terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O capitalismo 'teve metástase'

“Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, o ser humano, ou melhor, esse clube seleto da humanidade, vem devastando tudo ao seu redor”, adverte Ailton Krenak em “Não se come dinheiro”, um dos textos que compõem um livrinho extraordinário, A vida não é útil, editado na Argentina pela Eterna Cadencia, com tradução de Cecília Palmeiro e prefácio de Natalia Brizuela.

O xamã, filósofo, líder indígena e escritor brasileiro, uma das vozes mais reveladoras do pensamento latino-americano contemporâneo, foi filho da primeira geração de Krenak que viveu “no cativeiro”. A terra ancestral dos Krenak na região do Rio Doce foi ocupada pelo Estado brasileiro em 1922. Como muitos outros indígenas no Brasil no início do século XX, ele foi forçado a viver em uma reserva indígena.

Em 1968, sua família foi novamente forçada ao exílio. Chegando a São Paulo em 1975, frequentou escolas ocidentais, estudou artes gráficas e rapidamente se envolveu com o então emergente despertar dos povos indígenas que desembocou na criação da União das Nações Indígenas (UNI) em 1983.

O governo das corporações

Krenak é o nome do povo indígena ao qual pertence, não um sobrenome no sentido em que é comumente utilizado no ordenamento jurídico. Ailton, que nasceu em 1953 em Minas Gerais, propõe estabelecer contato com a experiência de estar vivo. “Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não funcionar plenamente vamos morrer. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los morando lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro”, enfatiza.

Para ampliar essa constelação temática cita as palavras de um ancestral de um indígena estadunidense do conselho de anciãos do povo Lakota, Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. “Somente quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe, poluído o último rio, que as pessoas vão perceber que não podem comer dinheiro”. A ideia de concentração da riqueza, na perspectiva do xamã e do filósofo, atingiu seu clímax. “O poder, o capital entraram em um grau de acumulação que não há mais separação entre a gestão política e financeira do mundo”, diz.

E acrescenta: “Os governos deixaram de existir, somos governados por grandes corporações. Quem vai fazer a revolução contra corporações? Seria como lutar contra fantasmas. O poder, hoje, é uma abstração concentrada em marcas aglutinadas em corporações e representadas por alguns humanoides. Não tenho dúvida de que esses humanoides, focados no poder do dinheiro, também sofrerão uma saturação”.

O livro preserva o encanto do que se poderia chamar de “método construtivo”. A maior parte dos textos de Ailton surge de conversas, conferências e debates, realizados nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, que posteriormente foram transcritos e editados. A pesquisa e organização do livro ficou a cargo de Rita Carelli.

“As ideias são desenvolvidas na e pela conversa, num brilhante resplendor do pensamento conceitual produzido em movimento”, aponta Natalia Brizuela no prefácio de La vida no es útil. “Poderíamos pensar em todas as apresentações públicas, entrevistas, conversas e textos de Ailton como formas de construir alianças por meio de uma política de reciprocidade, que articulam e dão forma a uma nova relacionalidade entre indígenas e não indígenas. A oralidade que está na origem do texto de Ailton é a forma escolhida para uma noção radical de relacionalidade que ele oferece aos não indígenas – analisa Brizuela. O diálogo, a troca, a relação e a reciprocidade são noções-chave no pensamento de Ailton e, na forma oral, tornam-se a estrutura de uma práxis baseada na escuta”.



Ideias para adiar o fim do mundo

A desconexão com o organismo vivo que é a Terra preocupa Ailton. As evidências estão à vista: geleiras derretendo, oceanos cheios de lixo, listas crescentes de espécies ameaçadas de extinção. “Será que a única maneira de demonstrar aos negacionistas que a Terra é um organismo vivo é esquartejá-la? Picá-la em pedaços e dizer: ‘Olha, ela é viva’? É uma estupidez absurda”, assegura em um dos textos que poderia inscrever uma parte do pensamento do xamã e filósofo no decrescimentismo, esse movimento político, econômico e social que enfatiza a necessidade de reduzir o consumo e a produção globais.

“Temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver”, propõe, e sugere que quando tudo vai por água abaixo ele invoca o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), especialmente o poema “O homem; As viagens”, porque é “um poema sobre o que estamos vivendo”: “Restam outros sistemas fora / Do solar a colonizar. / Ao acabarem todos / Só resta ao homem / (estará equipado?) / A dificílima dangerosíssima viagem / De si a si mesmo: / Pôr o pé no chão / Do seu coração / Experimentar / Colonizar / Civilizar / Humanizar / O homem / Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas / A perene, insuspeitada alegria / De conviver”.

Ler Ailton implica entrar em outro modo, um modo que expande as experiências e os sentidos, anestesiados pelo excesso de racionalidade da cultura ocidental. Em Ideias para adiar o fim do mundo, ele postula a centralidade dos sonhos. “Sonhar é uma prática que pode ser entendida como um regime cultural em que, logo pela manhã, as pessoas contam o sonho que tiveram. Não como uma atividade pública, mas de caráter íntimo. Ninguém conta seu sonho em uma praça, mas para as pessoas com quem você se relaciona. O que também sugere que os sonhos são um lugar de transmissão de afetos”.

O despertar de Ailton veio de um sonho compartilhado com ele no final dos anos 1970 por um xamã que lhe falou sobre a devastação da Terra pelos projetos dos brancos. Ele compartilhou esse sonho com outros parentes indígenas quando começou a viajar pelo Brasil para fundar a UNI. Ele percebeu que “havia algo na perspectiva dos povos indígenas, na nossa forma de ver e pensar, que poderia abrir uma janela de compreensão no ambiente que é o mundo do conhecimento”. Após a criação da UNI, co-fundou o Centro de Cultura Indígena em 1985, e dentro desta organização lançou o primeiro programa de rádio produzido por indígenas, o Programa de Índio, que foi ao ar entre 1985 e 1990.

“Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável”, reflete o xamã. Nosso sonho coletivo de mundo e a inserção da humanidade na biosfera terá que acontecer de outra forma. Podemos habitar este planeta, mas deve ser de outra maneira. Teremos que nos reconfigurar radicalmente para estar aqui”. Ailton reconhece que alguns povos entendem que seus corpos estão relacionados com tudo o que é a vida; que os ciclos da Terra são também os ciclos de seus corpos. “Observamos a terra, o céu e sentimos que não estamos dissociados dos outros seres. O meu povo, assim como outros parentes, tem essa tradição de suspender o céu”.

Em seguida, explica em que consiste essa tradição. “Suspender o céu é ampliar os horizontes de todos, não só dos humanos. Trata-se de uma memória, uma herança cultural do tempo em que nossos ancestrais estavam tão harmonizados com o ritmo da natureza que só precisavam trabalhar algumas horas por dia para proverem tudo que era preciso para viver. Em todo resto do tempo, você podia cantar, dançar, sonhar: o cotidiano era uma extensão do sonho. E as relações, os contratos tecidos no mundo dos sonhos, continuavam a fazer sentido depois de acordar”.

A narrativa de Ailton é como um mantra da afetividade. Um ano marcante em sua vida foi 1987, pelo discurso que proferiu aos membros da Assembleia Constituinte, encarregada de redigir uma Constituição democrática para o Brasil, após 21 anos de ditadura militar. Vestido da cabeça aos pés com um terno branco, enquanto pintava lentamente o rosto com jenipapo preto, disse: “Os indígenas têm um jeito de pensar, um jeito de viver, que nunca coloca nenhum animal ou ser humano em risco”.

Como porta-voz da UNI, ele desenvolveu quatro reivindicações que foram incluídas na Constituição de 1988: o reconhecimento dos direitos históricos dos povos indígenas, a demarcação das terras indígenas, a garantia de que os coletivos indígenas seriam os únicos usuários dos recursos naturais dos territórios demarcados e o cumprimento pelo Estado brasileiro dos projetos de futuro das populações indígenas. “Ao invés de serem ‘emancipados’ e, portanto, desaparecidos, os indígenas entregaram uma demanda que Ailton expressou e realizou em sua performance: a demanda de serem reconhecidos como cidadãos como indígenas”, fundamenta Brizuela no prefácio do livro.

Consumir mundos

“O sistema capitalista tem um poder de cooptação tão grande que qualquer porcaria que anuncia vira imediatamente moda”, confirma Ailton. “Estamos todos nós viciados no novo: um carro novo, uma máquina nova, uma roupa nova, alguma coisa nova. Já foi dito: ‘Ah, mas a gente pode fazer um carro elétrico sem gasolina, que não vai poluir’. Mas será tão caro, tão sofisticado, que se tornará um novo objeto de desejo”, descreve como funciona o consumo e sua análise se expande para além dessa mania.

