sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A eleição presidencial deste ano é a mais comprada desde 1994

Bolsonaro, à época aluno na Academia Militar de Agulhas Negras, certo dia tomava banho junto com outros cadetes quando um sabonete caiu no chão. Depois de abaixar-se para apanhá-lo, nunca mais foi o mesmo. Carrega marcas do episódio até hoje.

Quem me disse? Não revelo. Se tenho provas? Não, não tenho. Mas, Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, tem provas do tráfico internacional de crianças no arquipélago de Marajó para uso sexual? E, no entanto…

No entanto, ainda sem dispor de imunidade para dizer o que lhe venha à cabeça uma vez que se elegeu senadora, está por aí leve e solta para continuar espalhando mentiras e influenciando pessoas a votarem no presidente que a tirou do anonimato.

Adianto desde já que a história do sabonete que traumatizou Bolsonaro é brincadeira. Se me inspirasse no que ele costuma dizer, é “só força de expressão”. Faço jornalismo “dentro das quatro linhas” da verdade, e jamais deixarei de fazê-lo.

Damares, Bolsonaro e muitos dos que os cercam são traficantes assumidos de mentiras e de falsas verdades. E se ainda não foram processados pelo que dizem é porque a justiça entre nós é ceguinha da silva. Ou finge que não vê ou finge que é surda.

Nessa reta final de campanha, com um presidente em desespero por lhe faltarem votos, está sendo exponencial o crescimento de falsas notícias distribuídas pelos mais variados meios. O Tribunal Superior Eleitoral disse que estaria pronto para combatê-las.

Ou não está ou não quer. Parece desejar que o tempo passe rápido e que, com ajuda de Deus, não ocorram coisas piores até 30 de outubro como atos de violência. Proclamados os resultados, empossados os eleitos, o resto pode esperar, e esperar por anos.

Não leva em consideração que o estrago já terá sido feito e que dificilmente será revertido. Estão para nascer juízes com coragem para destituir um presidente que se beneficiou de mentiras. Quantos votos o falso kit-gay não deu a Bolsonaro há quatro anos?

Trump firmou-se como aspirante a candidato reciclando a mentira de que Barack Obama nascera na África. Surfou na mentira de que Hillary Clinton participava de orgias nos fundos de uma pizzaria em Washington. Ao final, se elegeu, mas não só por isso.

A diferença, e não para melhor, é que fake news, agora, se paga com fake news. Quem for mais competente para mentir poderá celebrar. A vantagem está do lado de quem, além do desassombro em mentir, dispõe da máquina pública e não tem escrúpulos.

Nos seus estertores, essa é a campanha presidencial mais suja que o Brasil já viu desde 1994. É também a eleição mais comprada por um governante à vista de todos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Brasil é de Deus!


 

Bolsonaro e Mourão deixam claro que o plano é marcha para ditadura e caos.

O plano de Jair Bolsonaro rumo à ditadura “pela via democrática” — dado que o golpe, propriamente, falhou — já está claro e até foi detalhado pelo vice, Hamilton Mourão, eleito senador pelo Rio Grande do Sul. Os setores bolsonarizados da elite não podem alegar ignorância. Sabem de tudo. Se abraçam a proposta fascistoide, convenham, é porque são fascistoides também. Já volto ao ponto. Antes, uma breve esticada até o passado.

Não há conversa mais aborrecida e mentirosa do que o “votei em Bolsonaro em 2018 para afastar o ‘risco PT’, não porque o admirasse”. No segundo turno, vá lá. Mas e no primeiro? O cardápio de opções não petistas era grande. Uma nota sobre o segundo turno de então: a trajetória do “capitão” apontava, por acaso, para algo virtuoso, segundo esse pressuposto? Era ele o mal menor? Infelizmente, não tenho como passar a palavra aos quase 700 mil mortos da Covid ou a Genivaldo Santos, morto numa Câmara de gás.

Sem essa! Que amplas camadas da população mais pobre tenham escolhido Bolsonaro, pode-se até compreender, e há justificativas as mais variadas para isso, muitas delas em si mesmas contraditórias. Não irei a minudências agora porque seria outro texto. Atenho-me àqueles que dispõem de tempo e conforto para ter acesso a múltiplos canais de informação. Esses votaram no prosélito da ditadura; no “dá uma coça no filho gayzinho”; no “não te estupraria porque você não merece”; no “a ditadura deveria ter fuzilado 30 mil”, inclusive FHC; no quilombola que se pesa em arrobas “e nem para procriar serve mais”. Como alegar ignorância? Há arrependidos? Vá lá. Alegação de ignorância? Aí não.


Mas há os que reincidem, não? Estes não só condescendem com as iniquidades listadas como com as que a elas se somaram no curso de quatro anos de mandato. Frases ditas durante a pandemia como “não sou coveiro”, “todo mundo morre um dia”, “tem que deixar de ser um país de maricas”, acompanhadas de atos que a lei define como crimes, fazem de Bolsonaro candidato à cadeia. Mas ele pode, sim, se reeleger presidente, garantindo ao menos mais quatro anos de impunidade. E aqueles setores a que me refiro, que já sabiam de tudo, sabem de muito mais agora. Sabem e aplaudem. Sabem e gostam. Sabem e concordam. Com elites responsáveis, não se teria um país rico com tantos miseráveis.

O roteiro de mais desgraça, com um ciclo de longa duração de turbulência ou de desatinos, está dado. Em entrevista à “Veja”, Bolsonaro flertou com a ideia de aumentar o número de ministros do Supremo para ter o controle da corte. Admitiu que a proposta chegou à sua mesa, mas que decidiu tratar do assunto só depois da eleição. E a resposta só faz sentido, é claro, em caso de vitória. Sim, esse debate existe.

O mandatário dos próximos quatro anos indica os substitutos de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber, que deixam a corte no ano que vem. Mais de uma vez, o presidente já se referiu a essas nomeações como a chance de aumentar a sua presença no tribunal. Ele diz abertamente ter o controle de 20% dos ministros. Refere-se a Nunes Marques e André Mendonça. Com um Senado ainda mais reacionário do que o que aí está, se Bolsonaro for reeleito, abre-se caminho para a militância de extrema-direita de toga.

Nesse caso, teria quatro dos onze ministros. É pouco para seus intentos. A ideia é elevá-los para 15, de sorte que isso lhe garantiria uma maioria de 8 votos. O inferno, então, seria o limite. Cumpriria o roteiro de Hugo Chávez em 2003 — Chávez que, diga-se, era o ídolo do então deputado Bolsonaro em 1999. Esse é o roteiro das tiranias. E a ditadura militar de 64, no Brasil, precedeu a de Chávez em tal prática.

O AI-2, de 27 de outubro de 1965, aumentou de 11 para 16 os integrantes do STF para garantir maioria em favor da ditadura militar. E foi mais longe:

– determinou que civis fossem julgados pela Justiça Militar “para repressão de crimes contra a segurança nacional ou as instituições militares”;
– governadores passaram a ser julgados pelo Superior Tribunal Militar em casos relacionados à segurança nacional;
– permitiu a intervenção federal nos Estados “para prevenir ou reprimir a subversão da ordem”;
– tirou da Justiça a competência para se manifestar sobre atos institucionais.

Observem que, antes mesmo do realmente famigerado AI-5, a trilha da ditadura arreganhada já estava dada.

Bolsonaro não se estendeu sobre a proposta de ampliar o número de ministros do Supremo, o que eles pretenderiam fazer votando uma PEC no Congresso. Há celerados que defendem, acreditem!, que se faça isso por simples projeto de lei. Em entrevista concedida à Globo News, Hamilton Mourão, o vice agora eleito senador, resolveu detalhar o plano. No que concerne à independência da Corte, ele está mais para AI-5 do que para AI-2. O vídeo segue no pé do texto. O plano de Mourão:
– aumento do número de magistrados;
– mudança nas regras sobre decisões monocráticas;
– definição de um mandato para ministros da Corte;
– facilitar a possibilidade de punir ministros por crimes de responsabilidade.

