sábado, 10 de setembro de 2022

O silêncio cúmplice de Bolsonaro sobre mais um crime político

Por que Jair Bolsonaro foi o único candidato a presidente que não falou nada até agora sobre o bárbaro assassinato no Mato Grosso de um trabalhador petista por outro bolsonarista?

Por que o assassinato seria plenamente justificável? Por que se trata da luta “do bem contra o mal”, como ele diz? Por que o direito à vida é só para os que concordam com ele ou se resignam?


Na noite da última quarta-feira, em uma chácara do município de Confresa, interior do Mato Grosso, Rafael de Oliveira, 22 anos, desentendeu-se com Benedito Cardoso dos Santos, de 44 anos.

Rafael é bolsonarista, Benedito era petista. Cada um defendia seu candidato. Rafael exaltou-se, puxou uma faca e atingiu Benedito nas costas, nos olhos, na testa e no pescoço.

Com a primeira facada, Benedito caiu no chão. A partir daí, Rafael aplicou-lhe 15 facadas, todas no rosto. Não satisfeito, usou um machado para tentar decapitá-lo. Depois, fez um vídeo do corpo.

Foi preso e confessou o crime, mais um a chocar o país desde do início da campanha eleitoral. Bolsonaro silenciou. Ou melhor: em comício no Tocantins, chamou os petistas de “praga”:

“Essa praga sempre está contra a população. Esse pessoal só gera desgraça para o povo. Com a nossa reeleição, varreremos para o lixo da história esse partido dito dos trabalhadores, que na verdade é composto por desocupados”.

“Não podemos errar, sabemos que é uma luta do bem contra o mal. O lado de lá quer o comunismo, quer desarmar o povo de bem, quer a ideologia de gênero, quer liberar as drogas, quer legalizar o aborto e não respeita a propriedade privada”.

No comício-militar de 7 de setembro, na praia de Copacabana, Bolsonaro referiu-se a Lula como “o quadrilheiro dos nove dedos” e afirmou que é preciso “extirpar essa gente”.

Em julho último, o guarda municipal Jorge da Rocha Guaranho, bolsonarista, invadiu a festa de aniversário do tesoureiro do PT em Foz de Iguaçu, Marcelo Arruda, e matou-o a tiros.

Na manhã do dia seguinte, em conversa com devotos no cercadinho do Palácio da Alvorada, Bolsonaro definiu o crime como “uma briga entre duas pessoas”. Os dois não se conheciam.

“Vocês viram o que aconteceu ontem, né? Uma briga de duas pessoas lá em Foz do Iguaçu. ‘Bolsonarista não sei lá o que’. Agora, ninguém fala que o Adélio (Bispo) é filiado ao PSOL, né?”

Adélio foi quem esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora no dia 6 de setembro de 2018. A justiça concluiu que ele agiu sozinho e que sofre de transtorno mental. Está preso até hoje em um manicômio.

O general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, pronunciou-se na mesma linha de Bolsonaro sobre o assassinato do tesoureiro do PT:

“Vou repetir o que estou dizendo e nós vamos fechar esse caixão, tá? Para mim, é um evento desses lamentáveis que ocorre todo final de semana nas nossas cidades de gente que briga e termina indo para o caminho de um matar o outro”.

Bolsonaro só condenou o crime de Foz de Iguaçu quatro dias depois, ao saber que irmãos da vítima eram bolsonaristas. Telefonou para eles solidarizando-se, mas não para a viúva.

Um dos irmãos aceitou o convite de Bolsonaro para se reunir com ele em Brasília, mas não a sua proposta de defendê-lo em uma entrevista coletiva de imprensa no Palácio do Planalto.

Esse é o homem que procurou salvar a economia durante a pandemia da Covid-19 à custa das mortes dos que “tivessem de morrer”, porque não era “coveiro”. Morreram 680 mil pessoas.

Esse é o homem que se diz católico e evangélico ao mesmo tempo, vive rezando em igrejas e templos, e estimula a compra de armas para que os brasileiros “não sejam mais escravos de ninguém”.

Um terço dos eleitores aprova tudo o que ele diz e faz, e está disposto a reelegê-lo a qualquer preço. Esta campanha já é a quarta mais violenta desde o fim da ditadura militar de 64.

Segundo dados do Monitoramento de Crimes Políticos realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo, ela já ultrapassou em número de assassinatos as eleições de 1994, 2002, 2006 e 2014.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

O velho matador

Foi num churrasco na casa do marido da minha sobrinha que eles se chegaram a mim. Vi logo que eram estrangeiros, pela roupa, depois pelo modo como se fechavam num canto, falando baixo, e logo depois iam em diferentes direções, abordando diferentes pessoas. Chegaram até mim, e eu sou um homem que todo mundo chama o Rei da Simpatia. Apertei suas mãos, aprendi seus nomes, ofereci bebidas e assentos, desejei que se divertissem; e me afastei. Era a festa dos meus 75 anos, eu não podia parar num só lugar a noite inteira.


Marcamos reunião para o dia seguinte, e eles voltaram. Queriam fazer um documentário para passar lá na Europa, sobre minha atividade nas milícias. Eu disse a eles que foram as milícias que livraram nossa pátria do comunismo, da corrupção e do voto. Desdobrei exemplos. Eles perguntaram se eu repetiria tudo para eles, com as câmeras, e eu disse que sim, que claro. Falei do meu orgulho em ter executado com minhas mãos mais de mil criminosos políticos que tinham tentado aplicar idéias estrangeiras sobre o nosso povo. Expliquei a eles que todo mês alguém da TV estatal mandava me convidar para um programa para que eu explicasse isto aos jovens.

Trouxeram as máquinas de filmar, viajaram comigo cruzando o país, ficamos companheiros. Eles eram muito concentrados no que faziam, mas sorriam nos intervalos. Só pareceram meio chocados quando re-encenei algumas cenas de interrogatório ou de execução, quando supervisionei a reconstituição de aparelhos especiais, quando mostrei alguns dos souvenirs que preservara.

Fomos a todos os lugares de despejo: à Lagoa dos Patos, ao Brejo da Capelinha, ao Paul Turfoso. Fiz um histórico de todas as execuções heroicas que tinham ocorrido em cada local, e em cada gravação senti, enquanto mostrava tudo com gestos largos e explicava com voz sadia, uma estranha comoção se apossar de mim, como se todas as almas dos corpos que eu executara naqueles locais estivessem ali, à minha volta, esperando somente uma palavra minha para poderem ficar livres para sempre.

Despedimo-nos entre malas e abraços. Voltei às minhas atividades, ao meu gamão, à minha piscina, aos meus churrascos. Então veio a fama, a invasão da imprensa. Atribuíam-me frases que eu talvez tivesse dito, sim, mas talvez não. Fui notícia e fui especial de horário nobre por toda parte. Meus netos, trêmulos de indignação, me mostravam nos iPhones as capas de revistas estrangeiras onde eu era chamado de carrasco e de assassino. Mas da minha varanda, do alto dos meus cabelos brancos, eu olho a cidade, em todas as direções, como que esperando que um inimigo qualquer se erga. Nenhum se ergueu. Nenhum se erguerá.
Braulio Tavares 

Nem luz própria

Hoje estamos vivendo em um Brasil feio. Não gosto do Brasil em que vivo hoje. Um Brasil que só fala de números. O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e nós, o povo? Nós estamos bem? Estamos seguros, respeitados? Estamos dignamente humanos? Temos uma escola boa, uma saúde boa? Temos uma segurança boa? O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e eu não conto? Sou apenas um número? Estudei na física que o planeta não tem nem luz própria. Olha que coisa terrível morar em um planeta que não tem nem luz própria. Estamos em uma periferia do cão. E para ter o dia e a noite você nem precisa de uma estrela de primeira grandeza. Uma estrela de quinta grandeza, como o Sol, serve. Resolve isso numa boa. E ainda temos alguma verdade para dizer? É só a dúvida que nos une, que nos aproxima. É só disso que precisamos. Precisamos de amparo com a nossa dúvida. E a literatura nos ampara. Tenho muito medo da verdade. Não acredito que haja nada verdadeiro. Tive um professor de filosofia, o padre Henrique Vaz, para quem eu perguntei “o que era a fé”. Ele me respondeu que a fé é a dúvida. Tem dias que você tem muita, tem dias que tem pouca, tem dias que não tem nenhuma. Isso se chama fé, porque nos é possível somente a dúvida. Hoje, estamos com muita gente encontrando a verdade. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de escutar o outro. Ela só fala, não escuta mais. Quem encontra a verdade só fala.