“O capitalismo quer nos vender até mesmo a ideia de que podemos reproduzir a vida. Que até a natureza pode ser reproduzida. Acabamos com tudo e depois fazemos outra natureza, ficamos sem água doce e depois ganha-se muito dinheiro dessalinizando o mar, e se não é suficiente para todos, eliminamos uma parte da humanidade e fica só para os consumidores. Uma espécie de Big Brother que governa o mundo ao gosto do capitalismo”, define o autor de Ideias para adiar o fim do mundo e Futuro ancestral, entre outros livros.

A psicanalista e crítica da cultura brasileira Suely Rolnik aponta que o capitalismo passou por tamanha transformação que se tornou necrocapitalismo. “Esse capitalismo nem precisa mais da materialidade das coisas, pode transformar tudo numa fantasia financeira e fingir que o mundo é operacional, ativo, mesmo que esteja tudo errado”, interpreta Ailton e aponta que isso é uma “distopia”, porque “em vez de imaginar mundos, a gente os consome” e que “depois de comer a Terra, comemos a Lua, Marte e os outros planetas”.

O antropocentrismo deve ser abandonado porque “há muito mais vida além da gente; não fazemos falta na biodiversidade”, afirma o autor de A vida não é útil. “Há muito tempo minha comunhão com tudo o que chamam de natureza é uma experiência que não vejo sendo valorizada por muitas pessoas que moram na cidade. Já vi pessoas me ridicularizarem: ‘Ele fala com uma árvore, ele abraça uma árvore, ele fala com o rio, ele contempla a montanha’, como se isso fosse algum tipo de alienação. Esta é a minha experiência de vida. Se isso for alienação, estou alienado. Faz muito tempo que não programo atividades para ‘depois’. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos que parar de vender o amanhã”, aconselha uma das vozes mais reveladoras do pensamento latino-americano contemporâneo.

A proposta de Ailton desafia o utilitarismo. “A vida não tem nenhuma utilidade. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela, mas isso é uma estupidez. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e queremos reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária. Nós temos de ter a coragem de ser radicalmente vivos, e não negociar sobrevivência”, insiste e lembra que os povos originários ainda estão presentes neste mundo “não porque foram excluídos, mas porque escaparam”.

“Os povos nativos resistem a essa investida do branco porque sabem que ele está enganado e, na maioria das vezes, são tratados como loucos. Fugir dessa captura, para experimentar uma existência que não se rendeu ao sentido utilitário da vida, cria um lugar de silêncio interior”. Um exemplo o ajuda a ampliar sua visão de mundo e, ainda, a questionar o politicamente correto. “Quando os indígenas dizem: ‘A Terra é nossa mãe’, os outros dizem: ‘São tão poéticos, que imagem linda!’ Isso não é poesia, é a nossa vida – esclarece. Estamos presos ao corpo da Terra, quando alguém a pica, fere ou arranha, desorganiza o nosso mundo”.

Ler o xamã, filósofo e líder indígena é como conversar com todos os humanos: “Ou você ouve as vozes de todos os outros seres que habitam o planeta com você, ou faz guerra contra a vida na Terra”, diz o autor de A vida não é útil. A conversa com Ailton é um caminho para o sentido cósmico da vida.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Brasil da obra pronta

 


O Brasil condenado pelo negacionismo político

A economia de um país não caminha por muito tempo sobre uma sociedade sem justiça social; tanto quanto a justiça social não caminha sobre economia ineficiente. A negação da necessidade de sociedade justa e a negação da necessidade de economia eficiente são dois negacionismos que condenam o Brasil a surtos de crescimento sem sustentabilidade social, ou surtos de avanços sociais sem sustentabilidade econômica.

A história do último século oscilou entre políticas econômicas sem sensibilidade social e políticas sociais sem conhecimento das regras da economia. Tivemos milagres econômicos que logo esbarraram na desigualdade como a riqueza se distribuía, na falta de educação de base, no transporte público caótico, na sua saúde e moradia precárias. Também tivemos momentos de políticas sociais que esbarram na falta de eficiência econômica levando a inflação, juros altos, endividamento, depredação ecológica.


Sem sensibilidade social, tivemos governos que não aumentaram o salário mínimo, mesmo quando a riqueza crescia, outros que sem conhecimento econômico propõem aumenta-lo mesmo sem base econômica que permita sem a ilusão de inflação. Há relação da sociedade com a economia que exige sensibilidade social, mas também respeito a certas regras econômicas.

Sem distribuir renda nem investir no social, a sociedade se desagrega e a economia quebra por demanda limitada, por violência, por desequilíbrio ecológico, baixa produtividade, insatisfação. Distribuindo sem considerar limites nem restrições a economia e os benefícios sociais são devastados pela inflação, pela ineficiência, pelos desequilíbrios. A sociedade justa e a economia precisam estar casadas pela responsabilidade política usando a variável tempo para realizar seus propósitos nos prazos possíveis, sem abandonar a eficiência econômica nem os propósitos sociais: sem negativismo social nem econômico, com sensibilidade social e conhecimento científico. Negar os limites definidos pela ciência econômica pode matar ainda mais e por mais tempo do que negar vacina para lidar com a epidemia. Negar a tragédia social é uma forma de genocídio tão grave quanto ignorar a epidemia.

'Heil Bolsonaro!'

Reportagem de Isabella Menon na Folha ("Ideias nazistas em escolas acendem alerta", 3/1) traz um retrato alarmante: a naturalidade com que o Brasil tem convivido com atos de apoio ao nazismo, até mesmo em colégios e universidades. Esses atos vão desde suásticas pichadas em muros, grupos autoproclamados neonazistas, professores defendendo Hitler em aula e jovens que se fantasiam de Hitler e fazem seus gestos. Em dezembro, um adolescente em Aracruz (ES), portando uma braçadeira de suástica, matou a tiros quatro pessoas e feriu 13.

As causas são óbvias: a propaganda que esses jovens absorvem no submundo da internet e o discurso de ódio que escutam em casa. O envenenamento digital não seria tão eficiente se detectado por pais responsáveis e democratas. Mas, quando os próprios pais se identificam com aquelas teses, os garotos não têm chance. Como batismo de fogo, muitos foram levados para o quebra-quebra em Brasília.

Alguma dúvida quanto à presença de neonazistas entre os bolsonaristas da baderna? Jair Bolsonaro, pivô do levante, flertou com o nazismo durante toda a sua vida política. Há farta documentação: mensagens, discursos, slogans, auxiliares adeptos da estética hitlerista, homenagem a uma neonazista alemã e muito mais. Segundo a antropóloga Adriana Dias, o número de células neonazistas no Brasil pulou de 72 em 2015 para 1.117 em 2022. Mera coincidência com o mandato de Bolsonaro?

Em 1944, o Exército brasileiro mandou 25 mil heróis para a Itália, a fim de ajudar os aliados a combater o nazismo. Destes, 467 voltaram mortos e repousam no Monumento aos Pracinhas, aqui no Rio. Os militares que ainda apoiam Bolsonaro fariam melhor se fossem em coluna por um ao monumento e cuspissem nas urnas gritando "Heil Bolsonaro!".

Adriana Dias morreu neste domingo (29), vitimada por um câncer. É um duro abalo na luta contra o neonazismo no país.

O que Bolsonaro queria

Um país pra chamar de seu, é claro e já pedindo perdão a Erasmo Carlos pelo uso das palavras. Mas era isso. Como nos seus planos não estava a derrota nas eleições e ele fez de tudo para conseguir, agora vemos esses fantasmas mais ou menos ameaçadores tentando todo tipo de golpe. Só que me parece que eles faltaram à aula de História quando se falou de Golpe. Aliás, acho que faltaram a todas as aulas de História. Um golpe não se faz assim e aqui no Brasil todos os golpes, maiores ou menores, tiveram a mão dos EUA, da imprensa oficial, dos empresários e da Igreja. Esta tentativa reuniu parte dessa lista, mas sem efetivar o apoio.

Nem a eleição, nem o golpe deram certo e apesar do presidente do PL dizer que esta minuta de golpe estava em todas as casas, queria dizer que na minha não estava. O medo do golpe pode ser, mas a minuta só quem pretendia torna-la definitiva. Aí teríamos um Brasil realmente transtornado. O plano era minucioso e o primeiro mandato de Bolsonaro acabou sendo um período de prova para a ideologia que viria por aí. As armas liberadas, as politicas reacionárias em relação a gênero, drogas, aborto e comportamento em geral, o gado bem alimentado e a política no sentido mais amplo seria a base deste novo período de trevas que se armava para o Brasil.