E aí emenda o general para dar uma aparência de legalidade democrática à cruzada:

“Temos de discutir isso. Mas, obviamente, sem paixões ideológicas e sempre buscando aquilo que é o melhor para o nosso sistema democrático”.

Aí está o que chamo de roteiro do caos. Em primeiro lugar, o pacote fere a Constituição porque, na democracia, é a Carta que define os limites dos Poderes. Bolsonaro, se reeleito, controlará o Legislativo por intermédio do Orçamento Secreto, e esse Legislativo, por sua vez, passaria a subordinar o Supremo às suas vontades. E pronto: ter-se-ia um tribunal para fazer mesuras ao mandatário, que estaria livre, inclusive, para ensaiar um terceiro mandato.

Se o arroubo autoritário desse certo, o Brasil deixaria de integrar o rol das nações democráticas, e isso teria consequências que são também econômicas. Mas há uma questão anterior: inexiste ato não judicante no Brasil segundo a Constituição. E qualquer instrumento legiferante para subordinar o Poder Judiciário ao Legislativo e ao Executivo estaria sujeito à análise do próprio Supremo, que apontaria a sua óbvia inconstitucionalidade. Nesse caso, os psicopatas que chegaram ao Congresso e o presidente mandariam cercar e fechar a Corte?

Ao listar as prioridades de um eventual novo governo Bolsonaro, numa entrevista logo depois de eleito deputado federal, o delegado Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, listou o que chama de “prioridades”. E a primeira é a reforma do Judiciário. O vídeo também está ao fim do texto.

Dados alguns padrões de renda e informação, não há como alegar inocência. Escolher Bolsonaro é escolher não uma mera tentação ditatorial, mas um projeto que já está em curso e que, para passar à fase seguinte, precisa anular um dos Poderes. Nada disso seria pacífico. Qualquer que fosse o desdobramento, o desastre seria certo.

PS: Antes que digam que digam que o AI-2 foi coisa de ditadura militar, e a mudança que querem Bolsonaro e Mourão seria feita pelo Congresso, o que o tornaria “democrática”, observo: é objeção infantil. E de criança que estudou mal. Os golpes contemporâneos são dados sem tropas. Usam-se garantias da democracia para solapá-la. O truque nem novo é.

A política e a língua

No nosso tempo, é um facto que os textos políticos são, regra geral, mal escritos. Quando isto não acontece, normalmente verifica-se que o escritor é alguma espécie de rebelde , que exprime opiniões próprias em vez de seguir a " linha do partido". A ortodoxia, independentemente da cor, parece exigir um estilo imitativo, sem vida. Os dialectos políticos com que deparamos em panfletos, artigos de opinião, manifestos, livros brancos ou discursos de subsecretários variam, claro, consoante o partido , mas são todos iguais no sentido em que dificilmente encontramos neles um tropo novo, fulgurante, pessoal. Quando vemos no palanque um plumitivo estafado a repetir mecanicamente expressões batidas - " brutais atrocidades", " mão de ferro", " tirania sangrenta", " povos do mundo livre", "unir esforços" - temos amiúde a curiosa sensação de estar a ouvir , não um ser humano, mas uma espécie de boneco - uma sensação que se torna subitamente mais forte quando a luz bate nos óculos do orador e os transforma em discos opacos, atrás dos quais parece não haver olhos nenhuns. E isto não é inteiramente produto de imaginação. Um orador que use esse tipo de fraseologia está a meio caminho de se transformar numa máquina. Da sua laringe saem os ruídos apropriados, mas o seu cérebro não está envolvido no processo, ao contrário do que sucederia se ele estivesse a falar por palavras suas. Se o discurso que pronuncia está a ser repetido pela enésima vez, é provável que o orador mal tenha consciência do que está a dizer, como quando pronunciamos os responsos na igreja. E esta revolução da consciência é , senão indispensável, pelo menos favorável ao conformismo político.

No nosso tempo, os discursos ou os textos políticos consistem largamente numa defesa do indefensável. (...)

O estilo empolado é, só por si, uma espécie de eufemismo. Uma massa de palavras latinas tomba sobre os factos como neve fofa, elidindo os contornos e encobrindo os pormenores. O grande inimigo da linguagem clara é a hipocrisia. Quando existe um hiato entre os objectivos reais e os objectivos declarados , rerorremos quase instintivamente a palavras multissilábicas e expressões idiomáticas gastas, como lula esguichando tinta. No nosso tempo, é impossível " mantermo-nos afastados da política". Todos os nossos problemas são políticos e a política em si é um amontoado de mentiras , subterfúgios, tolices, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral empesta, a linguagem não pode deixar de se ressentir. É de supor - mas trata-se de uma hipótese que não tenho meio de verificar, por falta de conhecimentos suficientes - que línguas como o alemão , o italiano e o russo se tenham deteriorado se tenham deteriorado nos últimos dez ou quinze anos, em resultado da ditadura.
George Orwell, "Ensaios escolhidos"

Para onde vamos?

Para frente, para trás ou para os lados? De pronto, explico o óbvio: caminhar para a frente é avançar na trilha, para trás é voltar, retroceder, e andar de lado significa permanecer na mesma posição, movendo os passos sem sair da linha horizontal. Essas são as direções que se apresentam como alternativas ao país nesse momento da mais simbólica disputa eleitoral da contemporaneidade.

Lula e Bolsonaro podem conduzir o país por qualquer uma dessas trilhas, afastando-se da dualidade entre o Bem e o Mal, erguendo a bandeira do progresso e da harmonia social ou seria isso um sonho? Terão envergadura para assumir compromissos com a ordem democrática e, mais que isso, a férrea determinação de inserir o Brasil na rota do futuro, meta que vai além do rol de promessas mirabolantes de campanha?


O governante que o Brasil precisa deve assumir, de maneira clara, a defesa dos preceitos constitucionais, a partir dos direitos individuais e coletivos, a liberdade de expressão e a instauração de políticas voltadas para a pluralidade, a diversidade e a causa ambiental. E preservar o que de bom já foi feito em administrações passadas.

Temos um perfil para vestir esse figurino? Vamos lá. Lula e Bolsonaro, ao longo de suas trajetórias, construíram uma identidade que gera intensa polêmica. Um e outro são adornados com as vestes do Arcanjo e do Demônio, alternando-se o traje de acordo com a origem dos trombeteiros. Ou seja, tanto um como outro trocam de posição.

A banda de Luiz Inácio o considera autêntico defensor da democracia, por sua jornada de lutas contra a ditadura e por sua identificação com as demandas das massas carentes. Hoje, ainda é visto como extensão do socialismo clássico.

Já Bolsonaro lapidou seu perfil nos fornos dos anos de chumbo, servindo ao Exército, chegando ao posto de capitão. Na política, tornou-se um ícone da direita conservadora, expressando apoio à tortura e aos torturadores. O fiel soldado extremista acabou sentado na cadeira presidencial, na esteira de escândalos que assolaram o terreiro petista.

O passado, desse modo, emerge como gigantesca sombra que acolhe ambos. Dessa textura, extrai-se a questão: não é possível passar uma borracha no passado. As pessoas mudam, mas certos valores continuam a balizar sua índole.

Tem sentido votar e/ou rejeitar um candidato por feitos ou desfeitos de ontem? Sim. Mas o passado não pode ser apenas a chave da porta do poder. Urge saber o que pensam, hoje, os contendores, sob a crença de que alguns fenômenos do passado se tornaram obsoletos.

