domingo, 30 de janeiro de 2022

Memória, História

George Orwell não ficara inteiramente satisfeito ao colocar um ponto final no manuscrito de “1984”. “O tema central é bom”, escreveu a seu agente literário em 1948, “mas a execução teria sido melhor se eu não estivesse às voltas com a tuberculose”. Foi internado num sanatório pouco depois da publicação do clássico, e morreu tísico aos 46 anos, consciente da importância do que escrevera. Na obra distópica, o protagonista Winston Smith aponta para o perigo maior daquele mundo totalitário descrito por Orwell, ultrapassando em horror a tortura e a morte: o Grande Irmão poderia se apossar do passado, da memória, da História. E decretar que este ou aquele evento jamais ocorrera.

No mundo não fictício de hoje não faltam candidatos a Grande Irmão — indivíduos, regimes, negacionistas doentios — tentados a se apossar do nosso passado para adequá-lo às próprias insânias. Só que, para poder reescrever a história dos mortos, esses agentes do esquecimento precisam conseguir cancelar a memória dos vivos. Nossa função é impedi-los. Daí a importância ardente de se homenagear, a cada 27 de janeiro, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. É preciso relembrar, ano após ano, de geração em geração.


No brutal inverno europeu de janeiro de 1945, faltando poucos meses para a capitulação da Alemanha nazista frente às tropas Aliadas, o Exército Vermelho vindo da União Soviética avançara fundo Polônia adentro. Já haviam libertado Varsóvia e Cracóvia quando olheiros os informaram de que encontrariam algo escabroso a caminho de Oswiecim. Era Auschwitz. Ali encontraram 648 cadáveres, pilhas de cinzas que um dia tiveram formas humanas, e cerca de 7.500 esqueletos ainda com vida. Naquele 27 de janeiro, o Holocausto teve expostas suas primeiras entranhas.

Auschwitz, como se sabe, foi o maior conjunto de campos de concentração e de extermínio nazista. Englobava desde complexos grandes, como Birkenau, ou Auschwitz II, onde Josef Mengele exercitava seus experimentos médicos em crianças e adultos, até várias dúzias de instalações satélites, menores. Das cerca de 1,3 milhão de pessoas deportadas para Auschwitz, 1,1 milhão ali pereceram. Ao final do conflito, 6 milhões de judeus e perto de 5 milhões de outros grupos (portadores de deficiências, homossexuais, ciganos) haviam sido massacrados. Através da erradicação de judeus e outros “indesejáveis”, a “solução final” de Hitler visava a purificar a raça ariana. O mapa do genocídio nazista praticado em Buchenwald, Ebensee, Majdanek, Mauthausen, Wöbbelin, Ravensbrück, Treblinka, Dachau e outros está minuciosamente documentado. É imperioso que seja relembrado como parte da desumanidade de que somos capazes. Como disse a um jornal de Israel Szmul Icek, um dos 15% de sobreviventes judeus de Auschwitz, “nós não ganhamos. Mas pudemos ensinar nossos netos a entender o que aconteceu”.

Três meses depois de os soviéticos se assombrarem com os campos poloneses, foi a vez de as tropas americanas descobrirem que o pior da guerra não estava nos campos de combate. Para os recrutas da 45ª Divisão de Infantaria que entraram em Dachau em 26 de abril de 1945, o primeiro estranhamento foi o cheiro acre a empestear o ar daquela cidade bávara. Pensaram tratar-se de resíduos químicos. Engano. No interior de 40 vagões de trem imobilizados nos trilhos, apodreciam os cadáveres de três quartos dos três mil prisioneiros. Diante do avanço das tropas aliadas, haviam sido despachados pelo comando nazista de Buchenwald para Dachau, para ali serem cremados. Morreram antes, asfixiados e desidratados. À entrada do campo propriamente dito, havia pilhas de corpos nus e pele esticada ao extremo. Dentro do campo restavam perto de 30 mil almas ainda perambulantes.

Segundo narrativas históricas, quando quatro oficiais alemães emergiram das sombras de Dachau empunhando um lenço branco, o tenente William Walsh os obrigou a se debruçarem sobre uma pilha de corpos e os executou com a própria pistola . Dezessete outros alemães foram ali abatidos num descarrego coletivo de metralhadoras que durou 17 segundos. Nenhuma guerra é bela.

Coube ao general americano Dwight Eisenhower, comandante supremo das Forças Aliadas (e posteriormente 34º presidente dos Estados Unidos) a decisão de visitar um campo de concentração antes mesmo do final dos combates. Por via das dúvidas, fez-se acompanhar dos estrelados generais George Patton e Omar Bradley. “A evidência visual e o testemunho verbal de crueldade, inanição e bestialidade foram tão avassaladores que me senti mal...”, declarou depois. “Fiz a visita deliberadamente, para poder prestar testemunho de primeira mão caso algum dia, no futuro, surja uma corrente que queira classificar essas afirmações como mera ‘propaganda’.” A História e a memória agradecem.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Pátria negacionista

É assustador assistir as lideranças do atual governo negando a qualidade das vacinas criadas pela ciência e defendendo a qualidade de remédios sem qualquer comprovação científica. Mais grave, estas não são as únicas manifestações negacionistas do governo, do presidente, seus ministros e muitos de seus seguidores. Eles colocam crenças criadas por instigadores ideológicos como verdade, mesmo que a ciência mostre que são ideias falsas. Acreditam nas fake news, que eles criam. Uma estratégia de enganação que leva as pessoas e seus grupos sociais a negarem a realidade e com isto assustar a população. O Brasil atravessa um momento em que seu presidente e seu governo tomam decisões com base em ilusões que eles próprios criam. Aos poucos vão aumentando mortes e afundam o país.

O que faz este momento ainda mais grave, é que a oposição também aposta nas suas próprias negações da realidade. Uma dessas é negar os riscos à democracia, por causa de divisão das forças democráticas. Não há percepção de que o divisionismo entre mais de dez candidatos pode levar o processo eleitoral na direção de um segundo turno, no qual os opositores a Bolsonaro terão dificuldades em subirem no palanque, para pedir votos para aquele ou aquela que chegar ao segundo turno. Desde o início do processo eleitoral, percebe-se que o divisionismo enfraquece as forças democráticas que se digladiam como inimigas. O negacionismo impede perceber esta realidade e seus riscos. Impede também perceberem que o PT e Lula conservam uma força que deve levá-lo ao segundo turno, porque as lideranças políticas da terceira via foram incapazes de oferecer ao país uma alternativa e atrair apoio eleitoral para ela.

Da mesma forma, o PT vive seus negacionismos uma vez que não percebe que a força que tem dificilmente elege sozinha seu candidato, diante da rejeição que ainda sofre. E que, se vencer sozinho a eleição, dificilmente conseguirá governar.

Esta é uma pátria de políticos negacionistas.

O imbecil privado

Os anticomunistas mais fanáticos e perigosos costumam ser aqueles que já militaram do outro lado, não porque íntimos das entranhas da baleia mas porque raramente se conformam com ter sido “enganados” pelos prosélitos da antiga crença. Passionais e agressivos, apelidei-os, faz tempo, de “cornos ideológicos”, tendo em mente cornudos antológicos como Carlos Lacerda, que foi um inflamado integrante da Juventude Comunista antes de se transformar no mais incendiário anticomunista do País.

Tudo no Brasil se deteriorou tanto nos últimos anos que o Lacerda que nos coube ter neste início de milênio foi o dublê de professor, “filósofo” e astrólogo Olavo de Carvalho. Se acreditasse em bruxarias, juraria que o guru do bolsonarismo acabou vítima de um canjerê coletivo. Sua morte, no início da semana, foi saudada nas redes sociais até por quem considera a empatia um dever de todos para com todos, sem exceção daqueles que a desqualificam e hostilizam.


