A ciência na nossa época tem funções sociais, econômicas e políticas, e por mais distante que o próprio trabalho possa estar da aplicação técnica, é um elo na cadeia de ações e decisões que determinam o destino da raça humana.
Nossa esperança se baseia na união de dois poderes espirituais: a consciência moral da inaceitabilidade de uma guerra degenerada no assassinato em massa dos indefesos e o conhecimento racional da incompatibilidade da guerra tecnológica com a sobrevivência da raça humanaMax Born
Ao voltar para casa no início da semana, vi um adesivo verde-amarelo no vidro de trás de um carro de preço médio, longe de ser luxuoso. Aproximei-me no sinal e li: “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Fiquei espantado com a novidade no trânsito. A frase, no estilo da antiga TFP (Tradição, Família e Propriedade), identifica o motorista com o famigerado Jair Bolsonaro. No domingo, uma motociata em apoio ao ex-capitão passou pela Conde de Bonfim, na Tijuca, entre gritos de protesto (Fora Bolsonaro!) e também de apoio. No andar de baixo do meu prédio, uma vizinha berrou: “Deus está com Bolsonaro!”. Não sou de bater-boca, mas rebati na hora: “Não seja herege. Deus não vota!”. E fez-se silêncio.

Fiz essa introdução porque me espanta a desenvoltura com que a primeira-dama Michelle Bolsonaro anda por aí com seu discurso messiânico — dizem que é pentecostal — misturando política com religião. Tudo começou no lançamento da candidatura do marido, no Maracanãzinho, quando ela afirmou, entre dezenas de améns e exaltações ao Senhor, que Bolsonaro “é o escolhido de Deus para governar o Brasil”.
Segundo ela,“Deus tem promessas para o Brasil e todas as promessas irão se cumprir. Enquanto existir esse joelhinho aqui, as promessas de Deus irão se cumprir”. Em meio às demonstrações de fé e religiosidade, Michelle só não nos revelou quando se deu sua conversa com Deus a respeito da política brasileira. E muito menos forneceu maiores detalhes sobre a declaração de voto do todo-poderoso. Vai ver que ela está ouvindo vozes por aí.
Nos últimos dias Michelle prosseguiu com sua pregação radical e enviezada. Numa madrugada, levou grupo de amigos e amigas para benzer o Palácio do Planalto. E no domingo, diante culto evangélico em Belo Horizonte, afirmou que antes do governo Bolsonaro, o Planalto era “consagrado a demônios”. Disse ela: “Podem me chamar de fanática, podem me chamar de louca. Eu vou continuar louvando nosso Deus. Vou continuar orando (…) porque, por muitos anos, por muito tempo, aquele lugar foi consagrado a demônios. Planalto consagrado a demônios. E, hoje, consagrado ao Senhor Jesus”.
Cá entre nós, ou Michelle Bolsonaro é ingênua ou está enlouquecida mesmo. Seu discurso bate de frente com a realidade e com a própria fé cristã. Como sabem, mesmo os que não acreditam em Deus, uma das peças mais belas no Novo Testamento é o Sermão das Montanhas de Jesus Cristo. Lá está dito para quem tem ouvidos para ouvir: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”.
Portanto, um imenso fosso separa as ações (ou a inação) de Bolsonaro do que está escrito no Evangelho. Bolsonaro prega o ódio e é impiedoso. Jamais mostrou um pingo de solidariedade aos milhões de brasileiros e brasileiras que têm fome e sede de justiça. Jamais pisou num hospital para consolar doentes acometidos pela Covid-19. Em seu mandato, jamais pisou numa comunidade ou num bairro de periferia. Bolsonaro é o antipovo. Não tem nada a ver com a justiça e a liberdade. Sua visão de família é misógina e ultraconservadora. Seu patriotismo é o do último refúgio dos canalhas, como disse Samuel Johnson.
Ontem, Michelle voltou a atacar o ex-presidente Lula por ter participado de cerimônia de uma religião de matriz africana. Compartilhou o vídeo e comentou: “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não!”. Novamente, mostrou que anda muito confusa. Ninguém criticou a primeira-dama por “falar de Deus”. Inaceitável é o fato de ela atribuir ao todo-poderoso preferência pela candidatura de seu inominável marido. Mas, desta vez, ela recebeu resposta à altura da socióloga Rosângela da Silva, a Janja, mulher do ex-presidente Lula. Nas redes sociais, Janja lembrou a Michelle que “Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, respeito”. A Frente Inter-Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns também pediu que Michelle “se retrate dentro dos princípios do amor ao próximo que afirma professar”.
Ao misturar alhos com bugalhos e falar de visões e demônios, Michelle Bolsonaro parece mesmo fora de si. Fanática ou louca, como ela mesmo diz. Fico aqui pensando em Lady Macbeth, quando viu o reinado do marido chegar ao fim. Vendo fantasmas dos inimigos mortos pelo usurpador, ela enlouqueceu. Mas eu não desejo o mesmo final trágico para Michelle. Espero, sinceramente, que ela tenha saúde para acompanhar a tarefa árdua de reconstruir o Brasil após o terrível mandato do seu marido. O ex-presidente Lula terá um grande desafio pela frente. Repor o Brasil nos eixos vai exigir energia e tempo. Amém!
Por decreto, o presidente Jair Bolsonaro estipulou, no início de agosto, que os beneficiários do Auxílio Brasil podem receber em forma de crédito 40% dos pagamentos a que têm direito.
Quer dizer: quem, a partir de agosto, tem direito a R$ 600 de auxílio mensal já pode, por exemplo, requerer a transferência de R$ 3 mil. Nos centros das cidades brasileiras, há meses as financeiras vêm cadastrando beneficiários para que eles tenham acesso rápido ao seu dinheiro.
Poucos dentre os beneficiários do auxílio compreendem no que estão se metendo: dependendo do plano oferecido, terão que pagar entre 80% e 100% de juros ao ano. Ou seja, ao final de um ano, o valor final da dívida já pode alcançar o dobro do que foi emprestado.
As amortizações serão descontadas de suas parcelas futuras: em vez de R$ 600, até o fim do ano receberão mensalmente apenas R$ 360. A partir de janeiro de 2023, quando o Auxílio deve baixar para R$ 400 por mês, e, portanto, só R$ 160 serão consignáveis.
Já em março, o governo federal possibilitara aos receptores do Benefício de Prestação Continuada (BPC) penhorar seus pagamentos futuros em troca de um empréstimo imediato. O Ministério da Economia justifica essas possibilidades ampliadas de crédito para os mais pobres da sociedade com o retrocesso dos rendimentos desencadeado pelas "turbulências nos mercados internacionais".
"Auxílio" que leva à falência
Está claro que, com esse acesso ao crédito, o governo tenciona propiciar um aumento do consumo antes das eleições e assim melhorar o clima econômico – a fim de convencer os cidadãos a votarem a favor de mais um mandato presidencial para Bolsonaro.
É cínico o governo colocar o fardo desse programa conjuntural nas costas dos mais pobres. Pois desde 2005 os brasileiros nunca estiveram tão endividados: no momento eles já empregam mais da metade de sua renda para pagar juros e amortizações de créditos assumidos.
É provável que as medidas atuais levem milhões de brasileiros à falência. Pois quem até agora não conseguiu assegurar uma aposentadoria ou renda mínima, já depende de cada real da Previdência Social. Se os pobres entregarem a metade de seus salários às financeiras, não sobrará muito para eles. O provável resultado será mais miséria.
Trata-se de uma reversão cínica do conceito básico do crédito consignado. Em si, ele é uma ideia bastante sensata, que possibilitaria o fechamento de créditos sobretudo para quem recebe aposentadoria do funcionalismo público, mas também pensão do INSS em caráter vitalício. Do ponto de vista dos bancos, eles são bons devedores, já que as amortizações são descontadas diretamente de suas pensões ou aposentadorias. O risco é menor para os bancos, permitindo-lhes cobrar juros mais baixos.
