terça-feira, 2 de março de 2021

“O povo é carvão para queimar”: o projeto genocida da “gestão” da pandemia no Brasil

“A população precisa acordar para a dimensão da nossa tragédia”, disse o neurocientista Miguel Nicolelis em entrevista publicada pelo jornal O Globo em 26 de fevereiro. Professor catedrático na Universidade de Duke, nos EUA, ele esteve até recentemente à frente do Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a Covid-19 e, como outros cientistas, vem há meses alertando para o risco de colapso no sistema de saúde do Brasil.

Diferentemente do que ocorreu no início da pandemia – e não saem da memória as imagens das valas abertas às pressas em Manaus, em maio do ano passado –, a situação é mais grave agora, porque o colapso pode ser simultâneo, como na metáfora do jogo de dominó em que uma peça vai sucessivamente derrubando as demais. Nicolelis aponta uma sequência de eventos – as eleições municipais em novembro de 2020, as festas de fim de ano, o carnaval, ainda que sem os tradicionais desfiles e bailes oficiais – como “efeitos sincronizadores” que provocaram o caos atual, diante da falta de coordenação para conter a pandemia. “Agora”, diz ele, “tudo está explodindo ao mesmo tempo”. Os hospitais em várias capitais já ultrapassaram o limite de atendimento, há filas de espera para uma vaga nas UTI (Unidades de Tratamento Intensivo).

Como foi possível chegar a esse ponto?

Foi porque, parafraseando o que dizia o antropólogo Darcy Ribeiro a respeito da crise da educação no Brasil, a atual tragédia sanitária não é uma crise, é um projeto. Uma reportagem do El País Brasil em 21 de janeiro mostrou exatamente isso, a partir de um estudo do Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (Cepedisa) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e da Conectas Direitos Humanos, que pode ser consultado aqui.

O estudo apresenta, em ordem cronológica, a série de normas federais relativas à pandemia, as ações de obstrução às iniciativas dos governos estaduais e municipais e o que classifica como “propaganda contra a saúde pública”, que inclui o discurso negacionista e debochado do Presidente da República, a insistência na defesa de medicação preventiva comprovadamente ineficaz e a disseminação de informações falsas a respeito da doença. É um levantamento que expõe “o embate entre a estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática pelo governo federal e as tentativas de resistência dos demais poderes, dos entes federativos, de instituições independentes e da sociedade”.

Exemplo disso foi o veto presidencial, no início de julho do ano passado, a dispositivos da lei que determina medidas de proteção para comunidades indígenas durante a pandemia, entre os quais “o acesso com urgência a seis serviços gratuitos e periódicos (água potável, materiais de higiene e limpeza, leitos hospitalares e de UTIs, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, materiais informativos sobre a covid-19, e internet nas aldeias); a obrigação da União de distribuir alimentos durante a pandemia, na forma de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas; a extensão a quilombolas, pescadores artesanais e demais povos tradicionais das medidas previstas no plano emergencial”. O veto acabou derrubado pelo Congresso Nacional um mês e meio depois.

Foi também o Congresso que se empenhou em aprovar o auxílio emergencial de R$ 600 – correspondente a pouco mais da metade do salário mínimo e equivalente, ao câmbio atual, a cerca de 90 euros –, que Bolsonaro rejeitava mas acabou capitalizando, o que lhe permitiu manter a popularidade apesar do progressivo aumento do número de mortes. Atualmente, o governo está condicionando a renovação desse auxílio, agora reduzido a menos da metade do valor, à aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional que, se não for alterada, degradará ainda mais a saúde e a educação públicas, pois elimina a obrigação ao investimento mínimo estabelecido pela Constituição para esses dois setores. A tragédia sanitária é, assim, usada para aprofundar o programa de destruição de direitos iniciado já no governo Temer, que assumiu em seguida à derrubada de Dilma Rousseff, em 2016.

Ao mesmo tempo em que minimizava a gravidade da pandemia – “gripezinha”, no dizer do presidente –, o governo tentava ocultar os números de doentes e mortos por covid-19, retardando a divulgação dos dados para evitar que fossem noticiados no principal telejornal do país, e passava a anunciar o número de “recuperados”, para investir numa agenda positiva. A imprensa denunciou a manobra e seis dos principais jornais e sites de jornalismo formaram um consórcio para buscar os números da pandemia junto aos governos estaduais.


Desde o início, para evitar tomar medidas que prejudicassem a economia, Bolsonaro investiu firmemente na defesa da cloroquina, tornando-se ele próprio o principal garoto-propaganda do medicamento, que continua a defender, apesar de todos os estudos sérios demonstrarem não só sua ineficácia como o risco de efeitos colaterais graves.

O presidente demitiu sucessivamente dois ministros da Saúde, por contestarem essa orientação, e convocou o general Eduardo Pazuello – mais um entre os vários militares em postos-chave no governo – para assumir a pasta. Foi sob seu comando que, em janeiro deste ano, durante a tragédia de Manaus – onde uma variante do vírus provocou o recrudescimento do índice de infecções e a falta de oxigênio nos hospitais levou a inúmeras mortes por asfixia –, o ministério lançou o aplicativo TrateCOV, que permitiria acelerar o diagnóstico e indicar o tal “tratamento precoce”, e que invariavelmente receitava o “kit Covid” – uma combinação de remédios que incluía a cloroquina – mesmo para quem relatasse uma simples diarreia ou perda de apetite.

O aplicativo não durou nem uma semana e teve de ser retirado do ar, mas o “kit Covid” continua a ser adotado, tanto por médicos quanto por pessoas influenciadas por essa propaganda, convencidas de que estão se protegendo e de que, na dúvida, é melhor fazer alguma coisa do que nada. No dia 23 de fevereiro, oito dos principais jornais do país publicaram um informe publicitário de meia página de um grupo chamado “Médicos pela Vida”, que insistem no tal “tratamento precoce”, usando informações falsas para defender sua tese. É de se indagar por que esses jornais aceitaram abrir espaço para uma publicidade enganosa, se já publicaram tantas notícias em contrário.

Mas a estratégia da aposta no “tratamento precoce” é clara: se para a doença há remédio, se esse remédio pode inclusive prevenir a doença, não há motivo para não se levar uma vida normal. O próprio presidente, ao promover e participar de aglomerações, frequentemente sem máscara, estimula esse comportamento. É preciso “enfrentar o vírus de peito aberto”, “feito homem, pô!”, o Brasil não pode ser “um país de maricas”: o tom é sempre o de um discurso afirmativo, que transmite autoconfiança, baseado na virilidade do macho que não teme o perigo. E depois, como a maioria dos mais jovens não manifesta sintomas, é fácil convencê-los de que não há risco.

Bolsonaro martelou a ideia de que “você não vai desenvolver a doença, então não tem problema”, e esse elogio do individualismo, essa ausência absoluta de preocupação com o outro – porque obviamente uma pessoa assintomática pode transmitir o vírus a quem não terá a mesma resistência – se traduz até hoje em praias, bares e hospitais lotados. Entre os mais pobres, que já vivem aglomerados em moradias exíguas e precárias e se expõem diariamente ao risco de contágio viajando enlatados nos transportes públicos, muitos, sobretudo os mais jovens, não veem motivos para abrir mão de se divertir, nos bailes e festas que costumavam frequentar antes da pandemia.

Então, no mundo todo, começa a surgir a famosa luz no fim do túnel, com a produção de vacinas eficazes em tempo recorde. Mesmo Trump, que no começo também desdenhava da gravidade da situação, sugeria tratamentos esdrúxulos e levantava suspeitas sobre o “vírus chinês”, mudou de atitude diante do desenvolvimento dos imunizantes. Bolsonaro, não. Rejeitou sistematicamente todas as possibilidades de acordo com laboratórios farmacêuticos e levantou suspeitas sobre os terríveis efeitos colaterais que as vacinas poderiam provocar: sabe lá o que estão enfiando aí no seu corpo? Já pensou se você vira jacaré? Nada como mexer com os medos arcaicos do povo ignorante. “Vacina, aqui, não!”, repetiam as pessoas, batendo no braço e olhando fixamente para a câmera, no vídeo que as redes bolsonaristas divulgaram, junto com outro que rejeitava o uso da máscara “em nome da liberdade”.

O Brasil conta com um sistema de saúde pública universal que, apesar de precarizado, é o que tem garantido o atendimento da população durante a pandemia, e tem tradição de vacinação em massa, com dois centros de excelência na produção de imunizantes, a Fiocruz (um órgão federal) e o Instituto Butantan (do estado de São Paulo).

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o país tem 162,8 milhões de habitantes com mais de 18 anos. A capacidade de vacinação do sistema, segundo o sanitarista Gonçalo Vecina Neto, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é de 60 milhões de pessoas por mês.

Não fosse a atuação deletéria do governo federal, o Brasil poderia ter assegurado antecipadamente um estoque de vacinas que permitisse iniciar a imunização da população já em fins do ano passado, e a compra de insumos possibilitaria ampliar rapidamente a produção local, hoje ainda restrita ao esforço do Instituto Butantan, que garantiu 10 dos 12 milhões de doses disponíveis até o momento. No período de um mês – desde o dia 17 de janeiro, quando começou a vacinação no país –, apenas 6,5 milhões de pessoas receberam a primeira dose. Em várias cidades, como o Rio de Janeiro, o calendário divulgado no fim do mês passado teve de ser interrompido, por falta de vacinas.

