cidadão que ele se mobiliza, mas como torcedor fanático, como religioso fiel ou, ainda, como fã ardoroso. Se você ainda tem dúvidas, releia as mensagens que chegam nos grupos de WhatsApp. Lá estão os sintomas: os abaixo-assinados sentimentais, as figurinhas animadas que defendem uma tese em um único segundo, as subcelebridades desocupadas pontificando sobre assuntos complexos como se discorressem sobre o uso da cebola numa receita vegana. Está na cara, não está?

Não, isso aí não vai dar certo. Quando as decisões que afetam a ordem do comum repelem o entendimento do que seja o bem comum, é porque vai dar ruim. O conceito de República se desfaz na poeira do tempo.

Conselho aprova pausa na guerra, mas Israel não aceita

Imaginem um terremoto na Faixa de Gaza maior do que aquele que ocorreu em fevereiro passado na Síria e na Turquia, quando morreram 7, 2 mil pessoas e 35 mil ficaram feridas. Todos os países da região, inclusive Israel, se mobilizariam para socorrer as vítimas, enviando bombeiros, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais. Doações de mantimentos e medicamentos, bem como equipamentos hospitalares e de construção civil, seriam providenciados, com a mobilização de organizações humanitárias para fazer com que tudo isso chegasse aos flagelados no menor espaço de tempo possível. Feridos e desabrigados seriam levados para hospitais e abrigos, respectivamente.

As imagens da destruição causada pelos bombardeios de Israel em Gaza são muito piores do que as de um terremoto daquelas proporções, mas nada disso está sendo feito, muito pelo contrário, a destruição continua. Apesar de o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez, aprovar uma resolução sem vetos sobre a guerra na Faixa de Gaza, que possibilitaria a mobilização humanitária descrita acima. Israel já avisou que não pretende acatar a decisão e continuará os ataques contra o Hamas, como aconteceu no hospital Al Shifa, ocupado desde quarta-feira.


Nesta quarta-feira, as Forças de Defesa de Israel (FDI) anunciaram ter encontrado armas do Hamas no hospital e infraestrutura que seria o “coração” do grupo terrorista. Os soldados interrogaram dezenas de civis antes de liberá-los, mas há denúncias de violência contra pacientes e intimidação de médicos e enfermeiros. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o estabelecimento da ONU abriga, atualmente, 2.300 pessoas, entre pacientes, profissionais da saúde e deslocados pela ofensiva israelense no território palestino.

A resolução do Conselho de Segurança foi proposta por Malta, com foco nas crianças da Faixa de Gaza, que estão sendo mortas, muitas das quais soterradas nos bombardeios. Determina uma pausa nos ataques, para que ajuda humanitária chegue à população civil, principalmente às crianças que estão na área de conflito, muitas delas feridas ou recém-nascidas, que precisam ser resgatadas. O objetivo da pausa seria facilitar “o fornecimento contínuo, suficiente e sem entraves de bens e serviços essenciais — incluindo água, eletricidade, combustível, alimentos e suprimentos médicos”.

Entretanto, o Ministério das Relações Exteriores de Israel anunciou que não haverá pausa até que os reféns em poder do Hamas sejam libertados. A narrativa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para justificar os bombardeios é de que os civis, sobretudo mulheres e crianças, são usados como escudo pelo Hamas.

Por ora, a decisão do Conselho de Segurança é uma declaração de intenções: Israel e o Hamas devem evitar privar a população de Gaza de serviços básicos e da assistência humanitária indispensáveis à sua sobrevivência; reparações de emergência em infraestruturas essenciais em Gaza; evacuação de crianças doentes ou feridas, e de seus cuidadores; ações de resgate de pessoas que desapareceram nos bombardeios, após edifícios do território palestino terem sido danificados e destruídos.

As resoluções do Conselho de Segurança, pela Carta da ONU, deveriam ter efeitos práticos. Nesse caso, permitir o acesso total à Faixa de Gaza das agências da ONU e de seus parceiros, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e outras organizações humanitárias. Para isso, é necessária a pausa na guerra e a liberação do acesso aos hospitais e às instituições que abrigam os palestinos. Isso é impossível sem autorização do exército israelense.

