sexta-feira, 10 de julho de 2020

Bolsonaro é o ciclone-bomba

Louco. Lunático. Psicopata. Sociopata. Genocida. Cruel. Esdrúxulo. Inepto. Ignorante. Insensível. Rastaquera. Rude. Machista. Homofóbico. Arrogante. Tirano. Desequilibrado. Inconveniente. Chulo. Insolente. Oco. Irascível. Mentiroso. Violento. Vingativo. Manipulador. Abominável. Bizarro. Perigoso. 

Um formidável conjunto de adjetivos, listados acima, tem sido associado ao presidente do Brasil ao longo de seu mandato por pessoas de diferentes idades, níveis de instrução e origens. Essas qualidades atingiram uma diversidade espantosa durante a pandemia, em dezenas de artigos na imprensa nacional e estrangeira.

B. é considerado hoje o pior líder do planeta no combate ao novo coronavírus. Pior do que Trump, segundo o Washington Post. Uma ameaça ambulante à vida humana e ambiental. E, portanto, à viabilidade comercial e econômica do Brasil como parceiro. B. não apenas corta água potável para os índios ou queima a Amazônia. Ele corta nosso oxigênio cultural e educacional. É o ciclone-bomba.


Percebam que não há nesses adjetivos duros nenhum viés ideológico. Não escrevi “fascista”. São falhas sobretudo de caráter, que não definem extrema direita ou extrema esquerda. 

O mais carinhoso adjetivo atribuído a B. foi o primeiro, o “tosco”, quando ainda só falava errado e se gabava de comer pão com leite condensado. Depois, o país condescendente o chamou de populista de direita. Mas populista costuma ter apoio de 70% e não 30%. Nem sei se continua popular em casa.

Coitada da Michelle. Em cerimônia do Dia Internacional da Mulher, ela precisou parar o discurso e se dirigiu a B.: “Psiu, eu estou falando. Posso continuar?” A primeira-dama prometia “um Brasil mais justo, seguro e inclusivo”. Imagino por que Michelle não aparece mais e, nas raras vezes, está de máscara. A pandemia mostrou a pior face de seu esposo. 

Você leu, Michelle, que o governo do B. se aliou à Arábia Saudita para vetar o termo “educação sexual” em resolução na ONU contra a discriminação de mulheres e meninas? E que o Brasil agora se opõe a citar “saúde sexual e reprodutiva” num texto de países africanos destinado a banir a mutilação genital feminina? Essa violência indizível atinge 3 milhões de meninas por ano. Cristã, como você se sente? Ou sua leitura se resume às fake news produzidas no Palácio?

Articulistas estrangeiros dizem sentir “pena, raiva e vergonha” pelo Brasil. Mesmo sem ser brasileiros. Citando o Juan Arias, do El País: “O que aflige Bolsonaro é algo muito mais grave, é uma doença da alma, uma doença sem cura. Alardeia ser católico, evangélico e se importar mais com a Bíblia do que com a Constituição. Deveria saber que nesses textos fica evidente que todos os pecados podem ser perdoados, menos o da soberba que pressupõe que a pessoa se coloca acima de Deus. O vírus de Bolsonaro é de um gênero diferente do que já contagiou milhões. O seu é diabólico”.

Se for verdade que contraiu o novo coronavírus e não virou apenas um mercador da cloroquina ou um miliciano da medicina, B. é inqualificável em seu comportamento na doença. Diz que “máscara é coisa de viado”, não dispensa assessores e aperta a mão de visitas constrangidas, segundo Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Age como homem-bomba, com a diferença de que não vai explodir junto porque não tem vocação para mártir.

B. não é homem-bomba. Repetindo: é o ciclone-bomba. O fenômeno, com rajadas impiedosas de vento que causaram estragos e mortes, é provocado pelo choque de massas. Se você não confiar na reação do STF e do Congresso, ao menos confie nos meteorologistas. O B. vai passar.

Brasil sem freio pro fundo


Como os EUA lucraram com tráfico de africanos escravizados para o Brasil

Com cerca de 450 africanos da região do rio Congo, a escuna norte-americana Mary E Smith foi a última a tentar desembarcar escravizados no Brasil. No dia 20 de janeiro de 1856, ela foi capturada em São Mateus, no Espírito Santo, em uma operação que deixou claro que a Lei Eusébio de Queiroz, aprovada em 1850 proibindo a entrada de escravos, de fato pretendia acabar com o tráfico de escravos no país. Antes dela, tratados assinados por pressão da Inglaterra após a Independência ficaram conhecidos como "leis para inglês ver", pois na prática as próprias autoridades locais eram coniventes com o contrabando.

Pesando 122 toneladas e com um valor estimado em US$ 15 mil dólares, a Mary E. Smith foi construída em Massachusetts especificamente para o tráfico negreiro. Antes mesmo de deixar Boston rumo à África, no dia 25 de agosto de 1855, a escuna chamou a atenção das autoridades britânicas e norte-americanas. Houve até uma tentativa de prisão na saída, mas o capitão, Vincent D. Cranotick, conseguiu expulsar os intrusos e partir.

Poucas embarcações do tráfico foram tão monitoradas quanto a Mary E. Smith. A Marinha no Rio de Janeiro, ao receber a correspondência dos EUA, alertou oficiais britânicos, brasileiros e americanos sobre a chegada iminente da escuna. Ao se aproximar da costa, foi abordada pelo navio de guerra Olinda e levada para Salvador, na Bahia.

A situação era preocupante. Majoritariamente jovens com entre 15 e 20 anos, os africanos padeciam de diversas doenças — nos 11 dias de viagem entre São Mateus e Salvador, mais 71 morreram. Quando os oficiais baianos condenaram a Mary E. Smith e levaram os sobreviventes para a cidade, a população teria entrado em pânico: desde agosto do ano anterior, Salvador enfrentava uma epidemia de cólera, e acreditava-se que a presença dos africanos doentes pioraria a situação. Mais africanos morreram nas semanas seguintes. No dia 14 de fevereiro, dos 213 que sobreviveram, 88 continuavam muito doentes, inclusive de cólera.

Entre 1831 e 1850, navios americanos corresponderam
a 58,2% de todo tráfico negreiro para o Brasil
O capitão também morreu na chegada da Mary E. Smith a Salvador, escapando da acusação por tráfico ilegal de escravos. No dia 30 de junho de 1856, 10 membros da tripulação foram julgados — destes, 5 eram cidadãos norte-americanos. As penas variaram de 3 a 5 anos de prisão, além do pagamento de uma multa de 200 mil réis (algo em torno de US$ 112 mil) para cada africano que teria entrado no Brasil.

A história da Mary E. Smith é simbólica não só por marcar o fim do tráfico de escravos no país, mas por indicar a participação dos Estados Unidos na atividade ilegal. Entre 1831 e 1850, navios construidos nos EUA corresponderam a 58,2% de todas as expedições negreiras com destino ao Brasil. Muitos deles não chegaram a usar a bandeira americana e foram comandados por traficantes de outras nacionalidades. A estimativa é de que tenham transportado quase 430 mil africanos — foi o Camargo, um brigue americano, aliás, que em 1852 desembarcou com sucesso os últimos escravizados no país.

Ao contrário dos africanos da Mary E. Smith, que foram emancipados e submetidos à tutela do Estado por 14 anos, os cerca de 500 que chegaram ao porto do rio Bracuí, na região de Angra dos Reis, não tiveram o mesmo destino. "Após desembarcarem, pela proximidade da Serra do Bananal onde havia plantações de café, os senhores começaram a escondê-los na senzala", diz a professora de História Martha Campos Abreu, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

As autoridades locais chegaram a tentar reaver os escravizados, decretando pela primeira vez uma busca pelas fazendas, em uma demonstração do que estaria por vir com a Mary E. Smith. Mas a tentativa foi quase em vão: segundo a professora de História Beatriz Mamigonian, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), somente cerca de 70 foram recuperados. O comandante do brigue, Nathaniel Gordon, por sua vez, conseguiu escapar. Após atear fogo no Camargo, fugiu para os EUA — uma década depois, foi enforcado por sua participação no tráfico, único norte-americano a sofrer pena capital pelo crime.

Em 1896, o sociólogo W.E.B. Du Bois chamou a atenção para as relações entre os EUA e o Brasil no período do tráfico ilegal. "O tráfico americano de escravos finalmente passou a ser conduzido principalmente por capital dos Estados Unidos, em navios dos Estados Unidos, comandados por cidadãos dos Estados Unidos e sob a bandeira dos Estados Unidos", escreveu Du Bois.

