sábado, 19 de março de 2022

É por isso que as autocracias falham

Nos últimos anos, as autocracias pareciam ter a vantagem. Na autocracia, o poder é centralizado. Os líderes podem responder aos desafios rapidamente, transferir recursos de forma decisiva. A China mostrou que as autocracias podem produzir prosperidade em massa. A autocracia obteve ganhos globais e a democracia continua a declinar.

Nas democracias, por outro lado, o poder é descentralizado, muitas vezes polarizado e paralítico. O sistema político americano tornou-se desconfiado e disfuncional. Um aspirante a autocrata caseiro ganhou a Casa Branca. Acadêmicos escreveram livros populares com títulos como “Como as democracias morrem”.

No entanto, as últimas semanas foram reveladoras. Ficou claro que quando se trata das funções mais importantes do governo, a autocracia tem graves fraquezas. Esta não é uma ocasião para triunfalismo democrático; é uma ocasião para uma avaliação realista da inépcia autoritária e talvez da instabilidade. Quais são essas fraquezas?


A sabedoria de muitos é melhor do que a sabedoria dos megalomaníacos. Em qualquer sistema, uma característica essencial é: como a informação flui? Nas democracias, a formulação de políticas geralmente é feita mais ou menos em público e há milhares de especialistas oferecendo fatos e opiniões. Muitos economistas no ano passado disseram que a inflação não seria um problema, mas Larry Summers e outros disseram que sim, e eles estavam certos. Ainda cometemos erros, mas o sistema aprende.

Muitas vezes, nas autocracias, as decisões são tomadas dentro de um círculo pequeno e fechado. Os fluxos de informação são distorcidos pelo poder. Ninguém diz ao homem superior o que ele não quer ouvir. A falha de inteligência russa sobre a Ucrânia foi surpreendente. Vladimir Putin não entendia nada sobre o que o povo ucraniano queria, como eles iriam lutar ou como seu próprio exército havia sido arruinado pela corrupção e cleptocratas.

As pessoas querem sua maior vida. Os seres humanos hoje em dia querem ter uma vida plena e rica e aproveitar ao máximo seu potencial. O ideal liberal é que as pessoas sejam deixadas tão livres quanto possível para construir seu próprio ideal. As autocracias restringem a liberdade em nome da ordem. Muitos dos melhores e mais brilhantes estão fugindo da Rússia. O embaixador americano no Japão, Rahm Emanuel, destaca que Hong Kong está sofrendo uma devastadora fuga de cérebros. Bloomberg relata : “Os efeitos da fuga de cérebros em setores como educação, saúde e até finanças provavelmente serão sentidos pelos moradores nos próximos anos”. As instituições americanas agora têm quase tantos pesquisadores de IA de primeira linha da China e dos Estados Unidos. Dada a chance, as pessoas talentosas irão para onde está a realização.

O homem da organização se transforma em homem gângster. As pessoas ascendem através das autocracias servindo impiedosamente à organização, à burocracia. Essa crueldade os torna conscientes de que os outros podem ser mais cruéis e manipuladores, então eles se tornam paranoicos e despóticos. Eles geralmente personalizam o poder para que sejam o Estado, e o Estado são eles. Qualquer dissidência é considerada uma afronta pessoal. Eles podem praticar o que os estudiosos chamam de “seleção negativa”. Eles não contratam as pessoas mais inteligentes e melhores. Essas pessoas podem ser ameaçadoras. Eles contratam os mais fracos e os mais medíocres. Você obtém um governo de terceiros (veja os líderes das forças armadas russas).

O etnonacionalismo embriaga-se. Todo mundo adora alguma coisa. Em uma democracia liberal, o culto à nação (que é particular) é equilibrado pelo amor aos ideais liberais (que são universais). Com o fim do comunismo, o autoritarismo perdeu uma importante fonte de valores universais. A glória nacional é perseguida com fundamentalismo inebriante.

“Acredito na passionaridade, na teoria da passionaridade”, declarou Putin no ano passado. Ele continuou: “Temos um código genético infinito”. A passionaridade é uma teoria criada pelo etnólogo russo Lev Gumilyov que sustenta que cada nação tem seu próprio nível de energia mental e ideológica, seu próprio espírito expansionista. Putin parece acreditar que a Rússia é excepcional em frente após frente e “em marcha”. Esse tipo de nacionalismo maluco ilude as pessoas a perseguirem ambições muito além de sua capacidade.

Governo contra o povo é receita para o declínio . Líderes democratas, pelo menos em teoria, servem a seus eleitores. Líderes autocráticos, na prática, servem ao seu próprio regime e longevidade, mesmo que isso signifique negligenciar seu povo. Thomas J. Bollyky, Tara Templin e Simon Wigley ilustram como as melhorias na expectativa de vida diminuíram em países que recentemente fizeram a transição para autocracias. Um estudo com mais de 400 ditadores em 76 países por Richard Jong-A-Pin e Jochen O. Mierau descobriu que um aumento de um ano na idade de um ditador diminui o crescimento econômico de seu país em 0,12 pontos percentuais.

Quando a União Soviética caiu, soubemos que a CIA havia exagerado na economia soviética e no poderio militar soviético. É muito difícil administrar com sucesso uma grande sociedade por meio do poder centralizado.

Para mim, a lição é que, mesmo quando enfrentamos autocracias até agora bem-sucedidas como a China, devemos aprender a ser pacientes e confiar em nosso sistema democrático liberal. Quando enfrentamos agressores imperiais como Putin, devemos confiar nas maneiras como estamos respondendo agora. Se aumentarmos de forma constante, paciente e implacável a pressão econômica, tecnológica e política, as fraquezas inerentes ao regime crescerão cada vez mais.
David Brooks, The New York Times

Queremos liberdade! Por que então defender ditadores?

É assustador ver regimes autoritários como os da Nicarágua ou da Rússia serem defendidos. A democracia não era um valor universal, principalmente para a esquerda?

Cresci na Europa ocidental durante os anos 80, no auge da Guerra Fria. Na escola, os professores passavam vídeos em que se explicava como se comportar durante um ataque com bombas atômicas. Vindo da União Soviética. E no cinema passavam filmes que falavam sobre um mundo pós-destruição nuclear. Tudo muito assustador para uma criança como eu.

A única coisa que nos salvaria eram as bombas atômicas dos Estados Unidos, ou melhor: a "promessa" de que os EUA iriam responder a um ataque russo na mesma moeda. E funcionou: a Guerra Fria nunca esquentou.

Com meu pai, eu ia até a fronteira das duas Alemanhas, observando de longe os soldados da Alemanha Oriental que vigiavam aquele corredor da morte, a fim de não deixar ninguém passar do lado "comunista" para o lado "capitalista". Cada família tinha amigos ou parentes no outro lado, e todos sabiam de histórias de compatriotas tentando fugir da ditadura "comunista". Poucos conseguiam.

Para aos do outro lado, a história vinha sendo cruel: depois de 12 anos de ditadura de Hitler, tiveram que engolir ainda mais 40 anos de ditadura soviética. Lembro-me de um amigo da minha avó, preso durante o Terceiro Reich, depois prisioneiro de guerra na Rússia, para então ser preso na Alemanha Oriental. Uma vida destruída pelo cruel caminho da história.

Para muitos europeus que conheço, como amigos poloneses e búlgaros, a queda da União Soviética foi um alívio, a melhor coisa que poderia acontecer. A partir de então conseguiam estudar e trabalhar em outros países da União Europeia, viajando pelo mundo, matando toda aquela vontade que se acumulara durante a Guerra Fria. Liberdade, ar para respirar! Finalmente.

Não cresci na América Latina ou no Brasil. Só cheguei aqui quando já tinha 26 anos, no final dos anos 90. Mas fiz muitas entrevistas com pessoas que lutavam contra as ditaduras latino-americanas. E a maioria dessas cruéis ditaduras foi apoiada pelos Estados Unidos, durante a Guerra Fria. Os Estados Unidos que libertaram os alemães do monstro Hitler e que salvaram a gente de um ataque russo, aqui causaram muito sofrimento. Entendo que muitos latino-americanos desconfiem dos Estados Unidos.