No início da pandemia – que sempre minimizou como “uma pequena crise”, “uma fantasia” que não era “tudo isso que a grande mídia propala pelo mundo todo” –, Bolsonaro gravou um vídeo em que comparava a situação da covid-19 com a da gripe H1N1. Dizia que menos de 800 pessoas morreram por aquela doença no país no ano anterior e que “a previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus”.

Agora já são mais de 250 mil mortos. A média diária tem oscilado entre os mil e 1.300 e, a 25 de fevereiro, chegou ao recorde de 1.582.

O que fez Bolsonaro nesse dia? Em sua habitual “live” das quintas-feiras, citou “uma universidade alemã” – naturalmente, não disse qual – que teria produzido um estudo sobre os “efeitos colaterais” do uso de máscaras.

A população vai acordar para a dimensão da tragédia? A população está ligada nos paredões do Big Brother, está nas ruas comemorando mais um campeonato do Flamengo. Com um governo que jamais promoveu uma campanha nacional de esclarecimento e, pelo contrário, sempre apostou na desinformação e no caos, é possível pensar que a população acorde? A pilha de cadáveres vai crescendo mas o Brasil é grande demais, são 212 milhões de habitantes, o que significam 250 mil mortos diante disso? As pessoas morrem porque foi a vontade de Deus, porque já iam morrer mesmo, porque todo mundo vai morrer um dia.

Como afirmou Nicolelis em sua entrevista, “o Brasil é o maior laboratório a céu aberto para ver o que acontece com o vírus correndo solto”. Necessitaria decretar uma quarentena nacional urgentemente, por pelo menos três semanas, para tentar conter o caos. Governadores e prefeitos começaram a investir nessa medida, mas Bolsonaro os confrontou com a ameaça de que, nesse caso, eles teriam de se responsabilizar pelo pagamento do futuro auxílio emergencial. Continua a promover aglomerações e a jogar o povo contra a adoção do confinamento, em nome do direito de trabalhar.

Darcy Ribeiro dizia que a elite brasileira, descendente do senhor de engenho que enxergava o escravo como “carvão que se queima para a produção”, se comportava de acordo com essa herança. Via o povo como “carvão para queimar”.

Foi esta elite que apoiou para a presidência do país um deputado que exaltou um torturador ao votar pelo impeachment de Dilma e não se cansa de repetir que seu ofício é matar.

Não admira que, nesta pandemia, o carvão não pare de queimar.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Brasil e as 'variantes'

 


Um órfão chamado Brasil

O Brasil está órfão: sem oxigênio, sem responsável para cuidar do tratamento que precisa, nem tem quem lhe assegure vacina. Não teve um responsável que alertasse com autoridade que a doença era grave. Não recebeu as recomendações preventivas, nem os cuidados no período inicial. O Brasil não teve um responsável que lhe alertasse dos riscos. Ao contrário, ouviu “não fique em casa”, “vá para a rua”, “é uma gripezinha”. O oposto do que dizem pai e mãe preocupados com filho.

O Brasil não teve um responsável, um líder, um governante que o protegesse da doença e estivesse atento para obter e aplicar a vacina. Qualquer pai ou mãe ou tio ou padrinho protege o filho, natural ou adotado, cuida para ele ficar em casa, usar máscara, álcool em gel, e o leva para tomar a vacina. O Brasil não tem quem cuide dele neste momento em que está sofrendo os horrores de uma epidemia. A orfandade não decorre apenas da falta de governante que cuide dele com amor e competência neste momento de epidemia. O atual governante não cuida do presente, nem formula rumos para o futuro.

O Brasil está órfão. Mas a orfandade é anterior. Se o Brasil não fosse órfão antes, não teria preferido o atual governante. Foi o órfão que buscou ser adotado por ele, com o voto de milhões de eleitores descontentes. O Brasil sentia-se abandonado: 12 milhões de analfabetos, 100 milhões sem rede de esgoto, 35 milhões sem água, 12 milhões de desempregados, a mesma concentração de renda e persistência da pobreza de que sofre desde sua origem.


Os moradores da periferia das grandes cidades já estavam órfãos há décadas, os jovens sem perspectiva, as crianças sem escolas de qualidade. Desde a escravidão, a população negra é órfã. Os desempregados, as vítimas de violência, os doentes sem dinheiro, todos são partes do órfão chamado Brasil. Seus líderes o deixaram órfão de ética, diante da corrupção. O Brasil é órfão por falta das reformas em suas estruturas arcaicas, que persistem desde a escravidão.

De todos os erros e crimes cometidos pelos políticos, o mais grave foi não perceber e não agir para impedir que o Brasil escolhesse o atual governo. E agora cometem erro ainda maior ao não apresentar aos eleitores uma alternativa que empolgue, que mereça confiança e mais: que impeça a continuação da orfandade atual. Em vez de reconhecerem os erros e pedirem desculpas aos brasileiros, de se apresentarem unidos com uma proposta alternativa, nossos líderes estão se acusando mutuamente. Parecem imaginar que o erro foi dos eleitores em 2018. Como se o órfão fosse culpado da escolha que fez na busca por quem o adotasse.

Todos que ocupamos cargos ao longo dos 130 anos da República, temos parte de responsabilidade, por omissão, por incompetência ou por corrupção nas prioridades ou no comportamento. Sobretudo, responsabilidade pela eleição do atual governo que aprofunda a orfandade por seu comportamento que nega a ciência, desmoraliza o país no exterior, degrada o meio ambiente, descuida das prioridades do povo, defende o armamentismo e consequente violência, regride no respeito aos direitos humanos, ameaça as conquistas democráticas.

O Brasil precisa de líderes que cuidem dele com novas ideias, propostas e comportamento. Não teria sido difícil acabar com a orfandade do Brasil: bastaria adotar uma geração de suas crianças, de todas as raças, em todos os endereços e de todas as rendas. Esta geração adotada adotaria depois o Brasil com competência e ética. A orfandade do Brasil começa na orfandade como suas crianças pobres são tratadas.

Mas o momento é para levarmos à Presidência alguém comprometido com a continuação das conquistas democráticas das últimas décadas. Para isso, é preciso barrar a marcha ao desastre de mais quatro anos desta orfandade desastrosa. Para isso, os que desejam um novo rumo precisam entender que a hora é de coesão. Em tempo de tormenta, a âncora é mais importante que a bússola e a vela.

Precisamos unir os democratas, já no primeiro turno de 2022, com um candidato que transmita ao eleitor a capacidade de unir e manter as conquistas democráticas e presidir o debate dos candidatos que em 2026 apontarão suas propostas para o eleitor escolher o rumo que o Brasil deve seguir em direção ao futuro democrático, eficiente, justo, sustentável.

Bolsonaro e vida, incompatíveis

O vírus derrubou o mito e o muro.
Nenhuma liderança responsável deve ceder a malabarismos retóricos, ter um pé no governo Bolsonaro e outro na defesa da vida. São incompatíveis
João Doria, governador de São Paulo

De reis mortos e águas vivas

Quando o arqueólogo Ezequiel Nicolau chegou à aldeia de Mantiria, encontrou uma pequena multidão que o saudava num terreiro de areia branca, à sombra da grande mafurreira. Apresentou-se o visitante, explicou a sua intenção. Todos entenderam quem ele era. Ninguém percebeu o que vinha fazer. Sabiam que o doutor estudava os antigamentes. Sim, isso era claro. Mas andar a escavar o chão, isso não tinha cabimento. Abrem-se covas para semear morto, erguer casa, deitar semente. E há um outro serviço: antes que uma vida comece, abre-se no chão uma fenda para deitar as sobras do parto. Agora, esgravatar o chão para desenterrar o tempo? Não cabe na cabeça de ninguém. O homem queria encontrar o passado? Procurasse dentro das pessoas. Escutasse conversas entre os vivos e os mortos. E se tudo isso não servisse, usasse o sonho, que, como todos sabem, é uma pá para escavar lembranças.

Ezequiel Nicolau agradeceu a amabilidade dos aldeões e pediu as devidas licenças. Sabia que no caminho para Mantiria tinha sido enterrado um rei que governara aquela região há mais de dois séculos. Os presentes entreolharam-se, intrigados. Que houvesse um rei sepultado, isso não causava espanto. O que não falta por aí são reis cobertos de terra e esquecimento. A dúvida era outra: como é que o doutor sabia o lugar da sepultura? O arqueólogo tirou da mochila um computador e ergueu-o como num tribunal se exibem as provas de acusação. Explicou como aquele aparelho, sem sair do seu lugar, espreitava, media e fotografava o mundo inteiro. Isso já conhecemos, disse uma mulher. O meu filho trabalha na cidade e prometeu que nos ia enviar uma máquina dessas. Diz ele que está cheia de teclas, mas tira boas fotos, acrescentou a mulher.

E como prevalecesse um sentimento de desconfiança, o chefe da aldeia, Damião Nsala, usou da palavra:
– Não é falta de respeito, meus irmãos. O serviço deste doutor é, faz conta, um coveiro ao contrário.
– Cá para mim, ele é um mineiro disfarçado, comentou um outro. Esse doutor vem roubar as nossas riquezas.
– Não temos nada para ser roubado, comentou uma mulher. Nem por baixo nem por cima do chão.