Seria conveniente que, no momento em que duas visões bem diferentes travam feroz luta pela conquista do comando do país, os candidatos fossem avaliados por sua índole, seus compromissos, suas crenças, seus programas e, sobretudo, por sua identificação com o ideário da democracia e do Estado de Direito. Quais são as carências, potenciais e demandas das classes sociais? Quem tem as melhores ideias para proporcionar o bem-estar social?

É claro que as bandas raivosas e ensandecidas, que atuam como tuba de ressonância dos candidatos, não têm interesse em resgatar o grande discurso, em superpor o substantivo sobre o adjetivo rancoroso. O ódio, a revanche, a falsidade são armas da campanha, usadas como anzol para fisgar eleitores incautos.

Precisamos tirar da agenda os velhos cacoetes, o “nós e eles” e o “eles e nós”. Lula precisa ouvir o sussurro das ruas e entender que já não basta construir muros na sociedade ou igrejinhas para o PT. Se quer consolidar uma frente ampla em defesa da democracia, deve acenar com a bandeira da união, da paz social e do progresso. Muito cuidado com o furo do teto de gastos e o controle da imprensa, coisas que integram a cartilha lulista.

Bolsonaro não pode avocar as pérfidas ações dos tempos de chumbo, atraindo as massas com uma lengalenga que lembra a tensão da Guerra Fria, quando o lema era: “comunistas comem criancinhas”. Os tempos são outros. Jair, que se diz amigo de Vladimir Putin, deve melhorar a retórica destrambelhada e assumir postura condizente com a liturgia do cargo. Cuidado com o assistencialismo populista, herança do passado e isca de pesca eleitoral.

Luis Inácio: Venezuela, Cuba, Nicarágua ou Coréia do Norte são sistemas fracassados. Longe de serem alçados ao altar de referências. Aos dois candidatos, um conselho simples: interpretem as mensagens que o eleitor transmitiu com seu voto. Vejam que o 2º turno foi uma opção para analisar melhor os pleiteantes.

Não procurem pinçar nos recados do eleitor traços de esquerdismo ou direitismo. Classificar a comunidade política sob o prisma ideológico é um erro. As massas querem conforto, segurança, educação, serviços públicos de qualidade. Pergunte-se a um anônimo na multidão: “o senhor é de esquerda ou de direita”? Responderá com cara de espanto: “Como”? Só uma fração da comunidade é enrolada no lençol ideológico.

Este analista não quer descartar o debate internacional sobre ideologias – esquerda, direita, socialismo, Estado paquidérmico, Estado enxuto, liberalismo, social-democracia. Até é possível enxergar uma onda direitista soprando em vários recantos. Mas, nesse momento, o que está em jogo em nossas plagas é a meta de proporcionar um PNBF maior (Produto Nacional Bruto da Felicidade) para o bem da coletividade.

P.S. Queria ver pesquisas sobre a opção do eleitor – esquerda, direito, centro. Seria bem provável que apontasse para o bolso e para a barriga.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Pensamento do Dia

 

Solda, Comédia da Vida Privada

País elege um Congresso como nunca se viu na democracia

A discussão política quase toda se afoga no mar de ansiedade quanto ao resultado da eleição presidencial. É compreensível. Podemos estar pela hora da morte da democracia. Conviria, porém, prestar atenção ao Congresso, assunto em parte obliterado pelo excesso de discussão de "apoios" para o segundo turno, muita vez apenas fofoca politiqueira.

O Congresso é assunto de interesse prático e quase imediato. Embora pareça já história velha, ainda não se deu devida atenção ao fato de que a maioria do Congresso e as presidências de Câmara e Senado devem ser dominadas por uma coalizão de direita, fisiológica e/ou extremista, que jamais se viu na redemocratização.


Isso deve ter consequências sérias tanto para Lula da Silva (PT) como para Jair Bolsonaro (PL). O blocão direitista terá influência na política do Supremo (sic), ainda maior na malversação do Orçamento e no aparelhamento de funções de Estado.

PL, União Brasil, o PP, que governa para Bolsonaro, e o Republicanos (partido evangélico estrito senso) engordaram devido ao bolsonarismo, a Bolsonaro ou eles aderiram. Em coalizão, teriam 246 votos.

Podem engordar mais, devido a fuga de parlamentares de partidos ameaçados pela cláusula de barreira ou atraídos por outros incentivos. A coalizão pode crescer ainda com a adesão fácil de uma dúzia de direitistas dos nanicos.

Essa quadra direitista elegeu 154 deputados em 2018 e 114 em 2014, note-se. O ano de 2014 foi também o da grande fragmentação, do começo da dissolução do sistema partidário dominante entre 1990 e 2010, em que os maiores partidos eram em geral PMDB, PFL (depois DEM), PSDB e PT. Desses partidos, o "velho centro", central na definição do que era governo e oposição, acabou de se dissolver.

A fragmentação partidária na Câmara diminuiu em 2022. Apesar de ainda grande, voltou mais ou menos ao nível do que era entre 2002 e 2010. Na verdade, já diminuíra ao longo da legislatura de 2019-2022.

Nesses anos, o PL engordou com a migração de bolsonaristas duros do PSL, o União Brasil absorveu o bolsonarismo aguado do PSL restante, pois o DEM tomou uma atitude a fim de não se tornar um nanico como o PSDB. Além disso, elegeram ainda mais deputados.

O centrão, enfim, chegou ao centro do poder, depois de duas décadas como agregado menor de PSDB-DEM e PT. Agora, vestiu a roupa da direita extremada sobre a pele fisiológica —ou é de extrema direita mesmo. Esses partidos são netos ou bisnetos da Arena, o partido da ditadura. São liderados por alguns oligarcas regionais, mas de composição e base social ainda lá não muito bem compreendidas.

A opinião popular e de muito cientista político diz que é fácil comprar apoio parlamentar. Que seja. Ficou mais caro e isto tem consequências várias.

Uma consequência, desprezada por muito politólogo, foi o grande nojo da população por um sistema político negocista, indiferenciado "ideologicamente", fechado à participação e a exigências de mudanças e resultados reais. A revolta contra tal estado de coisas explodiu em 2013 e continua. Não é por acaso que a atitude "antissistema" tem apelo, mesmo depois da farsa de Bolsonaro.

De mais concreto, Bolsonaro pode ter vida mais fácil na nova Câmara, em parte por afinidade ideológica. Ainda que siga o arroz com feijão de certa politologia, redistribuição sem mais de poder, Lula terá problemas. O miolo mais maleável do Congresso desapareceu e a esquerda é ainda mais diminuta.

Essa mudança parece velha, pois começou a ficar evidente já na eleição de 2014, tomou impulso em 2018 e deu sinal forte de persistência na eleição municipal de 2020. Mas não estava consolidada, como é gritante pelo resultado desta eleição de 2022. É uma novidade grande.

O que sobrou da democracia

Uma das hipóteses levantadas com frequência por cientistas políticos é a de que após uma derrota eleitoral Jair Bolsonaro não conseguiria manter vivo o movimento reacionário que encabeçou. O resultado que saiu das urnas mostra o contrário. Em 2018, descobrimos que as redes poderiam mudar radicalmente o cenário político. Aí parece que esquecemos a lição. Pois elas seguem transformando o Brasil. Para pior.

Os partidos de Centro e Centro-Direita foram dizimados no Congresso. PSDB, Novo, MBL, mesmo MDB, reduzidos a uma fração do que já foram. No último pleito, Bolsonaro trouxe consigo uma penca de parlamentares. Os que entregaram o nível de lealdade e extremismo exigidos pelo presidente se elegeram.