Bartolomeu Campos de Queirós

Bolsonaro não prepara um golpe, mas uma revolução

É época de eleições no Brasil, e o burburinho habitual de atividade enche o ar. A imprensa acompanha avidamente as campanhas, divulgando perfis de candidatos e especulando sobre futuras coligações. Apoiadores do candidato à frente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, debatem acaloradamente quem serão os próximos ministros. E todos os envolvidos estão cruzando o país para comícios, em um esforço enérgico para obter o voto.

No entanto, Jair Bolsonaro, o presidente de extrema direita do país, se destaca. Embora seus adversários tenham passado meses ansiosos pela eleição, ele tentou desacreditá-la preventivamente. Ele questionou o papel da Suprema Corte e pôs em dúvida, de maneira loquaz e frequente, o processo eleitoral. Ele fala como se a eleição fosse um estorvo, uma irritação. Ele diz que não aceitará nenhum resultado que não seja uma vitória.


Para alguns, isso parece a base para um golpe . Nessa visão, Bolsonaro pretende recusar qualquer resultado eleitoral que não o agrade e, com a ajuda dos militares, instalar-se como presidente permanentemente. A leitura está meio certa: Bolsonaro não pretende deixar o cargo, independentemente do resultado das eleições. Mas não é um golpe, com sua necessidade de consenso de elite e abstenção de mobilização de massa, que ele está atrás. É de uma revolução.

Desde o início de seu mandato, Bolsonaro se comportou mais como um líder revolucionário do que como um presidente. Em seu primeiro mês no cargo, ele disse que seu papel não era construir nada, mas “ desfazer” tudo. Em vez de administrar um governo, ele tentou desestabilizá-lo. Ele se recusou a preencher cargos em agências reguladoras cruciais, colocou apoiadores sem conhecimento técnico em altos cargos, subfinanciou programas sociais, puniu funcionários públicos por fazerem seu trabalho e negligenciou uma resposta coordenada à pandemia, que matou mais de 680.000 brasileiros.

Não é destruição por si só, no entanto. Desmantelar o estado é como Bolsonaro galvaniza seus apoiadores. Ao identificar inimigos claros e antagonizá-los, ele excita seus seguidores e, crucialmente, angaria seu apoio. Tudo o que ele faz – decretos, projetos de lei, pronunciamentos, manifestações, alianças – é enquadrado na infraestrutura digital do YouTube, Telegram e WhatsApp. Quanto mais radicais suas ações e palavras, mais engajamento ele gera.

O apoio a Bolsonaro pode começar online, mas vai para as ruas. No ano passado, Bolsonaro realizou uma “motociata” bimestral, uma marcha com milhares de motocicletas que parece uma demonstração de força bruta. Sua presidência, de fato, aspira a ser um comício permanente. No dia 7 de setembro do ano passado, Dia da Independência do Brasil, ele reuniu quase meio milhão de pessoas para protestar contra o STF. No mesmo dia deste ano, ele prometeu um grande desfile militar para mostrar o apoio do exército ao seu governo.

Não são apenas os militares. Muitos dos mais fervorosos apoiadores de Bolsonaro são notáveis por seu poder sobre os cidadãos comuns. Ele é popular entre os policiais – um estudo de 2021 estimou que 51% dos policiais de nível de rua brasileiros eram membros ativos de grupos pró-Bolsonaro online – e também é o candidato favorito entre os proprietários de armas. Dos que aprovam seu governo, 18% dizem que já têm uma arma em casa e quase metade gostaria de ter uma.

Eles podem obter o seu desejo. Uma das grandes conquistas do governo Bolsonaro foi enfraquecer o controle de armas, inundando o país com armas de fogo. Em 2018, havia cerca de 115.000 pessoas com licenças especiais para portar uma arma no país. Agora, existem mais de 670.000 pessoas com essas licenças – mais do que na polícia e nas forças armadas. Um número substancial deles adora Bolsonaro e está organizado em uma vasta rede de quase 2.000 clubes de tiro .

Militantes e comprometidos, esses são os soldados de infantaria de qualquer revolução futura. Há muito que não sabemos sobre como isso pode acontecer. Mas está claro que se um contingente de apoiadores, armados e determinados a manter Bolsonaro no poder, invadissem Brasília, a capital, isso criaria o caos. Em muitas grandes cidades, não é impossível imaginar uma insurreição liderada por forças policiais – enquanto motoristas de caminhão, majoritariamente pró-Bolsonaro, podem bloquear as estradas como fizeram em 2018, causando estragos. Pastores evangélicos, cujos congregados apoiam amplamente o presidente, podem abençoar esses esforços como parte da luta do bem contra o mal. A partir de tal anarquia, Bolsonaro poderia forjar uma ordem ditatorial.

Quem o impedirá? Provavelmente não o exército. Afinal, Bolsonaro tem muitos apoiadores nas forças armadas e mais de 6.000 militares trabalhando em seu governo, ocupando cargos civis. De sua parte, o exército parece estar relativamente relaxado sobre uma possível tomada do poder e não tem – para dizer o mínimo – nenhum apego especial à democracia. Não há sinal, pelo que se vê, de que as Forças Armadas possam ser protagonistas de um golpe. Mas também não há sinal de que resistiriam a uma tentativa de revolução.

É improvável que as forças democráticas se saiam muito melhor. Apesar de toda a popularidade de Lula, os esquerdistas parecem ter perdido sua capacidade de reunir as massas. Os 13 anos de um governo de esquerda que terminou em 2016 fizeram muito para dispersar e enfraquecer os movimentos sociais, e eles lutaram nos anos seguintes para recuperar seu dinamismo. Manifestações contra Bolsonaro, por exemplo, têm sido mal entendidas. E a violência política está aumentando: um membro do partido de Lula, por exemplo, foi morto recentemente por um apoiador de Bolsonaro. As pessoas certamente pensariam duas vezes antes de ir às ruas defender uma vitória de Lula.

O melhor baluarte contra uma revolução, curiosamente, pode ser os Estados Unidos. O governo Biden poderia deixar claros os custos profundos, na forma de sanções e isolamento internacional, que se seguiriam a qualquer tomada de poder. Isso, por sua vez, pode assustar as grandes empresas brasileiras – que, como apoiadores influentes, podem exercer uma pressão considerável sobre Bolsonaro – para que defendam a democracia. Se as dificuldades de executar uma revolução são muito grandes e as recompensas parecem escassas, é concebível que Bolsonaro recue – ou simplesmente faça uma apresentação, como o ex-presidente Donald Trump fez, para manter o controle sobre seus seguidores e preparar o terreno para a próxima eleição.

A última vez que o Brasil experimentou um caos político semelhante foi em 1964, quando um golpe militar derrubou um governo democrático que tentava realizar reformas progressistas. Demorou apenas algumas horas para os Estados Unidos, então liderados por Lyndon Johnson, reconhecerem o novo governo do Brasil.

Muito depende da esperança que os Estados Unidos agora valorizem um pouco mais a democracia.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Pensamento do Dia

 


Chegamos aos 200 anos desorientados e divididos

O Bicentenário da Independência do Brasil está sendo “comemorado” às vésperas das eleições gerais de 2 de outubro (daqui a 25 dias), como se fosse uma pajelança eleitoral. Entretanto, deveria ser uma grande festa de afirmação da identidade nacional, da nossa coesão social e de um projeto de futuro.

O presidente Jair Bolsonaro (PL), que disputa a reeleição, se apropriou da data para alavancar sua campanha. As mobilizações “nacionalistas” programadas para Brasília, Rio de janeiro e São Paulo, principalmente, tendo como coadjuvantes as Forças Armadas, que sempre foram protagonistas, são atos de provocação contra o Estado democrático de direito e suas instituições, principalmente o Supremo Tribunal Federal (STF). Seus organizadores acreditam que o 7 de Setembro será o “fato novo” capaz de promover uma virada no cenário das eleições. Veremos.


É uma situação inédita. Nem mesmo em 1972, quando o Sesquicentenário da Independência foi comemorado com pompa e circunstância pelo regime militar, a nossa memória histórica foi resgatada de forma tão tosca. Àquela época, criou-se uma comissão governamental em parceria com Instituto Histórico e Geográfico com a tarefa de resgatar as lutas pela Independência, com objetivo de fortalecer os vínculos entre o projeto de institucionalização do regime autoritário então vigente e o sentimento nacionalista do povo. Memória e identidade caminhavam juntas, mesmo que com o viés autoritário da época.

O país vivia o “chamado milagre brasileiro”, com base no tripé econômico empresas estatais-iniciativa privada nacional-investimentos estrangeiros, com instalação de empresas multinacionais e empréstimos bilionários. Os militares tinham um projeto nacional desenvolvimentista, autárquico, a custa de muito endividamento externo.