A resolução da ONU, porém, reflete uma mudança de postura do governo dos Estados Unidos, que se absteve na votação, ao lado da Rússia e do Reino Unido. A resolução foi aprovada por 12 votos. China, que agora preside o órgão, e França, que tem poder de veto, votaram a favor. Albânia, Brasil, China, Emirados Árabes Unidos, Equador, França, Gabão, Gana, Japão, Malta, Moçambique e Suíça, sem poder de veto, garantiram a aprovação.

Apesar de não condenar Israel nem classificar o Hamas como grupo terrorista, a resolução tende a aumentar o isolamento internacional de Netanyahu, que não demonstra nenhuma preocupação quanto a isso, porque sabe que os Estados Unidos não romperão os compromissos financeiros e militares que já assumiram nesta guerra. A abstenção norte-americana na votação deve-se à enorme pressão da opinião pública mundial e do desgaste junto aos países muçulmanos, principalmente países árabes da região.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que muito se empenhou pela aprovação, comemorou a decisão, que vai facilitar o resgate dos brasileiros que ainda estão em Gaza. A abstenção dos EUA coincide com o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente da China, Xi Jinping, que não trataram do assunto publicamente. Entretanto, Biden vem reiterando a posição favorável à existência de dois Estados e que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, após a guerra, sejam administradas pela Autoridade Palestina, posição que o atual governo de Israel não aceita.

Antissemitismo 2.0

Está sendo difícil acompanhar o noticiário da guerra em Gaza e, ao mesmo tempo, perceber a onda de antissemitismo que varre o mundo. Para nós, judeus e descendentes de judeus, o antissemitismo não é novidade; novidade é ver como está naturalizado. Até outro dia, pessoas antirracistas e defensoras de minorias tinham vergonha de se declarar abertamente antissemitas; não mais. Ser antissemita agora é cool, virou tendência.

Tento não ser paranoica e não ver um monstro em cada esquina. Tento acreditar que os pagodeiros que batucavam em São Paulo com bandeiras do Hamas, usando camisetas do Hamas, cantando slogans pró Hamas, não fazem ideia do que realmente seja o Hamas (ainda que não tenha ilusões quanto às pessoas que lhes forneceram tais camisetas e bandeiras).

Tento imaginar que as imensas manifestações nas grandes cidades cosmopolitas são de fato pró-Palestina, e não anti-Israel; mas é difícil. Não dá para ignorar os cartazes pregando o fim do povo judeu, nem deixar de perceber que boa parte dos manifestantes cobre o rosto à maneira dos terroristas do Hamas (e não do povo palestino em geral). Vários chegam a usar a faixa verde dos terroristas, com a clássica inscrição em árabe (o que está escrito é “Não há deus senão Alá, e Maomé é o seu profeta”).


Não dá para fazer a Pollyanna por muito tempo ao constatar que o Irã continua matando mulheres que não usam o hijab e não se ouve um pio de protesto; que a China continua dizimando os uigures e só há silêncio; que mais de 150 mil pessoas já morreram na guerra que a Arábia Saudita promove no Iêmen, ou que mais de 500 mil morreram na Síria, e quem se importa?

Quem foi aos Champs Élysées por elas, ao Times Square, à Cinelândia?

Não quero ser sommelier de manifestações, mas é difícil não juntar os pontos — e é difícil também não concordar com aqueles manifestantes que, sincera e genuinamente, sofrem pelo povo palestino e querem ver o fim da guerra.

Eles existem, e eu estaria entre eles se isso não me pusesse em tão má companhia.

* * *

A despeito do que venha a acontecer, o Hamas já ganhou a guerra da opinião pública. Não há ser humano que consiga absorver a violência em Gaza, dia após dia, sem um baque no coração. Diante do horror que sofreu, Israel deveria ter se recolhido e pensado com extrema cautela nos próximos passos, de preferência concentrando-se no destino dos reféns. Ao contrário, agiu exatamente como o Hamas esperava que reagisse. Xeque-mate.

Um país não pode lutar contra o terrorismo reagindo com o fígado. Países precisam ter cérebro, não vísceras, especialmente diante de um inimigo que cultiva o martírio de inocentes.