Só o vi uma vez, de longe, na missa de sétimo dia de Paulo Francis, em fevereiro de 1997, mesmo ano em que, com outros escribas, partilhamos a seção de ensaios da revista Bravo!. Ainda nos tangenciamos como prefaciadores da reedição dos romances de Aldous Huxley.

As duas vezes em que nos falamos, por telefone, foi para colher impressões e lembranças de minha convivência com Otto Maria Carpeaux. Ele preparava uma coletânea de ensaios de Carpeaux para a Topbooks, que resultou, aliás, num belo trabalho editorial. Aí veio o novo século e nunca mais nos cruzamos.

Ainda bem. Pois seria constrangedor ter de lidar com o monstro ressentido que Olavo pôs na praça e foi lapidando. Olavo não era “polêmico”, era picareta. Sua magnum opus O Imbecil Coletivo, é um subproduto do Manual do Perfeito Idiota Latino-americano, do jornalista Carlos Alberto Montaner, guzano conspirador exilado na Espanha, que por algum tempo teve livre trânsito na imprensa daqui.

Para Gregório Duvivier, o escatológico panfletário da nossa extrema direita “não conseguiu ter razão um dia sequer”. Olavão foi “o catalisador do que de pior já se pensou e projetou para o Brasil”, lascou Paulo Roberto Pires no site da revista 451.

Tabagista militante, negacionista com ascendente em terraplanismo e fixação anal, o embusteiro com pança de caubói e caçador transfigurou-se numa usina de mentiras, insultos e idiotices (a pandemia não existe, vacinas matam, a Pepsi é fabricada com fetos abortados etc), o que explica por que o governo, rompendo seu macabro silêncio sobre milhares de outras mortes por covid, decretou luto oficial em sua homenagem. Prevaleceu a gratidão.

Mapa do Brasil

 


Como dialogar com um terraplanista

Você precisa estar preparado. Em algum momento irá acontecer. Pode ser no almoço de família, no escritório, no ônibus, na sala de espera do dentista. Provavelmente, de imprevisto:

— Só acredito no que vejo. Isso da Terra ser redonda, por exemplo, vai contra todas as evidências…


O truque é baixar um pouco a voz, ao mesmo tempo que se debruça sobre o seu interlocutor. Pouse a mão no ombro dele, e então, revele o terrível segredo:

— Claro que a Terra é plana, amigo. Aliás, planíssima. Vivemos num universo bidimensional…

Pode ocorrer um breve instante de dúvida. O terraplanista hesitará:

— Num universo bidimensional? Como assim?

— Só temos duas dimensões. O nosso cérebro nos engana… Ele nos faz crer que vivemos num universo com três dimensões. Pura ilusão…

— Jura?!…

— Sim! Sim! A prova são as galinhas…

— As galinhas?!

— Precisamente. As galinhas têm consciência de que vivemos num universo bidimensional. Se você desenhar um círculo à volta de uma galinha ela não tentará sair do círculo. Ela sabe que não pode sair, que o salto é uma ilusão. Daí que o símbolo do nosso movimento seja uma galinha…

— Uma galinha?!

— Uma ou duas, tanto faz…

— Isso é verdade? Isso das galinhas ficarem dentro do círculo?!

— Totalmente. Você pode fazer a experiência em sua casa. Compre uma galinha e faça a experiência. Agora, tenha muito cuidado, os reptilianos não querem que ninguém descubra a verdadeira natureza do nosso universo. E, como deve saber, os reptilianos governam o planeta…

— Os reptilianos?!

— Aliens. Extraterrestres, que colonizaram a Terra e ocupam o corpo de governantes. Os reptilianos vêm de um universo paralelo tridimensional…

— Bolsonaro também?!

— Não! Mito é nosso líder! Um sujeito lúcido, um combatente! Sábio, como as galinhas. Mito foi o primeiro a compreender que vivemos num universo bidimensional. Se você desenhar um círculo à volta dele, o homem não sai.

—Incrível!

— Veja agora, a pandemia e as vacinas… Você sabe qual o verdadeiro objetivo das vacinas?

— Qual?!

— Me diga primeiro, o senhor já foi vacinado?

— Eu não! Deus me livre!…

— Perfeito… O objetivo das vacinas é transformar as pessoas, cada homem, cada mulher, em reptilianos…

— Ah! Em jacarés?!…

— Precisamente…

Por esta altura, talvez seja bom fazer uma pausa para que o terraplanista consiga assimilar todas as revelações. A verdade pesa, mas é melhor do que viver na ilusão dourada da Matrix. Chegou a hora de mostrar a pílula vermelha:

— Você quer mesmo combater os reptilianos?

— Com certeza! Podem contar comigo…

— Então vá para casa e desenhe um círculo em torno de si próprio…

— E depois?! Como farei para sair?!…

— Primeiro, você precisará se transformar num ser unidimensional. Basicamente, num ponto…

— Num ponto?!…

— Isso. Num ponto. Ou numa linha. Os reptilianos não têm como ocupar corpos unidimensionais.

— E como faço para me transformar num ponto?

— Você fica dentro do círculo, lendo Olavo de Carvalho. É uma questão de tempo até se transformar num ser unidimensional.

— Genial! Muito obrigado.

De nada, amigo. Sempre ao dispor.

Repartir para crescer

Observando a série de declarações dos economistas vinculados aos candidatos à Presidência, percebe-se, além da escassez de criatividade, a incidência de um erro elementar quando mencionam o problema da desigualdade social.

Todos eles afirmam que a economia precisa primeiro crescer para depois serem implementadas políticas atenuantes da concentração de renda. Ignoram, portanto, que o correto é exatamente o contrário. Isto é: o esmaecimento dos extremos contrastes sociais constitui poderoso promotor do desenvolvimento econômico.


Nos primórdios do ideário desenvolvimentista brasileiro, tanto durante governos democráticos quanto autoritários, era comum ouvir afirmações do gênero “antes o bolo tem que crescer para depois ser distribuído”. Mas hoje, após a frequência de insuficientes e flutuantes momentos de crescimento do PIB, tornou-se evidente que se esperarmos o alcance de elevadas e estáveis taxas de expansão econômica, a melhoria da equidade social jamais acontecerá. Na verdade, essa espera é equivocada e danosa à nação.

Enquanto políticas públicas de caráter redistributivo não forem executadas, a economia continuará na mesma pasmaceira. Isto porque tais políticas expandem o poder de compra de substancial parcela da população, num montante suficiente para impulsionar investimentos e criar empregos.

Quando o Brasil era um país essencialmente rural, a expansão da economia resultava das exportações agrícolas, tipo cana e café. Depois, os períodos mais longos de maior crescimento do PIB foram gerados pela substituição de importações de produtos industrializados, processo já esgotado. Agora, a conquista de prosperidade perene depende do intenso alargamento do consumo interno de bens e serviços.

Além do uso de instrumentos tributários, salariais e previdenciários, um processo democrático e ordenado de amenização das disparidades de renda enfatiza investimentos em setores produtores de bens e serviços que pesam proporcionalmente mais no orçamento das famílias de menor renda, ou que a elas são inacessíveis, apesar de essenciais.

Sim, existem as dificuldades fiscais, monetárias, administrativas, etc. que limitam o ímpeto da busca de maior equidade. Mas o enfrentamento dessas dificuldades não é incompatível com a amenização das disparidades de renda.

Precisamos reconhecer que o grande obstáculo à melhoria da equidade encontra-se no âmago da sociedade brasileira, explicitado pela indiferença ao tema por parte da classe política. É por isso que perdura meu pessimismo em relação ao que um próximo governo realizará.

Pouco podemos almejar de candidatos cujos assessores acreditam que a implementação de políticas atenuantes da concentração de renda devem ser precedidas pelo crescimento da economia. Ou que a ênfase deva ser atribuída a transferências assistenciais similares ao Bolsa Família.

O poder da estupidez

Não é difícil compreender como o poder político, econômico ou burocrático aumenta o potencial nocivo de uma pessoa estúpida. Mas temos ainda de explicar e perceber o que torna essencialmente perigosa uma pessoa estúpida, ou seja, em que consiste o poder da estupidez.

