terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A ideologia bolsonarista

A ideologia bolsonarista configura um caso de concepção de extrema direita, que não se deixa confundir com posições de direita conservadora e liberal. Ela se constitui enquanto conjunto de ideias que estrutura a sua ação, visando à instituição de sua própria forma de poder. Criticá-la por “insensata”, “maluca”, “macabra” ou “contraditória” realça isoladamente determinados aspectos seus sem, no entanto, abarcar a sua totalidade. São posições que, por assim dizer, se situam em outra perspectiva, a de uma normalidade que é posta em questão. Vejamos alguns de seus eixos estruturantes.

A figura do líder – Bolsonaro se produz como um líder de massas, que com elas procura estabelecer uma interação direta, sem o uso de mediações, como a Câmara dos Deputados e o Senado. Ou seja, a representação política é objeto de escárnio, salvo nos casos em que se torna necessária, como hoje ocorre com o restabelecimento das relações com alguns partidos políticos, por temor de impeachment ou de perda de poder. Seu objetivo consiste em colocar-se acima das instituições e da sociedade, como se só ele soubesse o que é melhor para elas. Não hesita em se colocar como grande médico e cientista, prescrevendo medicamentos ineficazes, como a cloroquina. Sozinho sabe o que é melhor para a saúde dos brasileiros, menosprezando a ciência por princípio. Em outra versão, é o “super-homem” contra os “maricas”. Eis por que é tratado por mito, por maior que seja a bobagem que diga. O mito é o lugar do seu saber.


O medo – Insufla ele o medo da pandemia e do desemprego, ao mesmo tempo que se apresenta como a solução da pandemia e do desemprego. Não é ele responsável por nada, tudo atribui aos outros como causadores desta situação, sejam os chineses, os comunistas ou os políticos a ele não alinhados. Ele precisa do medo para governar e se põe na posição de “salvador”. Isso pode soar paradoxal, porém só o é na perspectiva da política clássica, e não da de extrema direita, que expressa a sua concepção. Mais especificamente, o seu modo de tratamento da pandemia corresponde a essa orientação, jogando com o medo da doença e da morte, declarando procurar minimizá-las. O Brasil chega às 210 mil mortes, no entanto, é como se fosse “da vida” a morte causada por descaso, incúria e, em certo sentido, intencionalmente, visto que vem a fazer parte desse jogo macabro da política.

Ausência do princípio da não contradição – O princípio da não contradição, formulado por Aristóteles, que veio a fazer parte do exercício da razão e da política, não opera numa concepção de extrema direita. O líder diz uma coisa num dia e o seu contraditório no dia seguinte, e assim indefinidamente. Seu traço característico é que sempre tem razão, por mais irracional que seja a sua posição. Um dia declara o presidente que jamais comprará uma vacina chinesa, em outro a compra; um dia a covid-19 é uma mera “gripezinha”, em outro, uma doença mortal; um dia, ao arrepio de qualquer verdade, considera que apenas seus medicamentos mágicos são eficazes e em outro, que o Brasil é o país que tem o melhor desempenho mundial no combate a essa pandemia. Um dia é contra a corrupção na política, em outro protege os seus que estão nela envolvidos.

Distinção amigo e inimigo – A política de extrema direita está baseada na distinção amigo/inimigo, formulada pelo teórico nazista Carl Schmitt. Todo aquele que não se alinha ao líder em suas mutáveis posições, uma vez que ele detém a razão e a verdade, é tido por inimigo. Não há possibilidade de diálogo e conciliação, salvo sob a forma enganosa produzida por alguma oportunidade do momento. Ela está centrada na destruição do outro, na não aceitação da crítica e na tentativa de impor diretamente uma relação hierárquica de comando: sou “eu” quem manda! Quem não estiver comigo deve ser abatido, o que vale para “amigos” que, por discordância, deixaram de sê-lo. Veja-se o caso de agora “ex-amigos” do presidente que ousaram discordar de suas opiniões. Observe-se que tal tipo de política cria a desordem institucional, sanitária, econômica e social, embora a sua justificativa seja a de que o “salvador” é o fiador da ordem.

Milícias digitais – As milícias do líder apresentam-se sob a forma contemporânea de milícias digitais. De um lado, não há nada de novo, uma vez que tanto o nazismo quanto o fascismo fizeram uso intensivo dos meios de comunicação vigentes na época, muito particularmente do rádio; de outro lado, as novas redes digitais são muito mais abrangentes, alcançando diretamente as pessoas, prescindem dos meios de comunicação tradicionais e também dos seus meios de controle. Mentiras e o que se denomina fake news têm livre trânsito, como se um mundo paralelo por meio delas se criasse, pretendendo alguns ser o verdadeiro. Mais particularmente, os meios digitais, por seu modo de transmissão e mensagem, são particularmente adequados para a distinção amigo/inimigo, tratando o “discordante”, o “opositor”, com desprezo e escárnio, como inimigo a ser abatido.

Vacina chega após arrogância e erros homéricos de uma diplomacia brasileira limitada

Aqui jaz os restos conceituais da política externa do governo de Jair Bolsonaro, responsável por isolar o país do grupo das grandes democracias do mundo e destruir a reputação de uma nação. Na lápide da diplomacia do Brasil, essa bem poderia ser a descrição para quem um dia for visitar o memorial dedicado às ideias, projetos e políticas que não sobreviveram à pandemia.

Entre 2020 e 2021, o Brasil foi vítima de um vírus que desconhecia ideologia, a noção de soberania e zombava de fronteiras. Mas só nas últimas semanas, o Governo descobriu que o país está de joelhos diante de uma pandemia que ganha força. Descobriu que está sem imunizante, sem oxigênio, sem plano e sem alternativas. Nada disso, porém, é culpa exclusiva do Sars-Cov-2. Depois de ter politizado a origem do vírus, a máscara e tratamentos, o governo tomou a decisão deliberada de repetir esse roteiro com o imunizante.



A demora e indefinição para começar a vacinação não foram acidentes de última hora. Trata-se de o resultado dramático de decisões políticas adotadas ao longo de meses. O primeiro passo nesse longo processo foi o de não aderir inicialmente ao projeto de uma coordenação global. Em abril de 2020, a OMS iniciou a construção de um sistema que permitiria uma distribuição equitativa da vacina pelo mundo. Uma espécie de fundo de vacinas que permitiria que, uma vez autorizados os produtos, a coalizão garantiria a distribuição do imunizante para todos os países, atendendo inicialmente a 20% das populações de cada nação.

A ideia era simples: se for deixado às forças do mercado ou ao sistema internacional, os países emergentes e pobres poderiam ficar para o fim da fila na vacinação. Exemplos já existiam disso. Quando o H1N1 se abateu sobre o mundo, países ricos foram os primeiros a imunizar suas populações. Quando a vacina chegou aos países pobres, o surto já tinha terminado.

A Aids também trouxe uma história similar. Por anos, as economias mais pobres ficaram sem acesso aos tratamentos, enquanto o coquetel já era uma realidade nos EUA e Europa. Quando os remédios finalmente desembarcaram na África, os países mais pobres já somavam 9 milhões de mortes.

Na OMS, técnicos e diretores estavam convencidos de que, na atual pandemia, esses erros não poderiam se repetir. Mas a ordem no Itamaraty era a de não permitir que, durante a pandemia, os organismos internacionais ganhassem força ou fossem os locais de coordenação de uma resposta global. Mergulhado em seu combate contra o “globalismo” que destruiria as identidades nacionais, o Itamaraty ficou de fora de reuniões internacionais e, quando participou, fez questão de usar o palanque para rejeitar qualquer ideia que significasse um reconhecimento da necessidade de um plano global contra o vírus.

Naquele mês de abril de 2020, o Ministério da Saúde informaria que não faria parte da aliança, batizada de Covax. Sua explicação: temos outros acordos bilaterais sendo costurados. Nunca explicaram quais eram esses planos. Pressionado, porém, o Brasil acabou cedendo alguns meses depois e aderiu ao projeto, mas sem grande entusiasmo. Ao fazer seu pedido por vacinas no fundo global, solicitou o mínimo que poderia ser comprado: o equivalente a 10% de sua população. Pelas regras, países poderiam ter solicitado até 50% de sua população.

Hoje, sem apoio internacional suficiente, sem recursos e diante de governos pseudo-nacionalistas como o do Brasil, a aliança sofre para começar a distribuir vacinas. Em Genebra, não são poucos os negociadores que acreditam que um envolvimento mais direto do Brasil no projeto poderia ter convencido outros a aderir e teria transformado a aliança numa realidade imediata.

Se a via multilateral não interessava, a escolha por acordos bilaterais também se mostrou inapta e permeada por considerações ideológicas. Tentando frear a expansão da influência da China no mundo e mais preocupado em atacar o “comunavírus”, o Governo optou por promover uma campanha contra as vacinas chinesas. Diversas empresas, nos últimos meses, relataram como entregaram propostas ao Governo e se surpreenderam com respostas frias por parte do Planalto. No governo federal, a ideia era de apenas a vacina da AstraZeneca seria suficiente.