No caso de uma ajuda social como o Auxílio Brasil, que o governo estabelece por motivos políticos, os bancos encaram um risco alto, pois em 2023 o novo governo pode reduzir ou eliminar o programa. Seja como for, não há uma garantia vitalícia.
As grandes instituições privadas, como o Itaú e o Bradesco, já anunciaram que não oferecerão crédito para quem recebe ajuda social. Para os muitos bancos menores, entretanto, a medida governamental é altamente bem-vinda, aumentando seus seus lucros em tempos de endividamento alto e economia estagnada.
O Moody's Investors Service avalia: "De um modo geral, o aumento das margens de consignação tem uma implicação positiva para os bancos brasileiros, estimulando o crescimento de linhas de menor risco e taxa de juros menores."
Infelizmente não há agência de classificação de risco para alertar os pobres do Brasil a não pedirem crédito.
Há certas histórias que ouvimos desde crianças. Têm aquelas que servem para nos assustar como a do “homem do saco” ou a da “loira do banheiro”; as que visam promover a esperança, como a de que vivemos no país do futuro ou, outra similar, a de que o Brasil é o país de um “povo alegre e brincalhão”; têm ainda as histórias políticas, tal qual a do mito da democracia racial ou o conto institucional da reconciliação e do consenso.
Sem dúvida, uma dessas histórias que reúne todas as qualidades das descritas acima é a de que os militares vão dar um golpe.
Afinal, ao menos desde o fim da Ditadura se difunde, com vistas a assustar os sujeitos da democracia, que os militares ficaram insatisfeitos com tal ou qual medida de governo ou com determinado protesto e ameaçam intervir na vida pública, a despeito do que lhes impõe boa parte da Constituição. Também se utiliza a história do golpe junto com os militares para alavancar projetos conservadores de “transformação” do país, como o fez o bolsonarismo, com ênfase na véspera das eleições de 2018.
Mas, claro, a história do golpe das Forças Armadas contra a democracia é também um evento político tradicional. Para fundar a República do Brasil ocorreu o golpe de Estado comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, que viria a ser o seu primeiro governante. Em apoio ao ditador Getúlio Vargas, em 1937, as Forças Armadas fomentaram a primeira ditadura do século XX no país, o Estado Novo. (aliás, em 1945, por meio de um golpe dos militares, o mesmo governo foi deposto).

Após cerca de 18 anos tentando construir uma democracia, as Forças Armadas assumiram o papel central no Golpe de 1964, implantando a Ditadura Militar com o apoio das elites econômicas, das grandes empresas e do imperialismo norte-americano. Foram mais de duas décadas de um violento, sanguinário e corrupto regime governado por cinco generais do Exército brasileiro.
Para sair dessa enrascada, o país adota a “abertura lenta, gradual e segura” elaborada pelos próprios ditadores, ainda que um potente movimento social se expandisse em busca de uma democracia sem fome e com emprego e moradia para o povo.
Sem ter muito para onde correr, a nova democracia aceita esconder os militares das barbaridades produzidas na Ditadura e os protege no capítulo da Constituição que trata da segurança nacional e da segurança pública. A militarização desta segunda, entre outros fatores, seria nos anos 2000 a forma com que as instituições militares ganharam novamente a cena pública, espalhando o mito de proteção por meio da doutrina militar de segurança pública.
Primeiro com a missão de paz no Haiti, na qual se experimentou transformar a intervenção do Estado nos territórios vulneráveis para o modo da guerra. Com a nova lei de encarceramento do tráfico (2006) e a expansão da rede de presídios federais e dos estados como São Paulo e Minas Gerais, o país abriu as portas para os passos seguintes. Surgem as intervenções via as assustadoras Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e os acionamentos dos mecanismos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), na passagem da primeira para a segunda década deste século.
Sabem quando lodo do fundo do lago é o assentamento dos restos do que por ali já foi outra coisa, enterrando uma série de sobras e de seres em decomposição? Pois então, de certo modo, assim funcionou o trato da memória e da história da Ditadura e da presença dos militares na política.
Talvez por isso, quando foi instalada a Comissão Nacional da Verdade, os pactos com os cramulhões da Ditadura foram remexidos e vieram à tona por meio da ideologia do inimigo interno, sempre alimentada nos centros de poder das Forças Armadas. E se somou ao ressentimento de uma considerável parcela da população, com certo poder aquisitivo, que se remoía por ver pretos nas universidades, o povo pobre nos aeroportos, pessoas periféricas circulando em ambientes de consumo exclusivos do poder social branco. Além de todas as mudanças nos costumes heteronormativos, com avanços na pauta LGBTQIA+, na denúncia do feminicídio, do etnocídio e nas lutas antirracistas.
Era demais para o capitalismo colonial neoliberal. Foi como se o lulismo, ao mesmo passo em que garantia a manutenção de formas econômicas de exploração das desigualdades, tivesse liberado forças de transformação social que poderiam colocar em risco a ordem do capital.
O que o governo Bolsonaro expôs foi o fato evidente de que as Forças Armadas, enquanto instituição, têm um projeto de poder político no país. Sem a necessidade do clássico golpe dos tanques nas ruas (ainda que ele tenha sido mal encenado no 7 de setembro de 2021), os militares ocuparam setores estratégicos do Estado e promoveram a radicalidade das políticas de destruição dos direitos e das instâncias democráticas.
Recentemente a mídia divulgou a existência do documento “Projeto de Nação”, produzido por três institutos que reúnem oficiais das Forças Armadas e cujo lançamento contou com a presença maciça do setor, além do vice-presidente da República e do general chefe do Estado-Maior do Exército.
Trata-se de um plano de consolidação, a partir do governo militarizado, de uma administração do Estado paralela e permanente, autônoma em relação aos processos eleitorais e às normas de funcionamento das instituições democráticas. Isso tudo sem colocar tanques nas ruas. No programa de gestão das próximas décadas, evidencia-se o alinhamento com as políticas neoliberais: cobrança para utilização do SUS, fim da autonomia universitária, ocupação militar da Amazônia, entre outras medidas.
Há ainda a proposta de criação do chamado Centro de Governo (CDG), algo semelhante com o que tentaram recentemente fazer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), colocando as estruturas dos ministérios e das relações com os outros centros de poder (Legislativo e Judiciário) sob a tutela de militares.
O projeto se soma ao investimento na lógica da guerra, com as UPPs, intervenções, fortalecimento do mundo das armas, aumento do poder de atuação das polícias militares, aumento do sistema prisional e liberação do “excludente de ilicitude” para os agentes de segurança agirem sob o arrepio da Constituição. Junto a essas medidas, consolida-se o discurso de legitimação, com a guerra ao tráfico, a guerra contra a fome, a guerra contra a criminalidade, entre outras que se enquadram no modelo global da guerra pela paz e da guerra contra o terror (temos até mesmo a guerra contra o vírus, que liberou uma série de mecanismos de exceção nos diversos modelos de Estados de Direito).
Se todas essas histórias assustadoras, ficcionais e políticas acima fizerem um mínimo de sentido, somos forçados a ver aquilo que se mostra na ponta de nossos narizes. Sim, um cheiro que não é bom, mas que temos dificuldade para saber de onde vem. Contudo, temos a certeza de que há algo de podre.
Dessa forma, me parece que não se trata de um grupo de militares alinhado com o capitão e meia dúzia de generais beirando a aposentadoria e que se desgarraram do século XX ditatorial de nossa história. É um projeto neoliberal e da guerra colonial, em que o pacto racista e de morte de uma aristocracia estatal e burguesa se une ao modelo global do capitalismo de mercado.
O projeto se refere à estratégia de uma institucionalidade do Estado elaborada dentro da doutrina de segurança nacional, atualizada no modelo do Estado de Direito e que sai do ocaso da Ditadura sem sofrer modificações.