Os estúpidos são perigosos e funestos principalmente porque as pessoas razoáveis acham difícil imaginar e entender um comportamento estúpido. Uma pessoa inteligente pode entender a lógica de um bandido. As ações do bandido seguem um modelo de racionalidade. O bandido quer algo “ mais “ na sua conta. Dado que não é suficientemente inteligente para cogitar métodos com os quais obter algo “ mais “ para si, proporcionando ao mesmo tempo algo “ mais “ também os outros, ele obterá o seu algo “mais “ causando algo “ menos “ ao seu próximo. Tudo isto não é justo, mas é racional e se somos racionais podemos prevê-lo. Em suma, podemos prever as ações de um bandido, as suas sujas manobras e as suas deploráveis aspirações e muitas vezes podemos preparar as defesas apropriadas.

Com uma pessoa estúpida tudo isto é absolutamente impossível. Como está implícito na Terceira Lei Fundamental, uma criatura estúpida persegui-lo-á sem razão, sem um plano preciso, nos tempos e nos lugares mais improváveis e mais impensáveis. Não há qualquer maneira racional de prever se, quando, como e porquê, uma criatura estúpida vai desferir o seu ataque. Perante um indivíduo estúpido está-se completamente vulnerável.

Dado que as atitudes de uma pessoa estúpida não são conformes às regras da racionalidade, disso resulta que :

a) geralmente somos apanhados de surpresa pelo ataque;

b) quando temos consciência do ataque não conseguimos organizar uma defesa racional, porque o ataque em si não tem qualquer estrutura racional.

O fato de a atividade e os movimentos de uma criatura estúpida serem absolutamente erráticos e irracionais, não só torna a defesa problemática como torna ainda extremamente difícil qualquer contra-ataque – é como tentar disparar contra um objecto capaz dos mais improváveis e inimagináveis movimentos. Isto é o que Dickens e Schiller tinham em mente quando um deles afirmou que “ com estupidez e boa digestão o homem pode enfrentar muitas coisas “ , e o outro que “contra a estupidez os próprios Deuses combatem em vão “.

Devemos ter ainda em conta uma outra circunstância. A pessoa inteligente sabe que é inteligente. O bandido tem consciência de ser um bandido. O crédulo está penosamente ciente da sua própria credulidade. O estúpido, ao contrário de todos estes personagens, não sabe que é estúpido. Isso contribui decisivamente para dar maior força, incidência e eficácia à sua ação devastadora. O estúpido não é inibido por aquele sentimento a que os anglo-saxônicos chamam self-consciousness. Com um sorriso nos lábios, como se fizesse a coisa mais natural do mundo, o estúpido aparecerá inopinadamente para lhe dar cabo dos seus planos, destruir a sua paz, complicar-lhe a vida e o trabalho, fazer-lhe perder dinheiro, tempo, bom humor, apetite e produtividade – e tudo isto sem malícia, sem remorsos e sem razão. Estupidamente.
Carlo M. Cipolla

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A ironia que nos salva

Vivemos nessa selva. A imensa maioria está doente de impotência e de ressentimento. E alguns poucos como nós, marginais doentes de nostalgia e presos ainda a um punhado de valores que alguém nos mostrou alguma vez serem universais, sobrevivemos apenas à força da ironia. Neste contexto social individualista, decadente e cada vez mais violento, que para muitos é a inevitável pós-modernidade, é impossível alcançar o equilíbrio. Para os que ainda acreditamos na superioridade da ética, e conservamos um ou dois princípios, e emperdenidamente acreditamos na existência de utopias que valem a pena, o equilíbrio em si se transforma em utopia. Porque, na pós-modernidade, todas as forças se desataram com exagero: há mais gente, mais carências, mais fome, mais injustiças, mais filhos da puta, mais conflitos e cada vez mais graves. O individualismo à antiga é a única coisa que lhes permite sobreviver, só que à custa da loucura e da selvageria
Mempo Giardinelli, "Impossível equilíbrio"

Bolsonaro hipoteca o futuro

O governo Bolsonaro é ruim em muitas áreas, mas é especialmente sofrível na educação. Ao longo desses três anos, o presidente deu mostras seguidas de que desconhece a importância da educação para o presente e o futuro do País, como também não faz ideia do papel que a União deve ter na coordenação e no diálogo com Estados e municípios a respeito das políticas educacionais. Trata-se de um escândalo completo, mas é também a natural decorrência da própria natureza do bolsonarismo. Um grupo que só se dedica a destruir é necessariamente incompetente para lidar com uma área cuja essência é construir.

O governo Bolsonaro destrói até o próprio discurso. Sem nunca ter apresentado nenhuma proposta para a educação, o bolsonarismo optou pelo caminho das ideias simplistas – e equivocadas. Por exemplo, mais de uma vez, o Ministério da Educação de Bolsonaro criticou a ampliação do acesso ao ensino universitário, como se fosse um capricho caro, desnecessário e incapaz de contribuir para a produtividade do País. A prioridade bolsonarista seria a educação básica, que inclui as três etapas iniciais: educação infantil, ensino fundamental e ensino médio.

É uma obviedade, diga-se de passagem, priorizar o ensino básico. Ninguém discorda dessa ideia, nem mesmo quem defende ampliar o acesso à universidade. Afinal, a educação básica de qualidade é condição para qualquer avanço na formação das novas gerações.


No entanto, nem mesmo aquilo que seria, em tese, uma prioridade do governo Bolsonaro é levado a sério. Os vetos de Jair Bolsonaro relativos ao orçamento do Ministério da Educação de 2022 atingiram especialmente a educação básica. De um total de R$ 739,9 milhões de cortes na área educacional, R$ 402 milhões referem-se à educação básica, segundo o Todos Pela Educação.

A entidade emitiu um parecer mostrando preocupação com a decisão do governo. “A retomada das aulas presenciais, com todas as implicações decorrentes da pandemia, não suporta o corte no montante previsto e aprovado pelo Congresso na forma de emendas de comissão e de previsão de despesas discricionárias. Foram atingidas pelos vetos ações de responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) relacionadas ao desenvolvimento da Educação Básica (R$ 325 milhões), infraestrutura (R$ 55 milhões) e transporte escolar (R$ 22 milhões). Essas ações são utilizadas para apoiar Estados e municípios na educação básica, especialmente em programas estratégicos, como o fomento às escolas de ensino médio em tempo integral”, disse a nota.

Além disso, essas programações de investimento já vinham sendo objeto de baixa execução por parte do Ministério da Educação. Por exemplo, até o segundo quadrimestre de 2021, houve queda de 63% na dotação discricionária de infraestrutura da educação básica. O Todos Pela Educação alerta que a falta de prioridade do governo em relação à educação básica coloca Estados e municípios “à mercê das indicações de emendas impositivas e de relator”.

Esta é a realidade do governo Bolsonaro: incompetência, omissão e confusão. Nunca é demais lembrar que Jair Bolsonaro chegou ao acinte de nomear para a chefia do Ministério da Educação o sr. Abraham Weintraub, aquele que, no cargo, bateu recordes de ineficiência e agressividade e ainda saiu às pressas do País, após ser incluído como investigado no inquérito referente a ameaças contra o Supremo Tribunal Federal. Como se isso não bastasse, o sr. Milton Ribeiro, sucessor de Weintraub, é também especialmente hábil em manifestar sua absoluta falta de afinidade com a administração de políticas públicas educacionais.

Enquanto corta verbas do ensino básico, Bolsonaro se esforça para manter e até mesmo ampliar os recursos requeridos por parlamentares para se promoverem e disputarem eleições. Ou seja, Bolsonaro hipoteca o futuro das crianças – que não votam – para pagar a conta de sua sobrevivência política. Assim, a passagem de Bolsonaro pelo poder deixará sequelas terríveis nas próximas gerações.