A conversa demorou toda a manhã, até que o chefe da aldeia proclamou aquilo que ele apresentou como sendo “o consenso geral”. O passado tem donos, disse ele, com solenidade. Neste caso, prosseguiu o chefe, os donos estavam muitíssimo ausentes. Podiam ser chamados, mas isso pedia farinha, bebida e uma cabeça de cabrito.

Susa Monteiro

Na manhã seguinte, toda a aldeia se juntou à espera de que o arqueólogo se apresentasse ao trabalho. E como ele demorasse a sair da tenda, houve quem comentasse: para esses da cidade, a madrugada começa a meio da manhã. Até que viram Ezequiel a emergir na estrada, arrastando duas pás e uma picareta. Assim carregado, o visitante parecia a pessoa mais sozinha do universo. As mãos pesavam-lhe no corpo, os pés pisavam cegamente os capins como se tivesse medo do chão. A aldeia inteira seguiu as passadas do intruso, olhos presos em cada um dos seus gestos. E todos pararam quando ele escolheu um lugar para abrir uma cova.

Mangas arregaçadas o doutor elevou a pá para desajeitadamente a deixar cair, num gesto frouxo, a lâmina resvalando na superfície da terra. Esse homem, disse Damião, não se dá bem com o corpo dele. O chefe da aldeia deu um passo em frente e, sem cerimónias, ergueu a picareta para a afundar vigorosamente junto aos pés do visitante. Começa-se com a picareta, segredou ele ao ouvido do visitante. E os golpes sucederam-se com doce firmeza, como quem, sobre o ventre da terra, decepa um antigo cordão umbilical.

Embaraçado, o doutor entregou a pá a um outro camponês que, de imediato, se juntou à escavação. Sincopadamente, pá e picareta percutiam nas escuras entranhas como se nelas morasse um oculto tambor. Quando a cova começou a ganhar fundura, Damião suspendeu o trabalho para anunciar: aqui, já é ontem. E depois de umas pazadas, voltou a parar e anunciou: agora, chegamos ao depois de ontem.

– O doutor não sente medo?, perguntou Damião ao historiador.
– Medo?
– Medo de encontrar o que tanto procura?, insistiu o chefe da aldeia. É que esse rei vai mandar em si durante o resto da sua vida.
– Já não sobrevive nem poeira daquele que aqui reinou, vaticinou Ezequiel. Uns artefactos é o que irei recolher.
– Não sei, doutor, comentou o chefe. Ninguém morre nunca totalmente.

Escurecia quando o trabalho foi suspenso. Todos regressaram a suas casas. À luz de uma lanterna, Ezequiel Nicolau fazia anotações no seu caderno de viagem, quando sentiu que alguém se aproximava. Abriu o zipe da tenda e espreitou no escuro: um homem alto com uma longa túnica branca sacudia-se como se fosse um fantasma. Vinha receber dinheiro. Não era para ele. Era para uma nova cerimónia com os antepassados.

– Já paguei ao Damião, disse o arqueólogo.
– O Damião só é chefe da parte do dia, esclareceu o visitante. À noite, sou eu que mando.
– Meu caro amigo: sou um cientista do Museu Nacional. Não temos dinheiro nem para pagar salários.
– Nós aqui da aldeia não queremos ser o vosso museu, argumentou o chefe noturno. Que tal se fôssemos abrir buracos lá para a sua rua, na cidade?

Foi então que o arqueólogo Nicolau prometeu solenemente: se a pesquisa viesse a dar resultados, o chefe, aliás os chefes, aliás toda a aldeia, seriam devidamente compensados.

No dia seguinte, todos os aldeões, incluindo o chefe noturno, dedicaram-se a afundar a cova. O arqueólogo travava os ímpetos, recomendava mil cuidados: são delicadas as reminiscências dos antigos reis. De repente, como que por milagre, o fundo da cova encheu-se de água. Escutou-se o murmúrio surdo de um subterrâneo rio assaltando o vazio. Alguém murmurou: vai ver que lhe cortamos uma veia. Ezequiel Nicolau era a imagem da desolação. Tanto esforço para nada. E desabou sob o peso da tristeza. E lembrou-se das palavras da sua velha mãe: há momentos em que Deus ensina quanto o joelho precisa do chão. Quando reergueu o rosto, ele viu, espantado, como os aldeões festejavam. Estava ali, no fundo daquele buraco, aquilo que eles buscavam. O rei, o nosso rei!, gritavam. E todos imitaram o gesto do arqueólogo: ajoelharam-se e deram graças a Deus.

– Que rei?, perguntou o doutor, quase sem voz.
– Esta água, doutor, declarou, eufórico, Damião. Esta água é o rei.

As pessoas cantaram e dançaram usando as enxadas para marcar o compasso. Puxaram pelos braços do arqueólogo e fizeram com que ele partilhasse daquela celebração. Aos poucos, o cientista foi-se deixando possuir pela alegria geral. Afinal, pensou o historiador, reinava ali uma outra visão do mundo. Uma visão mais poética, mais pura e mais profunda. Naquele mundo, os mortos permanecem vivos. E nada pode ser mais vivo do que água.

No dia seguinte, o historiador fez as malas, arrumou a tenda na bagageira do carro e já acenava um vasto adeus quando foi interpelado pelos dois chefes.

– Não se esqueça da promessa, meu boss, disse um deles.
– Afinal, estamos todos felizes com o resultado da nossa cova, declarou o outro.

Ezequiel Nicolau colocou chapéu e óculos escuros. Enterrava no rosto uma sombra que nem o mais atento dos arqueólogos seria capaz de detetar. E havia um rei que nascera e morrera dentro dele naquele dia.

Estadistas e políticos de fibra não temem críticas de jornalistas. Só os medíocres e inseguros

Meus longos anos como jornalista me ensinaram que os verdadeiros estadistas e os políticos seguros de si não temem as críticas nem as perguntas mais ásperas dos jornalistas. Só os medíocres e inseguros. Os presidentes dos países importantes e das democracias sólidas sabem que as críticas dos veículos de comunicação fazem parte do jogo democrático. 

Hoje, aqueles que dirigem as grandes democracias jamais se permitirão deixar de responder, em uma entrevista pessoal ou coletiva, a uma pergunta de um jornalista, por mais dura que seja, ou abandonar a entrevista. E muito menos insultar ou ameaçar o jornalista. Só o ex-presidente americano Donald Trump fazia isso, e por isso era considerado como um desequilibrado mental e acabou perdendo as eleições. 

Aos jovens jornalistas brasileiros e aos estudantes de jornalismo que às vezes me perguntam sobre minhas experiências jornalísticas ao redor do mundo, dedico esta coluna para contar dois episódios emblemáticos de quando fui correspondente na Itália e no pequeno e poderoso Estado do Vaticano. 

Os políticos italianos que eu criticava em meus artigos, em vez de se queixar ao meu jornal, enviavam-me um motorista com um cartão manuscrito me agradecendo. Em meus 18 anos de correspondente, jamais um político importante reclamou comigo sobre as críticas que eu lhe fazia. 

Quando o ministro de Relações Exteriores da Itália era Giulio Andreotti, um dos políticos mais influentes do país, sete vezes primeiro-ministro, uma figura emblemática, a Espanha estava para entrar na então Comunidade Europeia. Para isso, era fundamental o voto da Itália. Certa manhã, o embaixador espanhol na Itália me ligou para dizer que tinha recebido uma queixa da embaixada italiana em Madri por meus artigos duros sobre a máfia siciliana. Disse que um funcionário da embaixada tinha feito um dossiê de seis meses de meus artigos e que estavam muito irritados. E acrescentou com clássico sabor mafioso: “É importante que saibam que a Espanha quer entrar na Comunidade e que precisa do voto da Itália”. 

Avisado, o então diretor do EL PAÍS, Juan Luis Cebrián, que tinha sido também o idealizador do jornal, pediu ao embaixador espanhol em Roma o nome e sobrenome do funcionário da embaixada italiana em Madri que se permitiu fazer um dossiê mafioso sobre um de seus correspondentes. 

Dois dias depois, recebi um telefonema do secretário de Andreotti me informando que no dia seguinte, às nove da manhã, o ministro me daria a entrevista que eu havia solicitado. Na verdade, eu nunca tinha pedido aquela entrevista e entendi que era uma forma elegante e diplomática de o ministro me chamar para falar comigo. 

Andreotti, como ministro de Relações Exteriores, era fundamental para apoiar a entrada da Espanha na Comunidade. Cheguei para a entrevista certo de que se tratava de falar sobre as críticas da embaixada italiana em Madri a respeito de meus artigos. Pelo contrário, ele me recebeu todo cordial e antes que eu lhe fizesse qualquer pergunta, foi ele que me fez uma, desconcertante: “Você sabe onde o Papa [que era então o polonês João Paulo II] escreve seus discursos?”. Respondi que imaginava que era em seu escritório. Ele respondeu que não, que os escrevia de joelhos em uma mesinha de sua capela particular onde celebrava missa. 

Intrigado, perguntei como ele sabia. Respondeu que o Papa o convidava muitas vezes a assistir à sua missa. “Não me importo que seja muito cedo, porque sou madrugador. O pior é quando me convida para jantar, porque costuma acabar muito tarde. Prefiro quando o Papa me convida para passear durante o dia com ele nos jardins do Vaticano.” Eu o escutava atônito, porque estava me dando uma notícia totalmente desconhecida para a imprensa e que, se publicada, seria destaque mundial, já que revelava uma intimidade incomum com o papa Wojtyla, ainda mais se tratando de um político polêmico pelas acusações de fazer parte da máfia. 