Mas é fácil de se imaginar. Um país sem política, que era a finalidade, é um país sem democracia. Os povos indígenas dizimados e o garimpo comendo solto, envenenando os rios e enriquecendo os poderosos que se escondem atrás das árvores. Organizações de fiscalização e apoio aos indígenas, à floresta, à ecologia e ao meio ambiente fechadas definitivamente. Os militares assumindo o controle de todos os setores do governo, não todos os militares, mas os que fecham com a ideologia do presidente, as escolas militarizadas também, as universidades reduzidas ao ensino técnico, a cultura limitada ao divertimento sem abstração ou elaboração, ou seja, sem construção de uma identidade brasileira. A classe média cada vez mais pobre e os pobres cada vez mais miseráveis e junto a isso a Saúde doente e contribuindo para o projeto de extermínio.

O Mercado que num primeiro momento poderia até se animar com essa possibilidade, também ferido de morte sobretudo diante do isolamento que o país entraria no mundo todo. Falando nisso, o projeto previa justamente o alinhamento do Brasil com as ditaduras que permanecem no planeta criando um bloco reacionário e perigoso que a cada dia se espalha mais por aí. Os ricos cada dia mais ricos e os pobres cada dia mais pobres o que faz com que os ricos fiquem cada dia mais ricos.

Mas não foi nada disso que aconteceu. Conseguimos frear a besta fera e dar um pouco de fôlego à democracia. Vamos nessa. Nos fará mais felizes e como diz o próprio termo, é o sistema de todos e até agora não se inventou nada melhor.

O crime pede respeito

São numerosos os dados sobre pessoas com antecedentes criminais nos atos terroristas. Só o acampamento em Brasília registrou 73 delitos (lesões corporais, furtos) em dois meses. Não será por acaso que, em atentados ultradireitistas nos EUA, se registrem indivíduos com gravames penais. Entre trumpistas e seus êmulos brasileiros medeia um oceano de coincidências significativas tecidas pela relação íntima entre política e crime, traço essencial do fascismo.


Foi George Orwell quem primeiro enxergou na linguagem política a secreta destinação de fazer com que "o crime se torne respeitável". Como a delituosa escamoteação da verdade sempre foi intrínseca à luta pelo controle do Estado, a afirmação visa prioritariamente efeitos colaterais do exercício do poder. A atualidade do escritor comprova-se na vida brasileira, onde se faz politicamente pertinente a sua tese de que "numa época de mentiras universais, dizer a verdade é revolucionário".

Na linha de Orwell, a lógica do crime é maior que a da lei. De fato, na vida prática, mais importa a conduta, que pode ser existencialmente lesiva em aspectos não legalmente codificados. A lei, por sua vez, visa geralmente a garantir elites contra as classes desfavorecidas. Mas não pertence à pobreza a raiz do fenômeno criminoso (aliás, os pobres salvaram eleitoralmente o país), e sim à miséria humana, à aliança interna com a escuridão. Em sua amplitude, o crime configura todo dano ético à sociedade. Por exemplo, a tortura, assim como sua apologia pública.

É clara, assim, a natureza terrorista do vandalismo, da sabotagem elétrica e do caminhão-bomba, apesar da duvidosa tipificação legal. Inconteste é o crime tramado de lesa-instituição de paisanos e fardados: as falanges do Inominável e seus generais. Toda ideologia aspira à publicidade, mas é como se o crime fosse uma ideologia das sombras. E, na falta de bingos ou outros fetiches, a mancomunação delituosa pode confortar idosos, carentes de objetivos vitais e instrumentalizados pela perversão do gozo.

Talvez demore para se aquilatar toda a gravidade da delinquência antidemocrática, à qual não escapam autoridades, religiosos, médicos e o próprio Legislativo. Por enquanto, para um reequilíbrio realista, vale ponderar sobre miúdos episódios sintomáticos. Num deles, uma invasora detida em Brasília queixava-se: "Estão nos tratando como presos". Ou seja, a coautora de um dos atentados mais infames contra a República brasileira ignorava a sua condição criminosa. Por alienação de classe ou por negação digital da realidade, o delírio privilegiado obscurecia a enormidade da violência. É que "cidadãos de bens" (e não "do bem") são embalados pela cantilena fascista do crime respeitável.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Brasil paizão

 


É Flórida

Jair Bolsonaro continua na Flórida, abanando-se com o formulário em que pediu visto de turista às autoridades americanas já que seu passaporte "diplomático" caducou. Há dias, um dos zeros, indagado sobre quando seu pai pretendia voltar, respondeu: "Não sei. Pode ser amanhã, pode ser daqui a seis meses, pode não voltar nunca. Ele está desopilando".

Desopilando? Olha a corrida ao dicionário. Segundo o Houaiss, desopilar é "desobstruir, aliviar, desentupir, descarregar". Opilar, por sua vez, significa "obstruir um conduto natural". Logo, Bolsonaro está com um conduto natural obstruído e precisa desentupi-lo, daí seu turismo na Flórida. A imagem é repulsiva para ser lida no café da manhã, mas, pelo menos, Bolsonaro está fazendo isso longe. E, se uma de suas opções é não voltar nunca, imagine o grau da obstrução que o acomete.


Desopilar é também "alegrar-se, desanuviar, espairecer, rejubilar-se". Mas o que haverá de tão alegre hoje na Flórida para Bolsonaro? Não será a companhia de seu amigo Donald Trump, já que, para Trump, Bolsonaro vale agora menos que o papel amassado da embalagem do seu chiclete. E não que Bolsonaro esteja precisando de dinheiro, mas a possibilidade de fazer "palestras para empresários", a R$ 50 mil por palestra, também se frustrou —como turista nos EUA, ele não pode prestar serviço remunerado. Por que então Bolsonaro não as faz de graça, para desopilar?

E como imaginar Bolsonaro entregando-se a outra acepção da palavra, "rejubilar-se"? Ele não tem muitas razões para se rejubilar. Os americanos veem com asco a sua presença no país. Anguillara Vêneta, a cidade da Itália que o tornou cidadão honorário, quer apagar essa mancha de sua história. E até sua mulher, Michelle, já o deixou para trás e voltou. Só lhe resta armar um cercadinho e falar para os pacóvios brasileiros na Disney.

Bolsonaro não tem escolha. É Flórida.

Irresponsabilidade é geral


A gente permitiu que isso acontecesse no nosso tempo no nosso país, debaixo da nossa guarda porque todos nós, brasileiros, nós somos responsáveis pelo que está acontecendo 
Sonia Bridi

Não são somente ‘índios’

Se fossem somente os ianomâmis, seria uma tragédia, mas é muito mais que isso. É o destino trágico das “populações indígenas integradas” ao sistema brasileiro. É uma repetição cruel do que ocorreu com os africanos que aqui foram máquinas de trabalhar como escravos. De fato, os que chamamos de “índios” são representantes de outras humanidades. São manifestações do humano, hoje em estado de tortura física e moral. Na experiência de quem se dedicou ao assunto, é o preço do cruel rito de passagem que vai do isolamento à integração sempre mutiladora, senão genocida, quando essas “humanidades indígenas” são canibalizadas por nosso mundo “civilizado”.

Quando falo em humanidades, penso no conceito de cultura de E. B. Tylor, de 1871! Nessa definição, cultura não é alta ou boa educação e belas-artes — é algo definidor da condição humana como “aquela totalidade complexa, que inclui conhecimento, crença, arte, lei, moralidade, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como um integrante da sociedade”.


Quando etnólogos falam em “Línguas e culturas indígenas do Brasil”, como fez num livro indispensável Darcy Ribeiro em 1957, eles redefinem radicalmente as coletividades humanas chamadas vulgarmente de “tribos” e “raças”, pois o cultural é sabedoria, moral e costumes habituais — que se faz coletivamente sem pensar —, mas não é inato. É, como tudo o que nos distingue como humanos, aprendido por meio de um sistema de relações sociais.

Note bem, em 1871 Tylor nos tirou da tirania das taras raciais e racistas (usadas até hoje como classificadores de coletivos humanos) para ler as diferenças de costumes como uma totalidade — como um cosmo que, ao lado do idioma, chega de fora para dentro. Tylor deu um passo decisivo contra suposições biológicas usadas para explicar diferenças.

Quando, então, falamos da atual tragédia ianomâmi, estamos de fato nos referindo à agonia de liquidar um modo alternativo de ser humano. Nesse sentido, ser “índio” não é apenas ser um autóctone ou um grupo ancestral que revela seu primitivismo andando nu... É ser, como nós, uma “humanidade plena”, que vivencia a vida de modo alternativo, mas de nenhuma maneira fora dos quadros gerais do que chamamos de “condição humana”.

“Índios” são como a gente, a menos que se lhes atribua algum traço racista imutável. Eles são vitimados pelas mesmas doenças e violências, como qualquer outro grupo humano (devo lembrar a agressão russa à Ucrânia?). Pois, como parceiros da nossa flutuante e contraditória humanidade, eles, tal como nós, pagam um preço descabido por seu modo de ser e agir.