Autor de O Sul mais distante: os Estados Unidos, o Brasil e o Tráfico de Escravos Africanos (Companhia das Letras, 2010), o historiador Gerald Horne engrossa o coro de críticos americanos ao papel do país na escravidão brasileira. "O governo brasileiro deveria buscar reparação, porque esses traficantes de escravos estavam violando as leis do Brasil e praticando uma atividade ilegal. O fato de que aconteceu 170 anos atrás não diminui a reclamação, não existe um estatuto de limitação na legislação internacional por crimes contra a humanidade, e o contrabando era um crime contra a humanidade", disse Horne em entrevista à BBC News Brasil. "Mas há relutância em trazer justiça para, pelo menos, os brasileiros que são descendentes dos escravos trazidos por navios norte-americanos."

O historiador da UFF Leonardo Marques, um dos maiores pesquisadores brasileiros da participação dos EUA na escravidão brasileira, aponta algumas ressalvas. Para Marques, os recursos norte-americanos estiveram mais presentes a partir de 1820, mas de forma indireta e ainda muito ligados a grupos específicos de contrabandistas portugueses. "Por muito tempo, acharam que eram americanos, mas hoje sabemos que muitos eram portugueses que chegaram a adquirir a cidadania para conduzir o tráfico", explica o professor, que teve a tese de doutorado sobre o assunto na Universidade Emory, The United States and the Transatlantic Slave Trade to the Americas 1776-1856, transformada em um livro publicado pela Yale Press em 2016.

O interesse nos Estados Unidos se dava por um conjunto de fatores. O primeiro era a qualidade das embarcações. Desde o período colonial, a região da Nova Inglaterra fortaleceu a tradição de construção naval, competindo com os próprios britânicos, e as guerras contra os colonizadores também contribuíram para o desenvolvimento dos barcos. "A qualidade deles era muito alta, eles eram a vela, mais rápidos, e aos poucos foram desbancando a própria frota britânica", conta Marques. Além de economizar tempo nas viagens, as embarcações eram consideradas capazes de despistar perseguidores da Marinha Britânica e piratas.

A bandeira americana era também uma das poucas imunes a vistorias a bordo. A partir de 1807, a Inglaterra começou a fechar o cerco contra o tráfico de escravos — mais do que razões humanitárias, havia diferentes interesses econômicos por trás da pressão, entre os quais criação de mercado consumidor para produtos industrializados. Embora internamente tanto abolicionistas quanto escravistas (que acreditavam já ter uma população de africanos interna suficiente e autossustentável) tenham concordado com as medidas, os EUA se recusaram a autorizar vistorias em seus barcos, acusando os britânicos de ferirem a soberania da ex-colônia.

Para os criminosos, a situação era perfeita: navios rápidos e com uma bandeira imune à fiscalização inglesa. Não à toa, conta Marques, no período havia várias companhias dos EUA que vendiam navios para traficantes no Rio de Janeiro. "No Jornal do Comércio, havia anúncios de navios como 'excelentes para transporte de escravatura'", diz o historiador.

A situação chegou a gerar alguns incidentes diplomáticos, dividindo as autoridades entre as que acreditavam que a venda dos barcos e o uso da bandeira era legítima, e os que achavam que não. Em 1844, Henry Wise foi nomeado ministro dos EUA no Brasil e, em conjunto com o cônsul George Gordon, buscou eliminar a bandeira do país do tráfico. Entre as medidas, passaram a enviar envolvidos no tráfico para serem julgados nos EUA e promoveram o desmantelamento de esquemas de cidadãos norte-americanos que vendiam ou fretavam embarcações para traficantes brasileiros.
Consumo financiado pela escravidão

Um dos esquemas envolvia a companhia Maxwell Wright & Co, que combinava duas atividades que acabaram interligadas ao longo da década de 1840: de um lado, vendiam os navios para traficantes de escravos; de outro, exportavam o café produzido pelos mesmos escravos de volta para os Estados Unidos, onde o mercado consumidor crescia. Neste sentido, observa Marques, a participação dos EUA na escravidão brasileira transcende a questão econômica. "A identidade nacional que estava sendo construída no país, do americano tomador de café em vez de chá, está amarrada com a escravidão", diz.

A professora Mamigonian, cuja pesquisa se concentra na abolição do tráfico e nas transformações da escravidão no século 19, complementa o raciocínio: "vemos um elemento muito próprio do capitalismo do século 19, quando a ascensão do consumo vai na contramão do abolicionismo." O problema, neste caso, não era restrito aos EUA. O próprio Reino Unido, que em 1833 aboliu a escravidão, continuou consumindo produtos brasileiros produzidos com mão de obra escrava e fornecendo itens industrializados para o comércio ilegal na África.

O crescimento do mercado consumidor para os produtos brasileiros, ao mesmo tempo em que vinculou os americanos ainda mais profundamente à escravidão no Brasil, corrobora a tese de que o tráfico existiria com ou sem a presença dos EUA. Em suas pesquisas, Marques observa que, embora uma cláusula no acordo entre EUA e Inglaterra permitindo a revista das embarcações possivelmente diminuiria a presença dos norte-americanos no tráfico, o controle da compra e venda de navios permaneceria ambíguo. Não à toa, traficantes portugueses acabaram criando suas próprias redes, principalmente em Nova York, adquirindo inclusive a cidadania do país.

A conclusão dos especialistas é que, enquanto houvesse demanda pelos produtos do trabalho escravo no mercado mundial e a escravidão se mantivesse um mercado lucrativo (um escravo comprado na África por US$ 40 valia em terras brasileiras algo entre US$ 400 a US$ 1.200, em torno de US$ 48 mil), haveria criminosos dispostos a manter o sistema ativo. Tanto é que, quando a captura do Mary E Smith finalmente sinalizou que o tráfico para Brasil não era mais um bom negócio, muitos traficantes voltaram as atenções para Cuba, que adotou medidas semelhantes somente em 1862.

O fim do tráfico nas Américas, por sua vez, só ocorreu de fato com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, último país do Ocidente a libertar africanos escravizados.

Liberdade vendida ao lixo

Hoje vendemos nossa liberdade de indivíduos pátrios por objetos perecíveis sem nenhum valor. Não tenho medo, enfim, do dano que possa ocorrer, porque o pior já está ocorrendo

É impossível acreditar em Bolsonaro

Quando Bolsonaro disse que não estava com Covid-19, em março, ninguém acreditou. Agora ele diz que está — e, claro, ninguém acredita de novo. Parece bobagem, mas só isso já bastaria para torná-lo inapto para o cargo em qualquer país minimamente funcional: um presidente em cuja palavra ninguém acredita nunca não tem condições de governar um país.

Aqueles famosos 30% não estão, claro, incluídos nesse “ninguém”. Eles acreditam. Mas eles também acreditam que o seu líder é boa pessoa, que a quantidade de milicianos envolvidos no assassinato de Marielle em torno da famiglia é simples coincidência e que Rodrigo Maia é comunista. Alguns acreditam até que a Terra é plana.

É muito sintomático que, quando a notícia se espalhou, nenhum jornal tenha tido confiança suficiente na fonte para afirmar que o presidente estava infectado. Em vez disso, o que se lia nas manchetes era “Bolsonaro diz que está com Covid-19”. Imaginem se na Alemanha ou na Nova Zelândia, governadas por mulheres de palavra, alguém precisaria tomar esse cuidado.

Quando a imprensa de um país não tem coragem de dar como verdadeira a declaração de um presidente a respeito da própria saúde, por qualquer motivo que seja, quem vai mal é o país.


As manchetes só mudaram quando o atestado foi exibido. E, ainda assim, muita gente — essa colunista y compris — continua não acreditando. Que valor tem um atestado em nome de Jair Messias Bolsonaro? Por que acreditar no atestado de um hospital que já aceitou fazer exames com nomes falsos? Em que circunstâncias foram feitos os exames anteriores? E em que circunstâncias foi feito o atual? Por que os resultados negativos foram ocultados por tanto tempo, e o resultado positivo foi exibido assim que saiu, com tanta festa?

Corta para o garoto-propaganda da cloroquina.

Acho que nunca antes na história deste país descemos tão baixo: um presidente da República fazendo o papel de charlatão oficial, apregoando uma droga equivocada, dando risada.

— Bem, estou aqui tomando a terceira dose da hidroxicloroquina. Tou me sentindo muito bem. Tava mais ou menos domingo, mal segunda-feira, hoje, terça, tou muito melhor do que sábado. Então, com toda a certeza, tá dando certo. Eu confio na hidroxicloroquina. E você?

Apesar do mal que ele já fez, apesar do mal que ele está fazendo e do mal que essa declaração ainda vai fazer, torço para que Bolsonaro se recupere.

Se ele estiver mesmo infectado, coisa na qual não acredito, como não acreditei antes que não estivesse, quero que tenha uma experiência Boris Johnson da doença: suficientemente didática para que saia do hospital convencido de que a Covid-19 não é apenas uma gripezinha, agradecendo aos médicos e enfermeiros pela sua vida e, sobretudo, tendo respeito pelo sofrimento e pela vida dos outros.