Em seguida, olhando para a parede, mostrou-me um quadro e me perguntou se conhecia o autor. Eu disse que não, e ele me respondeu: “É do pintor que em Manila, na viagem de Paulo VI às Filipinas, atentou contra o Papa com um objeto contundente na chegada ao aeroporto, ferindo-o no abdome”. 

Não foi um ferimento grave, mas causou uma comoção mundial. Depois, soube-se que se tratava de um pintor excêntrico que, naquela ocasião, tinha uma exposição de seus quadros no hotel em que se hospedaria toda a comitiva papal e queria se tornar conhecido mundialmente. Lembro muito bem porque eu acompanhava o Papa no avião com um grupo de correspondentes de todo o mundo e fui testemunha do pseudoatentado. 

O que não se entendia era como aquele quadro do homem que atacara o Papa tinha acabado no gabinete do ministro Andreotti. Será que o Papa tinha lhe dado o quadro de presente? Enquanto isso, nenhuma palavra sobre as críticas às minhas crônicas. 

O político importante do qual se chegou a dizer que era filho de Pio XII porque, ainda jovem, ganhou um cargo importante no Vaticano, concluiu nosso encontro com um último gesto emblemático. 

Antes de entrar na política, Andreotti foi jornalista. Tinha em sua mesa tinha um exemplar de um de seus livros, que me deu, e com isso se despediu após ter me dado uma notícia exclusiva. Quando saí, abri o livro e estava escrito: “Ao meu colega jornalista Juan Arias, com o afeto de Andreotti”.

Enviei o artigo sobre aquele encontro ao diretor do jornal, que, incrédulo, publicou-o imediatamente. Quando o embaixador da Itália em Madri abriu o EL PAÍS de manhã, ficou atônito. Entendeu muito bem que era uma mensagem cifrada para ele, para que não tentasse criticar novamente meus artigos. E a Espanha entrou na Comunidade Europeia com o voto da Itália. Assim são os verdadeiros estadistas. 

Até os Papas e o Vaticano sempre respeitaram os jornalistas e aceitaram suas críticas sem fazer ameaças nem insultos. Fui testemunha disso quando o diretor do EL PAÍS em seus primeiros anos sofreu duros ataques da Igreja espanhola da época, que ainda era franquista, porque o novo jornal defendia o direito ao aborto, os direitos humanos, a liberdade de imprensa e o direito às diferenças. Era um jornal liberal, como os novos que estavam nascendo dos escombros da ditadura. 

Um dia, o diretor me chamou a Roma e me pediu algo muito difícil: queria ter uma entrevista pessoal com o então substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, o espanhol Martínez Somalo. Era a terceira autoridade do Vaticano, uma espécie de ministro do Interior, e despachava várias vezes ao dia com o Papa. 

Sem saber como fazer, recorri ao embaixador da Espanha na Santa Sé, que era agnóstico, e perguntei se por acaso ele poderia tentar, mas eu achava impossível porque o substituto do Vaticano nunca havia recebido nenhum diretor de jornal e, além disso, Cebrián tinha acabado de se divorciar. 

Poucos dias depois, quando eu estava em um hotel de Florença fazendo uma reportagem, o telefone do quarto tocou: era o próprio substituto do Vaticano, que me conhecia das viagens com o Papa. “Juan, você me pede algo muito difícil, mas vou receber seu diretor”, disse ele. “Diga-lhe que venha em primeiro de maio, quando o Papa estará muito ocupado e terei mais tempo para ele.” E impôs como condição que eu acompanhasse o diretor. 

Cebrián chegou a Roma na noite anterior e, às nove da manhã, atravessamos os portões do Vaticano e nos dirigimos, depois de entregar vários documentos, ao pequeno escritório do monsenhor Somalo, ao lado do gabinete do Papa. Cebrián lhe explicou durante uma hora as dificuldades do EL PAÍS e dos novos jornais que estavam surgindo depois da morte do ditador Franco devido à sua posição de veículos abertos à defesa das liberdades que haviam sido pisoteadas durante a ditadura. 

Somalo lhe perguntou se quem atacava os jornais eram os militares. “Não, monsenhor, quem nos atrapalha é a Igreja, que sempre esteve do lado da ditadura e de Franco.” Surpreso, Somalo lhe disse: “Aqui no Vaticano respeitamos a liberdade total de expressão e a imprensa livre”. E, referindo-se a mim, explicou por que quis que eu o acompanhasse ao encontro. “Seu correspondente aqui é testemunha de que nunca recebeu do Vaticano um telefonema de protesto por seus artigos”, afirmou. “E não me dirá, diretor, que não escreveu coisas muito duras sobre nós.” 

Eu tinha escrito sobre as dúvidas que existiam de que João Paulo I, que morreu misteriosamente 33 dias depois de sua eleição, pudesse ter sido assassinado. Eu lhe respondi que era verdade que o Vaticano nunca tinha se queixado de meus artigos e sempre me deu um lugar no avião do Papa para acompanhá-lo em suas viagens pelo mundo. E, entre brincadeira e a sério, acrescentei: “Mas também é verdade, e vocês sabem disso, que sei de coisas que nunca publiquei nem publicarei”. 

Rindo, o monsenhor Somalo disse a Cebrián em tom carinhoso: “Como seu correspondente é mau!”. Cebrián voltou para Madri e a verdade é que a Igreja deixou o jornal em paz. Só as figuras políticas inseguras e medíocres, sem personalidade, permitem-se atacar e até insultar e ameaçar os jornais e os jornalistas. 

Tanatocracia

A humanidade alcançou conquistas e realizou avanços no campo da ciência e da tecnologia, em espaço de tempo, capaz de desafiar o mais ousado pensador da ficção cientifica. Em contrapartida, não conseguiu chegar a um modelo ideal de organização política que, estabelecesse normas e padrões de convivência civilizada e submetesse o poder ao controle dos governados.

E haja tempo. Por falar em tempo, não custa, em voo rasante, observar que há milênios, foi legado ao futuro a herança greco-romana em pensamento, palavras e obras. Para não ir longe, basta se situar no campo da filosofia e do direito. Por sua vez, a origem e o significado etimológico das palavras explicam, sinteticamente, a natureza dos governos a partir dos sufixos “Arquia” designa governo; “Kratos”, titã da mitologia grega, que personificava o poder.


Com efeito, a palavra formada não emite juízo de valor para além do que conceitua. No conjunto, limita-se a demonstrar a complexidade que envolve as múltiplas facetas da realidade política. Parte delas, foi extraída do clássico de Bobbio, “Teoria das Formas de Governo”, tendo como origem a célebre discussão entre Otanes, Megabises e Dario sobre a forma de governo mais adequada para Pérsia, hoje Irã, na sucessão de Cambises, século V a.C. Outra parte não chega a ser formas de governo, mas se desvia da rota do que poderia ser “o bom Governo”.

Monarquia: governo de um; Aristocracia: governo dos melhores; Democracia: governo do povo; Oligarquia: governo de poucos, da mesma família, partido ou corporação; Oclocracia: governo da multidão, da turba; Autocracia: governo de único detentor do poder (líder, ditador, déspota, comitê, partido); Plutocracia: governo dos mais ricos; Cleptocracia: “governo de ladrões”, corrupção política institucionalizada; Timocracia: “governo da honra”, forma de governo em que a honra é o princípio dominante; Teocracia: governo fundamentado pela encarnação da divindade no governante; Androcracia: governo que se baseia na suposta superioridade masculina; Pedantocracia: sequela da Tecnocracia, governo de especialistas e senhores da razão; Ineptocracia: governo de incapazes; Idiocracia: governo de idiotas; Gerontocracia: governo de velhos, de preferência, oligarcas; Pornocracia: período (Século X) de obscurantismo moral no Vaticano; Hierocracia: governo dos sacerdotes; Pulhocracia: governo indecoroso que se transforma na Canalhocracia; Tanatocracia: governo da morte.

Inacreditável, mas a humanidade viveu experiências dramáticas em matéria de desgoverno e desvalor da vida que começa a ser extinta quando lhe falta a atmosfera do respeito e diálogo. E aí estará condenada à pena de morte por falta de ar.

Bolsonaro e a construção do caos

Enquanto sonhamos com a imunização do povo contra a Covid-19, quem recebe vacinas é Flávio Bolsonaro, filho do presidente, e os congressistas do Brasil. Flávio ganhou uma vacina contra a punição no caso das rachadinhas. Os congressistas foram mais longe e produziram um projeto que os vacina contra a prisão em flagrante.

Impressionante ver como o populismo de direita se associa aos políticos tradicionais para criar uma intransponível blindagem para toda sorte de crimes.

E logo eles , os populistas de direita, que afirmam a decadência de um mundo materialista, distante dos valores espirituais que pretendem restaurar.


Acabo de ler “Guerra pela eternidade”, um livro de Benjamin Teitelbaum. O livro fala do retorno do tradicionalismo e da ascensão da direita populista. Infelizmente, não posso fazer uma resenha aqui, senão meu espaço iria para o espaço, se me perdoam o jogo de palavras.