Mas isso não os abstém da obrigação de refletir e de se atualizar. Havia muitos argumentos para derrubar ditadores como Fulgencio Batista em Cuba, em 1959, ou Anastasio Somoza na Nicarágua, em 1979. Mas nada justifica defender, em pleno 2022, a falta de liberdades impostas pelos regimes que sucederam àqueles ditadores. Hoje em dia, falo com ex-combatentes sandinistas que me dizem que Daniel Ortega se transformou num ditador tão cruel - ou até mais cruel - que o próprio Somoza.

Não entendo como parte da esquerda latino-americana pode defender esses regimes. Como, também não entendo como defendem o regime russo de Vladimir Putin. Um regime que cala a oposição, envenenando ou prendendo-na, botando ativistas gays na prisão e desrespeitando direitos fundamentais dos seus próprios cidadãos. Além de achar ter o direito de ditar o modo de vida de povos que habitam países vizinhos.

Entendo o desejo de pessoas do Leste Europeu de levar uma vida de liberdade de escolher, liberdade de viajar, de viver em paz onde quiser, ou melhor dizendo, de se tornar um cidadão da União Europeia. Voltar para o colo esmagador da Rússia seria inaceitável!

Mas é difícil encontrar pessoas aqui no Brasil que levem em conta a vontade dos povos e países do Leste Europeu sobre como viver a própria vida. São brasileiros que defendem a própria liberdade - e com toda a razão -, mas não dão o mesmo direito às pessoas no Leste Europeu.

Não espero nada do campo da extrema direita bolsonarista. Bolsonaro gosta automaticamente de líderes tipo macho alfa que topam tirar foto com ele, como Donald Trump ou Vladimir Putin. No tabuleiro das ideologias, ele não sabe se é para jogar com as figuras brancas ou pretas. Não tem bússola ideológica ou norte moral nenhum.

Mas da esquerda eu esperava mais. Mais capacidade de refletir e abstrair. De se colocar no lugar do outro. Vladimir Putin mudou a Constituição russa para ficar no poder até 2036. Seriam 37 anos no poder, pois assumiu em 1999. E o líder da oposição Alexei Navalny corre o risco de passar o resto da vida na prisão, depois de sobreviver a uma tentativa de envenenamento.

Na Nicarágua, Daniel Ortega está no poder desde 2006 e agora tem mandato até 2026. Mandou condenar os políticos da oposição para que fiquem uma eternidade na prisão.

Até quando haverá apoio a esses regimes? Aqueles que reclamam para si direitos democráticos têm de defender os direitos democráticos em outras partes do mundo. Afinal de contas, não existia um compromisso com uma democracia universal? Cadê?

sexta-feira, 18 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


A mãe de todas as bombas

O ponto central do debate sobre as diferentes tragédias sociais em todas as épocas foi sintetizado por Jeffrey Sachs: “Todos os anos mais de 8 milhões de pessoas morrem no mundo por causa da miséria” (O Fim da Pobreza).

Nesse cenário, fica engraçado o hábito de se atribuir uma mãe a todo problema que acomete a humanidade. Reparem que, no caso do telefone, avião, luz elétrica e outras boas novas, nomeia-se um pai.

Enquanto isso, tragédia só tem mãe. Por exemplo, pandemias, guerras e bombas têm “a mãe” e essa maternidade superlativa se renova de tempos em tempos. São recorrentes as “mães de todas as guerras” (provocadas por homens) e as “mães de todas as pestes” desde a lepra até a Covid-19.

Porém, a mãe que mais evoluiu foi a das bombas. No séc. XVI canhões chineses lançaram as primeiras “mães de todas as bombas”. Não havia muralha que resistisse a tanta mãe. Os espanhóis e os turcos também tiveram suas próprias mães (de todas as bombas) disparadas por canhões gigantes.

As últimas balas de canhão de porte descomunal foram usadas na I Guerra Mundial (outra “mãe de todas as guerras”). Depois de então, os artefatos mais destrutivos passaram a ser despejados de aviões.

Foi o caso da bomba atômica, a mais poderosa “mãe de todas as bombas” já usada em um conflito. Curioso é que essa mãe das bombas recebeu um nome inocente, de filho – “Fat Boy” – pelo seu design rechonchudo. Enquanto isso, o piloto que a lançou sobre Hiroshima escreveu na fuselagem do seu B-29 o nome da sua mãe – “Enola Gay”.

Após tantas candidatas nucleares terem enferrujado nos mísseis da Guerra Fria, a última “mãe de todas as bombas”, lançada em uma operação militar, acabou sendo um dispositivo convencional norte americano, a MOAB, jogada sobre o Afeganistão numa demonstração de força do presidente Trump.


Entre tantas mães explosivas, seria razoável encontrarmos um pai à altura. Para poupar uma busca improdutiva pelos possíveis pais de cada bomba em sua época, podemos refletir sobre a hipótese de haver um único “pai de todas as bombas”.

E, antes que alguém, por distração ou vontade, resolva atribuir tal título de genitor universal a algum canhão, um avião, ou talvez um cientista, vale a pena considerar que o pai de todas essas bombas pode ser, também, pai de uma prole maior, incluindo a pobreza, a fome, aquecimento global, criminalidade e o racismo.

Desvendar paternidade nunca é tarefa fácil, porque os pais que não assumem seu ato disfarçam-se de formas sutis. Além do mais, para o tipo de ascendência em questão, não há exame de DNA. É preciso procurar rastros e vestígios.

Ocorre que, em uma sociedade narcisista orientada pelo acúmulo de riquezas e pela obsessão do consumo, inevitavelmente a digital mais nítida estará no dinheiro. Seguindo as pegadas dos fluxos financeiros, não será difícil concluir que o “pai de todas as bombas” sempre foi a desigualdade social.

A desigualdade é o maior mecanismo de devastação inventado até hoje. À primeira vista pode parecer que as bombas provoquem pobreza. Contudo, olhando com atenção, o ciclo é inverso.

A desigualdade social financia as aventuras belicosas por meio das transferências de renda e riqueza, das populações e territórios mais pobres para os segmentos econômicos capazes de investir no negócio da guerra.

Basta observar que durante a pandemia a receita anual dos 100 maiores grupos do setor mundial de defesa manteve-se acima de meio trilhão de dólares, concentrados em 15 países, enquanto a economia mundial diminuiu mais de 3% ao ano (fonte: SIPRI, Estocolmo). Vejamos, nos eventos da Ucrânia, quem terá lucrado ou empobrecido ao final.

Triunfo do populismo

É preciso ter clareza sobre a real natureza do risco político a que estará submetida a condução da política econômica nas eleições de outubro.

Quando se trata de outras dimensões de política pública — relacionadas, por exemplo, a educação, saúde, segurança pública, costumes, cultura e meio ambiente — faz algum sentido perceber a disputa presidencial polarizada, entre Bolsonaro e Lula, como um embate entre direita e esquerda.

No que tange à condução da política econômica, essa percepção de um embate entre direita e esquerda até chegou a fazer sentido na eleição de 2018, pelo menos para quem se deixou cair no conto de que Bolsonaro passara a ser um discípulo convicto e disciplinado de Paulo Guedes.


Na atual campanha presidencial, contudo, tal percepção já não faz nenhum sentido. O que estará em jogo, em outubro, será um embate entre duas visões populistas da condução da política econômica. Tentar reduzir tal embate a um entrechoque entre direita e esquerda só dificulta a compreensão do que de fato estará em jogo.

Que diferença fundamental há entre as propostas de alteração da política de preços de combustíveis que vêm sendo defendidas por Lula e o PT, de um lado, e por Bolsonaro e o Centrão, de outro?

Que diferença há entre a obstinação com que o PT se propõe a afrouxar o teto de gastos, de um lado, e o inconformismo de Bolsonaro e do Centrão com a limitação da expansão de despesas no Orçamento da União, de outro?

Que forças políticas no Congresso dão, hoje, respaldo inequívoco à preservação do teto de gastos e da responsabilidade fiscal? É bom lembrar do apoio maciço de supostos “partidos de oposição” à aprovação da PEC dos Precatórios, no final de 2021. O PT só votou contra porque, na verdade, defendia um Auxílio Brasil de R$ 600 por mês.

A seis meses e meio do primeiro turno da eleição presidencial, Bolsonaro, articulado com o Centrão, continua investindo contra o alambrado das restrições fiscais para, na medida do possível, tentar compensar, com farta distribuição de benesses ao eleitorado, a expansão medíocre do PIB e do emprego.