Michelle Bolsonaro deveria tomar um gancho nas redes sociais. Mas, assim como fake news, intolerância religiosa parece também não ser um problema para as plataformas. Dona Micheque, como ficou conhecida por causa dos R$ 89 mil depositados em sua conta por Fabrício Queiroz, relacionou um ritual de candomblé a "trevas".
No vídeo em que Lula aparece com lideranças religiosas, a vereadora Sonaira Fernandes diz que o ex-presidente "entregou sua alma para vencer a eleição". Dona Micheque pergunta se "isso pode". É uma pergunta retórica, a primeira-dama sabe ou é preconceito. Pode. O Brasil é laico, tão laico que pode até filial da Igreja Satânica, que tem sede em Massachussetts e foi criada menos por adoração ao diabo e mais para provocar gente intolerante feito Michelle.

Dias atrás ela havia dito que o Planalto era "consagrado a demônios". Ainda que Michel Temer pareça uma reencarnação do Drácula e tenha feito conchavos com gente da pior espécie, é um exagero. Bolsonaro entregou a alma e o cartão de crédito dos brasileiros ao centrão e continua posando de cristão.
O presidente quer Michelle em campo para diminuir sua rejeição entre o eleitorado feminino. Só se for entre o eleitorado feminino evangélico. Em poucas aparições, a primeira-dama mostrou que só quer conversa com gente que reza a mesma reza. Tal qual Bolsonaro, que continua em campanha para os mesmos convertidos de sempre, Michelle só tem um argumento para a reeleição do cônjuge: Deus quer.
Que Deus é esse? Trevas é rachadinha, amizade com miliciano, gente com fome, briga que acaba em morte, orçamento secreto, quase 700 mil mortos pela Covid, exaltação ao jet ski, motociata, ataques ao sistema eleitoral, piada homofóbica. Trevas é ter que escrever carta contra golpista em 2022. Trevas é o delinquente do Bolsonaro como presidente. Que a democracia nos ilumine.
Comprem suas armas, comprem suas armas. Isso também está na Bíblia. […] ‘Vendam suas capas e comprem espadas’
Jair Bolsonaro
Quantas palavras de baixo calão, referências homofóbicas, piadas misóginas e menções racistas não saem todos os dias da boca de Bolsonaro em dissonância com a imagem que ele tenta vender de chefe de família exemplar, defensor dos bons costumes, religioso ao ponto de ter sido batizado nas águas do rio Jordão, em Israel.
Local de milagres, o rio Jordão foi cenário para diversas histórias da narrativa bíblica. Ali, Bolsonaro, em 2016, quando já plantava as sementes de sua futura candidatura a presidente, foi batizado pelo pastor Everaldo, então presidente nacional do PSC, partido ao qual ele era filiado. O pastor foi preso depois por corrupção.

O que causa perplexidade é que condutores do rebanho evangélico, a parcela mais fiel do eleitorado de Bolsonaro, responsável pelo segundo lugar que ele ocupa nas pesquisas de intenção de voto, não o censurem por mais que ele se renda aos seus instintos mais primitivos. Nessas ocasiões, fazem de conta que não o escutam.
A religião evangélica está repleta de pastores picaretas, apenas interessados em enriquecer, que acenam com uma vaga no céu em troca do dinheiro alheio. Mas não dá para medir por seu comportamento falso e criminoso a sinceridade da fé que move os que lhe dão ouvidos e acreditam em suas palavras.
Disso eles se valem para construir fortunas; disso se valem também Bolsonaro e seus filhos para se manter no Poder, e prosperar nos diversos ramos que exploram com base nas posições conquistadas. Flávio gosta mais de votos e conforto; Eduardo, de armas, cassinos, cursos digitais. Jair Renan é um aprendiz.
Nascida em família de baixa renda, Michelle, a quarta mulher de Bolsonaro, o conheceu na Câmara como servidora pública. À época, Bolsonaro padecia do mal de ter sido traído. Entre tapas e beijos (isso é só força de expressão), os dois souberam atravessar anos difíceis até que as portas do céu se lhes abriram.
Depois de muitas vezes comer pão amargo (outra força de expressão), Michelle provou do mel (mais uma força de expressão) de tornar-se a primeira-dama de um dos maiores países do mundo. E quem prova do mel nunca mais quer abrir mão de bebê-lo. Se tiver que abandonar a discrição, é o preço a ser pago.
Na cerimônia de posse do marido, Michelle limitou-se a bancar sua porta-voz na linguagem de libras; fez sucesso e abandonou o palco. Preferia atuar a salvo do julgamento da plateia. Comparecia aos eventos que não podia faltar, e em mais de um deles a força que exercia sobre o marido foi notada.
Aos poucos, pôs a cabecinha de fora e mostrou que também podia mandar. Foi ela que pesou decisivamente na nomeação de André Mendonça para ministro do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro vetou a candidatura ao Senado de Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos; Michelle bancou-a.
É o contraponto perfeito ao marido – ele, um cafajeste travestido de presidente e com vocação de ditador; ela uma mulher que cultiva os bons modos e é religiosa de berço, não por conveniência. Uma parte dos seguidores de Bolsonaro admira suas canalhices. Uma parte maior, o apego fervoroso de Michelle a Deus.
Em maio último, na entrevista de Bolsonaro ao programa Alerta Nacional, da RedeTV, Michelle fez uma concessão à vulgaridade do marido. À pergunta sobre se ele estava “dando conta em casa”, respondeu que ele é “imbrochável”, “incomível” e “imorrível”. No lançamento da candidatura de Bolsonaro, foi outra Michelle:
“Quando o [Palácio do] Planalto se fecha, eu entro com meus intercessores e oro na cadeira dele. E eu declaro todos os dias: Jair Messias Bolsonaro, sê forte e corajoso, e não tema. Ele é o escolhido de Deus”.
De tempos em tempos, desisto do Brasil. Estou desistindo novamente agora. Além de renunciar às urnas, resolvi renunciar também ao nosso site. A partir de hoje, vou parar de escrever para a imprensa. No caso, O Antagonista e a Crusoé.
O plano é me dedicar a atividades mais gratificantes do ponto de vista intelectual e espiritual. De fato, pretendo passar meus dias deitado no sofá, tirando meleca do nariz. Quanto tempo isso vai durar? O trato é permanecer um ano de folga. Pode ser mais, pode ser menos. A única certeza é que vou me abster de comentar a campanha eleitoral, os debates na TV, o resultado do primeiro turno, a festa do vencedor, os nomes dos ministros, as tentativas de golpe, a compra dos parlamentares. Sinto-me revigorado só de ver essa lista.
É claro que há reciprocidade nisso. Eu desisti do Brasil, o Brasil desistiu de mim. Ninguém está disposto a ler pela trigésima-oitava vez os mesmos comentários sobre os mesmos assuntos. Eu já disse o que tinha a dizer. O afastamento, portanto, é consensual. O Brasil e eu enjoamos um do outro. Vou sair de mansinho e o leitor nem vai notar.
Estupidamente, eu havia prometido me atirar do campanário de São Marcos em caso de segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro. A aposentadoria precoce foi o jeitinho acovardado que arrumei para descumprir a promessa. É uma espécie de terceira via particular. Minha vida vai virar uma Simone Tebet: estreita, tediosa, supérflua e sem brilho, mas longe daquela gentalha fedorenta que há vinte anos embosteia meu dia a dia.
Diogo Mainardi
Com 86 anos, estou exatamente no futuro que duramente construí quando jovem. O presente promove futuros. Escolhas realizadas agora predispõem futuros. No nosso caso, um futuro glorioso aprisiona um Brasil de presentes vergonhosos.
Pois mesmo com um debate político inibido, e reacionariamente evitado, ainda ouvimos que todos os nossos problemas serão resolvidos num utópico amanhã, porque, hoje, resolvemos o meu ou (se você for dos nossos) o seu problema.
As questões mais agudas como o repensar a educação, como fez Anísio Teixeira, a gente deixa para os corajosos, os sinceros e os honestos do futuro. “No futuro tudo se resolve...” – porque, abandonando a ele as tarefas, lavamos as mãos.