Operou-se a chamada “modernização conservadora”, sob a lógica de “fazer o bolo crescer para depois dividir”. Houve arrocho salarial para a grande massa trabalhadora, mas formou-se uma nova e abastada classe média, que apoiava o regime.

A concentração de capital e a desigualdade social se cristalizaram como par dialético da nossa economia, mas houve maior integração nacional e o Brasil passou a contar com uma base industrial robusta. Tanto os militares como a oposição, que estava sendo massacrada, tinham um projeto de futuro nacional desenvolvimentista. O divisor de águas era a falta de democracia.

Os radicais de direita que comemoram nas ruas o Bicentenário da Independência têm como referência um passado imaginário, no qual glamorizam o regime militar e ignoram os seus equívocos, que o levaram à bancarrota, após 20 anos de ditadura. O maniqueísmo é uma característica da mentalidade reacionária, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

O resultado é que as comemorações oficiais do Bicentenário foram abduzidas pela campanha de Bolsonaro, sem que as instituições governamentais tenham feito qualquer reflexão sobre o futuro do país, nem mesmo aquelas que tradicionalmente se preocuparam com isso, como o Itamaraty e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A propósito, uma das reflexões mais instigantes sobre o Bicentenário foi a palestra do embaixador Rubens Ricúpero na Academia Brasileira de Letras (ABL), na sexta-feira passada, na qual ele indagava o que o Brasil poderia fazer ao longo dos próximos 100 anos. É muita ironia, os principais protagonistas da vida nacional estão pensando nos próximos 25 dias. Ricúpero ainda acredita que o Brasil pode ser tornar uma potência ambiental, de direitos humanos, de promoção da igualdade racial e social, solidária a fracos e miseráveis. A agenda das manifestações programadas para hoje vai na direção diametralmente contrária.

Discípulo “incondicional” de Capistrano de Abreu, o primeiro a valorizar a importância do “povo capado e recapado, sangrado e ressangrado” na formação histórica do Brasil, José Honório Rodrigues, falecido em abril de 1987, aos 73 anos de idade, era um historiador liberal democrata de formação anglo-saxã. Na coletânea Conciliação e reforma no Brasil: interpretação histórico política (Civilização Brasileira, 1965), ele destacou que a concentração do poder político por um grupo conservador impediu o progresso do país durante séculos.

Para ele, as lutas pela independência poderiam fundar as bases nacionais em terreno popular e liberal, mas foram derrotadas. A Independência não significou uma ruptura, mas a continuidade da ordem privilegiada das elites escravocratas da época.

Em 1822, nas décadas de 1830 e 1840, em 1889, 1930, 1945, 1961 e 1964 deu-se o mesmo. “Os poderes dominantes tiveram sempre força para conter as aspirações profundas de mudança e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema, e seus privilégios”, diagnosticou num dos ensaios da coletânea, intitulado Teses e antíteses da História do Brasil.

Honório considerava o populismo “uma espécie de primitivismo político (…), um instrumento de agitação irresponsável, de meio desordenado de degradação da política e dos políticos”. Dizia que foi um entrave ao crescimento ordenado e eficiente nas décadas de 1950 e 1960: “A campanha de luta e agitação (…) desgastou o progressismo que se vinha formando e criou barreiras intransponíveis (…) O radicalismo vindo de cima, que mais agitava do que propunha construir (…) uma pedra no caminho da reforma e do progresso nacional. Não uniu, dividiu”. Parece que a história se repete.

A facada, desta vez, foi Bolsonaro quem deu na Constituição

Bolsonaro brigou com Michelle à saída do Palácio da Alvorada. Ela não queria desfilar no carro ao seu lado a céu aberto. Mas acabou cedendo. Exigência do marketing político, preocupado com o voto evangélico. Lembre-se do que disse Heloísa Bolsonaro, casada com Eduardo, o deputado, a respeito das mulheres:

“Não existe mulher insubmissa, livre e independente”.

No alto do carro de som, alugado pelo agronegócio para que ele falasse à multidão reunida na Esplanada dos Ministérios, Bolsonaro brigou outra vez com Michelle. Para ser exato: foi ela que brigou com ele. Bolsonaro comparou-a com Janja, mulher de Lula, beijou-a para sair na foto e exaltou seu próprio vigor sexual:

“Imbrochável, imbrochável, imbrochável”.

Michelle não gostou da cena. Sentiu-se humilhada. No passado, e foi Bolsonaro que contou, ele havia dito numa entrevista que era imbrochável. Para justificar porque ocupava um apartamento funcional da Câmara, embora fosse dono de apartamento em Brasília, disse que o seu era “para comer gente”. Michelle detestou.


Bolsonaro também brigou com a deputada Bia Kicis (PL), que queria falar depois de Michelle. O marketing político da campanha desaconselhou. Foi Kicis quem aproximou Bolsonaro de Paulo Guedes, em 2017. E de empresários americanos conservadores que lhe ofereceram apoio. Ingratidão de Bolsonaro.

Filmaram Bolsonaro brigando com Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, convidado para acompanhá-lo no palanque oficial do desfile cívico militar. Motivo? Não se sabe. Hang é um dos oito empresários investigados por supostamente conspirar a favor de um golpe militar. Convidados, os outros sete faltaram.

Não foram os únicos a faltar. Os presidentes dos demais Poderes da República não perdem um desfile de 7 de setembro. Porque o deste ano estava mais para comício do que para desfile, não puseram os pés por lá. Que Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal Federal, não fosse, Bolsonaro entenderia, mas, …

Mas Arthur Lyra (PP-AL), presidente da Câmara, e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, fugirem da raia a pretexto de que estavam com a agenda cheia? Logo eles, beneficiados com fatias gigantes do Orçamento Secreto? Mal agradecidos. Bolsonaro não é de perdoar ninguém que o contrarie.

Porta-vozes informais de Bolsonaro plantaram na mídia que ele ficou eufórico com o showmício militar na praia de Copacabana. Em parte, ficou, dado o tamanho da multidão. Mas também ficou furioso. Quase não foi ouvido, de vez que o som estava péssimo, e o sinal da internet oscilava, o que dificultou a transmissão ao vivo.

Dali, Bolsonaro foi ao Maracanã assistir ao jogo Flamengo (2) x Velez (1). Na chegada ao camarote foi tudo bem: aplausos e gritos de Mito. Mas, aos poucos, espalhou-se pelo estádio a notícia de que ele estava lá, ao alcance de gritos. E a arquibancada em massa, acostumada a vaiar até minuto de silêncio, entoou:

“Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu”.

Foi um final de dia à altura de um presidente da República parasita; que parasitou o desfile cívico-militar do Bicentenário da Independência transformando-o em um ato de campanha bancado com dinheiro público; um presidente que nos estertores do seu mandato apunhala a Constituição que jurou respeitar.

Acionada, como reagirá a Justiça Eleitoral? Se o princípio de que a lei é para todos fosse mais do que um enunciado vazio, Bolsonaro seria punido exemplarmente – e quem depois dele se arriscaria a desafiar a Justiça? Mas esse é o país onde há lei que pega e lei que não pega; e a lei que pega vale para uns e não para outros.

Se Bolsonaro não se reeleger, será muito fácil explicar porque. Mas caso se reeleja, já foi mais difícil explicar.

Democracia verde-oliva


O Brasil é uma República "generalizada"
Barão de Itararé

Duzentos anos

“Até com a desgraça a gente se acostuma“
Sabedoria popular portuguesa

Duzentos anos depois da independência, o Brasil é uma nação triste. A imagem externa benigna do país, construída no pós-guerra e associada à alegria do samba e à apoteose do carnaval, à ginga e imaginação do futebol, à beleza das praias e florestas, à exuberância da Amazônia, mergulhou em declínio.

O Brasil é percebido hoje, internacionalmente, como um país perigoso, em toda a linha. A estagnação do capitalismo periférico nos levou a perder uma década e deixou o Brasil à deriva. A eleição de Bolsonaro em 2018, um neofascista obtuso, agravou esta imagem decadente. No próximo 7 de setembro, mais uma vez, a extrema direita irá às ruas para intimidar os Tribunais Superiores, aterrorizar a esquerda e denunciar, por antecipação, a lisura do processo eleitoral.

Independência incompleta em 1822, abolição tardia e sem reforma agrária em 1888, República sem democracia em 1889, Revolução de 1930 que degenera em Estado Novo, democracia com ilegalização da esquerda depois de 1945, ditadura militar por duas décadas e, finalmente, quase 30 anos de regime democrático-liberal que culminam em um golpe institucional em 2016 para impedir a reeleição de Lula em 2018. Não é uma história animadora.