Torço para que fique bem e que mantenha o “histórico de atleta” para, um dia, responder pelos seus atos diante do Tribunal Internacional de Haia — o destino dos genocidas quando se faz Justiça no mundo.

Bolsonaro, fique em casa!

Caros brasileiros,

Bolsonaro esta com covid-19. E daí? Quando o presidente anunciou a infecção pelo vírus, tentou tranquilizar todo mundo: "Estou perfeitamente bem."

Se existe uma coisa da qual não se pode acusar o presidente é de falta de coerência. Com ou sem coronavírus, ele permanece o mesmo. Continua minimizando os efeitos da pandemia, mesmo depois de ser infectado.

É uma coerência impressionante, porém puramente negativa. É baseada na falta de tudo o que é importante para um bom governo: falta de responsabilidade, falta de empatia, falta de conhecimento, falta de sinceridade, falta de racionalidade, falta de educação, falta de tato, falta de atitude de estadista.

Essa coerência negativa é a marca registrada do governo Bolsonaro. E ela contribuiu definitivamente para a propagação da epidemia no Brasil. Mesmo com mais de 65 mil mortos pela covid-19, aposto aqui que Bolsonaro não vai mudar sua atitude.

Pelo contrário: ele vai continuar insistindo em uma narrativa de que está enfrentando o mal e a "histeria" em torno do combate à "gripezinha" – como ele se referiu à doença numa entrevista à Radio Bandeirantes em 16 de março deste ano.

"Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças políticas? Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder."

Essa "luta de poder" causou uma tragédia política e econômica no Brasil. Mas Bolsonaro deve ir até o fim. E seus apoiadores vão segui-lo. Pois a cegueira ideológica não permite outra saída.

Só um pequeno detalhe: Bolsonaro pode se dar o luxo de manter uma postura tão radical. Afinal, ele terá o melhor tratamento médico possível. Para ele, com certeza não vai faltar leito na UTI, nem médicos e enfermeiros.

Mas para milhões de brasileiros, inclusive muitos dos seguidores do presidente, a situação é bem diferente. O vírus continua matando numa velocidade assustadora. E ele ataca especialmente pessoas vulneráveis, sem plano de saúde, que correm um risco ainda maior de contaminação, pois não podem trabalhar em casa.

"E daí!?" Os familiares dos mais de 65 mil mortos por covid-19 com certeza não falariam uma frase dessas no enterro dos seus entes queridos. "A vida continua" para eles de um modo bem diferente daquele que Bolsonaro sugere.

Para Bolsonaro, "a vida continua" na coerência negativa. Com ou sem coronavírus, ele não tem mais como fugir do caminho rumo ao abismo. Pois até o final do mandato não terá tempo suficiente para corrigir suas inúmeras decisões erradas e pedir perdão pelos inúmeros insultos e ofensas proferidos.

Para o Brasil, chegou a hora de decidir se o país vai continuar caminhando rumo ao abismo ao lado de seu presidente doente. Eu ficaria feliz se o presidente seguisse os conselhos dos seus médicos e ficasse em casa. Melhoras!
Astrid Prange de Oliveira

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Pensamento do Dia


Receita do Dr. Bolsonaro

Subitamente diagnosticado com a Covid-19, Jair Bolsonaro convocou seus veículos de confiança e ofereceu um reconfortante relatório sobre sua saúde. “Estou perfeitamente bem!”, declarou, e atribuiu essa esplêndida condição à hidroxicloroquina, remédio indicado para malária. Pena que não possamos compartilhar sua euforia. Ao fazer um apanhado de quem deve ou não se preocupar com o vírus, foi tão categórico quanto fatalista: “É uma chuva, você vai pegar”.

É alarmante. A caminho dos primeiros 2 milhões de infectados e 100 mil óbitos nas próximas semanas, só podemos imaginar quantos brasileiros ainda tomarão essa chuva —e quantos irão encharcados para a cova.


É verdade que Bolsonaro tem trabalhado para que esses milhões sejam contaminados o quanto antes. Nas inúmeras aglomerações de que participou, sem máscara e nos braços de seus apoiadores, as imagens o mostram tirando ramela, cavoucando o nariz, disparando perdigotos e os levando em troca. Só mesmo seu histórico de atleta —exímio praticante de tiro ao alvo no Exército— explica que não tenha sido afetado antes, embora talvez não se possa dizer o mesmo dos festivos participantes de seus forrobodós.

O Dr. Bolsonaro não vacila em suas afirmações. Segundo ele, os jovens podem ficar tranquilos —mesmo que peguem o coronavírus, “a possibilidade de algo grave é próxima de zero”. Tal imunidade parece se estender também aos religiosos, presidiários, estudantes, comerciários e demais categorias que ele liberou do uso de máscara. Já os mais velhos, sim, devem se cuidar, principalmente se apresentarem “comorbidades”. Como esses coroas insistem em ser acometidos por “comorbidades”, podem ir botando suas barbas —brancas— de molho.

Já Bolsonaro está tranquilo. Se precisar, não lhe faltarão UTIs, respiradores e cânulas para intubação. E, enquanto isso, ninguém lhe perguntará pelo Queiroz.
Ruy Castro 

Escracho nacional



A política é constituída por homens sem ideais e sem grandeza
Albert Camus

Por que quero que Bolsonaro morra

Jair Bolsonaro está com Covid-19. Torço para que o quadro se agrave e ele morra. Nada pessoal.

Como já escrevi aqui a propósito desse mesmo tema, embora ensinamentos religiosos e éticas deontológicas preconizem que não devemos desejar mal ao próximo, aqueles que abraçam éticas consequencialistas não estão tão amarrados pela moral tradicional. É que, no consequencialismo, ações são valoradas pelos resultados que produzem. O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior.

A vida de Bolsonaro, como a de qualquer indivíduo, tem valor e sua perda seria lamentável. Mas, como no consequencialismo todas as vidas valem rigorosamente o mesmo, a morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas. Estamos?


No plano mais imediato, a ausência de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la. Isso salvaria vidas? A crer num estudo de pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP, cada fala negacionista do presidente se faz seguir de quedas nas taxas de isolamento e de aumentos nos óbitos. Detalhe irônico: são justamente os eleitores do presidente a população mais afetada.

Bônus políticos não contabilizáveis em cadáveres incluem o fim (ou ao menos a redução) das tensões institucionais e de tentativas de esvaziamento de políticas ambientais, culturais, científicas etc.

Numa chave um pouco mais especulativa, dá para argumentar que a morte, por Covid-19, do mais destacado líder mundial a negar a gravidade da pandemia serviria como um “cautionary tale” de alcance global. Ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta. Bolsonaro prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida.

Menor que a cadeira

O anúncio de que o presidente Bolsonaro foi infectado pela Covid-19 traz em si mesmo diversas facetas dele: irresponsabilidade, falta de compaixão, negação da gravidade da pandemia, desdém indicando falta de entendimento do que seja a presidência do Brasil.


Não apenas aproveitou a ocasião para reafirmar a indicação de cloroquina e seus derivados para tratamento da doença, como fez um vídeo em tom amolecado tomando o remédio e sugerindo-o para a população que precisar. Parecia um verdadeiro garoto propaganda do remédio, cuja fabricação obrigou o Laboratório do Exército a aumentar, além dos milhões de comprimidos que recebeu como “doação” dos Estados Unidos depois que o FDA proibiu sua utilização.

A gravidade do comportamento é que o uso da cloroquina já foi desaconselhado por estudos de diversos países, e organismos com credibilidade como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Federal Drug Administration (FDA), agência regulatória americana, o hospital Albert Einstein em São Paulo, o Instituto do Cérebro no Rio.

Todos suspenderam o uso da cloroquina para tratamento da Covid-19 depois de demonstrado que, além de não ser eficaz no combate ao novo coronavírus, a cloroquina pode causar efeitos colaterais graves, como arritmia cardíaca.

A irresponsabilidade marcou também o anúncio de que havia testado positivo para Covid-19. Embora estivesse de máscara a maior parte do tempo, o presidente tocou o microfone das televisões escolhidas para ouvir seu anúncio, aproximou-se dos repórteres e tirou a máscara em determinado momento.

Voltou a mostrar falta de empatia e desinformação ao afirmar que a Covid-19 “é como a chuva, vai molhar todo mundo”. A inevitabilidade da morte, sempre lembrada por Bolsonaro diante da tragédia humanitária que o país enfrenta, não significa que ela não deva ser retardada o mais possível, através de uma vida saudável e dos meios de atendimento à população mais carente.

Desde o início da pandemia o presidente Bolsonaro tentou mostrar-se inatingível pelo vírus, expôs-se e expôs seus admiradores ao contágio até mesmo na segunda-feira, quando voltava dos exames já com os primeiros sintomas. Bolsonaro foi conversar com o pequeno grupo que o esperava no Alvorada, quando deveria ter passado direto para não correr o risco de contaminar alguém.