A tragédia dos ianomâmis leva-me aos anos 1960, quando comecei a estudar essas sociedades e, em 1961, vivi três meses com os gaviões na mata paraense.

Não tenho espaço para exprimir o que vi e pesquisei, exceto para reiterar o dramático processo de contato intercultural desse grupo de língua jê com os extratores de castanha locais, descrito no livro “Índios e castanheiros”, escrito com Roque Laraia, um texto de juventude incapaz de descrever os horrores que testemunhei.

Como assinalei no meu diário, os “índios” não passavam um dia sem falar em morte e reafirmar que morreriam. Felizmente, tal profecia não ocorreu, mas a extinção como um destino e a perda irreparável de uma experiência humana alternativa poderia ter ocorrido. Tal foi o caso de muitas dessas culturas que não tivemos o cuidado de sequer pensá-las como esplêndidas experiências de viver na floresta com uma tecnologia engenhosa, mas não engenheira, marcada muito mais pela reciprocidade que pela troca na qual um lado tira vantagem do outro. Algo mais do que claro no caso ianomâmi, a que se devem acrescentar o assalto a seu território, o roubo de suas riquezas, a violação de suas almas por catequistas — e a infame indiferença de administradores. É preciso a tragédia para agirmos e, quem sabe, ir da extinção para um ato de benevolência.

Parte de nós

É feio reconhecê‑lo, mas a maioria das pessoas não faz distinções e rejeita os matizes. Ainda mais feio e triste é admitir a excessiva influência dos governantes na percepção que temos dos seus países e dos seus povos. Não serve de muito o facto de, quando Trump foi eleito presidente, há um par de anos, ter perdido o sufrágio popular por uma diferença de dois milhões de votos, se não estou mal lembrado, e de só o injusto sistema eleitoral americano lhe ter permitido a investidura. Desde então, a nossa ideia dos Estados Unidos mudou para pior, e essa péssima ideia afecta a totalidade dos seus cidadãos. Embora saibamos que uma grande parte da nação detesta Trump e sofre com ele mais do que qualquer estrangeiro, a mancha torna‑se também extensiva às suas vítimas. Há pouco tempo, declinei um convite de Harvard porque — expliquei‑o a quem me escrevia — “não porei os pés no seu país enquanto Trump continuar em funções”. O professor em questão era tão contrário ao seu presidente como eu ou mais, mas a minha decisão — pessoal, insignificante — é irreversível, como foi a de não ir lá durante os mandatos de Bush Jr., que cumpri estritamente. Assim se eu, que procuro ter em conta os matizes, reajo desta maneira drástica, como não reagiriam assim tantos que nem sequer o procuram? Pelo seu lado, a Grã‑Bretanha foi sempre um dos meus países favoritos, e a minha anglofilia declarada valeu‑me um desprezo significativo em Espanha. Desde a votação do Brexit, no entanto, as minhas simpatias foram minguando. Sei que os partidários do abandono da União Europeia foram poucos mais do que os desejosos de ficar, e que, além disso, muitos destes últimos, confiando em que os despropósitos e as mentiras flagrantes não prevaleceriam, se abstiveram despreocupadamente. Tenho bastantes amigos ingleses e escoceses, e todos eles estão horrorizados ou desesperados. Não tomei a mesma decisão — pessoal, insignificante — que a respeito dos Estados Unidos (custa‑me mais, e o Brexit ainda não teve lugar), mas tenho escassa vontade de visitar um lugar que sempre me alegrou e atraiu. Os governantes, com efeito, têm mais peso do que o desejável, e quando são oprobriosos contagiam todos com o seu opróbrio. É por isso que é tão irresponsável e nocivo o que os dirigentes independentistas catalães estão a fazer há seis anos. Deixando de parte outras considerações, conseguiram que no resto de Espanha nasça e cresça uma animadversão indiscriminada contra “os catalães”, quando, dos seis ou sete milhões que são, só dois (segundo os cálculos mais interessados) apoiam esse procés de laivos racistas, ultrarreacionários e antidemocráticos, por muito que os seus promotores encham cinicamente a boca com a palavra “democracia” e que o idiótico PEN os anime a troco de dádivas. Durante estes seis anos acumularam insultos, desprezo, calúnias e agravos sem fim contra “os espanhóis”, com especial sanha contra madrilenos, andaluzes e estremenhos. Por sorte, a reacção tem sido exígua, lenta e nada exaltada. Mas é óbvio que a paciência se erode e que a exasperação está a aumentar. Aos Mas, Puigdemont, Junqueras, Torra, Rovira, Artadi, Rufián e companhia, isso não lhes dá cuidado; de facto, anseiam por mais exasperação. O certo é que, até mesmo se um dia a sua anelada República fosse um facto e a Catalunha independente, a geografia, casmurra, não mudaria, e continuaríamos a ser vizinhos. Será aconselhável irritar deliberada e sistematicamente o vizinho, sobretudo quando este é o nosso principal cliente? Quando é aquele a quem solicitaríamos auxílio em caso de catástrofe natural ou de atentado terrorista massivo? Quando temos séculos de convivência e de solidariedade ininterruptas, apesar das fricções inegáveis? Quanto tempo será preciso para que se restabeleça a confiança perdida e a estima deteriorada? Uma vez que nos consideramos compatriotas e que estamos muito misturados, é neste caso ainda mais necessário não perdermos de vista os matizes e fazermos um esforço contínuo por recordar que os usurpadores mencionados não são, em absoluto, “os catalães”, mas antes — graças a um outro sistema eleitoral injusto — indivíduos que, devido a uma maioria parlamentar artificial, tomaram como reféns todos os seus concidadãos. Há quatro ou cinco milhões que não fazem nada senão sofrer, e a eles não podemos virar‑lhes as costas nem abandoná‑los à sua sorte, são a maioria. Conheço muitos assim, catalanófonos. Passo parte do ano na sua terra e, madrileno que sou, e tendo‑me pronunciado publicamente não contra o independentismo (defenda cada um o que queira), mas contra este independentismo totalitário e a mal, nunca me senti rejeitado nem me vi desprezado, nem em privado nem na rua. Antes pelo contrário. Agora que começa o julgamento dos políticos acusados de delitos, o tom do ruído subirá mais. A difamação da democracia espanhola não conhecerá limites nem escrúpulos. As ofensas multiplicar‑se‑ão. Ser‑nos‑á dito que não se passou aquilo a que vimos. Os que fomentam o ódio aplicar‑se‑ão com afinco. Justamente agora é preciso não perder de vista que “os catalães” não são os que vociferam, increpam e caluniam, seja de que maneira for. Continuam a ser parte de nós, como o foram sempre, ainda que para os usurpadores e seus acólitos nós já não sejamos parte deles. Isso não nos deve importar. São muitos, mas os menos.
Javier Marías, “Será o cozinheiro boa pessoa?”
Javier Marías, “Será o cozinheiro boa pessoa?”

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A irrelevância ao alcance de todos

Repassando outro dia no jornal as listas de livros mais vendidos, vi que nosso complexo de vira-lata continua ovante. Dos 10 mais, 9 são americanos e 1 é brasileiro. Não sei se lá fora também é assim. Como muitos países estão vivendo dias conturbados, imagino que, neles, o interesse pelos assuntos nacionais seja pelo menos equivalente ao fascínio pelas coisas dos EUA. A exemplo do Brasil de tempos mais nacionalistas.

Num jornal de 1964 que há pouco me caiu aos olhos, também havia uma lista de livros mais vendidos. Exceto por um ou outro sobre a Guerra Fria ou a fome na África, a maioria era de brasileiros. E, entre estes, um gênero então em voga: tratados “eruditos” sobre temas irrelevantes e vice-versa, com citações em latim, prefácios de gente séria e crítica feroz de tudo. Alguns: “A Ignorância ao Alcance de Todos” (1962), “O Puxa-Saquismo ao Alcance de Todos” (1963) e “Seja Você um Canibal” (1964), todos de Nestor de Hollanda, e “Tratado Geral dos Chatos” (1963), de Guilherme Figueiredo. Tenho-os até hoje, lidos, sublinhados e anotados.

Nestor de Hollanda (1921-1970) era radialista, humorista e comunista, mais ou menos nessa ordem. E Guilherme Figueiredo (1915-1997), um escritor respeitado, com largo trânsito no meio e dramaturgo levado à cena por Tonias, Procopios e Bibis (anos depois, para seu azar, seu irmão caçula, João Batista, seria o quinto presidente da ditadura).

“A Ignorância…” pregava a analfabetização compulsória do país, já que a alfabetização parecia impossível. “O Puxa-Saquismo…” era um manual da bajulação para políticos e populares. “Seja Você um Canibal” se compunha de receitas culinárias para levar ao fogo famosos e anônimos. E, “Tratado Geral…”, um guia para identificar, evitar e, se preciso, matar um eventual chato no nosso caminho.