Com base na teoria política tradicional, não era para ter sido assim. Os candidatos fisiológicos tiveram muito dinheiro para fazer campanha, os bolsonaristas não tanto. Mas foram estes que acumularam milhares de votos. Além disso, Bolsonaro não tem um partido, é hóspede no PL. Sem partido, sugere a teoria que temos, não dá para ter movimento.

Mas, se não houvesse um movimento, se não houvesse um Bolsonarismo vivo e na sociedade, nem Bolsonaro teria dado sua arrancada final, nem sua base teria sido a campeã.

Não precisa de partido. Bastam as lives de dentro do plenário, na saída de um palácio. Bastam as bem construídas redes de Zap, que atingem num só dia dezenas de milhões de brasileiros. O algoritmo do TikTok e do Kwai, o do YouTube. Essas estruturas mantém políticos bolsonaristas e suas bases em contato contínuo, mantendo a militância mobilizada.

Esta comunicação que o digital proporciona aos políticos, e isso é quase exclusividade da extrema-direita, é barata, envolve emocionalmente, é permanente e instantânea.

O digital transformou a maneira como a política é feita. Quando mergulharmos nas pesquisas para entender onde erraram, possivelmente descobriremos que não erraram. A instantaneidade do digital catalisa decisões de última hora. Pesquisas feitas pessoalmente mostram o retrato de três dias atrás, as por telefone de um ou dois, painéis na internet conseguem encurtar o tempo. Na semana da eleição, pesquisas serão mais úteis para detectar movimentos do que placares.

Hoje, pela incapacidade de boa parte dos políticos dominarem o digital, porque a ciência política e o jornalismo político não estão suficientemente atentos, o poder foi capturado pelo pior que temos.

O que sobrou da democracia brasileira foram Esquerda e Centro-esquerda. É isso que temos para hoje.

Os evangélicos do Brasil

Que evangelhos leram os evangélicos

do Brasil?

Que aprenderam, nesses evangelhos,
de subtil?

Acharam que o capitão Bolsonaro
era gentil?

Aquele infame palhaço ignaro,
carão hostil?

Isso ensinaram os evangelhos,
no Brasil?

Mas, então, nessa terra do Brasil,
não há Abril?

Que mal fizeram ao mundo os índios
do Brasil?

Não achará o Brasil, para seu bem,
algum ardil?

Por exemplo, enterrar os evangélicos
num covil?
Eugénio Lisboa, escritor e poeta português

Onde a Covid matou mais, Bolsonaro derrotou Lula com folga

A pandemia subtraiu votos a Bolsonaro que deu passe livre ao vírus para matar os “que tivessem de morrer”, mas não o suficiente a ponto de torná-lo execrado por sua ignorância e desumanidade, responsável em parte pela morte de mais de 650 mil pessoas.

Levantamento do Valor Data mostra que se a eleição tivesse se limitado aos 194 municípios com mortalidade por Covid acima da média, Bolsonaro estaria reeleito no primeiro turno. Onde o vírus matou mais, ele alcançou 66% dos votos, e Lula, 44%.


Nos 20 municípios que encabeçam a lista dos 194, Bolsonaro ganhou em 15 e Lula em 5. A maioria dos 20 está em São Paulo (7) e no Paraná (4). Os demais em Mato Grosso (2), Alagoas (2), Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo e Rondônia.

O número de mortos por 100 mil habitantes varia. Vai de 1.040 em Santa Clara do Oeste a 707 em São Caetano do Sul, ambos municípios de São Paulo. Nos extremos do país, o vírus matou 784 em uma cidade de Rondônia e 825 em outra do Rio Grande do Sul.

Faltou oxigênio em Manaus durante a pandemia e muitos morreram sufocados. O governo federal culpou o estadual pela tragédia, e o estadual negou a culpa. Bolsonaro imitou em live uma pessoa morrendo sem oxigênio. Pois ele venceu em Manaus.

Que país é esse? O que explica Bolsonaro ser bem votado no primeiro turno em lugares onde as populações deram-se tão mal com o vírus? Que os estudiosos do assunto possam explicar um dia. Certamente haverá explicações de toda natureza.

É possível, por exemplo, que a política do “fique em casa” defendida por governadores e prefeitos não tenha sido bem aceita pelos que queriam sair de casa. Ela pode ter sido entendida como mais uma forma de intervenção do Estado na vida privada.

Ou vai ver que em redutos bolsonaristas, o amor à vida revelou-se menor do que o amor ao presidente que combateu as medidas de isolamento. Isso poderá até deixar Bolsonaro satisfeito, mas a história é implacável com os que fazem o mal ao invés do bem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Medo, a base da religião

A religião se baseia, acredito, em primeiro lugar e principalmente, no medo. Trata-se, em parte, do terror ao desconhecido e, em parte, como eu já disse, do desejo de sentir a existência de um tipo de irmão mais velho a proteger-nos em todos os problemas e disputas. O medo é a base de todo o problema: medo do misterioso, medo da derrota, medo da morte. O medo é o progenitor da crueldade, e portanto não é nada surpreendente o fato de a crueldade e a religião andarem lado a lado. Isso acontece porque o medo é a base de ambas as coisas.

Neste mundo, agora podemos começar a compreender um pouco as coisas e a controlá-las com a ajuda da ciência, que abriu seu caminho à força, passo a passo, contra a religião cristã, contra as igrejas e contra a oposição de todos os preceitos antigos. A ciência pode nos ajudar a superar esse medo covarde no qual a humanidade vive há tantas gerações. A ciência pode nos ensinar, e acredito que também nosso próprio coração pode fazê-lo, a não mais olhar em volta em busca de apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas, em vez disso, a olhar para os nossos próprios esforços aqui embaixo, a fim de fazer deste mundo um lugar adequado para se viver, em vez do tipo de lugar em que as igrejas ao longo desses séculos todos o transformaram.

Bertrand Russell, "Por que não sou cristão"

Ah, se o Nordeste não fosse tão atrasado. Bolsonaro teria vencido

Nunca antes na história deste país, quem chegou ao segundo turno atrás virou a eleição. Quer dizer o quê? Apenas isso. Não é nada, não é nada, pode acontecer que a regra se mantenha e Bolsonaro perca, ou que pela primeira vez a regra seja ignorada e ele vença.

Faltou 1,6% de votos válidos para que Lula se elegesse. Significa… Significa que faltaram 1.800 mil votos. Para Bolsonaro, faltaram mais de 8 milhões. Cresceu o percentual dos eleitores que não votaram. E o prejuízo foi maior para Lula do que para Bolsonaro.


Bolsonaro começou a ensaiar explicações para sua derrota no primeiro turno. A primeira: os nordestinos são analfabetos. No Nordeste, ele perdeu por uma diferença de 12,9 milhões de votos. Omitiu, porém, que ali teve mais votos do que em 2018.

Os nordestinos se tornaram alvos de ataques xenofóbicos nas redes sociais. Em sua maioria, as mensagens são de perfis de apoiadores de Bolsonaro. Algumas delas sugerem que o governo deixe os nordestinos na miséria e passando fome.

A esse ponto, Bolsonaro não chegou na live que fez. Ele preferiu culpar as administrações do PT pela situação do Nordeste:

“Não é só a taxa de analfabetismo alta o mais grave nesses estados. Outros dados econômicos também são inferiores. […] Onde a esquerda entra, leva o analfabetismo, a falta de cultura, o desemprego, a falta de esperança. É assim que age a esquerda”.

Segunda explicação de Bolsonaro para sua derrota: a apuração dos votos teve “alguns problemas”. Não apontou quais. O Tribunal Superior Eleitoral não viu problemas, nem o Tribunal de Contas da União, nem os militares, nem os observadores internacionais.

Bolsonaro disse ter visto semelhanças da evolução da apuração destas eleições com a disputa entre Dilma (PT) e Aécio Neves (PSDB). Em 2014, Aécio saiu na frente e Dilma o superou depois. Agora, foi Bolsonaro que saiu na frente e acabou atropelado.