Guedes será lembrado como maior inimigo da Previdência, que ainda ampara os brasileiros

O corte de quase R$ 1 bilhão do Orçamento da Previdência Social, para este ano, indica que tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto o ministro Paulo Guedes não têm o menor apreço pelos aposentados e pensionistas. Vai faltar dinheiro para atender as demandas dos brasileiros, especialmente os que precisam do auxílio-doença e de perícias médicas.

Essa dupla sinistra está apostando no caos e no sofrimento dos que precisam do INSS, justamente o povo mais pobre. Que falta de humanidade…

Como pode um governante, após fazer esse corte absurdo, ainda ter audácia para falar em Deus, Família e Pátria? Pura falácia e palavras ao vento. Tentam enganar o povo evangélico, que também sofre na pele os efeitos dessa política antissocial. Não adianta os pastores defenderem o governo nos cultos, pois ninguém muda a realidade com discurso.


O ministro Paulo Guedes sempre sonhou com o fim da Previdência Social. Tentou implantar o modelo de capitalização da Previdência, que seria gerido pelos grandes bancos e fracassou no Chile, onde está sendo reformulada.

Atender aos banqueiros é a especialidade de Guedes, que sempre viveu e enriquecer no mercado financeiro. É a área dele, nada a ver com o social. E o presidente não pode o demite, porque teme perder o apoio do Sistema Financeiro. Guedes é o braço dos Bancos.

No Chile, a equipe dos chicagoboys que Guedes integrava conseguiu destruir a aposentadoria pública, na era do ditador Augusto Pinochet. Aqui no Brasil, na reforma da Previdência, os militares ficaram de fora e o Congresso não embarcou nessa empreitada de Guedes. O ministro ficou possesso, não suporta ser contrariado.

Bem, neste ano Guedes ainda não conseguirá a capitalização da Previdência, pois em época de eleição os parlamentares não fazem maldades. Mas esperem 2023, se Bolsonaro vencer…

Até lá, está sendo preparado o terreno, com esse do corte de quase 1 bilhão no Orçamento do INSS. Vai faltar dinheiro para atender as demandas dos brasileiros.

O objetivo é sucatear o sistema, impedir a contratação de novos funcionários, para substituir os que vão se aposentando, e, com isso, jogar a opinião pública contra o INSS.

Estará assim armado o circo para um novo sistema de aposentadoria, que Guedes vai apregoar como o melhor dos mundos de Voltaire. E mais para a frente, quando os jovens de hoje se tornarem idosos e forem receber os proventos da aposentadoria capitalizada, ficarão frustrados e desesperados, conforme os chilenos estão agora.

Não adiantará poderá culpar nem Guedes nem Bolsonaro, porque daqui a 40 anos esses dois insensíveis estarão na lata do lixo da História.

Outra coisa, os cortes na Educação demonstram que esses governantes também não tem compromisso com os brasileiros que frequentam as escolas públicas. Com isso, condenam a classe trabalhadora a ficar excluída da nova matriz tecnológica baseada na informática, na robótica e na automação.

Não temos computadores individuais para os alunos das escolas públicas. Em outros países, além de tablets, é oferecido o 5 G para todos se conectarem.

E o Brasil vai ficando para trás, de retrocesso em retrocesso. Será que ainda há por aqui brasileiros que concordem com isso? Veremos na eleição.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Pensamento do Dia

 

Pete Kreiner (Austrália)

Memória do Holocausto e pandemia

O ex-chanceler Ernesto Araújo comparou medidas de isolamento social a campos de concentração nazistas. O senador Flávio Bolsonaro e o secretário de Cultura, Mario Frias, divulgaram um vídeo com trechos de “A lista de Schindler” e uma frase ao fim: “Não é a primeira vez que pessoas são classificadas em ‘essenciais’ e ‘não essenciais’”.

O ex-ministro Ricardo Salles disse que um artigo crítico a ele na imprensa alemã parecia “o que a própria Alemanha fez com as crianças judias”. “Omitir o uso da cloroquina é o mesmo que deixar judeus na dúvida entre chuveiro e câmara de gás”, segundo o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Para Augusto Nunes, da Jovem Pan, ações contra o dono de uma pousada em Fernando de Noronha que recusara a vacina lembravam “o autoritarismo nazista contra judeus”. E a lista continua.

Setenta e sete anos após a libertação de Auschwitz, o mundo observa hoje o Dia da Memória do Holocausto. No Brasil do extremismo político e da pandemia, a data exige uma reflexão especial.

O assassinato em escala industrial de milhões de judeus, além de outras minorias, foi arrastado ao centro do debate político por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, sobretudo no contexto da pandemia. Um ingrediente nesse caldo nefasto é a relativização do genocídio nazista, usado como arma retórica, “comparável” a supostas vítimas da luta contra a Covid-19.

Outro ingrediente, menos evidente, porém tão pernicioso quanto, é a disseminação da lógica negacionista.

Em sua prática e técnica, os negacionismos histórico e científico são duas faces da mesma moeda. Trata-se, em ambos os casos, de negar fatos bem estabelecidos por evidências, sejam elas resultado de experimentos controlados ou de robusta documentação histórica.

Sofismas contra a vacina se arvoram numa estrutura conhecida. “Não sou antivacina, mas os imunizantes para Covid-19 foram feitos rápido demais, são experimentais, não sabemos seus efeitos de longo prazo, a técnica é muito nova e pode interferir no seu DNA, há interesses da indústria farmacêutica.”

Note a estrutura: pega-se um detalhe que é até verdadeiro, como “foram feitos em tempo recorde”. Remove-se o contexto — a tecnologia básica desenvolvida ao longo de décadas, o esforço, a cooperação e o investimento inéditos trazidos pela pandemia — para encaixá-lo num quadro de conspiração.

Negacionistas do Holocausto argumentavam que a bula do veneno Zyklon-B, usado nas câmaras de gás, mandava ventilar o ambiente por 48 horas após seu uso. Então, como os nazistas poderiam entrar nas câmaras para retirar os corpos sem morrer? Contexto omitido: a bula pressupunha o uso do gás como inseticida, e não (por razões óbvias) para extermínio humano em massa, em galpões vazios e por carrascos com máscaras.

O negacionista, em todas as suas cepas, posa de questionador intrépido ou inocente curioso. Diz o senso comum que quem não tem nada a esconder não teme perguntas. Mas quem questiona querendo conhecer a verdade — e não tentando manipulá-la — ouve as respostas, não insiste na pantomima de que supostos enigmas de soluções bem conhecidas, aceitas pela comunidade de especialistas e reiteradas centenas de vezes, seguem “em aberto”.

Setenta e sete anos depois, há no mainstream brasileiro quem veja equivalência possível entre o judeu na câmara de gás e o dono da pousada. Quem use as ferramentas do negacionismo como arma política contra a promoção da saúde. A eles, repetiremos em uníssono, hoje e sempre: nunca mais.

A derrota do otimismo

Quando a pandemia começou, tentei ver a situação pelo lado positivo. Foi muito difícil, mas havia alguns vagos fiapos aos quais nós, polianas inveteradas, podíamos nos agarrar: afinal, estávamos vivendo uma experiência rara, que passaria aos livros de História.

Qualquer pessoa de bom senso sabe que experiências históricas devem ser evitadas a todo o custo; mas também é sabido que pessoas otimistas por natureza, como é meu caso, não têm bom senso — as condições são excludentes.

O fato é que vimos imagens inéditas das grandes metrópoles inteiramente vazias; descobrimos pontos de luz e de solidariedade em vizinhos que cantavam nas janelas e tentavam transmitir coragem uns aos outros; vibramos com o aplauso coletivo para os heróis da área da saúde; aprendemos coisas que nem imaginávamos sobre vírus e transmissão de doenças.

Cheguei a escrever sobre a importância do nosso papel como testemunhas, e disse aos meus netos para prestarem muita atenção ao que acontecia à sua volta, porque, no futuro, os seus netos lhes farão perguntas sobre os tempos que vivemos.