Todos ficaram meses nas listas dos jornais e vários ao mesmo tempo. Outro Brasil.

Ruy Castro

Ser moderno

A história do mundo tem sido contada a partir de um formato consagrado nesses últimos séculos por cientistas sociais de respeito. Mas enquanto esses pensadores enlouquecem tentando desvendar a crise entre indivíduo e sociedade, os brasileiros reivindicamos a originalidade absoluta de nossos costumes, hábitos e hinos que afirmam nossa diferença. Vivemos nossa abençoada vagabundagem cantando cantigas originais, organizando relações sociais só nossas, pensando livremente sobre o que for.

Gente importante, celebrada por aí, sempre defendeu esse caráter único com um sorriso mal disfarçado, saudando nossa divina originalidade. Autores como Gilberto Freyre (espécie de fundador metafísico da tendência), Mario e Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos e Emiliano Di Cavalcanti, Jorge de Lima e Guimarães Rosa, Nelson e Glauber, apesar dos protestos ruidosos diante da injusta fome do povo, não tinham dúvida de que esse povo seria capaz de feitos extraordinários sem o lugar-comum narrativo absorvido e manifestado pelos outros povos.


Nessas horas me ocorre sempre o primeiro parágrafo da obra cintilante de um deles, Paulo Prado, que se refere ao Brasil como o território de uma população triste e melancólica em permanente anúncio de uma alegria construída por sua produção cultural. Ou como disse Euclides da Cunha sobre o poeta Castro Alves, “foi ele quem nos ensinou a metáfora, o estiramento das hipérboles, o vulcanismo da imagem e todos os exageros da palavra a espelharem impulsividade e desencadeamento de paixões que são essencialmente nativos”. E mais adiante na mesma conferência: “Penso que seremos em breve uma componente nova entre as forças cansadas da Humanidade”.

Do século XIX para o XX, heróis de José de Alencar e de Machado de Assis disputavam o coração dos leitores e a ilusão dos eleitores sobre o que melhor representava o Brasil. Enquanto Alencar criava situações típicas da colonização em que o valor dos locais era puro e por isso mesmo indiscutível, Machado reproduzia com ironia o talento destrutivo de situações que deviam estar ocorrendo em outro lugar, a revelar a existência de uma civilização irregular destinada a logo desaparecer.

Depois da ditadura militar e do fracasso social dos governos de José Sarney e Fernando Collor, tornou-se vitoriosa a ideia de que nada seria capaz de tirar o povo brasileiro da estrada por onde seguia. A estrada do alegre insucesso, da compulsiva festa de gargalhadas autocríticas, do riso apoiado numa cultura de televisão que derrotara todas as outras formas de conhecimento, cultivando e difundindo uma imagem do Brasil que, como seu povo, nunca tivéramos antes.

Perdemos assim o jeito de tentarmos nos explicar. Nos apropriamos de um sistema de análise em que buscamos no moderno uma saída para o vazio da ausência de futuro. O fim de toda a glória de nossa existência tornada mera presença sobre a face do corpo celeste, o planeta que nos coube.

Bolsonaro e seus cupinchas arruaceiros agravaram essa desmoralização desvalorizando nossa capacidade de descobrir novos rumos. Essa extrema direita de moleques se tornou entre nós uma esperança impossível. Assumiu-se então a ideia consolidada do fracasso da nação, só o milagre tirava nosso povo da merda conceitual em que ele se encontrava. E esse milagre não estava mais no valor da moeda, o milagre do Real se acabara assim que aquele dinheiro perdera a força nos shoppings de nossas cidades.

Só nos restou portanto sermos modernos para darmos uma explicação sobre por que não havíamos produzido um conjunto de ideias que nos recolocasse no rumo da realidade que ainda podíamos frequentar. Ser moderno é não ser ideológico, é preferir uma explicação que nos faça desabrochar mesmo que não explique nada. Porque ser moderno é não dar bola nenhuma pro futuro.

Estava em curso o genocídio dos ianomâmis

Não poderia ser diferente, depois da reportagem da jornalista Sônia Bridi na reserva Indígena Ianomâmi, domingo, no Fantástico (TV Globo). O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou, ontem, a investigação da possível prática dos crimes de genocídio de indígenas e de desobediência de decisões judiciais por parte de autoridades do governo Jair Bolsonaro.

São imagens chocantes, que equivalem às das crianças do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, cujas fotos me embrulharam o estômago quando lá estive e vi montanhas de cabelo, sapatos, brinquedos, agasalhos, próteses, óculos e outros pertences pessoais que lhes foram tirados. O que mais impressiona é a “racionalidade” com que tudo foi feito, a partir da “banalidade do mal”, como disse a filósofa judia-alemã Hannah Arendt.

O conceito foi cunhado a partir do julgamento em Jerusalém do criminoso de guerra nazista Karl Adolf Eichmann, responsável por ocupar funções na Seção de Assuntos Judaicos do Departamento de Segurança de Berlim. Um dos principais colaboradores de Hitler, acusado pela morte de inúmeros judeus, Eichmann havia fugido para a Argentina, onde foi localizado por agentes israelenses, que o sequestraram e levaram para Jerusalém, onde foi julgado e condenado à morte.

Convidada para assistir ao julgamento, Arendt escreveu um livro. Chegou à conclusão de que Eichmann não era um ser demoníaco, mas um mal constante, que fazia parte da rotina de trabalho dos oficiais nazistas. Eichmann nunca se considerou culpado pelos crimes cometidos, disse que apenas “cumpria ordens, seguindo as leis vigentes naquele período”. Acreditava na sua inocência porque seguia ordens superiores e as leis do Estado nazista.


Na avaliação de Arendt, essa seria a justificativa para a ascensão em regimes totalitários e a banalização da razão e coerência do ser humano. Obcecado por poder e ascensão social, Eichmann faria qualquer coisa pelo reconhecimento social e o sucesso na hierarquia nazista, daí a banalização do mal que praticava. No entendimento de Arendt, a razão pela qual deveria ser punido era principalmente essa. Sua racionalidade não era voltada para o bem comum, mas apenas em seu próprio benefício.

As crianças ianomâmis não foram exterminadas nas câmaras de gás como as crianças judias (1,5 milhão foram mortas no Holocausto), estavam sendo mortas pela fome e falta de assistência médica; as adolescentes e jovens eram exploradas sexualmente em troca de comida. Os ianomâmis estavam sendo exterminados por uma política de Estado. Um livro escrito pelo coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto (Biblioteca do Exército, 1995) sustenta que a existência dos Ianomâmis era uma farsa.

A Farsa Ianomâmi disseminou nas Forças Armadas e em alguns setores o medo de perder a soberania em áreas da Amazônia brasileira. Menna Barreto apontava um conluio entre ONGs e forças estrangeiras para “separar do Brasil” o território indígena, “cedê-lo aos fictícios ‘ianomâmis’ e “preparar a dominação futura da Amazônia (…) para a posterior criação de países indígenas independentes, sob a tutela das Nações Unidas”.

O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro, quando comandante militar da Amazônia, vocalizou essa tese publicamente, em razão da demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol. Todos os órgãos federais, inclusive os destacamentos de fronteira das Forças Armadas, governadores e prefeitos foram coniventes com a situação. Sabia-se que os garimpeiros estavam contaminando os rios, matando e explorando os ianomâmis, em aliança com os traficantes de cocaína.

Havia um centro de comando dessa política de extermínio: o então presidente Jair Bolsonaro, aliado dos garimpeiros, que trocou e escolheu a dedo os principais responsáveis pelos órgãos de fiscalização, controle e repressão de Roraima, com a orientação de deixar os índios à míngua e liberar geral o garimpo ilegal, assim como em outros estados da Amazônia.

Barroso tomou a decisão de mandar investigar a grave situação enfrentada por nossos indígenas, como a Ianomâmi, com base nos fatos já comprovados. De acordo com lei, comete o crime de genocídio a pessoa que age com intenção de destruir, totalmente ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Ordenou, ainda, que o governo atue para garantir a retirada de garimpos ilegais em sete terras indígenas e fixou prazo de 30 dias para que seja apresentado um diagnóstico dessas comunidades, com o respectivo planejamento e cronograma de execução de medidas.

Seu despacho traduziu a banalização do mal: “Quadro gravíssimo e preocupante, sugestivo de absoluta anomia (ausência de regras) no trato da matéria, bem como da prática de múltiplos ilícitos (crimes), com a participação de altas autoridades federais”.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Brasil carrega a canalha

 


O dízimo golpista

‘Em nome do pai, dos filhos, dos espíritos e dos santos, amém’ é o enredo de 2023 da Gaviões da Fiel. As alas da escola reunirão na avenida espíritas, evangélicos, católicos e seguidores do candomblé e da umbanda. Contra a intolerância religiosa, a alegria da música e a irreverência carnavalesca.