Enquanto isso, pelo mundo, países tomaram a decisão de evitar a todo custo colocar todas suas apostas em apenas uma ou dois fornecedores de vacinas. Em Bruxelas, por exemplo, a União Europeia fechou acordos com seis empresas diferentes. Nos EUA, mesmo o governo de Donald Trump decidiu estabelecer acordos com seis fornecedores.

Na Coreia do Sul, o país garantirá seu abastecimento com três empresas, além de desenvolver projetos de uma vacina nacional com outros 15 laboratórios nacionais. Na China, além de ter quatro vacinas já em negociações com a OMS para conseguir uma aprovação global, o governo fez questão de fechar um acordo com os alemães da BioNTech para um abastecimento extra de 100 milhões de doses. Outros também estão sendo negociados com empresas ocidentais.

Sim, existe uma profunda escassez de vacinas no mundo. Mas é justamente num momento de crise que a capacidade de um país navegar e recorrer a aliados se mostra vital. No caso do Brasil, a aposta se mostrou desastrosa. Quando precisou de ajuda, descobriu que seus parceiros nacionalistas eram, de fato, nacionalistas.

Num dos episódios mais reveladores do amadorismo do Itamaraty, o governo preparou um avião para ir buscar os insumos da Índia, necessários para a vacina da AstraZeneca. Com pires na mão, Bolsonaro escreveu ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Mas, por enquanto, Nova Delhi rejeitou fazer a entrega ao Brasil, dando (obviamente) prioridade para o início de sua campanha nacional de vacinação.

Opções começam a ser buscadas em Israel e mesmo nos EUA. Mas, ao apagar das luzes do Governo Trump e o desembarque de Joe Biden, o Governo já começa a descobrir a tradução da palavra pária. As opções para pedir ajuda ainda são limitadas. Afinal, a chancelaria fez questão de dedicar parte de seu tempo, esforço e dinheiro dos contribuintes brasileiros nos últimos anos para ofender líderes estrangeiros e queimar pontes que tinham sido construídas por décadas com parceiros internacionais.

O mais irônico e trágico disso tudo é que a história poderia ter sido radicalmente diferente. O Brasil é um dos únicos países do mundo com uma capilaridade no sistema de saúde, experiência, conhecimento científico e capacidade de mobilização para vacinar milhões de pessoas por dia. A crise brasileira, não por acaso, chama a atenção internacional. Nos bastidores da OMS, diretores não escondem o espanto sobre a situação do Brasil. “Vocês são um país com ótimos cientistas, orgulhosos de seu passado de saúde pública. O que ocorreu?”, perguntou um dos líderes da agência no esforço contra a pandemia.

A resposta não se limita à dimensão da incompetência daqueles no poder. O fracasso é um resultado direto de uma política externa que tem como pilar a ideologia, e não os interesses dos cidadãos.

Quando for iniciada, a maior campanha de vacinação da história do país dependerá num primeiro momento de uma vacina chinesa, justamente aquele que havia sido desprezada, ironizada e evitada pelo governo federal. Independente da ironia de uma cena digna do realismo mágico, a demora do país em começar a vacinação e a falta de imunizantes suficientes não são acidentes. Mas consequência de uma diplomacia que mostrou todos os seus limites e fracassou ao ser confrontado por seu maior teste. Gestos como o de minar a confiança em uma vacina apenas por sua origem ou se negar a promover uma resposta global fazem parte de um pacote negacionista que explica o colapso de Manaus e a dor de milhares de famílias brasileiras. Nesse caso, o impeachment seria insuficiente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia em Manaus

A incompetência e a negligência de uma administração pública são fatos graves. Já a crueldade e a baixeza deliberadas de certos governantes são taras que traduzem até que ponto o ser humano pode ser destruidor. É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia em Manaus e no interior do Amazonas.

A morte de dezenas, talvez de centenas de brasileiros por falta de oxigênio é uma ironia macabra; afinal, o estereótipo mais conhecido da Amazônia é o “pulmão do mundo”. No entanto, essa catástrofe, que nos revolta e entristece, não é surpreendente. Ela é a culminação de várias décadas de governos populistas e corruptos no Amazonas. No atual contexto político, a crueldade, a mentira e a baixeza são mais ostensivas e deletérias.

O governador do Amazonas é um ex-radialista que caiu de paraquedas na política. Em 2018, ainda no ar, candidatou-se ao governo e surfou na onda enganosa e lamacenta da “nova política”. Ele não consegue explicar ao Tribunal de Contas do AM a isenção tributária concedida à Eneva, uma empresa que explora gás natural no Campo do Azulão, entre os municípios de Silves e Itapiranga. Em junho do ano passado, sua ex-secretária de saúde foi presa por suposto superfaturamento na compra (sem licitação) de respiradores.


A Amazônia só é exótica para quem a desconhece. Exótico é o governo que compra respiradores numa loja de vinho. Naquele mês, a Polícia Federal e o MPF efetuaram buscas na residência do governador e bloquearam seus bens. Eis o rosto da “nova política” no Amazonas: uma versão do mesmo populismo insidioso, mas agora com ares de jovialidade e falsa religiosidade.

A tragédia na Amazônia não se limita à destruição do bioma e à invasão de terras indígenas. A desigualdade social em Manaus é obscena. Mais de 50% dos domicílios dessa cidade não têm acesso ao saneamento básico. Além disso, o índice de violência é altíssimo, e o IDH, vergonhoso.

Antes da Copa do Mundo, publiquei uma crônica (“Estádios novos, miséria antiga”), em que critico a construção de obras faraônicas e inúteis. O governo atual regozija-se com a plataforma de exploração de gás no Campo do Azulão, mas falta oxigênio para bebês, para pacientes com insuficiência respiratória e para doentes de Covid-19.

Minha tristeza não é maior do que a minha indignação. Nasci, passei minha infância e primeira juventude numa cidade bela, em harmonia com a natureza que a envolvia. Uma Manaus digna, onde havia pobreza, mas não essa extrema miséria e violência, consequência da miséria moral do poder público. Nesse sentido, Manaus e o Amazonas espelham o que há de pior na política brasileira. Há décadas o povo amazonense é vítima de descaso, humilhação, enganação, crueldade. Morrer por falta de oxigênio é ápice desse exercício de crueldade. Não deixa de ser uma tortura, que sempre soube (e sabe) usar sua lógica e sua logística.

 Milton Hatoum

Vacina mais forte do que gado

Milhares de pessoas perderam suas vidas, milhares ainda perderão suas vidas por causa desses atrasos que foram feitos pelo governo federal.

Nosso povo não aguenta mais. Vamos fazer um ano de uma tragédia humanitária. Um ano em que as pessoas perderam seus empregos, seus sonhos. É hora de todos exigirmos uma postura mais austera, enérgica e robusta. E viva a vida. Viva a vacina
Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde de São Paulo

O quinto mandato

Quem me lê sabe que não costumo publicar nem discutir na coluna mensagens de leitores. Prefiro fazê-lo pessoalmente, por e-mails que eles me indicam. Mas desta vez não posso deixar passar em brancas nuvens o que é dito aqui, vocês vão entender por quê. Para facilitar a leitura, fiz as devidas correções no português do texto original, que tanto podia ser arcaico quanto futurista. Como seu tema. Eis o e-mail que recebi semana passada:

“Prezado escriba. Ainda tenho comigo o jornal de ontem, onde se encontra sua coluna desta semana. Sou seu habitual leitor, mas não posso ver o Brasil maltratado sem me meter. Sou como o nosso presidente: Brasil acima de tudo (e, claro, Deus acima de todos)! O presidente é o homem mais incompreendido do planeta, e o senhor, como bom brasileiro, não devia colaborar com as injustiças de que ele é vítima. 

Por exemplo, o desmatamento não é em absoluto a causa principal das queimadas na Amazônia. Quando o fogo chega lá, as árvores já estão no chão atraídas por lei natural. Essa é a narrativa do progresso: quando há um acidente, surge também uma oportunidade. Mas os índios e os caras que moram lá sabotam o progresso, não cedem um centímetro de terra para modesta mineração, nem um riozinho sem importância para uma hidrelétrica. A floresta fica interditada. Os índios, que eram uns 4 milhões quando Cabral aqui chegou, hoje são menos de 200 mil gatos-pingados. E nós é que vamos pagar pelo descaso deles com a descendência?

O governo luta pela sobrevivência do povo, senhor escriba. Na última pandemia, no terceiro para o quarto mandato, o presidente mandou todo mundo tomar vermífugo como precaução. Foi um sucesso, esgotaram-se os vidros de vermífugo nas farmácias, a indústria farmacêutica que os fabricava foi apedrejada pela população que queria mais. Graças ao tratamento precoce com vermífugo, morreram apenas cerca de 550 mil brasileiros, metade dos mortos nos Estados Unidos e na Índia no mesmo período. 