O problema é que o futuro chegou com toda força, mas só agora nos damos conta que há nele um pesado passado. Um passado escravocrata, feito de uma elite traficante e de negros que eram máquinas.
Amaciamos o justo clamor do movimento negro falando que o problema é a pobreza. Mas os pobres podem melhorar de vida e nela “subir” virando ricos, como ocorre com os gloriosos atletas e artistas. Mas os pretos continuam pretos! O papel de preto não é negociável e, na maioria das circunstâncias, é agravante contra a aparência.

Ah! A famosa aparência ou o “jeito” de fulano ou sicrano que negocia a sua figura e a cor de pele. Uma razão estética que acompanha a oculta hierarquia nacional brasileira. O “jeito da pessoa” – a aparência (feio ou bonito, nervoso ou calmo...) – certamente ajuda. Nas sociedades que territorializaram etnias inventando a segregação – como demonstra claramente o caso dos EUA com seus bairros pobres de judeus, italianos, gregos, latinos e brasileiros – o “jeito” é impensável. O foco é na diferença mais expressiva e, na maioria dos casos, surgem o rosto, a cara e o cabelo, os lábios e o nariz que são inegociáveis. Por isso a negritude é um estigma que hoje, neste futuro inesperado, no qual dois candidatos esvaziam o jogo democrático debaixo de um esquemático e brasileiríssimo combate entre uma direita e uma esquerda, poucos enxergam que nenhum dos dois tem lealdade à democracia.
O futuro mágico é um mito destinado a manter o passado. É equivalente às exortações religiosas de paciência e sacrifício, porque o tempo passa e com isso as coisas mudam por si mesmas. O arianismo que iria branquear o Brasil estava no futuro. Hoje, quase na metade do século 21, nos deparamos com uma história política regressiva (e reacionária), negacionista e vazia de programas. Um aqui e agora marcado pelo “salva-se quem puder”. É esse o Brasil do futuro que minha geração esperava?
Na recente Marcha para Jesus em São Paulo, Bolsonaro fez uma fala sobre o cenário econômico atual e o que ele espera dos evangélicos. Ele disse: “Problemas todos nós temos; os materiais são passageiros. Os espirituais deveriam nos preocupar, sim”.
Trata-se de um princípio da pregação do cristianismo que baseia a purificação humana no sacrifício do indivíduo. Quanto maior o sofrimento, mais puro o cristão. Na maior abnegação, mais possibilidade de agradar a Deus.
O pensamento não é novo. É possível identificá-lo em vários momentos da História como forma de dominar o povo.
Ao usar este artifício, Bolsonaro tenta fazer o povo se ater nos fatores aparentemente espirituais e banaliza problemas práticos do dia-a-dia. Fome e desemprego remetem às coisas materiais e assim poderiam ser de menor importância, afinal, o evangelho é renúncia. Quem valoriza mais o alimento do que as coisas espirituais, estaria errado. É um materialista.
No momento em que a situação econômica leva o Brasil para o mapa da fome novamente, dizer a um pobre cristão que a comida é menos importante e que ele obterá mais valor espiritual se abdicar disso é a arma perfeita para controlar o grito por comida pela própria sobrevivência. É o jejum da população mais pobre para purificar a alma dos mais ricos.
Bolsonaro mexe com o sentimento mais profundo dos cristãos mais simples mas ele mesmo não almeja fazer sacrifício material por ninguém. Continua gastando dinheiro público indiscriminadamente, queimando litros de gasolina em motociatas enquanto o povo faminto luta para conseguir manter-se de pé, sem forças para caminhar.
As lideranças religiosas omitem propositalmente o valor que o próprio Jesus deu para a alimentação. Jesus jamais chamou comida de “coisas materiais” mas condenou o amor ao dinheiro.
Um dos milagres que Jesus fez mais de uma vez foi alimentar multidões. Além disso a bíblia está repleta de milagres relacionados ao alimento, resultantes da compaixão de Deus pelo povo faminto.
O discurso bolsonarista mantém o povo evangélico preso pela espiritualização falsa das pautas morais, pelas quais valeria a pena qualquer sacrifício mas a cada dia que passa fica mais difícil manter a atenção dos fiéis visto que na hora de orar, o prato está vazio na mesa.
Evangélicos estão colocados de forma cruel diante de um dilema: comida na mesa para viver aqui na terra ou a purificação para entrar no céu?Andressa Oliveira, integrante da coordenação estadual do Movimento Negro Evangélico no Rio de Janeiro
Sem tempo de respirar entre uma e outra das muitas mortes sem causa, no modo bangue-bangue, segue o Brasil. Aqui, civis têm mais e melhores armas do que as PMs todas.
Em São Paulo, no fim de semana, tiro na cabeça matou o campeão mundial de Jiu-jitsu, Leandro Lo, 33 anos. Estava em um clube. Assistia a um show.
O assassino? O tenente PM Henrique Otávio Velozo, 30 anos de vida, já condenado por agressão e desacato a um colega de farda – em 2017. Também numa casa noturna. Um dia, mataria.
Motivo para o assassinato do lutador? Precisa?
Houve discussão envolvendo uma garrafa de cerveja. Aconteceu troca de socos, o PM acabou imobilizado pelo lutador. Perdedor no embate físico, Velozo sacou a arma e atirou na cabeça de Leandro. Encerrou com chutes no corpo – caído e quase sem vida – de Leandro. Finalizou.
Foi embora. Como se tivesse esmagado um inseto.
No domingo, 7, em Belford Roxo, RJ, Edson Romário Figueiredo de Souza, 29 anos, separou briga do amigo Gabriel Fonseca, de 24 anos, com outras pessoas. Participavam de um evento. Ao saírem, Edson e Gabriel foram perseguidos pelos agressores e baleados. Edson morreu no local.
Quanto vale a vida de um brasileiro hoje?

No final dos anos noventa, entrevistei um matador do interior da Piauí. Profissional, tinha tabela de preços por trabalho. Morte de figurões – advogados, prefeitos e delegados – era o serviço mais caro.
Não me lembro dos valores exatos, mas não passavam de 10 mil. Um “troco” nos dias de hoje.
Os segundos na tabela de preços eram vereadores e radialistas. Morte de padre tinha preço sujeito a consulta.
Debochado e/ou para me assustar, fez questão de mencionar que o menor preço era “pra estrebuchar mulher”. Fazia até por menos de mil reais.
“Se a causa da encomenda for chifre rasteiro ou topete, faço até de graça. Só por diária da tocaia e da fuga”, detalhou.
“Chifre rasteiro” definia como traição ao marido com “qualquer pé de chinelo”. “Topete”, traduziu, era “enfrentação do macho”. Coisa de mulher causadeira, queixo duro com marido, pai ou patrão.
Se ainda vivo, o matador do Piauí – dos preços módicos – deve estar na fila do Auxílio Brasil.
No Brasil de hoje, mata-se sem intermediários. Nem causa. Rememorando linguagem antiga, mata-se pra desopilar o fígado. Por desfastio, por irritação momentânea. Por qualquer coisa.
Topetudas ou não, causadeiras ou não, mulheres seguem sendo carne barata no mercado da morte brasileiro. Morrem como formigas. Majoritariamente pelas mãos (e/ou pés) de alguém que um dia amaram.
A cada sete horas, acontece um feminicídio no Brasil – por bala, faca, porrada ou fogo. Não há dia sem manchetes sobre feminicídios. O que a lei define como assassinato de mulheres cometido em razão de gênero. Simplificando, foi morta por ser mulher. Talvez topetuda.
Em 2021, 56.090 mulheres foram mortas por serem mulheres.
Aqui e agora, violência e mortes não têm nada a ver com polarização política-ideológica. Crescem e resultam da fomentação ao desprezo e ao ódio pelo desigual.