No ano passado, a mesma Gaviões desfilou sob o tema “Basta!”, em referência direta aos desmandos na saúde, educação e política esperneados por aquele ex-líder da extrema direita. Dizia a letra do samba: A democracia alienada e a ditadura disfarçada/basta de hipocrisia/é hora da luta sair do papel.

E, logo depois das eleições presidenciais, a torcida da Gaviões protagonizou a mais linda reação aos golpistas, quando, a caminho do Rio, em razão de um jogo contra o Flamengo, rompeu os bloqueios dos caminhoneiros em avenidas de São Paulo. Os bolsonaristas em fuga ainda puderam ver pelo retrovisor, no alto de um viaduto, a faixa estendida pela torcida corintiana: “Somos pela Democracia”.

O samba pela concórdia religiosa chega à avenida depois da prisão de alguns pastores golpistas. Não apenas postaram a catilinária habitual contra as urnas eletrônicas, como invadiram os palácios no 8 de janeiro. Ancorados no dízimo arrecadado — aquele que não paga imposto —, ajudaram a destruir o patrimônio público.

Não é de hoje, sempre existiram maus religiosos disfarçados em nome da fé. Ainda sob tal escudo, perpetraram muitos crimes. Na eleição passada, o discurso de campanha escondeu a incompetência na gestão da pandemia — quase 700 mil vítimas — para vociferar o discurso fundamentalista de algumas denominações evangélicas contra religiões afro. A começar pela célebre ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. Tudo depois ecoado por parlamentares tuiteiros de cabelo pintado.

O número de golpistas presos, tamanha a barbárie da tentativa de golpe, deixou em segundo plano a prisão e a conspiração urdida por pastores evangélicos, sob inspiração do capitão e de seus militares de pijama (nem todos). Sob o governo bolsonarista, os religiosos conservadores sentiram-se confortáveis na sedição contra a democracia, como na propagação de suas aversões. Releram a Bíblia de acordo com seus interesses financeiros e políticos. Com sucesso, incentivaram ataques aos terreiros de religiões afro e a seus seguidores.

Logo depois da tentativa de golpe do 8 de janeiro, ao postarem opiniões e vídeos para caracterizar como manifestações democráticas o que foi um ataque ao resultado das eleições, praticaram outras ações criminosas. Protegidos pelo lero-lero da liberdade de expressão, buscam destruir o Estado Democrático e difundir entre a população narrativas escusas sempre pintadas pelo verniz da fé.

Durante a pandemia, em lugar de pedir compras rápidas de vacinas ou de respiradores, para proteger seu rebanho, revelaram seus interesses ao lutar para que seus templos não ficassem fechados. Afinal, o dízimo on-line não se mostrava tão eficiente como a coleta presencial.

O Brasil de 2023 precisa não apenas discutir o papel dos militares na sociedade, sem medo de golpe ou de quarteladas, como deveria enfrentar a sedição empreendida pelos pastores de extrema direita. Por décadas, o catolicismo conservador se viu confrontado por reações de quem não comungava com atrasos civilizatórios — como a luta contra o divórcio ou a pílula anticoncepcional. Eram duros debates, porém não se colocava, tal como posto agora por setores evangélicos, preconceito religioso. Tratava-se de rejeitar a proverbial catequização, em nome da fé, de igualar a todos sob as mesmas crenças.

É ainda o caso de usar a liberdade de opinião para discursar malquerenças dentro dos templos contra os gays. Embora a homofobia seja considerada crime pela Constituição, os pastores brigam para mostrar seus púlpitos como espaços livres da lei geral. Assim, pela enviesada fé, a recorrência no preconceito.

A França, de maneira mais grave, enfrenta há alguns anos o que se avizinha no Brasil. Os imãs brigam para impor preconceitos e costumes estranhos à sociedade francesa. Também querem espaços onde valham seus preceitos islâmicos fundamentalistas — quase sempre contrários à secular tolerância legal religiosa do país, num evidente caráter de retrocesso civilizatório. Lá, como aqui, a extrema direita se esconde atrás das liberdades civis para exterminar conquistas como… a liberdade de opinião. Isso não é um samba.

A descoberta da Amazônia

Quando Márcio Souza, amazonense, escritor, diretor de teatro, crítico de cinema, autor do conhecido e festejado livro “Galvez, o Imperador do Acre”, foi convidado pela Universidade de Berkeley, na California, para ministrar curso sobre a Amazônia, ele descobriu que não havia uma única obra sobre história desta imensa e rica região. O professor organizou a primeira história geral da Amazônia numa edição de mimeógrafo para seus estudantes californianos.

Depois de várias versões, ele concluiu sua “História da Amazônia: do período pré-colombiano aos desafios do século XXI”, editora Record, 2019. A questão dos índios amazônicos, especificamente dos ianomanis, se insere dentro do desconhecimento generalizado da região. No entanto, pilantras de diversas nacionalidades perceberam meios de gerar renda. Por exemplo, ingleses se depararam, séculos atrás, com indígenas jogando esporte parecido com futebol na Amazônia ocidental. A bola quicava e tinha elasticidade. Descobriram a seringueira. Levaram sementes para a Malásia e destruíram importante atividade comercial da região.



Os índios sempre constituíram uma espécie de ser humano que não encontra explicação razoável nos chamados civilizados. O Marechal Candido Mariano da Silva Rondon andou pela selva fazendo contato com índios arredios. Mas o militar era uma ilha entre seus colegas. Ele criou a primeira reserva indígena. No entanto, o branco chamado civilizado não compreende e nem aceita povos sem propriedade privada ou moeda, que não negocia mercadorias. Além disso, a sabedoria de seus anciãos sabe misturar ervas que produzem curas milagrosas. Vez por outra, grandes laboratórios multinacionais recorrem a produtos amazônicos para produzir remédios que rendem milhões de dólares.

Se a Amazônia é uma grande área desconhecida dos brasileiros, os índios constituem uma incógnita ainda mais ignorada. Os exemplos do continente americano não são edificantes. Os norte-americanos fizeram da conquista do oeste um exercício de matança de índios. O general Custer dizia que “índio bom é índio morto”. Os argentinos também trataram de exterminar os povos originários desde os patagones até os fueguinos, da Terra do Fogo.

A alegada ignorância sobre o que se passa na Amazônia incentiva as práticas de uma terra sem lei. Vigora a opinião do mais forte, dos mais armados e daquele que tem mais dinheiro. O garimpo é atividade especial. Envolve risco, investimento importante, coragem e disposição para viver de maneira precária. Naturalmente produz riqueza. Ouro tem valor em qualquer lugar do mundo, em qualquer latitude, em qualquer situação. No Brasil e no exterior. Garimpeiro sabe do risco, mas conhece a extensão do ganho. Com uma vantagem: Ninguém paga imposto. E há muitos garimpos porque há muito ouro.

Os ianomanis estão localizados no norte de Roraima, ao redor do grande rio Uraricoera. A reserva fica próxima da BR 174, que liga Boa Vista a fronteira com a Venezuela. Estrada boa, asfaltada. Quem quiser, pode viajar por terra até Caracas. Já fiz essa aventura. Beleza de paisagem na grande savana, na Venezuela. A principal atividade econômica na região é ouro e a extração de diamantes. A riqueza da Amazônia é indescritível.

Aos olhos dos brancos e do finado governo Bolsonaro os índios atrapalham o progresso e o desenvolvimento da região. O resultado é este: mais de mil indivíduos daquela etnia foram internados em hospital de campanha da Aeronáutica, em Boa Vista, em situação crítica de saúde. Segundo informações do Ministério dos Povos Indígenas cerca de 570 crianças morreram nos últimos meses por doenças, fome ou contaminação por mercúrio, utilizado pelos garimpeiros para separar ouro de outros minerais.

O chanceler alemão Olaf Scholz virá a Brasília para conversar com o presidente Lula sobre integração do Mercosul com a União Europeia. O brasileiro falou por mais de uma hora sobre o mesmo assunto por telefone com Emmanuel Macron, presidente da França. O acordo é vantajoso para as duas partes. Mas envolve, em primeiro lugar, a preservação da Amazônia e dos povos indígenas. Os europeus agora se preocupam com a matéria por causa do alegado aquecimento do planeta. E se não obtiverem garantias neste assunto, não haverá acordo.