Não parece haver limite para o vasto cardápio de medidas populistas que vêm sendo aventadas e anunciadas. Para tentar manter as aparências, iniciativas mais desabridamente irresponsáveis vêm sendo levadas adiante por uma tabelinha entre o Planalto e o Centrão, em que se reserva ao ministro da Economia o papel de quem está na defesa, tentando tomar a bola.

Nas últimas semanas, esse quadro já desalentador tornou-se ainda mais difícil, na esteira das ondas de desestabilização deflagradas pela invasão da Ucrânia. Em meio ao sério descontrole inflacionário com que o Banco Central já vinha tendo de lidar, o país se vê, agora, às voltas com forte choque de preços externos advindo dos abalos nos mercados internacionais de commodities, especialmente de petróleo.

O repasse da elevação dos preços internacionais aos preços internos de combustíveis foi o que bastou para deflagrar um verdadeiro festival de populismo, em que os dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de votos se têm alternado, na formulação de propostas estapafúrdias que possam impedir o encarecimento de derivados de petróleo em ano eleitoral.

Na esteira do esgarçamento do compromisso do governo com uma política econômica realista e coerente, pautada pela responsabilidade fiscal, há alto risco de que, mais uma vez, a campanha presidencial passe ao largo das questões que verdadeiramente importam.

Se, de fato, ficar restrita à polarização Lula-Bolsonaro, a eleição promete se converter em mero embate entre variantes de populismo, mal disfarçadas em programas econômicos anódinos dos dois candidatos. O que marcaria abandono explícito — a meio caminho, se tanto — da agenda de reconstrução de política econômica que, aos trancos e barrancos, o país vinha tentando levar adiante, desde 2016.

Essa é a essência do risco político que permeia a disputa presidencial de outubro.

Os frutos da guerra

Zap (França)
O horror tornou-se quotidiano,

a destruição transformou-se em hábito,
o mundo foi ficando kafkiano,
o morrer, agora, volveu-se súbito,

as lindas crianças servem de alvo,
e os olhos das mães gritam de espanto!
Se nada do que temos está a salvo,
fina-se a fala e também o canto.

A morte agora veste-se de aço
e vomita incêndios majestosos:
volatiliza com desembaraço

o museu, o palácio esplendoroso,
o hospital, o armazém, a praça
e tudo quanto o horror devassa!
Eugénio Lisboa

Na Ucrânia, mas sem celular

Durante a primeira semana após a invasão russa da Ucrânia, a vida de Bobuubi e sua família só não foi pesadelo maior porque sua comunidade, no Twitch, o salvou. Ele é um streamer. Seu trabalho, sua profissão, é jogar videogames ao vivo. Seu rosto aparece pequenino num canto da tela, o jogo preenche o resto. Bobuubi é polonês, mas vivia na Ucrânia, próximo à fronteira russa. Streamers costumam ter games preferenciais — no caso dele, é “Escape from Tarkov”, um detalhado simulador de guerra baseado no conflito entre Rússia e Chechênia. O público de Bobuubi estava assistindo ao vivo quando as primeiras bombas reais começaram a cair perto de onde ele estava. Ele se despediu emocionado. Precisava encontrar a família e fugir.

Bobuubi, por formação, entende de tecnologia e de guerra. Por isso mesmo, quando entrou em seu carro com a família, sabia que precisaria manter o celular desconectado. Celulares ligados à rede são guias para a localização de quem os carrega. Isso quer dizer, também, que ele precisava atravessar um país em guerra sem usar Waze. Contou com a ajuda de seu público, gente que ficou on-line por dias acompanhando a viagem pelo Google Maps e pelo noticiário, simultaneamente. A cada vez que o streamer ligava o celular para se conectar com o mundo por um tempo curto, mandava sua localização para os amigos virtuais. Eles retornavam com capturas de tela dos mapas com rotas possíveis desenhadas, todas contornando os lugares onde, segundo a imprensa, existiam tropas russas. Bobuubi atravessou a Ucrânia com mapas estáticos e o celular no modo avião.

Essa compreensão, de que celulares em guerra são delicados, escapa aos brasileiros. O exibicionismo de Instagram dos voluntários que saíram daqui é um dos suspeitos de ter ajudado os russos a localizar uma base da Legião Estrangeira em Lviv, cidade próxima à Polônia. A base foi dizimada. Posar com uniforme camuflado e arminha não está entre os hábitos de outros voluntários. Talvez porque a estética do bolsonarismo seja só nossa.

Tristan Harris, o ativista pela humanização dos algoritmos das redes, fala muito sobre como nosso ego é acarinhado pelo código. Os diversos filtros de fotografias se popularizaram tornando a pele mais lisa, os traços mais suaves, afinando rostos. Nossa versão na rede é parecida o suficiente conosco, mas é aquela versão aperfeiçoada. Quanto mais fragilizada está a pessoa a respeito da autoimagem, mais quer se ver na rede. A submetralhadora e o uniforme representam o mesmo mecanismo.

Há outra forma como as redes alimentam o ego — é pelas ideias. Elas vão forçando pessoas a pensar de forma cada vez mais parecida, vão pasteurizando o debate. Quanto menos novidade alguém trouxer, quanto mais parecido for seu discurso com o da tribo, maior o número de likes. Ninguém muda de ideia.

Há uns dias, Bernardo Mello Franco, meu vizinho cá nesta página, fez uma pergunta fundamental. O presidente chileno Gabriel Boric seria eleito no Brasil? Não é difícil responder. Que parlamentar de esquerda, no Brasil, tem coragem de ir ao Twitter escrever que o PT fez um governo corrupto, que Venezuela, Cuba e Nicarágua são ditaduras, ou de denunciar sem condicionantes a bárbara invasão russa de um país soberano? Receberia o tratamento que a militância de esquerda concedeu à deputada Tabata Amaral (PSB-SP).

Os líderes jovens da esquerda brasileira têm as mesmas ideias que septuagenários. No Brasil, Boric seria chamado de neoliberal em dois tempos.

Receita para uma guerra civil

Quando a guerra civil começou em Angola, em 1975, eu tinha 15 anos. Vivi aqueles dias com mais euforia do que inquietação. Acreditava, como a maioria dos angolanos, que a guerra era um episódio terrível, mas que depressa passaria, e que depois disso viveríamos dias luminosos num país independente e mais justo.

Lembro-me que dançávamos enquanto os morteiros explodiam, e balas tracejantes riscavam as noites. Os jovens militantes dos diferentes movimentos saíam das festas para fazer a guerra e voltavam ao amanhecer para terminar as cervejas, como se os combates fizessem parte da folia.

Logo a euforia acabou, mas os tiros não. Finalmente, a 22 de fevereiro de 2002, o líder da guerrilha, Jonas Savimbi, foi morto em combate. A bala que o matou foi a última a ser disparada. Contudo, já Angola estava destruída.



Não consigo imaginar pior tragédia para um país do que uma guerra civil. Uma guerra civil começa antes que alguém dispare o primeiro tiro, e as suas consequências prolongam-se décadas para além do último morto.

A receita para uma guerra civil exige, em primeiro lugar, a criação de uma cultura de exclusão. Regra geral, os movimentos em confronto não defendem posições novas. A novidade é a agressividade com que as defendem e a convicção de que não existe conciliação possível entre os diferentes projetos.

Amigos de toda uma vida zangam-se. Famílias separam-se. As mães proíbem os filhos de conversar sobre política à hora das refeições. Emergem líderes messiânicos, com um discurso de ódio, eventualmente exibindo armas de fogo, enquanto exploram velhos rancores partidários e fraturas sociais.

Logo surgem os primeiros assassinatos e atentados com motivação política. O Estado vai-se esboroando e perdendo terreno.

Muitas vezes, a cultura de exclusão, que serve de gatilho à guerra, é importada, obedecendo a interesses ou estratégias de outros países. Foi o que aconteceu em Angola, com os Estados Unidos e a União Soviética a combaterem no terreno através não só dos movimentos angolanos, mas também de tropas sul-africanas, cubanas e zairenses, bem como de mercenários portugueses, ingleses e americanos.

No limite, uma guerra civil pode destruir completamente um país, apagando-o dos mapas, como aconteceu com a Iugoslávia. Viajando pela Sérvia ou pela Croácia anda é possível encontrar pessoas que continuam a reconhecer-se como iugoslavos: “Antes de a guerra começar”, disse-me um desses órfãos, “eu nem sequer sabia que a minha família era sérvia ou que os meus vizinhos eram muçulmanos. Éramos todos iugoslavos, falávamos a mesma língua e tínhamos um destino comum”.