Juntei aos poucos livros que já tinha sobre pragas e pandemias medievais uma pequena biblioteca sobre a Covid. Acho que nunca li tanto sobre um mesmo assunto em tão pouco tempo.


Ainda na semana passada, por exemplo, recebi “Plague, pestilence and pandemic: Voices from History”, de Peter Furtado, que traz depoimentos em primeira pessoa de gente que passou por pragas, pestes e pandemias, ou ouviu histórias de quem as havia enfrentado. Há relatos que vêm desde a Peste de Atenas em 430 a.C. — aquela que matou Péricles — até a Covid-19. Todos são previsivelmente parecidos, inclusive em relação aos propagadores de fake news, espécie tão antiga e maligna quanto os piores vírus. Abrindo as páginas ao acaso é impossível saber de que época ou de que peste se fala; a Humanidade não muda. A única diferença de nós para as vítimas de mil ou dois mil anos atrás é que nós já conhecemos a causa do que nos mata e, tendo desenvolvido vacinas, conseguimos nos proteger melhor. O livro é muito atualizado e bem pesquisado, ainda que vagamente desconjuntado e difícil de ler.

Enfim, fiz o que pude para não desanimar por completo, mas esta pandemia, como as demais, não tem aspectos positivos. No varejo, talvez seja possível apontar melhores hábitos de higiene ou a guinada do trabalho on-line mas, no atacado, a experiência é triste, traumática e assustadora.

No Brasil é, acima de tudo, profundamente exaustiva, porque além de brigar contra o vírus, temos também de brigar contra autoridades obscurantistas e debochadas e um presidente destituído de qualquer qualidade humana.

Não há otimismo que sobreviva a tanta estupidez.

Não há otimismo que sobreviva à perversidade contínua de um governo que faz de tudo, o tempo todo, para atrapalhar onde pode e destruir o que consegue.

Não há otimismo que sobreviva à gente precisar bater na mesma tecla, dia após dia, sem que nada aconteça.

Não há otimismo que sobreviva a um país que virou uma farsa.

'Esquecer seria o pior de tudo"

David Olère 
Para mim é incompreensível que nos nossos países, na Europa, exista gente que se identifica com os nazistas, com essa ideologia. Isso é mais do que um tapa na cara de milhões de vítimas, vítimas indefesas, cuja vida foi tirada sem qualquer escrúpulo. Para nós, sobreviventes, é inconcebível se identificar com essa ideologia
Leon Weintraub (96 anos), sobrevivente que perdeu 64 pessoas da família

Hoje é o Dia do Holocausto para que a humanidade jamais esqueça

Há 77 anos, no fim da Segunda Guerra Mundial, o Exército Soviético, depois de intensa luta, tomava e libertava Auschwitz, na Polônia, o maior e mais terrível campo de concentração nazista, no qual milhares de judeus foram assassinados.

Devido a esse fato histórico, 27 de janeiro é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Essa data foi instituída pelas Nações Unidas e faz com que jamais esqueçamos os milhões de seres humanos que foram brutalmente assassinados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial para impor a insana ideologia política que haviam criado, a da supremacia ariana.

Há informações de que apenas em Auschwitz, na Polônia, cerca de 1,5 milhão de pessoas tenham sido exterminadas no período, tudo para atender à insanidade dos nazistas da propagada “supremacia étnica” ariana.

Esse triste período da humanidade é historicamente denominado Holocausto. Para os judeus, Shoah, palavra hebraica que significa, literalmente, “destruição, ruína, catástrofe”, é a expressão para denominar o aniquilamento metódico –perseguição, exclusão socioeconômica, expropriação, tortura, trabalho forçado, fome, prisão sem motivo e extermínio de seis milhões de judeus da Alemanha e da Europa ocupada entre 1933 e 1945 pelo regime nazista

Enfim, a prática e a contínua evolução da técnica do assassinato em massa de seres humanos objetivando um extermínio seletivo.

David Olère (1902-85), pintor de Auschiwitz, 

No período, os seis milhões de judeus assassinados – homens, mulheres e crianças – representavam 65% da população judaica europeia e 30% da população judaica mundial. O Holocausto tornou-se o símbolo representativo da barbárie do século XX.

Há diversas suposições que tentam explicar a ideia fixa dos nazistas de que o povo judeu era inferior e, portanto, deveria ser exterminado. Alguns até escreveram que a causa para a desmedida crueldade se deu por supostos fatos religiosos, já que judeus condenaram Jesus à morte – o que significa patente distorção da verdade, pois Jesus foi condenado pelos romanos. Jesus Cristo nasceu, viveu e morreu como judeu.

Porém, a teoria que mais parece merecedora de crédito é a que afirma que o objetivo do extermínio ocorreu devido à alta concentração de riqueza pelos judeus, principalmente pelo fato de muitos deles serem donos de instituições financeiras e empresas bem sucedidas. Assim, fica claro que o objetivo era tomar todos os bens dos judeus – em português claro: roubo, confisco.

O Holocausto não foi praticado de uma só vez, foi um processo doloso aplicado por etapas, sem Hitler ter levado em consideração que na Primeira Guerra Mundial cerca de 100 mil soldados judeus alemães lutaram pela Alemanha, tendo 12 mil morrido em combate.

A primeira etapa (1933/1935) foi a da identificação dos judeus, sua separação social e início da exclusão da vida pública, com medidas como proibição do exercício de profissões liberais, de frequência a escolas e universidades e de boicote contra lojas judaicas.

A segunda (1935/1938) foi a de isolamento e degradação dos judeus, etapa que se inicia com as Leis de Nuremberg. Os judeus deixavam se ser reconhecidos como cidadãos e eram proibidos de se casar com “arianos”. Se não obedecessem. eram punidos com a morte.

Na terceira fase (1938/1941), iniciada a partir da “Noite dos Cristais Quebrados” – a primeira chacina de judeus do século XX – assinala o princípio da violência física desmedida contra o povo judaico e o envio de seus membros para os campos de concentração.

Nessa fase, os judeus foram radicalmente expulsos da vida econômica e financeira na Alemanha. Todo o patrimônio foi confiscado pelo Estado alemão. Nesse período, começa a Segunda Guerra Mundial, a expansão do “espaço vital” da Alemanha nazista com a invasão de outros países, a forte elevação do número de vítimas, o aumento do número dos campos de concentração e também se inicia o confinamento dos judeus em guetos.

A quarta e última fase (1941/1945), é a denominada “Solução Final da Questão Judaica”: a do extermínio em massa dos judeus pelas “operações móveis de assassinato” formadas pela cruel SS (Schutzstaffel), nos campos de extermínio (Sobibor, Treblinka, Chelmno, Auschwitz e Majdanek) situados na Polônia, país onde se encontrava a maior concentração populacional judaica da Europa. Há registros que também consideram o campo de Jasenovac, na Croácia, como campo de extermínio.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A farsa presidencial

Presidente, posso falar um verso bíblico para o senhor? É aquele verso que o senhor diz que gosta muito, e eu também – é um dos meus favoritos. ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’. E a verdade é Jesus, a verdade é justiça, a verdade é honestidade. E sabendo disso, dá para considerar que o senhor é uma farsa presidente
Hadassa Gomes, 19 anos, estudante de jornalismo em Sorocaba (SP), no "cercadinho"

Quando tudo isso passar

A emergência da variante ômicron do Sars-CoV-2 trouxe o melhor e o pior em termos de expectativas para uma humanidade cansada após dois anos de perdas humanas, afetivas, cognitivas, econômicas.

Do lado positivo, a expectativa de que, sim, o novo modelo da peste pode indicar o caminho para algum tipo de normalização dada a sua avassaladora transmissibilidade e aparente comedimento em termos de impacto mortífero entre aqueles que estão vacinados.