Quer dizer o quê? Num caso como no outro, a apuração foi mais rápida em regiões onde Aécio, em 2014, e Bolsonaro, este ano, conseguiram mais votos. E foi mais lenta em regiões onde Haddad e Lula conseguiram mais. Elementar, não lhes parece?

Em uma eleição, tudo se resume a isto: ganha quem atrai mais votos, perde quem atrai menos. O mais, como sempre, é choro de perdedor, temeroso em colher mais uma derrota. A mais nova pesquisa do Ipec aumentou a preocupação de Bolsonaro.

Primeira e única


Todos os homens nascem iguais, mas essa é a última vez que o são
Abraham Lincoln

Brasil e o passado imprevisível

“O passado é muito imprevisível”. A frase, brilhante e perturbadora, é da historiadora norte-americana Kristin Ross, num ensaio de 2020, no qual acrescentava o seguinte: “O passado não é didático: a sua relação com o presente não é uma relação pedagógica, não é nem estável nem fixa.” Esta reflexão não me sai da cabeça a propósito da situação brasileira. Qualquer visão etapista da história colapsa perante a vaga neofascista do século XXI. O racismo, a negação dos direitos humanos, o classismo mais violento, a apologia da violência contra a diversidade estão aí e consolidam um campo com raízes fortes.

Bolsonaro entusiasma Ventura e neutraliza, também em Portugal, outros setores de direita. Uma mulher como Cecília Meireles declarava na televisão, há dias, que não faria nenhuma escolha caso estivesse no Brasil. Montenegro, que alimenta um crescente namoro com o Chega, terá provavelmente a mesma posição. Ora, essa neutralidade de uma direita que não se reivindica do fascismo faz a força da extrema-direita, no Brasil como noutros países. Ela explica também o desaparecimento eleitoral da direita dos “democratas liberais” e a sua substituição pelo campo fascista na representação popular.

É bom lembrar, Bolsonaro é um apologista confesso da ditadura militar, dos seus assassinatos e da tortura, sendo múltiplas as declarações nesse sentido e simbólico o elogio ao torturador de Dilma na votação do impeachment. Ataca a separação de poderes e o Supremo Tribunal Federal se este não alinha pelo seu diapasão. Promoveu de forma desabrida a destruição da Amazónia, o que constitui uma tragédia para o mundo inteiro. Instiga a violência política contra os seus adversários - vários apoiantes de Lula foram assassinados nos últimos meses por bolsonaristas, em jantares, festas de família ou na rua. Defende abertamente a desigualdade entre mulheres e homens, a discriminação das minorias sexuais, o ataque às populações indígenas, o negacionismo científico e climático.

As 600 mil mortes registadas na pandemia têm sido classificadas por muitos como um genocídio que é em grande medida um efeito das suas políticas. Bolsonaro advoga a ausência de fronteiras entre política e confessionalismo religioso, cultivando uma relação de concubinato com o fundamentalismo evangélico. Ao mesmo tempo que brada contra a “corrupção”, é o exemplo acabado de um político corrupto: comprou 51 imóveis com dinheiro vivo nos últimos anos, desde que entrou para a política, no valor de mais de 5 milhões de euros. E, para gáudio de algumas elites económicas saudosas do escravismo, executa um recuo do Estado em todas as suas funções sociais, estando filiado no “Partido Liberal”, sublinhado por essa via o seu compromisso com o capitalismo extrativista e de acumulação sem regras, o qual conviveu vibrantemente, em tantos momentos históricos, com soluções políticas autoritárias.

Nas próximas semanas, será cavalgada por Bolsonaro a disparidade entre as sondagens e os resultados da primeira volta nas eleições brasileiras. Não lhe restando espaço para continuar a campanha contra o voto em urna eletrónica, como ensaiou, usará a seu favor o hiato entre o peso eleitoral que teve e as previsões publicadas. De resto, como tem sido abundantemente assinalado, a extrema-direita brasileira já teve uma vitória: a eleição de vários senadores e congressistas garante-lhe um peso significativo no próximo ciclo político e condições de reprodução da sua influência política e social, mesmo que Bolsonaro perca, como é provável, as eleições para presidente. A esta influência institucional soma-se uma força social organizada, com as suas bolhas comunicacionais, a sua máquina de notícias falsas, milhares de armas distribuídas pela população civil e importantes posições da extrema-direita no aparelho de Estado.

Lula, por seu lado, sendo a esperança que resta para que a democracia política sobreviva, está numa camisa de forças. A estratégia traçada foi a de colocar a clivagem não entre a esquerda e a direita, mas entre o campo democrático e o campo fascista, porque é essa a escolha real que se coloca na eleição presidencial no Brasil. Por isso, junto a Lula estão vários setores de direita, incluindo o seu vice-presidente, Gerlado Alkmin. O apoio de Ciro Gomes e de Simone Tebet significará novos compromissos com o centrão, com o capital financeiro e com os setores mais poderosos da sociedade brasileira, que não querem nenhuma alteração na estrutura profunda de desigualdade.

domingo, 2 de outubro de 2022

O pior que nos inunda


É muito provável que as urnas nacionais acionem hoje a descarga político-sanitária da vigência atual da palavra cambronniana. É uma referência infecta, mas recorrente.

Até Marx, que jamais baixava o sarrafo da elegância de linguagem em teoria ou jornalismo, permitiu-se uma vez seu uso: "Scheisse" em alemão, "merda" em português. Notoriamente, foi Pierre Cambronne, general de Napoleão, que tornou famosa a expressão, ao responder "merde" à intimação inglesa para render-se em Waterloo.

Sem ser gíria ou palavrão, essa referência chula peca por mau gosto. Seu impacto nas imprecações não lhe garante mais nenhuma glória, apesar de algum interesse cognitivo, como evidencia a frase de Steve Bannon, guru do extremismo: "A oposição real é a mídia. E a forma de lidar com eles é inundá-los com nossas merdas".

Num trecho de "A Ideologia Alemã", Marx desabafa com essa palavra, argumentando que a transformação da consciência massiva dos homens só pode se dar por um movimento prático, a derrubada da classe dominante. Diz então textualmente que "a classe revolucionária, só graças a uma revolução, poderá libertar-se da velha merda", ou seja, das condições sociais responsáveis pela alienação dos trabalhadores.

No século 20, em "Saló", Pasolini inscreveria artisticamente o fascismo num repulsivo Ciclo da Merda.

Rebaixamentos à parte, a história tem mostrado que o emprego dessa palavra flutua segundo a diversidade conceitual de sociedade. Hoje ela chega mesmo a orientar o que a pornocultura entende como laço social. Em 2007, a revista Newsweek publicava o comentário de um executivo da Paramount Pictures a propósito do filme "Jackass-2.5": "Há mais vômito, nudez e defecação —o tipo de coisa que os consumidores realmente querem".

Essa verdade parcial relativa ao consumo de mídia ajusta-se a uma fatia da realidade afim à lógica do reality-show: uma perversa radicalidade democrática pautada pela ausência absoluta de qualidades. Na esfera política, isso resvala para a bárbara desqualificação das regras de civilidade. Assim se destampou a fossa de onde saíram Trump e congêneres.

As redes sociais dinamizaram o fenômeno, de complexo desenho global. A mídia de entretenimento é vetor extraordinário, mas não está só. Ignorância e passadismo reacionário são motores profundos da consciência impermeável ao progressismo dos costumes e valores. É a brecha para gente como Bannon e para a matéria-prima da náusea, capaz de fazer do bufão mito. A frase dele, de 2018, ano eleitoral brasileiro, revelou-se funcional. Semanas atrás, porém, o guru foi para atrás das grades, por corrupção. Sinal alvissareiro, talvez, do início de descarga democrática do pior que nos inunda.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Pensamento do Dia


 

Ascensão e queda da extrema direita

No momento em que a extrema direita está prestes a deixar o governo no Brasil, a italiana acaba de vencer as eleições. No caso deles, é a primeira vez desde a 2.ª Guerra Mundial.