Mas não é somente o passado que pesa. O futuro parece tão sombrio que cinco milhões de jovens, entre os mais intrépidos e dinâmicos, saíram desesperados do país para tentar a sorte de uma vida melhor nas últimas três décadas. Eles correspondem quase a 5% da população economicamente ativa.

O flagelo de uma desigualdade social entre as maiores do mundo, fora da África subsaariana, confirma que a nação permanece ainda, dramaticamente, atrasada, mesmo em comparação com as vizinhas do Cone Sul. A pobreza extrema diminuiu em comparação com décadas passadas, mas a iniquidade social permanece em níveis escandalosos. O atraso e a desigualdade social se mantêm em patamares absurdos. A Argentina está em 40º lugar entre 188 nações, com um IDH de 0,836. O Brasil está na posição 75º com 0,755.


Diferente de outros países, no Brasil, a classe dominante tem tido, historicamente, uma dificuldade persistente em ganhar a maioria do povo e até a classe média para uma visão otimista de futuro. Mesmo em tempos de efeméride de 200 anos de independência encontram obstáculos, quase intransponíveis, para mimetizar os seus planos de emergência em projeto nacional duradouro.

Uma tensão social crônica está na raiz desse fracasso. Afinal, boas razões nunca faltaram para que o Brasil seja conflitivo. O suplício de uma vida miserável, a aflição de uma insegurança permanente, o desgosto de uma eterna humilhação, a angústia de uma ausência de perspectivas foram a experiência de gerações.

Uma luta de classes molecular sempre transpirou por todos os poros, e se traduziu numa instabilidade política duradoura: depois de quase quatro séculos de escravidão e de Estado com formas monárquicas, 41 de regime autocrático-oligárquico, 36 de ditadura semi-fascista, menos de 40 anos de democracia-liberal, e ainda assim sem liberdades civis plenas para a maioria negra, não é fácil fantasiar sobre um sentido para nossa história.

Mas tudo isso não inibiu as tentativas de “invenção de uma tradição”: às vezes, ambiciosamente, “civilizatória”; sempre, pomposamente, “original” (identidade cordial, cultura morena). Esforços persistentes de romantização da história do Brasil, de uma parte inspirados na lusofilia, de outra na lusofobia, mas sem raízes profundas, sequer na classe dominante.

O Brasil é atrasado econômica, social, política e culturalmente. É dramaticamente atrasado em termos educacionais, quando comparado a nações em estágio semelhante de desenvolvimento econômico. Aqueles plenamente alfabetizados na língua e na matemática são somente 8%, e os analfabetos funcionais correspondem a 27% da população com 15 anos ou mais, ou seja, quase um em cada três.

Mas o Brasil é, ao mesmo tempo, o maior parque industrial do hemisfério sul do planeta e uma das doze maiores economias do mundo, com vinte regiões metropolitanas com um milhão ou mais de habitantes e 85% da população economicamente ativa em centros urbanos. Um laboratório histórico do desenvolvimento desigual e combinado. Uma união do obsoleto e do moderno, um amálgama de formas arcaicas e contemporâneas. Insere-se no mundo como um híbrido de semicolônia privilegiada e submetrópole regional.

O Brasil foi e permanece, sobretudo, uma sociedade muito injusta. A chave de uma interpretação marxista do Brasil é a resposta ao tema da principal peculiaridade nacional: a desigualdade social extrema. Todas as nações capitalistas, no centro ou na periferia do sistema, são desiguais, e a desigualdade está aumentando desde a década de 1980.

Mas o capitalismo brasileiro tem um tipo de desigualdade anacrônica. Por que os graus de desigualdade social foram sempre tão, desproporcionalmente, elevados, quando comparados com as nações vizinhas, como Argentina, ou Uruguai? Hipóteses reacionárias variadas foram elaboradas, ao longo de décadas. As mais influentes eram fundamentadas em premissas racistas, inspiradas pela eugenia, em um debate que não é somente histórico, porque nos informa sobre um traço especialmente aberrante de um tipo de mentalidade de frações da classe dominante que, mesmo minoritário, ainda subsiste.

Obras lusofóbicas e racistas como Evolução do povo brasileiro, de 1923, de Oliveira Vianna, que defendia a necessidade do “embranquecimento” do povo, pretenderam explicar a desigualdade pelo atraso, e o atraso pela miscigenação de raças. Outras, como Casa grande & senzala de Gilberto Freyre, adepto da lusofilia, apresentam a miscigenação como uma chave de distinção progressiva do Brasil de países, como os Estados Unidos, em que se impôs a apartação racial, o apartheid. Ela fundamentou a ideologia da “democracia” racial.

A burguesia brasileira buscava intérpretes de sua história que pudessem legitimar uma demanda ideológica para o seu nacionalismo. A ideia de uma “nação de sangue” como fundamento da interpretação do caráter de um povo revelaria um destino histórico para a sociedade. A investigação do que seria o caráter do povo brasileiro passou então a ser o centro de um projeto ideológico.

A visão do Brasil como um país de povo dócil e intensamente emocional correspondia às necessidades da classe dominante. Na obra de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, o tema do “brasileiro cordial” respondia a esta demanda. Mas Sérgio Buarque estava preocupado, essencialmente, em compreender a aversão da classe dominante ao critério meritocrático liberal.

A mobilidade social era muito baixa. O Brasil agrário era uma sociedade muito desigual e rígida, quase estamental. Era estamental porque os critérios de classe e raça se cruzavam, forjando um sistema híbrido de classe e castas que congelava a mobilidade. A ascensão social era somente individual e estreita. Dependia, essencialmente, de relações de influência, portanto, de clientela e dependência através de vínculos pessoais: o pistolão. O critério de seleção era de tipo pré-capitalista: o parentesco e a confiança pessoal.

Se a chave de interpretação do Brasil deve ser a desigualdade social, a chave da compreensão da desigualdade é a escravidão. O capitalismo brasileiro perpetuou a escravidão até quase o fim do XIX. Uma escravidão tão longa, e em escala tão grande deixou uma herança social histórica. A população indígena, estimada em três milhões, dois milhões ao longo da costa, e um milhão nos interiores, foi dizimada quando da invasão.

O Brasil conheceu a escravidão indígena até as reformas pombalinas, na segunda metade do século XVIII. A escravidão negra surgiu com as primeiras fazendas de monocultura de açúcar, a partir de 1530, e persistiu durante, aproximadamente, três séculos e meio. Estima-se que a população escravizada não deve ter sido menor que um terço do total até 1850, e pode ter sido próxima à metade, ou pelo menos 40% no século XVIII, no auge da exploração do ouro das Minas Gerais.

Duzentos anos depois da independência ainda somos uma nação triste em busca de um destino.

Eleições e o avanço do fundamentalismo evangélico no Brasil

Era uma manhã de domingo, no final de julho, quando Michelle Bolsonaro gritou no Maracanãzinho: "Nós declaramos que o Brasil é do Senhor [...] Ele [Bolsonaro] é um escolhido de Deus". E a multidão no ginásio entoou "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". Era o lançamento da candidatura do presidente Jair Bolsonaro à reeleição pelo PL, mas o evento se assemelhou – em muito – a um culto evangélico.

Marco Feliciano, pastor e deputado federal, fez uma aparição. Ele rezou com a multidão e afirmou que Bolsonaro era "um presente de Deus". Em seguida, o "presente de Deus" pegou o microfone e disse que só se tornara presidente com a ajuda do Todo-Poderoso. Em seu discurso, ele frisou que "o Brasil é um país cristão". Era um ataque contra a Constituição brasileira, que afirma inequivocamente que o Estado é laico.

Bolsonaro corteja de forma agressiva os mais de 65 milhões de evangélicos do país, que representam cerca de um terço dos eleitores. Entre o eleitorado evangélico, o presidente lidera com 48%, contra 32% do adversário Lula, segundo o Datafolha. O interessante é que, entre os católicos, ocorre o contrário.

A campanha eleitoral mostra de forma impressionante o avanço do fundamentalismo evangélico no Brasil. Ele não é mais um fenômeno marginal, mas está moldando o país. À primeira vista, os líderes evangélicos estão preocupados com questões sociais – aborto, educação sexual, casamento gay. Mas esses temas servem para manter a base evangélica emocionalmente engajada.