O problema está no aparente, e falo com o amargor de quem perdeu um ente muito próximo que nem de longe poderia ser qualificado de negacionista. A alta atividade do patógeno leva, evidentemente, a mais casos e à maior probabilidade de oportunidades à Ceifadora.

Infelizmente não temos W.G. Sebald cá nos trópicos para, como fez o maior escritor alemão do pós-Guerra com uma Europa destroçada, descrever a perplexidade e impotência ante o tsunami que nos colheu.


A propósito, Sebald, cuja obra se assenta em quatro obras-primas e foi interrompida por uma morte estúpida aos meros 57 anos, em 2001, ora é escrutinado em uma instigante biografia da britânica Carole Angier, lançada recentemente.

Ela percorre os caminhos tortuosos da mente do escritor, aponta contradições éticas graves em seu trabalho acadêmico e registra a revolta com que os personagens de seus livros foram decalcados de histórias reais --basicamente, Sebald destruía sua matéria-prima e a remontava de uma forma ficcional crível e bela.

Com isso, ele trouxe as reflexões acerca da culpa coletiva de uma Europa sob o nazismo, que ele vira ausente em seu pai, que servira à Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial.

Os fragmentos, muitas vezes colagens fotográficas ou palimpsestos mentais tirados da observação da topografia arquitetônica do continente, ganhavam vida para exprimir a dor vazia do Holocausto.

E, com sorte, transcender algo dela por meio da Grande Beleza, para agora roubar o título do filmaço de Paolo Sorrentino (nota aleatória, "A Mão de Deus", no Netflix, é imperdível).

Não temos um Sebald, embora ao menos no quesito de pecados na academia, a acusação mais séria de Angier, não nos faltem exemplos. O chororô criado acerca do método do alemão ao criar ficção parece, à primeira vista, só isso.

Já o impacto da Covid-19 num país governado por uma casta particularmente nefasta de lorpas é objeto para choro real. E não, não espezinharei a morte do negacionista ora elevado a merecedor de luto nacional.

Critiquem sua obra tola, combatam hagiografias, mas deixem a família do homem em paz. Falta-nos um Sebald para contar tudo isso ao porvir, na hipótese de Putin e Biden nos concederem a graça.

Pensamento do Dia

 


Olavo deixa órfãos Bolsonaro, seus devotos e a direita sem vergonha

É no que deu bater palmas para que maluco dançasse. Ex-simpatizante do Partido Comunista Brasileiro, o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho derivou mais tarde para a astrologia, o esoterismo, e morreu aos 74 anos como guru da direita brasileira que antes temia ser chamada pelo nome.

Décadas a fio, ela preferiu identificar-se como centro, tal era seu complexo de inferioridade, como se apenas à esquerda coubesse o papel de defensora de melhores condições de vida para os pobres e de mudanças estruturais. A direita também precisa que os pobres comam para que o capitalismo se expanda.

A esquerda jamais governou o Brasil desde que a democracia fez sua estreia por aqui. Pensou que poderia governar com a chegada ao poder de João Goulart, depois que Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Não contava, porém, com o golpe militar de 64. Finalmente, deu pinta de que chegara com Lula e Dilma.

No caso de Lula, foi ele que cavalgou a esquerda, não o contrário. Dilma causou mais assombro à direita, e por isso acabou derrubada. A Lava Jato surgiu como a melhor oportunidade para que a direita se livrasse por muito tempo do risco de o PT voltar. É pela direita que se diz de centro que Lula pretende voltar.

Abriu-se então o espaço para que emergisse Olavo, um charlatão bom de bico, autor de alguns poucos livros de sucesso, e que fora morar nos Estados Unidos. Durante certo período, ele foi colunista de alguns dos mais importantes jornais e revistas do Brasil, ganhando fama de excêntrico, mas divertido.

Tinha pouco de conservador. Era um reacionário. Entenda-se por isso: retrógrado, antidemocrático, antiliberal. Saudado como o ideólogo da nova direita, logo se tornou um extremista, valendo-se de xingamentos, mentiras e ataques pessoais para disseminar as mais esdrúxulas teses e teorias conspiratórias.

E o fez em busca de protagonismo e também para ganhar dinheiro com os cursos on-line que oferecia, sintonizado com o que havia de pior na direita americana. Jornalista de ocasião, ele pregou a violência contra jornalistas que não compartilhavam suas ideias. Escreveu que a Terra era plana e que a Covid-19 não matava.

Deu sorte de estar no melhor da sua forma conspiratória quando viu ascenderem no Brasil o ex-capitão Bolsonaro e seus filhos – ele, um sindicalista militar sem rumo e prestes a se aposentar como deputado federal do baixo clero; os filhos, de futuro incerto, dependentes do pai para seguirem sua carreira política.

Sobre a mesa em que Bolsonaro gravou o primeiro discurso após a vitória havia um livro de Olavo: “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. O idiota jamais leu aquele livro, sequer o de memórias do coronel torturador Brilhante Ulstra, seu herói. Mas, juntou-se à vontade de comer de um a do outro de servir.

Bolsonaro carecia de direção. Olavo, de alguém poderoso que ele pilotasse. O enlace durou menos do que Olavo imaginava. Mais esperto do que ele, Bolsonaro trocou sua companhia pela do Centrão para escapar do impeachment, governar como refém, e tentar se reeleger. Olavo morreu rompido com Bolsonaro.

A última batalha a ser travada entre os dois ficou para a posteridade. É quando se saberá quem irá sobreviver – o olavismo ou o bolsonarismo. Palpite: Olavo derrotará Bolsonaro.

Pacificação, governança, reconstrução

O professor Hussein Kalout costuma lembrar que o próximo presidente terá três desafios: pacificação, governança e reconstrução. Ele terá o desafio de pacificar o país, social e politicamente. Quebrar a polarização que divide o Brasil em polos divorciados, depois de cinco séculos de desigualdade social com cara de apartação, e de alguns anos com líderes, militantes e cidadãos separados em extremos sem diálogo.

Deverá também ser capaz de exercer governança que permita ao Brasil voltar a funcionar, depois da degradação de suas instituições, do imenso desequilíbrio fiscal, da corrupção, do corporativismo e da política sem espírito público. Fazer o país funcionar e o Estado ter eficiência é um desafio fundamental para o próximo presidente.

Precisará também iniciar a reconstrução do que vem sendo destruído ao longo dos anos de recessão econômica, sequestro e aparelhamento do Estado, atraso tecnológico, agravados pela estupidez revogatória do atual governo eliminando avanços do passado. Esses desafios seriam enfrentados mais facilmente se as forças políticas tivessem sido capazes de encontrar propostas, nomes, ideias e forças novas que permitissem, em 2022, um salto adiante, sem amarras com o passado. Mas isso não ocorreu.


Prisioneiras do radicalismo, do partidarismo e do imediatismo, nossas lideranças políticas não foram capazes de apresentar novidade nas eleições deste ano. Os 12 candidatos que se apresentam têm cara e propostas (ou falta de propostas) características do passado, dificilmente surgirão nomes capazes de trazer ares novos, passar confiança e seduzir o eleitorado, nas poucas semanas adiante, antes das eleições.

Tudo indica que o processo eleitoral chegará ao segundo turno entre Bolsonaro e Lula, e este último será o nome que o Brasil disporá para pacificar, exercer governança e reconstruir o país. Mas, para isso, ele precisará enfrentar dificuldades com a postura tradicional do partido.

Para pacificar, precisará superar o comportamento de parte da militância e da direção de dividir o Brasil entre o PT e o resto; ser capaz de atrair os que são tratados como inimigos por terem sido discordantes. Esta é uma eleição para o eleito se comportar como pacificador, não como vitorioso.

Lula passa essa visão quando dialoga com líderes de outras forças, mas é preciso mais que isso: uma postura de aceitação de outras forças, propostas e visões dos que desejam tirar o Brasil do abismo, mesmo discordando do PT. A pacificação é um desafio para vencer a eleição, de preferência no primeiro turno, e necessária para permitir a governança depois da posse.