Mesmo quando anunciou que está infectado, Bolsonaro não poderia tê-lo feito de forma presencial. Bastaria um comunicado oficial do Palácio do Planalto ou, se quisesse comunicar pessoalmente o fato, poderia ter usado as lives tão famosas que faz.

Seu “amigo” Donald Trump usou o caso como exemplo “do que está acontecendo” no Brasil. A doença de Bolsonaro traz também mais esse estrago político, reafirmando a situação descontrolada da pandemia entre nós. Sem ministro da Saúde, o país vai cavando sua própria cova como o que tem mais mortos por dia, e caminha resoluto para ter o maior número total de mortos.

Os brasileiros já estão proibidos de viajar não apenas para a Europa e os Estados Unidos, mas também para alguns de nossos vizinhos sul-americanos. Trump nos Estados Unidos deu uma recuada estratégica quando viu o tamanho da tragédia, embora continue não usando máscara e tenha anunciado que estava tomando cloroquina como preventivo. Boris Johnson, na Inglaterra, teve uma atuação de estadista, depois de menosprezar os riscos e sair às ruas abraçando e cumprimentando seus simpatizantes, como um Bolsonaro descabelado.

Apanhado pelo vírus, esteve quase à morte e, ao retornar são e salvo ao dia a dia de primeiro-ministro de um país que enfrenta uma crise sanitária sem precedentes, caiu em si e pediu desculpas por ter desprezado os riscos.

O momento seria uma oportunidade de ouro para Bolsonaro se redimir de sua atuação pífia diante da pandemia, e unir os brasileiros nessa guerra que ainda está longe de terminar. Mas ele não tem esse tamanho, é menor que a cadeira de presidente da República.

Bolsonarice contagiosa

A notícia de que Jair Bolsonaro, depois de tanto desafiar as regras de bom senso em uma pandemia, foi contaminado pelo novo coronavírus deflagrou um outro surto: a ira irracional daqueles que colocam adesivos antifascistas em seus perfis nas redes sociais e passaram a desejar a morte do presidente da República.

A onda não ficou restrita à internet. Chegou a colunas de jornais, travestida de exercício filosófico-linguístico, mas cujo único resultado prático é vitimizar o presidente que até agora destilou sua falta completa de empatia diante da tragédia. Perde a imprensa, perde o País, perdemos todos nós, que nos desumanizamos a cada dia, sem perceber que, aos poucos, nos transformamos naquilo que mais desprezamos.



Bolsonaro não ganhou apenas corações e mentes dos minions que os segue nas portas dos palácios e em posts ensandecidos. O presidente conseguiu comprometer o fígado e o cérebro de parte daqueles que o criticam, num jogo que apenas rebaixa todos ao seu patamar e permite que ele ganhe espaço, porque no lodaçal é imbatível.



Não há nada que justifique que democratas, pessoas e instituições se ponham a “torcer” pela morte desse ou daquele. Muito menos as indignidades de Bolsonaro, uma vez que é justamente contra elas que se conclama a união de esforços daqueles que prezam a vida, a ciência, a educação, a cultura e a civilidade.

Sim, o presidente colhe de volta a absoluta falta de compaixão que cuspiu na cara de um país estarrecido ao longo dos últimos cinco meses. Andou a cavalo, passeou de jet ski, subiu em boleia de caminhão, assoou o nariz e cumprimentou velhinhos em seguida, receitou cloroquina sem ser médico, mandou invadirem hospitais, chegou ao cúmulo de vetar o uso de máscaras e passeou por aí já infectado, possivelmente transmitindo coronavírus para os poucos com os quais diz se importar.

Diante de tanta atrocidade, merece morrer? Não. Porque esse pensamento nos prende à barbárie que o presidente, sua família e seu núcleo insano tratam de cultivar desde antes mesmo da campanha, como terreno fértil para permitir a supressão da razão, único ambiente em que alguém tão virulento pode ser eleito presidente da República.


Aqueles que são de fato a antítese de Bolsonaro só têm um caminho: torcer pela medicina, pela ciência e pela sua cura. E para que ele responda diante dos órgãos competentes pelos crimes de responsabilidade que cometeu e diante dos eleitores pelas vezes em que brincou com a vida como um déspota de quinta categoria.

O oposto de Bolsonaro não é a hashtag “força, corona”. Essa é sua consagração, seu triunfo, o caminho para sua perpetuação.


Construir de forma inteligente e lúcida o caminho para que nos curemos de Bolsonaro significa mostrar com dados e evidências o quanto seu comportamento colocou em risco não apenas a si mesmo e seus familiares, mas um país inteiro.

Como sob a falácia de salvar a economia acabou condenando vidas e boicotando qualquer chance de minimizar o estrago econômico.

É acompanhar seu tratamento e repetir aos incautos que não, cloroquina não tem efeito preventivo nem curativo comprovado. E que um presidente da República virar mascate de remédio e impor a um ministério sem ministro há quase dois meses que enfie esse remédio goela abaixo da população é mais um dado que o inabilita para exercer o cargo que exerce.


A morte de Bolsonaro em nada contribuiria para que o Brasil tivesse alta de sua doença crônica e generalizada, em que a política virou uma peste e que, ao se curar de um vírus, você automaticamente cai acamado por outro ainda mais letal. A vacina para isso se chama democracia, já está disponível e permite a imunidade a esse comportamento de rebanho que nos desumaniza.

Isolado do mundo

No dia 24 de setembro 2019, Jair Bolsonaro desperdiçou uma oportunidade de ouro para se colocar em sintonia com o concerto das nações civilizadas. Estava no primeiro ano do seu mandato e abriria a Assembleia Geral da ONU, uma tradição que vem desde os tempos de Osvaldo Aranha. Havia enorme expectativa diante de seu discurso em virtude da divulgação de números que apontavam o avanço do desmatamento da Amazônia, fruto de atividades ilegais e das queimadas.

Em vez de pregar o diálogo e mostrar compromissos com a sustentabilidade, a peça oratória de Bolsonaro investiu no anátema. Parecia que estava congelado no tempo, refém da polarização da era da guerra fria. Como um Dom Quixote da ultradireita mundial, combateu os moinhos de vento do comunismo e do multilaterismo.

Crente de que a melhor defesa seria o ataque, agrediu países como a Alemanha, Noruega e França, acusando-as de agir por protecionismo de suas produções agrícolas e de serem uma ameaça à nossa soberania nacional. As ONGs seriam os agentes desses interesses escusos. Assim, as queimadas foram vendidas como coisa da natureza e o governo como modelo na defesa do meio ambiente.

O discurso foi um marco na condição de pária à qual o Brasil passou a ser tratado.

Nove meses depois, a fatura apareceu. Fundos investidores que controlam ativos da ordem de 4 trilhões de dólares ameaçam excluir o Brasil de sua carteira de investimentos se o governo não tomar medidas concretas contra a devastação da Amazônia e de defesa dos direitos indígenas.

O governo sentiu o golpe. Mas sua reação é a de um boxeador nocauteado, sem saber como sair do canto do ringue. O vice, Hamilton Mourão, coordenador do Conselho Nacional da Amazônia, viu nas preocupações dos fundos de investimentos interesses protecionistas de outros países. Repetiu os chavões do discurso do presidente na ONU.

Já o ministro Paulo Guedes atribui a imagem negativa do Brasil a maus brasileiros. Mutatis mutantis, é o mesmo discurso da época da ditadura militar, quando se atribuía a quem denunciava no exterior as torturas a responsabilidade sobre a péssima imagem do Brasil.

A Amazônia é um tema que desperta teorias conspiratórias no governo. A começar pelo presidente. A paranoia da ameaça externa leva os militares a defenderem a ocupação da Amazônia a qualquer preço, mesmo que esse preço seja a degradação do meio ambiente e a violação dos direitos indígenas.

É uma herança dos anos 70, quando o slogan do governo Médici era integrar para não entregar.

Essa integração deu na Transamazônica, na colonização fracassada e em Serra Pelada. Também na exploração irracional da madeira, na pecuária devastadora. Em relação aos índios, foi a própria negação dos valores do Marechal Rondon, para quem a integração deveria se dar de forma voluntária e pacífica, respeitando-se o modo de vida e os valores dos nativos.

O governo está inteiramente equivocado na sua compreensão de que a reação dos fundos de investimentos e dos países desenvolvidos é fruto da “desinformação”. Ela decorre de mudanças substantivas na forma como o capitalismo se estrutura nos tempos atuais.


As empresas se organizam cada vez mais como um capitalismo de partes interessadas, dentro do conceito que elas não se compõem apenas de acionistas, mas também de funcionários, consumidores e fornecedores. De acordo com os novos conceitos, elas tem responsabilidades sociais e ambientais, daí suas preocupações com a Amazônia e os povos indígenas.