Por trás disso, porém, bispos e pastores defendem outros interesses: um capitalismo empresarial no qual trabalhadores e pobres não devem se rebelar, mas cumprir zelosamente seus deveres. Em vez de proteger a criação e os povos indígenas, a bancada evangélica votou no Congresso a favor da abertura da Amazônia para o agronegócio. E também tentam colocar sua própria gente em posições-chave no Judiciário. Sob Bolsonaro, isso foi alcançado com a nomeação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal (STF).

O fato de um homem como Jair Bolsonaro ser o maior representante dos evangélicos no Brasil mostra quão pouco líderes evangélicos se preocupam com a moral e os valores. A estratégia tem nome: "Teologia do Domínio" ou "reconstrucionismo".

A teoria por trás disso é que os cristãos perderam seu domínio sobre as Sete Montanhas, que agora devem recuperar para preparar para o retorno de Cristo. As Sete Montanhas são: família, religião, educação, imprensa, lazer, economia e governo. Quer dizer, trata-se de uma hegemonia total. E isso nunca esteve tão óbvio quanto nestas eleições.

Isso explica a entrada da terceira esposa de Bolsonaro na campanha eleitoral. As afirmações sobre Deus e o demônio de Michelle Bolsonaro – que é simpática na aparência, mas arqui-reacionária no conteúdo – acabaram até mesmo levando Lula a usar a retórica evangélica: "Se tem alguém que é possuído pelo demônio, é esse Bolsonaro".

Mas deverá ser difícil para Lula ampliar seus votos no campo evangélico. Em seus cultos, muitos pastores fazem campanha por Bolsonaro e dizem que a eleição é a escolha entre o bem e o mal, entre a luz e a sombra.

Essa demonização do oponente político leve à violência. Durante o culto em uma igreja evangélica em Goiás, o pastor pediu à congregação que não votasse em "vermelhinhos". Um fiel e seu irmão discordaram, e uma discussão começou. No final, um policial militar, que também faz parte da comunidade, atirou na perna do homem.

No final do seu discurso no Maracanãzinho, Michelle Bolsonaro levantou o dedo indicador para o céu, como um pregador islâmico, e jurou, com voz trêmula, que o destino do Brasil está nas mãos de Deus.

É evidente que os evangélicos não aceitam a separação entre Estado e religião. Como todos os fundamentalistas, consideram que sua fé é a única certa, o que os transforma em intolerantes. E, como todos os fundamentalistas, são céticos em relação à democracia, que para eles parece ser apenas o meio de acabar com ela mesma.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

O Brasil refém

Véspera do 7 de Setembro. Data sequestrada pelo imaginário intimidador bolsonarista, conforme ilustra o incontornável de um país à espera do que será o amanhã. O amanhã; não o futuro. O amanhã mesmo, este presente: a quarta-feira, dia 7 de Setembro.

O que será?

Note-se que incluímos esse aguardamento na agenda brasileira. Integra mesmo a dinâmica do calendário eleitoral. As entrevistas ao JN. O início da propaganda na TV. O primeiro debate. O 7 de Setembro. O debate final. O 2 de Outubro.

O 7 de Setembro, se grande ou muito grande: balizará, já amanhã à noite, as análises políticas sobre as possibilidades competitivas do presidente candidato, embora eventos como esse, de natureza sectária, alimentem muito mais as perspectivas de Bolsonaro, se afinal vencido, manter-se como o líder reacionário de uma oposição agressiva num Brasil com a economia como legada por Guedes.

Mesmo o governo nada tendo planejado para o 7 de Setembro de 2022, nada senão a necroviagem do coração imperial, nunca saímos do 7 de Setembro de 2021. Bolsonaro nos pauta. Levou a Corte constitucional para a briga de rua.

O país refém de há um ano. Preso à memória de um discurso para o confronto, antirrepublicano: o do mito, eleito por dezenas de milhões, que não consegue governar, minado pelo establishment que o Supremo encarna.

O amanhã: será pior?


Ninguém pode negar que estão postas as condições para o exercício da violência. A física. Refiro-me ao que pode haver no Rio de Janeiro. Menos de um mês até as eleições. Milhares às ruas, muitos armados — armadas também as forças de segurança. Exaltados os ânimos. A palavra resulta. A pregação para o choque é diária. São muitos também os tornados inimigos; os jurados como inimigos. Bolsonaro cultiva a segmentação. É estratégia. Estarão lá os CACs, por exemplo.

Considero que as autoridades locais ainda não olharam com atenção ao que se projeta para Copacabana, especialmente desde que cancelada a parada militar no Centro. Por que foi cancelada? Para quê?

São muitas as camadas de expectativa, para o que pesa a intensificação da atividade militante dos militares, sobretudo a partir da infiltração no TSE e das progressivas demandas — provocadoras de desconfianças — ao tribunal. Terá havido acordo com Alexandre de Moraes? A grande questão: como se comportará Bolsonaro?

É atroz que seja esse o horizonte; que nos tenhamos encurtado tanto. Mas assim é.

Em 2022, aos 200 anos da Independência, soma-se à exploração fetichista da efeméride o fato de estarmos — repito — a menos de um mês das eleições. Há um ano, o golpismo estava em outro tom, acima, mais acirrado. Essa é a leitura otimista. (Teria havido acordo com Moraes? Os tempos são prósperos para os conspirativos.) Prefiro a hipótese de que, sob um 7 de Setembro permanente, tenhamos nos acostumado à barbárie.

Independentemente do caráter golpista das manifestações de amanhã, teremos — isto já está dado — um ato de campanha eleitoral que instrumentalizará órgãos do Estado. No caso, as Forças Armadas. Ostensivo abuso de poder. Algo gravíssimo por si só.

Bolsonaro pode baixar a pressão. Pode, circunstancialmente, desviar sua artilharia a outro inimigo artificial. Pode terceirizar os ataques ao STF para aliados. Tudo é possível. Objetivamente, o que temos: o presidente convidou as Forças para compor, Independência como escada, um lance por sua reeleição — e elas aceitaram.

A grande questão — como se comportará Bolsonaro? — importa menos. (Se não morder amanhã, morderá depois — e sempre.) Importa mais a apreensão. Essa mobilização que tensiona. O presidente, gerador constante de instabilidades, é imprevisível. Imprevisibilidade a que se soma a incerteza sobre a organização do que ocorrerá em Copacabana. Ninguém sabe como será; até onde vão as participações militares. Conjunto de incertezas — de desorganizações — proposital.

Na última sexta, o Ministério Público Federal enviou ao Comando Militar do Leste, ao 1º Distrito Naval e ao 3º Comando Aéreo Regional pedidos de informação sobre que providências tomaram para impedir que o eventos militares em função da Independência se confundam com a atividade político-eleitoral de Bolsonaro. Quais? A Independência está instrumentalizada. A ver a quanto estarão instrumentalizados os militares.

O desenho da coisa, pelos agitadores bolsonaristas, é para que confusão haja mesmo. Ninguém, até agora, delimitou fronteiras. Quer-se bagunça. O presidente desfilará em motociata, desde o Flamengo até palco montado perto do Forte de Copacabana. Óbvio investimento numa fotografia híbrida, de arrastão: a imprevisibilidade forjada induzindo trânsitos que misturem civis e militares no comício de Bolsonaro. Convite fácil ao imponderável.

Pensamento do Dia

 


A pobreza da independência

Amanhã, o Brasil comemora 200 anos de nação independente, sendo campeão de desigualdade, com 33 milhões de pessoas famintas e mais de 100 milhões com alimentação deficiente, cerca de 13 milhões de analfabetos — 25% da população pobre. A maioria é de raça negra e vive na região Nordeste. Esse é o maior fracasso de nossos 200 anos: a persistência da pobreza, apesar do êxito na economia que nos colocou entre as 10 nações mais ricas e o maior exportador de alimentos no mundo.

Desde 1822, tivemos dois imperadores, 38 presidentes, cerca de 10 mil parlamentares, milhares de intelectuais, mas a pobreza continua porque não desperta sentimento político de solidariedade, nem entendimento conceitual correto. A insensibilidade dos dirigentes em relação ao sofrimento dos pobres e a lógica equivocada sobre como nossos intelectuais explicam e propõem como superar a pobreza, explicam a pobreza da independência. O problema está no coração dos políticos e na mente de seus assessores: os primeiros não sofrem por causa da pobreza, os outros não entendem a real dimensão da pobreza, as causas e os meios para superá-la. A pobreza foi sequestrada pela elite no poder e pelo pensamento econômico. Não é vista como problema fundamental a ser enfrentado, e acredita-se que o crescimento da economia elimina a pobreza ao distribuir a renda ampliada.