Desde que a importação de armas foi liberada por decreto presidencial, a população vem se defendendo com entusiasmo de assaltos e tentativas de homicídio. A Polícia Militar se ocupa agora de tarefas mais graves, mantendo sob vigília oficiais ‘superiores’, como generais, almirantes e brigadeiros que perturbam a vida do governo. A PM foi liberada da servidão a esses oficiais e não depende mais de governadores e prefeitos, civis eleitos ninguém sabe por quem. A medida custou um pouco às finanças do Estado, já que o governo passou a arcar com o necessário desconto nas compras domésticas dos chefes policiais, descontos que foram cobertos pela UIF (ex-Coaf). Ficamos assim protegidos dos dias piores que o presidente teria que enfrentar (só Deus sabe como!), a exemplo de Donald Trump, sacrificado por causa de visita ao Capitólio norte-americano.

Outro dia fui ao cinema, num shopping na Praça Carlos Alberto Brilhante Ustra, recém-inaugurada, e vi com satisfação que não havia nenhum filme nacional programado. O governo parou de financiar esses comunistas, a Lei Olavo de Carvalho não financia mais o marxismo cultural, como fazia quando se chamava Rouanet. Agora ela apoia o apoio ao Brasil, como no caso da soja. Fizemos um trato com agricultores franceses, não perdemos mais tempo, dinheiro e terra arada com soja. Compramos da França, onde a família Le Pen controla o governo desde a sucessão de Macron e sua feia esposa. Os franceses nos vendem a soja com perfume inigualável, além de embrulho e embarque supervisionados por herdeiros de Pierre Cardin.

Nos anos 1930, Getúlio Vargas começou a modernizar o Brasil pela industrialização. Nosso presidente está levando o país de volta ao que sempre foi, uma ensolarada fazenda, onde todo mundo flana igual e ninguém tem pressa de nada. A Ford foi embora porque não se adaptou a esse novo Brasil do futuro. No dia D e na hora H, eles hão de entender que aqui um manda, e o outro obedece. O Congresso, hoje com sua maioria formada pela Aliança do Grande Centro, e o STF, fechado temporariamente para higiene interna, apoiam o presidente. Restam apenas os três meninos sumidos desde o Natal de 2020, que ainda estão escondidos por aí. O mais velho deles, Fernando Henrique, deve estar hoje com uns 25 anos de idade. Os meninos desaparecidos seguem mandando recados para suas comunidades, incentivando-as a resistir. Resistir a quê, meu Deus?!

Vou ter que parar de escrever, pois meu tempo é curto, e o seu, escasso.

Preciso sair correndo para ir votar em Jair Bolsonaro, o Mito, para mais um período na Presidência, conforme a oportuna reforma constitucional de 2022, quando seu partido sugeriu ao Congresso permitir que se candidatasse a novos e seguidos mandatos de quatro anos. A pífia oposição ainda tentou argumentar que a inflação passara de 4,52% em 2020 a cerca de 452% esse ano. Mas nossos sólidos economistas argumentaram que inflação é bobagem, não serve para dizer o que acontece de fato no país. E deram como exemplo Juscelino Kubistchek, o criador de Brasília, presidente a partir de 1955, quando ainda não havia reeleição.

Depois desses 12 anos no governo, Bolsonaro vai se sacrificar mais uma vez.

Como ele tem dito a seus apoiadores, na saída do Alvorada, o Brasil ainda precisa do dobro desse tempo para se endireitar de uma vez.

Até breve, meu caro escriba”.

Esse e-mail me foi enviado com a data de 10 de outubro de 2034. E agora? 
Cacá Diegues

Bolsonaro escolheu ser o coveiro dele mesmo

Na medida em que se enfraquece, o presidente Jair Bolsonaro perde mais e mais o controle sobre os fatos produzidos ou não por seu governo. Dois episódios de ontem provam isso.

Os cinco diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nomeados por ele, anunciaram ao país que não existe tratamento preventivo contra a Covid-19.

Desmentiram Bolsonaro em transmissão nacional de rádio e de televisão. Até o ministro da Saúde, o general de peito estufado Eduardo Pazuello, também o fez com todo o cuidado do mundo.

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) deu início à vacinação em massa, o que o Ministério da Saúde disse que só poderia acontecer depois de sua autorização.

Doria também reteve a cota paulista de doses da vacina fabricada pelo Butantan que o Ministério da Saúde esperava receber para em seguida devolver a São Paulo. Uma estupidez, por certo.

Foi um ato de rebeldia do governador que, ao ser acusado por Pazuello de promover um “golpe de marketing”, respondeu que há 11 meses Bolsonaro promove um “golpe de morte”.

O presidente da República vai fazer o quê? Processar Doria? Pressionar a Justiça para que mande prendê-lo por crime de desobediência civil? Se o fizer, perderá.

Vamos ao mantra adotado por 9 entre 10 estrelas da política: presidente pode muito, mas não tudo. Bolsonaro, por mais que diga o contrário aos berros, cada dia que passa manda menos.



A derrota que colheu com a aprovação emergencial das vacinas foi a maior derrota desde que acidentalmente se elegeu há dois anos e tomou posse da presidência sem estar preparado para isso.

Mais de 70% dos brasileiros queriam se vacinar. O percentual crescerá com o início da vacinação em massa. Bolsonaro sempre desacreditou a vacina e diz que não se vacinará.

Em todos os países onde começou, a vacinação foi festejada pelos chefes de Estado. Aqui, Bolsonaro não deu um pio. Desapareceu. Apareça, Bolsonaro! Livre-se do colete à prova de vacina. Não dói.

No passado, quando um time goleava o outro, dizia-se que fez dele barba, cabelo e bigode, lembrou o jornalista Ricardo Kotscho. Perfeito! Doria fez barba, cabelo e bigode em Bolsonaro.

O 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa do Mundo de 2014 é pouco para dar a verdadeira dimensão da surra que Bolsonaro levou de Doria. Outras surras virão em breve.

Os bolsonaristas e seus cúmplices construíram a falsa narrativa da invencibilidade de Bolsonaro, fizesse ele o que fizesse. E que ele se tornara de alguns meses para cá um presidente normal.

Jamais Bolsonaro será um presidente normal porque como ser humano jamais foi normal. Não pode ser normal quem defende a tortura, tem fixação em armas, detesta gays e sabota a vida.

Aturá-lo por mais dois anos será insuportável, mas talvez sirva para ensinar os brasileiros a votar melhor.

Quando falta oxigênio

Escrevi um artigo sobre vários temas, sobretudo vacina, e sobre as pessoas morrendo por falta de oxigênio em Manaus.

Aos poucos, as pessoas morrendo por falta de oxigênio em Manaus foram deslocando os outros tópicos para o canto da página e ocuparam todo o espaço. Impossível falar de outra coisa quando há pessoas morrendo por falta de oxigênio nos hospitais.

Desde a semana passada, estava de olho em Manaus. Minha intuição indicava que a descoberta pelos japoneses de uma variante do coronavírus em turistas vindos da Amazônia merecia atenção.


Essas mutações do vírus, de um modo geral, se dão na proteína “spike” e facilitam a propagação. Os ingleses, que vivem um problema semelhante, perceberam e logo proibiram voos do Brasil.

Mas, ao mesmo tempo que perseguia as notícias sobre as mutações do vírus, acompanhava a crise nos hospitais de Manaus. Primeiro foi o alerta de que faltaria oxigênio. Depois vi uma entrevista do presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas, Mario Vianna, descrevendo o caos e dizendo que os doentes mais ricos estavam fugindo para o aeroporto em busca de salvação.

Cheguei a pensar na hipótese de que iriam isolar Manaus. Roraima fez uma barreira na Manaus-Boa Vista, e o Pará decidiu bloquear os viajantes pelos rios.

Pazuello estava em Manaus. Sua tarefa era encontrar uma saída para a crise emergencial. Vi imagens de cilindros de oxigênio sendo transportados pela Força Aérea. Mas Pazuello não conseguiu dimensionar a crise ou não soube reunir os recursos para evitar a tragédia. É um incapaz.

Mais uma vez, o governo trata a morte com indiferença. E não é uma atitude isolada. A Justiça decidiu cancelar o Enem em Manaus, e Bolsonaro recorreu dessa decisão sensata.

Na raiz dessa crise, está a tentativa do governo local de colocar restrições ao comércio num momento agudo da pandemia. Houve protesto de várias entidades, manifestações de rua, bandeiras, Hino Nacional.

Os bolsonaristas aplaudiram, assim como aplaudiram a revolta em Búzios. Segundo eles, o povo estava em luta pela liberdade contra decisões autoritárias. Esse discurso de Bolsonaro apela para a liberdade individual, num momento em que é necessária a cooperação.

O êxito de um discurso desse tipo se alimenta também do cansaço com as medidas de isolamento social e de algo, no meu entender mais estrutural. Jorge Luis Borges, falando dos argentinos, disse que eles são indivíduos e não cidadãos. Creio que algo parecido acontece aqui.