Mulheres são a maioria dos desiguais. “Enfrentadeiras”, que ousam dizer não. Como se seu direito de dizer algum não fosse igual a todos os muitos direitos dos machos? Pela ousadia, morrem mais.
No Brasil, cada vez mais armado e violento, viver é negócio muito perigoso.
Num domingo de sol, mãe e filho, de mãos dadas, têm desejo de atravessar a rua e ir molhar os pés no mar. Há tempo e espaço para a travessia. Eles só não contam que lá vem uma motocicleta, pilotada por um jovem, louro e belo, de 25 anos.
A velocidade da moto é de 150 km/h. O belo louro Bruno Krupp nem tem habilitação para pilotar motos. Mas já tem no currículo de vida vários casos de estupro. Não respeita mulheres. Não aceita não. Um dia, mataria.
Bum! Lá se vai a vida do menino, João Gabriel, de 14 anos que, ali, só desejava por o pé na areia, apreciar o mar.
O assassino do campeão de jiu-jitsu, tenente PM, que não respeitava os colegas de farda, respeitaria outro qualquer?
Um dia mataria. Assim, por nada. Matou.
Os assassinos de Edson, lá em Belford Roxo, armados, iam deixar pra lá alguém que, de alguma forma, os irritou?
Mataram.
Violência é sempre resposta de quem não tem razão – na causa. Nem têm a humana capacidade de raciocinar, apreender e compreender.
A polarização mais perigosa que vivemos está entre os que têm capacidade de raciocinar, apreender e compreender para julgar e os que não alcançam essa capacidade – esses, armados e/ou motorizados, matam. Com tiro, faca, porrada. Ou moto.
Atenção à competitividade eleitoral de Bolsonaro. Está vivo. Nunca esteve morto. Semeia o caos com uma mão, investindo no 7 de Setembro permanente; e, com a outra, extrai os frutos da parceria que multiplica gabinetes paralelos e distribui codevasfs. Os frutos: o pacotão de estímulos por meio do qual despejará bilhões — o Tesouro bancando a campanha pela reeleição — até o final do ano. Concorre para a instabilidade, mas vai disputar os votos.
Se “é a economia, estúpido!”, o presidente faz — já fez — seu jogo. Contra a inflação, maquia a inflação — e contrata inflação mais duradoura.
Não há limites.
O orçamento secreto — expressão da sociedade entre o lirismo parlamentar e o Planalto — anaboliza a musculatura do sistema. O sistema — Supremo incluído, que não cumpre a missão constitucional de barrar a emenda do relator — trabalhando pelo anti-establishment. Agora é tarde. O anti-establishment virou sócio de Arthur Lira e Ciro Nogueira. O presidente, um autocrata, costurou capilaridade para si, Brasil adentro. Daí que seja estupefaciente a subestimação de suas chances em outubro. Escrevi a respeito em março. O governo sempre pode muito. Um sem limites, então.

E foi a um sem limites que o Parlamento ofereceu exceção à lei eleitoral. Licença para gastar, ao aterramento das regras fiscais. Bolsonaro vai crescer. Não sei até onde; não sei se suficientemente para vencer. Sei que crescerá. Nenhum incumbente, com a máquina que controla, promove tamanha derrama sem colher popularidade.
Não há limites.
O país tem um ministro da Economia cuja relevância — plantada por ele mesmo — estaria no que “não deixa fazerem”. É condição inaferível. A não ser que relatasse à sociedade o que não terá deixado passar. E que se note, para que não nos esqueçamos de que Paulo Guedes não exerce papel de controle externo. Está bem lá dentro. De modo que: não deixaria passar iniciativas espúrias de seus próprios pares, do presidente pelo qual opera. Quem serve — por tanto tempo — a uma gente capaz de propor encaminhamentos ainda piores do que os que prosperaram?
O que será mais torpe do que crédito consignado sobre o Auxílio Brasil?
O que Guedes impediu? Desde onde observo, tudo quanto veio passou; mas com artifício tipicamente bolsonarista: fica menos bárbara uma solução que se deixa para tomar à véspera, tanto mais se em benefício dos pobres. O ministro aprendeu a jogar com a forja chantagista do sentido de urgência. Arrumou R$ 60 bilhões — e a tunga crescerá — instrumentalizando a miséria; fatura em que consta a desoneração da gasolina para os ricos.
Não há limites.
Se você ainda duvida, olhe para a celebração de superávit em 2022. “O primeiro ano no azul desde 2013” — comemora-se. Um governo sem limites; que festeja resultado fiscal positivo ao mesmo tempo que empreende programa de gastos sem precedentes.
Não está para brincadeira uma turma que enche a boca para falar de superávit meses depois de haver formalizado o fim do teto de gastos. Guedes nem ruboriza. Fala, agora, em teto retrátil. Ele me lê. Está atrasado, porém. O teto era conversível quando da PEC dos Precatórios. Naquela época, toda vazada, ainda havia alguma cobertura a flexibilizar. Faz tempo. Foi o início do processo que resultaria — com a PEC Kamikaze — no destelhamento absoluto.
O ministro tem razão: não furarão mais o teto.
Não bastará a cara de pau. A turma aposta na desmemória. E aí talvez cole o embuste de comemorar contas no azul depois de rolados — pedalados — R$ 50 bilhões em precatórios. Aqui, não. Até eu faria gordura assim. Empurrando dívidas para frente. Bancando-me do produto da inflação que se quer combater. Antecipando tudo quanto pudesse em receitas. Lembro os lucros abusivos da Petrobras, consequência da política de paridade de preços. Um estupro! Mas eu quero. Me dá aqui. Superávit.
Não veio a brincar uma galera que se jacta de fabricar superávit enquanto promove gambiarras constitucionais para gastos ilimitados cuja fatura — informa o próprio governo — impedirá resultados fiscais positivos nos próximos anos. A turma que celebra exercício azul em 2022 é a mesma cuja porteira escancarada pela reeleição determina déficits em 2023 e 2024 — para começo de conversa. É o menor de nossos problemas.
A conta aumentará. O dinheiro abunda e escoa hoje. As receitas são extraordinárias. As contas vêm para ficar. Há muitas notas penduradas ao porvir. Mais virão. As receitas, obra das circunstâncias, logo se vão. Gastamos hoje. Nos endividamos hoje. A fatura permanecerá. Ecoará. Estamos nos encalacrando para financiar a campanha de Bolsonaro. Somos doadores compulsórios. Pagamos o Vale Alvorada para o mito.
Superávit na onda da PEC dos Precatórios e do imposto inflacionário, enquanto produz efeitos a PEC Kamikaze. Não há limites. Mas a plateia aplaudiu. É esquecida. Lembro o limite de Guedes: se mexessem no teto de gastos. Limite retrátil?
Antes de adquirirem seus privilégios de consumo, os ricos e as classes médias dos países desenvolvidos enriqueceram a sociedade onde viviam. Enriqueceram, desempobrecendo o país. Puderam ser ricos depois de distribuírem renda e os serviços básicos à população. Para isso, investiram em educação, ciência, tecnologia, inovação, competitividade para aumentar a produtividade e a renda per capita. No Brasil, desde seu início, a elite preferiu adquirir privilégios concentrando renda, sem esperar aumento na produtividade e na renda social. Escolheu o caminho de concentrar a pouca renda de muitos para dar renda elevada a poucos: a riqueza com pobreza.
Graças a essa concentração, apesar da baixa renda per capita do país, nossa minoria rica sempre teve padrões de consumo e de serviços superiores às elites dos países desenvolvidos. Dispõem de moradias luxuosas, em áreas urbanizadas com recursos negados aos pobres, que vivem sem água, nem tratamento de esgoto. Os filhos estudam em escolas especiais, a custos que vão até 30 vezes mais do que os gastos do setor público com as crianças pobres. A riqueza brasileira foi construída sobre a pobreza, da mesma forma que até 1888 era sobre a escravidão, substituída pela apartação.