O modelo predatório vai inteiramente na contramão das tendências do capitalismo moderno. Não apenas internacionalmente, mas também internamente. Quarenta grandes empresas brasileiras acabam de encaminhar ao vice-presidente Mourão manifesto com as mesmas preocupações dos fundos investidores e onde enfatizam que “é necessário adotar rigorosa fiscalização de irregularidades e crimes ambientais na Amazônia e demais biomas brasileiros”.

O moderno agronegócio brasileiro tem se desenvolvido principalmente pelo incremento da produtividade e não pela expansão da fronteira agrícola. A frase da ministra da Agricultura, Teresa Cristina, de que o agronegócio não precisa da Amazônia para crescer, é autoexplicativa.

O problema é que o governo Bolsonaro é a negação de tudo isso. Em matéria de relações externas, de política ambiental, de modelo de exploração da Amazônia e, para acrescentar, em relação à pandemia. Não só nos condena ao isolamento no cenário internacional como age contra os interesses nacionais ao prejudicar nossas exportações.

O Brasil não sairá da condição de pária apenas trocando nomes, embora a substituição de Ernesto Araújo, no Ministério do Exterior, e de Ricardo Salles, no Meio Ambiente, seja condição necessária para romper o isolamento. Não basta mudar para tudo continuar como está. É preciso uma nova atitude e um novo modelo pautado na exploração sustentável e na cooperação. Isso contraria a alma de um presidente que ainda não se livrou dos fantasmas da guerra fria.

Brasil visto de fora


Também sou brasileiro

As noites de quarentena são marcadas por sonhos. Quem conta com eles para melhor se conhecer, acorda tentando recompor lances, faces, atmosfera, interpretando, enfim.

Esse esforço ontológico se amplia no café da manhã, aurora da dura realidade cotidiana: não importa quem eu seja, também sou brasileiro.

Os jornais dizem que brasileiros não podem entrar nos Estados Unidos. Não podem entrar na Europa. Em tempos de pandemia, isto significa que não soubemos cuidar da vida. Dizem também os jornais que 29 fundos de pensão ameaçam não investir no Brasil enquanto continuar o processo de devastação da Amazônia. Isto quer dizer que não cuidamos dos nossos recursos naturais, não nos importamos com a vida dos índios, das plantas e dos bichos.



Paulo Guedes disse que nossa imagem negativa é produzida pela ação de alguns brasileiros. Esqueceu-se de um deles, Jair Bolsonaro. A visão de mundo de Bolsonaro, sua política ambiental e seu desprezo pela gravidade da pandemia são alguns dos fatores que arrasaram nosso prestígio no exterior.


O Brasil sempre exalou vida, alegria, música exuberante e talentosos intérpretes. O próprio Guedes e Bolsonaro participaram de um espetáculo devastador para nossa imagem: uma live em que é tocada no acordeom a “Ave Maria” de Schubert.

Isso correu mundo. Em Portugal, foi tema de debate num programa de TV. Um dos debatedores, consternado com a qualidade do espetáculo, disse: qualquer brasileiro com mais de cem de QI deve estar envergonhado. A hipocrisia da homenagem aos mortos na pandemia, a qualidade do intérprete, a própria live, eram uma visão rastaquera do Brasil.

Não trabalho com critérios de QI, nem conheço bem as diferenças entre seus números. Imagino que Paulo Guedes, a julgar pela admiração da elite brasileira, tenha um dos índices mais elevados.

A impressão que tive dele na reunião de 22 de abril não é boa. Não tanto por se inspirar num ministro da Economia nazista, nem por propor trabalhos militarizados para os jovens. O que me chamou a atenção foi ouvi-lo dizer que leu oito livros para cada uma das experiências de reconstrução alemã.

Nelson Rodrigues, quando alguém argumentava com números e frações, 50,2, por exemplo, perguntava: para que os quebrados? No meu caso, perguntei a mim mesmo, por que uma simetria tão rigorosa de leitura? Não seria algo para impressionar a maioria de iletrados em torno da mesa?

Paulo Guedes está enganado. Estamos tentando segurar a onda dessa grotesca vulgaridade do governo brasileiro. Quando se faz o movimento Stop Bolsonaro lá fora é para mostrar que nem todos os brasileiros compartilham essas ideias retrógradas.

Paulo Guedes apontou para nos representar no Banco Mundial um homem que diz odiar a expressão “povos indígenas”. Essas duas participações, uma no campo da estética, outra, no da economia, são suficientes para que se olhe no espelho e pergunte: serão mesmo os outros brasileiros que comprometem nossa imagem no exterior?

Os liberais brasileiros têm uma longa relação com o autoritarismo. Alguns de alto nível, como Milton Campos e Pedro Aleixo, tentaram ser discretos no seu escorregão histórico.

Os liberais na economia parecem topar tudo por seu projeto. Assim como os estatizantes também topam. Se dependêssemos do radicalismo dos primeiros, estávamos sem um instrumento essencial nessa crise: o SUS. Se dependêssemos dos estatizantes radicais, não teríamos privatizado as telecomunicações e nem amenizado o impacto da pandemia.

Guedes, Bolsonaro e os militares precisam saber que também somos brasileiros e que grande parte de nosso poder depende da arte, da diplomacia da paz, de uma respeitada legislação ambiental.

Eles demoliram nosso soft power para colocar no seu lugar essa caricatura de imagem que se transforma em piada nos programas de TV em Portugal, em irritação no norte da Europa.

Eles riscaram o Brasil do mapa mundial. Deveriam ter a lucidez de renunciar e deixar que o recoloquemos. Não é só uma questão narcisística de imagem: é de nossa sobrevivência que se trata.

Já não podemos sair, os capitais dos fundos de pensão não querem entrar, daqui a pouco boicotam nossos produtos no exterior. Por que não se reúnem na intimidade para ouvir o presidente da Embratur tocar a “Ave Maria”? Há espaço para tudo aqui dentro. Mas nem tudo representa o Brasil.
Fernando Gabeira

'Superioridade' tabajara



Há em ser brasileiro o gozo de um benefício, uma vantagem, uma superioridade
Conde Afonso Celso, “Porque me ufano de Meu país”

Memórias da milícia

Se a longa história da palavra tivesse a duração de uma partida de futebol, só aos 43 minutos do segundo tempo "milícia" ganharia o sentido que inunda o noticiário policial e se infiltra no político.

Ao desembarcar no português do século 14, tinha a acepção que herdara do latim "militia": campanha de guerra, serviço militar. Logo surgiria uma distinção entre miliciano e militar, uma rusga no seio da família do patriarca latino "miles" (soldado).

A distinção era semântica e de classe. Formada por cidadãos informalmente armados, não por profissionais, às vezes nem dinheiro para comprar garruchas a milícia tinha. Ficava bem abaixo dos militares na pirâmide social.

Consta que o sentido de força auxiliar de segurança surgiu no século 17 no francês "milice": "tropa de cidadãos recrutados nas comunidades para reforçar o exército regular". Recrutados por quem?

Pelo Estado, claro. As milícias tiveram na Revolução Francesa e nas guerras de independência do Novo Mundo um viés libertário, mas o Estado sempre deu um jeito de se apropriar de seu ardor.

Preservada em formol, aquela rebeldia original sustenta o direito às armas consagrado na Segunda Emenda à Constituição americana --relíquia do tempo do mosquetão na era do AR-15.

Findos os tumultos de outrora, a história tendeu ao estabelecimento de Estados nacionais garantidores de ordem interna. É verdade que às vezes se dá o oposto, mas desde então, na maioria das ocasiões, o cidadão ocidental médio tem feito escolhas políticas que acredita capazes de lhe garantir paz para tocar a vida sem precisar matar uma mosca.

Assim, domesticadas no século 19 como guardas nacionais e forças auxiliares, as milícias tiveram em diversos países uma carreira oficial, ainda que subalterna. No caso brasileiro, o papel de polícia constava entre suas funções --na manutenção da "ordem pública" e na captura de escravos fugidos, por exemplo.

Quando, em 1918, o sociólogo Max Weber definiu o Estado como o detentor do monopólio da violência, as milícias já vinham sendo descartadas como elementos de política de segurança em todo o mundo.

Transmutaram-se em burocráticas forças policiais, do lado civil, ou foram extintas, do lado militar. Se a Segunda Emenda preserva o espírito miliciano setecentista, seu colega brasileiro do século 19 mora no título do clássico "Memórias de um Sargento de Milícias" (1854), de Manuel Antônio de Almeida.

Órfã do Estado, a milícia voltou no século 20 a velhas zonas de voluntarismo e ilegalidade. Às vezes em sentido figurado, passou a designar grupos de militantes de causas variadas.