É possível identificar no momento que se vive hoje no Brasil alguns dos ingredientes necessários para o desastre. Em épocas assim, a primeira vítima costuma ser o bom senso.

Quero acreditar, porém, que ainda exista espaço para um diálogo o mais aberto possível, de forma a permitir a convergência de todas as forças políticas e da sociedade civil que defendam a paz e a democracia. Ao longo das próximas semanas assistiremos a um combate entre construtores de pontes e construtores de muros. Pobre Brasil se os construtores de muros ganharem.

O Brasil, um país amado no mundo inteiro pela sua cultura, pela sua alegria e generosidade, não pode permitir que o ódio se alastre e triunfe.
José Eduardo Agualusa

quarta-feira, 16 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


Os frutos da guerra

O horror tornou-se quotidiano,
a destruição transformou-se em hábito,
o mundo foi ficando kafkiano,
o morrer, agora, volveu-se súbito,

as lindas crianças servem de alvo,
e os olhos das mães gritam de espanto!
Se nada do que temos está a salvo,
fina-se a fala e também o canto.

A morte agora veste-se de aço
e vomita incêndios majestosos:
volatiliza com desembaraço

o museu, o palácio esplendoroso,
o hospital, o armazém, a praça
e tudo quanto o horror devassa!

Eugénio Lisboa

Era um dia frio

Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.


O saguão cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos, mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a eletricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda.

Dentro do apartamento uma voz sonora lia uma lista de cifras relacionadas com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica retangular semelhante a um espelho fosco, embutido na parede direita. Winston torceu um comutador e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. Winston foi até a janela: uma figura miúda, frágil, a magreza do corpo apenas realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea, e a pele arranhada pelo sabão ordinário, as giletes sem corte e o inverno que mal terminara.

Lá fora, mesmo através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Na rua, pequenos redemoinhos de vento levantavam em pequenas espirais poeira e papéis rasgados, e embora o sol brilhasse e o céu fosse dum azul berrante, parecia não haver cor em coisa alguma, salvo nos cartazes pregados em toda parte. O bigodudo olhava de cada canto. Havia um cartaz na casa defronte, O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia o letreiro, e os olhos escuros procuravam os de Winston. Ao nível da rua outro cartaz, rasgado num canto, estalava ao vento, ora cobrindo ora descobrindo a palavra INGSOC. Na distância um helicóptero desceu beirando os telhados, pairou uns momentos como uma varejeira e depois se afastou num vôo em curva. Era a Patrulha da Polícia, espiando pelas janelas do povo. Mas as patrulhas não tinham importância. Só importava a Polícia do Pensamento.

Por trás de Winston a voz da teletela ainda tagarelava a respeito do ferro gusa e da superação do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Qualquer barulho que Winston fizesse, mais alto que um cochicho, seria captado pelo aparelho; além do mais, enquanto permanecesse no campo de visão da placa metálica, poderia ser visto também. Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que freqüência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Era concebível, mesmo, que observasse todo mundo ao mesmo tempo. A realidade é que podia ligar determinada linha, no momento que desejasse. Tinha-se que viver - e vivia-se por hábito transformado em instinto na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro.

Winston continuou de costas para a teletela. Era mais seguro, conquanto até as costas pudessem falar. A um quilômetro dali o Ministério da Verdade, onde trabalhava, alteava-se, alvo e enorme, sobre a paisagem fuliginosa. Era isto, pensou ele com uma vaga repugnância - isso era Londres, cidade principal da Pista Nº 1, por sua vez a terceira entre as mais populosas províncias da Oceania. Tentou encontrar na memória uma recordação infantil que lhe dissesse se Londres sempre tivera aquele aspecto. Haviam existido sempre aquelas apodrecidas casas do século dezenove, os flancos reforçados com espeques de madeira, janelas com remendos de cartolina e os telhados com chapa de ferro corrugado, e os muros doidos dos jardins, descaindo em todas as direções? E as crateras de bombas onde o pó de reboco revoluteava no ar e o mato crescia ao acaso sobre os montes de escombros; e os lugares onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e tinham nascido sórdidas colônias de choças de madeira que mais pareciam galinheiros? Mas era inútil, não conseguia se lembrar: nada sobrava de sua infância, exceto uma série de quadros fortemente iluminados, que se sucediam sem pano de fundo e eram quase ininteligíveis.

O Ministério da Verdade - ou Miniver, em Novilíngua - era completamente diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de alvíssimo cimento branco, erguendo-se, terraço sobre terraço, trezentos metros sobre o solo. De onde estava, Winston conseguia ler, em letras elegantes colocadas na fachada, os três lemas do Partido: GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA. Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos sobre o nível do solo, e correspondentes ramificações no sub-solo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto.
George Orwell, "1984"

Heróis

Você acorda, Petrópolis foi destruída pela chuva. Mais de duzentos mortos, um monte de gente sem ter para onde ir. Você dorme e, no dia seguinte, a Rússia invadiu a Ucrânia. Você começa a ter medo de dormir, mesmo não estando em área de risco, mesmo não estando em zona de guerra. Você está no mundo, e o mundo é um desacerto com belas paisagens e poucos encontros.

Na televisão, as imagens dão a dimensão da catástrofe, enquanto mostram aqueles que, dilacerados, transformam-se em heróis. No Morro da Oficina, um pedreiro, ó, meu Deus, qual é o seu nome? Jefferson? Não sei. Meu esquecimento já mostra como esse heroísmo é efêmero. Mas vamos adiante. Jefferson perdeu mulher e filhos e cavucava o chão atrás da família. Naquele momento, os bombeiros não o ajudavam, e ele usava o que tinha: mãos, unhas, pá e picareta. Seu sonho era dar um enterro digno a cada um dos seus. Jefferson é um herói com todo caráter.


Na Europa, uma brasileira, Clara (dela guardei muito bem o nome), saiu da Alemanha e, dirigindo por mais de dez horas, foi até a fronteira da Polônia com a Ucrânia. Seu objetivo era simplesmente colocar brasileiros em seu carro e levá-los a uma cidade estruturada e capaz de abrigá-los. Depois eu soube que ela não era a única, vários brasileiros, saindo de outros pontos da Europa, faziam o mesmo. Essa carona acabou servindo não apenas a nossos compatriotas e enfrentou problemas adicionais, uma vez que eram impostos bloqueios nas estradas, tornando necessário tomar caminhos alternativos, cruzar outros países. Clara e os demais voluntários também são heróis plenos de caráter.

Jefferson e Clara serão esquecidos.

Einstein teria dito que não sabia como seria a terceira guerra, mas, na quarta, as armas seriam tacapes e braços, uma tremenda briga de rua. Sem rua. Se o conflito entre Rússia e Ucrânia não se difundir e o mundo não se acabar, ao fim da guerra, como sempre acontece, os heróis da morte serão eternizados em estátuas, nomes de rua, de praças etc.

Já em Petrópolis, nenhum monumento exaltando os heróis ou homenageando as vítimas será levantado. Os que sofreram perdas estarão marcados para o resto da vida, e os que podem mudar a situação permanente de risco, depois de discursos e promessas, voltarão a não gastar a verba nas obras de prevenção, se é que não a excluirão do orçamento. Até que nova chuva caia e eles chorem, em alguns casos até arregacem as mangas e se misturem aos despossuídos como se fossem um deles. Não são. Nunca foram. Eles acham que a culpa da tragédia é de quem construiu a casa lá na ribanceira.
Alexandre Brandão

terça-feira, 15 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


A sombra da guerra da Ucrânia no Brasil

Dizem que a guerra estimula mudanças e inovações. No entanto é difícil antecipá-las, num momento em que não se entende bem tudo o que se passa e, muito menos, o rumo que as coisas tomarão num futuro próximo.

A alternativa é começar pelo mais fácil, aquele conjunto de problemas que já nos preocupavam antes da guerra. O preço do combustível é um deles. Já estava nas alturas e subiria mais assim que fosse disparado o primeiro tiro na Ucrânia.

Perdeu-se um tempo enorme para definir medidas que atenuassem o impacto do aumento. E agora, que a guerra eclodiu, elas se tornam mais urgentes e ligeiramente menos eficazes.