Teitelbaum é etnógrafo, e seu método de pesquisa consiste em observar e interagir com as pessoas que estuda. Dois personagens, entre outros, se destacam em seu livro: Steve Bannon e Olavo de Carvalho. A leitura do livro me ensinou alguma coisa sobre o pensamento da direita, embora a tese central não tenha me parecido muito sólida. Ele tenta enquadrar Steve Bannon e Olavo de Carvalho no figurino do tradicionalismo, mas algumas partes do corpo ficam do lado de fora, não cabem exatamente.

O tradicionalismo tem uma visão circular do tempo. As épocas se sucedem da Idade do Ouro, o tempo dos sacerdotes, passando pelos guerreiros e comerciantes, até o dos escravos, a decadência que se vive hoje no mundo material, globalizado, dominado por uma aliança entre o liberalismo e a China.

Steve Bannon e Olavo de Carvalho sonham com um novo mundo, em que os moradores das áreas rurais americanas e o povo religioso do Brasil (no caso de Olavo) aparecem como as forças novas que vão restaurá-lo.

É um pouco parecido, num outro plano, com a visão romântica dos comunistas, que viam a redenção na classe operária. O mais importante, no entanto, é que, assim como a velha extrema esquerda, Bannon quer implodir as instituições existentes.

Isso explica, no governo Trump, a escolha de uma secretária de Educação que distribuía vouchers para usarem em escolas particulares, anulando o ensino público. Ou mesmo a escolha de um diretor da agência ambiental cujo grande objetivo era acabar com seu ativismo.

Há correspondência dessas escolhas no Brasil. Ricardo Salles foi apontado para destruir o trabalho legal pelo meio ambiente. Ernesto Araújo, para realizar uma diplomacia que rompe com as práticas tradicionais.

Araújo não se importa que o Brasil se transforme num pária. Num mundo decadente, isso é um elogio: significa que há um papel na nova idade do ouro, em que os símbolos superam a razão.

Não tenho espaço para as contradições. Lembro apenas que Bannon se diz espiritualista, mas recebia um salário de US$ 1 milhão de um bilionário chinês e foi acusado de desviar dinheiro destinado a construir o muro na fronteira com o México.

O ponto central é que essas ideias influenciam o governo Bolsonaro. Ele mesmo é uma espécie de antipresidente, alguém destinado a explodir a instituição. O caos é algo promissor para quem julga antever a aurora de uma nova era.

É assim que entendo sua intervenção na Petrobrás e os decretos para armar o povo. Na verdade, foi assim que li as principais declaracões dos quadros da alt-right, a direita alternativa.A tática parece muito com as velhas teorias revolucionárias , só que com o sinal trocado.
Fernando Gabeira

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Pensamento do Dia

 


Estapafúrdio produzido por Bolsonaro e apoiado por generais tem a ver com intenções definidas

A incógnita mais expressiva, dentre as muitas atuais, é simples como formulação e inalcançável na resposta. Dado que estão explicitados os indícios de golpismo e a incompetência espetaculosa dos militares no governo, o que fará o Exército na possível transformação da pandemia em tragédia de massa, um país sufocado pela peste, carente de tudo menos de morte?

A marca de um ano exato do primeiro caso de Covid-19 no Brasil encontrou os estados em desespero com o recorde de casos e a ausência de leitos, vacinas, pessoal e outros recursos. Uma antevisão das previsões e alertas que as vozes mais competentes estão fazendo, inclusive a Organização Mundial da Saúde, caso persista o incentivo de Bolsonaro e do seu governo à calamidade.

O já célebre depoimento do general Eduardo Villas Bôas sobre a ameaça que fez ao Supremo, em nome do Exército, é claro na desmistificação da conversão desses militares ao Estado constitucional de Direito e à democracia.

Ressalva a fazer-se é a ausência até de mera informação aos comandos da Marinha e da FAB sobre a ameaça, como dito pelo entrevistado. Risco de discordância, é claro. E isso, não sendo certeza, pode ser indício de promissora evolução na Marinha e na FAB, oficialidades muito mais dotadas de preparo geral, para civilizar-se, do que no Exército.

Já é bem difundida a impressão, ou a convicção, de que todo o estapafúrdio produzido por Bolsonaro e apoiado pelos generais tem a ver com intenções definidas. Há bastante coerência nos atos amalucados, que são bem aceitos pelos generais também por uma comunhão não declarada nem gratuita.

A propaganda do falso tratamento com cloroquina cedo se mostrou como objetivo. Não só para desacreditar as recomendações científicas. Também para ações de governo que custaram milhões ao dinheiro público — e aí estava o Exército a fabricar quantidades montanhosas da droga enganadora.

O próprio Ministério da Saúde, o mais militarizado setor civil da administração pública, foi posto como indutor da droga ineficaz. Bolsonaro continua condenando as máscaras e estimulando aglomerações. E, sobre tudo o mais, a sabotagem a vacinas excedeu a incompetência. É muito mais e muito pior.

Por trás disso houve e há algo. Esse desatino não resistiria, para chegar à dimensão que alcançou, sem um propósito a sustentá-lo.

Não faz sentido o envolvimento, sem motivações especiais, de um governante em propaganda de remédio e em combate ao conhecimento científico provado e comprovado. Com esse meio de disseminar a morte, porém, combina-se um outro de fim idêntico.

No seu primeiro ato pela difusão da posse de arma, Bolsonaro alegou direito da cidadania de se defender. Sucessivos agravamentos dessa facilitação à criminalidade chegaram, agora, ao desmentido definitivo do propósito apresentado por Bolsonaro: novos decretos permitem até 15 armas para o cidadão comum, 30 armas para quem se apresente como caçador, 60 armas para quem se registre como atirador, munição a granel. Arsenais sem relação alguma com defesa pessoal. Mas não sem objetivo de quem os libera e dos militares, em especial do Exército, que dão o apoio.

As intenções inconfessas que enlaçam as atitudes de Bolsonaro, em temas como a pandemia e o armamento de civis, têm corrido sem dificuldade. Mas alguma coisa mudou nas últimas semanas. O Supremo mudou. Por quanto tempo e se para ser supremo sem temor e sem prazo, no momento, importa menos. Aproveite-se enquanto dure, que a necessidade do país é extrema.

Quando quatro ministros do STF decidiram trabalhar nas férias de dezembro e janeiro, a boa novidade foi noticiada como precaução contra propensões do recém-eleito presidente Luiz Fux. Revelou-se muito mais do que isso.

De Ricardo Lewandowski vieram, e continuam vindo, decisões que enfrentam desvios na política antivacinas do governo, o mesmo quanto às mais recentes revelações de ordinarices judiciais, políticas e policiais na Lava Jato, e outras de mesmo peso.

Alexandre de Moraes encarou, e não tem cedido nem milímetros, as ameaças ao Supremo, as patifarias nas redes, os indícios que recaem na Presidência da República.

Rosa Weber deu ao governo cinco dias, expirados ontem, para justificar o pacote das armas. Edson Fachin tomou a defesa verbal do Estado de Direito. E vai o Supremo por aí, ou parte dele, mudado, posto de pé e cabeça erguida.

Os negociantes do Congresso continuam negociando. O poder econômico, idem. Se a defesa da democracia não vier do Supremo, talvez só tenhamos resposta para a incógnita de Bolsonaro sob a forma de fato consumado. E a pandemia, como se agrava aqui, facilita.

A tragédia do negacionismo

O presidente Jair Bolsonaro bateu no teto do negacionismo quando atacou governadores e prefeitos que adotaram medidas de lockdown. Em Fortaleza, durante evento que causou aglomeração e ao qual compareceu sem máscara, na sexta-feira, disse: “Agora, o que o povo mais pede, e eu tenho visto, em especial no Ceará, é trabalhar. Essa politicalha do ‘fique em casa, a economia a gente vê depois’, não deu certo e não vai dar certo”. Aproveitou para ameaçar os governadores que não seguirem a sua cartilha: “O auxílio emergencial vem por mais alguns meses e, daqui para a frente, o governador que fechar seu estado, o governador que destrói emprego, ele é quem deve bancar o auxílio emergencial”.

Mirou, sobretudo, o governador cearense Camilo Santana (PT), que havia endurecido as medidas de distanciamento social. Fortaleza está com uma taxa de ocupação de leitos de UTI de 94%, sendo uma das capitais em risco de colapso do Sistema Único de Saúde (SUS). As demais são: Porto Velho (RO), 100%; Florianópolis (SC), 96,2%; Manaus (AM), 94,6%; Goiânia (GO), 94,4%; Teresina (PI), 93%; e Curitiba (PR), 90,0%. O país já contabilizou 10,4 milhões de casos e 252 mil óbitos por covid-19 desde o início da pandemia. Na véspera das declarações, Bolsonaro havia questionado o uso de máscaras, enquanto o país batia o recorde de mortos num único dia: 1.582.


Psicologicamente, negacionismo é uma forma de escapar de uma verdade desconfortável. Na ciência, o negacionismo é definido como a rejeição dos conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico a favor de ideias radicais e controversas. Costuma se fortalecer quando a sociedade se depara com situações de instabilidade, como essa crise sanitária, ou diante de algo nunca presenciado, um vírus novo e letal, como é o caso. O negacionismo apela para teorias e discursos conspiratórios, que acabam favorecendo disputas ideológicas, interesses políticos e religiosos. Bolsonaro é paranoico, vê conspiração em tudo. Acredita que os defensores do lockdown (medida para conter a velocidade de propagação do vírus e evitar o colapso do sistema de saúde) querem desestabilizar seu governo e aprovar o seu impeachment.