Enquanto os italianos têm de discutir como lidar com essa forca política, aqui, no Brasil, o debate ainda incipiente é como evitar que retorne com sua política de armar a população, destruir os recursos naturais, esvaziar a produção científica e cultural e isolar o País no mundo.

Nos primeiros passos para abordar o fenômeno, tenho acentuado que o dínamo do crescimento da extrema direita europeia não está presente no Brasil: o medo diante dos movimentos migratórios.

Umberto Eco, no seu pequeno livro Migração e intolerância, fala das dificuldades dos animais e mesmo das crianças de conviverem com o diferente. Tive a oportunidade de assistir, nas praias italianas, à chegada maciça dos albaneses, quando ruiu o império soviético, no final do século 20. Eco menciona essa presença albanesa para registrar que alguns desses imigrantes se perderam para o crime e a prostituição. Mas esse fenômeno pontual acabou sendo visto por alguns como típico dos imigrantes. Ele mesmo exemplifica essa distorção com o exemplo de alguém que tem a mala roubada num outro país e acha que ali todos são ladrões.


Suas conclusões são bem realistas: educar para a tolerância adultos que atiram por motivos étnicos e religiosos é tempo perdido; a intolerância deve ser combatida por meio de educação constante, antes que se torne uma casca comportamental espessa e dura demais.

Naturalmente, em países como o Brasil e a Itália, onde aconteceram as famosas Operações Mãos Limpas e Lava Jato, a decadência do processo democrático se torna um grande impulso para a ascensão da extrema direita. As pessoas parecem se cansar do jogo político, perdendo o que resta de esperança nele.

São, portanto, dois movimentos a investigar: a vulnerabilidade democrática de um lado e os mecanismos de intolerância latentes na psicologia humana.

Mesmo sem fluxos migratórios, a extrema direita brasileira conseguiu produzir seus inimigos. Ela tem um grande apego às armas e à masculinidade, como nos tempos italianos de Mussolini. Orientações sexuais diferentes são estigmatizadas: menino é azul, menina é rosa, e pronto. As comunidades tradicionais, cujos território e identidade religiosa e cultural são garantidos pela Constituição, são vistas com desconfiança. Bolsonaro já disse muitas vezes que os índios precisam se integrar à sociedade. E a desconfiança se estende aos artistas, pesquisadores e cientistas.

Umberto Eco fala, também, do integrismo, que difere do fundamentalismo por tentar fazer com que uma visão religiosa se transforme também numa visão política.

Não se trata apenas de contestar fatos como a forma da Terra, mas de algo maior: tentar fazer com que a Bíblia e a própria Constituição sejam textos complementares, sem contradições.

Nas últimas semanas de campanha, Bolsonaro enfatizou o que a imprensa chama de luta de costumes, mas na realidade é uma tentativa de aproximar política e religião, uma transmutação de candidato em missionário, que diz como as pessoas devem se comportar na sua vida íntima.

Nas circunstâncias europeias e também num contexto parlamentarista, a extrema direita italiana deverá apresentar uma visão mais sofisticada que a brasileira.

Um dos primeiros discursos de Giorgia Meloni fala de sua identidade, como italiana e mulher, e acusa um sistema que faz das pessoas dóceis consumidoras. Aparentemente, é uma visão antissistêmica diferente da de Bolsonaro, que se restringe ao universo político, sem menções à economia.

O simples fato de a extrema direita italiana e a francesa serem lideradas por mulheres já estabelece uma diferença básica, uma vez que Bolsonaro e seus adeptos veem a ascensão das mulheres como mais uma das tramas do que chamam de marxismo cultural. Esse dado é até sociológico: nas pesquisas de intenção de voto, Lula tem o dobro de votos de Bolsonaro entre as mulheres.

Enfim, extrema direita entrando, extrema direita saindo, nas circunstâncias de crise econômica e degradação democrática, é razoável contar com esta presença no horizonte e, sobretudo, estudar melhor seu discurso. A pior das situações é tocar as coisas como se não tivesse acontecido nada, como se esse momento da história do Brasil, que é também um momento mundial, não contivesse nenhuma lição, e tentar recomeçar a vida exatamente como antes.

Há quem ache que a extrema direita brasileira seja idêntica ao bolsonarismo. De fato, Bolsonaro é um líder popular, sobretudo depois da facada em Juiz de Fora, e tem uma linguagem muito acessível aos seguidores. Mas nada impede, como aconteceu na França, que haja renovação e também aprendam algo com a derrota.

É toda uma nova época que começa, sob a capa ilusória de uma continuidade. A tendência é sempre achar que as grandes batalhas são uma repetição das anteriores. Assim naufragam os generais.

O processo de redemocratização do Brasil ganha uma nova chance. Mas precisaremos de mudanças para aproveitá-la.

Redondilhas para uso de tiranos

Era uma vez um tirano,

com olhos frios de aço
e com ar de fazer dano
a quem lhe não desse abraço.

Governava gente bruta,
amiga de obedecer,
mas mais que baste astuta,
pra com isso enriquecer.

Como todos os tiranos,
que gostam de ver poder
a crescer, todos os anos,
deitou tudo a perder.

O tirano é incapaz
de matar a sua fome:
ter muito não satisfaz
o desejo que o consome.

Cria exércitos sem fim,
manda jovens para a morte;
a vida fica ruim
pràquele povo em desnorte.

Falta o pão e o café
e o calor que mata o frio,
e é tudo um banzé,
estando a vida por um fio.

O dinheiro desvanece
e os bancos ficam vazios:
ser banqueiro desmerece,
naqueles cofres baldios.

Mas o tirano não sabe
que pra rudo há um fim:
o universo não cabe
neste pífio folhetim.

Tirano acaba mal,
assim reza o passado:
lá pró fim já cheira mal
o patife estouvado.

Ou se mata ou o matam,
não há mesmo outra escolha:
quando os laços se desatam,,
a morte não é zarolha.

Visava ser imortal,
como são os mesmo grandes,
mas ficará tal e qual
os que são meros Fernandes!
Eugénio Lisboa

As sequelas do bolsonarismo

Precisaremos de tempo para conhecer as nuances do rastro da destruição causada por Jair Bolsonaro. Não me refiro aos indicadores econômicos e sociais que já sinalizam retrocesso, estagnação, incompetência. Esses dados são desde já acessíveis e revelam uma parte da devastação civilizatória no país. Falo sobre as profundas sequelas emocionais deixadas pelo bolsonarismo na sociedade.

O atual governo alimentou nos últimos quatro anos um clima de arruaça constante. Não houve um dia de tranquilidade desde que Bolsonaro assumiu o poder. Nos tornamos um povo triste, ansioso e cansado, refém de uma gestão caótica e antidemocrática. Num futuro próximo, imagino que os estudiosos diagnosticarão o brasileiro com estresse pós-traumático, o tipo de choque causado em quem enfrenta guerras, assaltos, violência sexual.


Converse com qualquer pessoa que não faça arminha com a mão. É um surto coletivo de taquicardia, dificuldade para dormir, pesadelos, ansiedade, ataques de raiva, medo, abuso de álcool, uso de drogas legais ou não. Se tem algo que faz a economia bombar é a venda de Rivotril. Nunca mais seremos os mesmos. Envelhecemos uma década nos últimos quatro anos. O bolsonarismo arruinou anos valiosos, talvez os últimos na vida de muita gente.