Os brasileiros, no governo Lula, descobriram a Amazônia, perceberam a catástrofe dos ianomanis e a vasta corrupção ocorrida no propalado apoio aqueles indígenas. Há uma corrente de interesses escusos que vai desde o guarda da FUNAI até o poderoso político eleito para supostamente defender a região. Não há mais argumentos para esconder a ignorância sobre o que ocorre no norte do território nacional.

Mata-'bicho'


Eles [indígenas] têm que se aculturar, não podem mais ficar no meio da mata, parecendo bicho.
Antonio Denarium (PP), governador de Roraima,

Brasil desperta para o genocídio dos yanomamis


Tanto as imagens de crianças yanomamis famintas quanto aquelas de sobreviventes dos campos de concentração nazistas envergonham os cidadãos, alemães ou brasileiros, surpresos, como se aquela realidade estivesse escondida. No caso alemão, a censura não permitia o conhecimento da realidade, no nosso caso, há décadas a imprensa denuncia, há quatro anos o governo se manifestava sobre o risco de os yanomamis proclamarem uma nação independente do Brasil. Havia estratégia ou ao menos o desejo de que houvesse uma limpeza étnica, para proteger a soberania nacional. Faz parte desta visão negar apoio sanitário, permitir que as terras yanomamis fossem ocupadas e que a água de seus rios contaminada.

Todos sabiam o que acontecia com os yanomamis, faltavam as fotos.


Da mesma forma, todos sabem o genocídio que há séculos se pratica contra os brasileiros pobres ao negar-lhes educação de qualidade. O ser humano tem corpo e mente: o genocídio pode ser com o assassinato de corpos, ou com o impedimento da prática cultural dos povos originários; ou a negação de escola na sociedade moderna, impedindo a vida plena por falta de emprego e renda. Por 350 anos, o Brasil cometeu genocídio contra os negros escravos, ao negar-lhes tudo; a partir de 1888 soltaram as algemas dos corpos, mas não libertaram os negros, nem os pobres brancos: para libertar é preciso ensinar a usar o mapa que orienta o solto na sua caminhada. Não demos o mapa para a vida contemporânea: escrever bem português, falar outros idiomas, ter noção de ciência, arte, história, geografia, conhecer as ferramentas do mundo, dispor de um ou mais ofício.

Desde a abolição da escravatura, estamos cometendo genocídio educacional, deixando os analfabetos e os alfabetizados sem educação necessária, sobrevivendo como se estivessem em uma câmara sem oxigênio, incinerando seus cérebros, no vácuo de conhecimento. Há alguns anos despertamos para o que ocorre na Amazônia, ao vermos florestas queimando, agora, para o genocídio contra os yanomamis: as fotos mostram ossos aflorando nos corpos, mas não mostra o cérebro de cada pessoa que vive sem saber ler.

Uma parte dos brasileiros continua vivendo na ignorância do genocídio cometido ao seu redor, por desrespeito aos povos originários ou negando escola de qualidade para que os brasileiros sem educação substituam os escravos com baixos salários. Faltam fotos mostrando o cérebro de quem não sabe ler e de cada excluído de escola com qualidade. Difícil entender que a foto de escola pública do presente é um retrato do país no futuro.

Por falta de foto, empresários, universitários, políticos e sindicalistas não se chocam com o genocídio educacional. Em grau diferente de maldade, toda criança sem escola de qualidade é um pequeno yanomami, e todos os outros brasileiros somos grandes genocidas. Porque sabemos o que acontece, mas não vemos as fotos do horror. Sabemos da realidade, mas a ignoramos por não a vermos fotografada.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


Cuidado com os 'homens de bem'

O patriota com camiseta de Bolsonaro que vandalizou o relógio no Palácio do Planalto tem três passagens pela polícia em Goiás, por ameaça física, tráfico de drogas e receptação de carros roubados. A patriota que, enrolada na bandeira do Brasil na invasão do STF, gabou-se de ter emporcalhado o banheiro dos ministros, também tem uma condenação por tráfico, em Santa Catarina. E outro patriota capturado nos distúrbios, munido de bombas, estilingues e material para coquetel molotov, era foragido por ter matado um homem a facadas no Pará em 2018.


Um patriota do Paraná, suspeito de ter fretado quatro ônibus que levaram golpistas de Londrina a Brasília, já cumpriu dois anos por sonegação de R$ 1,2 milhão em impostos. Outro patriota, este de Mato Grosso, foi acusado em 2021 de ameaçar a ex-mulher com uma barra de ferro e, ao ser preso, jurou matá-la "assim que saísse da cadeia". A quantidade de infratores da Lei Maria da Penha entre os capturados na praça dos Três Poderes é grande, com destaque para um patriota de Minas Gerais, que tentou esfaquear a mãe.

Todos os patriotas de Bolsonaro se dizem "homens de bem". Mas desde quando "homens de bem" estão associados a tantos problemas com a lei?

O cardápio de crimes em que se envolvem é infinito: genocídio dos yanomamis, contrabando de madeira, garimpo ilegal, assassinato de sertanistas, intimidade com milicianos, arsenais domésticos clandestinos, cocaína no avião presidencial, Viagra e próteses penianas para generais, venda de cloroquina, comissão na aquisição de vacinas, Bíblias a peso de ouro, rachadinhas, compra de mansões com dinheiro vivo, cheques para a primeira-dama, militares com salários de seis dígitos, mamatas com o cartão corporativo, empresários financiadores de terrorismo etc. etc.

Desconfie de gente de camisa amarela e ficha na polícia. Pode ser um "homem de bem".

Ode ao rebanho (Redondilhas bem intencionadas)

Pensar é só excepção
à tendência bem normal
de repelir a razão
que serve pra fazer mal.

A turba prefere seguir
a palavra do profeta:
obedecer faz sentir
tudo bom como chupeta.

Pensar por si faz doer,
dá trabalho e faz suar:
caminho próprio fender
é perigoso e dá azar.

Obedecer ao rebanho
dá conforto e sossego:
é bom como tomar banho
e não cria desapego.

Possuir ideias suas
é solene atrevimento:
exige boas charruas
e algum discernimento.

Sê por isso bem mandado,
bom menino e bem fodido:
pensar por si é pecado
e torna-se aborrecido!

Eugénio Lisboa

No caso yanomami, desafio da PF é provar dolo de Bolsonaro em genocídio

Nos próximos meses, uma pergunta latejará no noticiário: Pode Bolsonaro ser fisgado numa ação penal por genocídio? Na CPI da Covid, a ideia de vincular o capitão a um genocídio produzia ebulição nas redes sociais. Mas a tipificação desse crime exige um alvo específico —como os judeus para os nazistas ou os armênios para os turcos. Agora a coisa é diferente.

Nos últimos quatro anos, o governo tomou o partido dos garimpeiros ilegais. Nesta quarta-feira, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar a prática de crimes como omissão de socorro, desvios de verbas destinadas à saúde indígena e, para desassossego de Bolsonaro, genocídio.

No Brasil, o genocídio é definido na lei 2.889, de 1956. O artigo 1º anota que genocida é quem teve “a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Na pandemia, o negacionismo de Bolsonaro produziu mortes indiscriminadamente. Os yanomami, porém, se encaixam na definição legal como alvo individualizado.

Portanto, a degradação letal a que foram submetidos os indígenas pode, sim, configurar o crime de genocídio. A culpa pode ser atribuída por ação e também por omissão. Proliferam evidências de que as digitais de Bolsonaro estão impressas no flagelo yanomami. A exemplo do que fez em outros casos, o capitão produziu provas contra si mesmo. Mas será necessário demonstrar que houve dolo, má-fé. Esse é o principal desafio da Polícia Federal.

Faltam aos yanomamis comida, remédio, água limpa e proteção contra criminosos ambientais. Lula deflagrou no final de semana uma operação interministerial para socorrer os indígenas. Bolsonaro classificou a crise humanitária de “mais uma farsa da esquerda”. Disse que, em maio de 2021, numa visita a Roraima, não ouviu dos indígenas senão um pedido por “internet”. Lamentou que esteja empacado no Congresso projeto que abre reservas dos patrícios originários para o agronegócio.

Sempre que Bolsonaro se apropria de uma notícia, os fatos se perdem para sempre. Mas certas realidades, por eloquentes, não deixam de existir apenas porque os ignorantes as ignoram. No momento, pouca coisa é tão palpável quanto o o sofrimento inflingido aos yanomami. A assistência governamental aos indígenas jamais foi um primor. Mas o descaso ganhou sob Bolsonaro a aparência de escândalo. O capitão, como de hábito, diz o que bem quer. É preciso que investigadores e magistrados comecem a lhe dizer o que ele não deseja ouvir.