Para manter a opção de formar riqueza concentrando renda, o Brasil precisou manter sua sociedade dividida: de um lado os ricos, quase sempre brancos, de outro, os pobres separados por muros, catracas, crachás, contas bancárias. Sobretudo em escolas separadas, para perpetuar o vicioso círculo da pobreza que passa de pai para filho. Essa opção não dura para sempre. A desigualdade já obriga os ricos brasileiros a morarem fora do Brasil — verdadeiro ou no exterior.
A minoria privilegiada brasileira está tão viciada em seus padrões de vida que não adianta pedir-lhe sacrifícios para melhorar a vida dos mais pobres. Ao contrário, cada vez que fica difícil manter a desigualdade, no lugar de distribuir, opta por concentrar mais. Para se proteger, prefere a prisão de ouro dos condomínios fechados, no lugar de pagar mais impostos para colocar saneamento nos bairros; escolhe gastar fortunas em escolas privadas dos filhos, em vez de apoiar a implantação de um sistema público gratuito para todos; aceita ficar horas presos no trânsito, a financiar e usar transporte público de qualidade. Adora andar de metrô na Europa, mas aqui investe na infraestrutura viária para seguir nos carros privados com vidro fumê.
É preciso ajudar os ricos para que não se afoguem no excesso de riqueza. Ajudá-los a salvar seus filhos isolados do Brasil em condomínios fechados, escolas especiais, shoppings comerciais, mentes egoístas e imediatistas; dependendo de seguranças ou obrigando-os a emigrar para o exterior, perdendo o país deles. A maneira de salvar os ricos é elevar as condições educacionais de todas as crianças e com isso aumentar a produtividade para gerar renda social elevada e distribuí-la, conforme o talento e o esforço de cada pessoa.
Ajudar os ricos é convencê-los de que, com menos privilégios exclusivos, poderiam viver melhor em um país educado e com boa distribuição de renda: uma riqueza sem pobreza no lugar da atual riqueza graças à pobreza. Não precisarão viver confinados, nem emigrar. Ajudar os ricos é convencê-los de que escola de qualidade apenas para seus filhos não enriquece o país, porque cada cérebro sacrificado é um capital perdido para todos os brasileiros. A salvação dos ricos exige elevar a renda social graças ao aumento da produtividade na economia e distribuí-la com justiça. O caminho é educação de base para todos.
O vício da elite, ao longo dos 500 anos de escravidão, desenvolvimentismo, império, república, democracia e ditadura impedem entender que a distribuição de renda e o investimento em educação, saúde, transporte público elevariam a qualidade de vida dos próprios ricos. A elite não será convertida, moral ou politicamente, a perder privilégios que há séculos a viciou e cegou. Prefere o suicídio, naufragando nas ruínas sociais de um país mergulhado na pobreza e na injustiça, para manter a insustentável riqueza que deslumbra no presente, mas asfixia o presente. É preciso ajudar os ricos a serem egoístas-inteligentes, buscarem sustentabilidade para a riqueza, fazendo-os perceberem que serão mais ricos na proporção que a pobreza diminui.
Por falar nos centenários de 2022 que passaram em branco por falta de espaço, tivemos, em 17 de abril, o de Max Nunes. Sim, o misto de médico e gênio do humor, criador da dupla Primo Rico e Primo Pobre (do programa “Balança Mas Não Cai”, de rádio e TV) e de vários personagens de Jô Soares. Tive a honra de organizar dois livros com as frases de Max: “Uma Pulga na Camisola” (1996) e “O Pescoço da Girafa” (97). Eis algumas.
“O dinheiro corrompe. Mas só quem não o tem.” “Duplicata é essa coisa que sempre vence. Nunca empata.” “Antes, a união fazia a força. Hoje, a União cobra os impostos e quem faz a força é você”. “Anda tudo tão caro que até quem desdenha não quer mais comprar.” “Mesmo com salário de fome, os professores do 1º grau não deixam de ir à escola. Mas é por causa da merenda.”

“Houve um tempo em que os animais falavam. Alguns continuam.” “Se Abel tivesse sido assassinado no Brasil, até hoje ninguém saberia que o criminoso foi Caim.” “Todo erro deve ser esquecido. Por isso, quando o povo erra a polícia passa a borracha.”
“O difícil de confundir alhos com bugalhos é que ninguém sabe o que são bugalhos.” “Há certas coisas na vida que a gente não pode deixar passar. Principalmente se for goleiro.” “A polícia descobriu 100 quilos de cocaína no aeroporto. A droga tinha sido colocada no nariz do avião.” “Manchete de jornal: ‘Incêndio na fábrica de sorvete! Em poucos minutos, o fogo lambeu tudo!’”
“No Brasil também existe pena de morte. Mas só para a vítima.” “Opinião é uma coisa que a gente dá e, às vezes, apanha.” “Com quantas mentiras se faz um desmentido?” “No dia em que o porte de armas for proibido para os militares, aí, sim, haverá paz.” “Na minha rua mora um general/ Cara de mau/ Como convém a todo general./ Ninguém sabe em que batalhas/ Ganhou a série de medalhas/ Que ostenta no peito varonil./ Também, pra que saber?/ Viva o Brasil!”.
O governo de Jair Bolsonaro opera em 2022 com o foco em medidas de curto prazo para melhorar a popularidade do presidente, não importando o efeito sobre a credibilidade das instituições fiscais do país. Iniciativas com horizonte de poucos meses terão impacto duradouro. Há reduções de impostos baseadas no pressuposto de que o aumento corrente de receitas será permanente, afetando a situação fiscal futura de Estados e municípios. Elevações de gastos previstas para vigorar apenas no segundo semestre devem se perenizar. Há ainda adiamento de despesas - caso dos precatórios - que poderão gerar uma bola de neve de dívidas nos próximos anos.
Algumas dessas medidas foram tomadas por meio de Propostas de Emenda à Constituição (PEC), banalizando um instrumento que deveria ser usado de modo criterioso. Para completar, iniciativas de estímulo à demanda ocorrem num ambiente em que o Banco Central (BC) se esforça para derrubar uma inflação que roda na casa dos dois dígitos há quase um ano. Com isso, os juros terão de ficar mais altos por mais tempo.

Um dos resultados dessa estratégia populista é turvar o cenário à frente. Em julho, o Indicador de Incerteza na Economia (IIE) da Fundação Getulio Vargas (IIE) subiu pelo terceiro mês seguido, atingindo 120,8 pontos, um nível historicamente elevado - números acima de 110 pontos são considerados altos.
Para o economista Livio Ribeiro, sócio da BRCG Consultoria, está em construção um quadro futuro recheado de dúvidas - nas receitas, nas despesas e nas regras fiscais gerais. Ele ressalta o aumento do custo médio do endividamento do governo. Nos 12 meses até junho, o custo médio da dívida pública federal ficou em 10,9% ao ano, bem acima dos 7,18% de junho de 2021.
“O perfil das receitas é perigoso”, adverte Ribeiro, também pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Há uma piora das perspectivas para os preços de commodities que ajudaram a engordar os cofres públicos, como petróleo e minério de ferro, dada a perda de fôlego da economia global.
O cardápio de medidas populistas patrocinadas pelo governo Bolsonaro é extenso. Os efeitos de algumas decisões serão sentidos muito além do segundo semestre, podendo atingir a situação estrutural das contas públicas. Um dos exemplos emblemáticos é o limite imposto aos Estados para cobrança do ICMS sobre itens como energia elétrica e combustíveis, para derrubar a inflação no curto prazo. Ribeiro diz que as mudanças no ICMS abrem um buraco potencial nas receitas de Estados e municípios de cerca de R$ 70 bilhões por ano.
“Está aberta uma crise federativa”, resume ele, lembrando que a lei aprovada pelo Congresso sobre o assunto é uma interferência federal num tributo estadual. A alta recente da arrecadação se deveu especialmente à inflação elevada e à alta dos preços de commodities, combinação que não deve se repetir em 2023. Num cenário de desaceleração global mais intensa, como a esperada daqui para frente, as perspectivas para as cotações de produtos primários não são das melhores, por exemplo. Nas contas de Ribeiro, uma queda de 10% dos preços em reais de petróleo e de minérios reduziria a arrecadação anual de União, Estados e municípios em R$ 42 bilhões.