No governo, além de Bolsonaro, os ministros de Relações Exteriores, Ernesto Araujo; do Meio Ambiente, Ricardo Salles; e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, em suas respectivas pastas, estão na linha de frente do negacionismo. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, também fez parte desse time. Sua responsabilidade no colapso do SUS em Manaus, por falta de oxigênio, está sendo investigada, assim como no atraso da compra de vacinas, inclusive, as que estão sendo produzidas no Brasil, como a CoronaVac (Instituto Butantan); a Oxford (Fiocruz) e a Sputnik V (União Química, privada). Agora, corre atrás das vacinas da Pfizer, que negocia desde agosto e refugou em setembro passado.

O negacionismo é insidioso e perigoso, pois atua no campo ideológico para influenciar a opinião pública e legitimar governantes com posições anticientíficas. Com isso, pode resultar em tragédias humanitárias. É o caso da epidemia de Aids na África do Sul, que chegou a registrar 5,4 milhões infectados, para uma população de 48 milhões de pessoas. O ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki (1999-2008) ficou para a história como o principal negacionista do HIV/Sida, que mandou tratar com erva, o que custou a vida de mais de 300 mil pessoas. Há quem exija que seja julgado por crimes contra a humanidade.

A negligência no combate à pandemia, a negação das vacinas e a insistência na promoção de tratamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19, pelo presidente Jair Bolsonaro, porém, provocou ampla mobilização de médicos, pesquisadores e entidades científicas, que atuam nos meios de comunicação e nas redes sociais para combater a fake news e explicar à população o que realmente está acontecendo. O negacionismo irresponsável é tanto que até hoje o governo não fez uma campanha oficial de esclarecimento e incentivo à vacinação, que é a última fronteira do combate ao negacionismo em relação à pandemia da covid-19.

Tragédia do desequilibrado

O desequilíbrio de Bolsonaro é proporcional à tragédia humana que o negacionismo provocou no Brasil
João Doria, governador de São Paulo

Pandemia mata os pobres e a classe média, mas poupa as elites

A pandemia da covid-19 parece ser um flagelo de Deus eivado de extrema injustiça, porque atinge preferencialmente os pobres e a classe média baixa. Pode-se alegar que sempre foi assim, as elites sempre estiveram mais protegidas. Realmente é verdade, porque quem tem mais recursos pode se isolar e fazer uma melhor quarentena. Mas desta vez, no caso da covid-19, a desigualdade social ficou ainda mais patente, porque os governantes e as elites podem usar recursos que estão inacessíveis aos pobres e à classe média.

Por volta do ano 541 d.C., a humanidade enfrentou a peste bubônica, que foi perdendo a intensidade, porém durou mais de 200 anos. Depois, ressurgiu em 1343, sob o codinome de Peste Negra, durou dez anos até perder a intensidade, matou um terço da população da Europa e resistiu até o começo do século XIX. Pode ter matado até 200 milhões de pessoas. Foi a pior pandemia de todos os tempos.

Em 1580, surgiu a primeira pandemia de gripe, que se espalhou por Ásia, Europa, África e pela recém- colonizada América.

Séculos depois, em 1889, a Gripe Russa foi a primeira a ser documentada com detalhes, com proliferação inicial de duas semanas sobre o Império Russo e chegando até o Rio de Janeiro. Ao todo, um milhão de pessoas morreram por conta desse subtipo da Influenza A. Na mesma época, houve na Europa as epidemias de cólera, mas com menos mortes, por serem controladas com melhoria no abastecimento de água.

Em 1918, a Gripe Espanhola causou a morte de até 50 milhões de pessoas, afetando não só idosos e pacientes com sistema imunológico debilitado, como também jovens e adultos. Com possível origem nos Estados Unidos, essa enfermidade quase dizimou as populações indígenas americanas e levou a óbito cerca de 35 mil brasileiros.


A grande diferença para a covid-19 é que desta vez a Humanidade tem recursos para enfrentar a pandemia. E não espanta o fato de as mortes ocorram basicamente entre os pobres e a classe média. Mas qual é o verdadeiro motivo dessa situação, além da facilidade de as elites fazerem quarentena?

Na verdade, no Brasil e no mundo a situação é semelhante, porque toda doença é mais facilmente combatida quando descoberta no início. Eureka! Bingo! Bestial! É por isso que em nosso injusto país, a contaminação de alguma autoridade ou figura de elite sempe é divulgada assim pela imprensa: “Fulano testou positivo para coronavirus”.

Foi assim com o presidente Jair Bolsonaro, com o vice Hamilton Mourão, com muitos outros ministros, integrantes das Forças Armadas e demais membros das classes dominantes, como se dizia antigamente. A diferença entre eles e o resto da população é que sempre estão fazendo testes, que identificam a doença no início, por isso o índice de mortalidade das elites chega a ser ridículo.

É por isso que Bolsonaro impediu com tanto empenho a divulgação de seu prontuário médico ou sua cartilha de vacinas, porque neles estão registrados os testes frequentes que fazia.

Assim é fácil tirar tanta onda, dizer que é resistente por ter sido atleta na juventude, já que tem se queixado apenas das hemorroidas e do problema no abdômen (descolamento da tela implantada). É por isso que a covid-19 tem poupado os membros das Forças Armadas. A coisa mais difícil é ver um militar contaminado.

Enquanto o caricato presidente se diz “imbrochável”, os brasileiros e brasileiras estão morrendo em escala industrial, mas nossas autoridades estão protegidas. Lembrem que durante a primeira onda, em 2020, foi um escândalo quando encontraram quase 7 milhões de testes que o Ministério da Saúde estocava no aeroporto de Guarulhos.

Um ano de pandemia, mais de dois de desgoverno

O Brasil completa um ano de pandemia e dois anos e dois meses de desgoverno, com a economia emperrada, o maior desemprego em oito anos, mais de 250 mil mortos pela covid-19 e um processo de vacinação confuso. Mas confusão é a regra. O ministro da Saúde acaba de mandar para o Amapá vacinas destinadas ao Amazonas e vice-versa. O presidente da República anunciou a demissão do presidente da Petrobrás, depois de ameaçá-lo por haver ignorado seus aliados caminhoneiros. Fevereiro termina com hospitais lotados na maior parte das capitais e recordes de mortes pelo coronavírus. Nos últimos dias houve de novo aglomeração no Palácio do Planalto. O setor público está superendividado e seus financiadores mostram-se nervosos. Há alguma perspectiva de melhora a partir desse balanço?

Apesar de lenta e mal planejada, a vacinação é o fato mais promissor, neste momento. Favorecida pela negligência federal e pela inconsequência de irresponsáveis, a pandemia continuará matando quase sem freio por muito tempo. Mas o avanço da imunização poderá trazer alguma segurança para os negócios. A normalização, no entanto, será o retorno à submediocridade anterior à pandemia. A economia poderá crescer 3% ou pouco mais em 2021, segundo as projeções do mercado. Depois, se nada atrapalhar, ficará limitada a um potencial de crescimento em torno de 2,5% ao ano. Mas nada disso está assegurado.


Março vai começar com o governo central ainda sem Orçamento aprovado. O projeto continua no Congresso, à espera de votação, mas esse nem é o maior problema. A meta fiscal deste ano é um déficit primário limitado a R$ 247,1 bilhões. Nos 12 meses terminados em janeiro o resultado foi um buraco de R$ 776,44 bilhões. As condições econômicas e sanitárias deste ano devem permitir, espera-se, um saldo muito melhor, mas a evolução da epidemia continua incerta, assim como o ritmo da atividade.

O ministro da Saúde virou tema de piadas, há muito tempo, e a sustentação da retomada vai depender, em primeiro lugar, de um consumo mais vigoroso. Para isso – e para evitar uma catástrofe social – será preciso ressuscitar, embora em escala menor, a ajuda emergencial encerrada em dezembro. Isso custará uns R$ 30 bilhões, talvez mais, e o governo terá de pensar numa contrapartida, de preferência algum corte de gasto.

Na sexta-feira essa contrapartida era ainda incerta. Um dia antes o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, havia advertido: sem a compensação, poderá diminuir a confiança no compromisso de recuperação fiscal, com piora da avaliação de risco, aumento dos juros e novos entraves à recuperação da economia e do emprego.

Credibilidade ganha importância extraordinária quando se tem de administrar um débito enorme. Em janeiro, a dívida bruta do governo geral – da União, dos Estados e dos municípios, somados ao INSS – chegou a R$ 6,67 trilhões, 89,7% do produto interno bruto (PIB) estimado pelo Banco Central (BC). Nos países emergentes e de renda média, a relação dívida/PIB deve andar em torno de 62%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional. No Brasil, o governo central é responsável pela maior parte do endividamento e isso torna crucialmente importante a sua confiabilidade.

Mas falta saber qual pode ser a contrapartida. A PEC emergencial em exame no Senado autoriza a retomada do auxílio sem a limitação do teto de gastos. A compensação poderia vir de uma contenção das despesas com pessoal e/ou do fim da vinculação constitucional de verbas para educação e saúde. Houve resistência, entre senadores, às duas soluções e o relator desistiu da segunda.