Isso torna mais fácil empurrar as pessoas para a morte, o que Bolsonaro e toda essa corrente de opinião têm feito com competência, negando não apenas a orientação científica, mas também a necessária disciplina social num tempo tão difícil.

Os americanos decretaram o impeachment de Trump porque ele insuflou uma ação violenta contra a democracia. Bolsonaro se recusa a aceitar a gravidade da pandemia e empurra as pessoas para a morte.

Estamos no limiar de uma campanha de vacinação. Ou, pelo menos, próximos de um ato de propaganda iniciando essa campanha. Mas as pessoas morrendo por falta de oxigênio em Manaus não nos deixam outro caminho, exceto lembrar: a política da morte está em curso, a cada minuto que nos atrasamos em nossa união para contê-la corremos o risco de estar matando também.

É preciso lembrar que o colapso em Manaus não está assim tão longe de outras regiões do Brasil. Já temos um índice de mais de mil mortos por dia. O crescimento dos casos em São Paulo é grande, e o próprio Hospital Albert Einstein cancelou a admissão das UTIs aéreas, aviões que trazem doentes de outros lugares do país. No Rio, chegamos ao limite.

A campanha de vacinação revela um planejamento precário e vacinas com um baixo nível de eficácia. Isso significa que teremos de vacinar muita gente para reduzir o número de casos e estancar o crescimento das mortes.

É muito difícil superar uma etapa dessa grandeza com um governo negacionista, incapaz e sem um traço de empatia com o sofrimento do povo brasileiro. Ele nos rouba oxigênio não só como indivíduos, mas como sociedade.

Para voltar a respirar, será preciso se desfazer do governo.

Trump sai, Bolsonaro continua

Em “De Volta para o Futuro” (1985), Michael J. Fox, vindo daquele ano, vai ao passado pela primeira vez e se refere a Ronald Reagan como o presidente dos EUA. Christopher Lloyd, o cientista, não acredita: “Reagan, o ator? Presidente dos EUA??? E quem é o vice? Jerry Lewis???”. Em 1955, ano em que se passa a história, Reagan, já relegado a filmes B, não poderia ser o presidente nem na tela —papel reservado a atores sóbrios e amados, como Henry Fonda, Ralph Bellamy, Fredric March—, quanto mais na vida real. Pois, em 1980, a vida real elegeu Reagan. Pena que sem Jerry Lewis.

Claro que, diante de Donald Trump, Reagan ganhou estatura de estadista, digno sucessor de Washington, Lincoln e Franklin Roosevelt. Trump rebaixou o cargo a níveis que nem o genocida James Buchanan (1857-61), o imoral Richard Nixon (1969-74) e o mentiroso George W. Bush (2001-09) se atreveram. Fez isto somando e absorvendo as piores ignomínias desses três e acrescentando a última audácia que os EUA esperariam de seu presidente —um projeto de golpe e ditadura.



Trump sairá pelos fundos da Casa Branca em 48 horas, mas o mundo ainda não está a salvo. Até o último minuto ele continuará a fazer o mal —insuflando seu gado ao ódio, sonegando dados sobre a pandemia para seu sucessor e cogitando anistiar a si mesmo e à sua família pelos crimes que cometeram. Muitos americanos que o apoiaram descobrem agora que sua ideia de poder não visava a um fim, qualquer que fosse. Ele era o meio e o fim. A psiquiatria deve ter um nome para isso.

Com o fim de Trump, os americanos têm um país a reconstruir. Aqui chegamos à metade do mandato do subclone Jair Bolsonaro e o pior ainda está por vir.

Pendurado na brocha sem a escada de seu líder, só cabe a Bolsonaro recrudescer. Ele também se vê como um meio e um fim. Resta ver quem chegará primeiro a este fim —ele ou o Brasil.

Brasil se vacina

 


Os horizontes turvos da democracia

O tema já frequenta foros avançados da democracia: a influência da tecnologia e da inteligência artificial na política. O pressuposto é o de que a personalidade de uma pessoa pode ser decifrada por processos de reconhecimento facial, segundo estudos de um controverso professor da Universidade Stanford, o polonês Michal Kosinski. A polêmica ganhou intensidade na campanha americana de 2016. Donald Trump teria usado algoritmos extraídos de feições para identificar a orientação política de eleitores. E, a partir daí, influenciá-los com intensas cargas de conteúdos.

À sombra dessa hipótese, desenham-se imensos painéis sobre a crise da democracia, do conflito recorrente entre o liberalismo e o ideário democrático (conviverão ou tendem a se afastar?), os sistemas partidários, o nacional-populismo, com seu vaivém.

Bobbio alerta em seu clássico O Futuro da Democracia: “o pensamento liberal continua a renascer, inclusive sob formas capazes de chocar pelo seu caráter regressivo, e de muitos pontos de vista ostensivamente reacionário, porque está fundado sobre uma concepção filosófica da qual, agrade ou não, nasceu o mundo moderno: a concepção individualista da sociedade e da história. Concepção com a qual a esquerda jamais fez seriamente um acerto de contas”. Ele preocupava-se com o desmantelamento do estado assistencial.

Não por acaso, o nacional-populismo expande seus laços com figuras estrambóticas e ideais de defesa da Pátria contra “invasões alienígenas”, como são considerados os imigrantes, acusados de sugar riquezas nacionais, aumentar a desigualdade e contribuir para a insegurança pública. Assim, tocam o coração de uma “supremacia branca”, que se mostra disposta a ameaçar a democracia.

A impressão é a de que o planeta caminha na trilha do Grande Irmão, que tudo vigia, extraindo dados e informações para alimentar os protagonistas do nacional-populismo, criando em torno deles a figura do mito e puxando a sociedade para o autoritarismo. Vamos ter de conviver com uma caminhada de fôlego nos caminhos tortuosos da deterioração das democracias.

Para complicar, as ideologias ainda se confundem. Não se sabe mais como caracterizar os sistemas políticos: Sociais-Democráticos? Socialistas? Direitistas? Capitalistas de Estado como a China? (Esquisita essa mimese entre Estado Autoritário e Estado Democrático de Direito, base do sistema capitalista).

São imprevisíveis os impactos da inteligência artificial. Imagine Fulano da Silva no meio da multidão, capturado por milhares de micro-câmeras, que pinçam seu estado d’alma para transformá-lo em “mutante político”. Esse retrato se parece com o quadro pintado por George Orwell em 1984. Entra no debate o criminalista italiano Cesare Lombroso, defensor da ideia de que criminosos podem ser identificados por suas características físicas. A tese lombrosiana, rechaçada por muitos, passa a receber agora o impulso da tecnologia.

O tema volta no momento em que a maior democracia ocidental padece do assalto ao Capitólio, em Washington, abalando a confiança da sociedade sobre a capacidade do país suportar a ascensão de políticos batizados nas águas da imponderabilidade.

O fato é que, a cada dia, os horizontes democráticos são cobertos por nuvens escuras.

Cumplicidade


No Brasil, qualquer coisa é impeachment. Deixa o cara governar, pô!
Hamilton Mourão, general vice-presidente

Brasil: não é incompetência, é plano

Quem acompanha a carreira do homem que hoje está na presidência do Brasil sabe: ele é isso aí. Durante toda sua medíocre vida parlamentar ele esteve ancorado na ignorância, no ódio, na intolerância, na sede de sangue. Não é sem razão que seu ídolo maior é um dos mais nefastos torturadores da ditadura militar. Falando sobre a ditadura ele afirmava: “Matou só 30 mil, tinha que ter matado mais”, ou “Não devi a ter só torturado, tinha que ter matado”. Tirando isso, tema que domina com maestria, sobre o demais é sempre uma ladainha de burrice e preconceito. Seu mundo é tão pequeno que suas ideias sobre ele caberiam em algumas linhas de papel. É o receptáculo perfeito para servir de gerente sem alma do capital. Por isso, quando sua presença foi ganhando corpo em uma camada igualmente ignorante da população, ele passou a ser notado pela elite dominante no país.

Naqueles dias, os partidos políticos amargavam grande repúdio por parte dos brasileiros. A direita tradicional havia perdido força e o Partido dos Trabalhadores fraudava as esperanças dos que acreditavam ser possível um passo mais à esquerda. Cenário perfeito para o azarão. E foi assim que a criatura saiu da marca dos 3% para ganhar as eleições em 2018. Não foi um raio no céu azul. Foi a consequência dos equívocos políticos de quem deveria ter formado as gentes e mantido a população organizada para alavancar mudanças estruturais.

Correndo por fora da mídia comercial, aproveitando-se das novas redes comunicacionais, a criatura foi crescendo. Expressava o sentimento de muita gente que havia se mantido no silêncio, mas que alimentava dentro de si horrores semelhantes. Assim, bastou criar um inimigo plausível: os comunistas (já bem conhecidos por serem comedores de criancinhas) e pronto. Fervia o caldo da desgraça. A lógica empregada pela campanha bolsonarista não era novidade. Já tinha sido empregada na chamada “Primavera Árabe” que destruiu parte do Oriente. Mentiras, simulações, ampliação do medo, reforço dos ódios raciais e preconceitos de todo o tipo, aliado ao fundamentalismo religioso construído durante décadas pelas chamadas igrejas neopentecostais.