Antes da guerra, o combustível fóssil não era questionado apenas pelo preço, mas também por sua insustentabilidade ambiental. A crise abre uma porta para o futuro de carros elétricos, boas ferrovias e hidrovias. Será que embarcamos nessa ou seguimos na janela vendo o mundo mudar?

Outra questão anterior à guerra era a dependência dos fertilizantes russos. Vale a pena escorar-se na boa vontade de um Putin isolado ou desenvolver um projeto de autossuficiência nesse campo?


Enfim, são questões que nem precisavam da guerra para figurar na agenda dos problemas estratégicos do país. Do óbvio, transitamos para uma área mais nebulosa e ambígua, mas que nem por isso deixa de ter uma importância vital para o planejamento.

A própria ideia de guerra talvez tenha de ser reavaliada e, com ela, os conceitos mais clássicos de defesa nacional.

O general Hamilton Mourão, ao condenar a invasão à Ucrânia, disse que o Brasil precisava ficar alerta para que algo parecido não acontecesse na Amazônia.

Compartilho a solidariedade à Ucrânia e acho que temos mesmo de reafirmar nossa condenação a um mundo que se rege pela lei do mais forte.

No entanto a invasão russa mostrou um lado da guerra convencional, ocupação armada de um território estrangeiro. Os próprios americanos parecem exaustos dessa solução, depois de tantas perdas humanas, tanto dinheiro jogado fora.

A guerra de agora mostrou um lado novo porque acontece num mundo tão influenciado pelas redes sociais. Zelensky faz todos os dias seu pronunciamento, e cada bombardeio de uma maternidade é uma explosão que se volta contra os próprios agressores.

Mas isso não é tão novo assim. No entanto a multiplicidade de atores não estatais numa guerra é uma novidade. Thomas Friedman perguntou num artigo seu no New York Times: “Será que o Anonymous aceitará um cessar-fogo negociado pelos Estados?”.

Empresas saem da Rússia, anunciam sanções, não tanto curvadas pelo poder do Estado, mas voltadas para a simpatia da própria clientela.

Depois dessa guerra, o tema do aquecimento voltará à tona com a importância que merece. Apesar da política devastadora na Amazônia, é delírio pensar numa invasão armada, tanques na lama, calor e mosquitos. Isso é arma de quem, como Putin, quer reescrever o passado, não de quem pretende garantir o futuro.

Um grande problema que se coloca para quem ameaça a sobrevivência no planeta é o perigo de um bloqueio econômico, cultural, esportivo e até mesmo uma sucessão de ataques cibernéticos.

Quando isso acontece, às vezes nem o bom senso escapa. Estão cancelando até Dostoiévski, que é um patrimônio da humanidade.

Compreendo que o general, num primeiro momento, tenha temido pela Amazônia, em termos de uma clássica invasão. Mas um amplo exercício estratégico mostra também que seu medo tem de ser virado de cabeça para baixo.

O grande perigo que nos ronda, com essa visão destrutiva da Amazônia, não são tanques atolados num mundo pretérito, mas sim o isolamento que hoje se impõe a quem desdenha a vida humana como Putin e que pode se deslocar para os que, sistematicamente, destroem as condições naturais de nossa sobrevivência no planeta.

São crimes de antibrasileirismo

Todas as propostas que partem de Bolsonaro ou mobilizam o seu empenho têm alguma ordinarice, de seu interesse pessoal, como motivação básica. Nem por isso a conduta por ele imposta à Presidência é o que mais compromete o futuro do Brasil como país —no conceito do mundo e no seu próprio sentimento de país envergonhado.

A aceitação da tragédia nacional pela quase total coletividade dos influentes, civis e militares, é ela mesma uma tragédia maior, por sua propagação incorrigível no futuro.


Tornar legal o garimpo em terras indígenas e a liberação prática do desmatamento são favorecimentos diretos às milícias criminais, que invadem as áreas preservadas, e ao empresariado que toma áreas imensas para plantio de soja ou criação de gado.

A imobilização do Ibama, da Funai e de tantas outras entidades de controle e estudo foi a preparação, iniciada já pela súcia dos dirigentes nomeados, para o que agora o governo e os mercenários da Câmara procuram oficializar.

Entraram na fase culminante do Plano Pró-Milícias, favorecida pelos desvios de atenção e apressada pelo risco de derrota eleitoral.

Bolsonaro e os deputados mercenários sob o domínio de Arthur Lira compõem uma espécie de milícia especializada em política como negócio imoral. Fizeram aprovar a urgência para o projeto da mineração homicida, a meio da semana, em deboche ao protesto de cantores e atores liderado, diante e dentro do Congresso, por Caetano (Caetano Velloso é músico, poeta e escritor, Caetano, só Caetano, é uma bandeira).

Mas, sobretudo, com isso os mercenários advertiram a população: “Não se metam nos nossos negócios, fazemos o que nos dê vantagens”. É isso mesmo.

A propósito, nunca se saberá o quanto custa a liberação, que Arthur Lira empurra na Câmara, para 69 cassinos, 6.000 bingos e 300 bicheiros empresariais.

No governo Figueiredo, o lobista que vinha tentar tal liberação era um general americano, reformado para presidir cassino de Las Vegas. Seu representante permanente aqui era o então deputado Amaral Neto, que organizava expedições remuneradas para cassinos nos EUA e no Uruguai.

O lobista de agora é também frequentador sistemático de Brasília, onde esteve pouco antes de aparecer o atual projeto. Só uma notinha, bem discreta, registrou essa estada profícua.

Assim como a defesa de Bolsonaro para entregar as terras indígenas a milícias e ao contrabando, a defesa dos cassinos e da jogatina é mentirosa. O potássio para suprir a falta do produto russo não está na Amazônia, onde é pouco e de difícil extração. Está em Sergipe, Minas e São Paulo.

O jogo clandestino não acabará, porque seus controladores não têm com que construir cassinos reais. E os impostos não resolverão nada: mesmo nas contas oníricas do relator Felipe Carreras, do PSB de Pernambuco, mal passam de insignificantes R$ 4,5 bi.

No pequeno varejo não é diferente. “Cancún em Angra”, onde Bolsonaro tem casa; fim das multas eletrônicas nas estradas, onde Bolsonaro é recordista na Rio-Angra; fim do imposto de importação de jet-ski enfiado em dispensa, também malandra, para “veículos aéreos sem propulsão a motor”; e por aí vai, a exemplo do gasto de R$ 1,5 milhão por dia no cartão de crédito da Presidência, durante férias em dependência militar.

O empresariado influente, que financia coisas como o MBL fundado pelo marginal Arthur do Val, preocupa-se é com o sério Stedile do MST em possível governo petista; e com hipotética relação de Lula e Maduro, ao qual Joe Biden recorre em um espetáculo de cinismo só igualado por ele mesmo, com sua corrida ao Irã.

São muitas as formas de milícias. Com meios e áreas diversos. Mas convergentes no alvo, na conivência e no ganho.

De Zelensky a Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro,

As coisas estão difíceis por aqui, mas fui eleito pelo povo para governar para todos os ucranianos por quatro anos e cumprirei meu compromisso na íntegra. Aprendi desde cedo que, nas democracias, os governantes são escolhidos pela maioria, mas, passada a eleição, devem olhar realmente por todos — os “do cercadinho” e aqueles que “atiram tomates no cercadinho”. O senhor me entende, certo? Acredito nisso e pratico isso. É o que tem me fortalecido como líder.

Soube que o senhor tem desaconselhado a população a se vacinar contra a Covid-19 e que o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes pelo vírus — mais de 650 mil. Aqui na Ucrânia, aconselhei pessoalmente a vacinação de todos e todas, pois penso que o exemplo vem do topo. Mas respeito seu ponto de vista. Peço que transmita meus sentimentos às famílias brasileiras enlutadas — nós, ucranianos, sentimos muito as perdas humanas e nos solidarizamos. É o mínimo que se pode fazer diante da tragédia.

Por mais duro que seja, meu lema tem sido a transparência. Límpida, translúcida como uma boa vodca. Cometo erros, como todo ser humano, mas presto contas permanentemente a meu povo do que se passa nas entranhas do poder, assegurando sempre pleno acesso à informação para a sociedade e absoluta liberdade de imprensa.