A desvinculação é debatida há mais de 20 anos, como forma de conferir maior flexibilidade ao Orçamento. Mas é preciso muito cuidado ao tratar de educação e saúde. A cautela é ainda mais necessária quando o governo tem uma folha corrida tão desastrosa nas duas áreas. Não houve, desde janeiro de 2019, um ministro da Educação digno desse título e deve ser muito difícil encontrar, na História republicana, um ministro da Saúde tão inepto quanto Eduardo Pazuello. Mas o responsável principal pelos desastres nos dois setores é mesmo o presidente Jair Bolsonaro.

Até o caminho da retomada neste ano, portanto, continua enevoado. O ministro da Economia, submetido ao regime de humilhações e afagos por seu chefe, foi incapaz, até agora, de apontar soluções para a sustentação do crescimento e de manejar os instrumentos necessários para combinar a reanimação econômica e o ajuste das contas públicas.

Enquanto o governo derrapa, o mercado financeiro oscila, o dólar continua muito mais caro do que seria possível se houvesse menos incerteza e o câmbio segue pressionando a inflação. Os preços por atacado, com alta de 3,28% em fevereiro e 40,11% em 12 meses, segundo o IGPM-FGV, permanecem como um sinal de alerta para o perigo inflacionário. Se o risco se agravar, o BC poderá ser forçado a elevar a taxa básica de juros, o único estímulo ainda mantido por um órgão federal. Anarquistas podem ter alguma razão, mas de vez em quando um pouco de governo é indispensável.

Brasil, pátria verde-oliva

 


O que pode esconder a caixa preta da compra de vacinas

O presidente Jair Bolsonaro está mais histérico do que de costume. E sua histeria não foi atenuada com a boa notícia para sua família de que o Superior Tribunal de Justiça, liderado pelo ministro João Otávio de Noronha, por quem ele se apaixonou à primeira vista, detonou o processo que investiga Flávio Bolsonaro, acusado dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O mais recente surto de descontrole de Bolsonaro começou dias antes de ele anunciar que demitiria o economista Roberto Castelo Branco, indicado para a presidência da Petrobras por Paulo Guedes, ministro da Economia, o ex-Posto Ipiranga do governo que ainda se imagina um general, mas que há muito tempo não passa de um desprestigiado ajudante de ordens do ex-capitão.

Era mais uma crise que poderia ter sido evitada, mas não, representou um baque para as ações da empresa na Bolsa de Valores, o dólar subiu e o país ficou mais caro para os brasileiros, e mais barato para os investidores estrangeiros. O mandato de Castelo Branco termina agora em março. Se não fosse renovado, ele simplesmente iria para casa sem esse barulho todo.

Por que Bolsonaro preferiu fazer barulho? O que ele sabe, mas não conta, sem que isso impeça quem está fora do governo de pressentir? Pode ser uma combinação de várias coisas que se especula nas rodas dos poderes da República. Uma: a megaepidemia que se avizinha, e que fará mal à sua popularidade. Outra: novos fatos que deem alento ao processo contra Flávio.

Outra ainda: o que fazer com o general Eduardo Pazuello, um general especialista em logística militar travestido de ministro da Saúde. A cabeça do general está marcada para rolar se Bolsonaro for obrigado a entregar uma para salvar a sua. É o que ele tem feito desde que se tornou presidente. Mas como cortá-la sem que isso cause desconforto dentro do Exército?

Pazuello não pediu para ser ministro. Foi Bolsonaro, ouvidos seus conselheiros também militares, que o forçou a aceitar a tarefa. Queria um ministro da Saúde que lhe dissesse sempre “tá ok”. Missão dada a um militar, treinado para obedecer, é considerada missão cumprida – embora, no caso de Pazuello, ele não tivesse preparo para tal, e tenha se cercado por militares despreparados.

A histeria de Bolsonaro teria a ver também com o medo dele de que, em breve, sejam abertas as primeiras frestas da caixa preta da compra de vacinas. Para um governo que se diz imune à corrupção, a caixa pode conter material altamente inflamável. Por que o Ministério da Saúde não fechou contrato com a Pfizer se a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou o registro da vacina?

Não vale responder, como faz Pazuello, que foi porque uma das cláusulas contratuais diz que o governo deve se responsabilizar por danos colaterais provocados pela vacina. A cláusula é comum a esse tipo de contrato. Está no contrato da compra da vacina AstraZeneca em aplicação no Brasil. Mais de 70 países já adotaram a vacina da Pfizer submetendo-se a tal condição.

Por que o Ministério da Saúde pagou mais de 1, 6 bilhão de reais por 20 milhões de doses da vacina Covaxin ainda na terceira fase de testes na Índia e sem autorização para uso no Brasil? Detalhe: não houve licitação para a compra. E a empresa brasileira que representa a Covaxin será denunciada por ter vendido testes de Covid superfaturados ao governo do Distrito Federal.

Para espanto de muitos dos seus ministros, Bolsonaro, em viagem ao Ceará, voltou a condenar o uso de máscaras, recomendou a volta ao trabalho para salvar a economia e ameaçou não repassar dinheiro do auxílio emergencial para os Estados cujos governadores endureçam as medidas de isolamento. Não deve ser só porque despreza vidas que ele age assim. Não pode ser. Algo há.

A urgência da CPI da pandemia

Sobre a mesa de trabalho do presidente do Congresso, o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), está o pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as ações e omissões do governo federal na condução da crise sanitária provocada pelo novo coronavírus. O pedido é assinado por 31 senadores de 11 partidos. É do mais alto interesse público que esta CPI seja instalada imediatamente.

Pululam razões para que o Poder Legislativo exerça uma de suas principais prerrogativas constitucionais, a de fiscalizar o Poder Executivo. De longe, uma CPI é um dos instrumentos mais graves do sistema de freios e contrapesos, mas gravíssima é a tragédia que se abateu sobre o País.

Não é remota a possibilidade de que as atuações do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, tenham sido determinantes para transformar o que seria uma profunda crise sanitária neste horror inominável. Um inquérito parlamentar para apurar responsabilidades, pois, é mandatório.

Já são mais de 250 mil vítimas fatais da peste. E não há nada que permita ao mais otimista dos brasileiros sonhar com dias melhores no futuro próximo. Ao contrário. É duro constatar que, a ser mantido o comportamento desidioso da dupla Bolsonaro e Pazuello, a Nação está mais próxima de prantear 300 mil vidas perdidas para o novo coronavírus em poucas semanas do que de ver o arrefecimento da crise no País.

No mesmo dia em que foi registrado o maior número de mortes por covid-19 em 24 horas no Brasil desde o início da pandemia – 1.582 óbitos, no dia 25 passado –, Bolsonaro foi às redes sociais não para lamentar os mortos, mas para desencorajar o uso de máscaras pela população.


Em sua irremediável impostura, o presidente aludiu a supostos “efeitos colaterais” das máscaras que teriam sido “evidenciados” por um “estudo” cujos autores não conseguiu sequer nominar. De quebra, voltou a criticar as medidas de distanciamento social adotadas nos Estados para evitar o iminente colapso do sistema de saúde. Assim, o presidente da República, em vez de usar seu poder de comunicação para convocar seus compatriotas a se acautelarem em relação ao coronavírus, faz pouco-caso dos doentes e mortos e incentiva de forma irresponsável a burla das medidas mais eficazes para frear o espalhamento do vírus.

É evidente que este tipo de comportamento irresponsável é apenas uma das tantas razões que ensejam a criação da CPI da Pandemia sem mais delongas. Quanto mais rápido os parlamentares investigarem condutas de autoridades federais que colaboram para o agravamento da crise, mais rápido elas serão cessadas. E muitas vidas certamente serão salvas.

O ministro da Saúde, por sua vez, parece ter acordado de um transe e só agora percebeu a gravidade da crise que, por dever de ofício, teria de administrar. “O avanço da doença pode surpreender. Não está centrado apenas no Norte e no Nordeste”, deu-se conta o ministro, até hoje incapaz de mensurar a extensão da pandemia e, por isso, de apresentar um plano coerente e factível para enfrentá-la.

Tão claudicante é a vacinação no País, e tão desleixada é a ação do governo federal para reverter este quadro, que foi preciso que o senador Rodrigo Pacheco assumisse a mediação de uma nova rodada de conversas entre as farmacêuticas Pfizer e Janssen e o Ministério da Saúde para que o Brasil pudesse sonhar em ter mais vacinas. Ora, só o fato de o presidente do Congresso ter de fazer o que caberia ao intendente Pazuello é razão mais do que evidente da premência de uma CPI da Pandemia.

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), não vê necessidade de uma CPI no momento porque, segundo disse, não é hora de “discutir quem é culpado disso ou daquilo”. De fato, a grande prioridade nacional é vacinar todos os brasileiros e impedir o colapso do sistema de saúde. Ambas as providências, contudo, dependem de um Ministério da Saúde que esteja interessado na saúde dos cidadãos, e não nos objetivos eleitorais do presidente da República. Assim, uma CPI que chame às falas os responsáveis pelo desastre sanitário pode funcionar como lenitivo para o patológico descaso do governo Bolsonaro com a vida de seus governados.