Como haviam alertado especialistas em contas públicas, o limite imposto ao ICMS foi judicializado pelos Estados. São Paulo, Maranhão, Piauí e Alagoas conseguiram liminares no Supremo Tribunal Federal (STF) para compensarem a perda de receita com a redução do ICMS sobre esses itens, suspendendo o pagamento das prestações da dívida com a União.
A principal aposta do governo para reeleger Bolsonaro é a chamada PEC Kamikaze. A um custo de R$ 41,5 bilhões, que ficará fora do testo de gastos, a proposta elevou o valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, instituiu um auxílio aos caminhoneiros e uma ajuda aos taxistas e dobrou o vale gás. De cunho obviamente eleitoreiro, as medidas valem até o fim do ano, mas pelo menos o Auxílio Brasil de R$ 600 deve ser perenizado - tanto Bolsonaro quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já afirmaram que o valor será mantido em 2023.
O programa deve custar R$ 141,8 bilhões no ano que vem, considerando a manutenção do valor em R$ 600 e a incorporação de quem tem direito ao benefício e estava na fila, diz Ribeiro. É um montante R$ 52,7 bilhões maior que os R$ 89,1 bilhões do Auxílio Brasil original, com valor de R$ 400.
Ribeiro ressalta ainda um ponto que tem ficado em segundo plano: os esqueletos fiscais que serão deixados para os próximos anos. É o caso dos precatórios da União, cujo pagamento anual foi limitado por uma PEC aprovada no fim do ano passado. Com isso, a quitação de uma parcela significativa das sentenças judiciais é adiada para os anos seguintes.
O foco do governo está em iniciativas para tentar melhorar a popularidade de Bolsonaro, sem preocupação com o custo ou com as suas consequências. “Com tanta mudança de regra, perde-se a capacidade de antecipar”, afirma Ribeiro. “Esse é o grande problema. Como se planejar desse jeito?” Medidas tomadas de improviso aumentam a incerteza e dificultam a capacidade de planejamento na economia, o que prejudica em especial o investimento. Os estímulos de curto prazo poderão fazer a economia crescer algo entre 1,5% e 2% neste ano, mas para 2023 a desaceleração deve ser forte - Ribeiro projeta 1,5% em 2022 e 0,1% no ano que vem.
“Estamos vendendo o futuro”, diz ele, preocupado com o fato de os “anabolizantes de curto prazo” nublarem um debate importante: “Ao contrário do que o governo prega, não vemos fatores de dinamização estrutural da economia: estamos presos em uma armadilha de baixo crescimento”, afirma Ribeiro. Ele nota que o país não conta mais com o bônus demográfico, uma vez que a população em idade de trabalhar passou a crescer a um ritmo inferior ao da população total. Isso significa que se encerrou a fase mais favorável da estrutura etária do país ao crescimento. “Além disso, a acumulação de capital fixo é insuficiente, não somos bons em capital humano, ainda que se tenha melhorado um pouco, e temos baixa produtividade”, enumera Ribeiro, emendando uma pergunta incômoda e hoje sem resposta: “O que fará a economia brasileira crescer de forma sustentável?”
É a Humanidade que está se desfazendo ou são os meios de comunicação que se multiplicaram e se aperfeiçoaram, colocando-nos imediatamente a par de tudo o que está acontecendo no mundo? Num passado não muito distante, nós levávamos um certo tempo para saber o que se passava na Europa ou em qualquer outro continente desse planeta.
Das guerras mundiais que tanto marcaram o século XX nós sabíamos o que havia acontecido na semana passada. Agora acompanhamos ao vivo o reboliço do mar acabando com as cidades costeiras do Japão ou a invasão da Ucrânia pelo Exército russo de Putin. Não importa mais o país, em que continente, está tudo a nosso imediato alcance.

Como nunca vivemos essa experiência de intimidade com os acontecimentos, como eles nunca estavam a nosso alcance simultâneo, podíamos julgar seus motivos, a origem das coisas que aconteciam, sem precisar explicar a causa de tudo, sem maiores compromissos com isso. Acho que muitas vezes tivemos preguiça de consultar a ciência, inventamos bastante, sempre tomando por princípio o que podíamos interpretar magicamente. Ou em nome de uma ideologia que a tudo imobiliza.
Fico pensando em como os indígenas do continente americano tomaram conhecimento do que faziam ali os colonizadores europeus, o que esses significavam para aqueles. Ou, indo a mais antigamente ainda, como os guerreiros do Peloponeso explicavam a seus parceiros ignorantes a peste que assolava o campo de batalha helênico. E o que pensavam de nós, os homo sapiens vitoriosos, aqueles poucos e pobres hominídeos que sobraram dos massacres com que nossos ancestrais os eliminaram da face da Terra.
A vitória de uns sobre os outros não significava propriamente clara superioridade, mas certamente implicava um poder qualquer que o adversário não tinha. Com esse poder qualquer, a História do planeta acabou se fazendo, mesmo que desafiando a Justiça, o certo e o mais provável.
Como para isso não existe uma regra a ser respeitada nos limites dela mesma, cada um de nós faz o que quer ou torce por quem quiser. A Democracia não é o resultado de uma média, ela não se faz necessariamente em benefício dos valores de cada um, na soma deles para atender a todos.
A Democracia é apenas um princípio de conversa sem o qual não é possível acessar o espaço de uma vida que, no passado ou no futuro, desejamos entender e se possível viver. Todos os outros valores políticos podem mudar, se transformar em benefício dos heróis do presente. Menos a Democracia. Ela é uma só, sendo explicada por necessária pluralidade, sem cartilha.
Porque só nos livraremos do pesadelo se pudermos reimplantar no Brasil a Democracia, a partir do próximo mês de outubro.O que hoje no Brasil nos faz mal e nos faz sofrer é um pesadelo que nos foi imposto pelos inimigos da Democracia. Comandados por Jair Bolsonaro, nosso presidente legitimamente eleito (é isso que me faz temer!), estamos às vésperas de uma nova eleição que, se representa nossa oportunidade de redenção, pode ser também a confirmação de tudo o que não fizemos para melhorar o país. A nossa alegre angústia é que só acordaremos do pesadelo se formos capazes de nos proporcionar esse sentimento de verdadeira liberdade
Sendo a vitória da Democracia o nosso objetivo, essa meta, por mais usada que esteja, é muito mais transformadora, visa muito mais o nosso e o futuro do país do que qualquer outro objetivo político com o qual tentam nos acariciar. Não nos importa mais saber rapidamente o que acontece em toda parte, queremos é fazer acontecer a vida a cada um de nós. A felicidade não começa com o elogio da morte, mas com a saudação da vida.
Talvez já estivesse escrito que o psicanalista Tales Ab’Sáber iria buscar as raízes do país para fazer um retrato. Ele define seu mais novo livro como “uma viagem pela mentalidade escravista do Brasil nos primeiros anos da Independência”. Um estudo de como se formou a consciência nacional que possa responder a pergunta “Que país é esse?”. O autor recua no distante passado não só porque é um entusiasmado por História, mas também porque sabe o quanto a personalidade de cada um está enraizada no passado. Ir às raízes de uma pessoa, de uma família, de um povo, envolve as origens, a formação, mesmo sendo cada estudo diferente. O livro revela a genealogia da crueldade brasileira, tão escondida mas evidente nos elogios à tortura, e ao estupro.