Nesse desafio, o próximo presidente precisará ser pacificador e responsável. Não haverá governança com irresponsabilidade fiscal e inflação roubando salários de trabalhadores e aposentados, tampouco sem reformas em regras que isolam e emperram a economia brasileira; precisará liberar forças produtivas e barrar privilégios corporativos que impedem a distribuição da produção. A governança exigirá sensibilidade social para atender às necessidades das camadas pobres, mas também responsabilidade com os limites dos recursos, ecológicos ou fiscais. Seria uma tragédia vencer para acabar com o negacionismo de direita e substituí-lo por negacionismo de esquerda.

Para reconstruir, Lula precisa olhar para o futuro, escapando de visões obsoletas de alguns de seus aliados que se recusam a perceber a realidade do século 21, preferem continuar com ideias superadas, vendo o próximo governo como instrumento de desfazimento e não de construção. Não se constrói o futuro com nostalgia do passado.

A governança será fundamental para retirar o Brasil do atual abismo, reconstruindo nossa economia e nosso tecido social. Por isso, Lula não pode cair na tentação de revogar e desfazer para voltar a um passado superado, precisa avançar na construção de uma economia sólida e um tecido social justo.

A pacificação e a governança vão exigir comprometimento com a eficiência do Estado a serviço do país e do futuro. Para tanto, há uma palavra adicional, que serve de liga aos três desafios: confiança. Para pacificar, governar e construir, Lula e o PT precisam entender que o Brasil é maior do que qualquer partido e que o futuro não se constrói com nostalgias que negam a realidade.

Meu país ainda está aí

Meu país ainda existe. Um pouco envergonhado, se escondendo pelo cantos, mas está aí, não sumiu de vez não. Estão tentando acabar com ele no grito, na bala e na incompetência. Mas ainda respira, o meu país.


Está nas dobras das saias das mulheres que jamais se dobram. Em algum vão entre os tijolos de um bar, onde cinco amigos se reúnem há décadas. Num cruzamento perfeito na pelada na praia. Nas risadas dos moleques de cascão nos pés, que correm sem sentir dor, pisando em pedras como em folhas.

Está na música de Garoto e Pixinguinha. Nas árvores que florescem em pleno inverno. Numa tela de Portinari, carregada de um amarelo que envenena tanto quem pinta quanto quem olha. Na minhoca que se contorce, revelada pela enxada. Num verso seco de João Cabral. No porteiro do prédio que sabe cantar sambas que ninguém mais sabe, ele está.

No meu país, éramos tão magros. Viajávamos de carona em caminhão e dormíamos em redes nas casas de pescadores hospitaleiros. Conversávamos no escuro, e nos entendíamos mais no silêncio que nas palavras. Foi o que mais mudou. Meu país se drogou, inchou, se corrompeu, ficou violento. Mas ele há de voltar, tem que voltar, o mundo fica muito pobre sem o meu país.

Que um bicho grande (um gavião, de preferência) passe voando e dê uma bela cagada na cabeça de cada um que tenta destruir meu país. Chegará o dia em que todas as formigas sairão da terra para carregar em procissão, para o diabo que os carregue, os homens de arma, serra e fósforo na mão. Uma chuva trouxe seu antigo cheiro quente, úmido, de terra satisfeita. E se esse cheiro resiste, por que não a esperança?

Meu país é onde os marimbondos fazem suas casas apoiadas nos telhados das casas. O dos cachorros de rua vagabundos e pacíficos. Dos homens da roça que contam histórias enquanto enrolam a palha para pitar. O da música popular mais linda do mundo. Das fazedoras de doces no fogão a lenha, que cozinham em silêncio os segredos bem guardados. Da paçoca, da farofa, da cocada e do pastel de vento.

Um violão triste é como luta o meu país. No jogo da capoeira, mais dança que briga, é como luta o meu país. O das casas de cinco cores na fachada – sem contar as das janelas. O dos sorrisos de marfim nas peles pretas. Das maritacas que nos fios berram as últimas fofocas. O das nascentes dos rios, antes que o esgoto as alcançassem, e o das matas de cem tons de verde, antes que as serras elétricas as descobrissem.

Meu país resiste. Mas por ora, prefere se refugiar no porão, no escuro, amoitado, escondendo os dejetos, quase morto de desgosto. Sai muito raramente, apenas para nos sinalizar que ainda está. Veste uns trapos de cores esmaecidas, que nos causam dor e revolta.

Devolvam meu país, filhos desnaturados do meu país.
Cássio Zanatta

Brasil: Assim surge um “novo” clientelismo

O desenlace do ciclo político da Nova República, que aconteceu após três décadas de sua existência, tem sido acompanhado pelo rearranjo institucional que aponta para a formação de outra República no Brasil. As suas principais características, ainda que aprisionadas durante o período pós-ditadura, ganharam rapidamente maior dimensão desde o curso do golpe de Estado iniciado ao final das eleições presidenciais de 2014, quando o candidato derrotado e sua base partidária não aceitaram a derrota.

Como se fosse uma espécie de Revolução de 1930 ao inverso, as forças derrotadas a partir da segunda metade da década de 2010 tomaram corpo suficiente para levar avante a desconstrução do acordo político da Nova República, estabelecido pela Constituição de 1988. Resumidamente, o fortalecimento republicano da burocracia através do Regime Jurídico dos servidores públicos civis, autarquias e das fundações públicas, da unificação e transparência do orçamento público e da representação democrática em partidos políticos nacionais.

Mas o que aconteceu, contudo, com o desenrolar de distintos governos, foi a fragilização dos compromissos constitucionais previamente estabelecidos ao longo do próprio ciclo político da Nova República. Assim, o regime jurídico único dos serviços públicos foi sendo dilapidado pela força da terceirização, da desestatização e da gestão privatizada da administração pública.


O orçamento público foi conduzido sem contemplar a unidade à seguridade social, assim como a asfixia imposta pelo presidencialismo de coalizão ao executivo fez do parlamento, em vez de representante político da nação, tomador e gestor de recursos públicos. Emendas impositivas de vários tipos, até orçamento secreto, têm sido práticas crescentes a destoar da perspectiva constitucional de unidade e transparência orçamentária.

Por fim, o desmonte do sistema partidário de representação política foi seguido pelo desaparecimento de lideranças nacionais, favorecendo a continuidade e a formação de novas oligarquias regionais. O aparecimento do chamado Centrão, ainda no governo Sarney (1986-1990), e das bancadas suprapartidárias (ruralistas, do boi, da bala, da bíblia e outras) originadas no processo constituinte, concederam artificialidade e descrédito crescentes para grande parte dos partidos políticos no Brasil.

É diante disso que se começa a perceber a reconfiguração da outra República atualmente em marcha. Um verdadeiro museu de imensas novidades que convergem com as experiências já adotadas durante o Império (1822-1889) e a República Velha (1889-1930). Da monarquia parece provir, por exemplo, o experimento do Poder Moderador, cada vez mais exercido atualmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em suas tentativas de reequilibrar as disputas entre os três poderes republicanos: executivo, legislativo e judiciário.

Da República Velha provém o esforço de recuperar o arranjo institucional que sustentou o sistema político daquela época. Ou seja, o tripé do poder assentado no mandonismo, clientelismo e coronelismo.

Desde o governo Temer (2016-2018), acentuado pelo de Bolsonaro, que o mandonismo tem sido mais acentuado pela prática da ocupação dos cargos públicos. Por não mais interessar os critérios mínimos republicanos como a competência técnica e a eficiência profissional, ganharam significância as indicações políticas fundamentadas no compromisso a quem manda, seja em cargos públicos civis ou não.

Assim, a desorganização provocada no interior da administração pública se alastrou. Os escândalos que se tornam públicos parecem revelar apenas a ponta do iceberg de negociatas e ilegalidades permitidas pelo mandonismo atual.