Assim, enquanto a criatura bradava contra a mídia, o sistema e “tudo isso que está aí”, a esquerda brasileira, já sem dentes para morder, trabalhava com propostas palatáveis para a classe média que havia crescido no país, mas que se faziam incompreensíveis para uma camada gigante da população. Acabou perdendo a classe média, que se aliou ao discurso ultraconservador com o intuito de manter privilégios e perdeu a massa de trabalhadores que queria mudanças, qualquer mudança. O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas levou a mídia comercial a olhar com cuidado para ele, e os discursos televisivos foram mudando. Era uma boa oportunidade de se livrarem do PT que, apesar de ser muito mais liberal do que esquerda, trazia em si a simbologia da esquerda. Assim, o mesmo Bonner que hoje faz discursinho contra Bolsonaro é o mesmo que massacrou os candidatos da esquerda liberal, e pisou miudinho com Bolsonaro nas famosas entrevistas do Jornal Nacional.

E assim, chegamos ao horror dos nossos dias. Eleito para ser o coveiro das aspirações mais à esquerda, Bolsonaro foi apoiado pela direita brasileira esfacelada, pela mídia comercial, pelas igrejas sedentas de grana, e pela camada da população que mantinha viva em si toda série de ilusões acerca da ordem, progresso e crescimento econômico do tempo dos militares. Ele seria o condutor da destruição da “bagunça” petista.



Por isso não há surpresas na política implementada pelo grupo bolsonarista. Tudo que prometeu, está cumprindo. Militares no governo (mais de oito mil em cargos), mão dura contra a dita esquerda, destruição dos serviços públicos que, segundo eles, só servem para cabide empregos dos esquerdistas, mais poder para as forças de segurança (para garantir a ordem), entrega das riquezas nacionais aos estrangeiros (que são mais competentes e trarão o progresso) e muito circo, para manter a massa animada. Vejam que não passa um dia sem que esse governo faça alguma aglomeração. A mobilização do grupo de apoio é constante, tanto física quanto virtualmente. Os grupos de uatizapi são eficazes e velozes. Qualquer declaração contra o presidente é imediatamente solapada com centenas de postagens de contrainformação.

Colar a figura do presidente à rede de “heróis mundiais” enviados por Deus é a estratégia perfeita. Junto com Donald Trump ele comanda um aguerrido grupo de lutadores que se uniu para enfrentar e destruir os pedófilos, abortistas, gayzistas e comunistas que querem destruir o mundo. Essas informações são repassadas nas igrejas aliadas, nas famílias, nas redes. É um universo paralelo que se multiplica dia a dia sem que se dê a devida atenção.

A chegada da pandemia é vista como um “castigo divino” aplicado por conta de o país ter permitido um governo de comunistas (no caso, o PT, embora o partido não seja comunista). Agora, há que limpar esse mundo que foi violado pela mancha vermelha. Então, daí a necessidade dos cordeiros imolados. Os escolhidos, que tomarem ivermectina e cloroquina, serão salvos. Não importa que a vida real esteja mostrando que aqueles que fizeram o tal tratamento precoce estão morrendo também. Eles deviam ter algum pecado. Os justos não, esses serão salvos. A prova viva é o próprio presidente que pegou o vírus e está vivinho. Isso basta.

E enquanto os “pecadores” caem como moscas nos hospitais públicos sem pessoal, sem equipamentos, sem insumos e até sem salários, os justos avançam. Hoje, quando a cidade de Manaus vive o horror de presenciar a morte por asfixia de pacientes por conta da falta de oxigênio, os grupos bolsonarista espalham a boa nova da vitória final que virá com os exércitos de Donald Trump no dia 20 próximo. A “Operação Tormenta” varrerá do mundo os comunistas e impedirá, inclusive, que sejam produzidas as vacinas feitas com fetos humanos, que eles tentam obrigar o mundo a tomar. Uma vacina que inoculará um chip capaz de tornar a pessoa comunista ou quem sabe, um jacaré.

A batalha comunicacional neste momento dá vitória folgada aos bolsonaristas. Ela tem uma eficácia extraordinária a tal ponto de as pessoas não se emocionarem para nada com as mais de mil mortes por dia no país, e mesmo o caos em Manaus, quando as vidas se extinguem, sufocadas, sem ar, não provoca maiores emoções. Pelo contrário. A corrente informativa nos grupos espalha a seguinte informação: o governo federal mandou muito dinheiro para o Amazonas, mas os governantes de lá desviaram para tentar destruir o presidente. A culpa sempre é de outro.

A contraofensiva deste tipo de informação parece não encontrar espaço. As palavras emocionadas de William Bonner no Jornal Nacional só provocam risos de mofa. O presidente disse que não é para acreditar na Globo. E ninguém acredita. Ponto final. E a esquerda tirou como estratégia bradar o “Fora Bolsonaro” como se a vontade expressa nas redes pudesse se tornar potência sem uma ação organizativa real. Não pode.

No meio do caos, com as mortes se multiplicando e o país sendo assaltado à luz do dia, entidades gigantes como as Centrais Sindicais, os Partidos Políticos, que congregam milhares de pessoas, estão completamente paralisados. Nada além de “lives” na plataforma do grande irmão facebook.

Hoje é Manaus, amanhã pode ser qualquer outra cidade, mas a responsabilidade parece não colar nas figuras do poder. O que voga é a máxima religiosa: “milhões cairão à tua esquerda, milhões à direita, mas tu, que crês, não serás atingido”. O que fica vivo acredita que deu certo e o que morre não tem mais o que pensar. Então tá tudo certo.

O fato é que a pandemia só potencializou o desmonte, o crime. E cada um que ajudou a colocar no poder os que hoje nadam no sangue é responsável. Nenhum esquecimento e nenhum perdão. Não é só o presidente – esse é só o gerente do processo. É a mídia, são as igrejas da prosperidade, são os deputados federais, os senadores, os juízes da Suprema Corte, os empresários, as gentes “de bem”. Todos os que sustentam essa lógica de destruição sem garantir parada são responsáveis e haverão de responder por isso. Se não hoje, algum dia, porque como diz a música do Geraldo Vandré, “deus que se descuide deles, um jeito a gente ajeita dele se acabar. Fica mal com deus, quem não sabe dar, fica mal comigo quem não sabe amar”.

Mas, para isso, há que organizar.

Quebradeira, rachadinha e ruptura

"O Brasil está quebrado, e eu não posso fazer nada’, afirmou o presidente. E jogou a culpa na mídia por exagerar a pandemia. Já se falou na leviandade e nas possíveis consequências econômicas dessas palavras. Não faltou quem, com todas as letras e dados numéricos, demonstrasse que, além de irresponsabilidade, trata-se de mentira pura e simples. Afinal, ele corta impostos de videogames, armas e igrejas, dá aumentos a policiais, anistia desmatadores e criminosos ambientais, multiplica privilégios a militares. Tudo em crescente aumento de gastos públicos e perda de arrecadação. E, ainda por cima, não faz nada para melhorar o ambiente de negócios ou diminuir o custo Brasil — o que ficou evidente com os anúncios da saída da Mercedes e da Ford do país, ou o PDV do Banco do Brasil.

No entanto a aparente besteira dita por Sua Excelência atinge seu objetivo — sempre o mesmo. O de criar polêmica, fazer discutir o irrelevante, distrair a plateia e desviar as atenções dos problemas de sua família na área criminal. Enquanto se discute a quebradeira, não se fala em rachadinha. E ele manobra para manter o cargo, ser reeleito e assegurar impunidade a todos os seus.

Entre quebras e rachaduras, adquire proporções nacionais o fenômeno da cidade partida. Na sociedade dividida deste país partido, de riqueza não repartida, multiplica-se a segregação, apartando privilegiados e ferrados. De quebra, o pessoal das quebradas se vira como pode, multiplicando quebra-galhos. Juntando os cacos. Ora caindo no papo furado, ora indiferente. Por quanto tempo mais vai funcionar esse lero-lero?

Os mortos da Covid-19 se aproximam de 210 mil. A incompetência do governo passa dos limites. Outros países já vacinam há mais de um mês, enquanto aqui só começou ontem. Até quando essa conversa para despistar ainda vai colar?

Chega uma hora em que os trincamentos viram ruptura, e os pés de barro não sustentam mais ídolos, mitos e mentiras. Então eles quebram a cara. Ou tudo se esfacela de uma vez.
Ana Maria Machado

domingo, 17 de janeiro de 2021

Imagem do Dia

 

Pixuleco do 'Vampiro do Brasil' na porta da Anvisa

Conspiração Bolsonaro

A oposição ao governo Bolsonaro só não pode dizer que não entendeu aonde ele quer chegar. Conspiradores como Donald Trump e Jair Bolsonaro fazem tudo às claras, e o daqui repete o roteiro com alguma defasagem. A distância que existe é entre original e cópia. Quando parlamentares do PT, PDT, PSDB se alinham ao candidato que Bolsonaro defende para presidir o Senado sabem o que estão fazendo. Compactuam. Os votos serão no escurinho, onde Tancredo ensinou que é o lugar das traições, mas os oposicionistas fazem às claras achando que todos entenderão o pragmatismo.