Da mesma forma que, por 350 anos, a minoria branca e livre não se importou com os escravos, nem entendeu a importância da abolição para o país, há 135 anos, as classes privilegiadas aceitam com naturalidade o abandono de brasileiros na exclusão social da pobreza. Se os abolicionistas pensassem como economistas, a escravidão existiria até hoje, esperando o crescimento econômico. A escravidão foi abolida ao ser tratada como questão ética. É assim que a pobreza deve ser tratada. A superação da pobreza vai exigir que também seja tratada como imoral, uma vergonha a ser abolida.

Ao mesmo tempo, será preciso mudar o enfoque técnico de como é enfrentada. A principal causa da pobreza é a pobreza no entendimento de sua causa. A pobreza não decorre da falta de crescimento e renda na economia, mas por falta de comida, moradia, água, esgoto, atendimento médico, transporte urbano, escola, segurança. Desses itens, apenas comida e transporte dependem da renda pessoal, o resto exige políticas sociais e serviços públicos do Estado. Para solucionar a questão da pobreza, é preciso perceber que, como a escravidão, ela afeta não apenas os pobres, mas amarra toda a sociedade.

Depois de 200 anos, a independência precisa criar o que Joaquim Nabuco chamou, no século 19, de "instinto nacional" pela erradicação da escravidão. Agora, pela superação da pobreza com vontade e missão nacionais, e com o entendimento correto das políticas sociais e dos serviços públicos a serem ofertados a todos, com uma estratégia que assegure a cada um o que precisa para sair da pobreza. Entre eles, o mais importante é a educação de qualidade para todos. A sua qualidade aumenta a produtividade e o tamanho da renda nacional; a equidade para todas as crianças permite distribuir a renda, conforme o talento e o poder de pressão das massas pobres para obterem novos benefícios. Educação de qualidade para todos quebra o círculo vicioso que caracteriza os 200 anos de independência omissa diante da pobreza, tanto quanto foi diante da escravidão.

A pobreza de um pobre decorre da falta do essencial para sua sobrevivência plena. A pobreza da própria pobreza está na falta de sentimento político solidário e de um conceito técnico correto para explicá-la e superá-la. Até hoje, não tivemos governo com propósito de assegurar a cada família o necessário para não ser pobre. A pobreza foi sequestrada pela economia, no lugar de a economia ser instrumento da estratégia de sua erradicação. E em consequência a economia seria dinamizada, porque a pobreza é uma das causas do estancamento do progresso econômico, social e civilizatório, tanto quanto foi a escravidão ao longo de 66 dos 200 anos de independência.

Os Estados Unidos colocaram a missão de chegar à Lua antes das comemorações dos 200 anos de sua independência, o Brasil precisa definir sua missão a "segunda abolição" para as primeiras décadas de nosso terceiro século que se inicia amanhã. Para tanto, precisa querer politicamente superar a pobreza e entender corretamente as causas e as estratégias para a superação. Ao tolerar a permanência da pobreza, nossa independência é pobre: faz pobre milhões de brasileiros e esbarra no progresso.

Na arena da praia, o segundo ato de 'O brado retumbante'

A um mês das eleições dadas como perdidas pelas pesquisas, resta ao bolsonarismo, em sua obsessão de virar a mesa, apelar para a encenação do segundo ato de “O brado retumbante” no 7 de setembro. A retórica de criação de um clima favorável ao golpe contra a democracia passou a concentrar suas forças nas comemorações do bicentenário da Independência, com desfile ostensivamente militarizado na orla de Copacabana. Será a última oportunidade para exibição pública dos fogos de artifício do arsenal golpista.

Coerente com a prática do governo e as ações de seus adeptos, o projeto bolsonarista visa falsear a realidade e intimidar o público, com a ostentação de aparato bélico exibicionista e dispendioso. Haverá salvas de tiros de canhão, parada naval e voos da esquadrilha da fumaça. No mesmo dia, usando um suporte massivo de vídeos espalhados nas redes, um coral repetirá a ameaça de que “Se precisar, iremos à guerra”.

Estarão armados para isso. Não se deve duvidar que armas poderão ser disparadas e “inimigos”, atingidos. Melhor ficar em casa neste feriado da quarta-feira, 7. O espetáculo foi programado pelas Forças Armadas para ter a fastidiosa duração de oito horas, com ocorrências em vários pontos da cidade. O presidente chegará de helicóptero para o encerramento solene do desfile na arena da praia, defronte ao Forte de Copacabana, de onde um dia saíram para o combate e a morte os 18 do Forte.

Ao final da tarde, hinos e cânticos serão entoados, numa cerimônia digna das celebrações organizadas pelos camisas negras italianos, grupo paramilitar fascista, fiéis seguidores de Benito Mussolini. Montados em suas motos, os Cavaleiros da Ordem do Mito aclamarão seu líder e repetirão com ele a palavra de ordem do dia: “Ditadura ou Morte”.

A reencenação farsesca em Copacabana do episódio da Independência, 200 anos depois, se dá no momento em que o ato original interpretado por dom Pedro 1º às margens do Ipiranga está sendo posto em revisão por historiadores brasileiros. Novos livros discutem o papel e o significado para a Independência do famoso “brado retumbante de um povo heroico”, que foi parar na letra do Hino Nacional.

O Imperador teve ali seu ponto culminante como sujeito da História, assim retratado na famosa tela Independência ou Morte!, de Pedro Américo, da qual o povo está ausente. O protagonismo de dom Pedro está em reavaliação pelos novos estudos. Não se trata de negar ao Imperador o alcance de seu gesto teatral, mas de retirá-lo do pedestal a que foi alçado pela literatura acadêmica conservadora.

A história da luta pela emancipação foi construída num processo longo e difícil, que começou antes e terminou depois do grito de dom Pedro em 1822, cercado por pequeno grupo de militares. Passou pela Conjuração Baiana, pela Revolução Pernambucana, revoltas influenciadas pelo iluminismo francês. Em seu caminho, marcado pela participação popular, pontilharam rebeliões violentas reprimidas pela Corte.

Esse é um dos pontos levantados por O sequestro da Independência, Cia. das Letras, de Carlos Lima Jr., Lilia M. Schwarcz e Lúcia Stumpf, que mostra como a iconografia produzida a respeito do ato contribuiu para forjar uma visão idealizada do processo de emancipação do Brasil de Portugal. Para os autores, o “sete de setembro” funciona como um mito fundacional, aquele que permite fazer as pazes com o passado, acomodar o presente e prever o futuro.

Em outro livro desse conjunto de obras questionadoras, Ideias em confronto: Embates pelo poder na Independência do Brasil (1808-1825), da Todavia, a professora Cecília Helena de Salles Oliveira também confronta essa visão. Numa passagem, conclui que a versão oficial da Independência, que teve no grito do Ipiranga de 1822 seu momento de apoteose, foi uma construção idealizada pelo príncipe herdeiro.

Político hábil, o Imperador deixou as contradições de lado para criar em seus discursos um recorte histórico favorável. A obra desvincula a Independência de um episódio específico e rechaça a tese do continuísmo pacífico. Cita estudos recentes que apontam mais de 50 mil mortos, entre militares e civis, nas batalhas pela independência, especialmente no Norte e Nordeste.

Diferentemente do que muitos de nós aprendemos nos primeiros estudos, a luta pela emancipação envolveu outros centros além do Rio e Lisboa, enfrentou a violência em manifestações locais, contou com a participação de mulheres e negros escravizados e ganhou corpo em meio a uma crise econômica e fiscal de grande magnitude.

Na minha mais remota lembrança do 7 de setembro, eu estou marchando ao lado dos meus colegas do Grupo Escolar Modelo, em Goiânia. Vestido com o uniforme de gala azul e branco, passamos ao lado do Coreto para fazer uma parada em frente ao Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica, ao som do repique da bateria. Meus inimigos declarados nessa parada militar não eram os portugueses, mas os alunos do rival Grupo Escolar Padrão, aquele de onde se “entrava burro e saía ladrão”. A rima galhofeira para o meu Grupo Modelo era de que “entrava burro e saía camelo”. A Independência não passava daquela imagem que eu vira na tela de Pedro Américo: o monarca montado eu seu cavalo, cercado por outros cavaleiros, levanta a espada acima da cabeça, num gesto simbólico de conclamação. Não ouvia, mas imaginava que ele estivesse gritando “Independência ou Morte”. Dois séculos depois, Bolsonaro quer transformar o 7 de setembro na arena de Copacabana num ato contra a democracia, ecoando o brado de “Ditadura ou Morte”.