Tales já publicou livros sobre os três últimos ex-presidentes, Lula, Dilma e Temer, além do livro “O sonhar restaurado”, vencedor de um Prêmio Jabuti em 2006. E, após muito estudar sobre a História brasileira, apresenta agora “O soldado antropofágico: escravidão e não pensamento no Brasil”, sobre o século XIX, logo após a Independência. Não é comum que um psicanalista tente entender um país, sabendo o quanto é difícil pensar um analisando ou a si mesmo. Tales não é um psicanalista comum – temos hoje vários psicanalistas criativos e implicados com o País –, pois tem um amplo espectro de estudos além da psicanálise, como arte, filosofia e história. O Brasil convive entre o pesadelo – escravidão, desigualdade social e violência – e um sonho de superação, um sonho de futuro que parece chegar em alguns momentos da História. Li sobre o pesadelo e o futuro também no impactante livro da amiga psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, que escreve sobre sua experiência pessoal e de suas analisandas: “A cor do inconsciente: significações do corpo negro”.

A escravidão que durou três séculos e meio foi um tema proibido, gerando um anti-intelectualismo onde se negou o racismo. Não se escrevia a respeito, e buscava-se ocultar, silenciar o sadismo e a maldade contra os negros, índios, propagando que aqui era o país do samba e do futebol. Foi na leitura pacienciosa do livro “O Rio de Janeiro como é” (1824-1826), do soldado alemão Carl Schlichthorst, que Tales foi aprendendo nos detalhes o gozo, o erotismo e a cultura descritos naqueles anos. Impossível entender que país é esse sem estudar os primeiros retratos do Brasil, que Tales Ab’Sáber fotografa a partir de livros como esse. É um retrato que se vê ao ler uma negra escravizada que dança, canta, recita e vende doces que encanta o soldado alemão. Poesia pura nas ruas do Rio em que convivem a pior das violências e o sonho de um paraíso. Esse livro foi um presente do pai de Tales, Aziz Nacib Ab’Sáber, geógrafo e ecologista, vencedor de prêmios nacionais e internacionais. Aziz passou ao filho sua paixão pela nação e os livros, daí ambos buscarem respostas à pergunta “Que país é esse?”.
Pode ser que o Brasil tenha uma doença crônica – três séculos e meio de escravidão tema central desse livro. Uma das tantas histórias que fui averiguar a partir da leitura é porque o Patrono da Independência – José Bonifácio de Andrade e Silva – foi exilado por seis anos, entre 1823 e 1829. O deputado da Constituinte era a favor da abolição da escravatura, pela reforma agrária, além de pôr limites nos poderes do Imperador Dom Pedro I. Integrava uma pequena elite do progresso que encontrou forte resistência até do Imperador, que fechou o Congresso e excluiu do poder José Bonifácio.
Um dos diagnósticos presentes no livro foi sintetizado por Luiz Felipe de Alencastro, um historiador referência para Tales e todos que estudam o País, que disse numa entrevista em 1996: “A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia das classes mais favorecidas, hoje, de se isolar, criar um mundo só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada e a saúde também”. Um país todo privatizado é a destruição do público, do SUS que salva os pobres e muitos ricos-como ocorre na pandemia- da educação pública, das cotas raciais. O Brasil deve ser para todas e todos, sem discriminação racial, política ou preconceito com os pobres.
Creio que Tales Ab’Saber estaria de acordo que o desafio hoje é entre o elogio das armas, da exploração destrutiva da natureza, versus o humanismo e a ecologia. Desesperar, jamais, pois não se pode esquecer que depois de hoje virá o amanhã, depois do pesadelo voltará o sonho de um povo que caminha na escuridão com esperança no coração.
Por muito tempo, [o Palácio do Planalto] foi um lugar consagrado a demônios. Hoje, é consagrado ao senhor Jesus. Ali, eu sempre falo para ele [Bolsonaro], quando entro na sala dele: essa cadeira é do presidente maior, é do rei que governa essa nação
Michelle Bolsonaro
O cotidiano da política é uma gangorra. A tensão sobe e desce. As expectativas fluem ao sabor dos momentos. As dúvidas ganham volume, puxadas pelos protagonistas. Em ano eleitoral, a dois meses das eleições, e tendo em vista que a contenda usará armas nunca d’antes vistas, não é de surpreender que a guerra seja a mais violenta da atualidade.
Trata-se de um pleito que fará o Brasil caminhar, amanhã, pelos caminhos da esquerda ou da direita. A contar com o maior cofre eleitoral de todos os tempos. E a abarcar o maior número de eleitores, cerca de 156 milhões. Na paisagem de fundo, mais de 30 milhões de pessoas sem acesso à mesa do pão, habitantes do território da extrema carência. Mostrando, ainda, classes médias divididas entre dois candidatos e uma parcela, que tende a crescer, ansiosa para achar a saída da dualidade, um perfil identificado com inovação.
Essa moldura pode se alterar nas próximas semanas, a depender da barreira a ser transposta pelos corredores. O obstáculo deverá aparecer no dia em que o país comemorará os 200 anos da independência, 7 de setembro próximo. A muralha a ser ultrapassada tem sido reforçada com a argamassa produzida nos fornos do presidente Bolsonaro, cujos componentes incluem uma parada militar na avenida Atlântica (Copacabana), no Rio de Janeiro, o convite para as massas comparecerem ao evento, ataques reiterados a membros do Poder Judiciário e às urnas eletrônicas e a indignação contra manifestos em favor da democracia.
O que aguarda o país, após 7 de setembro? Paz ou guerra? Que o leitor tire suas conclusões, após tentar extrair os efeitos dos seguintes cenários:

Mar bravio – O desfile de 7 de setembro – militares de diversas categorias e postos, tanques esmagando o asfalto, continência dirigida ao comandante-em-chefe das Forças Armadas, ele mesmo, o presidente da República – tem o condão de mostrar que o capitão Jair é poderoso e tem forças para anunciar medidas de caráter extraordinário. Medidas que disfarcem a imagem de um golpe, fenômeno que desviará o país de sua rota, mas possível de ocorrer, principalmente se a mobilização de rua implicar devastação, quebra-quebra, desordem, conflitos. Hipótese que será viável/inviável, a depender do comportamento das Forças Armadas,
Céu de brigadeiro – O evento de 7 de setembro ocorrerá com tranquilidade, sem açodamento, brigas entre alas, soldados cumprindo sua tarefa de desfilar, votos de paz e harmonia social, expressos pela sociedade civil. O presidente se manteria de boca fechada, sem jogar lenha na fogueira e até jogando água em algum fogo persistente. Desse modo, o céu de brigadeiro seria visto até outubro, mês do primeiro e do segundo turnos.
Horizonte turvo – Nuvens plúmbeas, pesadas, prenunciando raios, trovão e chuva intensa, emergirão em todos os quadrantes, e seus primeiros sinais apareceriam no dia 7 de setembro, com escaramuças desfechadas por alas bolsonaristas e grupos lulopetistas. O prenúncio de guerra, a se travar nas ruas após a comemoração cívica, criaria as condições para o presidente continuar seu discurso belicoso. E preparar o espírito de suas bases para a alteração das regras no tabuleiro democrático, caso o vencedor do pleito seja o candidato das esquerdas. As instituições da República reagirão e a gangorra de tensões voltará à paisagem.
Luz no fim do túnel – A policromia do arco-íris será manchada com borrões e pichações, nos próximos dias, que enfeiarão o desfile de 7 de setembro, abrindo buracos na sociedade, contribuindo para os polos do extremo ideológico acirrarem suas divergências. A polarização chega ao pico da montanha. Mas acende uma luz no fim do túnel. Toma corpo a taxa de racionalidade. E tal impulso viabiliza um terceiro nome, um perfil com um discurso de harmonia e reinserção do país na roda do desenvolvimento. Pode ser utopia. Mas…
Visita do Imponderável – Uma visita do Senhor da Imprevisibilidade também é possível. Para evitar o mau agouro, este analista deixa de lado as hipóteses desse cenário.
Seja qual for o cenário, urge crer no Brasil, com seu território continental, riquezas naturais, belezas incomparáveis, pedaço importante do planeta. E que, um dia, realizará o sonho de uma grande Pátria: a revolução da Educação.