A História olhará esse distópico tempo nosso de forma implacável. Não adiantará explicar que foram oferecidos bons lugares na mesa diretora, distribuídas presidências de comissões. Não há nada contra o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), em si. Não é pessoal. É porque na situação em que ele se encontrará terá que pagar o apoio. O presidente se mobilizou, seu padrinho Davi Alcolumbre (DEM-AP) negocia lugar no Ministério. Pacheco se abrigou sob esse teto. Isso terá de ser pago. E o preço é o apoio à pauta que o presidente acha relevante para o seu projeto.

Bolsonaro quer tumultuar a próxima eleição, reduzir o poder dos estados sobre as polícias para aumentar sua força sobre os efetivos armados, quer armar seus seguidores, quer bloquear recursos para a ciência, quer estimular o desmatamento da Amazônia, quer incentivar garimpeiros e invasores em terras indígenas, quer enfraquecer instituições de controle do combate à corrupção. Bolsonaro sonha, como diziam as faixas dos atos que estimulou e dos quais participou, com o fechamento do Congresso e do STF. Esse é o plano, essa é a pauta.



Nenhuma candidatura, seja de Baleia Rossi (MDB-SP) na Câmara, seja de Simone Tebet (MDB-MS) no Senado, se propôs a fazer oposição. A promessa é mais simples. É de autonomia. O poder legislativo precisa ser autônomo para garantir a governabilidade. Há quem defenda candidatos governistas com o argumento da governabilidade, mas é o exato oposto. O equilíbrio dos freios e contrapesos nos ajudará a atravessar este momento tão pantanoso.

O poente presidente Donald Trump está diante da acusação de incitação à insurreição contra a democracia. Ele construiu o plano lentamente. Começou dizendo em 2016 que a eleição que ele ganhou era fraudada. Muita gente achou que era apenas uma esquisitice. Era movimento feito de caso pensado. Se soa familiar, é porque é o mesmo que se passou aqui em 2018. A lista das similitudes é imensa. Chega a ser monótono.

Os americanos têm a tradição de pessoas armadas. Aqui, Bolsonaro ordenou numa reunião ministerial a liberação do acesso às armas. Até quando o país vai acreditar que são “colecionadores e caçadores”? A caça é proibida no Brasil. Bolsonaro quer uma milícia. Por que tirar poderes dos governadores sobre as polícias e criar o generalato nas PMs? Por que distribuir tantos mimos às Forças Armadas, da ativa ou da reserva? Ora, direis, por ideologia, para seguir a ala ideológica. Não. Não há uma ideologia, há um projeto autoritário em curso. O presidente quer se cercar de vários efetivos armados, legal ou ilegalmente, para intimidar adversários. No dia D e na hora H. Como fez Trump, quando mandou seus mal-intencionados seguidores marcharem sobre o Capitólio. Na celebrada democracia americana foram vistas cenas de enorme selvageria. Os gritos de “enforquem Pence” e “onde está Nancy Pelosi” foram descritos na imprensa americana e entendidos pelo seu valor de face.

Na casa dos conchavos, tudo se passa como se não vissem o que há pelo Brasil. O presidente conduz de forma criminosa a gestão da pior pandemia que já se abateu sobre o país, mas o PT acha que pode se alinhar ao candidato que Bolsonaro defende, e o PDT, também. O PSDB acha que pode continuar em cima desse muro e permanecer nunca decidindo em tempos de decisão. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) falou em trincar os dentes. Quando trincarão os dentes? Quando for tarde demais.

Trump conspirou durante quatro anos, e o resultado foi visto por todos. Bolsonaro conspira, e temos visto o resultado. É da natureza de governantes autocratas que chegam ao poder pelo voto na democracia enfraquecer por dentro as instituições que os hospedam. Querem se espalhar pelo organismo, enfraquecê-lo e destruí-lo. Como um vírus oportunista e mortal.

A força das panelas

Morte por asfixia de pacientes sem oxigênio, revezamento desesperado de médicos e enfermeiros para ventilar doentes manualmente, 750 internados, incluindo bebês prematuros, tendo de ser transferidos às pressas para outros estados. O colapso do sistema de saúde do Amazonas é mais do que o retrato doloroso e cruel da inépcia do governo Jair Bolsonaro, é um divisor de águas. Não à toa, panelas e gritos de “fora Bolsonaro” ecoaram mais fortes na noite de sexta-feira.

Não se trata mais de críticas ao desprezo pela vida escancarado no “e daí?”, ou a declarações irresponsáveis como a de “gripezinha” ao se referir ao coronavírus. Agora teve de tudo: “assassino”, “genocida”, “facínora”.

Ouviu-se a indignação presa na garganta de quem não pode ir para a rua protestar porque respeita os protocolos preventivos e o próximo. Daqueles que têm feito o possível e o impossível para ficar em casa enquanto o presidente prega aglomerações em nome da liberdade de ir e vir – e de infectar o outro.

Pouco importa se foram centenas de milhares ou milhões batendo panelas. O fato é que só a convocação da manifestação colocou Bolsonaro na defensiva, apressando-se a justificar o injustificável.

No Amazonas a doença se alastrou na última semana “porque o clima subiu”, disse Bolsonaro em entrevista à Jovem Pan pouco antes do panelaço. Tratou ainda de culpar o Supremo Tribunal Federal pelas ocorrências, insistindo na falsa ladainha de que fora “proibido pelo STF” de lidar com a crise da Covid-19.

Mais cedo, sua tropa de choque tentou desviar-se da mira. A deputada Bia Kicis (PSL-DF) usou as redes para culpar o governo amazonense, sem dar um pio quanto à postagem feita por ela antes do Natal: “A pressão do povo funcionou tb em Manaus. O governador do Amazonas, @wilsonlimaAM voltou atrás em seu decreto de lockdown. Parabéns, povo amazonense, vcs fizeram valer seu poder!" Em vez de poderosa, a conta foi macabra.

A pane na saúde amazonense não pode ser atribuída apenas ao governo federal. Os erros foram sequenciais e cumulativos. Era tragédia anunciada.


O governador cedeu à pressão contra o fechamento do comércio na véspera das festas de fim de ano, mesmo com os indicadores apontando para o aumento de internações. Os empresários fizeram pouco caso da doença, o povo foi às compras animado pelo discurso egoísta do bolsonarismo. Mas a patética cobrança de tratamento preventivo com cloroquina feita pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, na visita a Manaus na segunda-feira, em meio ao incêndio, foi de monstruosidade imbatível. De arrepiar.

Mas Bolsonaro não tem como escapar das decisões trágicas que tomou. Mesmo diante do aumento da demanda por respiração assistida imposto pela pandemia, seu governo restabeleceu no ano passado as taxas de importação de oxigênio: 14% para cilindros de ferro e 16% para cilindros de alumínio. E zerou os impostos para importação de pistolas e revólveres de uso pessoal. Sem meias palavras, fez a opção pela morte.

Só voltou atrás na suspensão das alíquotas sobre o oxigênio depois da grita geral pós-asfixia amazônica.

Culpa da temperatura elevada, do STF, do não uso da cloroquina. Useiro e vezeiro em jogar o fardo nas costas alheias, Bolsonaro tenta repetir o método, dessa vez com argumentos ainda mais frágeis do que de costume. E os reveses sofridos na semana não pararam por aí.

Aflito para largar antes do inimigo João Doria, Bolsonaro colocou o avião à frente da boiada para forçar a Índia a entregar 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, que o seu governo, por meio da Fiocruz, pretende produzir. Deu tudo errado. A Índia só vai liberar as exportações depois do início da vacinação interna, e o avião da Azul, especialmente decorado com a propaganda governamental, não decolou.

Mais: o calendário da Fiocruz só prevê produção nacional da vacina da Oxford a partir de 8 de fevereiro, dependendo ainda da importação do insumo chinês IFA, que não chegou. Assim, se quiser a pole-position, Bolsonaro terá de abrir a campanha nacional de imunização com a “vacina do Doria”.

Na sexta-feira do panelaço, o Ministério da Saúde solicitou, encarecidamente, que o Instituto Butantã antecipasse a entrega de 6 milhões de doses da Coronavac, a “chinesa”. Sim, a mesma vacina de que o presidente fez e faz chacota.

O Butantã é sério e não fará birra como o governo Bolsonaro costuma fazer. Já adiantou que irá atender à demanda. O urgente é que a vacina comece a ser aplicada. E que bom que o Instituto financiado pelo governo paulista já tem mais de 11 milhões delas e capacidade para produzir um milhão por dia.

Bolsonaro jamais fará mea culpa. Ele que se dane. Depois do Amazonas, panelaços deverão ser mais constantes e o clamor para impedir o presidente tende a se tornar mais vigoroso.