Bandidagem com imunidade


O mundo não é ruim, só está mal frequentado
Luís Fernando Veríssimo

Presença feminina é sinal de vida na campanha

O papel das mulheres foi um tema de destaque no debate entre os candidatos. Isso me alegra. Nas eleições no Chile e na Colômbia, o assunto surgiu no contexto do programa da esquerda, que venceu.

Aqui no Brasil, além de sua inserção clássica na esquerda, a dignidade e a importância das mulheres foram defendidas por uma candidata de centro e outra de centro-direita.

Isso me leva a considerar que as coisas foram tão longe que hoje não se pode associar a sociedade patriarcal ao capitalismo. A abertura para o imenso potencial humano relegado pelo machismo pode enriquecer o próprio sistema.

As mulheres são a maioria do eleitorado. Mas foi uma pergunta da jornalista Vera Magalhães que desfechou o debate, repercutindo até no exterior. Bolsonaro respondeu com agressões.


O fato de o estopim ter vindo do jornalismo não me é estranho. Faz muito tempo que as mulheres têm papel decisivo na nossa profissão.

Digo por experiência pessoal. Trabalho há oito anos na televisão. Fui contratado por uma diretora geral da GloboNews. Ao longo de todos os anos, o departamento a que me vinculo foi sempre dirigido por mulheres.

Tive a sorte de ser pai de duas meninas. A primogênita guarda até hoje as fotos das primeiras manifestações de mulheres de que participou ainda menina, na década de 1980, quando fui candidato. A mais nova resolveu se aventurar num esporte, o surfe de ondas grandes, dominado pelos homens. Aos 14 anos, ela percebeu que as meninas ficavam na praia, enquanto os meninos surfavam. E perguntou:

— Tem de ser assim?

O Brasil já estava maduro para que o tema fosse para o topo da agenda. Bolsonaro percebe isso e reage com desespero. Tem mais medo da ascensão das mulheres que do próprio socialismo. Daí seu apego ao que chama de guerra cultural.

Essa não é a única novidade que pode movimentar a campanha. A questão ambiental, tão presente nas eleições americanas e europeias, não consegue abrir caminho. Um dos candidatos a mencionou com destaque, mas para afirmar apenas a importância do mercado. Há coisas que o mercado não pode fazer, como combater o desmatamento ilegal, retirar garimpeiros das áreas indígenas. São ações típicas de Estado e, ainda assim, a prática mostrou que elas precisam também de apoio social.

Na campanha, quase não se fala do racismo, tão presente em nossa vida cotidiana. Pouco se pergunta também. Nem de longe tem o peso que teve nas eleições americanas. Mas lá matam negros asfixiados, diria alguém. Mas no Brasil se mata do mesmo jeito, às vezes até com requintes, como explodir a bomba de gás no porta-malas da viatura, com um preso lá dentro.

Concordo com todos os que dizem que o problema mais urgente é a fome. No entanto não apenas o combate à fome, ao racismo, à misoginia, à destruição ambiental —tudo, enfim, poderia ser visto sob um novo ângulo: a articulação entre Estado, mercado e sociedade.

De um modo geral, uma campanha se faz com propostas e críticas aos adversários numa dosagem equilibrada. Bolsonaro deixa muitos flancos. Além de sua atuação terrível na pandemia, há todos os erros de seu governo e também os tropeços da vida pessoal. A família negociou 107 imóveis em 30 anos, pelo menos 51 com dinheiro vivo. Mais que uma família, é uma agência imobiliária.

Mas os anos sombrios podem ficar para trás, e seria muito interessante olhar um pouco para o mundo, em busca das ideias necessárias para a reconstrução.

Um país com maioria de mulheres, rico em recursos naturais, com chances de superar o racismo e de iniciar uma experiência de que nossos filhos e netos possam se orgulhar, é algo que está no horizonte das nossas possibilidades.

Não podemos deixar que Bolsonaro defina nosso padrão de felicidade, limitando-o apenas à sua derrota. Existe toda uma vida pela frente, quando ele se tornar apenas uma lembrança amarga na História.

A sensatez democrática

Como um político que defende o justiçamento de suspeitos, o fuzilamento de “30 mil compatriotas”, o assassinato de um presidente pacífico e democrático, a tortura como método inquisitório, o fim a democracia política, que sustenta que o erro da ditadura não foi torturar, mas foi “não matar”, que explicita publicamente a sua admiração a Hitler e debocha da tortura sofrida por uma mulher digna – que estava sendo retirada da Presidência –, como este político foi covardemente naturalizado pelo “establishment” neoliberal e pelas grandes cadeias de comunicação, depois de ter cometido e repetido muitos crimes bárbaros e ainda ter feito uma consciente propaganda genocida contra a vacinação?

Ortega y Gasset defendia a discutível tese de que “o homem é um animal para o qual só o supérfluo é necessário”, ou seja, as necessidades do homem não são “naturais”, mas artificiais e a técnica é sobretudo “a produção do supérfluo”. Certo ou errado, o discurso do filósofo aponta para as possibilidades da barbárie quando a técnica solta no espaço, sem o controle da ética e da sensatez, passa a reinar induzida pela loucura.

As violências e as ilegalidades cometidas pelo presidente Jair Bolsonaro começaram muito antes do seu governo. Foi um longo período em que ele protagonizou uma série de absurdas violações legais, capazes de chegar a uma parte significativa dos “dominados” e dos “dominantes” na hierarquia de classes da sociedade. Milhares de pessoas estavam à espera de um líder para solucionar as suas demandas mais urgentes, tanto no seio dos dominados como dos dominantes, pois queriam uma rápida resposta à letargia da democracia liberal, já considerada inepta tanto para resolver as suas carências mais imediatas, quanto para ter uma vida digna em segurança.


Os setores dominantes – médios e superiores – queriam uma resposta para a superação daquilo que entendiam como os entraves trabalhistas e tributários que, no seu sentimento, bloqueavam a acumulação ou impediam a sua sobrevivência nos mercados oligopolizados. Toda a população, todavia, sofria com o avanço da criminalidade e em vastas regiões metropolitanas o crime organizado já rivalizava com o Estado no controle dos territórios. Entre todas as questões, uma delas, a que atravessava todas as classes foi a “chave” para o sucesso dos métodos fascistas da extrema direita no fazer político. Tanto junto às camadas mais desprotegidas e deserdadas do povo, como entre setores mais ricos da população: a segurança pública.

Explico-me: a política, ao contrário das disputas entre os animais pelo território ou pela alimentação, é essencialmente uma mediação humana, que restringe a animalidade e a necessidade de extinção do adverso, para que sobreviva o mais forte. E ela exige rituais e instituições que obrigam os sujeitos políticos a tratarem do “todo”, sem cuidar rapidamente dos problemas imediatos de cada um dos indivíduos singulares, que nunca se consideram dentro de um coletivo indiferenciado, que seria parte do “interesse público”.

Desta forma, a aplicação de uma “política pública” de médio e longo prazo, que não atente para o imediato da vida comum, faz pensar que as pulsões mais duras da vida só possam ser respondidas “por fora” dos rituais democráticos. Suas complexidades e demoras geram nos seus destinatários um turbilhão de ansiedades e desconfianças, mormente quando os seus territórios antes elitizados, as universidades, os aeroportos, os espaços de lazer coletivo, as vias públicas já são lotadas de automóveis dos pobres.

Sobre estas consequências é que o espírito do fascismo, formalizado numa doutrina ou expandido através de mensagens de cunho moral dos meios de comunicação tradicionais e das redes digitais, é que o fascismo prosperou. O fim da política, o fim da democracia, a insistência que a corrupção é siamesa da política e outras aparentes beatitudes, que aproximam as pessoas da sua animalidade biológica ancestral, passaram a padronizar condutas, prometer soluções rápidas e uniformizar expectativas para tornar tudo mais simples e rápido: sem política e, portanto, sem corrupção.

Para que isso seja possível, é preciso acabar com as mediações que caracterizam a política e trabalhar, sem pudor, para a ter a morte como companheira de viagem para uma sociedade decente. Essa é a mensagem central do fascismo, que se ampara nos mitos e destrói a socialidade democrática. A vitória do pensamento mítico não contraria o senso comum, mas se ampara nele potencializando a “impressão” de que a superação da desgraça dos seres humanos não está na história, mas reside numa soma de erros cotidianos que são pervertidos pela política.

No senso comum, a ruptura dos limites entre a vida e a morte são aceitáveis quando o ambiente é de guerra e a segurança do indivíduo e do grupo familiar fica ao dispor do crime e da fome. O clima de guerra é o clima que naturaliza a morte de quem interrompe a ação do mito, que ordinariamente cultiva os seus transtornos mentais e a sua sociopatia no chamamento à extinção do inimigo e das instituições políticas, onde supostamente reside o abrigo do mal.