A nossa Noite dos Cristais

O poeta Ferreira Gullar costumava dizer que seus poemas nasciam do espanto a que era acometido diante dos incidentes da vida, daí lhe viria a inspiração em que o inesperado deflagrava nele o impulso para fixar num poema a sua percepção do que sentia sobre a experiência vivida. Gullar nos deixou uma obra genial, mas o tamanho do espanto que sentimos com os fatos calamitosos desse inesquecível dia 8 de janeiro que não abandonam a nossa memória não nos têm conduzido às sendas da criação, e já se ouvem vozes que nos sugerem ir em frente, passar um pano e voltarmos ao regaço do cotidiano de sempre.

O dia 8 de janeiro foi a data da profanação do que havia de sagrado entre os brasileiros no culto de suas tradições e seu projeto de futuro, sempre reiterado de seguir em frente na realização dos ideais civilizatórios de que Brasília, saída das mãos de Oscar Niemeyer e de Lucio Costa como projeto sinalizador da utopia brasileira de realizar nos trópicos pela obra de um país miscigenado uma cultura democrática e singular. Os palácios de Brasília, as sedes dos três poderes republicanos, não eram separados das vistas do público por muros, mas por vidros a fim de afirmar os ideais da transparência do poder. Neste famigerado dia 8 abateram-se as vidraças dos palácios de Brasília com a mesma fúria com que as hordas nazistas, em 1938, levaram a efeito um pogrom num bairro judeu destruindo suas lojas.


Seu propósito era o de colapsar a sede do poder democrático recentemente investido a fim de impedir a realização dos seus fins declarados de ruptura com uma história nascida da relação monstruosa entre o latifúndio e a escravidão, que preservada em seus fundamentos de exclusão, encontrou lugar nos processos de modernização autoritária que nos trouxeram aos dias de hoje. A tentativa criminal foi abortada, mas antes disso ela conspurcou e maculou o que dava sentido à nossa história e alento para seguir seu curso.

Os alemães, depois de 1945 com a derrota do nazismo, acertaram suas contas com os sicários que a tinham dissociado da sua rica história cultural no Tribunal de Nuremberg. Aqui, e pelas mesmas razões, é imperativo levar aos tribunais todos os que atentaram por ações ou omissões contra a nossa incipiente democracia. Qualquer tergiversação nessa linha deixa os flancos abertos para recidivas do fascismo que já encontrou as brechas em nossa sociedade para se infiltrar, que não se restringem às ocupações de posições de poder, mirando com igual intensidade as interpretações sobre o sentido da nossa história que vinham animando a construção da nossa democracia, do que foi exemplar a elaboração da Carta de 1988. Tais interpretações que foram se sucedendo e se retroalimentando desde José Bonifácio, Euclides da Cunha e tantos outras que imediatamente as seguiram, encontraram ressonância na ensaística moderna como nas obras de Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, Roberto Schartz, Rubem Barbosa Filho, para citar apenas alguns, que tentaram desvendar quais poderiam ser os rumos para uma sociedade cujo ponto de partida, o atraso ibérico, lhe era tão pouco propício. Cada qual, a seu modo, interpretava o nosso destino como vocacionado para uma intervenção de ruptura com o nosso passado.

O avanço continuado do moderno, antípoda do processo de modernização com que a ordem burguesa abriu seu caminho entre nós pelo autoritarismo político e a exclusão social, pôs em cheque a reprodução do passado, sustentado na ordem burguesa pelos seus vínculos com a ordem patrimonial que lhe garantia no plano da política. O regime Bolsonaro significou em todos os sentidos, político, cultural, econômico, um levante das forças do passado a fim de obstar a passagem do moderno, e foram elas que estavam presentes nos acampamentos em que se gestava o assalto à democracia brasileira, quer financiando suas ações, quer nas concepções dos seus movimentos, quer arrostando como massa de apoio setores retardatários da sociedade.

Esconjurar nosso espanto diante da calamidade a que fomos expostos, saída das próprias entranhas da nossa sociedade, é obra coletiva a ser desencadeada por um julgamento público, quando se investigue as origens presentes e remotas do mal que nos ronda, sempre com a inspiração de que jamais o dia 8 de janeiro ocorra mais uma vez.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Tem alma os verdugos?

Uma alma que fosse possível considerar responsável por todo e qualquer acto cometido teria de levar-nos, forçosamente, a reconhecer a total inocência do corpo, reduzido a ser o instrumento passivo de uma vontade, de um querer, de um desejar não especificamente localizáveis nesse mesmo corpo. A mão, em estado de repouso, com os seus ossos, nervos e tendões, está pronta para cumprir no instante seguinte a ordem que lhe for dada e de que em si mesma não é responsável, seja para oferecer uma flor ou para apagar um cigarro na pele de alguém. Por outro lado, atribuir, a priori, a responsabilidade de todas as nossas acções a uma identidade imaterial, a alma, que, através da consciência, seria, ao mesmo tempo, juiz dessas acções, conduzir-nos-ia a um círculo vicioso em que a sentença final teria de ser a inimputabilidade. Sim, admitamos que a alma é responsável, porém, onde é que está a alma para que possamos pôr-lhe as algemas e levá-la ao tribunal? Sim, está demonstrado que o martelo que destroçou o crânio desta pessoa foi manejado por esta mão, contudo, se a mão que matou fosse a mesma que, tão inconsciente de uma coisa como da outra, tivesse simplesmente oferecido uma flor, como poderíamos incriminá-la? A flor absolve o martelo?

Ficou dito acima que a vontade, o querer, o desejar (sinónimos que, apesar de o não serem efectivamente, não podem viver separados), não são especificamente localizáveis no corpo. É certo. Ninguém pode afirmar, por exemplo, que a vontade esteja alojada entre os dedos médio e indicador de uma mão neste momento ocupada a estrangular alguém com a ajuda da sua colega do lado esquerdo. No entanto, todos intuímos que se a vontade tem casa própria, e deverá tê-la, ela só poderá ser o cérebro, esse complexo universo cujo funcionamento, em grande parte (o córtex cerebral tem cerca de cinco milímetros de espessura e contém 70 000 milhões de células nervosas dispostas em seis camadas ligadas entre si), se encontra ainda por estudar. Somos o cérebro que em cada momento tivermos, e esta é a única verdade essencial que podemos enunciar sobre nós próprios. Que é, então, a vontade? É algo material? Não concebo, não o concebe ninguém, com que espécie de argumentos seria defensável uma alegada materialidade da vontade sem a apresentação de uma “amostra material” dessa mesma materialidade…

O voluntarismo, como é geralmente conhecido, é a teoria que sustenta que a vontade é o fundamento do ser, o princípio da acção ou, também, a função essencial da vida animal. No aristotelismo e no estoicismo da antiguidade clássica observam-se já tendências voluntaristas. Na filosofia contemporânea são voluntaristas.

Schopenhauer (a vontade como essência do mundo, mais além da representação cognoscitiva) e Nietzsche (a vontade de poder como princípio da vida ascendente). Isto é sério e, por todas as evidências, necessitaria aqui alguém, não quem estas linhas está escrevendo, capaz de relacionar aquelas e outras reflexões filosóficas sobre a vontade com o conteúdo deste livro, cujo título é, não o esqueçamos, A alma dos verdugos. Aqui talvez tivesse eu de deter-me se, felizmente para os meus brios, não me tivesse saltado aos olhos, folheando com mão distraída um modesto dicionário, a seguinte definição: “Vontade: Capacidade de determinação para fazer ou não fazer algo. Nela se radica a liberdade”. Como se vê, nada mais claro: pela vontade posso determinar-me a fazer ou não fazer algo, pela liberdade sou livre para determinar-me num sentido ou noutro. Habituados como estamos pela linguagem a considerar vontade e liberdade como conceitos em si mesmos positivos, apercebemo-nos de súbito, com um instintivo temor, de que as cintilantes medalhas a que chamamos liberdade e vontade podem exibir do outro lado a sua absoluta e total negação. Foi usando da sua liberdade (por mais chocante que nos pareça a utilização da palavra neste contexto) que o general Videla viria a tornar-se, por vontade própria, insisto, por vontade própria, num dos mais detestáveis protagonistas da sangrenta e pelos vistos infinita história da tortura e do assassinato no mundo. Foi igualmente usando da sua vontade e da sua liberdade que os verdugos argentinos cometeram o seu infame trabalho. Quiseram fazê-lo e fizeram-no. Nenhum perdão é portanto possível. Nenhuma reconciliação nacional ou particular.

Importa pouco saber se têm alma. Aliás, desse assunto deverá estar informado, melhor do que ninguém, o sacerdote católico argentino Christian von Vernich que há alguns meses foi condenado a prisão perpétua por genocídio. Seis assassinatos, torturas a 34 pessoas e sequestro ilegal em 42 casos, eis a sua folha de serviços. É até possível, permita-se-me a trágica ironia, que tenha alguma vez dado a extrema unção a uma das suas vítimas…
José Saramago, "O caderno"