Nunca havia exercido cargo político. Estou presidente da República, e é minha primeira experiência na vida pública. Assumi compromisso inarredável de lutar contra a corrupção e seu enraizamento no poder. Sou contra a reeleição — tanto no Executivo quanto no Legislativo, pois acho importante o arejamento permanente. Até porque eu jamais aguentaria cinco, seis ou sete mandatos consecutivos no mesmo nível parlamentar. Perdão, o senhor foi deputado sete vezes seguidas: nada contra sua trajetória pessoal, sou apenas contra situações assim.

Soube pela imprensa que o senhor esteve visitando o presidente da Rússia na antevéspera do ataque à Ucrânia. Fiquei sinceramente curioso, imaginando o motivo que poderia tê-lo levado àquele país em momento tão agudo. Fui comediante sim, mas não é piada. Pergunto como estadista. O mundo quer saber.

Soube que apoiadores seus publicaram postagens em redes sociais afirmando que o senhor convenceu o presidente russo a não atacar nosso país e que seria até indicado a receber o Nobel da Paz por isso. Pensei seriamente em pedir os contatos dessas pessoas para recomendá-las ao showbiz da comédia ucraniana.

A Assembleia Geral da ONU aprovou resolução condenando a guerra russa por votação avassaladora. Notei que, apesar de a diplomacia brasileira ter votado contra a agressão, pessoalmente sua posição não tem sido categórica. Continuo em meu país, contrariando o prognóstico de muitos. Sempre na luta. Fica aqui meu convite cordial para uma visita regada a vodca ou tubaína (soube que aprecia). Se quiser vir nesta semana, ficarei feliz. O que Putin e o mundo pensarão a respeito? E daí?”

Volodymyr Zelensky

segunda-feira, 14 de março de 2022

É por isso que Putin não pode recuar

Carl von Clausewitz afirmou que a guerra é a continuação da política por outros meios. A invasão russa da Ucrânia é a continuação da política de identidade por outros meios.

Não sei quanto a você, mas descobri que os escritos de especialistas convencionais em relações internacionais não são muito úteis para entender do que se trata toda essa crise. Mas descobri que a escrita de especialistas em psicologia social é extremamente útil.

Isso porque Vladimir Putin não é um político convencional de grande potência. Ele é fundamentalmente um empreendedor de identidade. Sua conquista singular foi ajudar os russos a se recuperarem de um trauma psíquico – as consequências da União Soviética – e dar-lhes uma identidade coletiva para que possam sentir que são importantes, que sua vida tem dignidade.

A guerra na Ucrânia não é principalmente por terra; trata-se principalmente de status. Putin invadiu para que os russos pudessem sentir que são uma grande nação mais uma vez e para que o próprio Putin pudesse sentir que ele é uma figura histórica mundial nos moldes de Pedro, o Grande .


Talvez devêssemos ver essa invasão como uma forma raivosa de política de identidade. Putin passou anos alimentando ressentimentos russos em relação ao Ocidente. Ele afirmou falsamente que os falantes de russo estão sob ataque generalizado na Ucrânia. Ele usa as ferramentas da guerra na tentativa de fazer os russos se orgulharem de sua identidade de grupo.

A União Soviética era uma tirania confusa, mas como Gulnaz Sharafutdinova escreve em seu livro “O Espelho Vermelho”, a história e a retórica soviética deram aos russos a sensação de que eles estavam “vivendo em um país que era, em muitos aspectos, único e superior ao resto do mundo.” As pessoas podiam obter um senso de significado pessoal por fazer parte desse projeto soviético maior.

O fim da União Soviética poderia ter sido visto como uma libertação, uma chance de construir uma nova e maior Rússia. Mas Putin escolheu ver isso como uma perda catastrófica, que cria um sentimento de desamparo e uma identidade destruída. Quem somos nós agora? Nós importamos mais?

Como políticos de identidade em todos os lugares, Putin transformou essa crise de identidade em uma história de humilhação. Ele encobriu qualquer sentimento incipiente de vergonha e inferioridade declarando: Nós somos as vítimas inocentes. Eles — os americanos, os ocidentais, os caras legais de Davos — fizeram isso conosco. Como outros políticos de identidade ao redor do mundo, ele promoveu o ressentimento de status para aliviar as feridas do trauma, os medos da inferioridade.

Nos primeiros anos de seu reinado, ele reconstruiu a identidade russa. Ele reivindicou partes do legado soviético como algo para se orgulhar. Principalmente, sua visão da identidade russa girava em torno de si mesmo. Ao desfilar como uma figura poderosa no cenário mundial, Putin poderia fazer os russos se sentirem orgulhosos e parte de algo grande. Vyacheslav Volodin, então vice-chefe de gabinete do Kremlin, capturou a mentalidade do regime em 2014: “Não há Rússia hoje se não houver Putin”.

Essa grande estratégia parecia ter sido plenamente justificada naquele ano com a bem-sucedida invasão da Crimeia. Tendo recuperado esta terra, a Rússia poderia se exibir como uma grande potência mais uma vez. Cada vez mais, Putin se retratava não apenas como um líder nacional, mas como um líder civilizacional, liderando as forças da moralidade tradicional contra a depravação moral do Ocidente.

Mas agora está tudo fora de controle. As políticas de identidade de Putin são tão virulentas porque são tão narcisistas. Assim como os narcisistas individuais parecem ser egoístas inflados, mas são almas realmente inseguras tentando cobrir sua fragilidade, nações e grupos narcisistas que desfilam seu poder são frequentemente assombrados pelo medo de sua própria fraqueza. Os narcisistas anseiam por reconhecimento, mas nunca conseguem o suficiente. Os narcisistas anseiam por segurança psíquica, mas agem de maneiras autodestrutivas que garantem que estejam frequentemente sob ataque.

A identidade de Putin e a identidade russa são atualmente inseparáveis. A pergunta de um bilhão de rublos é: como um cara que passou a vida lutando contra sentimentos de vergonha e humilhação reage quando grandes partes do mundo o envergonham e humilham? Como um cara que passou a vida tentando parecer poderoso e visionário reage à medida que ele parece cada vez mais fraco e míope?

Imagino que, pelo menos por um tempo, Putin possa voltar à conhecida narrativa russa de “fortaleza sitiada”: o Ocidente está sempre atrás de nós. Sempre vencemos no final.

Houve indícios de que Putin poderia estar disposto a fechar um acordo com algum tipo de compromisso e se retirar da Ucrânia, mas isso seria um choque. Isso destruiria a identidade pessoal e nacional inchada e frágil que ele vem construindo todos esses anos. As pessoas tendem a não se comprometer quando sua própria identidade está em jogo.

Meu medo é que Putin conheça apenas uma maneira de lidar com a humilhação, que é culpar os outros e atacar. Há alguns anos, meu colega Thomas L. Friedman escreveu uma coluna presciente sobre a política da humilhação na qual citava Nelson Mandela: “Não há ninguém mais perigoso do que aquele que foi humilhado”.

Putin trouxe essa humilhação para si mesmo e para seu país. Falando como alguém que admira profundamente a cultura russa, acho um grande crime que uma nação com tantos caminhos para a dignidade e a grandeza tenha escolhido o caminho que leva tão cruelmente à degradação.
David Brooks, The New York Times

Pensamento do Dia

 


Orwell antecipou a sombra de Putin

O alistamento espontâneo de civis de diversas nacionalidades ao lado dos ucranianos desmonta uma certeza do filósofo francês (de direita) Luc Ferry: que nenhuma causa contemporânea mereceria a imolação da vida.

Estariam longe e abandonadas as paixões políticas, as empolgações estéticas (Maiakóvski saía no braço com seus interlocutores) e as identidades nacionais. Furores e arrebatamentos responsáveis por toneladas de mortes, principalmente no século passado.

Em sua conta não entram os fundamentalistas islâmicos, os tais homens-bomba — no caso, não seria sequer uma causa, mas um vácuo civilizacional.

O engajamento da população civil ucraniana, de outro lado, escande a identificação com um revelador instinto de nacionalidade, certamente para a desagradável surpresa de Putin, e em oposição ao conceito niilista e desossado de Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França.

Diante de Putin, parte da esquerda retomou o coro com a extrema direita. Bozo e o PCO se encontram do mesmo lado da trincheira — ele, porque jura ser seguidor da crença de Silas Malafaia; o grupelho, por lutar contra a vida alheia.