Que venha com urgência!

O impeachment é agora uma questão de sobrevivência. Bolsonaro, com sua omissão e incompetência, é responsável por somarmos mais de 10% de todas as mortes mundiais. O que ele faz é um crime contra a humanidade. Basta de impunidade para alguém que causa tanta dor ao próprio povo
Tabata Amaral, (PDT-SP)

Carta branca para a morte

O ser imoral que atende por Jair Bolsonaro forçou o jornalismo a deseducar e endurecer a linguagem em referências ao governo e, ainda mais incisiva, sobre o intitulado mas não presidente de fato.

Com os assassinatos por asfixia cometidos pela incúria e o deboche no Amazonas; mais de 200 mil mortos no país entregue à pandemia e à sabotagem, e a patifaria contra a vacinação vital, mesmo a grosseria realista é insuficiente.

Nem a liberação dos chamados palavrões, feita pela Folha e O Globo há algum tempo, soluciona o impasse. Muitos as consideramos aquém do jornalismo e os demais ficariam expostos a inconvenientes legais.

A asfixia é reconhecida como uma das mais penosas formas de morte, acréscimo ao nosso horror com as mortes em campos de concentração nazistas, nas câmaras de gás para condenações passadas nos Estados Unidos, como nas perversões criminosas. Hoje, é aqui que essa morte terrível ocorre, vitimando doentes que tiveram a infelicidade preliminar de nascer no Brasil.

Que considerações valeria tentar sobre esse fato? Seus responsáveis são conhecidos. Um presidente ilegítimo pela própria natureza e pela contribuição para a morte alheia. Um general patético e coautor, sobre os quais apenas vale dizer aqui, ainda, da lástima de que não terão o merecido: o julgamento por um sucedâneo do Tribunal de Nuremberg.

Bebês, 60 bebês, parturientes, operados, cancerosos, infartados, vítimas da pandemia, às centenas, milhares, desesperados pelo ar que os envolve e no entanto lhes falta. Todos diante da morte terrível, não pelo que os internou, mas de asfixia —por quê?

Guardião de 62 pedidos de impeachment de Bolsonaro, Rodrigo Maia enfim dá sua explicação para o não encaminhamento da questão ao exame das comissões específicas: "O processo do impeachment é o resultado da organização da sociedade. Como se organizou contra os presidentes Collor e Dilma".

Não houve uma pressão "que transbordasse para dentro do parlamento. Não foi avaliar ou deixar de avaliar impeachment, e sim compreender que a pandemia é a prioridade para todos nós".

O fácil e esperado. Mas os casos de Collor e Dilma nasceram no Congresso, não na sociedade. Foi a mobilização, lá, de parlamentares que gerou e fez transbordar para a sociedade a exigência do impeachment de Collor.

A "pedalada" contábil do governo Dilma nunca passou pela cabeça de ninguém, na sociedade e no Congresso. Foi o pretexto criado já a meio da conspiração lá urdida por Aécio Neves e Eduardo Cunha, símbolos da pior corrupção, a que corrói a democracia pela política. A mídia (sic) levou para a sociedade o golpismo transbordante no Congresso.

Se a prioridade fosse a pandemia, o governo não continuaria entregue aos que a negam e como governo sabotam, à vista de todo o país, tudo o que possa combatê-la. Para isso recorrendo, sem receio, a ações e omissões criminosas. Uma sucessão delas, incessante até hoje.

​Se nas mais de 200 mil mortes houvesse apenas uma induzida pelas pregações e sabotagens de Bolsonaro, já seria bastante para ser considerado criminoso homicida. Mas são muitos os interesses financeiros e políticos a protegê-lo. Na verdade, mais que isso, porque é carta branca que lhe tem sido assegurada, sobre 212 milhões de brasileiros, como sobre o presente e o futuro do país.

Brasil para exportação

 

Anthony Garner (Espanha)


Covid-19: Procurador Geral da República só enxerga o que quer

Depois de cinco dias consecutivos com mais de mil mortos pela Covid-19 no Brasil, finalmente o procurador-geral da República, Augusto Aras, acordou e determinou a abertura de um inquérito no Superior Tribunal de Justiça.

Não tire conclusões apressadas. O inquérito não é para apurar a eventual omissão do governo federal no combate à pandemia do coronavírus que até aqui matou 209.350 pessoas, infectando quase 8.500 mil. Aras acha que não houve omissão.

Se omissão houve, foi do governador Wilson Lima (PSC), eleito há dois anos com o apoio de Bolsonaro, e da prefeitura de Manaus, comandada pelo recém-empossado David Almeida (Avante), na crise de saúde do Amazonas.

Embora tenha afirmado que levou em consideração o entendimento do Supremo Tribunal Federal de que cabe à União, Estados e municípios atuarem em conjunto no combate à pandemia, Aras preferiu deixar a União de fora do inquérito.

Sabe como é. Antigamente – quer dizer: antes de Bolsonaro -, o presidente da República escolhia um dos três nomes mais votados pelos procuradores para o cargo de procurador-geral. No caso de Aras, ele sequer foi votado.



Daí que ele foi uma escolha pessoal de Bolsonaro, que não o nomearia sem a certeza de que Aras o protegeria e cumpriria todas as suas vontades. E assim tem sido. O procurador-geral da República deu lugar ao procurador-geral de Bolsonaro.

Só procura o que interessa ao presidente. E quando esbarra em algo que não interessa a ele, dá um jeito de não ver. E se por acaso for obrigado a ver, releva a importância do que viu. Aras sabia que seria assim e aceitou jogar o jogo.

No ano passado, não se pagava imposto para a compra a outros países de cilindros de oxigênio. Este ano começou com um imposto de 14% a 16%. O imposto pago na compra de armas era de 20% no ano passado. Este ano foi zerado.

Pelo menos desde o dia 23 de novembro último, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a Secretaria de Saúde do Amazonas sabia que a quantidade de oxigênio hospitalar disponível seria insuficiente para atender o recrudescimento da pandemia.

A informação consta de projeto básico, elaborado pela própria Secretaria, para a última compra extra do insumo em 2020. Principal fornecedora do Estado, a empresa White Martins teria conseguido atender ao pedido por mais cilindros.

Mas não houve pedido. Em dezembro, o governo do Estado, sob pressão de comerciantes bolsonaristas, relaxou as medidas de isolamento social, descartando qualquer possibilidade de endurecê-las depois. Bolsonaro festejou em vídeo.

Nesta semana, o estoque de oxigênio acabou nos hospitais de Manaus e pacientes começaram a morrer asfixiados. O ministro Eduardo Pazuello, da Saúde, esteve lá. Pôde ver o que acontecia, mas receitou o tratamento precoce com cloroquina.

Fez mais que isso. Obteve autorização do governo do Amazonas para que grupos de médicos e de servidores do ministério visitassem unidades de saúde em Manaus, orientando-as no uso de drogas contra o vírus comprovadamente ineficazes.

Uma cunhada de Pazuello avisou-o que tinha um familiar infectado pelo vírus e “sem oxigênio para passar o dia”, de acordo com a Folha de S. Paulo. Mas, sabe como é… Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Pazuello tem juízo.

Essa é uma história de terror doméstico que chocou o país e o mundo e que não tem Dia D para acabar. A China anunciou que ajudará o Brasil com dinheiro, uma vez que seria difícil e demorada a operação de mandar cilindros de oxigênio.

A Venezuela é logo ali. E apesar de o governo Bolsonaro não reconhecer o governo de Nicolás Maduro e de apoiar o governo inexistente de Juan Guaidó, a ajuda da Venezuela chegará nos próximos dias. Vai recusá-la? Terá coragem para tanto?

Cerca de 100.000 litros de oxigênio foram carregados na Siderúrgica del Orinoco para seguir rumo ao Brasil em caminhões. Uma centena de médicos formados pela Venezuela em parceria com Cuba está disposta a ir para Manaus. E aí?

Tremenda saia justa para um governo de machos que detestam expor suas fraquezas.

O chaveco do chavismo bolsonariano

Treze anos de poder petista não fizeram estragos nas Forças Armadas semelhantes ao que o capitão Bolsonaro conseguiu em dois anos. Durante os governos de Lula e de Dilma Rousseff, nenhum general foi demitido de forma constrangedora e sem motivo razoável. Os oficiais-generais nomeados pelos presidentes petistas para funções civis tiveram desempenhos discretos. Bolsonaro jogou militares em torvelinhos, associando a disciplina da carreira às suas fantasias. O que sucede ao general Eduardo Pazuello é prova disso.

As cerejas desse bolo anárquico, reveladas pelo repórter Felipe Frazão, são os projetos de parlamentares bolsonaristas que tramitam no Congresso. Teriam jogado meia dúzia de jabutis em cima da ideia de reorganizar as polícias civil e militar. Olhando-se os detalhes, nem jabutis são. Transformaram a ideia num terreno baldio, onde cada um que passa joga o que quer.