Essa é a história geral. A milícia brasileira do século 21 é diferente, específica. Diz o dicionário "Houaiss": "grupo armado de pessoas, geralmente com formação militar, paramilitar ou policial, que atua à margem da lei em algumas comunidades carentes, pretensamente para combater o crime".

O dicionário informa ainda que a acepção surgiu em torno de 2007 (há registro dela dois anos antes em reportagem de "O Globo") e que se trata de um uso carioca (hoje nacionalizado).

Como a diferença faz fronteira com a semelhança, as milícias de hoje ecoam as de antigamente na função de polícia, na opressão aos descendentes daqueles mesmos escravos e no apoio discreto --ou nem tanto-- recebido de um Estado degradado que acha boa ideia abrir franquias daquilo que, como ensinou Weber, é sua própria razão de ser.

A era do ‘vale-tudo’ nas redes sociais está acabando

Nos últimos dias houve novidades impactantes para o futuro das redes sociais. Nenhuma decisão por si só é brutalmente inovadora. Mas seu fluxo incessante indica o caminho que as redes adotaram: o discurso de ódio não é permitido e a linha vermelha ficará cada vez mais clara. A guerra sobre onde está o limite marcará o futuro da Internet.
Em ordem de importância, as decisões foram estas quatro: primeiro, o Twitch removeu temporariamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de sua plataforma. O Twitch é uma rede de transmissões ao vivo dedicadas principalmente a videogames. Mas seu crescimento é contínuo e os streamings são cada vez mais variados. O conteúdo que aparentemente provocou a suspensão temporária de Trump é um streaming de um comício dele em 2015, no qual dizia que o México estava enviando estupradores para os Estados Unidos, além de outros comentários racistas em um recente comício em Tulsa, Oklahoma.


O Twitch parece que passou a levar a sério as repetidas acusações de mulheres de que permite o assédio em sua plataforma. A importância primordial da decisão do Twitch é que cancelou a voz do presidente dos Estados Unidos. Outras redes sempre optam por mantê-lo, com a desculpa do discurso político e de sua importância informativa, na melhor das hipóteses chamando a atenção com avisos ao lado de suas mensagens. O Twitch, de propriedade de Jeff Bezos, com quem Donald Trump tem uma relação complicada, foi um passo além.

A decisão do Twitch se soma à do Snapchat no início de junho, quando decidiu deixar a conta de Trump intacta, mas não a destacar mais em sua página principal, para impedir que seus comentários promovam violência.

O segundo é o Reddit, que removeu mais de 2.000 comunidades de sua plataforma por promoverem discurso de ódio. O motivo foi a atualização de suas políticas: “A regra 1 estabelece explicitamente que as comunidades e os usuários que promoverem o ódio baseado em identidade ou em vulnerabilidade serão suprimidos”. O Reddit é uma rede social estruturada em torno de milhares de comunidades de interesse às quais os usuários se unem ―de questões políticas a peculiaridades como bricolagem, culinária ou arquitetura― e que têm seus próprios moderadores voluntários.

Desde a sua criação, em 2005, o Reddit se caracterizava como um dos fóruns mais transgressivos da Internet. Isso acabou. O Reddit agora baniu canais que violam sua nova norma de ódio, de todas as ideologias, mas um se destaca: r/The_Donald. Chama-se assim por seu apoio ao presidente. O Reddit tentou, durante anos, sem sucesso, fazer com que os moderadores do r/The_Donald restringissem os posts ao que é permitido. As punições e sanções da empresa contra a comunidade fizeram com que os usuários mais ativos migrassem para um fórum próprio: TheDonald(.)win.

Terceiro, o Facebook designou o movimento Boogaloo como uma “organização perigosa”, o que resulta em ações contra seus promotores. A empresa excluiu 220 contas do Facebook, 95 contas do Instagram, 28 páginas do Facebook e 106 grupos, além de outros 400 grupos e 100 páginas vinculadas.

O Boogaloo é uma dessas coisas impossíveis que não existiriam sem a Internet. O nome vem de um filme dos anos 80 e era usado em fóruns remotos como 4chan e 8chan. Seus membros são aparentemente filiados à tradição de milícias armadas nos Estados Unidos e sua suposta intenção é provocar uma segunda guerra civil nos Estados Unidos. No final de maio, um extremista que dizia pertencer ao grupo matou um policial em Oakland, Califórnia. Seu local preferido de coordenação era supostamente o Facebook.

Parece natural para o Facebook perseguir grupos que usam sua plataforma para matar policiais, mas o Boogaloo é um desafio em si mesmo. Seu esquema de organização consiste em usar outros nomes como referência, dissimular suas opiniões e enganar a rede. O esforço que o Facebook deverá dedicar à caça de grupos organizados para combater ferramentas de inteligência artificial que eles adotam será enorme e uma novidade.

Quarto, o YouTube fechou alguns canais que considerava racistas. De novo, não é a primeira vez. Mas seus tentáculos se expandem. Um dos canais é de Stefan Molyneux, que lamentou no Twitter a “censura” imposta pela plataforma. Para gente como ele, o desaparecimento do YouTube pode causar problemas de subsistência. A possibilidade de crescimento que o YouTube lhe dava é difícil de encontrar em outro lugar. Molyneux tentou o Twitch, com pouco sucesso. A personalidade e os usuários de cada rede são únicos.
A Internet não é mais a mesma

Estas medidas são importantes por vários motivos, mas há um mais do que evidente: a Internet não é mais o espaço livre e aberto onde todos nós nos conectamos com todos, sem que ninguém intervenha. Isso pode continuar a ser feito, é claro: na maioria dos países, ninguém impede a abertura de um site nem que se conte a barbaridade que se desejar, desde que isso não seja um crime. O problema será como ficar conhecido, disseminar e propagandear esse conteúdo.

As principais plataformas são aquelas onde as pessoas estão. Um grupo de fanáticos poderá continuar criando seu fórum supremacista na Internet, mas como recrutarão novos usuários? Onde encontrarão milhões de almas cândidas dispostas a rir de seus memes agressivos? O r/The_Donald se beneficiava da página inicial do Reddit ―”a capa da Internet”― que milhões de pessoas acessavam para ver o que estava acontecendo, qual era a tendência. Ali, as piadas poderiam atrair a atenção de usuários que acabariam entrando no r/The Donald para ver o que mais havia. Agora, The_Donald é um site na Internet. Lá podem conversar, rir e se organizar, até crescer, mas devagar. Eles não têm mais um lugar fácil para recrutar adeptos.

O pesquisador Savvas Zannettou, do Instituto Max Planck, de Berlim, analisou a influência na conversa na Internet do antigo canal r/The_Donald no Reddit. Era impactante. Agora ele se empenha em analisar como o fim de sua relação com o Reddit repercutiu no peso desse grupo. A investigação não está terminada, mas ele é cético: "Nossos resultados preliminares mostram que apenas uma fração dos usuários ativos no r/The_Donald migrou para a nova casa, mas esses usuários estão mais ativos agora do que quando estavam no Reddit", explica. Embora o trabalho não esteja concluído, a intuição de Zannettou indica que seu peso caiu. "Suspeito que a influência da nova casa será substancialmente menor em comparação com a anterior, pois agora eles têm plataforma/fórum próprios e não podem facilmente alcançar o grande número de usuários que passavam pelo Reddit", acrescenta.

O nervosismo do ano eleitoral nos EUA, a pressão desencadeada pelo movimento Black Lives Matter e as evidências, com a pandemia, de que as informações que circulam nas redes têm consequências reais facilitaram a absorção dessas decisões. Mas é uma tendência que parece clara há anos. O fundador e CEO do Reddit, Steve Huffman, refletiu no The New York Times sobre sua mudança de opinião: “Quando começamos o Reddit, há 15 anos, não proibíamos coisas. E era fácil, como para muitas outras pessoas, dizer coisas assim porque, primeiro, eu tinha crenças políticas muito mais rígidas, e segundo, me faltava perspectiva e experiência do mundo real”, diz ele. A tradução é simples: os fundadores dessas redes não são mais tão jovens e viram que as consequências de permitir tudo são extraordinárias.

Mas Huffman prossegue: “Aqui estamos agora, acreditando que a liberdade de expressão é muito importante e que é uma das coisas que torna o Reddit especial, mas, ao mesmo tempo, vendo que permitir tudo é trabalhar contra a nossa missão”. Até agora, a linha vermelha do que as redes permitiam era feita de tinta borrada e desgastada, mas, com o tempo, está se tornando um muro sólido para deixar de fora o que acreditam ser ódio, assédio e violência. Parece uma decisão lógica e fácil, mas há tribunais que discutem os limites há décadas.
Jordi Pérez Colomé

Bolsonaro, fique em casa!