Vacinas, valores e velórios

Já estava me preparando para ser vacinado quando as vacinas acabaram. Foi aí que descobrimos que, na estupefaciente gestão do general Placebo no Ministério da Saúde, a vacinação é regida por dois calendários, como o tempo já foi em priscas eras. Pelo calendário juliano, quando há vacinas disponíveis, e pelo calendário gregoriano, quando elas acabam e ainda não têm data para chegar. Daí a máxima romana “sine vaccinus, sine die”, cunhada antes da invenção da primeira vacina.

E assim as vacinações no Rio foram jogadas para as calendas. Ainda bem que para as calendas romanas, não para as gregas. Será que nas calendas de março saberemos quando, pelo calendário gregoriano, levaremos nossa redentora picada?

Pior do que essa espera, possivelmente passageira, e as justificadas incertezas relativas à segunda dose foi tomar conhecimento das descaradas mentiras sobre a performance de Bolsonaro durante a pandemia que a ministra Damares e o chanceler Ernesto Araújo tentaram vender na ONU. Ficaram só na tentativa porque ninguém lá fora acredita mais em nada que diga, faça ou prometa fazer de bom o ogro que nos governa, exaspera, envergonha, e concentrou no extermínio seu mais eficaz programa de corte de gastos na Previdência.


Não menos desalentadora foi a constatação de que a Bolsa de Valores se sensibiliza muito mais com uma troca no comando da Petrobrás pelo presidente da República que seus investidores ajudaram a eleger do que com as ininterruptas e recordistas altas na contagem de mortos e infectados pela covid, no País. Não teríamos mais do que 8 mil óbitos até o fim da pandemia, basofiou o capitão negacionista em abril do ano passado. Atingimos a marca de 250 mil mortos esta semana; 50 mil só nos últimos 48 dias – e vacinamos apenas 3% da população.

Se alguma coisa o presidente sabe fazer, e bem, é mentir e tirar o dele da reta. “Não sou coveiro”; “Não sou profeta”; “Não compro seringas”. Pilatos ao menos lavava as mãos. O capitão nem sequer usa máscara.

A fulminante queima de ações da BR também veio corroborar a teoria de que a matança em curso, se não faz parte de um maquiavélico projeto político e econômico do bolsonarismo, como a aniquilação da cultura e da educação, desmoralizou em definitivo o chavão de que “as nossas instituições estão funcionando”. Se estivessem, ou pelo menos o STF estivesse, a pleno vapor, o nosso Napoleão de hospício já estaria na ilha de Elba da nossa imaginação.

Verdade que o ministro Alexandre de Moraes se tem comportado com o destemor que seu cargo exige, mas Dias Toffoli, Luiz Fux e Gilmar Mendes, conforme salientou na terça-feira o comentarista político Bernardo de Mello e Franco, facilitaram o serviço para a chicana que culminou com a anulação das quebras de sigilo bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro, no inquérito das rachadinhas. Toffoli e Fux travaram a investigação por cinco meses, e Mendes abriu a gaiola para Fabrício Queiroz, o factótum da familícia.

Comprado o Legislativo, cooptadas e neutralizadas as Forças Armadas mediante cargos, subsídios, promessas, leite condensado e claque em formaturas de cadetes, pergunto: quais instituições ainda funcionam normalmente nestas bandas?

Por encarnar e afiançar a “ultima ratio” de qualquer país que as possua, as Forças Armadas (sim, mais de dez nações sobrevivem sem o seu concurso) deveriam preservar-se de aventuras como foram os golpes de que participaram desde a Proclamação da República. O que pretendia impedir a posse de Juscelino Kubitschek, em 1955, foi só uma (ou a) exceção à regra justamente porque um oficial do Exército, o marechal Henrique Teixeira Lott, e sua excalibur da legalidade melaram a tempo a conjura udenista.

Quando vejo, leio ou ouço alguém lamentar a escassez ou mesmo ausência, hoje, de políticos e outros figurões civis de alto nível, sempre me vem à lembrança a figura do marechal. Com ele, nenhum golpista tirava farofa. Que reação lhe provocaria um confesso autogolpista como Bolsonaro? Que atitude teria face à fascistoide ameaça do general Villas-Boas ao STF, em abril de 2018?

O ator, humorista e cronista Gregório Duvivier desenvolveu uma tese que, em outras cabeças, inclusive na minha, já andou caraminholando. Ao contrário do que se pensa, o presidente não protege e prestigia além da conta os seus ex-colegas de farda, notadamente os da arma em que fez carreira, o Exército, mas, na verdade, os rebaixa e desmoraliza. Ao lhes dar emprego e funções que exigem especial capacitação, expõe-lhes a incompetência e engorda as desconfianças de que suas nomeações são menos frutos de uma ineludível promiscuidade corporativista do que das limitações sociais impostas pela vida em caserna. Azar nosso se o capitão só se dá com milicos.

Para Duvivier, Bolsonaro está se vingando do coronel que o humilhou, reprovando-o por sua “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio”, de outro oficial que condenou sua “excessiva ambição em realizar-se financeiramente” e, acrescento eu, do general Ernesto Geisel, que o considerava “um mau militar”.

Não sei se concordo com a hipótese de que nem décadas de propaganda antimilitar da esquerda causaram mais estrago na imagem do Exército do que a sanha empregatícia do presidente, mas é possível que sim. Já a suspeita de que só agora, com meio século de atraso, o capitão cumpre uma missão que lhe teria sido delegada pelo capitão Carlos Lamarca, não é, como toda blague, para ser levada a sério. É para rir.

Ria, enquanto o golpe não vem.

Vacina para todo o mundo, custe o que custar

A Organização Mundial da Saúde (OMS) apelou a todas nações para que primeiro vacinem seu pessoal sanitário e grupos populacionais mais vulneráveis, e em seguida disponibilizem doses a outros países para que estes possam fazer o mesmo.

Porém a parte rica do mundo ainda não aceitou inteiramente quão séria é a pandemia de covid-19, e que enorme impacto global ela terá sobre os aspectos de saúde, econômicos, sociais e geopolíticos.

Os imunizantes contra o novo coronavírus se tornaram símbolo de "ter a nossa vida de volta", e líderes políticos das democracias ocidentais se sentem pressionados a adotar um "nacionalismo da vacina" e prometer vacinação quase total a suas populações. Enquanto isso, 130 países ainda não aplicaram sequer uma única dose.

Os cidadãos dos países abastados se atropelam para receber suas doses, e exigem "passaportes de vacina", permitindo-lhes participar de uma rica vida social e cultural. Alguns querem até poder escolher qual imunizante receberão. Enquanto isso, só neste mês algumas nações da África Subsaariana podem começar a vacinar, e seus funcionários de saúde estão morrendo enquanto tratam dos doentes sob as condições mais penosas.
Insuficiente e atrasado?

Emad Hajjaj (Jordânia)

Talvez tenha tido algum impacto a advertência do diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, de que "o mundo está à beira de um catastrófico fracasso moral". Finalmente, um ano depois de a organização declarar uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional, os países-membros do G7 concederam apoio financeiro ao Acelerador de Acesso às Ferramentas contra Covid-19 (ACT-A, na sigla em inglês). Esse mecanismo de solidariedade global inclui a Covax, a aliança criada para garantir equidade no acesso aos imunizantes.

No entanto, é possível que a iniciativa, além de não ser suficiente, esteja chegando tarde demais. Em meados de fevereiro, os Estados Unidos, Alemanha, Comissão Europeia, Japão e Canadá se comprometeram a fornecer mais de US$ 4,3 bilhões em novos investimentos. Isso eleva para US$ 10,3 bilhões o total dedicado a ACT-A, mas ainda ficam faltando US$ 22,9 bilhões para o financiamento em 2021.

A Câmara Internacional de Comércio calculou que a economia global poderá perder até US$ 9,2 trilhões, caso os governos não assegurem o acesso às vacinas de covid-19 para os países pobres. Por que, diante de uma crise global, o mundo rico não é capaz de oferecer uma quantia relativamente módica?
Não há mais em quem botar a culpa

Mesmo quem não esteja interessado em solidariedade, talvez queira considerar as sequelas geopolíticas. Apesar de suas próprias necessidades internas, a China, Rússia e Índia já estão fornecendo vacinas rapidamente e a preços baixos, ou mesmo grátis, para países com que desejam estreitar relações. Essa "diplomacia da vacina" chega até o centro da Europa e mais além: manchetes da imprensa sérvia proclamam que "[presidente Aleksandar] Vučić, Putin e Xi Jinping estão salvando a Sérvia".

A Índia tem enviado doses de graça para o Nepal, Bangladesh, Mianmar, Sri Lanka, Afeganistão e as repúblicas insulares das Maldivas e Seychelles. O ministro indiano do Exterior, Subrahmanyam Jaishankar, denomina a estratégia "Acting East. Acting fast" (Agir no Oriente, agir rápido). A China está ativa ao longo de sua vasta "Rota da Seda de Saúde".

Em reação, o presidente da França, Emmanuel Macron, instou a Europa e os EUA a urgentemente alocarem 5% de seus atuais estoques de vacina a países onde Pequim e Moscou estão preenchendo a lacuna.

Em 2020, a resposta global à covid-19 foi imensamente travada pela presidência americana anterior. Mas agora não há ninguém para culpar, se as democracias ocidentais não reagirem energicamente à iniquidade nas vacinações. Haveria uma mudança na trajetória da pandemia, na democracia e na geopolítica, se o G7 adotasse um princípio da crise financeira: "Custe o que custar!"