É conhecida a admiração de Bolsonaro pelas PMs, apimentada pela simpatia de oficiais do pelotão palaciano diante de alguns motins.

Pelos projetos, os comandantes das PMs deveriam ser escolhidos a partir de listas tríplices saídas da corporação. (Os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica são de livre escolha do presidente, dentro do quadro de quatro estrelas.)


Esses comandantes teriam mandatos de dois anos. Vale ouvir o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro: “Dentro da estrutura militar, ninguém pode ter mandato”.

As PMs e os Corpos de Bombeiros teriam generais. É o caso de se perguntar porque os Corpos Marítimos de Salvamento não devem ter almirantes.

A fiscalização das empresas de segurança privada sairiam da alçada da Polícia Federal, passando para a jurisdição das Polícias Militares. O perigo embutido nesse sofá velho jogado no terreno é simples: Basta lembrar a carreira do capitão Adriano da Nóbrega, o miliciano foragido morto na Bahia. Ou o caso do PM Ronnie Lessa, acusado de ter matado a vereadora Marielle Franco. Nenhum dos dois era um bandido iniciante. Ronnie havia sido guarda-costas de um bicheiro e perdeu uma perna numa briga de quadrilhas. O ex-capitão Adriano comandava a milícia batizada de Escritório do Crime.

Projetos legislativos de deputados governistas não têm necessariamente o apoio do governo, mas Bolsonaro, que é tão rápido no gatilho, jamais disse uma palavra contra os pneus velhos e colchões sujos jogados nesse terreno baldio.

O comandante Hugo Chávez desgraçou a Venezuela distribuindo boquinhas para militares da ativa e criando uma milícia.

Todo dia tem um novo fim do mundo

Leio num jornal português a terrível manchete: “O vórtex polar quebrou.” Assustadíssimo, googlo no celular “vórtex polar”. A seguir envio um SMS à minha irmã, radicada em Portugal: “Atenção: o vórtex polar quebrou!”.

“Que horror!”, responde ela. Consigo imaginá-la a googlar desesperadamente “vórtex polar”. Segundos depois chega a resposta: “Ha, ha, ha! É só frio! Muito, muito, muito frio!”

Não há nada como a ameaça de um bom fim do mundo para relativizar tudo. Sim, os europeus estão enfrentando um frio glacial, na sequência de um fenômeno atmosférico conhecido como quebra do vórtex polar.

Há alguns dias, Madri despertou enterrada na neve. Em Lisboa, a capital mais quente da Europa, a mais africana, a mais crioula, festeira e tropical, os termômetros desceram abaixo do zero grau.

Se eu tivesse lido a mesma manchete há cinco anos talvez não associasse a expressão “quebra do vórtex polar” a um cataclismo iminente. Talvez eu lesse “vórtex polar” e pensasse numa estação orbital colocada sobre o Ártico; numa marca de cerveja que acabasse de anunciar falência, ou num veículo tripulado por ursos polares.

Nos tempos que correm, contudo, todo o dia nos atiram à cara um novo fim do mundo. Ora é uma estirpe inédita do coronavírus, ora uma guerra nuclear, ora um cometa avançando a toda a velocidade de encontro ao nosso planeta.

Pelo menos no Brasil todos os cataclismos têm a mesma origem: Bolsonaro. Sugiro nomear os futuros ciclones com o nome de Bolsonaro. Ou de Jair. Ou de Messias. Messias 1, Messias 2, Messias 3. Os terremotos também. E os maremotos, os vírus mais perigosos etc..



Desculpem o desvio. Não desejo entrar em conflito com cataclismos. Prezo muito os cataclismos. Me lembro sempre de um conselho da minha avó: “Escolhe bem os teus amigos. Mas escolhe ainda melhor os teus inimigos.”

A quebra do vórtex polar serviu para forçar os cidadãos europeus a permanecerem em casa, mesmo antes dos governos dos respectivos países decretarem um confinamento obrigatório.

Também em Moçambique, onde vivo, foi anunciada na passada quarta-feira uma série de novas restrições, devido ao súbito aumento do número de pessoas infectadas com Covid desde o réveillon.

Em Moçambique morreram até agora 205 pessoas vítimas da pandemia, o que dá seis mortes por milhão de habitantes (já o Brasil tem perto de mil mortes por milhão de habitantes). Tendo estes números em atenção, parece legítimo dizer que Moçambique está muitíssimo mais avançado do que o Brasil no que diz respeito à gestão da pandemia.

Com um sistema de saúde pública muito frágil, o governo moçambicano, como a maioria dos governos africanos, optou pela prevenção e o respeito pela ciência. Foi tomada uma série de medidas de contenção, desde o rápido encerramento de fronteiras ao uso generalizado de máscaras.

Entre as restrições agora anunciadas, a que mais me custa é a interdição das praias. Depois penso nos pobres europeus, fechados em casa não apenas por causa da pandemia, mas também devido ao frio intenso, e me conformo.

Pelo menos eu posso subir ao terraço e me estender ao sol. De preferência, com um bom livro nas mãos.

Displicência mortal

Não foram poucas as vozes que no fim do ano passado alertaram para a iminência de uma explosão de contaminação e mortes por covid-19 no País nas primeiras semanas de 2021. É exatamente o que se vê agora. Não foi presságio e tampouco mau agouro dos especialistas em saúde pública. Foi apenas a antevisão de uma consequência lógica da irresponsabilidade com que muitos governantes e cidadãos se portaram diante da ameaça de contágio pelo novo coronavírus durante os festejos e férias de fim de ano. Agora, a incúria, o egoísmo e o desmazelo de tantos que puseram a fruição individual acima do interesse coletivo apresentam uma pesada conta.

Na quinta-feira passada, o País registrou recorde na média móvel de casos diários de covid-19. De acordo com a apuração do consórcio de veículos de imprensa, foram 56.453 casos em 24 horas. A Nação pranteou a morte de cerca de 1,2 mil brasileiros por dia. Alguns hospitais particulares da capital paulista já não têm vagas em UTI para atender pacientes acometidos pela covid-19. Na capital fluminense também não há mais leitos de terapia intensiva exclusivos para o tratamento da doença.

Em nenhum município, no entanto, a situação é tão dramática como em Manaus. Chegou-se ao ponto em que médicos e enfermeiros não têm outra coisa a fazer a não ser administrar morfina em pacientes graves que agonizam nos leitos pela falta de oxigênio. A sensação de impotência levou ao desespero muitos desses profissionais. Por meio das redes sociais, eles publicaram pungentes pedidos de ajuda enquanto viam seus pacientes, um após o outro, morrerem afogados no seco. Só ontem começaram a chegar cilindros de oxigênio a Manaus vindos do Rio e de São Paulo em aviões da FAB.


O colapso do sistema de saúde em Manaus é o retrato cruel de como a negligência e o negacionismo do poder público, aliados à irresponsabilidade dos cidadãos que fazem pouco-caso das medidas protetivas contra o vírus, são mortais quando se está diante de uma crise sanitária da magnitude da pandemia de covid-19. Não se chega a um estágio desses sem uma longa esteira de erros e omissões.

Fiel à sua índole, o presidente Jair Bolsonaro foi rápido ao fazer circular a informação de que o governo federal repassou R$ 8,91 bilhões ao Estado do Amazonas e R$ 2,36 bilhões à cidade de Manaus, sugerindo que nada tem a ver com o desastre havido na capital amazonense. “Fizemos a nossa parte”, disse o presidente ao grupo de apoiadores que batem ponto na entrada do Palácio da Alvorada.

Em primeiro lugar, repasses da União aos Estados e municípios decorrem das leis e da Constituição, não da boa vontade do presidente da República. Bolsonaro não fez nada além de sua obrigação ao repassar os recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além dos recursos extraordinários aprovados pelo Congresso para dar conta do enfrentamento da pandemia. Segundo, em nenhum momento desta emergência sanitária o resultado trágico em Manaus ou em qualquer outro município decorreu da falta de dinheiro. Faltou ao governo federal compromisso com os fatos, com a ciência, com a vida. Faltou a coordenação, no âmbito federal, dos esforços nacionais para debelar a peste.

Sobre o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), também recai uma boa parcela da responsabilidade pelo colapso da saúde pública em Manaus por ter cedido à pressão de empresários e autorizado a flexibilização das atividades comerciais no Estado, contrariando as recomendações das autoridades sanitárias. “Eu preciso ouvir a voz das ruas”, justificou o governador. Por esta sua “insurgência” contra a “ditadura do lockdown”, Lima foi bastante festejado por apoiadores do presidente Bolsonaro.

Manaus foi uma das cidades que sucumbiram ao falso dilema entre a “liberdade” individual e o “arbítrio” das medidas de contenção ao novo coronavírus. Como a natureza é implacável, o resultado não haveria de ser outro: o aumento do número de mortes por um dos meios mais cruéis, a asfixia.

As três esferas de governo agora se mobilizam para socorrer os manauaras. Para muitos, entretanto, a ajuda chega tarde demais. Até onde irá o desgoverno?
Editorial - O Estado de S. Paulo