Impressiona alguém considerar alguma coisa dentro da "normalidade".

Vidas negligenciadas na pandemia, relações familiares destruídas, democracia cambaleante, selvageria nas redes sociais, violência e morte no cotidiano. Essa conta começa a chegar agora aos responsáveis.

Ao que tudo indica, ele não será reeleito. Se não o próximo domingo, o dia 30 deve marcar sua derrocada. Mas é difícil saber quando, de fato, viraremos a página dessa história. O que há de mais nefasto no bolsonarismo continuará vivo, ao menos por um tempo, e as marcas de sua incivilidade continuarão tendo algum efeito na saúde mental coletiva.

Autoritarismo do DNA

Minha reflexão sobre o autoritarismo parte do pressuposto que o nosso presente está repleto de passado. Àqueles que se mostram perplexos com a eleição de um político reacionário como Bolsonaro, costumo lembrar que o Brasil e os brasileiros estão encharcados de autoritarismo. Em outras palavras, Bolsonaro é um sintoma e não uma causa.


Sua eleição e suas políticas dão continuidade, por exemplo, à nossa tradição patriarcal. Os homens sempre governaram neste país, e ainda governam, com menosprezo pelas mulheres. Eles olham com muita desconfiança, quando não ódio, todas as iniciativas femininas. Somos também um país racista. Somos um país que despreza a questão do meio ambiente. Em todos esses sentidos, o governo Bolsonaro foi uma continuação, exacerbada talvez, do autoritarismo brasileiro que vem de muito antes.
Lilia Schwarcz, professora titular do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e global scholar na Universidade de Princeton 

Acabou o estoque de balas que Bolsonaro imaginava ser de prata

Bolsonaro não tem mais bala de prata para disparar contra Lula. A bala de prata já foi a primeira-dama Michelle, que quando mais jovem e solteira queria ser atriz, fantasiou-se de Toddynho e alimentava o sonho de ser feliz casando-se com um homem rico.

Michelle foi usada por Bolsonaro como evangélica exemplar para diminuir sua rejeição entre as mulheres. Missão dada, missão cumprida, mas nem por isso Bolsonaro avançou entre elas como desejava. Então, apelou para outra suposta bala de prata.




Foi a vez dos ataques pesados contra Lula para aumentar sua rejeição. De fato, a rejeição aumentou, mas bem menos do que ele esperava. O problema é que a rejeição de Bolsonaro não caiu e oscilou um ponto para cima. O que mais ele poderia fazer?

Ao ver Lula ser recepcionado por donos de algumas das maiores fortunas do país, Bolsonaro apelou para mais uma bala que julgava ser também mortal. Escalou o ministro Paulo Guedes para falar da recuperação do Brasil que crescerá mais do que a China.

Guedes se dispôs a sair dizendo essa e outras besteiras em emissoras de TV amigas e em podcasts de bolsonaristas. Como se empresários e banqueiros não soubessem que não é o Brasil que crescerá mais do que a China, mas a China menos do que crescia.

Acabou o estoque das balas de prata de Bolsonaro. Com os tanques fumacentos da Marinha, ele não conta mais para dar o golpe que acalentava. Falta um tiquinho só para que Lula se eleja domingo. E a Bolsonaro só resta torcer para que o tiquinho não venha.

Se não vier, e como disse Simone Tebet, por acabar acreditando nas próprias mentiras, Bolsonaro estará pronto para espalhar mais uma: a de que o segundo turno é uma nova eleição. Como se o placar zerasse para dar início a uma nova partida. Não zera.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Sem Bolsonaro, outro Brasil é possível

Incerteza econômica, emergência climática e novas tensões geopolíticas dão o tom da conjuntura mundial, bem diferente daquela de apenas duas décadas atrás. Mesmo esse quadro sombrio, porém, não deve estiolar as oportunidades para uma nação como o Brasil, grande produtor de alimentos, muito rico em reservas de água —um bem que vai se tornando escasso— e abrigando em seu território um patrimônio incalculável de cobertura florestal e biodiversidade.

Esses podem ser os vistos no passaporte do país na sua jornada em busca de posição vantajosa no sistema internacional em transição, ampliando as condições objetivas para o combate a seus enormes problemas domésticos. Estes são tudo menos triviais: crescimento rastejante; governos enredados em limitações fiscais crônicas; intimidade entre máquina pública e interesses privados; degradação ambiental; e, sobretudo, extensa e abjeta pobreza na qual se ancoram violência e desigualdades superpostas de renda, raça, gênero, região, acesso a educação, saúde e tudo o mais que faz parte da proteção social devida aos cidadãos.


Os quase quatro anos do desgoverno Bolsonaro aprofundaram praticamente todas essas mazelas. Mas mostraram também a resiliência das instituições democráticas —Suprema Corte, Tribunal Superior Eleitoral, Federação e Congresso multipartidário— bem como da imprensa e da sociedade organizada em face dos arreganhos da extrema direita.

Atestaram ainda que elites cívicas —hoje mais plurais, mais nacionais e menos brancas— aprenderam com a experiência de resistir ao desmonte de políticas e capacidades estatais fomentado pelo Palácio do Planalto.

Se a campanha presidencial se desenrola ao ritmo de promessas vagas, não faltam propostas sérias para lidar com os mais renitentes problemas brasileiros: da sustentabilidade ambiental ao resgate da educação; do fortalecimento do SUS ao impulso à ciência e tecnologia; da questão fiscal às prioridades de investimento; da cultura à luta contra a violência sem replicá-la.

Esse aprendizado se provará nas urnas.

De hoje a três dias, uma ampla coalizão democrática, unindo lideranças usualmente rivais e eleitores de diferentes simpatias políticas, do centro-direita às esquerdas, desafiará o atraso, a truculência, a boçalidade e o autoritarismo que Bolsonaro encarna —e que tentará impor à força se as urnas lhe mostrarem o merecido cartão vermelho.

Sua derrota —se calhar, já no primeiro turno— abrirá uma fresta através da qual, não sem dificuldades, nem da noite para o dia, talvez se possa construir, tijolo a tijolo, um país mais decente.

Bolsonaro: vá para o inferno e deixe o Brasil em paz

Para sobreviver politicamente a uma eventual derrota e sonhar com a volta em 2026, Bolsonaro não poderá reconhecer o resultado que lhe seja adverso. Dirá que a eleição foi fraudada.

É o que ensina a cartilha dos populistas de extrema direita mundo afora. Foi o que fez Donald Trump nos Estados Unidos. Mas, como lá, qualquer tentativa de golpe aqui será malsucedida.

Há dias, Bolsonaro repetiu que só respeitará o resultado das eleições se elas forem limpas. Quem dirá que foram? O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os observadores internacionais.

Bolsonaro irá se contentar com isso? É claro que não. Eleições limpas, para ele, um filhote da ditadura militar que suprimiu a democracia por 21 anos, são só aquelas que o elegem.


Com urnas eletrônicas e tudo mais, Bolsonaro se elegeu deputado seis vezes e nunca contestou os resultados, ele e os filhos. Em 2002, votou em Lula e quis emplacar o nome do novo ministro da Defesa.

Falou em eleições roubadas porque não se elegeu em 2018 no primeiro turno. Como se elegeu no segundo, deixou de falar. Voltou a falar depois da pandemia porque anteviu a derrota.

Lembra-se de que ele disse que era preciso salvar a economia senão o seu governo não se salvaria? Que sabotou todas as medidas de proteção da vida adotadas por governadores e prefeitos?

Por pressão dele, o Congresso foi forçado a votar um projeto que restabelecia o voto impresso. Votou e derrotou-o, mas Bolsonaro nunca se conformou. Continua inconformado.

Valdemar Costa Neto, ex-mensaleiro do PT, é presidente do PL. Alugou a legenda a Bolsonaro para aumentar a bancada de deputados federais do partido. Esteve, ontem, no TSE.