Não assusta outro naco da esquerda perfilar ao lado de Putin, portanto corroborando com as bombas sobre maternidades e asilos ucranianos, apenas para estar contra os Estados Unidos. É nesse instante que a obra-prima de George Orwell, “Homenagem à Catalunha”, mereceria entrar na cabeça dos putinescos de oportunidade.

Ao passar por Paris, e jantar com Henry Miller, glorioso autor da trilogia “Sexus”, “Nexus” e “Plexus”, Orwell contou-lhe que se juntaria às Brigadas Internacionais na luta contra Franco. Pacifista, Miller deu-lhe seu casaco. E disse: “Infelizmente não o protegerá das balas, apenas do frio”.

Como Putin agora na Ucrânia, os golpistas do general Franco não imaginavam ser ferozmente enfrentados por setores organizados da sociedade espanhola (sindicatos dos trabalhadores, principalmente) ou ainda por uma força internacional, num elenco estelar de intelectuais, como George Orwell, Ernest Hemingway, André Malraux e Arthur Koestler, entre muitos outros.

Talvez fosse ilusão.

Havia então uma crença. E um ingênuo romantismo.

As Brigadas Internacionais atraíram militantes de diversas nacionalidades, quase todos inexperientes em combates, mas apaixonados pela luta contra a tirania representada pelo General Franco e seu golpe num governo democraticamente eleito, levemente esquerdista, porém expressão do voto. A Guerra Civil Espanhola entraria para a História como sinônimo de traição às causas e às ideias.

Em 1936, à primeira vista, parecia não haver dúvida entre os opositores antifascistas. Franco deveria ser batido; a República, defendida; e não se negociava dar a vida em troca da liberdade.

Mesmo na superfície já ocorriam as clássicas divisões da esquerda. Comunistas não se bicavam com os trotskistas e os anarquistas, que desconfiavam de todos. Pareciam apenas divergências políticas, visões opostas na condução à vitória. O fascismo seria o único inimigo, escreveu Orwell em seu dramático relato.

Stálin não pensava assim. Porque ele era a sombra.

Orwell encarnava um tipo de intelectual que andou meio fora de moda até a atual guerra da Ucrânia. Acreditava nas suas ideias — e por elas, como Apollinaire ou Blaise Cendrars, pegou em armas, mesmo com a vida em risco.

Lutando na Catalunha, miliciano nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum), de inspiração trotskista, junto a um pelotão quase sem munição, passou fome, frio intenso, esteve sob feroz bombardeio, sofreu com os piolhos e acabou seriamente ferido. Por pouco não perdeu os movimentos do braço esquerdo — ao contrário de Bozo, não chorou.

Quando deixou o hospital, leu nos jornais comunistas que ele e seus companheiros do Poum eram fascistas. Com os anarquistas, se viam acusados de espionagem e traição. Andreu Nin, dirigente do Poum, já fora preso e “desaparecido”. Outros trotskistas também seriam eliminados. Estava em marcha a política stalinista de dizimação das forças opositoras a sua esquerda. Bastava espalhar mentiras (“espiões”) e os chamar de fascistas, talkey? Funcionou: milhares de trotskistas e anarquistas caíram presos — e mortos.

Ainda convalescente, Orwell, para não acabar como Nin, se escondeu dos franquistas e da polícia manietada pelos stalinistas. Dormiu nos escombros de uma igreja sem teto, nos canteiros de estradas, andou de esguelha pelas ruas, novamente passou fome. Mas não chorou. Tentou salvar seus companheiros, presos sob falsas acusações, mas, sem sucesso, teve de fugir da Espanha — dos franquistas e dos comunistas de Stálin.

A traição dos comunistas na Guerra Civil Espanhola custou a derrota da República, a vitória de Franco e uma ditadura sanguinária que matou milhares (entre eles, o poeta Federico García Lorca). Só terminou em 1975, com a morte do déspota.

Orwell chegou socialista. Mas saiu da Guerra Civil espanhola com a ideia de escrever “1984”, espécie de epitáfio do totalitarismo em nome da causa.

Putin é a sombra.

Para que servem os tribunais?

Numa aldeia, alguns camponeses que se haviam reunidos para ler os Evangelhos foram dispersados pelos guardas. No domingo seguinte voltaram a se reunir. Então o chefe dos soldados levantou-lhes um processo e levou-os a julgamento. Após um inquérito feito pelo juiz de instrução, o substituto redigiu uma ata de acusação, que o tribunal confirmou. Durante o requisitório foram apresentadas as provas do delito; eram os Evangelhos. Os camponeses foram deportados.

- É horrível! – Concluiu Nekliudov. – Será possível que isto é verdade?

- O que é que nisso o surpreende tanto?

- Tudo. Não falemos já no chefe dos soldados, mero executor e ordens, mas o substituto que redigiu a ata é um homem instruído...


- Aí é que está o erro. Estamos acostumados a creditar que os magistrados são homens modernos, de ideias liberais. Foi assim noutros tempos, mas agora é tudo diferente. São funcionários e apenas estão preocupados em que chegue o dia vinte de cada mês para receberem os seus vencimentos, que gostariam de ver continuamente aumentados. A isto se limitam os seus princípios. Julgam, acusam e condenam quem quer que seja.

- Mas existe alguma lei que permita deportar homens só porque se reúnem para ler os Evangelhos?

- Não só a lei permite deportá-los, mas até condená-los a trabalhos forçados quando se prove que se atreveram a comentar os Evangelhos de maneira diferente daquela que está estabelecida, pois isso constitui uma crítica ao comentário oficial. Ora, o artigo cento e noventa e seis pune com desterro o ultraje à fé ortodoxa.

- Isso não é possível!

- Afirmo-lho. Digo a todo momento aos senhores magistrados – continuou o advogado – que não posso vê-los sem sentir um profundo sentimento de gratidão para com eles, pois, se eu não estou na prisão, nem o senhor, nem toda a gente, é à sua benevolência que o devemos. Quanto a privar qualquer pessoa dos seus direitos civis e a deportá-la para um lugar mais ou menos longínquo, não há nada mais fácil.

- Sendo assim, se tudo depende da disposição do procurador ou das pessoas suscetíveis de aplicar ou não a lei, para que servem os tribunais?

O advogado soltou uma gargalhada.
Leon Tolstoi, "Ressurreição"

A guerra mundial contra os fatos

Vladimir Putin é um tirano bonapartista, típico do século 19. Para ele, a prosperidade só vem com o alargamento dos domínios territoriais. Exibicionista, proclama que seus armamentos são maiores que os dos outros. Aboletado no Executivo, atropela o Legislativo, subjuga o Judiciário e banca o pai forte do povo, passando por cima das mediações da democracia.

Outra faceta do autocrata de Moscou é sua obsessão por idolatrar o passado. O futuro dos sonhos dele é a restauração de uma fantasiosa glória pretérita (a sua “grande Rússia” parece o decalque de um mapa mistificado do século 18). Na verdade, mais do que bonapartista, seu ideário tem marcas de fascismo bruto.


Já se disse que a ambição do presidente russo poderia ser sintetizada no bordão “make Russia great again”. A boutade procede. O sujeito tem ares de um Trump em cenários de KGB, um Trump sem freios nem contrapesos. Aliás, ele faz tudo o que Trump gostaria de fazer e não consegue. Para trazer a conversa um pouco mais aqui para o nosso lado, ele é tudo o que Jair Bolsonaro gostaria de ser e jamais conseguirá ser. O russo parece um destes vilões trilionários de filme de 007, enquanto o presidente brasileiro nunca passou de lobisomem chinfrim de comédia de Mazzaropi. Vai daí que, tolerado pela China, bajulado pela Venezuela e elogiado discretamente por Trump, Putin é secretamente invejado pelo inquilino do Palácio da Alvorada.

Em resumo, quando o assunto é Vladimir Putin, figuras que parecem não ter nada em comum, como Maduro e Bolsonaro, entram num balé sincronizado. Por que será? O que faz vibrar na mesma frequência o trumpismo dos terraplanistas e o confucionismo maoísta do Partido Comunista Chinês? Por que os autocratas de Caracas, que enchem a boca para falar em “guerra anti-imperialista”, ganham eco no Palácio do Planalto, cujos ocupantes discursam em nome de “Deus” e da “família”? Que eixo transcontinental é este, tortuoso e rijo, que alinha corpos terrestres tão díspares?