Quando Jair Bolsonaro passou a promover gestos e discursos necrófilos, cujo auge foi aceito na Sociedade Hebraica, na qual uma pequena parte de uma das comunidades mais martirizadas da história moderna – sob os protestos e o horror de sua maioria – o Capitão despontou como “mito” e venceu, consagrando, a partir dali, as mesmas técnicas e práticas políticas que promoveram o Holocausto. Não há mais adversários, só há inimigos a serem abatidos pelas armas.

A oposição sincera ao fascismo em nosso país poderia dar uma lição histórica de dignidade e sensatez democrática, aos malfeitores que querem continuar governando a nação, fazendo – uma semana antes do pleito – um grande acordo político de governança e governabilidade, derrotando Jair Bolsonaro no primeiro turno, unida em torno do nome mais forte para vencer e conduzir a nação ao destino democrático e social que o nosso povo merece. Está em tempo! É a sensatez democrática contra a política de morte do fascismo.

200 anos de Independência: história de uma promessa quebrada

Pode-se narrar a história do Brasil como o conto de uma enorme promessa. A história de uma nação que, mais do que qualquer outra, tinha os melhores pré-requisitos para ser pacífica, rica e próspera.

O Brasil possui imensas áreas férteis, milhares de rios, em parte gigantescos, a maior floresta tropical do mundo, uma colossal biodiversidade, quase 11 mil quilômetros de litorais, cinco zonas climáticas diferentes e abundantes recursos naturais. Ele tem uma população que dificilmente poderia ser mais diversificada, combinando as influências, experiências e aptidões de quatro continentes.

Por que, então – é a grande questão – o Brasil não foi capaz de cumprir sua grande promessa? Por que hoje cerca de 63 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza? Por que a insegurança alimentar aflige 125 milhões? Por que apenas 1% da população concentra 50% da renda nacional, e por que menos de 1% dos proprietários agrícolas possui 45% da área rural do país?

Por que quase não há afro-brasileiros em postos de liderança, embora mais da metade da população seja negra? E por que a cada ano são assassinados 50 mil cidadãos, ou seja, 130 por dia? O "país do futuro", que o escritor vienense Stefan Zweig tanto louvava em 1941, tendo reconhecido aqui um enorme potencial, ainda está à espera desse futuro, 200 anos após sua Independência.
Uma monarquia e defeitos permanentes


Ao nascer, em 1822, a nação brasileira já veio com um defeito: ao contrário das colônias hispanófonas da América Latina, não se transformou numa república, mas numa monarquia. O primeiro chefe de Estado foi o imperador Pedro 1º, originalmente príncipe herdeiro de Portugal.

Já desde o século 16 a economia do país se baseava na produção de açúcar no Nordeste. O cultivo era controlado por algumas poucas famílias que apoiavam a monarquia e não tinham interesse em mudanças. A corrida do ouro do século 18 levaria mais tarde à ascensão da Região Sudeste e à transferência da capital colonial, de Salvador para o Rio de Janeiro.

As primeiras décadas do novo Estado transcorreram menos caóticas do que nas repúblicas hispanófonas do continente. No entanto, a popularidade de Dom Pedro caiu: para desagrado dos latifundiários, ele firmou tratados comerciais com a Inglaterra, comprometendo-se a dar fim à importação de escravos.

Porém, os comerciantes de escravos ignoraram a medida e continuaram seus negócios em regime mais ou menos clandestino. A elite branca considerava a exploração e repressão de outros seres humanos um direito seu, que justificava com argumentos racistas. Essa mentalidade permaneceu uma característica da elite brasileira, até hoje.

Em 1840, com apenas 15 anos, Dom Pedro de Alcântara assumiu os assuntos de governo, dando início a uma era que os historiadores consideram uma das mais frutíferas do Brasil. Pedro 2º era um monarca esclarecido: sério, modesto e intelectualmente curioso. Porém ele também travou a brutal guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, entre 1864 e 1870, matando mais da metade da população paraguaia.

Sob Dom Pedro 2º,  a economia nacional continuou se baseando em grandes plantações e trabalho escravo. Calcula-se que, dos cerca de 12 milhões de africanos forçados a cruzar o Oceano Atlântico a partir do século 16, a metade foi parar no Brasil: a rota marítima até aqui era mais curta, e os escravos, portanto, baratos.

Somente em 1888 foi proclamado o fim da escravidão no Brasil, o último país das Américas a abolir a prática. A decisão foi também expressão de um remanejamento do poder, pois a indústria açucareira do Nordeste perdera influência, enquanto a alta burguesia urbana e os plantadores de café do Sudeste exigiam ter mais voz ativa.

Chegou-se à conclusão de que a república combinava melhor com o capitalismo em ascensão. Nasceram novos ramos econômicos, sobretudo no Sudeste e no Sul, que empregavam muitos imigrantes europeus. Nos séculos 19 e 20, centenas de milhares de portugueses, italianos, espanhóis e alemães empobrecidos imigraram – sob condições iniciais totalmente diversas das dos escravos africanos.

Estes foram libertados – sem um capital inicial, formação, terras, empregos, sem sequer um pedido de desculpas. Desse modo, lançavam-se as bases para a continuação de sua dependência e exploração, com todos os problemas resultantes. Até hoje.

A escravidão é a grande vergonha do Brasil. Sua perpetuação sob outro nome e o que ela acarreta constituem um gigantesco empecilho para o país.

Ao longo de 200 anos, a ordem social vertical do Brasil mal se alterou, apesar de intermitentes impulsos de modernização – por exemplo, com a criação do Estado Novo sob Getúlio Vargas. Na década de 1950 o Brasil sediou a Copa do Mundo de Futebol, a petroleira estatal Petrobras foi fundada, e a nova capital, Brasília, inaugurada em 1960, transformou-se no símbolo da tão sonhada grandeza da nação.

Apenas quatro anos mais tarde os militares acabariam com o sonho: em 1º de abril de 1964 os generais deram um golpe de Estado, com respaldo dos Estados Unidos e alegando como justificativa atividades comunistas no país.

Nos 21 anos da ditadura militar, segundo a Comissão Nacional da Verdade, foram assassinados 434 presos políticos, assim como 8.500 indígenas; e dezenas de milhares foram presos e torturados. Esses crimes nunca foram investigados judicialmente, e este é um dos motivos por que até hoje a política brasileira se encontra sob a influência negativa dos militares.

Nos primeiros anos após a redemocratização, contudo, ficou mais uma vez óbvio um problema ancestral do Brasil, que fora varrido para debaixo do tapete durante a ditadura: a corrupção. Também ela é primordialmente um problema das classes mais altas, com acesso a verbas públicas que aparentemente consideram normal desviar.

Apesar de todas as dificuldades, o Brasil possui uma tremenda força cultural, magia e criatividade, seja na música, nas artes plásticas ou na literatura. Ela vem sobretudo de baixo, das comunidades, da periferia, do Brasil profundo, de suas subculturas e da resiliência de seu povo.

É o Brasil que resiste. Euclides da Cunha conta sobre ele em sua obra-prima Os Sertões; assim como João Ubaldo Ribeiro no épico Viva o povo brasileiro, ou Itamar Vieira Júnior em Torto Arado. Eles sempre tratam também do abismo entre a cidade e o campo, dos "dois Brasis" que existem até hoje.

O sentimento de que o Brasil deveria finalmente se tornar mais justo colocou no poder, no começo do século 21, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda. O ex-sindicalista implementou programas de combate à pobreza, o cruel flagelo da nação. Foram anos de crescimento econômico.

A seguir, porém, veio o tombo: o país resvalou para uma crise econômica, acompanhada por um gigantesco escândalo de corrupção em torno da Petrobras. Seguiram-se uma crise política, uma social e uma moral.

Crises são sempre tempos bons para os extremistas, e em 2018 o forasteiro político de ultradireita Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Ele representa um retrocesso, começou a demolir o Estado e a cortar maciçamente as verbas para educação, cultura e, sobretudo, proteção ambiental.

A destruição de um dos maiores tesouros nacionais, a Floresta Amazônica, se acelerou ainda mais durante o mandato de Bolsonaro. Além disso, ele trouxe os militares de volta ao aparato estatal e deu poder às Igrejas evangélicas ultraconservadoras, que há décadas prosseguem com sua ascensão desenfreada.

Nos 200 anos de sua Independência, o Brasil se encontra mais uma vez diante de uma encruzilhada: tornar-se mais moderno, mais justo, e finalmente ativar seu potencial para o bem de todos; ou retroceder ainda mais para um obscuro passado.