Caros brasileiros,

Bolsonaro esta com covid-19. E daí? Quando o presidente anunciou a infecção pelo vírus, tentou tranquilizar todo mundo: "Estou perfeitamente bem."

Se existe uma coisa da qual não se pode acusar o presidente é de falta de coerência. Com ou sem coronavírus, ele permanece o mesmo. Continua minimizando os efeitos da pandemia, mesmo depois de ser infectado.

É uma coerência impressionante, porém puramente negativa. É baseada na falta de tudo o que é importante para um bom governo: falta de responsabilidade, falta de empatia, falta de conhecimento, falta de sinceridade, falta de racionalidade, falta de educação, falta de tato, falta de atitude de estadista.

Essa coerência negativa é a marca registrada do governo Bolsonaro. E ela contribuiu definitivamente para a propagação da epidemia no Brasil. Mesmo com mais de 65 mil mortos pela covid-19, aposto aqui que Bolsonaro não vai mudar sua atitude.

Pelo contrário: ele vai continuar insistindo em uma narrativa de que está enfrentando o mal e a "histeria" em torno do combate à "gripezinha" – como ele se referiu à doença numa entrevista à Radio Bandeirantes em 16 de março deste ano.


"Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças políticas? Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder."

Essa "luta de poder" causou uma tragédia política e econômica no Brasil. Mas Bolsonaro deve ir até o fim. E seus apoiadores vão segui-lo. Pois a cegueira ideológica não permite outra saída.

Só um pequeno detalhe: Bolsonaro pode se dar o luxo de manter uma postura tão radical. Afinal, ele terá o melhor tratamento médico possível. Para ele, com certeza não vai faltar leito na UTI, nem médicos e enfermeiros.

Mas para milhões de brasileiros, inclusive muitos dos seguidores do presidente, a situação é bem diferente. O vírus continua matando numa velocidade assustadora. E ele ataca especialmente pessoas vulneráveis, sem plano de saúde, que correm um risco ainda maior de contaminação, pois não podem trabalhar em casa.

"E daí!?" Os familiares dos mais de 65 mil mortos por covid-19 com certeza não falariam uma frase dessas no enterro dos seus entes queridos. "A vida continua" para eles de um modo bem diferente daquele que Bolsonaro sugere.

Para Bolsonaro, "a vida continua" na coerência negativa. Com ou sem coronavírus, ele não tem mais como fugir do caminho rumo ao abismo. Pois até o final do mandato não terá tempo suficiente para corrigir suas inúmeras decisões erradas e pedir perdão pelos inúmeros insultos e ofensas proferidos.

Para o Brasil, chegou a hora de decidir se o país vai continuar caminhando rumo ao abismo ao lado de seu presidente doente. Eu ficaria feliz se o presidente seguisse os conselhos dos seus médicos e ficasse em casa. Melhoras!
Astrid Prange de Oliveira

quinta-feira, 2 de julho de 2020

A falta que faz uma boa direita

A Procuradoria-Geral da República, sob o comando de Augusto Aras, já não esconde nem disfarça: está em campanha para liquidar a Lava-Jato, o conjunto de forças-tarefas organizadas em Curitiba, São Paulo e Rio. O argumento, alinhado em documento do vice-procurador Humberto Jacques de Medeiros, não chega a dizer que essas forças são ilegais, mas é isso mesmo que se quer dizer. Ou seja, que a Lava-Jato se tornou uma espécie de monstro fora de controle da cúpula do Ministério Público Federal. E que não é mais eficiente.

Nenhum argumento resiste. Comecemos pela eficiência: em apenas seis anos, a operação instaurou 1,6 mil processos nas três instâncias do Judiciário, firmou 298 acordos de colaboração premiada, dos quais 183 homologados pelo Supremo Tribunal Federal. Aliás , há 71 inquéritos no STF oriundos da Lava-Jato, com 126 denunciados.

Esse combate à corrupção se fez com os métodos mais modernos do mundo — tanto que 12 países da América Latina montaram suas próprias operações com base em fatos apurados pela parte brasileira. Grandes empresas brasileiras, como a Odebrecht, levadas por Lula, espalharam a corrupção mundo afora. A Lava-Jato foi atrás e apanhou gente mundo afora. E trouxe de volta para o Brasil bilhões de reais que haviam sido roubados do contribuinte.

Eis o ponto. A Lava-Jato inovou na investigação, sempre coordenada, envolvendo Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal, Unidade de Inteligência Financeira, ex-Coaf, (que já conseguiram abafar) e outros órgãos. Utilizou instrumentos contemporâneos, como a delação premiada, e introduziu novas interpretações jurídicas. Tudo isso permitiu caracterizar e punir os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha entre governantes, políticos e empresários.



A operação não apanhou alguns casos de corrupção. O “direito penal de Curitiba” descobriu e apanhou um monstruoso assalto ao Estado que vinha sendo praticado há muitos e muitos anos. Lembra-se do “rouba, mas faz”?

O outro direito penal, o velho, o da corte brasiliense, simplesmente não viu nada disso. Onde o velho direito, chamado garantista, via “simples caixa dois”, uma simples infração eleitoral, o novo descobriu lavagem de dinheiro — movimento, aliás, que começou a mudança.

A confirmação das sentenças em todas as instâncias desmonta o argumento de que a Lava-Jato opera de forma ilegal. O velho direito — aqui incluídos advogados, magistrados, políticos e empresários acostumados a viver do dinheiro público — fez o possível para absolver Lula. O máximo que conseguiu foi tirá-lo da cadeia derrubando, de forma vergonhosa, a prisão em segunda instância.

Agora, o ataque à Lava-Jato é mais incisivo, pois parte de um governo que alardeava ter levado a Lava-Jato para Brasília, dando um superministério a Sergio Moro, para ampliar o combate à corrupção e à velha política.

Moro está fora, a velha política está de volta, o presidente, incapaz de governar, só pensa em se livrar (e os filhos) de um passado suspeito perto das milícias do Rio.

Já escrevi aqui que um dos problemas da política brasileira é a falta de uma boa direita. Quando a sociedade, de algum modo, se inclinava para uma agenda conservadora/liberal, deu Collor. Depois dos anos do PT, com um Lula moderado no primeiro mandato, antes de cair na ampliação do Estado —para dar cargo e dinheiro aos correligionários —, a sociedade de novo se inclinou para a direita. E deu o capitão do Rio das Pedras.

A agenda anticorrupção já era. A agenda de Paulo Guedes está funcionando só na cabeça de Paulo Guedes. Sim, a pandemia tornou necessário o aumento brutal do gasto público — aliás, feito com baixa eficiência — mas a questão é que não se vê a preparação para a volta da agenda reformista.

Saímos da velha e corrupta esquerda, do capitalismo de amigos, para cair em algo que nem se pode chamar de velha direita. É uma súcia.

Os sócios do vírus

A pandemia do coronavírus matou, em quatro meses, 60 mil brasileiros, o que deixa o país na condição de vice-campeão mundial em número de vítimas. No mesmo período, o Brasil acumulou mais de 28 milhões de desempregados e desalentados.

O vírus, no entanto, não fez apenas vítimas. Ao longo desse tempo, angariou também muitos sócios. Ninguém desejava a pandemia, mas há quem mais do que sobreviver, está a tirar vantagem dela. Na política e na economia, as desigualdades pregressas só se acentuam com as medidas governamentais.

A queda de juros, por exemplo, melhora a vida de todo mundo, mas beneficia muito mais a das grandes empresas que, em condições de emitir debêntures (dívidas) com taxas mais baixas do que aquelas que vigoravam antes da pandemia, se capitalizam não necessariamente para investir agora, mas para largar na frente quando a atividade voltar. Até porque da sucessão de reformas trabalhistas pré-pandemia às medidas provisórias mais recentes, as empresas puderam reduzir custos trabalhistas.

Mas não são apenas as medidas do governo que produzem sócios do coronavírus, mas a falta delas. O presidente Jair Bolsonaro se elegeu, em grande parte, não para mudar o Estado mas para dizimá-lo. A covid-19 mobilizou as atenções e facilitou a tarefa em áreas como o meio-ambiente, como tão bem traduziu Ricardo Salles na reunião ministerial de 22 de abril. Um mês depois, os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que o ministro escancarou a passagem da boiada, com um aumento de 55% no desmatamento no primeiro quadrimestre do ano em relação ao mesmo período de 2019.

Nas selvas urbanas da periferia a ausência de uma política de segurança pública também facilitou a sociedade entre o vírus e a letalidade policial. Com menos circulação de pessoas nas ruas, os policiais ganharam, finalmente, o ansiado excludente de ilicitude do bolsonarismo. O Rio teve o abril de maior letalidade policial dos últimos 18 anos. Em São Paulo, as mortes em conflitos com a presença de policiais cresceu mais de 50%. A pandemia facilitou o cumprimento do ideário bolsonarista "na dúvida, atire". Mas isso não impediu que o Centrão se valha da situação para pressionar por mais um cargo de primeiro escalão no governo, a Pasta da Segurança Pública.