Por outro lado, o clientelismo tem avançado simultaneamente ao desmonte das políticas públicas de Estado. Seja na educação, ciências e tecnologia, agropecuária, economia, assistência social, entre outras, o governo opera cada vez mais atendendo às clientelas, não ao cidadão em geral. A destruição do programa Bolsa Família, entre outras políticas públicas, parece indicar o quanto o roteiro tradicional da eleição prévia de clientelas pelo governo de plantão visa atender a continuidade eleitoral a ser retribuída através do voto.

Nesse sentido, o coronelismo renovado se estabelece pela apropriação e comando do orçamento público em favor dos chefes de oligarquias regionais. No ano de 2021, por exemplo, cada um dos deputados federais, fora o orçamento secreto e outras iguarias orçamentárias, teve à sua disposição o valor de 16 milhões de reais de emenda impositiva a conectar poderes locais, clãs e distritos eleitorais, capazes de reproduzir as tradicionais oligarquias regionais.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Loja de conveniência

Emendas parlamentares pagas em 2021: R$ 25,1 bilhões. Dois mil e vinte um: o ano em que a pandemia nos mastigou de cabo a rabo — e a turma mamando e distribuindo tetas de paróquia em paróquia, o ano em que Rodrigo Pacheco envernizou a formalização do orçamento secreto.

Independentemente do alcolumbre da vez, o pacto que une governo Bolsonaro e o consórcio entre Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, e PL, de Valdemar da Costa Neto, não foi firmado para sutilezas. E todos os pachecos estão — serão — contemplados.

Previsão para 2022: R$ 37 bilhões, aí contidos os intocáveis mais de R$ 16 bilhões em emendas do relator. Valor que já considera os vetos miúdos de Bolsonaro, para pouco além de R$ 3 bilhões, montante que fica bem longe dos cerca de R$ 9 bilhões necessários à recomposição dos gastos obrigatórios que o Congresso, em parceria com o Planalto, propositalmente subestimou.

Foi sancionada, porém, a rubrica — da ordem de R$ 1,7 bilhão — que planta a projeção de reajuste salarial seletivo para as categorias do funcionalismo federal que compõem a base de apoio do bolsonarismo. E agora se especula sobre se parte dos bilhões vetados por Bolsonaro servirá para bancar aumento mais amplo. Alguém duvida? Falei em parte dos bilhões porque é provável que uma fatia da grana sirva à necessidade de se remontar o valor do Fundo Eleitoral àquele originalmente inscrito na LDO: R$ 5,7 bilhões, em vez dos pouco menos de R$ 5 bilhões que um puxadinho acomodara na LOA.


Para onde quer que se olhe, prioridades definidas, a galera sai ganhando. Jair “o Parlamento está muito bem atendido conosco” Bolsonaro já disse: “Hoje em dia estão todos ganhando”.

Um leitor me perguntou por que não escrevo sobre as eleições. Respondo: não faço outra coisa aqui senão falar da pré-campanha desde há muito deflagrada. E hoje de novo; dedicando-me particularmente à cobertura do governo Bolsonaro, sobretudo a partir de suas escolhas econômicas, em sua dimensão única: a de uma máquina dirigida tão somente à busca — irresponsável — do presidente pela reeleição, meta para a qual trabalha incondicionalmente o ministro da Economia.

Não me parece haver “sobre as eleições” mais importante do que a investigação acerca da forma como o governo e seus sócios no Parlamento —com o aval de Paulo Guedes — têm manejado dinheiros públicos e sacrificado a disciplina fiscal em função do objetivo de permanecer no poder. Não haverá algo mais relevante, com maiores impactos sobre o cidadão, do que a execução, ainda a meses das eleições, de um Orçamento, destelhado o teto de gastos, concebido e erguido sobre dois pilares, o corporativista e o eleitoreiro, conforme já expressaram a PEC dos Precatórios e seu tripé do esculacho fiscal, e agora sob a gestão patrimonialista de Ciro Nogueira.

E então, arrombada a porteira, chegamos à PEC dos Combustíveis, cuja pretensão consiste em baixar a inflação no trimestre que antecederá as eleições. Zeram-se os tributos federais, arma-se pressão sobre os governadores e alcança-se, com sorte, queda ínfima dos preços nas bombas. Com sorte porque não se pode descartar a chance de essa margem ser embolsada pela cadeia produtiva, ou mesmo anulada pelo aumento da cotação do barril de petróleo no mercado internacional.

Ninguém quer falar sobre câmbio apreciado; e sobre quanto disso — a verdadeira vilania a descontrolar o custo do combustível no Brasil — será produto do combo instabilidade institucional gerada por Bolsonaro mais incompetência de Guedes e Campos Neto.

Todo esse conjunto eleitoreiro a contratar mais inflação no futuro e a estabelecer o descalabro fiscal como escolha de governo. Depois da farra com as despesas disparada pela PEC dos Precatórios, a zorra com as receitas a partir da PEC dos Combustíveis, erigida sobre uma tal folga na arrecadação promovida pelo imposto inflacionário. O governo à vontade para renunciar a R$ 50 bilhões e ainda jogando mais areia sobre o aterro em que jaz a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mais uma emenda à Constituição que não exigiria contrapartida à perda de receita. Está na moda. É como vamos. Mais uma vez informados de que Guedes — “sem participar das tratativas” — não se opõe ao beiço na arrecadação. Está mesmo contente com a mágica que a inflação fez na mitigação do déficit. E avalia que não dá para “cruzar os braços”. Algo precisa ser feito para que o chefe seja competitivo. A escolha: o rombo nas contas públicas por uma maquiagem inflacionária que role a bomba adiante — mais uma vez — e não atrapalhe Bolsonaro até outubro.

Em sua coluna no portal Metrópoles, Igor Gadelha dá conta de um Guedes desanimado com o processo por meio do qual o governo a que serve o teria vertido de Posto Ipiranga em loja de conveniência. Desanimado, mas ainda fiador do cálculo eleitoreiro segundo o qual a degradação inflacionária será mais deletéria para a popularidade do capitão do que a ruína fiscal. E teremos as duas.

Foi Guedes quem se transformou em loja de conveniência.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Uma história do futuro

Epidemias virais como a de Covid-19 dependem um pouco do acaso para começar. É preciso que a mutação certa apareça na hora e local certos. As de bactérias são mais previsíveis. Graças ao fenômeno da resistência, há, neste exato momento, bactérias trocando plasmídeos no corpo de algum paciente e assim forjando uma linhagem de patógenos capazes de debelar nossas defesas farmacológicas. Plasmídeos são moléculas "soltas" de DNA, que podem codificar resistência a agentes antimicrobianos e se transmitem mesmo entre bactérias não aparentadas.

Se uma linhagem de E. coli desenvolveu resistência à ciprofloxacina, por exemplo, pode passar essa característica a uma cepa de, digamos, S. aureus. Médicos já precisam lidar todos os dias com essas variantes resistentes. Um estudo do governo britânico estima que, em escala global, elas já causem 700 mil mortes por ano e, se nada for feito, em 2050, responderão por 10 milhões de óbitos anuais.


Há alguma incerteza em relação a esses números, mas não em relação ao movimento e suas implicações. É que o fenômeno do surgimento de resistência pode ser descrito como uma das leis da biologia. Elas não têm a mesma precisão das equações da física quântica, mas seu valor preditivo está bem estabelecido. E a resistência não vale só para antibióticos mas também para herbicidas, pesticidas e até quimioterápicos contra o câncer.

Rob Dunn, em "A Natural History of The Future", apresenta essa e outras leis da biologia e antecipa o que devemos esperar se mantivermos os padrões que caracterizam o Antropoceno.

A boa notícia é que a vida não está ameaçada. Mesmo que o planeta esquente 4° C e espalhemos venenos por todos os lados, algumas espécies prosperarão. O problema é que serão espécies que não nos interessam, como bactérias resistentes e mosquitos transmissores de arboviroses, cujo nicho ecológico aumenta com o aquecimento global.

Brasil rico