As respostas para tais perguntas costumam denunciar equívocos nas análises de uns e outros, como se o apoio ao tirano russo decorresse de um defeito da razão ou de equívocos involuntários. Essas respostas têm sentido, claro, mas talvez não sejam a melhor explicação. É mais provável que o eixo libidinal do putinismo não tenha nada que ver com a razão – nada que ver com Otan, com fertilizantes, com petróleo, agronegócio ou geopolítica –, mas com o desejo. Os fãs de Putin, por mais arestas que tenham entre si, cultivam o mesmo ódio apaixonado e selvagem contra o que a civilização nos legou de melhor: o pensamento crítico, a liberdade em feitio de fraternidade e o primado da verdade de fato, também conhecida como verdade factual.

Eis por que estes brucutus que não sabem a diferença entre Crimeia e cremalheira se excitam diante das atrocidades milimetricamente calculadas pelo artífice da invasão armada da Ucrânia, que já matou aproximadamente 500 civis e já provocou a fuga de 2 milhões de pessoas. Putin angaria os fãs que tem – amuados ou ruidosos – não apesar de assassinar inocentes, mas justamente por não ter hesitação em dizimar quem quer que seja. Seu poder de atração não vem de um cálculo estratégico frio, mas do arrojo tanático, do manejo inescrupuloso do terror, da ausência de princípios e da desumanidade.

Agora, o ditador deflagrou uma guerra mundial contra a verdade de fato e contra a imprensa. Na sexta-feira, 4 de março, a Duma (o Parlamento russo), manietada por ele, aprovou uma lei proibindo o uso de palavras como “guerra” ou “invasão” para descrever os ataques russos contra a Ucrânia. Conforme estabelece a nova legislação, a guerra deve ser chamada de “operação militar especial”. Twitter e Facebook foram bloqueados. Os sites da BBC, da Voz da América e da Rádio Free Europe, interditados. O acesso à Deutsche Welle foi limitado. Ameaçadas, agências internacionais suspenderam ou reduziram as atividades no país. A guerra mundial contra a verdade dos fatos faz vítimas no mundo todo.

No lugar dos fatos, entram em cena as mentiras oficiais. Segundo a semântica do Kremlin, a “operação militar especial” foi deflagrada para libertar o povo ucraniano do “neonazismo”, e ninguém pode falar contra. Desde o dia 24 de fevereiro, estima-se que mais de 13 mil pessoas foram presas em protestos contra a guerra. Somente no domingo, dia 6 de março, as autoridades prenderam 4,3 mil manifestantes em Moscou e outras cidades, segundo números da ONG OVD-INFO.

Putin sabe que seu triunfo, cada vez mais incerto, depende de um nível planetário de desinformação industrializada e profunda. Seus apoiadores, velados ou descarados, sabem que estão no mesmo barco: se a verdade factual prevalecer, estão perdidos. Passa por aí a identidade dos estranhos que o admiram e a ele juram “solidariedade”. São “solidários” no repúdio às liberdades e aos direitos, são “solidários” na indústria internacional das fake news. Não é por ignorância que aplaudem o novo senhor da guerra – é por ódio.

Europa tem que parar de financiar a guerra de Putin

O presidente americano, Joe Biden, decretou um embargo de importações de petróleo bruto da Rússia, a fim de dar "mais um pesado golpe" na bárbara guerra de Vladimir Putin na Ucrânia: "Podemos dar este passo, se outros não podem", comentou.


Assim o político democrata se referia à autoimposta armadilha de abastecimento que é a dependência exagerada das importações de petróleo e gás russos. Cega para todos os riscos, a União Europeia caiu nela, mas sobretudo a Alemanha, desde 1998: 55% do gás natural e mais de 40% do petróleo consumidos no país são importados da Rússia.

Por décadas a fio, o lobby alemão da energia repetiu a cantilena de que uma dependência energética em relação à Rússia não trazia perigo, por ser recíproca: supostamente, o gigantesco império precisava tanto dos ingressos em euro quanto a Alemanha dos combustíveis russos.

Além disso, o slogan "Mudança através do comércio" (Wandel durch Handel), insinuava ser esse também um modo de apoiar supostas iniciativas de reforma do regime Putin. Na prática, contudo, só se legitimou esse regime, para poder fazer bons negócios.

Sob os chanceleres federais Gerhard Schröder e Angela Merkel, a política alemã dançou cegamente ao som desse canto de sereia. Assim chamados "especialistas" do Oxford Energy Institute, ligado ao setor econômico, ou do Conselho Alemão de Relações Estrangeiras (DGAP), próximo ao governo, engrossaram o coro, assim como outros "think tanks".

As advertências partindo dos EUA já estavam desacreditadas por princípio, devido ao antiamericanismo latente dos alemães: alegava-se que elas só visavam incentivar a exportação de energia americana, em interesse próprio.

Quanto às advertências dos governos do Leste Europeu e de uns poucos pesquisadores independentes, estas foram rapidamente descartadas sob o rótulo "saudosistas da Guerra Fria".

E agora a Alemanha está presa justamente na armadilha da energia contra a qual vem sendo alertada há décadas. E mais uma vez os EUA têm que colocar a mão na massa.

Constituindo entre 30% e 40% do orçamento russo, a exportação de petróleo e gás é a principal fonte com que Putin financia essa pavorosa guerra. Em 2021, os conglomerados estatais de Moscou embolsaram cerca de 180 bilhões de dólares em exportações de petróleo.

A estes, a cada dia se juntam outros 500 milhões de dólares – no momento, ainda mais, com a alta dos preços do combustível. Por sua vez, o gás natural exportado rendeu ao país 62 bilhões de dólares em 2021, segundo o Banco Central da Rússia.

A guerra custa diariamente a Putin cerca de 1 bilhão de dólares. Porém as reservas de divisas do Banco Central russo estão atualmente congeladas; o país não pode mais pedir empréstimos no mercado internacional, seus títulos de dívida estão classificados no nível "lixo".

"Petróleo garante o dinheiro, gás garante o poder", ouve-se há muito nos meios russos da energia. Portanto, se a intenção é realmente prejudicar Putin e sua cleptocracia – e não só o povo russo –, vai ser preciso reduzir seus ingressos através de um embargo do petróleo. O presidente Biden já deu o primeiro passo, a UE deveria segui-lo logo, na cúpula informal de dois dias em Versalhes iniciada na quinta-feira.

Do ponto de vista técnico, seria bem fácil aguentar um embargo desses: a Rússia atende a menos do que 5% da demanda global; o mercado mundial de petróleo é bem integrado, navios petroleiros podem entregar suas cargas por todo o mundo.

A Rússia até poderia vender partilhas menores à China ou à Índia, mas só com descontos consideráveis. Além disso, muitas nações industriais dispõem de grandes reservas do combustível, parte das quais já foi liberada, devendo bastar para vários meses. E se conseguirá que diversos exportadores por todo o mundo aumentem seu volume de produção de petróleo.

O próximo passo, contudo, é a UE e Berlim suspenderem a importação de gás russo. Isso atinge Putin ainda mais, pois só é possível redirecionar esse insumo até certo ponto. Tanto a Academia de Ciências Leopoldina quanto pesquisadores conceituados da Alemanha consideram viável uma suspensão das importações, também para o país.

Eles aconselham que se recorra ao gás natural liquefeito dos mercados internacionais, no curto prazo, e a um aumento do carvão mineral para produção de eletricidade, como substitutos parciais provisórios.

Na calefação doméstica, onde a demanda de gás natural é especialmente elevada, uma redução de apenas dois graus centígrados já resultaria numa economia considerável, sem que ninguém precise congelar. É claro que os preços de petróleo e gás na Europa vão subir. Por isso, os cidadãos de renda mais baixa necessitarão de apoio estatal, e para as empresas cabe um alívio fiscal.

Na falta de vitórias militares, Putin agora vai bombardear a população civil das cidades ainda mais, e de maneira ainda mais cruel – como já fez na capital tchetchena Grozny e em Aleppo, na Síria. Mas se continuarmos a financiar isso com nossas importações, tornamo-nos cúmplices desse crime de guerra.

Só com um rechaço consequente das matérias-primas russas se fará cair o império fóssil de Putin e sua brutal cleptocracia. Democracias liberais são mais poderosas do que qualquer autocracia: isso é o que está em questão, nada menos. Devemos estar prontos a pagar qualquer preço.
Jörg Himmelreich, professor afiliado da École Supérieure de Commerce à Paris