Durante a pandemia, o bloco não apenas se acercou de órgãos cujos gastos têm impacto direto nas prefeituras, como FNDE e Funasa, como se aproximou do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, recentemente desfiliado do PSDB e titular de outro manancial de obras, e avançou para aumentar seu domínio sobre agências reguladoras.


Uma delas, a Agência de Vigilância Sanitária, é uma das maiores chanceladoras da carteirinha de sócios da pandemia. É sobre a Anvisa que os atravessadores de respiradores superfaturados fazem pressão contra o licenciamento de aparelhos baratos desenvolvidos nas universidades. É a agência também que chancela a licença para a comercialização, nas farmácias, de um dos embustes da pandemia, os testes rápidos. Tão caros quanto ineficientes, os testes fizeram a festa de algumas indústrias farmacêuticas, sócias da tragédia desde o apogeu da cloroquina.

Se as sessões remotas adotadas na pandemia permitiram a aprovação de projetos importantes para a sobrevivência de milhões de brasileiros, como o auxílio emergencial, tem também favorecido a concentração de poder nas mãos do Centrão. Em decisões cada vez mais monocráticas, os líderes decidem a pauta e controlam as votações remotas com possibilidades restritas de debate ou obstrução. Se o cerco dos milicianos sobre o presidente da República aumenta o cacife do bloco, é pela condução da pauta remota de votações que seus líderes exercem redobrado poder.

O repique da covid-19 no Distrito Federal já arrisca prolongar ainda mais o funcionamento remoto do Congresso. O governador Ibaneis Rocha, um dos primeiros a adotar medidas restritivas, liberou a cidadela do poder antes da hora e possibilitou um novo pico que hoje ocupa nove de cada 10 leitos de UTI privados. Ibaneis não se mostra disposto a arredar o pé para a abertura total do Distrito Federal no início de agosto, mas o repique pode impedir que o Congresso Nacional o faça.

Com a consultoria do ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, já se estudavam as medidas para o retorno, com a presença facultativa dos parlamentares do grupo de risco, medição de temperatura e sem confirmação digital do voto. O adiamento das sessões presenciais, porém, não prejudica o Centrão. Na verdade, até ajuda.

Com as sessões remotas, as comissões e os conselhos de ética da Câmara e do Senado não funcionam. Com isso, se contêm as pressões para que sejam analisadas as representações lá protocoladas contra Eduardo e Flávio Bolsonaro. Com o adiamento se evitaria que a retomada dos trabalhos no Supremo Tribunal Federal em agosto, tenha repercussão nas Casas. É depois do recesso que o STF deve mandar voltar para a primeira instância o processo que investiga a rachadinha no gabinete do ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Foi na casa de um dos expoentes do Centrão, o deputado e ex-ministro Marcos Pereira (Republicanos-SP), que representantes do bloco e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, receberam o senador Flávio Bolsonaro, o mais afável e mais encrencado dos filhos do presidente. Na versão de um dos participantes, a ideia era mostrar ao presidente da República que não havia predisposição, entre os comensais, contra seu primogênito. Só faltou Flávio Bolsonaro sair de lá com um cartão de visitas de cada um: “Guardiões de seu mandato”.

Até as eleições municipais é assim que pretendem se fazer valer. Até lá, além da prorrogação do auxílio emergencial, vão tratar de arrancar dos cofres públicos dinheiro suficiente para prefeitos e vereadores inundarem a campanha de cestas básicas. É pelo assistencialismo, outro acionista desta tragédia, que o Centrão pretende fazer a festa da situação.

Passadas as eleições, contados mortos, feridos e desempregados, terá chegado a hora de a assembleia de acionistas decidir se o presidente Jair Bolsonaro ainda deve se manter na condição de sócio majoritário desta pandemia.

Pensamento do Dia


Destruição ambiental eleva pressão externa contra Brasil

O cerco contra a destruição ambiental no Brasil está se fechando. O mais recente episódio, não o único nem o mais eloquente, foi a decisão do presidente da França, Emmanuel Macron, de protelar a aprovação do acordo da União Europeia com o Mercosul, e de impedir acertos com quem não respeitar o Acordo de Paris. No mesmo dia, 265 organizações civis da Europa e América Latina denunciaram o governo brasileiro por agressões ao ambiente e aos direitos humanos.

Depois de sua conduta execrável em relação ao maior desmatamento na Amazônia em dez anos, em 2019 (10,1 mil km2) e refutar os fatos, demitindo cientistas que os divulgaram, o governo Bolsonaro diminuiu sua exposição na área. Isso não significou que suas ações contra o ambiente cessaram, apenas que seguem agora em silêncio, tão longe dos olhos públicos quanto possível. A ideia de “passar a boiada” enquanto as atenções estiverem voltadas para a covid-19 explicita um programa de governo.

Salles, que teve sigilo bancário de seu escritório de advocacia quebrado em investigação por suposto enriquecimento ilícito enquanto foi secretário do governador Geraldo Alckmin, desestruturou os órgãos como ICMBio e Ibama, militarizou as direções regionais ou as entrega a neófitos, agora indicados pelo Centrão. Anteontem foi nomeado como superintendente do Ibama em Santa Catarina, um administrador de empresas que desde 2014 está com bens bloqueados pela Justiça devido a ação pública por improbidade administrativa pelo Ministério Público (O Estado de S. Paulo, 1-7).


Os holofotes foram deslocados para o vice-presidente Hamilton Mourão, que chefia desde abril um Conselho da Amazônia composto por 19 militares, sem membros do Ibama e da Funai. Mourão recorreu à Garantia da Lei e da Ordem para realizar algumas incursões contra o desmatamento na região, com os órgãos ligados ao ambiente subordinados ao comando militar. As impressões de fiscais que participaram das primeiras ações são negativas e não afastam a impressão de que seriam “para inglês ver”.

Outras ações destrutivas seguem o curso parlamentar, como o projeto que permite a mineração em terras indígenas e o lamentável projeto de regularização de terras, batizada de MP da grilagem. A MP caiu, tornou-se projeto de lei e tramita no Congresso, sem perspectiva de que os interesses de preservação ambiental sejam respeitados.

Enquanto isso, o desmatamento na Amazônia Legal não dá tréguas. Dados preliminares apontam que o recorde de 2019 pode ser igualado ou superado. No ano até maio foram emitidos alertas de desmate envolvendo 2.032 km2, um crescimento de 34,5% sobre igual período de 2019.

A mensagem dada de várias formas por Salles e pelo presidente Jair Bolsonaro, de que não se oporão a atividades de exploração nocivas ao ambiente, foi entendida por garimpeiros, grileiros e empresários inescrupulosos, e estimularam o desmatamento. Ele está espalhado por todos os biomas. Medido pelos avisos de desmate do sistema Deter, neste ano até junho, o Cerrado é a região mais atingida (34,1%), à frente da Amazônia (32,1%). Em ambos, o Mato Grosso se aproxima rapidamente do Pará na liderança da motosserra.

O presidente Jair Bolsonaro disse que a pressão externa se deve à “desinformação”. A blague faz pouco da tendência global por maior rigor na regulação ambiental sobre comércio e investimentos, que pode seguir um atalho com a pandemia. Esse consenso que se forma, por motivos legítimos, favorece disfarces protecionistas, como os da França. Macron deu declarações duras após perder eleições em algumas das principais cidades francesas para os verdes, em ascensão em toda a Europa. Merkel, cujo governo está na vanguarda do combate ao aquecimento global, assumiu ontem a presidência rotativa da UE.

O plano verde da Comissão Europeia caminha para impor compensações tarifárias sobre países que desrespeitam esforços para redução de emissões de carbono. Carta enviada a 8 embaixadas brasileiras por fundos que administram US$ 4 trilhões em ativos afirma que as atitudes do governo em relação ao ambiente “elevam os riscos de reputação, operacionais e regulatórios de seus clientes”. Parlamentos da Holanda e Áustria alegaram o desastre ambiental para rejeitar o acordo com o Mercosul. Uma vitória democrata, expelindo Donald Trump do poder dos EUA, trará mais um poderoso foco de atrito com o Brasil. Por inúmeros motivos, seria importante começar, ainda que tarde, a fazer a coisa certa.

Sem prazo de validade

Não temos um aprendizado com o que está acontecendo. O isolamento vai e volta, mas não vejo ninguém explicando por que deu certo ou errado.
 
A discussão do lockdown é pobre, cada vez mais difícil de conseguir. A reação é cada vez mais difícil. Todo mundo deveria tentar criar um programa único (de medidas de distanciamento) e recomeçar do zero. Essa situação da pandemia não tem hora para acabar
Nelson Teich,. ex-ministro da Saúde