Fala-se muito da desproporção entre o poderio militar israelense e os recursos do Hamas, mas ela vai além de uma simples contagem bélica. O desequilíbrio não favorece Israel: não há exército que possa com fanáticos que almejam o paraíso (e dominam as redes sociais). Nada justifica que Benjamin Netanyahu ainda esteja no poder. O seu governo é uma praga bíblica, uma maldição que, pelo resto dos tempos, vai desafiar a compreensão do mundo.

Política criminosa de Netanyahu é derrota moral de Israel

É um sinal de que as coisas não andam bem no mundo do sionismo real quando vemos porta-vozes de Israel se desdobrando para tentar explicar a diferença entre o morticínio de crianças e civis provocado pelo Hamas e o morticínio de crianças e civis provocado por Binyamin Netanyahu.

Lembro-me aqui de atrocidades do socialismo soviético, vistas por intelectuais comunistas como efeitos colaterais da luta inarredável contra os inimigos da grande revolução. Eram claros os sinais, então, de que havia algo de podre no reino do socialismo real.

Já escrevi que Israel não é um Hamas às avessas, mas o país e seus aliados precisam querer manter essa diferença. Não borrá-la, no final das contas, a favor do antissemitismo e das desconfianças consideráveis que rondam a criação de um estado judeu na Palestina. A colonização acintosa da Cisjordânia é outro parafuso central dessa engrenagem ideológica que gira em falso.


Sob o fundamentalista e autocrático Bibi, o aperto metódico do cerco aos palestinos tem provocado reações expressivas mesmo na opinião pública judaica. A deriva radical e inescrupulosa para a extrema direita, que não poupa nem mesmo hospitais, vem erodindo o que restava de consenso moral em torno da defesa de Israel. Os tempos estão mudando e argumentos tradicionais estão em crise.

A "rua árabe" que se abriu no Ocidente, as periferias influentes do Sul Global e as desigualdades no coração do sistema chamam ao mínimo de realismo governos que dormitavam no piloto automático com Israel. Até Biden sentiu o bafo, baixou uma oitava em sua retórica, passou a falar em pausa humanitária no Vietnã de Bibi e agora aprovou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que basicamente repete a proposta brasileira, que estava na vanguarda, vetada por eu país.

O entendimento dessa guerra se inscreve no contexto de um anunciado "turning-point" da geopolítica internacional; ela é apenas mais um capítulo do rearranjo em curso das relações de força globais, a falada e perturbadora transição para um mundo multipolar.

As reivindicações que embasaram a defesa da criação do Estado de Israel são respeitáveis e se tornaram incontrastáveis depois do Holocausto e do histórico sinistro de perseguições que antecedeu a atrocidade nazista. Tudo então parecia fazer muito sentido para grande parte da opinião humanista do século 20.

Hoje, com a eternização do conflito, ganha mais projeção uma revisão historiográfica consistente do sionismo e de suas associações com o projeto colonialista inglês de criar um país judeu naquela parte do mundo. As evidências de que se procedeu a uma prévia limpeza étnica na região, entre outros episódios sombrios, são um segredo de polichinelo.

Bem, diante de tudo isso, caberia também perguntar: que Estado nacional não tem atrás de sua formação um rastro de violência? Guerras, colonialismo, escravidão, genocídios ou barbáries outras? O nosso querido Brasil? Os Estados Unidos? O Irã? La France? Por que Israel deveria ter uma história impoluta? Porque são judeus?

Na juventude intelectual, um filho de rabino chamado Karl Marx viu no seu ainda recente século 19 uma humanidade se debatendo com a pré-história. Eu adoraria ter nascido no futuro. Mas o que veria? Judeus e palestinos pescando e fazendo crítica literária no reino da sociedade sem classes? Ou o triunfo distributivo do capitalismo pós-financeiro numa pós-Los Angeles sem barracas nas ruas? Sabe-se lá.

Agora, Israel está perdendo a guerra que importa. Não será mais possível sustentar esse estado de coisas. Podemos esperar pelo milagre de uma mudança política profunda? Só me arrisco a dizer, neste final acaciano, que o caminho será longo e tortuoso.