Saiu de lá dizendo que não “há mais sala secreta”; jamais houve, é mais uma mentira de Bolsonaro. Mal saiu, foi divulgado um documento do PL que duvida da segurança das urnas eletrônicas.

O documento está em papel timbrado do PL, mas ninguém o assina. Sem apresentar provas, em linguagem eminentemente técnica, sugere que possa haver fraude na apuração dos votos.

Não é um documento para ser levado a sério por quem é sério, e esse não é o caso de Valdemar. É só para alimentar a rede de fake news a serviço da campanha de Bolsonaro. É para isso que serve.

Por que Bolsonaro não recomenda aos seus eleitores que se abstenham de votar? E por que não dá o exemplo? Se o sistema eleitoral não merece confiança, o mais lógico é não votar.

Votando, compactua com a farsa que teme. Acontece que a farsa só estará consumada se Bolsonaro perder, se vencer, não. Sabe de uma coisa? Bolsonaro, vá para o inferno e deixe o país em paz.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Brasil vai às urnas

 

Ramón Díaz Yanes (Cuba)

Transamazônica: 50 anos entre ufanismo e desastre ambiental

Havia um intencional clima de otimismo naquele 27 de setembro de 1972, quando foi inaugurada a BR-230, mais conhecida como rodovia Transamazônica. O Brasil vivia o auge da ditadura militar e esforços de propaganda procuravam dar a ideia de grandeza.

Conforme registrou o jornal O Estado de S. Paulo, o então ministro dos Transportes, Mário Andreazza (1918-1988) foi ufanista. Disse ele que a Transamazônica "simboliza o poder criador do homem brasileiro e sobretudo a atitude de uma nação jovem e corajosa, decidida a enfrentar com firmeza e determinação todos os problemas que lhe dificultam o acesso ao pleno desenvolvimento econômico e social".

Na visão predominante naqueles dias, desenvolver significava avançar sobre a floresta. A mentalidade era de uma verdadeira batalha entre civilização e natureza. A cerimônia de inauguração do primeiro trecho, com 1.253 quilômetros, ocorreu em um ponto a cinco quilômetros de Altamira, com a presença do então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici.


A historiadora Janaína Martins Cordeiro, professora na Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta que a Transamazônica estava dentro da ideia, presente no governo Médici, de "construção de um Brasil potência como projeto da política econômica da ditadura".

Em seu livro Reinventando o Otimismo, o historiador Carlos Fico, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), situa a rodovia como parte do sonho histórico brasileiro de integração plena do território, inclusive a região amazônica.

"Houve um investimento sem igual em propaganda e uma conjuntura que favoreceu a emergência de um nacionalismo desenvolvimentista extremamente ufanista e otimista", contextualiza Cordeiro. "A Transamazônica passou a ser o símbolo de um país que se realizava, o futuro que tinha chegado. Era o homem se sobrepondo à floresta, domando as forças da natureza."

Para embasar a expansão sobre a floresta, havia teorias conspiratórias. Como lembra o historiador César Martins de Souza, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e editor da Nova Revista Amazônica, argumentava-se que havia "interesses estrangeiros em tomar a Amazônia" e, por isso, era necessário ocupá-la e explorá-la. "Essas ideias, que eu chamo de ideologias, embasavam a construção de projetos agropecuários e minerais [na região]", pontua o historiador.

Além de simbolizar o que se entendia por desenvolvimento, a Transamazônica deixou clara a prioridade nacional pelo transporte rodoviário, em detrimento de outras possibilidades.

Além disso, como ressalta o antropólogo Fred Lucio, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), representava um acesso a áreas remotas, em nome de uma suposta segurança nacional. "Havia uma preocupação com as fronteiras do Brasil. A defesa da Amazônia fazia parte do fantasma da segurança nacional", diz ele.

Segundo a imprensa da época, a rodovia já trazia ocupação humana para a floresta, com 250 "colonos" chegando por dia à região de Altamira e se fixando nas redondezas da Transamazônica.

Slogans governamentais incentivavam isso, dizendo que a Amazônia era "uma terra sem homens para homens sem terras", por exemplo.

"Chega de lendas, vamos faturar", apelava anúncio publicado pelo governo, na imprensa, para divulgar as ações da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). "A Transamazônica está aí: a pista da mina de ouro."

Anúncios de empresas ligadas à construção, publicados na época, reforçavam a ideia. "Para unir o Brasil, nós rasgamos o inferno verde", escreveu a construtora Andrade Gutierrez. "A Amazônia já era", exaltou a companhia Netumar.

"A propaganda mostrava árvores sendo derrubadas, a estrada aberta onde antes havia, segundo o discurso, uma natureza hostil, selvagem. Predominava a ideia da civilização dominando o selvagem, o indomável", aponta Cordeiro.

A tônica era a ideia de "conquista da Amazônia", explica o historiador Souza. "Como se a floresta fosse um inimigo a ser vencido", acrescenta.

Do plano inicial de 8 mil quilômetros, a Transamazônica acabou ficando com pouco mais da metade. Cinquenta anos depois, a história demonstra que o projeto foi um desastre ambiental.

"Havia estimativa de escavação de aproximadamente 35 milhões de metros cúbicos de terra e foram erguidos cerca de 4 mil metros de pontes de madeira. Nessa mesma proporção, o desmatamento já alcançava cerca de 100 milhões de metros quadrados. Árvores com mais de 50 metros de altura e centenas de anos de vida iam ao chão em poucos minutos e, com elas, toda uma biota era arrancada e destruída", comenta Souza.

"As obras transformaram e transtornaram a região, pois a Transamazônica não era apenas uma estrada que objetivava atravessar a Amazônia no sentido Leste-Oeste e integrar a região ao restante do país e o Atlântico ao Pacífico, permitindo ao Brasil acessar com maior facilidade e menores custos mercados asiáticos, mas uma obra que integrava diversos projetos de ocupação e exploração da Amazônia", afirma.

"Dessa forma, ela gerou um novo desenho da cartografia da região, pautada no desenvolvimentismo, com fortes impactos socioambientais sobre as populações da Amazônia, como povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e populações urbanas, bem como sobre a fauna e flora."

Quem ousava fazer uma crítica ambiental costumava ser rebatido com teorias conspiratórias. Em entrevista publicada na revista Manchete, na época, o ministro Andreazza argumentou que por trás da defesa ecológica havia interesses estrangeiros em dominar a floresta.

"Os debates ambientais ainda não se davam de modo sistemático como atualmente, devido ao momento histórico", pontua Souza.

Professor na Universidade de Bristol, no Reino Unido, o biólogo Filipe França explica que a construção de rodovias em regiões florestais acarreta dois danos ambientais e, nesse sentido, analisar a Transamazônica é mergulhar em "um clássico exemplo".

O primeiro dano é aquele que parece mais óbvio: o desmatamento, a remoção florestal para dar espaço à via. "Além da perda de árvores, ocorre a fragmentação da floresta, com a criação de ilhas de vegetação [divididas por áreas desmatadas]", explica. "A estrada divide os ecossistemas. Isso leva a mortalidade de espécies e redução da diversidade genética."

Depois do primeiro momento, contudo, esse processo continua, porque, com a facilidade de acesso, grupos passam a explorar cada vez mais o entorno, estradas secundárias — ainda que extraoficiais — são criadas e isso aumenta a escala de degradação. "A floresta ainda fica de pé, mas perde biodiversidade", argumenta.

O antropólogo Fred Lucio resume as consequências da construção da Transamazônica da seguinte maneira: "destruição e extermínio de populações indígenas", a transformação do entorno em "um lugar deplorável" e um "desenvolvimento fajuto para a região".